MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2012

MISÉRIAS MINIMALISTAS: 50 anos de Dalton Trevisan

      A primeira coletânea “’oficial” (parece que havia uns volantes anteriores, uma espécie de literatura-mimeógrafo avant la lettre, que se tornaram famosos na Curitiba da época) de Dalton Trevisan, Novelas nada exemplares, foi lançada em 1959. Neste meio século, ele publicou uma seqüência extraordinária de títulos (Cemitério de elefantes; O vampiro de Curitiba; A guerra conjugal; O rei da Terra; O pássaro de cinco asas; A trombeta do anjo vingador; Virgem louca, loucos beijos, para citar alguns), fazendo jus, após a morte de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, ao posto de nosso maior prosador vivo, pelo menos para mim, que o adorei de cara, assim que comecei a ler seus textos. Em meados dos anos 80, estava no apogeu quando publicou o inusitado romance A polaquinha, que nasceu com vocação de obra-prima.

Já na época em que minha coluna em “A Tribuna” se iniciou (1993), depois de livros como Dinorá e Ah, é?, eu me perguntava se o grande escritor curitibano não ficara em “ponto morto”. De fato, colocando no mercado praticamente uma obra por ano, a impressão que, ligado o piloto automático, cada uma delas era a mesma com novo título. Por esse motivo, fazia alguns anos que nem me dava ao trabalho de ler seus últimos textos, como Macho não ganha flor ou O maníaco do olho verde.

Violetas e pavões  (não confundir com o belo Violetas e caracóis, de Autran Dourado) se tornou assim, uma bela surpresa. Como já confessei, não li a produção mais recente de Dalton Trevisan e não posso avaliar se as qualidades dessa coletânea estavam presentes nas anteriores; baseando-me apenas nela, no entanto, afirmo que nosso maior contista está dando conta da realidade do século 21. É lógico que parte dos 22 textos ainda se voltam para suas obsessões recorrentes com os fetiches sexuais da pequena burguesia, o que nos proporciona deliciosas, porém manjadas (para o leitor habitual de Trevisan) brincadeiras como, por exemplo, “Lábios vermelhos de paixão”: “Minha putinha é o encontro místico das ondas do céu e das nuvens do mar. Já lambida do licor de abelha rainha –os pentelhos emaranhados, os grandes lábios trêmulos, o vale das sombras no portal das coxas fosforescentes”).

O surpreendente em Violetas e pavões é a substituição dos filhinhos de boa família que se pervertem em fantasias sexuais delirantes, nos bas-fonds de Curitiba, ou dos egressos de um mundo ainda rural insistindo nos seus direitos de macho e vivendo em perpétua e sórdida guerra conjugal, pela terrível realidade que inunda o noticiário atual. Temos agora vidas regidas pelo tráfico onipresente, pela necessidade incessante de drogas como o crack, pelas passagens na polícia, pelas prisões inúteis, pelo flerte com a bandidagem e a contravenção, mesmo de empregadinhos “honestos”. Nesses contos ou nos micro-textos (que ironicamente imitam a diagramação da poesia) é que Trevisan renova sua obra, de uma forma aterradora.

Ainda temos a modernização das temáticas mais antigas: a velha professora que mergulha num inferno dantesco ao ser internada num hospital público (/’Misericórdia”), a filha obrigada pelo pai a substituir a mãe (que se mandou com o amante) como parceira de cama, o que evoca o mundo constitucionalmente patriarcal da obra daltontrevisiniana (“Ele”), a sordidez miserável da guerra conjugal no caso do marido que joga álcool na mulher e a deixa toda queimada, e que, saído da cadeia, a obriga a aturar sua presença sempre por perto e ameaçadora (“Cachaça e pamonha”).

Mas os contos verdadeiramente renovadores são aqueles que, como “A desgraça de Zeno”, “Aprendiz de traficante”, “Não sou o Buba”, “Tenha uma boa noite!” ou “Elas cantam só pra mim”, nos proporcionam numa impressionante miniatura, verdadeiros short cuts os contornos da nossa atualidade. Nesses contos, Trevisan consegue o milagre de chegar quase ao “grau zero de escritura”: geralmente são em primeira pessoa, mas em certo ponto parece que essa voz se torna anônima, e estamos ouvindo conhecidos, gente que escutamos de passagem, jornalistas relatando fatos que adquirem contorno de  “lendas urbanas”. Parece que chegamos a um estado de mito, em que tudo é ritualizado e reatualizado: a mulher que resolve ir à Bolívia e traficar, e que é roubada por falsos (falsos?) policiais, o rapaz que recebeu seu salário e que, após uns chopes, tem de voltar para casa (e para as reclamações da mulher grávida) através de uma área “barra pesada”, o rapaz que tem de reconhecer o corpo do irmão abatido por traficantes a quem devia, o fotógrafo que gosta de fumar seu baseadinho e que é pego num excesso de zelo por guardas municipais e que se complica porque tem fotos comprometedoras de menores em seu laptop…

Vejamos um exemplo:

“A polícia sabia da casa 749 do tráfico ali perto. Foram até lá. Direto pelo caminho de sangue e os sinais de luta.

     No quarteirão escuro a única de luz acesa.

      A equipe rodeou quietinha. Daí um grito lá dentro: A polícia, turma. Sujou, é a polícia!

     Um deles quis pular a janela e quando viu o cerco, voltou. A casa foi invadida. Tinha ali dois tipos de olho vidrado, três mulheres e uma ou duas crianças. A tevê ligada, um monte de latas de cerveja pelo chão. Até salgadinho e pipoca.

    No canto uma calça jeans –epa! A barra ainda molhada de sangue. Numa gaveta um revólver 38, outro 22, bastante munição.Armas e calça foram apreendidas.  Isso pelas duas e meia da manhã.” (Esse trecho faz parte do relato em primeira pessoa do irmão do assassinado personagem título de “A desgraça de Zeno”; note-se o relato impessoal, em tom de noticiário, que poderia ser feito por qualquer um).

É quase um trabalho de linguagem invisível porque tão parecido com o que se conta e reconta por aí, nas ruas, nos jornais, nos botecos. Dalton Trevisan, o Homero minimalista das pequenas guerras de Tróias compostas por corrupção policial, balas perdidas, dívidas de tráfico e salários curtos.

Aos 50 anos de carreira, o mestre renova sua fórmula.

(resenha publicada de forma um pouco mais condensada, em “A Tribuna”, em 24 de novembro de 2009)

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02/05/2012

O desastre de “DOIS RIOS”: maldição do segundo romance, zombaria das ondas ou pose demais e ficção de menos?

(resenha publicada de forma mais condensada e sem nota de rodapé em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de maio de 2012)

Como tantas outras pessoas, apreciei o primeiro romance de Tatiana Salem Levy, A chave de casa (2007). Ali estava uma escritora promissora, apesar da atmosfera sufocante e áspera do texto. Como o li mais ou menos na mesma época de Homem no escuro (2008), de um dos meus autores favoritos, Paul Auster (a condição de impotência, entre física e espiritual, dos protagonistas, dá um ar de parentesco aos dois livros que já pensei em explorar em alguma resenha ou estudo), e junto do qual ela não fez nada feio, a comparação lhe rendeu mais pontos favoráveis ainda, caso precisasse.

Eis que de repente assisto a uma entrevista da jovem autora (nasceu em 1979) com Maurício Melo, no programa “Leituras” da TV Senado, e o que me parecia rispidez talentosa durante a leitura do romance começou a soar mais como uma postura afetada, enjoadinha, um ar de o mundo não merece esse ser inefável que sou: Tatiana Salem Levy se me afigurou como aquelas pessoas que minhas tias, numa infância povoada delas, anatematizavam como “entojada”. Mais do que antipática,  porém,sua atitude (ou melhor, sua pose) na entrevista me deixou entrever algo que só posso diagonosticar como uma anorexia espiritual que me tirou qualquer vontade de voltar a lê-la.

Por motivos que não vêm ao caso, seu segundo romance, Dois rios, acabou nas minhas mãos. Não obstante a autora enjoadinha, não mereceria uma lida, em vista da promessa de A chave de casa?

O pequeno introito acima é para o leitor que detectar má vontade a priori no meu comentário a seguir, embora eu mesmo, fazendo um exame de consciência, não ache que li Dois rios com má disposição (por exemplo, sempre tive a maior antipatia pela figura de Rachel de Queiroz, o que não me impediu de me encantar com seus romances tardios, Dôra Doralina & Memorial de Maria Moura: a leitura de um bom texto sempre me conquista), saiba dos possíveis motivos, caso chegue a tal conclusão.

Dois rios (que, a princípio, ao que parece, tinha o título Em silêncio) apresenta como protagonistas os gêmeos Joana e Antônio: nascidos e criados em Copacabana, passavam as férias no lugarejo da Ilha Grande que dá título ao romance. Muito unidos, em Dois Rios houve um episódio incestuoso que coincidiu com a morte repentina do pai. A partir daí, os irmãos começaram a se afastar até de uma forma hostil (como se uma presumível “culpa” pelo ocorrido com o pai impedisse o relacionamento de fluir): Joana ficou em casa, cuidando da mãe, portadora de transtorno obsessivo-compulsivo, e Antônio caiu no mundo como fotógrafo free-lance. Do pacto infantil que os unira, só restaram  ressentimento e incomunicabilidade.

O livro é estruturado em duas partes, cada uma focada num dos irmãos. Na primeira, narrada por Joana, que está presa ao apartamento onde nasceu, com a mãe disfuncional, com a vida estagnada, aparece uma francesa, Marie-Ange, por quem ela se apaixona, iniciando um processo de libertação. Há alguns bons momentos[1], Salem Levy sabe utilizar habilidosamente as técnicas de ficção (desdobramento do tempo e do espaço). O que não impede que essa parte seja muito ruim. Somos obrigados a ler passagens do tipo “Nossos olhos se cruzaram, e num único segundo, senti aflorar a minha intimidade mais secreta”. Pior ainda, quando Joana e Marie-Ange encetam uma viagem reparadora a Dois Rios, e seu amor se funde à descrição da natureza, temos trechos que—tirando o tom mais moderninho—poderiam ter sido escritas por Cassandra Rios (penso em Macária, por exemplo), sem o seu charme kitsch. A própria Marie-Ange, a qual parece egressa do universo de Roberto Freire (o chatíssimo escritor reichiano de Cléo e Daniel e Coiote, não o político), como um anjo liberador das repressões, diz coisas hilárias do tipo: “Só o real importa, Joana. O mar, a areia, o sussurro da mata. Esquece o resto. Seus medos tolos, sua ansiedade, essa fantasia que, em vez de te soltar, te prende. Escuta o vento, as ondas que rebentam zombeteiras…”!!!??? Por que, cargas d água, as ondas rebentariam zombeteiras? Talvez porque a natureza, em Tatiana Salem Levy, pareça tanto um “cenário”, não evocando nada de vital ou verdadeiro.

Na segunda parte, ela faz um truque narrativo à David Lynch (o de A estrada perdida & Cidade dos sonhos), e é Antônio quem, na França, conhece Marie-Ange, a qual, ao invés de vir ao Brasil, o leva para a Córsega, sua terra natal, onde os dois têm tórridas experiências amorosas, depois das quais ela desaparece. O errante, o desenraizado, então, sofre um processo contrário ao da irmã, permanecendo ali, numa postura de espera impotente, no povoado corso, no meio de gente rústica e simples, ligada ao mar.

Duas coisas ficam claras, então: o leitor comum, que costuma se atrapalhar com experiências  “ousadas”, não precisa ficar inquieto, porque apesar do truque adotado, a autora explica tudo tintim por tintim (além de todo o desenrolar da narrativa ser mais ou menos previsível, inclusive o final), e essa parte, em que Antônio, ao narrar, está se dirigindo à ausente Marie-Ange, é extremamente fake: soa falso em todos os seus aspectos, de tal forma que acabamos até preferindo a primeira, que era fraca, mas parecia mais crível. Apesar de ausente, Marie-Ange não é menos chata: “Foi você quem me disse que todos os dias ele [o pai dela] faz a mesma coisa, como os animais que dormem, comem, vão ao riacho procurar água e nunca se colocam em desacordo com o mundo. Meu pai faz parte da paisagem como os calhaus da praia, você dizia. E continuava. Quando ele morrer, não haverá mais pescadores no vilarejo, pois os homens passaram a achar, num determinado momento, que ser humano é entrar em desacordo com o mundo…”

E como essa literatura “sofisticadinha” acabou roçando a auto-ajuda? “Nenhum dos dois conseguiu cumprir nem descumprir seus destinos, eles apenas esqueceram de ser felizes. Era uma coisa ou outra: seguir à risca a trajetória planejada, ou dar espaço para a felicidade. O erro deles foi achar que o amor os salvaria das desavenças. Mas o amor não salva.”

Dizem que há a maldição do segundo romance, que muitas vezes ele pode ser um passo em falso mesmo numa carreira posteriormente  bem-sucedida. Portanto, fica em aberto se Tatiana Salem Levy vai seguir o caminho fecundo, ainda que difícil, da sua estréia, ou vai capitular de vez rumo às falsidades oportunistas (pois convenientes à sua “pose” entojadinha ou portadora de anorexia espiritual) delineadas por esse seu segundo (e mero) “exercício” romanesco. Talvez dependa das ondas zombeteiras. Mas que não dependa das Marie-Anges da vida, por favor !


[1] Gosto do personagem da mãe, da narração das verdadeiras viagens que são as visitas da avó e do pai dos protagonistas ao presídio da Ilha Grande, onde está preso o tio por motivos políticos; gosto também da descrição da intimidade física entre os irmãos.

