MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/07/2012

2 de junho de 1910: o centenário do suicídio de Quentin Compson

“O fato de eu ter conseguido movimentar os meus personagens no tempo com sucesso prova, pelo menos para mim, que a minha teoria, no sentido de que o tempo é uma  condição fluida que não tem existência a não ser momentaneamente em manifestações individuais, está correta. Foi não existe, existe apenas é. Se foi existisse, não haveria dor ou tristeza…”

                                 (William Faulkner)

“…você não pode fazer nada nós somos malditos não é culpa nossa será que a culpa é nossa…” (William Faulkner, O SOM E A FÚRIA)

“Life´s but a walking shadow, a poor player

Tha struts and frets his hours upon the stage,

Ant then is heard no more; it is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”  (William Shakespeare, Macbeth)

2 de junho de 1910. Essa data aparece no início da segunda das quatro partes que compunham originalmente O SOM E A FÚRIA (The sound and the fury 1929, e pensar que ele tinha apenas 32 anos quando o livro foi publicado!), e que foram acrescidas anos mais tarde com um “Apêndice”.

E a segunda parte do livro é justamente o último dia de vida de Quentin Compson. Aí vemos exercitar-se a técnica chamada stream of counsciousness, o fluxo de consciência. Será um dia, o derradeiro, mas será um dia de todos os dias, um dia no qual  caleidoscopicamente se agregam cenas, recordações, associações, assim como Joyce praticou em Ulisses e Virginia Woolf em Mrs. Dalloway & Ao farol.

Para o leitor da época (e para muitos ainda hoje, apesar da água que passou por debaixo da ponte), O SOM E A FÚRIA devia causar uma estranheza total: a primeira parte também se baseia na técnica do fluxo de consciência, mas ainda tem a complicação de ser a mente de um deficiente mental, Benjy (na verdade, era Maury, mas trocaram o nome), o irmão caçula de Quentin (há mais dois, Jason e Candance, isto é, Caddy). A mente de Benjy é perfeita para a anulação do tempo e fazer o é predominar sobre o foi. Tanto que a narrativa começa com sua angústia ao ouvir um jogador de golfe (num campo que era o “seu pasto”, no qual gostava de passear, e que foi vendido) chamando o seu caddie (o fâmulo do golfe), por associação trazendo à sua mente a irmã, Caddy, que devido às suas transgressões sexuais teve de se afastar (engravidou de um, casou com outro, o qual descobriu a trapaça e anulou o casamento). Além dessa associação, caddie-Caddy, há dois Jasons na narrativa (o pai e o filho-vilão, por assim dizer) e duas personagens chamadas Quentin (o irmão suicida e a filha ilegítima de Caddy, que será criada sem amor, assim como Benjy, pela avó, pelo tio e, ao fim e ao cabo, pela criada negra, Dilsey, a verdadeira mãe da família).

O centro dramático da parte dessa primeira parte (no dia 7 de abril de 1928,aniversário do personagem, que faz 33 anos, com idade mental de 3), além do pungente desamparo da condição de Benjy, é sem dúvida a cena (em 1898) em que as crianças Compson (uma das várias famílias sulistas ilustres que foram decaindo a partir da derrota infligida pela Guerra de Secessão) tentam espreitar o velório da avó: nesse mundo “edênico”, onde a família ainda possui propriedades e distinção, antes de se consumar a derrocada, a morte parece ser proibida e os adultos não informam as crianças que a avó doente (que mimava especialmente Jason e o deixava dormir com ela) morreu. Caddy então sobe numa árvore para ver o que se passa na casa, e os outros têm a visão das suas calcinhas enlameadas (porque estavam brincando perto do rio). Faulkner mesmo afirmou que seu quarto romance (os anteriores foram Pagamento de soldado, Mosquitos & Sartoris) “começou com um quadro mental… representava os lamacentos fundilhos das calcinhas de uma menina em uma árvore, da qual ela podia ver, através de uma janela, onde o funeral de sua avó estava sendo realizado”. Essa imagem também é a de Caddy cristalizada na mente de Benjy: sempre menina, sempre protetora e destemida com relação a ele, sempre “cheirando a árvore” (tanto que quando ela coloca perfume, ele não reconhece seu cheiro e começa a berrar e chorar; aliás, o choro e o berro recorrentes de Benjy são frisados de uma maneira angustiante na narrativa). E na mente dele, a visão da menina descendo a árvore às escondidas (na verdade, trata-se da sobrinha, Quentin, que está escapulindo da casa) faz com que ele a confunda com a irmã, que há muito cresceu e se afastou. Como diz Frederic J. Hoffman no seu estudo sobre a obra faulkneriana, “as limitações absolutas da capacidade de Benjy de separar uma coisa da outra, um tempo do outro, significam que estamos num mundo fixo fora do tempo e de mudanças… Benjy é incapaz de ver Caddy como uma pessoa que mudará, envelhecerá e existirá de acordo com o tempo. De certa forma, Benjy deseja um mundo simples, o mundo mais ou menos fixado quando ele tinha três anos de idade…”

