21 de maio- Na minha opinião, Dalton Trevisan é nosso maior autor vivo, por isso nada mais merecido do que o Camões, que já premiou tanta gente inferior a ele. E quem sabe não venha o Nobel?
Incansável, ele como escritor tem mais energia do que eu como leitor. Estou desatualizadíssimo com a produção (incessante) de Dalton Trevisan. Mas seus clássicos, eu não esqueço (O vampiro de Curitiba, O pássaro das cinco asas, Cemitério de elefantes, A trombeta do anjo vingador, Virgem loucas loucos beijos, o inusitado e genial “romance” que é A polaquinha).
18 de maio- Aproveitando a publicação da minha resenha sobre Walt Whitman, não posso deixar de apontar o inestimável levantamento (com a contribuição de seus leitores, inclusive, o que torna tudo mais interessante) que Denise Bottmann fez nos últimos dias das traduções brasileiras de Walt Whitman.
Os interessados podem acessar em: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/05/walt-whitman-no-brasil.html
16 de maio- Não poderia deixar passar em branco a morte de Carlos Fuentes (ontem, 15 de maio), apesar de ter sentimentos ambivalentes a respeito da sua obra como um todo. Por coincidência, entretanto, este ano fiz uma releitura de dois dos seus melhores trabalhos, ambos cinquentenários (foram lançados em 1962), Aura (numa resenha para A TRIBUNA de Santos) e A morte de Artemio Cruz (num pequeno estudo escrito especialmente para a dEsEnrEdos de abril-maio-junho deste ano) e justamente por esses dias iniciei a leitura do mais recente livro dele traduzido no nosso país, Adão no Éden.
Fuentes tem livros extremamente bonitos, como os dois clássicos já citados, mais Gringo Velho, A fronteira de cristal, A laranjeira, Todas as famílias felizes (os que me vem logo à memória) e textos montanhas-russas com altos e baixos, e que tendem a ser ou superestimados ou subvalorizados como Terra Nostra, Cristóvão Nonato, A vontade e a fortuna.
Mas acho que é um dos autores que ficarão.
.14 de abril de 2012- Hoje o blog chega ao seu terceiro ano. E, como sempre, só me resta agradecer aos visitantes. Quando olhei há alguns minutos, totalizavam 270 mil.
No ano passado, comemorei a data publicando resenhas sobre Eça de Queiroz. Este ano, tive o prazer de ler o novo livro de Ricardo Lísias, um dos melhores autores atuais, e aproveito para publicar as duas resenhas que escrevi para veículos diferentes sobre O céu dos suicidas.
Aliás, nesta semana, minha colujna semanal em A TRIBUNA de Santos (Caderno Galeria) completou, ufa!, dezenove anos. E justamente com o comentário a respeito do romance de Lísias.
Obrigado a ele por escrever tão bem e a todos que me visitam.
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28 de março de 2012- Graças ao engenho e arte de Millôr Fernandes, eu já ri tanto, já tive tantos momentos de leitura em que via misturadas leveza, agudeza e um senso do ridículo quase machadiano, que não sei muito como homenagear esse grande mestre do humor, do olho clínico (além de um tradutor maravilhoso). Roubo aqui e ali alguns momentos:
O Rei dos Animais
Millôr Fernandes
Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: “Hei, você aí, macaco – quem é o rei dos animais?” O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: “Claro que é você, Leão, claro que é você!”.
Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: “Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?” E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: “Currupaco… não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?”.
Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: “Coruja, não sou eu o maioral da mata?” “Sim, és tu”, disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. “Tigre, – disse em voz de estentor -eu sou o rei da floresta. Certo?” O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: “Sim”. E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.
Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: “Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?” O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: “Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado”.
M O R A L: CADA UM TIRA DOS ACONTECIMENTOS A CONCLUSÃO QUE BEM ENTENDE.
Poeminha Tentando Justificar Minha Incultura Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono,
Pego no sono.
Millôr Fernandes, in “Pif-Paf”
Poeminha de Insatisfação Absoluta O que me dói
É que quando está tudo acabado
Pronto pronto
Não há nada acabado
Nem pronto pronto
Pintou-me a casa toda
Está tudo limpado
O armário fechado
A roupa arrumada
Tudo belo, perfeito.
E no mesmo instante
Em que aperfeiçoamos a perfeição
Uma lasca diminuta, ténue, microscópica,
Não sei onde,
Está começando
Na pintura da casa
E as traças, não sei onde,
Estão batendo asas
E a poeira, em geral, está caindo invisível,
E a ferrugem está comendo não sei quê
E não há jeito de parar.
Millôr Fernandes, in “Pif-Paf”
ete de fevereiro- Publiquei hoje o post 500 e só podia ser uma homenagem a Júlio Verne, meu autor favorito da infãncia, mesmo porque amanhã é o dia Verne (data do seu nascimento) e ele é o campeão entre os autores comentados por aqui, o mais acessado. Nele, abordo um livro menos conhecido, UMA CIDADE FLUTUANTE, onde vemos aquele movimento transatlântico que caracterizou a carreira de alguns escritores marcantes do século XIX, que !descobriram” a América, caso de Dickens e Wilde, entre outros.
tres de fevereiro- Através de comentários dos leitores, tive a informação–com dois dias de atraso–da morte da grande Wislawa Szymborska, aos 88 anos, cuja poesia me acompanhou em viagem no ano passado, e foi em si mesma uma grande viagem para mim em 2011. Recomendo enfaticamente.
05 de janeiro de 2012
Caros amigos, no meu post sobre os destaques de 2012, entre os quais incluí a tradução de Marcelo Backes (ótimo tradutor, cujo trabalho acompanho há anos) para OS SONÂMBULOS, de Hermann Broch, fiz um pequeno reparo a um determinado trecho.
O mais que consciente da importância do seu trabalho Backes enviou-me o seguinte comentário (para não ficar perdido, transcrevo-o aqui), que funciona como um oportuno esclarecimento:
Caro Alfredo!
Parabéns pelo blog e pelas excelentes leituras.
Alguém me escreveu dizendo que citaste um erro crasso na minha tradução de Broch.
Li o que escreveste e até me assustei; fui logo ao documento em word que mandei à editora e, mais uma vez, o erro foi do revisor; tenho até um personagem que vive a sacanear a classe dos revisores em “três traidores e uns outros”, porque constantemente eu, o autor, sou vítima deles quando traduzo.
Entreguei o trecho que referiste da seguinte forma: “No dia seguinte, ele soubera do médico que havia sofrido um traumatismo craniano, e ficara muito orgulhoso disso. Helmuth estava sentado em sua cama, e ainda que Joachim soubesse que o pônei fora abatido com um tiro pelo pai, eles não disseram uma palavra a respeito, e mais uma vez foi uma época boa….” Foi apenas para o revisor que o pônei sofreu o traumatismo craniano. Não sou Pilatos, mas lavo – e de coração dolorido – as minhas mãos, tornando pública a discussão, e ademais garantindo que a tradução portuguesa apara em demasia as arestas do original.
Abraço
Marcelo Backes
Desta forma, meu leitor também fica esclarecido a respeito da questão e cabe à editora sanar esses deslizes imperdoáveis.
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20 de outubro de 2011
“não há perguntas mais urgentes
do que as perguntas ingênuas” (Wiswala Szymborska)
O blog está meio devagar em suas postagens porque estou em férias, longe de casa. Mas gostaria de compartilhar com meus leitores pelo menos um poema da minha companheira de viagem, a polonesa Wislawa Zzymborka (em tradução de Regina Przybycien), apesar de ter vontade de transcrever vários outros:
O quarto do suicida
Vocês devem achar que o quarto estava vazio.