18/03/2012

O conforto do acanhamento e as promessas do breu: “O estranho no corredor”, de Chico Lopes

Preâmbulo

“Achara um  de seus triunfos na vida da cidade, nos primeiros dias de adaptação, o ter conseguido orientar-se sozinho, com os nomes de bairros e números de linhas dos circulares e, alegre, com algum dinheiro para gastar, percorrer muitos trajetos, retornando sempre ao terminal no centro, feito fosse sempre necessário isso—os círculos bem descritos, as referências precisas—para que, aos poucos fosse se apossando do novo território. Daí, tempos depois, já tinha um ar blasé à janelinha, olhando a movimentação urbana como se fosse parte trivial de sua vida, como personagem de filme rodado em metrópole, superior, senhor de si, intimamente alegre como um moleque no domínio de uma engrenagem que, na verdade, inspira medo e pode, a qualquer momento, apresentar imprevistos foram de controle. Assim, precisava não demonstrar ansiedade, não queria que o considerassem caipira e, portanto, não tomava informações,  perdendo-se numa rua e outra, enganando-se de rota, corrigindo-se, sem nunca rebaixar-se, com tremores que não queria que ficassem visíveis; empenharia todos os seus esforços no sentido que a cidade lhe ficasse natural, insensível até, como se morasse ali há muito tempo, mesmo como se tivesse nascido nela…”

   Assim como o seu protagonista (não nomeado) arriscou-se a sair do interior para viver na capital, o autor de O estranho no corredor (edição da 34), Chico Lopes,  após três fortes, densos e sobretudo coesos volumes de contos (Nó de sombras; Dobras da noite; Hóspedes do vento) arriscou-se num território mais amplo: a narrativa longa, mais espraiada, embora ainda dentro de certos limites, pois ele exercitou suas forças naquela forma que chamamos de novela e que sempre é caracterizada algo confusamente. Para nossos objetivos imediatos neste texto, basta considerá-la—confortavelmente, sem maiores ilações quanto à imprecisão da fórmula—como a forma intermediária entre o conto e o romance.

   O curioso é que Lopes se valeu nesta sua novela de um mote que é característico do  romanção realista à la século XIX, em sua matriz balzaquiana (ou mesmo dickenseniana): o provinciano que enfrenta a metrópole, e que ali tem triturada suas “ilusões” (se pensarmos bem, até em Crime e castigo o mote se faz presente). Por essa perspectiva, considerando a trajetória do “herói” (se utilizarmos tal epíteto no sentido de Northrop Frye quando caracteriza o  modo irônico, no qual o leitor tem a “sensação de olhar de cima uma cena de servidão, malogro ou absurdo”) de O estranho no corredor ela não difere muito do modelo: aliás, segue o mesmo arco do maravilhoso romance de Eça de Queiroz, A Capital!,  em que após ter as “ilusões perdidas”, o protagonista volta ao interior para lamber as feridas e encontrar um pouco de sentido na sua vida.

   No entanto, Lopes não optou por escrever um “romanção”. A forma adotada por ele segue outra genealogia muito interessante no que tange à situação dramática que fornece o título e a tensão narrativa principal: um estranho que se posta desdenhosa e desafiadoramente frente ao protagonista, como se eles tivessem contas a ajustar, e que, malgrado essa atitude hostil, não se aproxima, não  fala com ele, e que ao fim e ao cabo determina suas ações (e seu recuo da capital para o interior).

    Paralelamente ao “romanção” balzaquiano, o século XIX forneceu inúmeros exemplos de textos curtos que rompiam os limites do realismo, roçando o sobrenatural, sobrepujando o lógico, o racional, o psicologicamente compreensível à primeira vista. De Poe a Stevenson, de Hoffmann a Henry James, essa obsessão pelo “estranho” nos rendeu novelas que até hoje são alvo de interpretações diversas. Só para citar as mais óbvias, tivemos O homem da areia (Hoffmann), Sylvie (Nerval), Bartleby (Melville), William Wilson (Poe), O estranho caso do dr. Jekyll e do Sr. Hyde (Stevenson), A volta do parafuso (James), O Horla (Maupassant), sem falar em certas obras curtas de Dostoiévski, como O duplo ou Memórias do subsolo[1]; em todas elas, tocamos limites da condição humana que ainda servem como matrizes do imaginário ocidental capitalista (principalmente pós-Freud), acima mesmo das experiências formais dentro da ficção e das suas formas tradicionalmente estabelecidas.

    Portanto, em O estranho no corredor dialogam o mote do romanção balzaquiano e a atmosfera das “narrativas derradeiras”. O que se pode perguntar é o que pode haver de derradeiro numa narrativa desse tipo, já um tanto tardia para o século XXI? Pois Chjco Lopes não é um autor experimental, inovador formalmente, ele se alinha às narrativas derradeiras via o intimismo, o viés psicológico de certa linha de ficção  introspectiva (muitas vezes, de raiz católica) que tivemos por aqui: João Alphonsus, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria, Antônio Olavo Pereira, Otto Lara Rezende, Rosário Fusco, Cyro dos Anjos, Gustavo  Corção (sem falar no Graciliano de Angústia)[2], e que hoje parece estar bastante esquecida, e  nos aparece como algo quase recôndito, ultrapassado. Será mesmo?

1.               Um  herói típico do nosso autor

 “…não queria que o considerassem um caipira e, portanto, não tomava informações, perdendo-se numa rua e outra, enganando-se de rota, corrigindo-se, sem nunca rebaixar-se, com tremores que não queria que ficassem visíveis; empenharia todos os seus esforços no sentido de que a cidade lhe ficasse natural, insensível até, como se morasse ali há muito tempo, mesmo como se tivesse nascido nela e, para isso, era necessário, de algum modo, imitar personagens de alguns livrinhos de ação e policiais que lera quando menino, aqueles sujeitos que, sem perderem o cigarro no lábio, sem enrugarem um terno, sem entortarem uma gravata, andavam pelas ruas de Los Angeles, San Francisco ou New York com suas pastas e óculos escuros em direção a finalidades muito precisas. Imaginava que os portentos não tinham tampouco nenhuma indecisão, nenhum terror, ao chamarem um elevador, ao enfiarem-se numa galeria de inúmeras lojas, ao urinarem naquelas longas filas masculinas rapidamente organizadas e desfeitas em mictórios…”

    A continuação da citação do preâmbulo permite entrar no território Chico Lopes propriamente dito: como se pode ver, o provinciano de O estranho no corredor, apesar do seu quinhão de ingenuidade, está longe do herói da linhagem balzaquiana evocado por mim, devido à interposição de um ingrediente especificamente moderno: a ironia. Para ser bem entendido, a ironia, aqui neste passo,  reside no fato de que o personagem—assim como tantos outros da literatura a partir do modernismo—se movimenta por projeções: ele leu muito, e viu muito cinema (o que também é citado explicitamente ao longo do texto) e sempre há uma referência que torna certos atos, movimentos e decisões paródias do lido e do visto (é bem verdade, que no romanção do século XIX houve a projeção napoleônica, e sua reversibilidade também é irônica, mas tratava-se de um destino excepcional, fortemente calcado numa concepção épica do herói a que nenhuma projeção moderna pode recorrer a sério), no caso os protagonistas de romances de ação e de policiais.

  O que eu quero apontar e é o que afasta o protagonista de O estranho no corredor do provinciano do romanção e o aproxima dos protagonistas das “narrativas derradeiras” é que, embora a metrópole em larga medida o desiluda, seu problema essencial já vem de antes, já veio com a bagagem do interior: sua—e para ele inexplicável—falta de requisitos para exercitar a virilidade, a presença máscula no mundo, o à-vontade dos heróis daqueles livros e filmes lidos e vistos e que ele vê nos homens da metrópole como via nos homens da sua cidadezinha, que permite que eles se postem nos mictórios sem complexo de inferioridade, sem a sensação de serem esmagados, aviltados e ridicularizados. Para ele, “papel de homem” quase vem a significar “papel no mundo”.

    Para um sujeito assim, até mesmo a amizade com outro homem terá de ser ambígua e ameaçadora. E, de fato, seu único “amigo” na capital, Russo, um loser um tanto barrigudo, mas ainda boa-pinta para as mulheres, já é caracterizado  de saída com uma aura que contém esses dois adjetivos utilizados por mim (ambígua e ameaçadora):

“Fora na banheiro, quando o sujeito chegara para urinar perto e ele se virara, escondendo o óbvio, já inibido e incapaz de verter gotinha, furioso por estar tolhido e o intrometido achar isso engraçado. O filho da puta era risonho e se aproximara mais ainda, dando uns passos avante, encostando, fazendo-o recuar, mas havia o limite bem preciso de uma parede suja, esverdeada por infiltrações, e, parede, parede, parede, olhar acuado, garganta seca, urgia achar uma saída, fazer de conta que essa abordagem não era com ele—como se houvesse mais gente naquele canto mínimo onde, no máximo, mijavam dois—sem coragem para enfrentar esse desgraçado que tinha obviamente mais músculos que ele. Não tinha mais para onde fugir, apavorado,  como reagir, como repelir um vicioso determinado daquele jeito?  Quando acreditava que, literalmente, teria que erguer os braços, render-se e deixar que fizesse o que quisesse daquilo que ele escondera o quanto pudera esconder, o tipo começou a rir, descontroladamente, batendo em seu ombro, e garantindo que, rapaz, não precisava ter medo, era só uma brincadeira…”

    Tema obsessivamente trabalhado nas coletâneas de contos que precederam a novela, essa questão da espectralização da virilidade, tornada esquálida e bruxuleante no protagonista, e uma espécie de entidade de pesadelo expressionista nos demais (“Todos sempre me pareciam maiores, mais desenvoltos, mais capazes de fazer coisas, fazê-las sem remorso, fazê-las com uma eficiência mortal, o que era, afinal, o seu dever de virilidade. Se eu me atrevesse, descobririam que eu não tinha jeito que eu era um impostor, que minhas imitações do tom, do porte, das atitudes do clube, não eram bem feitas, que eu não podia participar de seu código. Eu não tinha convicção necessária, eu não conseguia”) ganha um sombreamento mais rico e inquietante ao ser sobreposta ao confronto com os desafios da capital, mas acho que ganha sua dimensão maior na volta ao interior, quando então—como os personagens dostoievskianos—nosso herói passar a viver quase num “estado de vexame”. Mas não antecipemos.

   Frustrado candidato a escritor, eternamente fiando e desfiando memórias da sua vida interiorana—e  mesmo nelas se ocultam perigos ( “…com frequência escrevia mais do que pretendia, enveredava pelo que não queria—alguém dentro dele, em desacordo com as idéias que queria claras, pegava-lhe a mão e o levava para outro caminho, para a proximidade, para a iminência  de revelações que sentia, pressentia funestas…”; ou, ainda: “Eram dias felizes, mas, quando me ponho a lembrá-los com mais cuidado, tenho medo da quantidade de coisas escuras que se movem por trás deles”), ele acaba reproduzindo no grande espaço da capital o círculo de giz da sua existência provinciana, como se caísse numa armadilha (até por causa da condição econômica): criado por uma tia severa e autoritária (que despojou a mãe e o pai dos seus direitos; este, por ser um beberrão imprestável e inoportuno, aquela por uma suposta perturbação mental), sempre muito protegido e com aquele tipo de comportamento dos muitos resguardados que eram chamados, na minha época de garoto, de “mariquinhas”, quando vai embora da cidade natal parece que é para não mais voltar (ele reluta em escrever para a tia, seu único elo afetivo, por assim dizer), e é inteligente como estratégia narrativa que esse momento—o da decisão de partida e a partida em si—nunca seja narrado, o que dá ao texto uma feição enrodilhada instigante.

   Na cidade, após tentar alguns contatos da tia (muito tênues e desinteressados) e literários (escritores publicados com os quais mantinha uma “vaga correspondência” e que fogem do escritor provinciano como o diabo da cruz), consegue  um  empreguinho como professor (num bar perto da escola é que cultivará sua “amizade” com Russo). O pior de tudo é que reproduzirá com a senhora que lhe aluga um quarto, embora de forma mais melíflua, mais enviesada, não tão autoritária quanto a da tia, uma relação de guardiã, de censora das “tentações” do mundo.

  E óbvio, com uma psicologia recalcada dessas, que o sexo é um assunto onipresente. Nem vou falar da repressão homoerótica, que acredito evidente nas citações anteriores, mas em nenhum outro aspecto a falta de horizontes é mais terrível, e todo aquele aspecto de perambulação pela cidade, mostrado na citação que abre este meu estudo, se mostra mais irrisório e deprimente. O mais que o nosso herói consegue é a masturbação em cinemas pornôs que já há vinte anos atrás chamávamos de “pulgueiros”, o que realça o teor furtivo da sua existência[3]. As duas únicas situações eróticas são tributárias da presença de Russo, e sombreadas por ela (uma “pre-sença” não no sentido heideggeriano, mas no  literal e físico, como veremos).

    Há, primeiro, a ida a um puteiro, uma pensão, descrita com todos os signos da breguice brasileira imemorial, a estética “pinguim de geladeira”[4], e cuja dona, Neide, é meio que embeiçada com Russo, e onde o “teacher”—bêbado—experimenta uma desanimadora chupada:

“O esforço da mulher dera resultados, mas teve que suportar vê-la, tranquila, habituada, it para uma pia cuspir o que engolira, o som daquela cuspida lhe doía horrivelmente (…) um corpo de mulher assim à vontade, com o desprezo utilitário e frio que ela demonstrava ter pelo seu, lhe dava uma sensação estranha, como se fossem ambos peças de açougue, carne num necrotério (…) Era madrugada quando, perturbado, ganhou a rua, sem ter  visto mais que um relance de Russo e Neide nus, na cama, o quarto com a porta escancarada, pensou em chamar o amigo, que não o via nem o ouviria, e envergonhou-se um pouco de, dali, poder ver, muito claras, as suas nádegas que se erguiam e abaixavam, no ritmo da penetração…”

   Note-se que, enquanto nosso herói representou um aspecto passivo do sexo, sendo chupado, Russo por contraste é visto em plena potência de penetração, e são suas “nádegas” em movimento que dominam a cena entrevista.

