MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/05/2010

SIMONE DE BEAUVOIR


SIMONE DE BEAUVOIR (1908-1986)

simone-de-beauvoir

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de janeiro de 2008)

Num dos seus belíssimos livros autobiográficos, A força das coisas (1963), Simone de Beauvoir esclarece o que pede a uma obra literária: “a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, e que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

Janeiro quase vai indo embora e não é possível deixar em branco o centenário do nascimento (dia 9) de uma autora cujos textos me proporcionaram exatamente o que as palavras citadas descrevem. Infelizmente, quando ela não é reduzida a um satélite girando em torno do planeta Sartre, parece que só escreveu de importante O segundo sexo (1949), ou, quando muito, Os mandarins (1954). No entanto, sua obra é multifacetada, apaixonante e complexa, para além desses dois grandes títulos.

Exigente, ela mesma afirmou que “rabiscou” muito papel na década de 30, sem produzir nada satisfatório, tendo como óbice o espiritualismo católico que marcou sua infância e adolescência (antes de conhecer Sartre e seus camaradas), e principiando um processo em que a força das coisas destronaria o amor pelo absoluto e a busca obsessiva pela felicidade, núcleos do seu projeto pessoal (como ela narraria mais tarde em Memórias de uma moça bem comportada, de 1958, e A força da idade, de 1960; este último, o qual, caso interesse a alguém, é um dos meus livros prediletos, seria mais fielmente traduzido como “Na força da idade”).

a força das coisas

Curiosamente, no final da vida, ela permitiu a publicação de algumas dessas primeiras tentativas, novelas ligadas entre si, sob o título de Quando o Espiritual domina, e elas não se revelaram nem um pouco canhestras. Se aparecessem na época, contudo, não causariam o impacto do seu primeiro trabalho publicado, em 1943, A convidada, o meu outro favorito pessoal dentro da obra de Simone de Beauvoir. Escrito durante a ocupação de Paris pelos nazistas, com uma epígrafe inquietante de Hegel (“Toda consciência tem por objetivo a morte de outra”), mostra a rivalidade entre duas mulheres, num insólito triângulo amoroso (muito inspirado pelas experiências de Sartre e Simone como professores provincianos nos anos 30, antes da moda existencialista, embora a trama transcorra em Paris), que aos poucos se transforma num terrível confronto de consciências. A protagonista, Françoise, é uma daquelas personagens que se tornam quase nossas amigas pessoais, mas há a impressionante e exasperante Xavière, a “convidada” que se revela indesejável (e assassinável). Nunca esqueci uma passagem de A força das coisas em que o vanguardista Adamov fica chocado por Simone estar escrevendo um romance, com “começo, meio e fim”. Após a publicação de A convidada, ao reencontrá-lo, e esperando que a vitupere por tal atividade necrófila (já que o gênero morreu, segundo as vanguardas, aquela baboseira toda que escutamos vez em quando…), ele a surpreende com o seguinte elogio: “Ah, tem a Xavière, tem a Xavière!”

Sem terem a contundência de A convidada nem a amplitude e riqueza de Os mandarins, creio que é um erro subestimar (como a própria autora o fez) os dois romances intermediários entre ambos, O sangue dos outros (1945) e Todos os homens são mortais (1946). Gosto particularmente do segundo, um devaneio envolvendo o desejo de imortalidade, e já o reli com grande prazer, o que ainda não aconteceu com o outro, mais um ajuste de contas (cheio de altos e baixos) com as suas ilusões juvenis. Na mesma época, ela se lançou em outras direções: o teatro e o ensaio, culminando com a polêmica que cercou o brilhante Segundo sexo, que se tornou uma bíblia feminista, o que obliterou sua qualidade como estudo fundamental sobre processos de socialização e formação de mentalidades que se confundiram com fatores biológicos e atávicos, e que acabaram conduzindo a mulher a uma situação de cidadã de segunda classe. Não faz mal nenhum lê-lo; entre outros motivos, por ser incrivelmente bem escrito. A única coisa contra o livro, como já disse, é ter confinado Simone como a eterna “autora de O segundo sexo”.

o segundo sexo

Ainda bem que poucos anos depois ela triunfaria definitivamente na ficção com Os mandarins (inclusive ganhando o Goncourt, na época um prêmio que só perdia em prestígio para o Nobel, quando existia uma literatura francesa). É uma obra-prima, perfeitamente arquitetada, ao intercalar a história de Henri (a quem muitos associaram a Camus), dilacerado entre a literatura e os compromissos políticos, em 3ª pessoa, com a narrativa em 1ª. pessoa de Anne, a esposa de um intelectual importante, um “mandarim”, a qual, à margem das grandes questões francesas e mundiais após a Libertação, enfrenta seus próprios dilemas, igualmente dilacerantes. Parece que todos os grandes assuntos do século estão nas suas páginas. Há duas traduções muito boas do livro, uma de Maria de Lourdes Teixeira (um pouco rebuscada, é verdade), e a de Hélio de Souza, ainda em circulação (duas edições diferentes pela Nova Fronteira, ambas caras: 90 e 60 reais).

