MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/05/2012

DEFOE-CRUSOE

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bestbolso

(25.08.09)

Estou me ocupando novamente de ROBINSON CRUSOE (ou mais precisamente, A vida e as estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoe), motivado pela estréia da série Crusoe, na quinta-feira, dia 27. Não sei, é claro, o que vai restar do clássico de Daniel Defoe (1660? ou 1659? ou 1661?-1731), publicado em 1719, nessa adaptação modernosa.

A tradução que uso no momento é a de Domingos Demasi, relançada este ano pela Bestbolso (saiu pela Record em 2004). Tenho algumas implicâncias com ela, acho que ela empobrece diversas passagens, mas é só implicância mesmo, já que ela é muito satisfatória para o leitor moderno. É que quando a comparo com as outras que tenho, é a que me deixa mais insatisfeito. Pois finalmente consegui reencontrar, após muitos e muitos anos, a da Companhia Editora Nacional, que foi a que eu li quando mais jovem.

Sempre achei, não sei por que, que ela tinha sido realizada por Monteiro Lobato (a versão dele de fato existe, numa edição da Brasiliense). Na reedição de 2002 (que parece ter mantido a mesma capa da minha pré-adolescência ou é impressão minha, falsa memória?), entretanto, vem o seguinte: “tradução anônima”. Embora tenha persistido na minha cabeça que se trata do verdadeiro Robinson Crusoe brasileiro, há poucos anos tive a oportunidade de ler a maravilhosa tradução (publicada pela antiga editora Jackson) de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves. Eu a li em contraposição a uma tradução fraudulenta da Martin Claret de que me ocupei numa resenha. E pouco tempo depois adquiri a charmosa edição da Iluminuras, traduzida por Celso M. Paciornik, cheia de soluções brilhantes, porém com uma estranha e arbitrária divisão em capítulos.

Devo dizer que essa última releitura que fiz, motivado pelas pilantragens editoriais da Martin Claret, me deixou um saldo de antipatia pelo romance que é considerado fundador da moderna narrativa burguesa (e cujo protagonista virou uma figura arquetípica, maior que o livro ao qual pertence), pelos animais que ele mata por diversão e sobretudo pelo cabritinho a quem ele quebra uma perna para domesticá-lo (também tem o episódio dos gatos: Robinson salva duas gatas do navio, e uma delas some e depois aparece prenha; nascem três filhotes e o número de gatos começa a se multiplicar: ‘passei a ser importunado por tantos gatos que fui forçado a matá-os como uma praga…”). O que foi suficiente para jogar um balde de água fria na minha paixão juvenil pelas aventuras do mais famoso dos náufragos.

Agora a balança está mais equilibrada. Não é possível ler esses clássicos sem aceitar a mentalidade do homem da época. Como tive de fazer esse exercício recentemente, com O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Alexandre Dumas, ficou mais fácil aceitar o flagelo ecológico e ambiental, o ser predatório que é Robinson Crusoe (na nossa visão anacrônica e retrospectiva). Ele, na verdade, é o homem ocidental, para o bem e para o mal.

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26.08.09 -

ROBINSON CRUSOE debate muito a questão da Providência. Robinson sente-se azarado, perseguido pelas pragas moralistas do pai, no entanto não aprofunda muito o sentido religioso ou providencial do seu destino. Na ilha, essa indiferença ou superficialidade se mantém por certo tempo. Há um trecho significativo a respeito. Ele precisava, para algum uso importante, de uma saca do navio encalhado e destroçado (no qual ele fez várias excursões para retirar aquilo de que precisasse, pois Crusoe não é um náufrago totalmente desvalido, muito pelo contrário), e como os grãos que ali estavam foram comidos ou conspurcados pelos ratos durante a travessia malograda, ele joga tudo fora na parte de fora da habitação que vai construindo na ilha. Pouco tempo depois, vê alguns talos brotando do chão. E depois espigas:

