MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/04/2013

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

LYGIA

   

antes do baile verde

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http://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

(as anotações abaixo foram escritas em maio de 2009)

A POÉTICA DO SORRATEIRO

“Assim que comecei a usar a lupa… levei um susto, então era a cara de um inseto debaixo da lente? Fiquei apavorada, aumentados eles eram horríveis! Fui me acostumando quando fui achando que todos esses insetos eram parecidos com a gente nas suas festas. Nas suas brigas. Trabalhavam sem parar e também vadiavam como naqueles ajuntamentos de domingo no largo do Jardim, gostavam de se divertir. E gostavam de brigar e algumas brigas ficavam tão feias que eu fugia com vontade de vomitar. Debaixo da lente era medonho demais”.

(trecho de “A rosa verde”, de A noite escura e mais eu)

Lygia Fagundes Telles está em nova casa editorial. Após a José Olympio, a Nova Fronteira e a Rocco, migrações que fui acompanhando desde os meus 16 ou 17 anos, agora ela está no rol da Companhia das Letras. De saída, foram lançados três dos seus melhores livros: Antes do baile verde, seleção de contos (1970), eque será o assunto desta seção, As meninas, seu romance mais prestigiado (1973),  e Invenção e Memória, seu melhor livro recente.

Por uma questão cronológica  começo com Antes do baile verde.  Lygia nunca foi uma escritora prolífica em obra, sempre o foi mais em títulos. Excelente estrategista, foi sempre uma antologista de si mesma, recambiando contos daqui e dali e reconfigurando sua carreira. Que fique claro, isso não é uma crítica.

Por exemplo, Antes do baile verde, em 1970, era uma espécie de antologia que Lygia F. Telles fazia de seus livros anteriores (há uma seleção chamada Histórias escolhidas, anos antes, mas parece que foi feita pelos editores e não por ela), a primeira de muitas vezes em que fez isso. Hoje a Companhia das Letras publica uma obra com 18 contos (vários deles dos melhores que ela escreveu). A princípio eram 15: de 1949, da sua coletânea O cacto vermelho, ela escolhera três (“O menino”, “Os mortos” e “Olho de vidro”), de 1958, de Histórias do Desencontro foram cinco (“Natal na barca”, “A ceia”, “Venha ver o pôr do sol”, “Eu era mudo e só”, “As pérolas”), de 1965, de  O jardim selvagem foram outros cinco (“Antes do baile verde”, “A caçada”, “A chave”, “Meia-noite em ponto em Xangai”, “A janela”) e havia contos de antologias (“Os objetos” e “O moço do saxofone”).

Com a repercussão, numa 2a. edição, ela incluiu mais cinco: “Verde lagarto amarelo”, “Apenas um saxofone”, “Helga”, “Um chá bem forte e três xícaras”, “O jardim selvagem”, excelentes escolhas.  Assim, durante anos, ele foi republicado com vinte contos (pelo menos, é assim nas edições que tenho, uma do Círculo do Livro, outra –a oitava–  da José Olympio).

Na reedição da Companhia das Letras saíram “Os mortos” e “Olho de Vidro”. Da safra mais antiga, só permaneceu o belissimo “O menino”. Mesmo assim, o livro abrange uma produção entre 1949-1970.

lygiajovem

Bem, após essas considerações de gente minuciosa demais, podemos passar aos textos da seleção (depois haveria muitas outras, Filhos pródigos, que virou A estrutura da bolha de sabão; Mistérios, seleção de contos “fantásticos” e outras tantas, que não podem ser confundidas com as –poucas– coletâneas de textos novos). Resolvi tomar o seguinte caminho, já que adoro o livro e sou profundo admirador dos contos de Lygia F. Telles (dos seus romances também, mas com certeza ele é fundamentalmente uma contista): vou tentar sintetizar a atmosfera e o charme de Antes do baile verde como um todo através dos comentários sobre um conto típico, no caso, “Um chá bem forte  e três xícaras” (da safra de 1965). A primeira coisa que chama a atenção num leitor de 2009 (principalmente os mais jovens e/ou que não conhecem a obra de Lygia) é a atmosfera recôndita, que tem agora um quê de nostalgia, por tratar-se de um tempo já passado, que se revestiu de uma aura quase proustiana: imaginem casas com jardins espaçosos, vizinhos que ficam treinando piano, chás, empregadas zelosas… Parece a atmosfera de textos de Somerset Maugham, ou, mais contemporaneamente, Tennessee Williams (embora o paralelo mais pertinente, a meu ver, na evolução de Lygia seja com a obra de Truman Capote, aspecto que terei oportunidade de desenvolver durante esta semana; a essa altura, ela se identifica com o primeiro Capote, aquele de Outras terras, outras gentes e A harpa de ervas).