    Depois, há uma visita ao edifício onde mora Russo, que lhe apresentara—no bar—Carla, mãe solteira e moradora no mesmo prédio, que também tem uma queda por ele, mas mantida na condição de “irmãzinha” (a quem pede préstimos e empréstimos, no entanto). Russo por várias vezes meio que empurrara o “teacher” e Carla na direção um do outro. Um dia, nosso herói resolve ir até o apartamento dela. O episódio, um dos melhores momentos de O estranho no corredor, começa com um dos raros momentos de tentativa de autoafirmação do personagem:

“Erguer-se, rebelar-se. Não era justo que fosse sempre assim, quase indiferenciado, quase um nada, no cômodo dos fundos, ou lá na frente, ao lado de dona Graça, assustado com o mundo, compartilhando os chás, as sessões da tarde, os discos. Procurou uma de suas melhores camisas, vestiu uma calça, engraxou cuidadosamente os sapatos. Possível ficar bonito, com essa cara, esses óculos? Carla devia ter achado algum encanto nele, se Russo insistia (…) Algumas modificações, e seria aceitável ao menos.”

   Essa intenção “positiva” começa a se esboroar quando percebe que Russo não participará do jantar no apartamento de Carla e que não consegue ficar “à-vontade” com a moça (que oferece outro dos raros vislumbres de uma vida pessoal que não seja a do protagonista, nessa narrativa quase claustrofóbica de tanto emparedamento individual): “Melhor seria nunca ter saído de casa, arriscado essa visita que não tinha uma razão muito clara…”.  O encontro a sós entre os dois tem uma pungência notável, sem que o autor o realce com qualquer melodramaticidade ou excesso [5]. Carla oferece a oportunidade para que ele entenda o residual e arruinado sex appeal de Russo, quando ela diz: “Nenhum rumo na vida. E tão bonito…”:

“Ele tentou imaginar como uma mulher poderia achar Russo bonito, mas o amigo, sem nada que parecesse beleza no sentido mais imediato, tinha sem dúvida uma dessas masculinidades inteiras e compressoras, afirmativas e displicentes, que atraem e perpetuam desejos…”

    A visita toma um rumo sexual, mas da forma mais inusitada. Carla se despe para o “teacher”:

“__Não quero.

__ Faça por ele. Como ele faria.

__ Não sou ele.

__ Não serei eu…”

   No final, a visita acaba como uma homenagem à masculinidade do amigo ausente.

 

2.              O sóbrio “umheimlich” de Chico Lopes

   Amalgamando todas essas experiências derrisórias da capital, e como se materializasse toda a rejeição (ou o desafio que ele não pode peitar) que ela proporciona ao herói, há a figura do “estranho no corredor”. Apesar da atmosfera fora do comum (em especial, na mensagem marcando um encontro “domingo, às onze horas”), com algo do Poe de William Wilson, Lopes com grande inteligência arquitetou esse aparecimento do estranho, do sinistro, na  acepção freudiana (o “umheimlich”, em sua interpretação de O homem da areia, de Hoffmann) de uma forma não-fantástica nem sobrenatural, e ainda sim inquietante e acuadora. Qualquer que seja a interpretação que se dê a esse estranho no corredor, ele representa momentos de auto-percepção, de desnudamento do próprio personagem principal, e com isso o autor de Nó de sombras ganha a parada da verossimilhança e do uso de um símbolo, pois ele não precisa justificar com nenhum mirabolante recurso narrativo ou com nenhum truque de efeito na intriga urdida por ele a presença desse estranho, e não precisa dar a ele uma forma definida ou definitiva, mantendo o mistério (tanto que me ocorreram várias possibilidades durante a leitura, todas plausíveis—como, por exemplo, a tia ter um daqueles relacionamentos sexuais tortuosos e furtivos com o pai dele, cuja entrada na casa é ostensivamente proibida–mas  nenhuma que se justifique impor ao leitor).

   Antes de vê-lo, é possível que nosso herói o tenha ouvido na infância, na casa da tia (não por acaso, a evocação vem em seguida à lembrança de atividades masturbatórias—sempre cercadas de muita culpa, ainda mais com uma tia tão castradora, e que uma vez o pegara em flagrante contemplação incestuosa):

“Incomodava-o agora a lembrança da noite em que—quantos anos tinha?—tivera a certeza de que alguém andava de cá para lá, inquieto, no corredor que ligava quarto e sala. O homem, alguém que de modo algum poderia ou deveria estar ali, acabaria por bater à porta, pedir para entrar—ele não querendo, haveria arrombamento. Encolhia-se por completo na cama, à espera do que de pior fosse decidido, suando. Nada. Os passos, no entanto, continuavam. Tiravam-lhe o sono. Eram pesados, bem definidos—inequivocamente masculinos—e impacientes.

   Quando decidiu, no meio da madrugada, levantar e abrir a porta, acender a luz do corredor com quanta coragem desesperada fosse possível, já nada mais ouvia. Estava vazio. Não conseguia crer que tivesse apenas sonhado. Precisava entender. Esperou a noite seguinte, outra e mais outra. Aprendeu a conhecer os passos, distingui-los com precisão infalível dos da tia (…) Os do estranho tinham uma qualidade singular, uma como que musicalidade escura. Havia uma identidade precisa ali, no seu visitante, mas como poderia sair dos cobertores que o embrulhavam e eram insuficientes para aplacar a sua tremedeira? Para decifrar o enigma, precisaria arremeter-se nos momentos mais duros, quando os sons do corredor eram totalmente nítidos e produzidos por alguém ou algo presente de modo inegável. Mas era nesses momentos que queria, que precisava morrer. Toda essa indecisão acabou, a presença desapareceu, a tia tinha trazido o padre e benzido a casa inteira (…) e ele nunca dissera a ninguém de suas cismas e terrores…”

   Aí se podem ver a ambiguidade da casa da tia (refúgio e lar, mas também lugar de “coisas escuras que se movem por detrás”) e a pusilanimidade que destitui o personagem do seu estatuto viril, e que vai afetá-lo pela vida afora.

    Anos depois, já na capital, o ouvido se torna uma visão:

“Andava pelo centro quando algo soprou em seus ouvidos, com um pequeno arrepio que lhe chegou pelo lado esquerdo da cabeça, que precisava olhar para trás, que era um caso instintivo de fazer isso ou não sobreviver. Ficou todo trêmulo, virou-se com muito medo e não demorou a avisar uma sombra bem definida. Ele estava lá, olhando-o, medindo-o, alto, sólido, quase blindado, encostado, com uma naturalidade arrogante, a uma porta de uma velha barbearia, espremida entre duas agressivas e atulhadas lojas de importados. Fumava, tranquilo, e o olhava com uma fixidez provocadora, com o despudor de quem examina clinicamente todos os ângulos de um objeto. A pose e o olhar diziam claramente que ele estava marcado. Para quê?”[6]

   Ao mesmo tempo, temos a sensação de pessoa acossada e também uma maneira de se distinguir do rebanho, da insignificância geral. Pode-se dizer que o estranho praticamente expulsa o “teacher” da capital, ao fazê-lo fugir, mas essa expulsão-fuga quase ganha foros de uma marca distintiva, transforma-o em “alguém”. Ele até mesmo, tenta, no capítulo 8,  num prurido de heroísmo meio à Charles Bronson, perseguir o estranho, contudo aborda o sujeito errado e o esforço o esmaga:

“Que força! Gozava de sua superioridade, nesse momento. Poderia, se quisesse, apanhar um pedaço de pau, ou uma barra de ferro—procurava o porrete olhando para os lados—e golpeá-lo com todos os golpes que quisesse, o suficiente para transformá-lo numa massa de carne e sangue informe, sem tanta capacidade de desdenhar, ali na rua, nos paralelepípedos. Mais passos, mais passos. Alcançou as costas, deu um tapinha cuidadoso nas espáduas (…) Não era ele (…) O estranho não disse nada, afrouxou aos poucos a carranca, dando-o por inofensivo o bastante para que retomasse seu caminho no mesmo ritmo, sem importar-se. Ele desabou numa escada para um trecho de casas idênticas, de onde ninguém o olhava, tapou o rosto e ficou ali, imóvel, por horas”.

2.a. A cidade do seu destino final[7]: o teacher se transforma no “filho do Terremoto”

“..que consolo poder voltar a um lugar tão pouco atraente, tão bom como esconderijo, anulação, fim de sonhos, de riscos!”

    A partir do capítulo 12 (a novela tem um total de 19), nosso herói volta a V., sua cidade natal. Apesar de se acomodar novamente na casa da tia, com o mesmo regime sob o qual vivia antes de partir, já não é possível “lavar as mãos” do mundo, mesmo porque a partir daí o estado dele será meio que febril, e ele viverá num “estado de vexame” que os personagens de Dostoiévski (penso aqui em O duplo ou Memórias do subsolo, antepassados legítimos de O estranho no corredor) conheceram bem: ao diversas perambulações pela cidade, para descontentamento da tia cujo baluarte é a respeitabilidade,  confrontarão o “teacher” à figura do seu pai, e sempre de forma desfavorável, a começar pelo membro viril.

  O primeiro confronto com a “fama” do pai acontece no bar do Azulão, cujo dono “sempre lhe parecera  um tanto grande demais, o tórax de cantor de ópera, um  bigode muito largo emendando-se às costeletas espessas, peludo, vermelho, hiperbólico (…) Queria não olhá-lo, queria não ter consciência de sua densidade, de seu tamanho, de uma existência que parecia reduzir a sua a uma irrisão aparvalhada.” Esse homem lhe dirá, provocando nele uma série de bravatas alcoólicas vexatórias que o afastarão cada vez mais do mundo da tia e o aproximarão do mundo do pai, ainda que sem os requisitos necessários, como já vimos:

“__ Porra, nem parece filho dele.

__ Por quê?

__Se fosse, saberia.

__ O quê?

__ Que este era o tango favorito do teu pai, homem. Você se lembra do Terremoto, né, Garcia?—disse ao freguês e ambos começaram a rir muito, e riam ainda mais de sua expressão de ignorância—Sabe, rapaz? Teu pai foi uma grande figura…

__Um grande gozador—dizia o freguês.

__ Ali, tudo era bem grande…—riu o cantor—Vinha gente aqui pr comprovar. Carregava uma régua, média pra que todos conferissem. Ele se divertia. Nunca houve nada parecido na região…

__Quero beber alguma coisa…

__O quê? Um guaraná, um copinho de leite com groselha?

__Conhaque. Aquele…

__ Caralho, parece que é herdeiro legítimo…—o homem o olhava, procurava os olhos do freguês, ambos pareciam  cúmplices de algum intento de zombaria de que só podia suspeitar e isso o irritava horrivelmente.”

   Essa e outras cenas penosas parecem acentuar a desmoralização do personagem e, por extensão, a lição de alguns périplos ficcionais: de que o herói encontrará seu lugar longe das ilusões da capital, no seu rincão natal. Muito pelo contrário, parece que o fracasso da cidade se duplica e se complica em V., onde parece que o filho do Paiva, o filho do “Terremoto” não tem mais lugar, mesmo porque cada vez mais parece insustentável a sua permanência na casa da tia, saindo às escondidas, ou então saindo e não voltando, senão no dia seguinte, bêbado, amarfanhado, enxovalhado.

   Entretanto, há um inesperado elemento de positividade nessa dolorosa etapa final da narrativa. Como já mencionei, o estranho que o afrontava na capital deixara ao “teacher” (justamente após a ida ao puteiro e à bebedeira que acarretaram recriminações de dona Graça, a locadora, ao ver seu hóspede de ressaca) um envelope com a indicação de um encontro no domingo, às onze horas.

  A princípio, o filho do “Terremoto”  pensara ter se livrado do estranho na sua fuga a V. Aos poucos, ele se dá conta de que deseja o encontro, de que é um compromisso marcado ao qual não se pode furtar. É interessante que a expectativa desse encontro (não vou citar nada, para deixar ao leitor a descoberta de um belo momento da nossa ficção atual) se reveste de todos os elementos disseminados ao longo do relato: a casa da tia, sensaçãoes auditivas (as batidas na porta, gente querendo entrar na casa) até a presença efetiva do estranho se configurar.

   Tendo a tia à janela (que muito provavelmente será fechada de vez), tendo se despojado da sua frágil dignidade não-viril, esse encontro parece abrir ao nosso protagonista a perspectiva de uma virada real em sua vida, para baixo (ser um bêbado contumaz e vexatório) ou para não se sabe onde,  as “promessas do breu” em direção a um rumo onde não há modelos distorcidos ou acachapantes, e no qual até sua sexualidade possa ser vivida de maneira menos crucificante e furtiva.

   Os problemas certamente não são solucionados, mas a fuga ou o recolhimento, a sensação de segurança, o “conforto do acanhamento”.