“É impossível expressar a surpresa e a confusão dos meus pensamentos, na ocasião. Até então eu vinha agindo sem qualquer princípio religioso; aliás, em minha cabeça havia muito pouca noção religiosa, nem eu nutria algum senso sobre o que acontecia comigo, além do acaso,ou como dizemos frivolamente, da vontade de Deus; como também não questionava as intenções da Providência Divina nem os desígnios Dele em governar os destinos do mundo. Depois, porém, de ver a cevada crescer ali, num clima que sabia não ser apropriado para cereais, e, principalmente, por não saber como aquilo fora parar ali, essa coisa me abalou de um modo tão estranho que passei a considerar que Deus, miraculosamente, fizera a cevada crescer sem qualquer ajuda de semeadura, e que aquilo fora enviado apenas para o meu sustento naquele lugar agreste e miserável. Isso me comoveu um pouco, levando-me lágrimas aos olhos, e passei a me bendizer por aquele prodígio da natureza ter ocorrido em meu benefício; e foi mais estranho ainda, pois vi ali perto, ainda ao longo da encosta do rochedo, outros talos dispersos, que verifiquei depois serem hastes de arroz, que eu conhecia, porque tinha visto essa planta crescer na África, quando estive por lá.

Não apenas achei que isso fosse pura obra da Providência Divina para o meu sustento, como não duvidei de que mais daquilo por ali, e percorri a parte da ilha onde já estivera antes, vasculhando cada canto e debaixo de cada pedra, para ver se encontrava mais; porém, nada encontrei; finalmente ocorreu-me que havia sacudido o saco de ração…naquele local, e o espanto começou a cessar; e devo confessar que a minha religiosa gratidão à providência de Deus também foi minguando, ao descobrir que tudo aquilo não passou de algo normal, embora me sentisse grato por um acontecimento tão estranho e imprevisível, quase como um milagre, pois, para mim, fora realmente obra da Providência Divina, que ordenara que dez ou doze grãos do saco não sofressem dano … como se tivessem caído do céu; e também que eu os tivesse jogado fora justamente naquele lugar, onde, por ficarem à sombra de um alto rochedo, brotaram imediatamente, ao passo que, se na ocasião eu os tivesse jogado em qualquer outro lugar, os grãos teriam ressecado e sido destruídos”.

Mais adiante, no entanto, após tornar sua “fortaleza da solidão” um lar burguês, ordenado, após ter criado uma “rotina de trabalho”, Robinson cai muito doente. O resultado é uma preocupação com a salvação que transcende o âmbito da situação em que se encontra e remete a um exame de consciência com relação à sua vida “pecaminosa” de antes (não temos os detalhes do que consistia exatamente essa vida de que ele tantos se recrimina). Assim, ele começa a estudar a Bíblia (também resgatada do navio encalhado):”Passei a interpretar as palavras já mencionadas, Invoca-me e eu te salvarei, de um modo diferente do que havia feito antes, porquanto, naquela ocasião, não fazia idéia do que significava salvação, a não ser o desejo de ser salvo do cativeiro em que me encontrava, pois embora estivesse livre, naquele lugar, a ilha, para mim, não passava de uma prisão, e no pior sentido da palavra; mas, agora, aprendera a concebê-la em outro sentido. Olhei para trás, para o meu passado, com tal horror, e os meus pecados pareceram tão medonhos que a minha alma não pedia nada mais a Deus a não ser a libertação do fardo de culpa que me privava de todo o consolo; quanto à minha vida solitária, nada significava; nem mesmo rezava para me livrar dela ou sequer pensava nela, nem era objeto de reflexão, se comparada a isso. E acrescento isto aqui, como uma indicação às pessoas que o lerem, pois, quando atingirem o verdadeiro sentido da vida, descobrirão que a remissão de um pecado é uma bênção bem maior do que a libertação de uma aflição”.

 

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28.o8.09

“a tinta começou a escassear. e contentei-me em usá-la moderadamente, e anotar apenas os eventos mais notáveis de minha vida, sem continuar a fazer um relato diário dos demais acontecimentos…”

“… embora não queira importunar o leitor com um relato pormenorizado dos meus trabalhos nesse ano… devo observar que, de um modo geral, raramente ficava ocioso; ao contrário, dividia regularmente o meu tempo de acordo com as várias tarefas diárias que se apresentavam… em primeiro lugar, a minha obrigação com Deus e a leitura das Escrituras, para a qual separava um tempo três vezes ao dia; em segundo, a saída com a espingarda à procura de alimento, o que,quando não chovia, geralmente me tomava três horas de todas as manhãs; em terceiro, arrumar, preparar, conservar e cozinhar o que havia abatido ou capturado… isso me tomava grande parte do dia; deve-se também levar em consideração que, na metade do dia, quando o sol estava no zênite, a intensidade do calor era grande demais para sair; portanto, cerca de quatro horas da tarde era todo o tempo de que dispnha para trabalhar… A esse curto de período de tempo disponível para o trabalho, é bom que se acrescente o excessivo esforço exigido por cada tarefa; eu gastava muitas horas, por causa da falta de ferramentas, de ajuda e de habilidade, e tudo o que eu fazia tomava muito do meu tempo.”