Pois havia ali três cadeiras de encosto firme.
Uma boa lâmpada contra a escuridão.
Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, joranis.
Um buda alegre, um Jesus aflito.
Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?
Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Pois lá estava o trompete consoador nas mãos negras.
Saskia com uma for cordial.
Alegria, centelha divina.
Na estante Ulisses, num sono reparador
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os moralistas,
seus nomes inscritos em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Ao lado, também os políticos perfilados.
Não parecia que o quarto fosse
sem saída, pelo menos pela porta,
nem sem vista, pelo menos pela janela.
Os óculos para onge largados no parapeito.
Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva.
Devem achar que ao menos a carta explicasse algo.
E se eu lhes disser que não havia carta–
éramos tantos os amigos e coubemos todos
no envelope vazio apoiado ao lado do copo.”
06 de outubro de 2011- É sempre meio frustrante quando há o anúncio do Nobel e não conhecemos nada do autor, ainda mais depois de vários anos em que isso não acontecia: de 2005 para cá (após a vitória, no ano anterior, da “desconhecida” Elfriede Jelinek) ganharam Harold Pinter (cujas peças eu sempre admirei), Orhan Pamuk (pelo menos tinha lido O castelo branco), Doris Lessing (de quem eu já lera 20 e poucos livros), J.M.G. Le Clézio (já lera três romances), Herta Müller (não lera, mas tinha O compromisso, e portanto estava à mão conhecer sua obra), Vargas Llosa (outro de quem eu já lera 20 e poucos livros).
Era previsível que um poeta ganhasse este anos, após o teatro e a ficção terem sido privilegiados anos a fio (como se pode deduzir da pequena lista acima). Infelizmente, não posso contribuir com nenhum comentário pessoal sobre o ganhador Tomas Tranströmer. Apenas posso reproduzir os dois únicos poemas dele que conheço, em tradução do português Luiz Costa:
19 de setembro de 2011- O título do meu post em homenagem ao grande William Golding é uma brincadeira com o título brasileiro do divertido romance de Joseph Heller Gold vale ouro (no original, Good as Gold),.
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20 de junho de 2011- Fiquei tão ocupado com Jung e Vila-Matas nas últimas semanas que só fiquei sabendo da morte de Jorge Semprun, por acaso, folheando a Veja na casa dos meus pais. Então, demorou um pouco, mas acabei escrevendo para “A Tribuna” uma resenha-homenagem, e não poderia faltar, pois na minha trajetória pessoal de leitor, Semprun é central. Mesmo assim, devo dizer que fiquei curioso a respeito do destaque dado pela “Veja” ao seu passamento: uma página inteira. O pobre Ernesto Sabato mereceu apenas uma notinha, e o caso José Saramago foi escandaloso: o autor da língua portuguesa mais prestigiado das últimas décadas mereceu meia-página. Mas é claro, Saramago era renitentemente comunista, enquanto que Semprun–como Vargas Llosa–inclinou-se cada vez mais para um anti-esquerdismo (embora, se formos precisos, nem ele nem o peruano podem ser rotulados tão facilmente assim). É por isso que, apesar do tanto que admiro o autor de Autobiografia de Federico Sanchez me irritei, pois não há uma avaliação mínima do seu valor literário no texto da Veja, só se destaca seu rompimento com o comunismo. Eta revista chinfrim!
primeiro de maio – Só soube da morte do grande Ernesto Sabato lá pela hora do almoço, quando fui na casa dos meus pais. Até lá, o dia estava dominado pela expectativa do jogo Corinthians X Palmeiras.
Sabato foi um dos primeiros autores que amei seriamente. Li “O túnel” em 1981 e “Sobre heróis e tumbas” , “Abadon, o exterminador” e “O escritor e seus fantasmas” em 1982, portanto são 30 anos de uma convivência que às vezes se tornou difícil, pois como todas as verdadeiras relações, não faltavam atritos, conflitos e questionamentos. Contudo, para se ver como ele foi importante para mim, no meu projeto inicial de mestrado “Sobre heróis e tumbas” era um dos livros focalizados (depois seria tema de um curso).
Sabato não chegou aos 100 anos, que faria dia 24 de junho. Mas tem tudo para sobreviver ao longo de muitos outros centenários.
10 de abril de 2011-
Antes de mais nada, adeus Sidney Lumet, grande mestre de uma arte quase perdida: saber tirar o máximo de um texto, tirar o máximo dos atores e ter um assunto, uma causa… Hoje parece ter valor um trabalho conteudístico, um vigor de temas com contornos mais tradicionais, mas se houve um apogeu dessa forma de fazer filmes, ao mesmo tempo popular e difícil, um de seus mestres foi esse realizador notável que faleceu ontem.
Para mim, sua obra-prima é Network-Rede de Intrigas (1976), que me impressionou quando eu era garoto, e que revi há pouco, para continuo admirando (é um tremendo momento para William Holden, secundado por Peter Finch e Faye Dunaway,num texto excepcional de Paddy Chayefski). Da mesma safra, acho que Um dia de cão, que também tinha me impressionado, me deixado de boca aberta, envelheceu um pouco, mesmo assim gosto bastante do filme.
Tem os mais antigos e memoráveis Doze homens e uma sentença, Limite de segurança, O homem do prego, a adaptação inesquecível de Longa jornada noite adentro, todos eles com um preto e branco denso, e uma austeridade que os torna quase atemporais.
Tem o belíssimo O veredito (muito melhor que os outros concorrentes a melhor filme no Oscar de 1982: Gandhi, E.T., Tootsie e Missing). Por mais que se tenha visto filmes de tribunal, é um trabalho brilhante (e a cena do depoimento de Lindsay Crouse inesquecível; aliás, Crouse também está memorável no meu outro filme favorito de Lumet, Daniel, altíssimo momento do cinema político norte-americano; outo exemplar dessa linha e que eu adoro é Running on empty, com River Phoenix,Christina Lahti, Judd Hirsch e Steven Hill, todos bárbaros).
E pensar que Network perdeu o Oscar para “Rocky” e Lumet para John Gl Alvidsen (quem?) e O veredito perdeu para o xaroposo “Gandhi” e Lumet para a direção paquidérmica de Richard Attemborough!
28 de março de 2011- Aproveito a biografia vibrante de Nadia Fusini sobre Virginia Woolf,Sou dona da minha alma, para não deixar passar a data: há 70 anos, mais ou menos pelo final da manhã (11h45m), ela colocou pesadas pedras nos bolsos do seu casaco e atirou-se no rio.
Há bonitas biografias de Woolf, a de Quentin Bell e a de John Lehmann, mas elas eram respeitosas por demais, creio eu, talvez porque um era sobrinho e o outro amigo e discípulo. A de Fusini traz uma perspectiva nova e é mais um ensaio do que uma biografia convencional.
Para quem se interessar em saber a importância de mrs. Woolf para mim, coloquei algumas resenhas que fui escrevendo ao longo dos anos sobre ela, pálido reflexo da presença dos seus livros na minha vida. A título de curiosidade, quando em 1999 fiz uma lista dos “melhores livros” do século XX (que pretensão!), para o jornal A TRIBUNA de Santos, os dez primeiros eram estes:
1) A montanha mágica (Thomas Mann)
2) Luz em agosto (William Faulkner)
3) O castelo (Franz Kafka)
4) As ondas (Virginia Woolf)
5) Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)
6) As asas da pomba (Henry James)
7) Ulisses (James Joyce)
8) O estrangeiro (Albert Camus)
9) O homem sem qualidades (Robert Musil)
10) Nostromo (Joseph Conrad)
A vertigem das listas…
16 de fevereiro de 2011- Para comemorar as cem mil visitas no blog (chegamos a esse número hoje), além de agradecer aos meus visitantes, publico um post sobre o grande escritor português José Luís Peixoto (após dois romances lidos, não tenho dúvidas a respeito). Eu já devia ter escrito sobre Cemitério de pianos, mas deixei a oportunidade passar. Na semana passada, apesar do calor quase que dantesco que fazia, a linguagem de Peixoto me envolveu, me embalou e me salvou.