Além disso, a imagem das “calcinhas enlameadas” aponta para a nódoa, a mancha, a marca sexual que pesa sobre Caddy, e que será o tema da segunda parte, em que Quentin, que foi para Harvard, não consegue se conformar com a perda da virgindade da irmã (ele mesmo continua virgem) pela qual tem um sentimento incestuoso. Também há algo a evocar obsessivamente Caddy para Quentin: é o cheiro das madressilvas, que se ligam à idéia de sexo, um cheiro sexual que o persegue nesse dia de perambulações (“e ondas de madressilva subindo no ar”), onde ele encontrará uma menininha suja (envolvendo-se numa situação equívoca, pois o pai, um imigrante italiano, o agride e o denúncia às autoridades policiais nas imediações de Cambridge, afirmando que ele tentara raptá-la; na verdade, ele comprara uns pães doces para a menina miserável e ela o seguira por toda parte; com o que sabemos hoje da preferência de Faulkner por lolitas, pelo que sabemos do passado de Quentin com Caddy, nós podemos dizer que o “equívoco”, já que nada acontece, não deixa de conter as possibilidades sexuais imagináveis, mesmo porque o tempo todo Quentin chama a menina de “maninha”). A desgraça de Quentin foi saber que a irmã deixou de ser virgem. Ele ainda tenta confrontar o sedutor, Dalton Ames, mas faz um papel ridículo e ainda tem de ouvir:

“olha não faz sentido levar a coisa tão a sério você não tem culpa garote se não fosse eu seria outro qualquer

você já teve irmã já

não mas são todas umas vagabundas”

Quentin ainda tenta fazer um pacto de suicídio com a irmã, que não leva a cabo, e tenta fazer dos dois seres marcados, contando ao pai de possíveis relações incestuosas, mas nada consegue. E vai para Harvard para viver esse dia, agora centenário, em que tem de enfrentar o Tempo (simbolizado pelo relógio do avô que ganhara e o qual quebra, mas que continua a tiquetaquear mesmo sem os ponteiros: ou seja, não há horas, não há cronologia, mas apenas o Tempo puro): “Era o relógio do meu avô, e quando ganhei de meu pai ele disse Estou lhe dando o mausoléu de toda esperança e todo desejo… Dou-lhe esse relógio não para que você se lembre do tempo, mas para que você possa esquecê-lo por um momento de vez em quando e não gaste seu fôlego tentando conquistá-lo.”

Se Benjy é percepção, Quentin é concepção. O perceptivo e o conceitual exigem a mesma coisa: que Caddy não mude, que a família permaneça naquele estado “edênico” de prosperidade, com seus pastos, suas plantações, seus negros, sua grande casa. Concordo com Hoffman, quando ele diz: “Quando o paraíso do mundo da sua infância falha, Quentin tenta converter o pecado de Caddy em incesto para contê-lo dentro de um mundo fixo que ele pode controlar. Ele mudará um paraíso para um inferno, para que seja seu próprio”.