Algumas observações sobre ROBINSON CRUSOE:

1) Quando era garoto, achei chatíssimas as descrições detalhadas da maneira como Robinso “aburguesa” a sua existência de náufrago, com suas casas em diversos pontos da ilha, a descrição de cada profissão imemorial (oleiro, padeiro, carpinteiro, etc), cujo percurso ele teve de retraçar para se cercar de conforto. Pois agora acho fascinante esse aspecto de materialidade que constitui boa parte da narrativa, em detrimento da aventura. A genialidade de Defoe está na configuração dessa mentalidade ordeira e burguesa, que necessita de casa, cercadinhos, artefatos, etc, para, mais do que sobreviver, se sentir dono e proprietário da natureza: “Desci um pouco pelo lado desse vale magnífico, inspecionando-o com um prazer secreto (embora misturado a pensamentos aflitivos), ao imaginar que tudo aquilo era meu, que era rei e senhor incontestável daquela terra, com direito de posse, e, se conseguisse legitimar a propriedade, poderia transmiti-la por herança, do mesmo modo que qualquer lorde uma herdade inglesa”.

2) A essa materialidade toda (que está na base do romance realista orientado para a verossimilhança, do qual Defoe é o pai fundador) vem se chocar um aspecto oposto, porém complementar, uma aura de insubstancialidade, de fantasmagoria, pois é o medo que move Robinson, medo do que é invisível (animais selvagens, seres humanos selvagens, corsários), do que é remoto, do que é improvável, e por isso sua engenhosidade e todas as profissões que recapitula são para a proteção, para a salvaguarda, orientadas pelo medo tanto quanto pelo fator utilitário… Além disso, temos os repetidos “exames de consciência” diante do Senhor e da Providência Divina, que mostram como realmente o homem é um animal simbólico. A condenação do passado ímpio, o arrependimento, o estudo da bíblia, o tipo de vida “regrada” e moral que Robinson se propõe é um feito simbólico tanto quanto material. Basta lembrar de como ele acha impossível andar nu fora da sua habitação, mesmo com o calor que faz e o tipo de vida que leva, e após tantos anos sozinho.

E vejam como Robinson trapaceia com a providência:“Mencionei antes que tinha grande desejo de conhecer toda a ilha, e que segui enseada acima até onde construí o meu caramanchão e onde havia uma passagem para o mar do outro lado da ilha. Resolvi, portanto, atravessá-la e ir até a praia daquele lado… Depois de passar o vale onde ficava o meu caramanchão, avistei o mar, a oeste, e como o dia estava muito claro, enxerguei terra nitidamente ao longe, mas se era uma ilha ou continente, não consegui identificar; era, porém, muito elevada e estendia-se a grande distância… o meu palpite era de que não podia estar a menos de 48 ou 64 milhas. Não sabia dizer que parte do mundo era aquela, a não ser que devia ser parte da América, e, como concluí por todas as minhas observações, devia estar próxima do domínio espanhol, talvez habitada por selvagens, onde, se eu lá tivesse ido parar, estaria em pior condição do que me encontrava agora; conformei-me, portanto, com os desígnios da Providência Divina, passando a admitir e acreditar que fazia o que era melhor”. Nem por isso, ele vai deixar de investir anos na confecção de barcos, mesmo “conformando-se” com tais desígnios. E não sendo bem sucedido com um barco mais elaborado que o levaria a alto-mar, ele confecciona um barco que lhe permite dar a volta à sua própria ilha…

Ainda no quesito “construção de barco” há um trecho sensacionalmente revelador: comentando a construção do seu primeiro barco (que se mostrou impossível de transportar até o mar), ele diz: “Trabalhei nesse bote tão ingenuamente como nenhum homem minimamente ajuizado teria feito. O projetar agradou-me tanto, sem que eu tivesse idéia se seria capaz de realizá-lo; não que a dificuldade de lançar a canoa no mar não me tenha passado pela cabeça, mas suspendi as minhas próprias indagações por causa desta estúpida resposta que dei a mim mesmo: Vamos primeiro fazer a canoa, e garanto que, de um modo ou de outro, darei um jeito de prosseguir com isso, quando ela estiver pronta.