03 de fevereiro de 2011
28 de novembro de 2010- O caso O CONDENADO
No meu post GLOBALIZAÇÃO LITERÁRIA: A OBRA DE GRAHAM GREENE reproduzo uma resenha de 2002 onde comento grotescos erros na edição de O condenado lançada então pela Globo. Na época, um amigo meu, Antonio Barbosa Jr. chegou a enviar um e-mail com a minha crítica, e o sr. Joaci Pereira Furtado me enviou a seguinte mensagem:
Prezado Sr. Alfredo Monte,
tomamos conhecimento hoje de seu artigo publicado em 17/06 no jornal
A TRIBUNA, de Santos, sobre O CONDENADO, de Graham Greene, e lhe agradecemos
a acurada leitura de nossa edição. Graças ao seu cuidado, pudemos constatar
os diversos e imperdoáveis erros que se encontram ao longo das páginas dessa
obra-prima que recolocamos no mercado. Por isso, comunicamos que estamos
tomando as devidas providências para recolher a edição das livrarias. Ao
mesmo tempo, estamos cuidando para corrigi-la e relançá-la em breve, agora
sem erros.
Cordialmente,
Joaci Furtado
editor assistente
E nunca mais entraram em contato. Agora, com a publicação do post, o editor André de Oliveira Lima entrou em contato comigo e gentilmente me enviou um exemplar da reimpressão (de 2006, um pouco demorada, mas antes tarde do que nunca) do livro, na qual são corrigidos todos os erros mencionados no meu texto. Gostei da atitude do André, profissional e expedita, que merece nosso aplauso,só me pergunto o seguinte: os compradores de 2002 tiveram seus direitos assegurados? Houve troca dos exemplares daquela primeira edição?
15 de novembro de 2010- Por conta da minha imersão na Guerra de Canudos versão Vargas Llosa para minha participação no I-Simpósio de Letras da UNIMES de Santos, acabei deixando passar uma efeméride importante, o centenário da morte de Tolstói, talvez o maior de todos os escritores, junto de Flaubert, que aconteceu em 7 de novembro de 1910. É verdade que fiquei um pouco à espera de The last station, onde Christopher Plummer vive o escritor em seus últimos dias, e Sua Majestade Helen Mirren a esposa-tirana, achando que não perderiam a oportunidade de lançar o filme nessa ocasião aqui no Brasil. Por isso, acabei me distraindo…
Como a CosacNaify publicou este ano duas traduções de Tolstoi (uma, inédita, de Ressurreição; outra, já editada anteriormente pela Cultrix, de Khadji Murát) ainda há pano para manga nos próximos dias (embora eu esteja envolvido na leitura de obras de Rachel de Queiroz–outro centenário, só que de nascimento–que eu não conhecia, como Dôra Doralina & O galo de ouro, que me parecem o melhor da sua produção).
Vamos ver se há tempo pra tudo…
primeiro de setembro de 2010-
Recém-chegado de João Pessoa, queria transmitir aos meus leitores a alegria de ter participado do AGOSTO DAS LETRAS, mas logo fui atropelado pelo cotidiano e pela exibição do último episódio, ao que parece, da legendária série Law & Order, da qual gosto tanto que chego a acompanhar nos sábados à tarde a reprise de temporadas antigas, mesmo as que eu já vi. Além disso, hoje é o dia do centenário do Timão, o que valeria um post, se esse fosse o propósito do blog. Infelizmente, não é, mas fico o registro da data histórica.
03.07.10- Nélida Piñon, a Sherazade de camelô. Não a Sherazade de camelo pelo deserto,não. Sherazade de camelô, quer dizer produto falsificado, de segunda ou terceira, “do doce”.
14.06.10- Fiz uma pequena trilogia de autores em que o dever filial, o peso patriarcal, a maldição de ser um filho pródigo, faz limite com a questão agrária, com a questão da posse da terra. As resenhas são de épocas diferentes, e as que escrevi sobre o talentoso Carlos Herculano Lopes me deixam até embaraçado, mas achei interessante a aproximação de Sombras de Julho & O último conhaque com Abril despedaçado & Lavoura arcaica.
19.05.10- Estou muito longe de estar satisfeito com o que escrevi de Combateremos a sombra, de Lídia Jorge, mas acho que pelo menos consegui sintetizar um pouco o romance para o leitor ter uma idéia. O que faltou foi a análise e uma demonstração cabal da sua linguagem, do belo trabalho de narração, dos momentos de deslumbramento que o leitor do livro, independentemente do seu significado político, até alegórico, tem a cada passo.
Lídia Jorge foi uma das três autoras que me apaixonaram nos últimos meses: as outras duas são a britânica Kate Atkinson ( Quando haverá boas notícias?; Por trás das imagens no museu) e a canadense Anne Michaels (Peças em fuga).
13.05.10- Um bando de leitoras desvairadas de Dan Brown resolveu fazer campanha contra mim, postando comentários malcriados a meu post sobre Anjos e Demônios. Ainda bem que, aqui, sou só virtual, porque elas querem fazer algo digno das Bacantes comigo: despedaçar é pouco… E eu ainda caí na besteira de responder de forma irônica, bancando o “superior”.
18.04.10- Agora o desmembramento do antigo post O SECO E O TRANSBORDANTE está completo. Ele foi transformado em quatro seções: temos a dupla de secos (Onetti & Rulfo) e a dupla transbordante (García Márquez & Carpentier). Embora aprecie mais a primeira dupla, isso não tira a eminência da segunda, e nem indica que gosto mais do seco do que do transbordante.
17.04.10- Como parte da retrospectiva do blog, após completar um ano, estou desmembrando um antigo post , O SECO E O TRANSBORDANTE, no qual arrolei vários autores latino-americanos, dois dos quais compartilhavam justamente a primeira característica (secura), enquanto dois outros primavam pela segunda (a transbordância).
27.03.10- No começo do blog, eu tinha o hábito de juntar textos sobre diversos autores num post só. Assim era a seção “Senhores da Ficção”, na qual estavam espremidos textos sobre nossos dois maiores escritores do século XX, Guimarães Rosa & Clarice Lispector. Resolvi tirá-los dali (apesar de gostar do nome “Senhores da Ficção”, que tem tudo a vem com autores como Rosa ou Tolkien, por exmplo) e lhes dar o destaque merecido, em posts próprios.
21.03.10- Nestes últimos dias, resolvi ler Ser Bambu, de Cesare Battisti, sobre o qual eu sabia–de fato–pouquíssimo, movido por pura curiosidade de leitor. Achava que seria um “depoimento”, uma auto-justificação. Nem sabia que havia uma obra literária no rastro da vida de Battisti. Por isso, peço ao meu leitor, que não considere o post sobre esse livro um posicionamento político, pró ou contra a extradição do ex-militante italiano. Não porque não goste de me posicionar, ou publicar de forma clara minhas opiniões, simplesmente porque não tenho o que dizer a respeito. O meu foco é o livro em si, que é interessante, apesar de o ser mais na primeira metade do que na segunda, um love story meio indigesto, envolvendo o MST e a Reforma Agrária.