    No “Apêndice” que Faulkner escreveu anos depois, lemos a respeito de Quentin: “…amava não o corpo da irmã, e sim algum conceito de honra dos Compson sustentado de modo precário e (como ele bem sabia) apenas provisório pela membrana mínima e frágil de seu hímen, tal como uma réplica em miniatura do imenso globo terrestre se equilibra no focinho de uma foca treiada… amava a idéia do incesto que não viria a cometer e sim algum conceito presbiteriano de castigo eterno: ele, e não Deus, desse modo lograva lançar-se a si próprio e a irmã no inferno, onde poderia protegê-la para sempre e mantê-la intacta para todo sempre em meio ao fogo eterno”.É mole?

O CENTENÁRIO DE UMA DATA –MARCO DA FICÇÃO

Amanhã, uma das datas mais célebres da literatura mundial se torna centenária: em 2 de junho de 1910, Quentin Compson, um dos personagens do clássico O som e a fúria (The sound and the fury, 1929, em tradução de Paulo Henriques Britto para a CosacNaify), ainda a obra mais conhecida de William Faulkner aqui no Brasil, se suicidou na Universidade de Cambridge, incapaz de continuar carregando em seu íntimo o fardo de decadência e derrotismo fatalista do “Deep South” em geral e da sua família em particular.

Com Sartoris, seu romance anterior, Faulkner nos apresentava o condado de Yoknapatawpha, no Mississipi, que delimitará sua ficção subsequente, com raras exceções, e que será detalhado num publicado em Absalão, Absalão!, de cuja trama Quentin é o confidente e depositário, e que termina com a citadíssima afirmação do futuro suicida: “Eu não odeio o Sul!”. Foi, contudo, com O som e a fúria que o genial escritor norte-americano tornou esse universo fictício uma referência tão absoluta quanto a Comédia Humana de Balzac. Dividido em quatro partes, retrata o empobrecimento e degeneração de uma típica e tradicional família sulista, daquelas que tiveram seu apogeu durante o regime escravocrata e com o comércio de algodão, antes da ruína trazida pela Guerra de Secessão.

Boa parte da dificuldade do livro se deve ao fato de que, nas duas primeiras partes, Faulkner adota como foco narrativo o fluxo de pensamentos de um deficiente mental, Benjy, e de Quentin no dia da sua morte… Assim, conhecemos os fatos passados de uma forma retorcida e alógica, e a cronologia aparece toda emaranhada. O ponto central é o comportamento transgressor de Caddy Compson. Para se ter uma ideia do jogo que é feito com o leitor, Benjy, o caçula da família, lembra-se da irmã fugitiva em meio a um jogo de golfe, onde quem ajuda os jogadores são os caddies, e daí a associação. Outra complicação: a filha de Caddy tem o mesmo nome do tio que se mata, Quentin.

A meu ver, O som e a fúria alcança realmente a grandeza na terceira parte (na qual parece recair na narrativa linear e tradicional), com Jason, o outro irmão, grande vilão psicológico em seu duelo de vontades com a sobrinha, com sua mistura de puritanismo, ironia demoníaca e monstruosidade. Com Jason, estamos no âmago do universo faulkneriano, o qual, aliás, privilegia tanto a linguagem quanto a arte da intriga:

     “… então voltou a lembrar-se do dinheiro outra vez, e pensou que tinha sido passado para trás por uma mulher.,uma fedelha. Se ao menos pudesse acreditar que fora o homem que o roubara. Mas o que fora roubado era justamente aquilo que compensaria o emprego perdido, algo que ele tinha adquirido com tanto esforço e risco, e que forma roubado pelo próprio símbolo do emprego perdido, e, o pior de tudo, por uma vagabundinha… Via agora que as forças opostas do seu destino e sua vontade se aproximavam rapidamente, rumo a um entroncamento que seria irrevogável…”

( a resenha acima foi  publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 01 de junho de 2010)

ANEXO

Estou lendo O SOM E A FÚRIA pela quarta vez: a primeira foi no começo dos anos 80, na tradução (que ainda considero extremamente boa) de Fernando Nuno Rodrigues, em edição pelo Círculo do Livro. Depois, descobri uma tradução portuguesa ( (de Mário Henrique Leiria &  H. Santos Carvalho, revisada por Luís de Sousa Rebelo) publicada por aqui (numa adaptação de Branca Maria Lírio de Lima,  a qual,como pode-se ver mais abaixo, não realizou grande coisa) pela Portugália Brasil e aí reli a de Nuno Rodrigues (na edição pela Nova Fronteira), comparando-as.