Foi o método mais absurdo de se fazer algo, mas a ânsia da minha fantasia prevaleceu, e segui com o trabalho. Derrubei um cedro, e duvido muito de que Salomão tenha tido um igual para a construção de seu templo em Jerusalém… Não foi sem um infinito esforço que derrubei essa árvore; levei vinte dias cortando sua base… mais quatorze retirando galhos e ramos e a imensa e volumosa copa… custou-me mais um mês para lhe dar forma e dimensão… mais três meses para escavar a parte de dentro do tronco… até conseguir uma bela piroga… Fiquei extremamente feliz ao terminar o trabalho… Podem estar certo de que me custou uma labuta fatigante; nada mais restava a não ser levá-lo para a água, e se tivesse conseguido, não tenho dúvida de que iniciaria a viagem mais louca e a mais improvável jamais empreendida”

Por esses dois pontos, o fazer material e o guiar por uma insubstancialidade que no entanto é uma realidade simbólica é que vemos como Robinson sempre aparece como figura complementar a outro fundador do romance como entendemos, Dom Quixote, tanto na visão de Marthe Robert (Origens do romance, romance das origens) quanto na de Ian Watt (Mitos do individualismo moderno). Quixote e Robinson têm em comum, inclusive, como resultado dos seus destinos, a aparência estúridia e carnavalesca. Veja-se a auto-descrição de Robinson: “…se um outro inglês tivesse encontrado o homem que eu era na ocasião, morreria de medo, ou morreria de tanto rir; pois eu mesmo às vezes parava para me olhar, e não podia deixar de rir ao me imaginar passeando por Yorkshire com aquelas roupas e aqueles objetos. Divirtam-se com a seguinte descrição da minha aparência: Eu usava um chapelão, alto e disforme, feito de pele de cabra, com uma aba pendente na parte de trás para me proteger do sol… vestia também um casaco curto de pele de cabra, com as fraldas chegando até o meio das coxas, e um par de calções abertos nos joelhos… não possuía meias ou sapatos, mas eu havia feito um par de coisas, que mal sei do que chamar, parecidas com coturnos… eu usava um cinturaão de couro cru de cabras… em vez de espada e adaga, pendiam um serrote e uma machadinha. Eu tinha outro cinturão… que ia pendurado no ombro… Certa vez eu deixara a barba crescer até chegar ao cumprimento de quase vinte centímetros… agora eu a cortava rente, exceto o que crescia acima do lábio superior, que eu aparara e transformara em um comprido bigode maometano… não diria que o bigode era comprido o bastante para nele pendurar o meu chapéu, mas era monstruosamente longo e espesso, e alguém como um inglês morreria de medo ao vê-lo.”robinson_crusoe

3) Também é um capítulo à parte o texto enquanto performance de um narrador. Do aspecto material (a necessidade de economizar tinta, e por isso ter que se limitar aos aspectos mais relevantes, e escolher é narrar de fato) ao aspecto insubstancial e simbólico (criar suspense com certas antecipações, exortar moralmente, deter-se nos aspectos interessantes e surpreendentes), tudo configura uma consciência narrativa muito presente, uma teoria dentro da prática.

4) E como o romance é legível, como não cria dificuldades para qualquer leitor moderno medianamente informado.

5) Quanto a série “Crusoe”, que lástima, que ilha cenográfica, que luxo de cenário improvável para um náufrago. Que bobagem moderninha.

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defoe

record

01.09.09

“Mas a minha vida tomaria outro rumo, e talvez não seja inoportuno, para os que vão ler esta história, fazer uma simples observação, qual seja: quão frequentemente, no curso de nossas vidas, o mal que mais procuramos evitar, e o mais terrível de todos que poderiam se abater sobre nós, é repetidamente a única saída ou porta por meio da qual conseguimos emerigir da aflição em que estivemos mergulhados”.

