MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/02/2010

O LIVRO-LINK E A LEITURA INFINITA: “PASSAGENS” de Walter Benjamin


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de dezembro de 2006)

Pode-se afirmar que Passagens é a tradução mais importante de 2006.

Mas por que elevar a tal um livro incompleto e fragmentário (já se decretou a seu respeito: monumento que nasceu ruína), escrito durante mais de uma década (de 1927 até 1940, ano do suicídio de Walter Benjamin), que tem como assunto a Paris do século XIX, e cuja edição original alemã é alvo de críticas ? Se se acrescentar que a edição brasileira é um calhamaço, um monstrengão de 1167 difícil de manejar e de carregar, ( tem de desembolsar 210 reais, caso não se consiga um desconto) e que o autor deste artigo escreve sobre ele sem tê-lo lido na íntegra, e talvez nunca o faça, não é pedir demais do leitor que aceite a assertiva acima ?

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que Benjamin é um dos maiores e mais influentes pensadores do século passado. Em Passagens ele se propôs um desafio original: criar uma obra do pensamento, organizar uma visão do mundo, através de citações alheias, a partir da “haussmannização” de Paris, a modernização compulsória da grande metrópole, a capital oitocentista por excelência. O centro literário da sua reflexão é Baudelaire (cuja “seção”, por assim dizer, é a que ocupa a maior parte do volume, quase 200 páginas). Portanto, uma reflexão-mosaico, a qual, da maneira que ficou, faz companhia a algumas obras-primas inacabadas: os grandes romances de Kafka; O homem sem qualidades, de Musil; O livro do desassossego, de Fernando Pessoa; até mesmo, de uma certa forma, Em busca do tempo perdido, de Proust. E também a alguns poderosos esforços reflexivos que ficaram sob forma de ruínas, para utilizar um termo tão caro a Benjamin, como é o caso de boa parte da produção de um Bakhtin e de um Vigotsky.

interior

Além disso, Benjamin inaugura –de uma forma angustiante, é preciso dizer—o dilema do leitor que se aventura na Internet. Materializada na forma de um livro gigantesco, quase um móvel, temos a biblioteca de Babel: milhares de informações, de análises, de momentos lindíssimos, de iluminações, de anedotas. Da mesma maneira que o internauta, ao acessar um determinado assunto, recebe uma sobrecarga impossível de ser assimilada, a monstruosidade implícita do projeto de Passagens intimida mesmo os mais esperançosos esforços cognitivos. Acaba sendo um projeto de leitura meio demanda do Santo Graal, um horizonte a ser perseguido por muitos anos, além de ser o livro aberto por excelência, uma vez que se pode ser remontado das mais diversas formas.

Ele nos impõe a necessária humildade: impossível dizer que se “leu” Passagens ou “julgá-lo” para um resenha. Nele, se utiliza como princípio o que Baudelaire expõe numa carta (e que depois materializaria num célebre soneto):

Há muito tempo digo que o poeta é soberanamente inteligente e que a imaginação é a mais científica das faculdades, porque só ela compreende a analogia universal, ou aquilo que uma religião mística denomina correspondência… tenho um espírito filosófico que me faz ver claramente o que é verdade, mesmo em zoologia, embora eu não seja caçador nem naturalista…”.

Benjamin era um pensador que se tornou poeta ao fazer da citação uma arte literária.

das passage werk

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NOTA

Passagens (baseado na edição alemã de Rolf Tiedemann de 1982, Das Passagen-Werk), de Walter Benjamin (1892-1940). Organização da edição brasileira: Willi Bolle (com a colaboração de Olgária Chain Feres Matos. Tradução de Irene Aron e Cleonice Paes Barreto Mourão.

 

benjamin01

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