11,03.10- Com a perspectiva do relançamento do filme de Scorsese baseado em Dennis Lehane, resolvi colocar no blog o que escrevera sobre outro romance do talentoso autor norte-americano, Mystic River. Não sei por que exatamente, mas não suporto o título brasileiro, Sobre meninos e lobos, e tenho sérias restrições sobre a versão de Clint Eastwood, principalmente quanto à direção de atores e à mão pesada para dar conta de uma trama complexa; apesar do roteiro desajeitado, gosto mais, ou pelo menos acho mais simpática a versão de Ben Affleck para Gone, baby, gone (parece que aqui não acertam os títulos de Lehane, é um escândalo a preguiça em tentar um título equivalente em português). O livro é muito irregular (mais do que Mystic River), contudo ganha vôo assombrosamente quando sentimos Lehane “em casa”, recortando e recriando o pedaço de mundo onde cresceu, e fazendo surgir ruas, bairros, tipos. É o que estou sentindo falta no que li até agora de Paciente 67, o romance que inspirou Scorsese. Mas isso é assunto para um post mais demorado.
02.03.10
14.02.10- E.M. Forster foi durante muito tempo eclipsado. Já na sua época, ele era preterido em função do sucesso de John Galsworthy ou Arnold Bennet, por exemplo, e havia Henry James e Joseph Conrad, sombras temíveis para qualquer um, é verdade; masi tarde, Joyce, Virginia Woolf e D.H. Lawrence é que o eclipsaram. Graças ao cinema, a David Lean (embora eu não goste de sua versão de Passagem para a Índia) e James Ivory, o grande escritor eduardiano foi resgatado do oblívio. A única grande obra dele que ainda não foi revalorizada acabou sendo o belíssimo A mais longa jornada.
Publico hoje minha resenha de 2006 sobre Howards End, obra-prima que se torna centenária em 2010. Ela foi escrita em cima de uma versão anterior, publicada em 1993, da qual eu nunca fui muito fã, sempre achei um dos meus trabalhos mais fracos, que acrescento aqui, por curiosidade arqueológica:
Pode-se presentear uma propriedade valiosa, devido a uma intuição? HOWARDS END, de E.M. Forster (1879-1970) é a história de um legado inusitado: as Schelegel, Margaret e Helen, intelectuais, liberais, que vivem com uma renda limitada, mas segura, conhecem a rica família Wilcox. Num primeiro momento, Helen (a mais ousada das irmãs) envolve-se com Paul, o caçula dos Wilcox. Não dá certo. Depois, Margaret aprofunda a amizade com a (muito mais refinada que o restante da sua família) sra. Wilcox que, num arroubo, a convida para conhecer Howards End, a casa onde nascera. Não dá certo. A sra. Wilcox morre e sua família recebe um bilhete escrito a lápis e muito tosco, no qual ela pede ao marido que dê Howards End a Margaret. Não dá certo, os Wilcox, num conselho de fámília, resolvem queimar o bilhete com o estranho legado. Anos depois, o sr. Wilcox casa com Margaret, que de nada sabia. Dá certo?
Esse enredo foi recentemente recontado de uma forma maravilhosa na irretocável adaptação cinematográfica de James Ivory, pela qual Emma Thompson, a intérprete de Margaret, recebu o Oscar. O livro, publicado em 1910, ganha agora uma edição da Ediouro, traduzido por Ruy Jungmann.
E se a história é a mesma, as qualidades do filme e do livro, ambos obras-primas (o que é raro) são diversas. James Ivory realizou alguns dos filmes obrigatórios dos últimos anos (como Uma janela para o amor- A room with a view, também baseado num romance de Forster, ou Mr. e Mrs. Bridges, por ser grande cineasta e não apenas tributário da grande literatura, embora busque a inspiração de vários de seus trabalhos nela.
Há uma personagem de HOWARDS END que nenhuma adaptação poderia transpor a contento: o narrador, que não faz parte da intriga como personagem, contudo é essencial à narrativa, é o mestre de cerimônias que conversa com o leitor, que o provoca e que o guia com brilhantismo pelo complexo painel social, retratando o período eduardiano, que sucedeu a era vitoriana; e esta não foi só a era da repressão sexual, como sempre se mostra; foi também, e sobretudo, o cenário de imensas transformações sociais. Em HOWARDS END Forster disseca as consequências dessas transformações, principalmente o desenvolvimento da metrópole londrina. E elege Howards End, a casa, como símbolo da tensão entre os velhos valores (pois ela é associada à terra e à natureza) com os valores conflitantes do capitalismo puro e do idealismo não tão puro.
E se achamos apaixonantes os dilemas de sensibilidade e éticos das simpáticas Schlegel defrontadas com os materialistas e vulgares Wilcox, não podemos deixar de notar sua alienação e como todos, Schlegels e Wilcoxes, são parteiros da grande tragédia do livro, cuja vítima é Leonard Bast, o representante dos desfavorecidos nesse casamento entre prosperidade e civilização (para quantos?).
Já se descartara antes a telúrica, quase visionária, sra. Wilcox, a qual representa um tipo que Forster desenvolverá quase até a santidade leiga na figura da sra. Moore de Passagem para a Ìndia (1923), outro romance extraordinário, infelizmente transformado num filme paquidérmico e chato de David Lean.
De todo modo, seja a sra. Wilcox, seja Len Bast, sejam as Schlegel, seja o narrador entretecido na tentativa de descobrir, já que o dinheiro é a trama do mundo, qual seria a tessitura, todos expressam perplexidades que continuam. E, como casa, literatura e cinema, em HOWARDS END, trama e tessitura se entrelaçam de forma inesquecível. É o realismo em sua melhor forma.
(resenha publicada originalmente emA TRIBUNA de Santos, em 30 de maio de 1993)
07.02.10
Estes últimos dias não foram muito produtivos no campo da leitura e da escrita, uma vez que voltei ao trabalho e meu pai passou por uma operação pesada e encontra-se na UTI. Como acabei sendo relapso com um evento importante (os 50 anos da morte de Camus, um dos meus favoritos absolutos, desde a adolescência, quando li O estrangeiro pela primeira vez), e como tinha de escrever minha resenha para “A Tribuna” da semana, a sair na terça-feira, dia 9, ela saiu assim (desculpem o tom improvisado; em todo caso há alguns posts no meu blog sobre ele:
O CINQUENTENÁRIO DA MORTE DE CAMUS
“Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.”
Há 50 anos, o absurdo que tanto ocupou o pensamento de Albert Camus se fez evidência inegável: o genial escritor franco-argelino (nascido em 1913) morreu, aos 46 anos, num acidente de carro. Para ele, existir essa era condição paradoxal: nada solicita ou justifica nossa presença no mundo, no entanto, como Sísifo em sua tarefa interminável, carregando sua mítica pedra, nós temos de esgotar o “campo do possível”, essa realidade contingente que é nosso único horizonte.
Essa visão camusiana das coisas e do humano dominou toda a minha adolescência. Atualmente, posso até ter idéias muito diferentes (a biologia prova que quem não muda, estaciona e morre), entretanto o que nunca mudou é a convicção de que ele foi um dos maiores escritores do século passado, com a sua linguagem precisa, lapidar, mais francesa do que a dos próprios franceses, na sua pureza clássica, que parece muito simples e fácil, muito solar, no entanto carrega consigo um lado oculto e permanentemente desafiador:
“Um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças. Ele as suporta e instala-se no seu destino. Ele é estimado. E, depois, uma noite, nada: encontra um amigo de quem gosta muito. Este lhe fala distraidamente. Ao voltar para casa, o homem se mata. Fala-se, em seguida, de tristezas íntimas e de drama secreto. Não. E se for absolutamente necessária uma causa, matou-se porque um amigo falou com ele distraidamente. Da mesma forma, cada vez que me pareceu experimentar o sentido profundo do mundo, foi sempre a sua simplicidade que me perturbou”.