ROBINSON CRUSOE tem todo aquele miolo (dos trabalhos e dos dias, ou seja, todo o esforço empreendedor de Robinson para ter lar, sustento e proteção na ilha) que pode desanimar o leitor que deseja aventura e ações (e que foi, entretanto, o aspecto que mais me chamou a atenção nessa releitura), e fazer com que ele desista do livro, só que sua etapa final, após o surgimento de Sexta-Feira é notavelmente movimentada e folhetinesca: começa com a famosíssima descoberta de uma pegada solitária, que infunde terrores em Robinson, de que sua ilha é menos deserta do que pensava. Ele descobre então que vários locais da ilha são usados para cerimônias de canibalismo. Após examinar os vestígios que os canibais deixam (eles vêm em canoas daquela porção de terra que nosso heroi supõe ser um continente, domínio dos espanhóis), acomete-o uma fúria homicida, querendo na proxima vez dar cabo de todos aqueles que praticam tais horrores. Mas o exame de consciência que se segue, de que ele não pode se arrogar um juiz, é todo muito interessante, principalmente pelo contraditório movimento da mente de Crusoe, debatendo-se com a “Providência Divina, em sua grande ordenação do mundo”: “que autoridade ou direito tinha eu para fazer as vezes de juiz e carrasco desses homens, tachando-os de criminosos?…Quanto essas pessoas me ofenderam, e que direito tinha eu de me envolver em suas promísculas disputas sangrentas?… portanto não se justificaria eu atacá-los. Isso apenas legitimaria a conduta dos espanhóis, em todas as atrocidades que cometeram na América, onde aniquilaram milhões dessas pessoas, as quais, mesmo sendo idólatras e selvagens, com vários rituais sangrentos e bárbaros em seus costumes, como o sacrifício de corpos humanos a seus ídolos, ainda assim, em relação aos espanhóis, eram completamente inocentes; e esse extermínio é comentado com enorme repulsa e abominação pelos próprios espanhóis de hoje em dia e por todas as demais nações cristãs da Europa, tido como uma mera carnificina, um desumano e sanguinário ato de crueldade, injustificável perante Deus ou o homem; de tal modo que o simples nome de um espanhol é presumido como medonho e terrível para todas as pessoas de humanidade ou de piedade cristã.”

A pegada e as descobertas subsequentes fazem com que ele viva em apreensão, veja-se por exemplo: “durante dois anos depois do ocorrido, creio que não disparei a espingarda uma só vez, apesar de nunca sair com ela”, com medo de fazer barulho e chamar atenção sobre sua presença na ilha. Essa obsessão com a possibilidade de ser capturado e ser canibalizado, se reflete até no seu trabalho: “creio firmemente que, se não tivesse havido a intervenção daqueles fatos, ou seja, o temor e o pavor aos selvagens, eu teria empreendido essa tarefa, e talvez a tivesse levado a cabo, pois raramente desistia de uma coisa sem tê-la exectuado, desde que estivesse suficientemente clara em minha cabeça para dar-lhe inicio.” Em outro trecho: “Minha pertrubação mental, durante esse intervalo de quinze ou dezesseis meses, era muito grande; dormia intranquilo, tinha sempre sonhos medonhos e costumava acordar no meio da noite, sobressaltado”.

Um outro navio encalha perto da ilha, mas da tripulação nenhum sinal (salvou-se indo para o possível continente em botes? pereceu? Crusoe vasculha o navio e só encontra cadáveres e um cachorro, e depois o corpo de um grumete vem dar à praia). Fantasiando esses náufragos, ele fica cada vez mais resolvido a aventurar-se naquelas terras distantes, não obstante os perigos inevitáveis.: “a minha malfadada mente, que sempre me deixava claro que nasci para desgraçar o meu corpo, passou esses dois anos inteiros repleta de projetose tramando um modo, se possível, de me tirar daquela ilha (…) sou um bom exemplo para aqueles que sofrem de um mal característico dos homens, ormeio do qual se dão quase todas as suas desgraças; eu me refiro àqueles que não se satisfazem com o lugar em que Deus e a natureza os colocaram; não refletir sobre a minha situação inicial e os excelentes conselhos do meu pai, e opor-me a isso foi, por assim dizer, o meu pecado original” (quer dizer,o pecado original do empreendedorismo burguês).