O conto começa com uma borboleta pousando numa roseira e sugando o âmago de uma flor. Maria Camila está no jardim da sua casa, conversando com a empregada, que está debruçada na janela. As duas falam da borboleta, das rosas (a empregada nota que a rosa “abriu ontem cedo” e já está murchando, e nada deve ser desconsiderado nesse texto, inclusive que parece estar dizendo respeito à patroa). A atmosfera é aparentemente bucólica e idílica: “Havia uma  poeira de ouro em suspensão no ar”. A empregada, Matilde, está tentando pregar uma alça, mas falta um botão, a patroa lhe diz que pegue outro na sua caixa, mas na verdade impede-a de ir, comentando coisas e mais coisas, aparentemente triviais.

Depois de esgotarem o assunto da borboleta e da rosa, Matilde pergunta se a patroa não quer que traga o chá. Maria Camila diz que está esperando “a menina”, que ficou de aparecer às cinco (que coisa mais inglesa, mais civilizada, evocando a cerimônia do chá das cinco, algo que lembra decoro, boa educação, berço). No silêncio da tarde o zumbido de uma abelha avulta e um riso de criança ouvido ao longe (não há criança na casa). A empregada pergunta se conhece a tal menina.  Maria Camila diz que não e perguntada sobre a idade da convidada, diz: “Uns dezoito”. Resposta de Matilde: “Mas então não é menina“, destruindo a idéia inofensiva e pueril (no sentido literal) que o termo escolhido, “a menina”, poderia evocar nessa tarde de jardins, chás, borboletas e rosas (mas sem crianças e com a maldita abelha zumbindo, e a rosa fanando…aliás, Maria Camila comenta desgostosamente que chega a ser obsceno ver aquela borboleta sugando aquela flor).

Com barulhos vindo da rua, a borboleta alça voo e Maria Camila faz o gesto de tocar a corola da flor: “Não chegou a tocá-la. Recolheu as mãos e ficou olhando para as veias intumescidas com a mesma expressão com que olhara para a rosa”. Matilde pergunta se a visitante é “conhecida do doutor” (primeira referência ao marido). “Trabalham juntos” e o conto vai tomando nova feição. A moça é estagiária no laboratório em que o dono da casa trabalha. E a senhora conhece ela, pergunta Matilde. “Já vi de longe“. Matilde: “Então é essa que às vezes telefona para ele“.  “Deve ser, sussurrou Maria Camila apanhando a pétala que caíra na relva. Levou-a aos lábios que estavam  lívidos: Deve ser”. Os lábios que estavam lívidos já nos transmitem, sorrateiramente, toda informação que precisávamos sobre a reação de Maria Camila aos telefonemas da estagiária. E os termos da empregada: “essa”, por exemplo.

Matilde insiste no assunto dos telefonemas. Maria Camila: “Os velhos, os mais velhos gostam da companhia dos jovens, acrescentou… dilacerando a pétala entre os dedos”. Aí ela passa para o assunto do menino treinando piano no vizinho, antes era violino. Nisso passa uma adolescente na rua: “[Maria Camila] ficou seguindo com o olhar congelado uma adolescente que passava na calçada. Franziu a cara como se enfrentasse o sol”. E Matilde volta à carga: “Como e que ela se chama? Essa do chá…” Maria Camila lembra do botão que ela tem de pegar na caixa para  pregar a alça. Maria Camila conversa com a rosa, pergunta o que deve fazer agora, passando a pensar logo em seguida: “Augusto, Augusto, o que eu faço agora?” A empregada volta com um botão, conversam sobre o avançar da tarde, Maria Camila ri de repente: “Acho a vida tão maravilhosa!”, surpreendendo a empregada.  O menino pára de tocar. Maria Camila fica alerta.  Olha o relógio, ordena a Matilde: “Assim que a moça chegar, sirva o chá aqui mesmo, faça um chá bem forte. E traga três xícaras”. “Mas se é só a senhora e ela…”  Na verdade, a patroa também espera o patrão, “o doutor”, ele deve aparecer. Nesse assomo de energia: “Quero os guardanapos novos, não vá esquecer, hein? Os novos.” Passos ressoam na calçada, deve ser a menina, “essa” que telefona, a estagiária, aquela contra o qual os exércitos de Maria Camila devem estar alinhados (o chá bem forte, a sua bonita e arrumada casa, os guardanapos novos), a amante do marido: “Maria Camila levantou a cabeça. E caminhou decidida em direção ao portão“.

Não é preciso uma revelação bombástica, uma cena de dramalhão, um elemento a mais, para indicar essa cumplicidade meio hipócrita da empregada com a patroa, a distância social jamais sendo preenchida, porém a convivência obrigando a “aludir” a uma situação intolerável. Acho esse conto sensacional.