Os mandarins também marca um momento em que o casal Sartre-Simone, admirado ou combatido, dá as cartas na intelectualidade francesa, com repercussão mundial, o que vai se estender pela década seguinte.

simone e sartre

O centenário do nascimento de Simone de Beauvoir- balanço final

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em dois de fevereiro de 2008)

Seríamos caçadores de sentido, diríamos a verdade sobre o mundo e sobre as nossas vidas. Merleau achava-me otimista: estaria eu assim tão seguro de encontrar em tudo sentido? Ao que eu teria podido responder que o sentido do sem sentido existe e que nos competia descobri-lo. E sei o que ele teria respondido por sua vez: ilumina quanto tu queiras a barbárie, nunca conseguirás dissipar nela a obscuridade. A discussão nunca chegou a dar-se; eu era mais dogmático, ele era mais matizado, mas era uma questão de humor, ou como se costuma dizer, de caráter. Tínhamos ambos um mesmo desejo: sair do túnel, ver a claridade. (Sartre, Merleau-Ponty, 1961)

“A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que eu e Sartre teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morar sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear circunstâncias entre nós que nunca nos poderiam separar? Um só projeto nos animava: tudo abarcar e testemunhar tudo; ele mandava-nos seguir, em certas condições, caminhos diferentes sem roubarmos um ao outro o mais ínfimo dos nossos achados; juntos, nos dobrávamos às suas exigências, a tal ponto que no próprio momento em que nos dividíamos, nossas vontades confundiam-se. Era o que nos ligava e nos desligava; e, com esse desligamento, nós nos achávamos de novo ligados profundamente. (Simone de Beauvoir, A força da idade, 1960)

mandarins primeiro volumemandarins

As citações acima, de textos praticamente coevos, ajudam a esclarecer o projeto pessoal de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre até mais ou menos a época de Os mandarins (1954), romance que marca o auge da carreira da grande escritora francesa, nascida há 100 anos: um sentido de disponibilidade total, de aventura, desejo de “sair do túnel, ver a claridade”, “tudo abarcar e testemunhar tudo”. Um projeto otimista, quase se pode dizer (e é bom lembrar que se trata em ambos os casos de olhares retrospectivos, o que sempre significa uma releitura estudada, quando não tendenciosa, do passado).

Algum tempo depois de Os mandarins, ela iniciou seu ciclo de memórias, primeiro liquidando o espiritualismo católico que marcou sua formação em Memórias de uma moça bem comportada (1958). Aos poucos, com a Guerra Fria, no plano global; no plano nacional, a Guerra da Argélia e a ditadura de Charles de Gaulle; e, mais especificamente no plano da sua obra, com A força das coisas (1963), a nota de desencanto, de se encontrar “exilada em seu próprio país”, e à margem da voraz sociedade de consumo, é que prevalecerá na escrita de Simone de Beauvoir.

Se, no final de Os Mandarins, lemos: “Estou aqui. Eles vivem, falam comigo, estou viva. De novo saltei de pés juntos na vida… Ou se soçobra na indiferença, ou a terra se repovoa: não soçobrei. Já que meu coração continua batendo, será preciso que ele bata por alguma coisa, por alguém. Já que não sou surda, ouvirei chamarem-me de novo. Quem sabe? Talvez um dia eu seja feliz outra vez. Quem sabe?, em A força das coisas, predomina o ódio por seus compatriotas, o sentimento de desolação em meio a uma sociedade que compactua com a tortura, o massacre, a injustiça. Há também a percepção angustiada do envelhecimento: Bruscamente esbarro na minha idade. Esta mulher ultra-madura é minha contemporânea. Um senhor idoso, que se parece com um dos meus tios-avós, diz-me sorrindo que brincamos juntos no jardim do Luxemburgo. Em todas as esquinas, a verdade me assalta, e custo a entender por que astúcia ela me atinge de fora, quando é dentro de mim que ela mora… Muitas vezes, paro espantada diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontram vejam simplesmente uma qüinquagenária que não está bem nem mal: tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei”.

Mesmo assim, ela vive, escreve, sente, participa. E tudo isso é mostrado de uma forma quase milagrosa, ainda que no discurso ultra-organizado, cartesiano. Esse rigor discursivo, essa austeridade e transparência, não conseguem neutralizar a contradição (instigante, aliás, e que fornece a chave do livro) entre viver o horror de se sentir sitiada numa ditadura e dar o devido valor a instante, a uma paisagem, a um encontro, a um sentimento individual.

Em todo caso, ainda sobrou fôlego para alguns vôos ficcionais curtos, porém nada rasantes, como o pequeno romance As belas imagens (1966) ou as três narrativas que compõem La femme rompue- A mulher desiludida (1968).