Robinson tem um sonho premonitário, no qual salva um selvagem dos rituais canibalescos,este lhe é grato eternamente, tornando-se seu criado fiel e um companheiro na solidão da ilha (depois ele multiplica, na sua fantasia, o número de selvagens que lhe devem a vida e lhe prestam vassalagem). E o sonho se concretiza: ele salva Sexta-Feira, o qual, após 20 e tantos anos na ilha se torna sua primeira companhia humana, “sujeitomuito vistoso, membros fortes, alto, bem-proporcionado, e, segundo avaliei, com cerca de 26 anos [Robinson já é um cinquentão a essa altura] de idade. Tinha a fisionomia bastante agradável e não parecia feroz ou rude, apesar de o rosto ter uma aparência viril, mesmo assim apresentava toda a doçura e suavidade de um europeu [ops], principalmente quando sorria… e os olhos reluzentes de grande vivacidade e inteligência. A cor da pele não era exatamente preta, mas castanho-amarelada, porém sem o feio e desagradável tom amarelado do bronze, como a dos nativos do Brasil e da Virgínia e outros da América; mas de uma especie reluzente de um oliva pardacento, que possuía algo de agradável, porem não muito fácil de se descrever.”

Os colóquios sobre Deus e a salvação cristã entre ambos estao entre os melhores momentos do livro (“com suas sérias indagações e questinamentos, tornou-me um conhecedor mais profundo das Escrituras do que teria sido por minha simples leitura particular”), só que em termos de folhetim o que mais interessa é que Sexta-Feira revela que os náufragos daquele outro navio (em número de 16) estão vivendo com o seu povo, o que torna Crusoe ainda mais determinado a se aventurar no continente. Contudo, antes que isso se efetive, ele tem a oportunidade de salvar um dos espanhóis náufragos, que é trazido à ilha para ser devorado. Há uma escaramuça, Robinson e Sexta-Feira acabam libertando não só o europeu como também o pai do comapnheiro de Crusoe, que também fora capturado: “Minha ilha agora estava povoada. Eu me via repleto de súditos e frequentemente fazia esta feliz reflexão: como eu era parecido com um rei. Antes de mais nada, toda a terra era de minha única propriedade, portanto tinha o indiscutível direito de autoridade soberana. Em segundo lugar, a população era totalmente subjugada: eu era senhor e legislador absoluto; todos deviam a vida a mim e estaam dispostos a abrir mão dela em meu benefício, se fosse necessário. Igualmente notavel era o fato de eu ter três súditos de três religiões diferentes. Meu criado Sexta-Feira era protestante, seu pai era pagão e canibal, e o espanhol, papista; contudo eu permitia a liberdade de pensamento em meus domínios.” Não preciso fazer nenhum comentário sobre esta incrível passagem.

Robinson então resolve trazer os outros espanhóis para sua ilha, preparando antes provisões suficientes para não haver penúria ou fome. Manda o espanhol e o pai de Sexta-Feira levar uma proposta: se eles estiverem dispostos a obedecê-lo, ele os proverá e assim construirão um navio e todos ficarão livres, desde que o levem não para as inquisitorias terras espanholas e sim para nações menos ameaçadoras para um protestante.

Na ausência dos dois, surge um inesperado novo navio…

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02.09,09

“tudo o que acontecera parecia ser uma sucessão de milagres…acontecimentos assim ram provas de que havia a mão secreta da Providência Diina governando o mundo…”

“Que ninguém despreze as secretas indicações e os avisos de perigo que às vezes recebemos, imaginano que não haja possibilidade de serem verdadeiros. Acredito que poucos observadores possam negar que tais indicações e avisos nos sejam dados; não podemos duvidar de que são, certamente, revelações de um mundo invisível, uma inegável conversa de espíritos e se sua intenção parece ser a de nos alertar de um perigo, por que não supor que se trata de agentes amistosos, sejam eles supremos, inferiores ou subordinados? Isso não importa, já que pretendem o nosso bem”.

Resta saber, a respeito de um trecho como o citado acima, se essa preocupação dos “agentes amistosos” se estende á humanidade em geral ou apenas ao empreendedor inglês.

Na reta final, Robinson deixa de lado os espanhóis e o pai de Sexta-Feira e após salvar o capitão do navio inglês que apareceu na ilha (páginas muito movimentadas), deixa um grupo de amotinados na ilha (após lhes explicar os mecanismos de sobrevivência que pôs a funcionar durante 28 anos) e parte com Sexta-Feira.

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Devo dizer que em todas essas páginas senti um tom tão esquisito que beirava a auto-paródia, embora não seja o caso, um tom que lembra Cervantes ao mostrar os ridículos do seu personagem, ou das comédias de Shakespeare. A pose de Robinson de “governador da ilha” (“após algum tempo, apareci, vestido coma minha roupa nova e sendo chamado novamente de governador“), Sua Excelência, sem contar generalíssimo movimentando suas tropas contra os amotinados, é mais para ser acompanhada de forma jocosa e cômica do que a sério. Ou será que foi o tempo que trouxe esse tom ao relato?: “avancei imediatamente com todo o meu exército, agora composto de oito homens: eu mesmo, o generalíssimo, Sexta-Feira, o meu lugar-tenente, o capitão e seus dois companheiros e os três prisioneiros de guerra, a quem foram confiadas armas”.