Conclusão

“Passa-se uns anos longe, e eis novas lojas surgindo, lanchonetes sendo substituídas por outras lanchonetes, o banal pelo banal, o estúpido pelo estúpido, e sempre novas gradações de banalidade e estupidez e utilitarismo sem beleza se sucedendo, e em seguida, despojo, nojo, ruína, o aumento dos figurões donos de bustos e de nomes nos bancos dos jardins, um velho comércio de bugigangas sendo substituído por outras de 1,99 (…) Reconhecia um rosto, um corpo, uma certa voz que o cumprimentava. Não fazia tanto tempo assim que deixara a cidade e, ultimamente, o que ali consideravam progresso andava dando as caras, ´vamos todos passar um pelo outro sem nos cumprimentar pra fingir          que a cidade ficou grande´, dizia o dono de um boteco…”

   Agora, feito o percurso, posso voltar à pergunta do preâmbulo: ainda é pertinente, ainda faz sentido, uma narrativa na feição “umheimlich” à moda daquelas, tão fascinantes, do século XIX, em plena segunda década do século XXI? Em plena era digital, com a garotada já de saída na vida manejando celulares, tablets e artefatos eletrônicos os mais diversos, decidindo a moda que deseja seguir, com as conquistas sociais efetivadas pelos presidentes do Real, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, com o mundo rural já tendo sido tragado pelo urbano, após um processo de industrialização que começou há meio século, ainda é pertinente uma abordagem desses miasmas interioranos, desses recalques recônditos, desses machos problemáticos de um Brasil que ficou para trás?

  Claro que sim, respondo, se já não ficou claro no decurso do meu próprio texto: qualquer um que conheça a realidade cotidiana brasileira, que ande pelas ruas, e veja esses peões com visual moderninho, mas comportamento retrógrado, jovens que aderem a velhos cafajestismos e comportamentos atávicos, mesmo “conectados com o mundo”, e não precisa nem ser nos grotões e igarapés deste nosso país (para utilizar algumas expressões favoritas de uma escritora que nada entende da realidade nacional ou de qualquer outra realidade que não seja a  da retórica, Nélida Piñon), aqui mesmo na Baixada Santista onde moro, encontramos esses miasmas camuflados pelos signos e adereços ostensivos do moderninho.

   Houve mudanças, é claro. Mas, além de ir a Tóquio, Berlim, ao Cairo ou a Moscou para fazer apologia da globalização e escrever livros “antenados”, os escritores brasileiros precisam ainda dar conta do que permaneceu inculcado, atávico e deformante em nossa formação nacional. E isso O estranho no corredor realiza esplendidamente.

           (18 de março de 2012, escrito especialmente para o blog)

 

 nota especial- Os quadros reproduzidos neste post (com as exceções óbvias) são todos de autoria do próprio Chico Lopes, que assim mostra outra faceta do seu talento criador.

[1]              E  Se me for permitida uma nota pessoal, eu já trabalhei muito com essas narrativas em outros escritos meus, e até mesmo num curso (As margens derradeiras: textos do limite) e sempre pensei nelas como “narrativas derradeiras”.

[2]              Não é meu objetivo aqui fazer distinções qualitativas entre esses diversos autores, porém devo dizer que Chico Lopes se aproximaria mais, dentre eles, de um João Alphonsus, grandíssimo contista, e—pela linguagem concisa, afeita à precisão—de um Cyro dos Anjos, longe daquela coisa fuliginosa, prolixa , sobrecarregada e muitas vezes estilisticamente pobre que vemos em um Octavio de Faria ou  até mesmo num Lúcio Cardoso. Dito isto, Cornélio Penna é um gênio da nossa literatura, e seu apego peculiar à forma do romance é um caso excepcional.

[3]         Num diálogo paradigmático entre Russo e seu amigo, o “teacher”:

         __Quando a gente olha aquelas cidadezinhas na noite, em estradas da serra, acha que aquilo parece o lar prometido, um refúgio, um presépio, sei lá. Imagino que seria feliz com uma mulher, um filho, um empreguinho simples, uma casa pra morar no mato.

         __ Melhor ficar com isso na cabeça e não ir lá ver o que de fato existe.

         __ Que é que você fazia lá? Escritor, punheteiro, só ficando nisso?

         __ Não tinha outra saída.

         __ Continua não tendo.

         __Aqui ao menos não se é tão vigiado.

         __ Mas você se  comporta como se fosse, teacher. Não me engana, ora…”.  Diga-se de passagem, é um dos raros momentos em que O estranho no corredor nos permite acesso ao Outro, à sua existência concreta e irredutível, não apenas simbólica para o protagonista.

[4]              [4] Eu não sei se é proposital (acredito que sim), mas esse e outros momentos da narrativa de Chico Lopes dão a ela um ar atemporal, como se o que ali é narrado pudesse estar em qualquer ponto entre os anos 1960 e o nosso próprio tempo. Voltarei a isso na conclusão

[5]              A não ser num pequeno detalhe, um dos poucos deslizes e falseamentos de tom que eu já percebi em Chico Lopes, quando Carla—referindo-se à sua relação com Russo—diz: “Não é aqui o seu único porto. Quem sou eu, né? Nada de quebrar o tabu do incesto…”

            A propósito, também acho pouco convincente uma fala da prostituta da pensão de Neide:

         “__ Me diz aí o que você quer…

         __ Paz de espírito, acho.

         __ Artigo que não tem por aqui.”

           Não combinam com o universo de Lopes essas frases de efeito, essa intelectualização súbita de  personagens populares. Por outro lado, Carla me lembra um pouco algumas mulheres saramaguianas, como a Joana Carda de A jangada de pedra, a Blimunda de Memorial do Convento e outras mais, mulheres crispadas, sem ilusões, resignadas e com o seu quinhão comovente, mas prático acima de tudo, de ternura.

            Aprovando  o “quesito defeitos”, também preciso salientar que certo traço caricatural excessivo me incomodou um pouco (por exemplo, na figura do intelectual glutão e arrivista, que visita a tia) e certos exageros generalizantes, que não ajudam muito a entender a complexidade das relações, como na caracterização um tanto sumária dos alunos da escola: “vindos do comércio, de famílias abastadas, quase todos adolescentes entediados e agressivos que acompanhavam as aulas raramente com atenção, felizes quando algum incidente ridículo quebrava o silêncio e a concentração nada duradouros. Ele tinha sempre uma pressa contida, exasperada, de acabar com as aulas, não ver os rostos desdenhosos (…) incomodado pelos olhares das garotas—que diziam claramene que le nada apresentava de sedutor” (sempre acho que esse tipo de caracterização vem dos estereótipos cinematográficos, pois quem dá aulas sabe que não é só isso).

[6]           “Fora   no fim da aula noturna, quando olhava para o cinzento nunca purificado pela chuva insistente de um prédio próximo, que sentira a presença às suas costas, os passos pesados, uma força que vinha em sua direção, alguém que emergia do escuro de um corredor—o homem.”

[7]         Faço aqui uma brincadeira com o título do romance de Peter Cameron,The city of your final destination (2002)

26/02/2012

EM TORNO DE UM CORPO: “Se eu fechar os olhos agora”

“Paulo  observava o irmão, diante do espelho…

__ Vai sair, Antonio?

__ Vou… O Mauro, o Zé Paulo e eu vamos comer a empregada do Mauro… O Mauro já comeu. E avisou que se não der para nós, conta aos pais que ela é uma puta.

__Ela cobra quanto?

__ Que cobrar o quê, neguinho! Pegaram ela na roça para criar. Não tem onde cair morta. Quero comer aquele cu. Vou arrombar aquele cu.

__ Quantos anos ela tem?

__ Uns quatorze, quinze. É cabaço, ainda. Só deixa botar no cu…

__ E se ela não quiser?… Hein, Antonio? E se ela não quiser?

__Já te disse que ela é cria da casa.

__Mas pode não querer.

__ A gente come à força e quebra ela de porrada.”

      Esta cena (na qual eu dei uma condensada), entre um dos protagonistas de Se eu fechar os olhos agora, Paulo (a essa altura com doze anos), e seu irmão mais velho, está quase na metade do livro, e demonstra de forma eloqüente e cabal a mentalidade que o romance (o seu primeiro) de Edney Silvestre pretende desmascarar, fundada no machismo sem limites, no patriarcalismo, na desfaçatez de quem manda, faz o que quer e “quebra de porrada”, mesmo que seja exemplificada pelo pueril e boçal filho de um açougueiro (como é o caso de Antonio) até chegar às camadas superiores da nossa sociedade, a elite que manda no país, com os mesmos “princípios” e a mesma cara-de-pau.

     O enredo se inicia como uma espécie de Dália Negra do interior do Rio de Janeiro (cujo passado remonta à glória da cafeicultura): dois meninos, Paulo e seu amigo Eduardo encontram o cadáver extremamente mutilado de uma mulher, em 12 de abril de 1961, dia em que Iuri Gagárin deu a volta à terra no espaço. Estamos às vésperas de acontecimentos momentosos: o assassinato de Kennedy, no plano mundial; a revolução de 64, no plano nacional…

     Logo se descobre que a morta,Anita, era a “vagabunda” da cidade (“uma mulher permanentemente aberta à visitação pública”): casada com um dentista muito mais velho que ela (que confessa o crime e depois se suicida na prisão, tudo mentira, é claro), transava com todos os poderosos do local. Paulo e Eduardo resolvem investigar o crime e contam com a ajuda de  Ubiratan, um forasteiro que mora no asilo de velhos local, e que durante a ditadura de Getúlio Vargas fora torturado por ser comunista. É ele quem descobre (com a ajuda dos meninos, mais ágeis fisicamente) que Anita  na verdade chamava-se Aparecida, e nascera na fazenda da família do prefeito, como fruto do estupro de uma criada negra praticado pelo pai dele, senador da república. Como sua tez branca era reveladora do absuso, fora enviada a um orfanato. Mas, como boa “cria da casa”,  fora obrigado a se casar com o dentista, um pervertido que firmara um pacto de cumplicidade com ex-colegas de seminário, de forma a explorar sexualmente a mulher de todas as maneiras. No final do labirinto, perversão sexual, exploração, resquícios da escravidão, e, coroando tudo, incesto (Dália Negra se converte um pouco em Chinatown, acho que os mais aficcionados por cinema lembrar-se-ão das revelações que Faye Dunaway faz a Jack Nicholson sobre sua família: a irmã que ela procurava era, de fato, a filha que tivera do próprio pai), são as motivações do crime, que será acobertado e marcará os futuros caminhos de Paulo e Eduardo (um dos melhores momentos do romance acontece quando os dois recebem uma advertência do diretor e Eduardo  tem o seguinte insight: “e se não houvesse futuro para ele? O futuro que até esta manhã, na sala do diretor do colégio, lhe parecera garantido? E se no Brasil, refletia, neste Brasil novo em que surgiam indústrias, estradas, empregos, e se neste Brasil novo, mesmo sendo uma democracia como os professores ensinavam, onde nós o povo, temos eleições livres e decidimos quem vai nos governar, e se neste Brasil houvesse  poderes, forças que ele não sabia dizer quais eram,ou o que eram, nem tampouco apontar onde estavam, e se as houvesse, essas forças, esses poderes capazes de decidir o destino dele, sem que ele pudesse intervir? Alterar tudo sem chance de retorno? Como no dia em que retiraram Aparecida do orfanato para casá-la com o dentista?”)…

    Em tudo, vemos a mentalidade de Antonio, o irmão de Paulo: “Pegaram ela na roça para criar, não tem onde cair morta, vou arrombar aquele cu, a gente come ela à força e quebra de porrada”. E depois as pessoas acham que vivemos tempos infelizes e bárbaros. Assim como Leite Derramado, de Chico Buarque, para citar outro caso recente de romance que se debruça sobre nossa história, a desmoralização social brasileira não é de agora, nós estamos é purgando o passado. O caso da aluna da UNIBAN, achincalhada e acossada por uma massa de boçais (de ambos os sexos) mostra como os avanços são frágeis e como podemos retroceder rapidamente.

“__ Aparências enganam. Mais cedo ou mais tarde vocês irão aprender. Nada neste país é o que parece. E esta cidade é um microcosmo do Brasil.”

     Além desse desmascaramento e acerto de contas , Se eu fechar os olhos agora também é um exercício proustiano, de memória afetiva. É por esse lado que se revela mais interessante, a meu ver, principalmente no seu início, onde o autor estreante utiliza com grande acerto e critério soluções narrativas que desestabilizam as certezas narrativas, o que nos traz à mente o estilo de uma Marguerite Duras ou de uma Joan Didion (ele também me lembrou um pouco, sem o virtuosismo dele, é claro, Mario Vargas Llosa, e seus acertos de conta com o passado peruano), como no caso do capítulo “Noche de Ronda”: “Alguém que ouvia um disco. Ou uma fita cassete. Havia fitas cassetes naquela época, em 1961. Havia? Naquela cidade? Quem as teria? Não um operário. Ninguém naquela rua poderia ter um toca-fitas. Um pai açougueiro tampouco. Naquela rua, seguramente, ninguém. Ou talvez sim…” e mais adiante: “Ouvi a canção mais tarde…Não. Não. Não. Tenho certeza: ouvi naquela noite. Uma voz  de homem. Acho que era…Uma voz masculina. Acho. Tenho certeza. Acho…” Esses primeiros capítulos e, ao longo do romance, o que se refere ao mundo dos dois protagonistas-mirins, Paulo e Eduardo, provam que Edney Silvestre poderá ser um romancista de primeira, ele tem o talento para tanto. Os dois meninos esbarrando nos limites da sua experiência e tentando decifrar os códigos do mundo adulto , por mais que já tenhamos visto tudo isso, ainda assim são o melhor de Se eu fechar os olhos agora, é o caso das suas reações quando Ubiratan os leva para assistir à Doce Vida, de Fellini, ou quando discutem aspectos da personalidade de Anita/Aparecida e, não conseguindo explicações plausíveis, que combinem com sua percepção de menino, Eduardo pensa: “Mais uma vez não conseguiu fechar o raciocínio. Mais uma vez estacava diante do paredão do mundo adulto, por trás do qual havia regras que não tinha como entender”.