O texto tardio de maior repercussão e impacto de Simone de Beauvoir acabou sendo o assombroso relato do declínio físico e mental de Sartre e sua morte, nas 150 páginas de A cerimônia do Adeus (o volume parece bem maior, mas é recheado com as caudalosas entrevistas que ela realizou, num autocentramento característico, com… Sartre!). Já havia o precedente do relato sobre a morte da mãe, Morte serena (ou, numa outra tradução, Uma morte muito suave); nada, porém, antecipava o tom cortante e quase cruel na sua secura dessa despedida literária, que parece colocar o fantasma do malogro daquela disponibilidade toda que as citações do início revelam até no fim, todas as contas feitas (título original do livro batizado por aqui como Balanço final). O próprio Sartre já havia indicado esse caminho sombrio ao descrever sua formação como leitor e escritor, ou seja, como praticante da literatura, como fruto da neurose, em As palavras. Uma coisa seja dita: ambos foram fiéis até o derradeiro instante a essa neurose. Ou ainda se trata do “tudo abarcar e testemunhar tudo”?

___________________

Serviço: as trajetórias de Sartre e Simone de Beauvoir são a matéria do recente Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Editora Objetiva. 462 págs.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/01/09/cinco-duplas-na-obra-de-simone-de-beauvoir/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

tete

5 Comentários »

  1. PASSEI A SER A MEUS OLHOS UMA PERSONAGEM DE ROMANCE. QUALQUER INTRIGA ROMANESCA PRECISAVA DE OBSTÁCULOS E MALOGROS. INVENTAVA-OS. (SIMONE DE BEAUVOIR IN, “MEMÓRIAS DE UMA MENINA BEM COMPORTADA”)

    Comentário por Milhita — 24/09/2009 @ 18:12 | Responder

  2. Hi, as you may already discovered I am fresh here.
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    Thanks and good luck everyone! 😉

    Comentário por tezza — 24/02/2010 @ 21:49 | Responder

  3. Olá Alfredo! Primeiramente parabéns por seu texto claro, informativo e elucidativo. E, em segundo, aproveito para perguntar sua opinião como conhecedor das obras e da biografia de Simone de Beauvoir: acredita que a autora, ainda que feminista declarada e, como você mesmo bem colocou injustamente reduzida à sombra de Sartre, tenha assumido determinadas posturas em sua vida pessoal em função do companheiro? Sendo mais direta: não lhe parece que em alguns trechos de suas obras Simone transparece sua insatisfação por viver um relacionamento aberto?
    Desde já agradeço sua preciosa atenção.
    Um abraço,
    Valéria Navarro

    Comentário por Valéria Navarro — 02/05/2010 @ 23:21 | Responder

    • Caríssima Valéria, em primeiro lugar agradeço muito seu comentário gentil. Quanto ao que você me perguntou, já gastei bastante tempo e bestunto com o assunto e cheguei a duas conclusões talvez contraditórias:
      — a primeira, é de que num relacionamento tão grande (décadas, do final dos anos 20 até 1980), houve tempo de passar por todas as fases, incluindo a do ciúme por ser deixada em segundo plano vez ou outra em prol das “contingentes” , ainda que — pela correspondência– possamos considerar o grande amor da vida dela o Nelson Algren;
      — a segunda, é de que ela, através de hábeis estratégias narrativas, abafou (ou quase abafou) o que de insatisfação eterna ficou da sua relação, onde nunca houve uma igualdade (pois nunca se coloca os dois no mesmo patamar, quando se coloca Sartre ao pé de alguém, é Camus, Aron, etc): podemos ver como ela minimizou as pessoas contingentes, que são figuras apagadinhas nas suas memórias, tanto que já até me peguei pensando, o que esses Bost, essa Wanda, etc etc, tinham de tão especial? Sem parecer, elas os ofuscou, deixou-os amorfos…
      Não sei se você concorda. Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 04/05/2010 @ 19:03 | Responder

      • Estimado Alfredo,
        Concordo em gênero, número e grau. De fato Simone fez com as “contingentes” o que sem querer (será?) o próprio Sartre (e/ou a sociedade machista) fez com ela: deixou-as reduzidas a seres sem face, sem identidade, sem graça. A vingança de Simone! Rssss
        Eu particularmente, e não pelo fato de ser mulher, aprecio imensamente o trabalho literário, filosófico e cultural dela muito mais que o do próprio Jean Paul. E fico pensando em como uma mulher tão fantástica e corajosa pode ocultar traços de sua personalidade (a questão da bisexualidade), bem como ocultar de si mesma as motivações que a levaram aceitar o comportamento egocentrico de Sartre. Realmente o amor, não incondicional como hoje muitos tem a pretensão de apontar com o intuito de justificar condutas diversas, mas quase maternal, ouso arriscar.
        De todos os questionamentos fica para mim a magnífica sensação de termos personagens tão instigantes e brilhantes como esses a “passear” por nossas idéias constantemente e a nos presentear com seus exemplos de vida.
        Agradeço imensamente sua preciosa atenção e sigo acompanhando com imenso prazer seu blog.
        Forte abraço!
        Valéria Navarro

        Comentário por Valéria Navarro — 07/05/2010 @ 1:29


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