Entre as obras-primas de Faulkner, sempre foi a de que menos gostei (preferindo sempre Luz em agosto; Absalão, Absalão!; Enquanto Agonizo; O povoado; Desça, Moisés),principalmente por causa das duas primeiras partes (em compensação, sempre adorei as duas últimas e a figura de Jason). Foi o que enfatizei em 2004, na minha resenha semanal de “A Tribuna”, quando o reli pela terceira vez, agora na tradução do grande Paulo Henriques Britto, que saiu naquele ano pela Cosacnaify. Mas agora relendo com atenção as duas partes, e comparando as três traduções, mudei de idéia, particularmente sobre a parte de Benjy (a primeira), que achei desta vez particularmente sensacional. Ainda tenho problemas com a parte de Quentin, mas já não a acho tão derivativa assim de Joyce e de seu Ulisses. Aliás, concordo plenamente com Robert Humphrey, o grande estudioso do stream of consciousness na ficção, quando diz que Faulkner se diferencia dos outros praticantes dessa técnica porque usa um enredo principal, combinando a narrativa tradicional com o fluxo de consciência de forma magistral (para mim, ele e Thomas Mann são os maiores narradores do século XX).

Comparemos as versões (num trecho da parte de Quentin):

a de Paulo Henriques Britto (Cosacnaify):

“…continua cego  para o que está em você mesmo para aquela parte da verdade geral a seqüência de eventos naturais com suas causas que ensombrecem o cenho de todo homem até mesmo de Benjy você não está pensando na finitude está imaginando uma apoteose em que um estado mental temporário se tornará simétrico acima da carne e cônscio tanto de si próprio quanto da carne ela não vai se livrar de você não estará nem mesmo morta … acho melhor você ir para cambridge logo de uma vez… você estudar em harvard é o sonho da sua mãe desde que você nasceu e nenhuum compson jamais decepcionou uma senhora…”

 

a de Francisco Nuno Rodrigues (Círculo do Livro & Nova Fronteira):

“…ainda está cego para o que acontece em si mesmo para essa parte da verdade geral a seqüência de acontecimentos naturais e suas causas que obscurece o olho de qualquer homem até o de benjy você não está pensando em limitação você está contemplando uma apoteose na qual um estado temporário da mente se tornará simétrico acima da carne e com consciência plena dela e da carne não vai descartar você não vai nem morrer…acho que é melhor você ir logo direto para cambridge…então você vai se lembrar disto que a sua ida para harvard tem sido o sonho da sua mãe desde que você nasceu e que nenhum compson jamais desapontou uma senhora…”

a de Leiria-Carvalho (Portugália):

…mas estás cego ao que é em ti próprio para essa parte da verdade geral a seqüência de fatos naturais e as suas causas, que ensombra os sobrolhos de qualquer homem e mesmo de Benjy. Tu não estás pensando em limitação, estás contemplando uma apoteose na qual um estado temporário da mente se torna simétrico acima da carne, e consciente tanto de si próprio como da carne, nao te descartará nem sequer morrerás…creio que era melhor que fosses para Cambridge… lembrar-te-á que a tua ida para Harvard tem sido o sonho da tua mãe, desde que nasceste, e nenhum Compson desapontou ainda uma senhora…”

    Quentin será personagem de Absalão, Absalão! (1936) e após toda a experiência contada no livro, ele o encerrará com esse famoso trecho, depois que seu amigo Schreve pergunta por que ele odeia o Sul, o Deep South: “Eu não o odeio, disse Quentin rapidamente, de uma vez, sem pensar, eu não o odeio, repetiu, eu não o odeio, ele pensou, arfando no ar frio , no escuro impiedoso da Nova Inglterra, não, não o odeio! Não o odeio! Não o odeio!”

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