Na década de 30, quando começou a publicar, Camus misturava o ensaio com pequenas e preciosas anedotas sobre o cotidiano e a paisagem argelinos, nos belos textos que compõem O avesso e o direito e Núpcias.
Foi na França, durante a guerra e a ocupação alemã (contra a qual ele lutou como membro muito ativo da Resistência), no início dos anos 40, que vieram à tona seus dois livros paradigmáticos (após ele ter abandonado a escritura de A morte feliz, um romance fascinante publicado postumamente): O estrangeiro & O mito de Sísifo. O primeiro é um dos romances mais significativos da modernidade, descrevendo o que é a vida absurda. Para nós, que estamos vivendo dias infernalmente ensolarados, é fácil compreender por que o protagonista mata um árabe desconhecido: “por excesso de sol” na cabeça. No seu julgamento, ele é condenado não tanto pelo assassinato, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O segundo é o ensaio que justifica as idéias que movimentam o imaginário camusiano, escrito, aliás, num estilo magnífico e irretocável.
Tornando-se amigo de Sartre, Simone de Beauvoir, numa relação que ficará cada vez mais conturbada até um rompimento célebre (por conta da polarização política pós-guerra), Camus se dedicará ao teatro (deixando pelo menos uma peça clássica, Calígula, e notáveis adaptações de Dostoievski e Faulkner), publicará ainda dois romances inesquecíveis e impressionantes , A peste e A queda, os quais, infelizmente, se encontram um pouco eclipsados pela fama de O estrangeiro. Provando sua versatilidade, ainda exercitou várias técnicas no contos de O exílio e o reino (publicado no ano em que ganhou o Nobel, em 1957), voltou ao ensaio anedótico da juventude no lindíssimo O verão, e sacudiu a intelectualidade francesa esquerdista com o corajoso, brilhante e irregular O homem revoltado, no qual o conceito de revolta (contraposto ao de revolução, no sentido marxista-leninista) veio complementar o de absurdo, que informava as suas primeiras obras.
Ao morrer, ele escrevia sua provável obra-prima suprema, O primeiro homem, publicada apenas em 1994, e que, ao narrar, de uma forma que só se pode caracterizar de mágica, suas origens familiares, mostra que o fatídico acidente de1960 foi absurdo até no sentido de nos privar de um autor no auge da sua forma.
31.01.10
Uma coisa que esqueci de esclarecer é que muitas citações que eu uso no meu post sobre J.D. Salinger, não dos textos dele, mas sobre a obra dele, eu extraí de um precioso livro de Ian Hamilton, In search of J. D. Salinger (1988), que comprei por R$ 3 num sebo em S. Paulo, há muitos e muitos anos, num daqueles golpes de sorte que às vezes acometem caçadores de livro. É uma mistura (breve e eficiente) de biografia, análise crítica e da recepção dos livros de Salinger. Recomendo.
28.01.10- Como soube, através de um recado na secretária do celular pelo meu amigo Chico Marques (que é um verdadeiro CHICONEWS), da morte do grande J.D. Salinger corri para transcrever dois artigos que publiquei em 2001 sobre Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação; na época o livro reunindo os dois textos saíra pela Companhia das Letras, mas ao que tudo indica, há uma edição da L&PM mais recente com a mesma (e notável) tradução de Jorio Dauster. Em 2003, ainda escrevi três resenhas sobre a caixa que saíra pela Editora do Autor contendo o problemático Franny & Zooey, o sensacional O apanhador no campo de centeio e as “jóias da coroa” salingeriana, as Nove estórias, mas o meu impulso necrológico não chega ao ponto de transcrevê-las hoje. Fica para os próximos dias. De todo modo, um grandíssimo autor, mais um que se vai.
24.01.10- Caros amigos, neste domingo não haverá a seção SEMPRE AOS DOMINGOS porque ela é dedicada a autores brasileiros e estou enfronhado na leitura de António Lobo Antunes. Perguntaram-me também se eu tinha desistido de “Férias com Drummond”. Não desisti, mas estou num dos momentos mais difíceis da obra drummondiana, Claro Enigma, tão ou mais extenso que A rosa do pov e com poemas-pauleiras. Todavia, ainda esta última semana de férias pretendo fazer atualizações. Quando se lê Lobo Antunes não dá muita vontade de ler outra coisa junto, ele é um dos escritores mais absorventes e “totais” que já existiram, mas como um certo aspecto do seu universo é bem drummondiano, acho que dará para conciliar os dois.
BOA SEMANA PARA TODOS
21-01-10- Ontem terminei a leitura de O arquipélago da insónia, uma mistura inquietante e exorbitante de Faulkner com Beckett, e isso me deu a oportunidade de retomar uma seção que ficou meio perdida: “Leituras em Espelho”. Na verdade, por uma questão de paralelismo, o mais recente Saramago (Caim) deveria ser alinhado com o mais recente Lobo Antunes (Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, o qual saiu há pouco pela Alfaguara), contudo agora já é tarde, os espelhos serão esses mesmos. De qualquer forma, uma amostra de Que cavalos… pode ser dada, para acompanhar a noção de “eu nada” que guia o ajudante do feitor de Arquipélago da insónia e os demais narradores do livro. É uma vinheta contada por um dos narradores, a respeito do notário (cuja esposa usa uma peruca), com o qual ele combina um golpe no que restou da fortuna familiar:
“o notário continuando a olhar a peruca e ela a ajeitar de novo desejosa de agradar-lhe (…) quando não era a peruca que lhe fazia fernicoques, há eternidades que se desinteressara da peruca e da esposa, era a a ausência de nexo dos dias, o que se faz com eles, tudo tão claro dantes, tão lento, a empregada da aliança a arriscar
__ Não é feliz doutor?
e o notário olhando a empregada como olhava a peruca, de uma distâsncia que o afligia a si mesmo
___ Onde estou que não sei?
(…) com a certeza de que se passeasse na rua nem a sombra o acompanhava
(__O que aconteceu à minha sombra não mintam)”
10-01-10- E eis de volta a seção que criei para comentar a literatura brasileira, “Sempre aos domingos”, e que leva este nome por ser escrita aos domingos e ser a base (sempre são um pouco mais curtas) para as minhas resenhas em “A Tribuna” de Santos, que saem às terças.
31.12.09- FELIZ 2010- Tudo de bom no próximo ano,caros amigos, e obrigado pelas 16 mil visitas desde o início “oficial” deste blog em 14 de abril de 2009
20-12-09- Enquanto vou me desvencilhando dos compromissos profissionais para sair de férias, aproveito para fazer um balanço das comemorações de 2009. Hoje postei o que lembro do século XIX (não vamos recuar aos outros séculos, ou a tarefa não teria fim). Depois, colocarei o que lembro do século XX. Além disso, pretendo reparar duas lacunas do blog, leituras que ficaram em suspenso, a de Microcosmo, de Claudio Magris, e a de O arquipélago da insónia, de Lobo Antunes, nem que seja para limpar a área para as seções nas quais os coloquei (“Leitura da Semana” & “Leituras em Espelho”), que seriam retomadas a partir do início do ano.
Perguntaram-me sobre o que seria a seção “Sempre aos domingos”. Se tudo correr bem, será o lugar onde comentarei novos livros da literatura nacional.
