MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/02/2010

Regra ou Enigma? Donna Tartt ou Dan Brown?


(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2006)

É inequívoco o objetivo da editora Planeta de vender O Enigma do Quatrocomo um suspense na linha de O Código Da Vinci, inclusive ao trocar o “rule” (regra) do título original por um já desgastado “enigma”.

Na verdade, ele se alinha com maior propriedade a um romance de certo sucesso da década passada, A História Secreta, de Donna Tartt, também uma história de impasses éticos e diferenças sociais em um grupo de amigos universitários, o qual participava de crimes associados a pesquisas e interesses eruditos.

Há, é claro, na raiz da ficção norte-americana, desde os clássicos de Mark Twain (Tom Sawyer & Huckleberry Finn), uma obsessão em investigar a natureza da amizade e é por isso que a “regra” do quatro do romance de estréia de Ian Caldwell & Dustin Thomason é tanto uma chave para decifração de um texto antigo como igualmente e sobretudo uma focalização do enredo nos quatro colegas de dormitório de Princeton: Tom (o narrador), Paul, Charlie e Gil.

Outro estereótipo querido e assaz usado marca presença: a sombra do pai. Tom rejeitou o seu, que no entanto inspirou Paul, que vai resgatá-lo para o verdadeiro filho, principalmente depois do confronto de ambos com os “pais” substitutos, no fundo perversos e perigosos: Richard Curry e o professor Taft, não por acaso antigos amigos do pai de Tom.

Decidir se esses temas já deram o que tinham que dar é que será a medida para o leitor apreciar ou não O Enigma do Quatro.

O que ocupa seus personagens é uma enigmática (e nunca satisfatoriamente estudada) obra do século XV, o Hypnerotomachia Poliphili, assunto da monografia de conclusão de curso de Paul, cujo orientador –Taft—planeja roubar, dedicado a ela como é há 30 anos, monomania que lhe custou o prestígio e o fez desentender-se com seus amigos (Curry e o pai de Tom), igualmente obcecados.

Embora Tom tenha outro assunto para sua própria monografia (o Frankenstein de Mary Shelley) e uma namorada que não gosta muito de sua participação na decodificação do Hypnerotomachia Poliphili, ele ajuda Paul –até que se sente compelido a afastar-se. Na véspera do prazo final de entrega (coincidente ao fim-de-semana da Páscoa de 1999, quinhentos anos após a impressão original do texto; aliás, a ação se concentra nesses dias), ele é obrigado, assim como os leigos Charlie e Gil, a envolver-se novamente, já que Paul recebe das mãos de outro colega, logo a seguir assassinado, um diário que pertencia a Curry e fora roubado décadas antes e que o aproximará do segredo escondido no texto, possibilitando-lhe concluir a monografia…

O que dá para apreciar de imediato em O Enigma do Quatro é a ambição da jovem dupla de autores, sua realização de uma fantasia cara a apaixonados por livros: transformar leitura em mistério (ainda que utilizando recursos já batidos). Ambição, mas sem poder de fogo. O texto escolhido, o tal Hypnerotomachia Poliphili jamais adquire vida para o leitor. Quando se chega à parte do confronto entre o suposto autor (Francesco Colonna) e Savanarola, sente-se falta de um sopro épico, de um pulso narrativo firme que lhe dê amplitude e relevo. Além do mais, há uma inconsistência básica na dinâmica narrativa: Paul chegou a esse confronto, que seria o grande achado do livro, através do diário roubado. Ele conseguiu, numa única noite, e com todo o corre-corre que acompanhamos, ler e decifrar um texto dificílimo, aplicando uma complicadíssima regra? Em que hora ele executou tal proeza?

Por outro lado, se lembramos de A História Secreta durante a leitura não é porque sua melhor qualidade (o registro do cotidiano universitário) reapareça em O Enigma do Quatro; pelo contrário, ficamos incomodados com a irrealidade dessas conversas e atividades de estudantes. Todos estudam compenetradamente, não há drogas, sexo escasso, pouco rock’n roll, não há internet, só há um bêbado, convenientemente rejeitado e escorraçado. Em 1999?!! Por favor! Universidade e estudantes assim, nem em 1499.

 

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2 Comentários »

  1. Eu gostei bastante de A história secreta e é bom saber que o livro é mais pra esse do pro chato Código da Vinci…esses clones mercadológicos são de um mau gosto atroz mesmo…pra enganar leitores incautos.

    Comentário por eduardo — 08/02/2010 @ 23:02 | Responder

  2. o lado bom que o tal enigma é mais parecido com a História Secreta, um livro que confesso que gostei bastante na época.

    Comentário por eduardo vieira — 08/02/2010 @ 23:09 | Responder


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