    Infelizmente, a partir do momento em que a trama se concentra nas investigações e descobertas de Ubiratan, o romance enfraquece muito: em primeiro lugar, porque a depravação das elites é reiterada de tal forma que a solução do crime não apresenta o menor impacto, e em segundo porque o personagem Ubiratan não é lá muito bem desenvolvido ou interessante, além disso o autor parece não confiar muito na inteligência, ou pelo menos no conhecimento histórico dos leitores (ele parece nos ver com a idade mental dos dois meninos: 12 anos), e seu herói acaba fazendo paralelos e caindo em didatismos que, francamente, são meio empobrecedores, quando não ridículos… Era preciso fazer Ubiratan falar de Sagarana ou de Memórias do Cárcere, ou de Stálin e sua filha? Será que, em vez de se fixar na vida dos meninos, tão interessante (e uma parte dela fica na sombra, principalmente os pais de Eduardo), ele tem de nos fazer aturar falas de Ubiratan como a seguinte: “Sabem o que foi Guernica?  Sabem o que significou? A carnificina? O bombardeio? A matança de crianças, velhos e mulheres? Sabem? A ascensão do fascismo? Sabem da Guerra Civil Espanhola? Picasso?”

       Por esse motivo, Se eu fechar os olhos agora enfraquece de forma considerável da metade em diante. E o seu final é particularmente chocho: ao focalizar Paulo adulto, tentando saber do destino de Eduardo, ele não consegue dar uma idéia de trajetória, de formação, e nada significativo vem à tona.

    O momento Dália Negra, momento do mistério do mundo para os garotos, momento em que eles podem se imaginar detetives e reconstruir a cadeia de fatos, se mostra mais forte e vívido do que o momento do desmascaramento, onde tudo é revoltante, mas um tanto óbvio.

A DÁLIA NEGRA DOS TRÓPICOS

Resenha publicada, de forma ligeiramente condensada, em “A Tribuna” de Santos em 19 de janeiro de 2010

      Até a metade, Se eu fechar os olhos agora (romance de estreia do jornalista Edney Silvestre) é excelente: em 1961 (dia em que Iuri Gagárin deu a volta ao planeta no espaço), numa cidadezinha do interior do Rio, dois meninos de 12 anos, Paulo e Eduardo, encontram o cadáver mutilado da mulher do dentista, a qual era a “vagabunda” da cidade (“uma mulher permanentemente aberta à visitação pública”).

     Paulo e Eduardo (este, o narrador da história) não conseguem acreditar na confissão (e em seguida, no “suicídio”) do marido de Anita e tentam investigar o crime mesmo não entendendo as motivações e códigos de conduta dos adultos: “Mais uma vez não conseguiu fechar o raciocínio. Mais uma vez estacava diante do paredão do mundo adulto, por trás do qual havia regras que não tinha como entender”.

     Os dois aliam-se a um velho do asilo local, Ubiratan (que fora torturado pela ditadura getulista), um forasteiro, e aos poucos, se monta um desmoralizante painel de exploração sexual, de machismo, de racismo, de desfaçatez patriarcal (que remonta aos plantadores de café, os quais fizeram a antiga riqueza da região), de incesto. De uma espécie de Dália Negra tropical (cadáver de mulher encontrado, sugerindo perversões e motivações sexuais patológicas) vamos nos encaminhando para um Chinatown (os podres dos muito ricos e poderosos), a obra-prima de Polanski, na qual a protagonista procurava a irmã que era na verdade a filha que teve com o próprio pai.

      A ignorância dos meninos, apesar da sua curiosidade, e a decisão coletiva de acobertamento do que está por trás do assassinato de Anita (na verdade, Aparecida, nascida na fazenda da família do prefeito, fruto do estupro de uma criada negra, efetuado pelo pai dele, um senador; como a filha nasceu com a tez muito branca, denunciando o abuso, mandaram-na para um orfanato, e depois a obrigaram a casar com o dentista, muito mais velho, que tinha um pacto de cumplicidade com ex-colegas de seminário e a partir do casamento explorou sexualmente, de forma sistemática, a jovem esposa, assistindo e fotografando as orgias de que ela fez parte).

      É a participação de Ubiratan que estraga a segunda metade e enfraquece consideravelmente Se eu fechar os olhos agora. Por certo, seria preciso um adulto para reconhecer o fio da meada, já que isso era impossível à ingênua dupla de protagonistas. Mas o problema é que a narrativa, que começara de forma muito interessante, como exercício das incertezas e sensações da memória, escorrega no moralismo e na falta de confiança na inteligência do leitor, que ele coloca no nível de informação dos garotos de 12 anos. O velho militante comunista fica a todo momento fazendo paralelos históricos e evocando injustiças e atrocidades do século XX, de uma forma irritante e até constrangedora: “Sabem o que foi Guernica?  Sabem o que significou? A carnificina? O bombardeio? A matança de crianças, velhos e mulheres? Sabem? A ascensão do fascismo? Sabem da Guerra Civil Espanhola? Picasso? Por incrível que pareça, Edney Silvestre, nós sabemos, sim, e não é desta maneira que uma ficção consegue dar conta dos fatos históricos. Basta lembrar da perícia com que Leite Derramado tocou na ferida do racismo (que também é muito presente em Se eu fechar os olhos agora), sem apelar para o didatismo ou o discurso inflamado. Como diz o verso maravilhoso de Drummond, “que tristes são as coisas quando consideradas sem ênfase”. A história de Anita/Aparecida é muito triste, sem precisar dessas diatribes melodramáticas.

     O final do livro é também decepcionante, ao mostrar Paulo já adulto, tentando localizar Eduardo. Não há nenhum dado novo, nada que dê ideia da formação dos personagens, a partir dos fatos que viveram em 1961, e cuja repercussão em suas vidas futuras, Eduardo intui, após a advertência do diretor da escola onde estudam:    “e se não houvesse futuro para ele? O futuro que até esta manhã, na sala do diretor do colégio, lhe parecera garantido? E se no Brasil, refletia, neste Brasil novo em que surgiam indústrias, estradas, empregos, e se neste Brasil novo, mesmo sendo uma democracia como os professores ensinavam, onde nós o povo, temos eleições livres e decidimos quem vai nos governar, e se neste Brasil houvesse  poderes, forças que ele não sabia dizer quais eram,ou o que eram, nem tampouco apontar onde estavam, e se as houvesse, essas forças, esses poderes capazes de decidir o destino dele, sem que ele pudesse intervir? Alterar tudo sem chance de retorno? Como no dia em que retiraram Aparecida do orfanato para casá-la com o dentista?”)… 

     Mesmo com esses altos e baixos, tudo indica que temos um novo romancista na praça. E cheio de gás e talento…

04/12/2011

SOBRE MENINOS E LOBOS: a sedução dos contos de Nilton Resende

(resenha publicada originalmente, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 29 de novembro de 2011)

 “A nossa saída do casebre foi muito diferente de quando saímos de casa pela manhã; e a incerteza sobre o estado do Rei deixava-nos silenciosos. Não nos encarávamos, Luís não dirigia palavras a ninguém; nenhum de nós conversava. Pensei por um tempo se tinha ou não raiva por ele ter me repelido daquele jeito, mas ao fim, como a borra precipitada no fundo de uma xícara, restou-me uma estranha sensação de poder, de como agachado, choroso, ondulante e frágil, por trás de arbustos, mesas, cortinas, mas sempre me mostrando frágil, era assim que devia permanecer, amando o ofício  que desde sempre conhecia, o de portinhola, durante a caminhada, fui-me deixando ir atrás, para poder ver sem ser visto, e para poder decorar os contornos de Luís, que de costas lembrava-me o mesmo Luís que eu tinha visto quando se estirou na cerca e pulou nu e rodopiando, o pião mais belo que já vi…”  

     (Nilton Resende, Ofício)

“Percebe que estivera parada tempo demais, emolduram-se rostos nas janelas dos carros, as pessoas já estão olhando, então espalma as mãos, levando-as ao rosto, à boca, ao buço, à base do nariz, espalmar de prece-petição. Os cotovelos apoiados no ventre, a boca semi-aberta e o passo largo, que agora já-já o semáforo irá fechar. E é preciso que haja pressa, um carro está buzinando, e ela assim, tão lerda, tão contida em uma concha. Algumas vezes fora quieta, sem necessidade de ser vista, mas hoje não. Não hoje, por favor!, que se transforma em pura expansão se tomada de imensa alegria, como pela manhã indo às compras. Expansão. Os braços em volta dos filhos, dos netos, do esposo, quando os tinha. Sorrisos em esboço para o outro, porque não se é dono da própria face; esta, quando não se está só, é de quem a vê…”

         (Nilton Resende, Não é tempo de maçãs)    

   

 Diabolô, coletânea de nove contos que marca a estréia de Nilton Resende no gênero[1], apresenta tal força que já pode ser considerado um dos destaques entre os lançamentos deste ano.

    Os dois textos que emolduram o livro, A ceia e A fresta, apresentam guris envolvidos em jogos perversos e ainda incompreensíveis para eles mesmos: no primeiro, há um duelo sub-reptício com o avô, com o menino fazendo maldades e delatando supostos abusos, até que os pais mandem o velho para um asilo; no segundo, enquanto os adultos se embebedam, a descoberta das delícias e as dores do voyeurismo.

   O mundo da infância, segundo a ótica do talentoso escritor alagoano, é um repertório de códigos de desejos e segredos aprendidos e alimentados, à margem da educação “oficial”. Não há inocência, porque em algum momento a fresta se abriu, as tentações se apresentaram, e os lobos maus estão dentro de nós, já no latejar do sangue e no ritmo do corpo: “Põe-se na ponta do pé e espia por uma frincha da janela. O homem beija e alisa com a língua o joelho de uma mulher de pernas abertas, enquanto toca a mão nas carnes em meio aos pêlos, esfregando os dedos e forçando-os na entrada. Ainda mexendo cm os dedos, ele sobe a língua até os peitos dela e chupa-os. Deita-se, e a mulher coloca a mão no negócio dele, que está duro. O menino encosta-se na parede, pressionando o corpo e esfregando-se.”.

      É o caso, emblemático, de A canção e a sombra, no qual o narrador—também um garoto—viaja com os pais para a fazenda da avó e lá é “iniciado” por uma “tia louca”, na verdade, um patético homem trancafiado pela família, como um segredo vergonhoso. Note-se, entretanto, que antes mesmo de conhecer o mistério da “tia”, o menino já pressente em si todo um território perigoso: ”Eu quis dormir, mas vi um rio que surgiu repentino, muito fino, ao lado dos mulungus. Não dava para ver se corria, ou se andava, mas antes me parecia uma superfície parada, um espelho acompanhando a cerca morta-viva. Na escola eu havia aprendido que os rios correm. E agora me surgia aquele tão calmo. Comecei a rir, já me preparando para gozar da cara da professora, mas engoli o riso: num ponto, o espelho se estilhaçou, fez uma curva e passou por entre as árvores, desaparecendo numa depressão. Ainda olhei para trás, mas não consegui ver aonde ia dar. Tive medo e resolvi que o melhor agora seria realmente dormir. Fechei os olhos, deitei-me estirado no banco e comecei a contar carneirinhos que logo se transformaram em mulungus de braços estendidos e cabeleira elétrica, correndo atrás do carro com as bocas abertas. Adormeci.”

    Em todos esses contos, assim como nos igualmente ótimos Flamor[2] (eu gosto muito de Diabolô, inclusive do título escolhido para a coletânea, todavia um dos poucos reparos que tenho a fazer é por conta dos títulos de vários contos, nada sedutores[3]) e Casaram-se numa quinta-feira (texto cruel, onde o desejo de paternidade como afirmação plena de si consome um homem), Resende mostra-se um urdidor habilidoso, que sabe nos envolver com uma história bem tramada, afora seus recursos de linguagem, invejáveis.

    Mas a face talvez mais autenticamente pessoal, mais caracteristicamente sua, parece estar nos dois textos mais longos, Não é tempo de maçãs e Ofício, a meu ver, os pontos altos de Diabolô, mesmo sem um acabamento perfeito ou clareza narrativa, em sua tessitura densa. São sobrecarregados, frementes, agregam muitas imagens nem sempre harmônicas, e no entanto têm um poder aliciante que mostra quão proveitoso foi o convívio intenso de Resende com o universo de autoras do naipe de Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles.

    Em Não é tempo de maçãs, um narrador ardiloso relata o suplício de uma senhora que ia comprar roupa para o casamento do filho, ao ser desprezada por uma vendedora (que fala, à socapa, mas é ouvida, para as colegas: “Essa vaca não toma banho? Se for inventar de provar tudo, a gente vai ter que lavar a loja inteira. Ela fede a azedo…”) e que envenena empadas numa vingança que é mais uma auto-imolação.

    Ofício mostra as brincadeiras de infância de um grupo de garotos que delineiam uma hierarquia sexual, uma aprendizagem de papéis estereotipados (“Afastei-me para pegar uma toalha. Quando ia voltando, vi o Rei discutir com Luís e Afonso, dizendo que era ´uma merda da porra´ eles ficarem  comigo ali, o pessoal ia ficar falando e eles iam levar fama sem  ter feito nada, se pelo menos eu fizesse ´o favor de dar o cuzinho, ele disse e encheu a mão no calção, dizendo ´olha aqui o que eu tenho pra ele´’); ao mesmo tempo, é de um erotismo impregnante.

   É no equilíbrio tenso entre sua vigorosa veia narrativa e sua tendência  a ser “excessivo”, derramado, agônico, isto é, de liberar a linguagem quase que sem freios, num ritmo fluvial, que Nilton Resende poderá produzir uma obra singular. Apesar da presença marcante do homoerotismo, sua escritura foge tanto dos clichês e apelações da infausta “literatura de gênero” quanto do “típico nordestino[4]”. É prosa ficcional de primeira. Só fico esperando o que vem pela frente.