A despedida da ilha (ele voltará anos depois para reivindicá-la como propriedade sua e organizar seu povoamento): “Ao deixar a ilha, levei no navio, como lembrança, o grande chapéu de cabra que fizera, o guarda-sol e o papagaio; também não me esqueci do dinheiro mencionado anteriormente, que, por permanecer longo tempo comigo sem qualquer utilidade, ficara enferrujado ou embaçado…. E assim, deixei a ilha no dia 19 de dezembro, como vim a saber pelo registro do navio, do ano de 1686, depois de ter estado nela 28 anos, dois meses e 19 dias… Ao fim de uma longa viagem de navio, cheguei à Inglaterra nodia 11 de junho do ano de 1687, depois de 325 anos ausente”.

O resto do relato, pelo menos nessa edição da Bestbolso a qual venho comentando (há discrepãncias em todas as edições consultadas) é muito antipático, porém revelador: Robinson se preocupa com sua situação financeira, vai a Lisboa para saber em que pé andam seus bens e sua propriedade no Brasil, e entramos em pormenores delirantes a respeito de todas essas questões comerciais. O traço mais interessante dessas negociações é o desejo perene de voltar a se estabelecer no Brasil freado por escrúpulos religiosos, pela má vontade de viver (e principalmente morrer como papista): “Mas outros escrúpulos, os de motivação religiosa, se colocavam em meu caminho, pois alimentava dúvidas sobre a religião católica romana,mesmo quando estava no exterior e, principalmente, na minha temporada de solidão; portanto, sabia que não adiantaria voltar ao Brasil, muito menos me estabelecer por lá, a não ser que resolvesse abraçar sem qualquer reserva a religião católica romana; ou, por outro lado, resolvesse me sacrificar pelos meus princípios, tornar-me um mártir religioso e morrer na Inquisição; por isso decidi ficar em casa…”

O que há exatamente de antipático nessa parte final do relato? O que me incomoda é a falta de sabedoria de Robinson. Ele,que viveu tanto tempo solitário e extraiu do seu trabalho a sua sobrevivência, fica muito à vontade como “grande senhor”, não ha nunca um momento de dúvida, de auto-questionamento. A viagem que ele relata, por terra (ficou cismado com as viagens marítimas, que ele só vai retomar anos depois, com um sobrinho), de Lisboa até Calais (onde atravessaria o canal da Mancha) esfumaça os 28 anos de experiência da solidão, do despojamento e do desnudamento psicológico (isso sou eu que estou afirmando, eu, indivíduo do século XXI, que pouco tenho a ver com essa mentalidade pragmática e utilitarista do século XVII, embora eu tenha a suspeita de que Robinson seria muito bem compreendido em nossa época de consumo e percepção descartável):“Como estava predisposto contra uma viagem por mar, exceto entre Calais e Dover, decidi fazer toda a viagem por terra, já que seria muito mais agradável, pois não tinha pressa e não me importava com o custo… no todo, éramos seis, e mais cincocriados… consegui um marinheiro inglês para vijar como meu criado, além de Sexta-Feira,que era inexperiente demais para pder suprir o posto de um criado em uma viagem por terra. Dessa maneira, parti de Lisboa e, como nosso grupo estava muito bem preparado e guarnecido, formávamos um pequeno exército, do qual fizeram a honra de chamar de capitão, já que era o mais velho e tinha dois criados além de ter motivado aquela viagem”. Nem quero entrar em detalhes sobre a grotesca brincadeira de um apalhaçado Sexta-Feira, para divertir os europeus, atormentando e matando um urso. O que fica evidente no final de ROBINSON CRUSOE não é mais a engenhosidade humana, suas misérias e grandezas, físicas e simbólicas, numa situação-limite, e sim o perfil do homem do imperialismo inglês movimentando-se pelo mundo com toda sua empáfia e mentalidade utilitarista e predatória. Isso não diminui em nada o escopo do romance de Defoe, uma das releituras mais proveitosas e interessantes que já fiz, mas que dá o que pensar, isso dá.

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