08.12.09- A enxurrada de resenhas que publiquei hoje sobre Paul Auster (e ainda não localizei todas) foi motivada pela reunião de ontem do nosso grupo de palpiteiros culturais, OS DEPORTADOS, formado por Chico, Cecília, Cláudia, Marcelo e eu: entre outros assuntos, fizemos uma panorâmica da obra de Auster, que deverá aparecer no blog www.osdeportados.blogspot.com ao longo da semana, além de outras pautas. Visite-nos, veja-nos e ouça-nos.Até a semana passada, ainda não tínhamos encontrado a fórmula visual correta, mas acho que agora estamos acertando.
19.11.09- Em homenagem aos dez anos da morte de Plínio Marcos, reproduzo aqui uma resenha publicada em 8 de setembro de 2007, em “A Tribuna”, quando estreou o filme Querô (aliás, muito competente):
A POBREZA E A EXLUSÃO TORNAM A TERRA PLANA; O MUNDO TEM FIM, ADIANTE É O MAR TENEBROSO
“Eu nunca fui nada. Nem tem jeito de ser nada. Mas, porra, eu não quero morrer. Não quero. O Zulu não falava que queria morrer. Mas eu sei que ele não queria. Eu estava sabendo. Eu via. Não é que eu via, manja? Estava escuro paca. A gente não se via. Eu, no começo, só enxergava o revólver que estava na mão do filho da puta. Essa merda aqui. Esse trinta e oitão mesmo. Mas quando ele passou pra minha mão, eu nem via mais a draga. Via os olhos do crioulo. Via o medo dele… Eu vi. Ele estava encagaçado. Eu sei. Eu sei de tudo. Eu sou o Querô! Porra, eu sou o Querô! … Era eu ou ele. E antes ele do que eu…Os meus olhos eram duas brasas. E ele via. Via bem o gosto que eu tinha na boca… Via bem. Via o cheiro que eu tinha no nariz. O fedor escroto. O fedor fodido do perfume das putas da Xavier… O crioulo via. Via. E eu via. Via a merda toda. Aquela bosta fedida era minha vida. A minha própria vida. E eu apertei. Apertei pra valer… Porque era a minha vida que valia ali. A minha bronca fodida de tudo. Desde que eu nasci. Desde esse apelido porco que carrego.”
Três décadas depois da sua publicação original (1976) Querô é uma eficaz marreta literária na demolição de algumas monolíticas ilusões. Uma delas, típica da mentalidade proto-fascista de parte da nossa sociedade, tem como base o ressentimento com os “direitos humanos” (é, fala-se assim, como se tratassem de uma entidade encarnada) e formas de proteção social (a lei do adolescente e do menor, por exemplo), responsáveis por um comportamento “folgado” da banda excluída; outra, a de que teria havido uma época em que a violência no país não era “tanta” (nem falemos aqui dos saudosos da ditadura militar). Quando a violência não foi “tanta” (e tantalizante) no Brasil? Em que momento, que idade de ouro, não tivemos uma realidade brutal de exploração e de exclusão? Policiais corruptos, truculentos, moleques quase facínoras, pés de chinelo sem noção de cidadania, desamparados, carne para cemitério, serviços sociais precários, o romance de Plínio Marcos é, tanto quarto curto, eloqüente nesse sentido. Hoje, o que poderia diferenciar os Querôs de seus predecessores é haver certos estatutos que os protegeriam mais, se corretamente aplicados e cobrados pela sociedade civil. Fantasma de uma época em que sequer havia isso, a voz de Querô, ao contar sua trajetória, vem nos assombrar.
Outra ilusão, que parece antagônica, mas creio ser complementar, é o sentimentalismo em torno da garotada abandonada à sua própria sorte, um discurso bom mocista pífio e falso. Pela minha própria experiência, posso dizer que não há nada a resgatar em certos casos, eles só fingem que aceitam todo o blá blá blá com que os cercamos, e no fundo acham tudo uma babaquice, pois é outro o código que os rege, é o código da barbárie a que foram relegados, não-cidadãos que são. E há um ponto sem retorno, a filosofia definida por Querô: “Nas quebradas do mundaréu, na hora do ‘vamos ver’ ‘é cada um, cada um’”. E isso, caro leitor, por incrível que pareça, é filosofia profunda. Para alterar suas premissas, seria preciso haver outro molde do humano.
No mais, o relato do filho da prostituta que se mata ao beber querosene, faz um acachapante retrato de uma parte de Santos, entre as décadas de 60 e 70: a área do mercado, do cais, com seus puteiros, inferninhos (ainda então chamados de cabarés), bares, bibocas, pensões ordinárias, cortiços, as barcas para Itapema. E nada desenha melhor a mente e a experiência de Querô do que essa geografia. É a Santos vivida na opressão da miséria e da ignorância, não muito diferente de qualquer cafundó nordestino. Os coronéis só mudam de domicílio, nunca de pele, e os filhos deles bem podem ser promotores armados, anunciando a tiros seus privilégios escusos.
Para Querô, a terra é plana, uma linha nítida demarca o limite: nada de cidade balneária, nada das praias, dos célebres jardins, dos canais, do Gonzaga. Mais do que o mercado municipal, as docas, as bocas, é a terra da exclusão: “O Itapema eu conhecia bem. Quando estava com o Tainha, a gente sempre atravessava pra esse lado quando batia sujeira no cais do porto… Quase de noitinha, quando eu já ia desanimando, um catraieiro conhecido atracou. Arrisquei. Falei com ele. Deu certo. O homem me atravessou de graça pro mercado. Me senti livre. Estava com fome, com frio, com sono, quase nu. Mas estava em Santos. No mercado onde me criei. Estava, agora sim, em casa.”
_____________________________
Serviço: Querô: uma reportagem maldita, de Plínio Marcos. Publisher Brasil. 94 págs. R$ 20
18.11.09-
Li no domingo um artigo de Patricia Cohen, que saiu no The New York Times, e foi reproduzido no Estadão (Caderno 2, 15.11.09), no qual ela comenta mais um livro anti-Heidegger, publicado na França em 2005: Heidegger-Introdução do nazismo na filosofia, de Emmanuel Faye. A preocupação levantada pelo texto é de que haja uma disseminação de idéias nazistas que embasam a filosofia heideggeriana. O texto termina assim: “Na sua opinião [ de Faye], ensinar as idéias de Heidegger sem revelar suas profundas simpatias pelo nazismo é como levar uma criança a um espetáculo de fogos de artifício sem alertá-la de que um rojão também pode explodir no rosto de alguém”.
A minha pergunta é: se alguém está gabaritado não só para ensinar, como também estudar, as idéias de Heidegger, dá para fazer tal analogia? Uma pessoa que enfrente tal desafio cognitivo (porque, convenhamos, e aqui escreve alguém que lutou com a primeira parte de Ser e Tempo), e consegue enfrentar essa linguagem atordoante, pode não ter consciência dos seus supostos perigos e conseguir desemaranhar idéias discutíveis e até temerárias das idéias válidas e seminais? Um Benedito Nunes (a quem devo quase tudo o que sei de Heidegger) levaria realmente alguém a um espetáculo de fogos de artifício e não chamaria atenção para os eventuais rojões? Há leitura isenta de Heidegger? Há leitura que não discrimine na sua filosofia o que interessa a quem a está estudando e interpretando?
Por isso, acho uma bobagem esse tipo de alarmismo pseudo-intelectual. Que há idéias fascistas, nazistas por aí, isso há. Mas é uma estupidez confundir a especulação filosófica com uma espécie de transmissão naîve de ideologias “embutidas” nos conceitos filosóficos de cada autor.