 


[1] Nilton também é homem de teatro (fez uma adaptação de Mário e o Mágico, um texto com um argumento  fascinante de Thomas Mann) e poeta (tem uma coletânea publicada, O orvalho e os dias), Além disso, tem blogs (ligados a todas esss atividdes artísticas):

www.trajeslunares.wordpress.com

www.ciaganymedes.wordpress.com

www.niltonresende-portfolio.blogspot.com

 

[2] Um trecho de Flamor:

“O moço olhou para trás e levantou a mão.

A moça pensou que fosse com ela e sorriu. Já indo levantar a sua mão, também, ensaiou uma corrida, quando um senhor a ultrapassou e foi ter com o rapaz.

Para não perder o gesto e a corrida no ar, procurou algo no chão, encontrou um ramo com uma flor e abaixou-se para pegá-lo. Levantando-se, e levando uma folha à boca, beijou-o como se fosse a barriga daquele moço.”

[3]  Curiosamente, os dois textos que menos aprecio (por uma questão de temperamento, não pela qualidade—tenho certeza de que serão elogiados e amados por outros leitores; como sempre digo,  não se pode gostar de tudo) têm títulos bacanas: Manual de como manusear & Balada da noite insone.

   Um trecho do primeiro: “Seja forte, seja extremo, seja farpa. E se tudo isso dito é debalde, por ser úmido o teu rosto se se vê de frente ao outro; se ele treme, só em pensar nalgum toque; se a boca freme toda só de ver os outros lábios {…} e tualma, só em vê-lo, muito e toda se alarga—corre  aos montes, que é morte essa onda que se dobra caudalosa.” Só um autor de categoria (o que é o caso aqui) consegue utilizar termos como  “freme” sem cair no ridículo.

     Um trecho do segundo (onde há um exercício à La Cântico dos Cânticos, a paródia verdadeira, a sério): “E então entrou à casa. E o sorriso que levava foi de chofre reprimido; e lhe perguntou o homem o que era aquele cheiro. E puxou-o para perto e cheirou-lhe o pescoço. E empurrou-o para o chão. E o outro levantou-se, gargalhando, que o cheiro era nada, fora tudo brincadeira, para ver como agia o amado se sentisse por acaso o perfume doutro homem permeando sua pele, pra testar o sentimento, uma prova de que tanto quando dito o amava.

      E a vela foi acesa. E as bodas, de festivas, transformaram-se em luto, que o homem, raiva e choro, levantou, para perto de seu rosto {…} E do homem, nunca mais se viu espectro, voz, perfume, riso, nada.”

[4] Outros que fogem do “típico nordestino” e que se destacaram nos últimos anos são Pedro Salgueiro e André Laurentino (autor do belo romance A paixão de Amâncio Amaro).

01/12/2011

QUESTÃO DE GÊNERO: O “Inferno Provisório” de Luiz Ruffato

“O  todo          igual para todos          destino uno

para o justo e para o iníquo

para o bom          e para o puro e para o impuro

e para quem oferenda

e para aquele           que não faz oferendas

Tanto o bom           quanto o que peca

quem jurou

igual           a quem refugou o juramento

 

Eis o mal          em tudo o que é feito           sob o sol

pois é um o destino           para todos

E também no coração dos filhos do homem

infla-se o mal          e a loucura no seu coração

enquanto vivos

e o após de cada um          junto aos mortos

 

Pois aquele          que se vincula

ao todo dos viventes          segura-se à esperança

Pois cachorro vivo          é melhor

que leão            morto”

    (Qohélet-O-que-sabe, o Eclesiastes, na versão de Haroldo de Campos)

“Por volta das nove horas, encorajando-se, rumou para a MG-285. O farol do Gol varria o matagal que abraçava a estreita faixa de asfalto. Milhares de estrelas ardem o breu da noite. Em breve, numa curva, o rio Pomba se entremostraria, indolente, e Cataguases, precários favos cinza mal iluminados, emergiria, açulando recordações. Trepado na garupeira da bicicleta do Toninho, o vento cálido acaricia seu rosto… A mão macia da Júlia conduz o espanto das letras no caderno-de-caligrafia… A volta na Kombi do Armazém do Lino, que o Lalado entregava compras, a molecada hidrófoba… A mãe, cheiro de querosene do fogareiro vermelho na tarde excluída do tempo… A viagem com o pai para São Paulo, uma semana cravada em seu coração simples, a certeza de que, a partir de então, Cataguases afundaria, lenta e inexoravelmente, numa terrível agonia, até morrer  um dia, agora talvez, quando, sorrateiro, corta a cidade deserta…”  (Luiz Ruffato, Domingos sem Deus)

(a resenha abaixo é uma versão ampliada da publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de novembro de 2011):

      Domingos sem Deus encerra a série Inferno Provisório, iniciada em 2005.  Seu criador, Luiz Ruffato, afirma que é um painel romanesco. É direito dele classificar como quiser seu projeto. Eu me permito—como leitor—discordar: a categorização como romances, o excesso de títulos, subtítulos, epígrafes e dedicatórias prejudicaram cinco típicos livros de contos e novelas (mesmo se levando em conta a recorrência de personagens), que seriam melhor avaliados sem essa pirotecnia editorial toda. Imagine se Dalton Trevisan decretasse que cada uma das suas coletâneas é parte de um romance em progresso. De qualquer forma, os textos emperiquitados das orelhas  e certos comentários sobre a série me fazem crer que Ruffato embrulhou bonitinho seu peixe para fazer as delícias e delírios do povo do mundo acadêmico, onde estudarão os “jogos semióticos” e os palimpsestos contidos nos cinco volumes. Mesmo sabendo que o romance é um gênero-terreno baldio que aceita tudo, é muita forçação de barra.

   O mesmo se pode dizer da intenção que moveu a escritura de Inferno Provisório. O autor mineiro tem enfatizado se tratar de um resgate da história do proletariado brasileiro no último meio século, sem o maniqueísmo ideológico de praxe, e com uma linguagem inovadora, não-naturalista. Ora, ora. O que eu vi sempre, oculto sob as dobras de veleidades tipográficas maçantes[1], foi um ótimo escritor tradicional, de veia realista (e não há problema nenhum nisso), que continua a tradição dos escritores católicos (Otto Lara Rezende, Gustavo Corção) ou dos injustamente esquecidos mestres da sondagem psicológica, como João Alphonsus ou Antonio Olavo Pereira. Não é inovação, é a posse de uma memória afetiva, de uma ambientação, de um miasma próprio e autêntico, e muitos recursos expressivos para trazê-los à tona.  

     No saldo final, dos cinco volumes apenas o segundo, O mundo inimigo (2005), me parece totalmente bem realizado, Mamma, son tanto Felice (2005) e Vista parcial da noite (2006) apresentam altos e baixos gritantes, e O livro das impossibilidades (2008) vale basicamente por uma das suas três histórias, a última (“Zezé e Dinim”), muito superior às outras duas, não obstante as irritantes e desnecessárias firulas tipográficas que me lembram o pior lado de Cortázar (por exemplo, no Jogo da Amarelinha aquele tipo de capítulo frívolo onde se lia uma linha sim, outra não…).

  Domingos sem Deus é o mais fraco do conjunto, o mais decepcionante, sem comparação. Ele apresenta seis histórias. É sempre a mesma coisa na maioria delas; pega-se um personagem num momento “presente” (a série não ultrapassa 2002, permanecendo na soleira do governo Lula) e a partir daí se reconstitui o passado (às vezes num estilo “relatório” monocórdio muito chato), sempre com a perda da referência (a região rural de Rodeiro, a cidade de Cataguases, em Minas, como ponto de passagem do rural para o operário e o lúmpen, e as fugas para os grandes centros: Rio, São Paulo, o ABC), imposta ou almejada, os vínculos familiares desfeitos, os sonhos frustrados, a criminalização cada vez maior de parte da sociedade, o aburguesamento caracterizado pelo consumo e pelos eletrônicos de ponta…

      Vemos isso em “Trens”, “Sorte teve a Sandra”, “Outra fábula” (de onde tirei a epígrafe acima, e que seria uma espécie de ponto-de-fuga da série, atando as pontas com a primeira história de Mamma, son tanto felice. “Uma fábula”, que nos apresenta o mundo rústico de Rodeiro de forma brutal[2], e em “Mirim”, a fotografia de formatura da quarta série é o que dá a um velho num asilo o sentimento de ter existido, por isso é o melhor momento da sua vida”.

   O ponto alto da coletânea, no entanto, é “Milagres”, uma das melhores coisas que Ruffato já escreveu: uma família relativamente próspera, em viagem (os pais tiveram que chantagear os filhos adolescentes com presentes caros), tem de fazer uma parada para consertar um pneu rasgado, e o borracheiro conta ao pai a sua trajetória de vida, como foi parar ali naquele fim de mundo. Aquela famosa dicotomia dos “dois brasis” dialoga em poucas e notáveis páginas, prova de que Ruffato é um escritor de grande talento que está desperdiçando seu vigor em grifes estilosas. O desfile pode ser chique, mas não muda a qualidade do tecido ou do material usado.


[1]  O leitor do meu blog talvez estranhe tal afirmação, uma vez que há alguma semanas elogiei a exuberância tipográfica de Minha irmã, meu amor, de Joyce Carol Oates. Só que, ali, fazia todo o sentido, e era expressão da personalidade-performance do narrador, Skyler Rampike (assim como tais recursos fazem sentido em Sterne ou Machado). Na maior parte das vezes, a meu ver, os recursos tipográficos aplicados em INFERNO PROVISÓRIO são gratuitos e inúteis, e me fazem lembrar maldosamente de um comentário de Ernesto Sábato (em O escritor e seus fantasmas). Sem ter o texto à mão, o argentino afirmava mais ou menos o seguinte, sobre Joyce e seus “seguidores”: o sujeito inventa o boeing e os demais se preocupam em mudar o tamanho das janelinhas, a melhoria dos assentos, a posição dos cinzeiros etc.

Embora Ruffato tenha realmente experimentado com êxito uma narrativa heterodoxa e multifacetada em Eles eram muitos cavalos, uma das mais importantes obras da ficção nacional recente e que está completando dez anos.

 

[2] “Na tarde em que avistou, do alto do estreito caminho que, abandonando a estrada de chão que liga Rodeiro à Serra da Onça, levava àquele fundo de grotão, a casa seis-cômodos náufraga no fundo da perambeira, a ampulheta da vida de Chiara Bicio, a Micheletta velha, inverteu-se: ela começou a morrer. E esgotou-se hora a hora, a saúde murchando na sangria estúpida de partos, e o juízo escapando por entre as fímbrias das úmidas árvores que uivavam nas noites intermináveis. De começo, pensava, pelo menos a visitaria a família, mas, desatinou, o Pai rompeu com os Bicio, assenhorando-se de que parente nenhum viria rondar coisas suas, algemando-a nos cordões umbilicais de gravidezes sem-fim, largando-a desamparada, minguando num quarto de portas e janelas trameladas por fora, de onde saiu, trinta e cinco anos, rija, enrolada numa toalha-de-mesa, tão pássara que até o vento insistia em carinhá-la em sua derradeira viagem de carro-de-boi cantador até a Igreja de São Sebastião, quando, para comparecer decente à missa de corpo-presente, vestiram-na em madeira…”

   

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 REMORSOS E RANCORES- antologia de trechos de “Inferno Provisório“:
 
“Seu Zé Pinto, com a desculpa de aprumar uma parede que ameaçava desabar, empurrou Dusanjos para um dois-cômodos, nos fundos do beco, na verdade temeroso até de que não desse conta de pagar o aluguel. Mas ela havia tomado uma resolução: não era justo para o José Batista que continuasse assim, amofinada, morta-viva. Voltou à lavagem de roupas, passou a dar pensão-de-comida para duas mulheres da Ilha, pegou um capado para criar à-meia. Mas, quando o beco submergia na noite, não conseguia pregar os olhos. Ouvia o cricri dos grilos, o coaxar dos sapos, o barulho das corredeiras, e de novo era menina-moça deitada no colchão-de-pena a sonhar outra vida, longe da lavoura que detestava, que engrossava suas mãos pretas de enrolar fumo, nunca arranjaria um namorado assim, a planta dos pés esgravatada, meu deus, a mesma tristeza, a mesma sensação de abandono, se ao menos soubesse,  tivesse certeza do que aconteceu, mas não, ninguém sabia de nada, acordava, passos lá fora, É ele! O coração disparava, alguma porta abria, o silêncio, a solidão, horas em que achava que estava ficando louca, podia ´sentir´ a presença do Donato, ele chegando à tardinha, encostando a bicicleta na sala, sentado no banco da cozinha e falando Dusanjos, ó Dusanjos, ela vinha, enchia a bacia de alumínio com água temperada, ele perguntava, enquanto tirava o conga, E o menino, Dusanjos?, ela se abaixava para lavar seus pés, Passou bem o dia, só quer saber de mamar. Esse menino!, ele comentava, ensaboando as mãos e o rosto. Ah, queria morrer e não queria.  Onde estaria ele agora? Deus, acaba logo com essa agonia!” (Mamma, son tanto felice)

    Segundo Ruffato, em Mamma, son tanto Felice ele incorporou textos de dois livros anteriores (que eu não li), Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos seis contos que compõem o primeiro volume de Inferno Provisório, escolhi um trecho de “O alemão e a puria”.

