BLOG DO ALFREDO MONTE

Éder Fogaça: o discreto charme do dizer mínimo

eder

Éder Fogaça é natural de São Leopoldo (RS) desde 1977. Andou de ônibus gratuitamente durante um ano após ser finalista da 11ª Edição do Concurso Poemas no Ônibus, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, no ano de 2003. Depois foi para Santos (SP) e integrou o Grêmio de Haicai Caminho das Águas, grupo destinado ao estudo, produção e disseminação dessa forma poética. Em 2005, ao lado de nomes como Teruko Oda, Regina Alonso, Mahelen Madureira, Roberto Graça Lopes, entre outros, participou da Mostra de Haicais Natureza em Fotopoemas, no SESC Santos, combinando trabalhos fotográficos de Du, Palê e Zé Zuppani com haicais dos membros do grupo. Atualmente edita o blog literário E!? e anda flertando com o microconto (o leitor encontrará  três amostras desse promissor flerte logo após os seus belos haicais).

HAICAIS

as ondas vêm
e vão para ninguém -
maré outonal

nuvem parada
virou lágrima
do nada

luzes de natal
a árvore decorada
passa a noite em claro

tarde chuvosa
escorrendo na vidraça
pingos de saudade
lá de casa
(esse o próprio autor não considera  um haicai ortodoxo, mas achei interessante incluir aqui também)

a lua aparece
entre nuvem e outra
o brilho é igual

chuva constante
o guarda-roupa mudou
agora é varal

eu em demasia
não fosse
a poesia

quase verão
no silêncio da noite
grilam estrelas

chuva gelada
o vento com pressa
por dentro de casa

tarde de festa
o flamboyant como palco
pro canto da cigarra

trilha na mata
o vôo da borboleta
mostrando o caminho

no meio da rua
um punhado de sol
molhado de chuva

café da manhã
o canto do bem-te-vi
passado no pão

sala vazia
o silêncio dos livros
na livraria

no cair da noite
vai sumindo lentamente
a pipa no céu

lua ao meio
metade dela
não veio

nuvem de verão
a fumaça do cigarro
suspensa no ar

a brisa da tarde
numa doce melodia -
sino-dos-ventos

trazendo o dia
o canto do quero-quero
na minha janela

farelos sobre a mesa
as formigas vieram
para a ceia

hora do jantar
me fazendo companhia
um grilo à mesa

folha em branco
o caderno inicia
primeira aula do ano

noite pacata
de repente estrelas
nas águas do lago

nas entrelinhas
o sol é um monte
de estrelinhas

céu nublado
o girassol olhando
para os lados

fim do carnaval
fantasias desfilam
no varal

o vento passou
da ponta do galho
a folha acenou

para cada escolha
tanto dias de sol
quanto noites de insônia

tardinha outonal
o pescador solitário
lança a linha na água

noite de outono
na companhia da chuva
eu volto pra casa

em cada trovão
um pedaço do dia
que a noite escondeu

surpresa no céu
primeira lua de outono
entre as nuvens

nuvem movente
água que abre caminho
água corrente

arrebol de outono
na superfície do lago
o barco se deita

a rua desperta
atravessam a noite
sapatos de festa

súbito venta
folha seca não agüenta
o próprio peso

tarde tranqüila
a borboleta de outono
entra na livraria

fim de tarde
o sol se pondo
sem alarde

noite outonal
o leve balanço das
roupas no varal

formigas em desespero
a marca do tênis
no formigueiro

vindo a noite
nos pêlos do braço
friozinho de outono

rajada de vento
a árvore balança
chuva de folhas secas

noite de inverno
na companhia da lua
a solidão é menor

noite de inverno
o cheiro do caldo verde
por toda a casa

doce jardim
diz a placa escondida
entre o capim

noite de inverno
o murmurinho das ondas
por dentro do quarto

tardinha de outono
depois de muito trabalho
a escuna ancorada

madrugada fria
um instante de silêncio
por toda a cidade

garoa insistente
pela avenida passo
a passo em frente

noite de inverno
a solidão no toque
do sino-dos-ventos

dono da cena
o tico-tico no galho
põe fim na conversa

mar de inverno
o som das ondas quebrando
o silêncio da noite

corpo seminu
primeira flor amarela
no galho do ipê

lua vermelha
a tarde vai saindo
de cena

manhã chuvosa
nenhum pássaro cantando
na galho do ipê

em boa companhia
a mariposa
passeia sozinha

tarde de inverno
na chuva empoçada
um pedaço do céu

sob estrelas
o vento gelado
varre folhas secas

café da manhã
as gaivotas sobrevoam
o barco pesqueiro

almoço campeiro
o carreteiro aquecido
no fogo de chão

manhã de sol
o branco das ondas
ainda mais branco

dança solitária
a areia em círculos
na orla da praia

chove tanto
parece até
que chove em prantos

um tanto faceira
entre dois prédios
brilha uma estrela

a pipa vai subiiindo
lá em cima sente saudade
do menino

céu nublado
um único pássaro
no gramado

chuva criadeira
o pequeno sabiá
sob a soleira

tarde nublada
a menina rodeada
de bolhas de sabão

tarde silenciosa
entre um parágrafo e outro
o canto da cigarra

manhã de outono
sobre a mesa da cozinha
as frutas de cera

noite na estrada
a lua surge
corada

madrugada fria
entre a fresta da janela
o som do mar

tarde fria
a velhinha passeia
encolhida

meia lua
a noite cheia
de estrelas

MINICONTOS:

DESATENÇÃO

Atravessava a rua quando ouviu o buzina. Treze dias depois acordou de um susto. Sonhara que havia sido atropelada.

FESTA LITERÁRIA

Antes de sair, foi ao dicionário retocar o verbo

BALA PERDIDA

Passou a chave na porta. Largou sobre a mesa o celular, a carteira; dos bolsos tirou moedas, comprovantes do Credicard e papéis com números telefônicos anotados. Sentou-se no sofá para tirar os sapatos. Ligou a tevê. Marília não devia ter dito aquilo. Não com aquelas palav…

1 Comentário »

  1. sensível, prazeroso.

    Comment por mariana fernandes — 10/08/2009 @ 19:52 | Responder


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