O esquema de “Um chá bem forte e três xícaras” se repete no bem mais (e merecidamente) famoso “Antes do baile verde”, o conto-título,  ainda que com modulações diferentes: ainda é a surda cumplicidade hipócrita com a empregada, da moça com o pai moribundo e que não quer se sentir culpada por ir pular o carnaval. (acho que não é ocioso anotar aqui que Clarice Lispector também tem um pequeno grande texto que aproxima carnaval e morte, “Restos do carnaval”, de Felicidade clandestina, uma seleção que ocupa na obra clariceana de certa forma a mesma posição de Antes do baile verde; ressalte-se que no conto de Lygia é o pai, no de Clarice, a mãe). E analisando friamente, trata-se de uma arcabouço paradigmático:  boa parte dos textos de Antes do baile verde são estruturados em torno de um diálogo entre duas pessoas, uma das quais é marcadamente frágil se flagrada num confronto direto, por isso os confrontos lygeanos são sinuosos e mediados. Temos os irmãos,o introspectivo e inadaptado Rodolfo e o bem sucedido Eduardo de “Verde lagarto amarelo” (confesso que acho esse título meio forçado), o casal (?) de “Os objetos” (um conto onde  o personagem mais frágil se agarra a objetos “arredondados” e hospitaleiros porém sua atenção, sabemos depois, está no focada no objeto com arestas, que não convida, que não conforta: uma adaga), temos os casais de “A chave” (na verdade, é um confronto desdobrado, entre o personagem masculino e a mulher mais velha que ele abandonou e a mulher mais jovem que ele não consegue acompanhar em sua vida social), de “A ceia” (conto belíssimo, em que uma mulher abandonada dá vexame num restaurante que está quase fechando), “As pérolas” (o homem que foi  “apoltronado” pelo casamento que debate com sua esposa se deve ou não participar de sua vida social) e assim por diante.

Lygia_FAGUNDES_TELLES

A coisa fica mais dramática e menos sorrateira nos confrontos de “Venha ver o pôr do sol”, onde o amante abandonado, à Poe, tranca a ex-amada num sepulcro, após atraí-la com a  lorota da “despedida civilizada” (esse conto foi um dos primeiros que li de Lygia e me impressionou fortemente e até hoje resiste a qualquer revisão); de “Natal na barca” (onde o narrador tem de passar por uma experiência de fé e espiritualidade, para o qual não está preparado); do excepcional “O moço do saxofone” (onde o caminhoneiro quer transar também com a “fácil” mulher do saxofonista, mas acha intolerável que ela infrinja tal sofrimento ao companheiro); do clássico “O menino”, em que sorrateira é a mãe que leva o filho ao cinema onde vai encontrar o amante, e que desperta violentas emoções edipianas e vingativas no rebento, que nunca mais vai ver o filme da vida da mesma maneira. E talvez o mais violento confronto de todos seja o da diva da ópera com o seu “invisível” e por isso perfeito criado chinês no estupendo “Meia-noite em ponto em Xangai”, que para mim seria o ponto alto da seleção se ela não estivesse coalhada de pontos altos (eu não consigo me decidir  quais os melhores, só identifico os de voltagem mais fraca).

Há os contos-monólogos que, no fundo, são diálogos truncados com seres ausentes: é o caso dos maravilhosos “Apenas um saxofone” (a ricaça que subiu na vida explorando os homens e que, tendo sugado o poético e viril saxofonista, com o suicídio dele, pode decorar e redecorar com todo o mau gosto do mundo a sua mansão que não vai recuperar os “dias de saxofone”) e o brasileiro, descendente de alemã, que se incorporou à juventude nazista e que, após a guerra, para dar um grande golpe envolvendo tráfico de penicilina, rouba a perna ortopédica da mulher que ele depois descobre amar intensamente, isso nas convulsões de consciência de homem muito rico (em “Helga”). Pode-se perceber que a perversidade à Nélson Rodrigues não é estranha à Lygia F. Telles. Só é mais elegante.

Dois contos escapam do paradigma confronto seja pela presença ou pela ausência, e são ambos famosos: “A caçada” me impressionou muito há duas décadas, hoje já li coisas mais misteriosas e instigantes, mas ainda acho a atmosfera e construção do texto dignas de figurarem numa aula sobre os princípios básicos do gênero, particularmente o efeito. Hoje em dia, portanto, tenho mais uma admiração técnica pela história do freguês que fica fascinado com uma tapeçaria toda puída representando uma caçada e que é engolfado por ela contemplação após contemplação. Se Lygia tivesse a repercussão de um Cortazar hoje esse seria um conto universalmente estudado. O outro conto se manteve mais forte, para mim: “O jardim selvagem”, a definição que o tio (tão mimado pela tia da narradora) dá à sua esposa, Daniela, que anda sempre com uma luva numa das mãos, que toma banho pelada na cascata, que monta em pêlo, e que pratica eutanásia num cão velho e doente, com um tiro de misericórdia. O tio descobre que está com uma doença terminal e no final a narradora fica sabendo (há muita conversa de comadre no texto, conversa de cozinha, diz-que-diz) que ele se matou com um tiro. Será que se matou mesmo (o que é possível, com um homem casado com um “jardim selvagem”, portanto vivo e implacável, incapaz de dar espaço à fraqueza e à tibieza) ou foi misericordiosa e decididamente morto pela esposa? Isso importa? O que importa é que na vida da narradora adolescente, envolvida pelo adocicamento (doces, doces, doces) e pelo decoro, insinua-se, sorrateira, a peçonha do incivilizado, do indecoroso, do imprevisível. E são sempre famílias que já tiveram tostão e que agora se mantêm dignamente. Os muito ricos em Lygia são as putas que venceram na vida, os traficantes de penicilina que roubaram a perna da amada…

 

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