“Vanin sentiu um calafrio. E agora? Tramelou a porta, tirou os sapatos, deitou na cama. Ia sentir falta daquela gente, ah, ia. E das telhas pretas de fumaça, da cumeeira cheia de picumã, do barulho das corredeiras do rio Pomba, dos passarinhos (Preciso trocar a água e o alpiste deles, não posso esquecer), da bicicleta, da… da Zazá. Em cima da penteadeira, o retrato deles dois, dia do casamento, ela sorrindo, parecia tão feliz, ele sério, preocupado. Meu deus, é certo o que estou fazendo? Ah, mas logo logo, se tudo corresse direito, voltaria. Chamaria o Ditão e o Ditinho, o Natanael e a Mariinha, o Zico e o Zeca, fariam uma serenata para a Zazá, traria um monte de presentes, um vestido novo, um par de sapato, perfume, uma noite inesquecível! Olha o Vanin aí, Zazá, como está diferente o danado… Peste ruim! Desgraçado! Ih, lá vem a Zazá com aquele nervosismo. Sai, sai. Não, ela ia adorar, um monte de gente tocando violão, cantando só pra ela, quem não gosta?, quem? A Zazá ia ficar fula da vida, pegar um caldeirão de água fervendo e jogar em todo mundo. Que gênio, essa mulher, que gênio! Adormeceu.

 

    Ansioso, comprou passagem, cedo ainda, tentou se distrair olhando a televisão da rodoviária, tomou um café, dois. Na bolsa, duas mudas de roupa, o violão a tiracolo. Três vezes perguntou se demorava muito ainda. Queria entrar, dormir, acabar logo com aquela agonia. E se a Zazá aparecer aqui? Nossa senhora, vai ser um deus-nos-acuda! Deus me livre! Suor nas mãos, as pernas vara verde. Mastigou um pacote de biscoito-maria, andou de um lado para o outro, pensou em tirar uns acordes, os dedos duros.

   O ônibus encostou, a porta abriu, Vanin percorreu afoito o corredor, observando a fisionomia de cada um, ninguém conhecido, Graças a Deus, sentou, o motor roncou. Ê meu povo, vou embora, adeus!, as luzes se apagaram, atravessou a Ponte Nova, cortou a Vila Minalda, Meu deus, o quê que estou fazendo?, pegou a estrada rumo à Leopoldina, Cataguases sumiu atrás dos morros, o breu da noite, vontade de levantar, falar para o motorista que tinha esquecido os documentos em casa,  Vê se pode, não sei onde estou com a cabeça, pode parar aí mesmo, seguir viagem, tem problema não, e descer, voltar no beco, conversar com o seu Zé Pinto, Vamos esquecer aquele negócio, seu Zé, pensei melhor, bobagem minha, ele ia entender, seu corpo não se mexeu, Meu deus, a Zazá vai querer me matar…

   No meio da escuridão o ônibus engolindo o asfalto.”

              (O mundo inimigo)

    Assim como o anterior, segundo o autor, há o reaproveitamento de textos de Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos doze contos de O mundo inimigo, escolhi um trecho de “A decisão”.

“O delegado, doutor Aníbal Resende, apertou a mão do meu pai (camarada) Obrigado, seu Sebastião, por ter aceitado o nosso convite. Isso só me dar mais convicção de que se trata de um grande equívoco… e é o que, aliás, nós vamos esclarecer agora… (acende um cigarro) Pode se sentar, seu Sebastião, fique à vontade. Bom, pra não me estender muito, seu Sebastião, vamos direto ao ponto:  (irônico, a voz alterada) Que raio de história é essa que o senhor anda espalhando por aí, seu Sebastião, de que Cataguases vai ser invadida pelos alemães? Quem foi que inventou uma besteira tão grande, seu Sebastião? (compreensivo, a voz mais baixa) Seu Sebastião, deixe-me explicar uma coisa para o senhor: o senhor, a sua família, são pessoas de bem, conhecidos, ordeiros, cumpridores do dever, todo mundo sabe… Agora, o senhor já ouviu falar dos comunistas? (didático) Existe em nosso país gente que quer implantar o terror, irmão matando irmão, (a voz amplifica-se, o suor escorre da testa) (As mãos gesticulam, teatrais) quer ver o Brasil nas mãos dos comunistas, da Rússia!, seu Sebastião, da Rússia!, onde os valores cristãos  de nada valem, onde os homens dividem as mulheres com os amigos, as filhas dormem com os pais, os padres são enforcados por pura diversão, onde não há lei, onde reinam a anarquia, a bagunça, a perdição… (gritando) São esses comunistas, seu Sebastião, que divulgam notícias como a que o senhor anda espalhando, com o objetivo de provocar o pânico, a desordem, a desconfiança… (esmurra a mesa) (Levanta-se, acende outro cigarro, acalma-se) Seu Sebastião… seu Sebastião…deixe-me fazer uma pergunta pro senhor e queria que  o senhor me respondesse com toda sinceridade: (fixa seus olhos nos olhos do meu pai) Seu Sebastião, o senhor conhece algum comunista? Já viu um? Não? O senhor sabe quem é comunista? Não? (Senta-se, limpa o rosto com um lenço, enfia-o de novo no bolso de trás da calça) (sarcástico) Nem nós, seu Sebastião… Nem nós, da polícia… Sabe por quê? Porque comunista não traz isso escrito na testa… Como posso ter certeza de que o senhor, seu Sebastião, não é comunista, se o senhor está agindo como um? Bom, então vamos da um voto de confiança pro senhor, seu Sebastião. (autoritário). Agora, a partir de hoje o senhor está proibido, proibido, entendeu?, de abrir a boca pra falar sobre isso. Proibido! Outra coisa: vamos confiscar, temporariamente apenas, todos os aparelhos de rádio e televisão que o senhor possua em casa… (gritando) Eu não tenho nada com isso! Se o senhor ainda está pagando a televisão, problema seu! Estou sendo seu amigo, seu Sebastião, não sei se o senhor percebeu? (Acende mais um cigarro pega um papelzinho na gaveta) (a voz mais mansa, confidente) O senhor tem um filho… Reginaldo?, Reginaldo… tinha um tio meu que chamava Reginaldo… Bom, o Reginaldo trabalha na Manufatora, não é mesmo? E tem uma filha… Mirtes… a Mirtes trabalha na sala-de-pano da Industrial?, belo emprego, heim, seu Sebastião?, belo emprego! Os filhos bem-encaminhados, graças a Deus… (camarada) Pois é, e tem gente que jura que o senhor é comunista, só pra ver os seus filhos serem mandados embora, só pra ver a família do senhor passando dificuldades… Que mundo, esse, seu Sebastião, que mundo! (amigo) Ah, não esquece  de levar o menino no psiquiatra, como recomendou o professor Guaraciaba…” (Vista parcial da noite)

   Dos onze contos de Vista parcial da noite, escolhi um trecho de “O ataque”.

“__ Era? Caralho, Zezé, você lembra de cada coisa!

(pausa)

Dinim: Como você lembra dessas coisas?

Zezé: Eu lembro de tudo…

__ De tudo?

__De tudo…

__ Eu não lembro de porra nenhuma…

__ Bom pra você…

__ Bom?

__ É

__ Por quê, bom?

__ Pelo menos assim você não sofre…

__ Não sofro?

__ Eu lembro de tudo… E isso machuca a gente… Eu lembro da primeira chinelada que a minha mãe, coitada, deu na minha bunda… Eu lembro quando eu vi uma mulher pelada lá na Ilha, lembra da Ilha? Lembro de todas as vezes que neguim olhou pra mim com desprezo, aqui, no Rio… E da régua que a dona Ângela, nossa professora no quarto ano, quebrou na minha cabeça, Ô criolim burro!, ela falou, a sala inteira rindo… E da tabuada que ganhei uma vez, toda despedaçada… arrumei com durex, encapei ela… E tudo… um monte de coisas… (pausa) Por isso que eu digo, feliz é você, que não lembra de nada…

(pausa)

Dinim: É… você lembra… eu penso… Toda noite eu não consigo dormir… Na minha cabeça fica martelando que eu tomei o caminho errado, que eu desviei em algum lugar… E que não tem mais jeito… E que eu estou fodido… E que todo mundo que fica perto de mim se fode…

(pausa)

Dinim: Pra nós não tem saída, cara, não tem…

Zezé? Do que você está falando, cara?

__ Porra, Zezé, só durmo na base de Valium, tenho úlcera no estômago, colesterol alto, pressão alta, estou gordo, fumo pra caralho, bebo pra caralho, cheiro pra caralho… (pausa)… Velho, cara… me sinto um velho… E estou com trinta e cinco anos, você também, não é?, trinta e cinco anos…

(pausa)

Dinim: Cara, todo dia penso numa solução… todo dia…

Zezé: Que solução?

__ Não sei… ainda… Mas tem que ter alguma…”

    (O livro das impossibilidades)

   Segundo Ruffato, foi reaproveitada nesse quarto volume de Inferno Provisório uma das histórias de (os sobreviventes). Dos três contos longos (dois podem ser considerados novelas), escolhi um trecho de “Zezé e Dinim”.

“Eu estou aqui há mais de trinta anos… Uma vida…E foi por acaso que vim pra cá, acredita? Puro acaso… Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão Valério mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bicio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam encaminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que todo mundo ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltavam aos eixos. Mas…

    Nilo, as mãos suadas, esticava as pernas, agitado.

__ Eu trabalhava num restaurante, de garçom, e uma noite, voltando pra pensão, em Guadalupe, cismei que tinha um sujeito me seguindo, e a partir daí perdi a razão, minha vida virou um inferno, passei a achar que todas as pessoas sabiam da minha falta, me olhavam e me condenavam, não conseguia mais comer, nem dormir, e a situação ficou tão insuportável que um dia, desesperado, desci na rodoviária só com os documentos e a roupa do corpo, e comprei passagem pro primeiro ônibus de saída. Arranchei em Feira de Santana uns meses, sobrevivendo de biscate, até que conheci um rapaz, gerente desse posto, já até morreu, coitado, que Deus o tenha!, que perguntou se não queria tocar uma borracharia aqui… No começo ainda imaginei, escondo uns tempos, espero a poeira baixar, volto, mas me sentia um covarde, decepcionei minha família, envergonhei a família de Arlete, falta de cabeça, quando a gente é jovem faz umas besteiras, depois não tem como ajeitar. Aí vai ficando, ficando… me acomodei…

    Cabeludo levantou. Nilo caminhou apressado rumo ao Siena preto.

__ O resto é o que está vendo… Ninguém me incomoda, não incomodo ninguém…” (Domingos sem Deus)

   Dos seis contos de Domingos sem Deus, escolhi um trecho de “Milagres”.

 

06/02/2011

O ALTO, OS PÉS, O CU E O ESPELHO: “Com os meus olhos de cão”, 25 anos

“Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante à opacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversas formas de loucura e suicídio. A loucura da busca, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender. A loucura da paixão, o desordenado aparentando ser luz na carne, o caos sabendo à delícia, a idiotia simulando afinidades. A loucura do trabalho e do possuir. A loucura do aprofundar-se depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança e vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo. Amós está? Daqui onde estou posso ouvi-lo  pensando como devo matar-me? Ou como devo matar em mim as diversas formas de loucura e ser ao mesmo tempo compassivo e lúcido, criativo  e paciente, e sobreviver?”

        Durante a maior parte da sua longa carreira, iniciada em 1950,  Hilda Hilst  (1930-2004) teve seus textos publicados por editoras obscuras—no sentido da distribuição e alcance comercial—e   pequenas (por exemplo, a Massao Ohno). Era uma grande escritora “invisível” para o público, apesar do seu prestígio e dos seus cultuadores.

    Quando ganhava notoriedade, era sempre por aspectos folclóricos: sua chácara (a Casa do Sol) com dezenas de cachorros, suas gravações de vozes de mortos, os textos ostensivamente pornográficos que escreveu…

     Em 1986, após alcançar o cume da criação literária contemporânea (nas palavras de Jorge Coli, e que eu subscrevo), com Odes mínimas (1980) e A obscena Senhora D (1982), Hilda teve seu primeiro lançamento por uma editora de peso comercial (à época), a Brasiliense. Era o inédito Com os meus olhos de cão,  reunido a textos mais antigos, e que no entanto passou em brancas nuvens. Nem dava para imaginar que, um quarto de século depois, haveria no mercado uma Coleção Hilda Hilst pela Globo (sob a responsabilidade de Alcir Pécora), esgotando sucessivas tiragens.

    Nessa coleção, Com os meus olhos de cão ganhou um volume para si. Merecidamente. Trata-se de outro ponto alto da sua produção, cujo protagonista, Amós Keres, foi uma criança que fazia sempre perguntas incômodas, impressionado com a morte e a presença do sofrimento no mundo. Fortemente reprimido pelo pai autoritário, ele aos poucos calou em si essas perguntas, mergulhando no estudo da matemática, constituindo família, tornando-se professor universitário. Um dia, no alto de uma colina, ele tem uma visão epifânica e a partir daí ficarão esgarçadas todas as suas relações com um mundo mentiroso, sentimentalizado e complacente. Ele fica “alheio” nas aulas (os alunos se retiram e deixam recados jocosos na lousa), passa a sentir repulsa pela mulher e o filho, parece estar sempre com um sorriso desdenhoso (o que o mete em confusões) e a cabeça inclinada e seu único interlocutor é um amigo, Isaiah, que vive maritalmente com uma porca. Ao cabo, Amós decide voltar à casa da infância, com muito de rural ainda, e viver nos fundos do quintal, como um bicho, um ser desnudado, descobrindo também que o pai tinha os mesmos assomos de descortinamento do coração selvagem da vida: “que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender”.