Quem está na chuva é pra se molhar. O nazista que alguém encontre em si não precisa de um Heidegger para legitimá-lo.
08.11.09:

Há mais ou menos 20 anos, o filme Acusados mostrava uma promotora levando aos tribunais os espectadores de um estupro. Por quê? Na verdade, eles incitaram o crime. Complicando as coisas, a moça era vulgar, bêbada, oferecida, isto é, a vítima parecia culpada do seu infortúnio.
Não era grande coisa cinematograficamente, mas era representante daquele “avanço” de percepção que é uma qualidade subestimada,muitas vezes, da indústria cultural. O fato de a heroína ser ordinária, fácil, disfuncional, e mesmo assim ter os seus direitos garantidos, e o público se identificar com ela, é algo que me vem à mente agora quando aconteceu o espantoso episódio da UNIBAN de São Bernardo do Campos. Ainda na época de Acusados, a PM representava para nós a repressão, os estudantes é que representavam as forças saudáveis da sociedade que permitem avanços de percepção como o do filme (independentemente de sua mediocridade como obra cinematográfica). Hoje a PM parece representar as forças da razão contra a total intolerância, boçalidade e reacionarismo de, pasme-se, estudantes universitários.Que retrocesso, que coisa incrível de se verificar em 2009: uma turba xingando e apupando uma pessoa que incomoda, que instiga, que provoca… E uma turba que se arroga o direito de ditar quem deve ou não permanecer num espaço social, que por definição é de todos.
Há exemplos mais graves ainda, mais preocupantes: eu detesto novela de televisão. Mas nos últimos tempos fico cada vez mais abismado com os espectadores de telenovelas. Nada contra o folhetim, o maniqueísmo entre mocinhos e vilões, nada disso, essas fórmulas sempre vão (e devem) existir. Minha impaciência com as telenovelas vem da sua chatice, da mesmice do seu ritmo, dos fatos já conhecidos e divulgados de antemão. Porém, há uma rastaquerice dos espectadores de novela que é um fenômeno alarmante: no final de Caminho das Índias, as pessoas não queriam ver a vilã (Letícia Sabatella) ser derrotada, como demanda o folhetim. Eu observava as pessoas dizendo o seguinte: não vou perder de jeito nenhum o capítulo da novela hoje porque a fulana (a personagem de Sabatella) vai apanhar. Onde chegamos? Agora as pessoas assistem ao clímax das novelas para ver alguém apanhar. Bater no vilão, dar bofetadas e mais bofetadas, é obrigatório, não basta ele ser vencido, desmascarado, o bem vencer o mal.
Nâo é muito rastaqüera esse modo de vivenciar o ficcional? Não é um sintoma de uma impotência tão avassaladora diante da falência social do nosso sistema social que as pessoas acabem achando que esse baixo nível é uma resolução de problemas, que esse é um modo de solucionar conflitos e folhetins?
UNIBAN e bifa na vilã de novela: que saudade de “Acusados”…
28.10.09
“(10)Olhe , disse Yahweh, o homem vê como um de nós, conhecendo o bem e o mal. E agora ele pode, sem ver, estender sua mão, tomar também a árvore da vida, comer e viver para sempre.
Agora Yahwew o tirou do Jardim do Éden, para trabalhar -no solo de onde foi tirado.
O homem foi banido; agora, estabeleceu lá – ao oriente do Éden- as esfinges aladas e a espada tremulante, reluzindo as duas lâminas, para guardar o caminho da Árvore da Vida.
(11) Então o homem conheceu Hava, sua mulher, na carne; ela concebeu Caim. Como Yahweh, eu criei um homem, disse ela quando ele nasceu. concebeu de novo, nasceu Abel… Resultou que Abel foi pastor de ovelhas. Caim, lavrador.
(12) Os dias tornaram-se passado; um dia, Caim trouxe oferenda a Yahweh, do fruto da terra. Abel também trouxe uma oferenda do mais seleto do seu rebanho, de suas partes gordas, e Yahweh comoveu-se com Abel e seu holocausto. Mas com Caim e seu holocausto não se comoveu. Isso perturbou Caim, seu semblante descaiu.
O que tanto te perturba? perguntou Yahweh a Caim. Por que teu semblante está tão descaído? Vê: se concebes o bem, é comovente; se não, o pecado é uma porta aberta, um demônio de tocaia. Subirá em ti, embora estejas acima dele.
(13) Caim falava a seu irmão Abel, então aconteceu: lá no campo, Caim voltou-se contra seu irmão, matando-o.
Então Yahweh disse a Caim: Onde está teu irmão Abel? Não sabia que era eu a guarda de meu irmão.
(14) Que fizeste?, disse ele. Uma voz- o sangue do teu irmão- clama por mim desde a terra. Que então valha por maldição: o solo amarga-se de ti. Sangue de teu irmão, engasga-lhe a garganta.
Podes trabalhar o solo, mas ele não há de se render a ti…Não terás abrigo sobre a terra, soprado pelo vento.
Minha sentença é mais forte que minha vida, disse Caim a Yahweh: Olha: hoje me expulsaste da face daterra -de mim tua face voltaste. Volto a lugar nenhum, sem abrigo como o vento que sopra. Todos que me encontrarem poderão me matar.
Por minha palavra saberão, disse Yahweh, quem matar Caim será abatido pela raiz sete vezes mais fundo. Então Yahweh tocou Caim: um aviso para não matá-lo, a todos que o encontrassem.
Caim voltou as costas à presença de Yahweh, estabeleceu-se numa terra soprada pelo vento, a leste do Éden.
(15) Então Caim conheceu sua mulher na carne, ela concebeu, nasceu Henoc. Os dias tornaram-se passado: ele fundo uma cidade, chamando-a pelo nome de seu filho, Henoc.
Então Irad nasceu a Henoc; Irad gerou Maviael; Maviael gerou Matusael; e Matusael, Lamec.
(16) Lamec cresceu e desposou para si duas mulheres; uma chamava-se Ada; a segunda, Sela.
Ada deu à luz Jobal, que foi pai dos que vivem sob tenda, guardas de rebanhos.
Jubal foi o nome de seu irmão, pai dos músicos, mestres da flauta e da lira…
Ouvi minha voz, disse Lamec a suas esposas, a Ada e Sela, ouvi que se canta às esposas de Lamec: Um homem matei porque me feriu; um menino, também, por um soco- tão somente. Se a justiça de Caim corta sete vezes fundo, por Lamec ela chega a setenta e sete.
(17) Então Adão ainda conheceu sua mulher na carne; ela pariu um filho, chamou-o Set – Deus plantou em mim outra semente, que cresce além de Abel, que Caim abateu… Então Set cresceu para gerar um filho, de nome Enós… E nesse tempo começou a terna invocação do nome de Yahweh.
(18) Então olha, desde seu primeiro passo o homem se espalhou por sobre a face da terra. Ele gerou muitas filhas. Os filhos dos céus desceram para ver as filhas do homem, atentos a seu encanto, conhecendo a quem quer que os agradasse para esposa.
(19) Meu espírito não guardará o homem por tanto tempo, disse Yahweh. Ele é matéria mortal. Então seus dias estavam contados: até cento e vinte anos.
(20) Agora a raça de gigantes: eles estavam na terra desde o tempo em que os filhos dos céus penetravam nos quartos das filhas dos homens. Figuras heróicas nasceram a eles, homens e mulheres de mítica fama.”
Como pretendo comentar Caim, de Saramago, pensei em transcrever a história original bíblica. Só que geralmente todos têm uma Bíblia, e em qualquer de suas versões, podemos encontrá-la facilmente. Julguei, então, que talvez fosse mais interessante transcrever a versão da suposta “J”, a autora de certos trechos do Antigo Testamento, os quais Harold Bloom tentou extrair do texto canônico a partir de uma versão de David Rosenberg.
Para Bloom, “J” seria uma das autoras fundamentais da nossa cultura literária. Mas o grande e idiossincrático critico norte-americano não se detém muito, em seus comentários e análises, na figura de Caim, dando mais destaque à psicologia de Yahweh e a figura-chave de Abraão.
Os interessados encontrarão o texto transcrito em “O Livro de J”, de Harold Bloom (a partir da versão de David Rosenberg). Tradução (ótima; ao fim e ao cabo, ela é a nossa J, pois estamos lendo o texto dela) de Monique Balbuena. Imago, 1992.

27.10.09- SARAMAGO & LOBO ANTUNES, nunca SARAMAGO vs. LOBO ANTUNES
Quando fiz minhas apostas para o Nobel e coloquei Antonio Lobo Antunes como um dos três maiores escritores em atividade (ao lado de Don DeLillo & Salman Rushdie), alguns leitores tiraram a conclusão de que eu o preferia a Saramago. Deixem-me esclarecer: essa polarização para mim não existe, é algo do tipo Chico & Caetano, Tolstói & Dostoiévski, Hermann Broch & Robert Musil, Fellini & Visconti.
Se pensarmos na última década, podemos dizer que a criatividade de Lobo Antunes imperou. Em 2004, ele publicou o poderoso “Eu hei-de amar uma pedra”. Já Saramago nunca mais atingiu o nível altíssimo de “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), com as possíveis exceções de “Todos os nomes” e “A viagem do elefante”. Mas, se pensarmos que em 2002, ele completou 80 anos, seus livros posteriores não deixam nada a desejar, embora tenham puerilidades evidentes: “Ensaio sobre a lucidez”, “As intermitências da morte”, “A viagem do elefante” e agora “Caim”. Uma produção que não se pode ignorar, ainda que haja vacilos, preguiças e quedas de voltagem, enquanto que Lobo Antunes parece querer dar tudo de si a cada livro que lança, de uma maneira até feroz.
Mas como dizer que ele é “maior” do que Saramago se este tem atrás de si “O ano da morte de Ricardo Reis”, “Ensaio sobre a cegueira”, “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Memorial do Convento”? E tenho de confessar que sou um leitor mais fiel a cada lançamento de Saramago do que do seu desafeto? Dos seus romances após “Memorial do convento” só não li “O homem duplicado”.
Nestes últimos dias enviei a alguns amigos uma engraçadíssima correspondência imaginária entre os dois grandes autores portugueses, que tirei do criativo www.peterofpan.blogspot.com:
Terça-feira, Outubro 18, 2005
Correspondência Saramago-Lobo Antunes
Caro António Lobo Antunes
Li o seu último romance, que veio a deixar-me perplexo e você sabe bem porquê, visto a quantidade de páginas do volume ser tremenda. Dir-me-á você, Não é nada, consigo escrever coisas maiores ainda, ao que respondo, Tenha tento na pena, pois enquanto uns dispoem de folhas para escrever calhamaços, como você, um pequeno-burguês, outros há que nem papel possuem para limpar o rabo, o que aliás deveria ser feito aos seus escritos.
Cordialmente, José
P.S.: Eu tenho um prémio Nobel e tu não!
*
Caro José Saramago
Eu poderia vir aqui contar-lhe uma história para adormecer, tal qual faço semanalmente nas minhas crónicas para a revista Visão.
Mas não o vou fazer.
(não o quero fazer)
Vossa Excelência não o merece, uma vez que se auto-exilou em Lanzarote. Não teve a infelicidade de viver, como eu, as privações no Ubango, a fome no Condongo ou a guerra no leste do Cachungo.
(se estivesses lá, era bem feito que um preto te metesse uma bala nos cornos)
Pequeno-burguês é Vossa Excelência mais a degenerada da Pilar. Cale-se e ofereça um presente à nação, deixando de publicar livros.
(e artigos, pois também são uma porcaria)
Afectuosamente, António
P.S.: Olha, vai à merda e leva o Nobel contigo.
*
Caro António Lobo Antunes
Vai tu!
Zé
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22-10-09:90 ANOS DA MAIOR ESCRITORA
Hoje, 22 de outubro, minha escritora favorita, a que teve mais peso e importância na minha vida, de uma maneira até mais visceral do que Thomas Mann (o maior dos escritores, num sentido estritamente literário) chega aos noventa anos, tendo nascido no Irã (em 1919). quando era a Pérsia, filha de ingleses; depois crescido no Zimbábue, quando era a Rodésia, tão racista quanto a África do Sul; aos 30 anos emigrou para Londres, onde permaneceria, e iniciou sua carreira profissional de escritora. Duas de suas obras-primas estão comemorando “datas redondas” em 2009: há 40 anos lançou A cidade de quatro portas, último e mais extraordinário volume dos cinco que compõem Os filhos da violência; e há 30 anos ela iniciava a série Canopus em argos: arquivos com o ponto mais alto da sua obra, Shikasta. O MUNDO FAZ MAIS SENTIDO COM A PRESENÇA DE DORIS LESSING NELE.


























absolutamente fantástico! Se pudesse eu viajar pelo tempo, certamente teria a mesma sensação ao pisar na Sheakspeare Co. Provoca a mágica sensação de deitar meus olhos nas estantes da biblioteca e Montaigne. Não poderia ser diferente, dado o seu bom gosto literario.
Comentário por carlod eduardo mota — 21/12/2009 @ 11:57 |
Bom gosto literário? Se é isso que lhe quer chamar, quem sou eu para lhe tirar a felicidade?
Comentário por sofia — 13/05/2010 @ 12:40 |
Ahahahahah!! Que moca. Não acredito nisto. Não, isto é bom demais! Não tem mesmo tomates nenhuns. Enfim.
Comentário por sofia — 13/05/2010 @ 18:07 |
´Quanto à questão HEIDEGGER E O NAZISMO, sugiro uma obra fantástica, de leitura “acachapante” que relata, inclusive documentalmente(muito bem fundamentado neste sentido), o “caso” em questão, bem como a importante participação de KARL JASPERS E ARENDT, nos acontecimentos e episódios que cercam a questão. Acho até então uma obra definitiva, além de um belÍssimo retrato da importância e surgimento da brilhante geração de intelectuais de entre guerras na Alemanha e sobretudo como viveram esse negro período histórico!
É DE VARAR A NOITE!!!!!
Trata-se de NOS PASSOS DE HANNAH ARENDT ´LAURE ADLER” RECORD
Comentário por ICLÉA ALVES SIMÕES — 06/11/2010 @ 20:12 |
Obrigado pelo seu comentário. Olha, eu li NOS PASSOS DE HANNAH ARENDT e achei o livro muito bom em vários aspectos, mas ele me desagradou jujstamente quanto à questão Heidegger, pois acho que ele é, ali, muito falado e contestado e desmistificado, sem que haja muita razão, pois ela perde o foco principal que é a vida de H.Arendt. Dá a impressão de que ela não quis perder a oportunidade de desancar o filósofo nazista. Posso até concordar com tudo o que se diz ali, mas acho o lugar inapropriado.
Comentário por alfredomonte — 07/11/2010 @ 14:30 |