    Não se pense que o texto é assim coeso, unívoco. Como sempre em Hilda Hilst, tudo vem numa forma agônica, emaranhada e intrincada, na qual todos os gêneros são misturados e a escatologia permeia todas as instâncias da condição humana (para se ter uma idéia, Amós Keres gostava de estudar matemática num puteiro), com a influência de Otto Rank & Ernest Becker de que vivemos sob o terror da morte e da nossa analidade “… Amós Keres. Inocente como um pequeno animal-criança olhando o Alto. Mas dizem que o Alto é o nada e é preciso olhar os pés. E o cu também. Com um espelho. Estou olhando. Impossível esquecer grotesco e condição”.

    Plínio Marcos com Samuel Beckett. O leitor que se prepare, pois tem de estar disposto. Com essa obscena Senhora H, é tudo ou nada.

26/09/2010

A diversão inócua de O EVANGELHO DE BARRABÁS

  Gostei muito dos dois primeiros livros de José Roberto Torero, O Chalaça & Xadrez, truco e outras guerras, assim como de sua associação com Marcus Aurelius Pimenta em Terra Papagalli. Depois. confesso que, à exceção de Pequenos Amores, não me interessei particularmente pelos rumos da produção de Torero, individual ou em dupla.

Quando soube que os dois lançariam um novo romance, após muitos anos, e que seria um Evangelho de Barrabás (apesar de haver uma obra-prima sobre o assunto, Barrabás, de Pär Lagerkvist, que li quando garoto e que tem a mesma atmosfera de crucificação existencial dos livros de Kazantzakis, só que num estilo mais sintético e límpido), fiquei na maior expectativa, já que, na avalanche dos últimos anos de evangelhos “encontrados” (além de inúmeras obras de ficção; uma de que nunca mais ouvi falar e que achei excelente foi um Evangelho de Lázaro -1972-,de Orígenes Lessa) de tantos personagens do Novo Testamento, eles seriam, decerto, os mais capazes de lidar com o desafio de produzir um com a irreverência e o mesmo espírito moleque de um Saramago, em Caim.

  Criando uma narrativa picaresca sobre a vida do bandido que foi poupado pela multidão, os dois fazem da trajetória de Barrabás uma espécie de vida de Jesus em negativo: ambas as famílias viajam para o censo romano e ambos nascem ao mesmo tempo, num lugar humilde, de uma mãe “virgem”, Maria, e de um pai chamado José, são tidos como “ungidos”, sobrevivendo à ordem de execução de todos os meninos, decretada por Herodes.

  Ao longo do relato, os eventos da vida de Barrabás sempre tangenciam os da vida nosso salvador: temos os discípulos, na verdade asseclas de um bando burlesco (e ele, pilantra que é, se torna um falso profeta, realizando curas de araque, venda de relíquias sagradas, enfim, toda a parafernália que a igreja católica instituída tornaria respeitável mais tarde), Maria Magdalena, seu grande amor, parábolas, famosos episódios bíblicos, milagres e trechos dos evangelhos, dos Cântico dos Cânticos, colocados na boca dos personagens com um tom de troça, e até uma referência ao episódio do almocreve de Memórias Póstumas de Brás Cubas, para que não nos esqueçamos do pai literário, pelo menos de Torero.

   O grande problema é que se, em Caim, houve irreverência e molecagem, é porque o assunto era levado a sério, através de um gume bem machadiano. Tive a impressão o tempo todo de que Torero-Pimenta não tiveram coragem de levar sua irreverência a sério, de realmente entrar fundo no texto bíblico e parodiá-lo de fato, subvertê-lo. Lê-se O evangelho de Barrabás como se lê as gracinhas de um adolescente ou como se consume o agora onipresente tipo de humor de tevê, muito chegao do ao chulo e ao óbvio. Não há um momento em que nos afastamos da diversão inócua e inofensiva, da molecagem (no sentido retardatário, de descompasso com a idade dos autores, que são da minha geração, a dos quarentões), e há passagens realmente muito bobas, como a cena em que Barrabás, “andando sobre as águas”, se transforma num surfista: “Usando de habilidade, ele conseguiu se equilibrar sobre o madeiro, pondo-se de joelhos. Depois ficou em pé, abriu os braços em forma de cruz e começou a deslizar sobre a crista da onda…” As últimas páginas, que poderiam ser muito fortes, perdem muito na comparação com o final, similar, de O perfume, de Patrick Süskind. Mesmo assim, é um momento que nos dá a nostalgia do que O Evangelho de Barrabás poderia ter sido.

   Se a intenção de Torero-Pimenta, era essa, contentando-se com algo engraçadinho e bonitinho (embora muito próximo do besteirol), tanto quanto os “mandamentos” da quarta capa (por falar nisso, a edição traz ótimas ilustrações de Paulo Brabo), tudo bem. Mas para a aguardada volta deles ao romance, e com o estilo e talento que eles têm de sobra, é muito pouco e principalmente decepcionante.

(esta resenha foi publicada, de forma mais condensada, em “A Tribuna” de Santos, em 21 de setembro de 2010)

29/06/2010

Um verdadeiro exercício de paródia

“Desentender-se, entre o povo dos urubus, já disse, é uma atividade insistente, contínua e caprichosa. O que se deu, contudo, nos baixios infectos, foi estertor de carne viva e o sangue da veia aorta.  Nem queiram saber, os urubus, quando dispostos a dilacerar no bico a carne de seus pares… Só para se ter uma fraca idéia, o urubu é mais agressivo com os de sua espécie—tendo como vítimas preferenciais os seus irmãos doentes ou morituros—do que qualquer outro animal que sobre a Terra ande ou voe. Odeia-se, entre si, persistente, quase macabro, o povo dos urubus… Mesmo sem razão alguma, o ódio dos urubus a seus iguais é alarmante.”

 

       Longe de ter a repercussão da morte de José Saramago, o assassinato de Wilson Bueno em 31 de maio[1] causou certa  comoção nos meios literários nacionais, pois  o escritor paranaense (nascido em 1949) era tido como um dos inovadores da nossa ficção das últimas décadas, principalmente por causa do livro Mar Paraguayo no qual mistura português, espanhol e guarani.

     Uma das obras mais recentes de Bueno foi o espantoso A Copista de Kafka (publicado em 2007, pela Planeta), no qual ele imagina Felice Bauer, aquela mesma do irrealizado noivado de Franz Kafka (1883-1924), no seu projeto sempre procrastinado de casar-se e libertar-se do jugo familiar (como ficamos conhecendo no magistral ensaio de Elias Canetti, O Outro Processo de Kafka), escrevendo um diário no qual conta como o conheceu e passou a fazer cópias dos seus manuscritos, recebendo alguns que não eram do conhecimento nem do melhor amigo e executor literário, Max Brod (responsável pela preservação das obras kafkianas, contrariando o desejo expresso do autor; no livro de Bueno, julgando que Brod irá efetivar a vontade do amigo, Felice destrói os textos que recebera; assim como em Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra, temos mais uma hipótese de manuscritos desgarrados do grande escritor tcheco).

     O diário de Felice aparece em quatro etapas, percorrendo o espectro temporal de 1912 a 1925 (um ano após a morte do “noivo”, que rompera o noivado há muito tempo, embora o diário não registre o fato), em A Copista de Kafka. Permeando-as, temos 27 textos (divididos em três grupos de nove) que se dividem entre relatos fantásticos, parábolas e aforismos, sempre recheados por um peculiar bestiário. É desconcertante  a ambição de Wilson  Bueno: ele cria textos não só no espírito, mas principalmente na letra da lei kafkiana, imitando seus modos e técnicas, tais como encontramos especialmente nas Narrativas do Espólio, mas também em livros como Contemplação, Um médico rural, Um artista da fome.

     Pode-se ou não gostar de A Copista de Kafka, mas ele é um raro exemplar do que é realmente  paródia: uma imitação a sério, e não um pastiche, que é o comumente praticado na pós-modernidade. E por vezes ele consegue realmente evocar aquela coisa inquietante e avassaladora, como se um vento gelado nos perpassasse, dos textos curtos do autor de O processo, que talvez sejam a sua maior realização (e certamente são a maior realização literária do século passado, ler as Narrativas do Espólio e A construção é chegar aos confins da literatura).

     Há alguns textos meio forçados (principalmente): por exemplo, no primeiro bloco,  Zbwsk, sem chegar a ser um texto fraco, parece um decalque—talentoso decerto—mais  do que uma criação legítima, do universo kafkiano; entretanto, gostei muito de As mãos, onde, no consultório de um dentista,  o narrador relata que o cliente sentado ao lado põe a mão dele sobre a sua. Dessa situação (que nada tem de erótica, veja-se o trecho seguinte: “…ameacei apanhar uma revista na mesinha do centro, o que, claro, eu deveria fazê-lo com a mão que o homem premia contra o meu próprio joelho, momento em que sofri a trágica consciência de que a protuberância, fosse o que fosse, tinha desaparecido e o que eu tocava era, acreditem, arrepiante… o que a palma de minha mão apertava era o puro osso do fêmur, esqueletizado, no exato interstício do joelho, esse engenho admirável…”), decorrem páginas admiráveis; e de “O vizinho”, que não fica nada a dever às mais climáticas criações do autor de O veredicto: ‘… em mim a melancolia dói como a uma espécie de degradação espiritual. Não há elegância nem nenhum encanto no sentimento movediço, que me desmobiliza a princípio como se fosse um leve roçar de folhas no coração até erigir  sobre o mesmo uma coroa gelada—de suplício, penúria e comiseração…”

     No segundo bloco, há o aterrador O povo dos urubus (vide epígrafe) e adorei O gato de cinco patas, que faz justamente um jogo de gato-e-rato com o leitor incauto: “Há de perguntar o leitor: onde está o gato de cinco patas e a arca de ferro? E então terei me realizado por completo ante a vã curiosidade e o lascivo enfado que vos anima saber o final desta história-armadilha: gato de cinco patas, desprevenido leitor, é coisa que não existe nem nunca existiu”. O liricamente patético “Lindonéia, a bailarina” evoca Josefina, a cantora, um dos derradeiros e mais extraordinários textos kafkianos,na sua mistura de ridículo, grotesco e no entanto de afirmação de uma fome de beleza que transcende tudo: “Que aulas de dança, que nada, ou outro modo de ensino que aula não fosse, se a maior lição é a do vôo-audacioso ou temerário?”

     No terceiro bloco, além de O insulado[2], que lembra o argumento de um filme expressionista (“A desconfiança que tenho às mulheres ao é somente uma coisa atávica; tem, também, muito de religioso. Cedo aprendi que eram capazes de levar um homem à loucura… Por isso, digo de novo, eu sou o insulado, em permanente exílio, e toda vez que saio do meu círculo é porque o desejo foi maior que eu ou porque a raiva sobrepujou-me. Então é que as procuro—qualquer um entende por quê e para quê…”), temos Carta ao senhor M.K ou O corcunda, que parece mesmo ter saído da pena de Kafka (“Agora, contudo, nada me liga a nada. Da janela da enfermaria se insinua, ainda, o sol, muito embora já passe das sete da noite. É o verão em nossa cidade, senhor M.K. Faz esse calor aqui, já vos disse, faz bastante calor aqui, senhor M.K. … acho, depois desta missiva, passe a vigorar uma nova força em mim e então não terei mais, não terei mais, juro, pena de vós. Hoje, meu caro senhor, percebo, sem pânico nem desesperança, uma coisa exata: quem desce as escadas, agora, e claudica por corredores sabendo a iodo, de um andar para outro, quem desce com extrema dificuldade as escadas agora, senhor M.K,sou eu…”) e os textos vão se aproximando cada vez mais do escritor como personagem de si mesmo, como os notáveis Um leitor de salão e Uma alegoria doméstica, no qual Franz quebra sem querer uma xícara sacralizada pela tradição familiar, para fúria do pai.

     No final da travessia, sentimos que passamos por uma experiência quase mediúnica. Um feito impressionante de um autor que deixará saudade.

resenha publicada de forma ligeiramente condensada em “A Tribuna” em 29 de junho de 2010

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[1] Ele foi morto a facadas supostamente pelo michê  Cleverson Petreceli Schmitt, a quem conheceu  numa sauna. Ou seja, no final das contas, o escritor inventivo é vítima de um clichê.

nota sobre a nota- Meu amigo Nilton Resende não gostou do teor dessa nota: “escrevo para sugerir uma coisa: retirar a nota em que você fala de como foi um clichê a morte do autor inventivo, isso pode soar cruel, saca? meio insensível; é clichê sim e todos sabemos que é, porque sempre há notícias sobre essas mortes, e todos têm de estar atentos para não ser personagem de mais uma narrativa desse teor,
no entanto,
é clichê e não é clichê, porque toda morte é novidadeira. principalmente para os familiares, amigos,
e ao mesmo tempo, toda morte é clichê.”

  Minha resposta a esse justíssimo comentário:

“Caro Nilton, acho que o problema da minha nota foi o de ser mal escrita. Na verdade, eu queria dizer que, com morte desse tipo, que traz à tona preconceitos e estereótipos, um cara como Wilson Bueno nunca mais vai ser visto como um autor talentoso e inventivo que foi morto estupidamente, mas como mais uma bicha que procurou a morte, que abriu a porta para o perigo, pois é o estilo de vida gay, etc etc, e por isso todo mundo acha tão `bonito` que os gays hoje em dia casem em cerimônias formais , que formem casais estáveis, que adotem filhos, ou seja, que fiquem iguais a todo mundo… E todo o exercicio de liberdade e disponibilidade ainda possível na ´condição´ gay, por assim dizer, se esvazia.
   Foi essa a intenção por detrás da minha nota. Mas acho que não funcionou.”

 

 

[2] Estou deixando de lado textos “divertidos” para ficar nos mais obviamente chamativos. Mas gostaria de chamar atenção aqui para Adestramento da mulher-tigre do circo Excelsior, por exemplo,ou a parábola da preguiçosa. A copista de Kafka é um livro para se voltar, não adianta querer esgotá-lo aqui, de pronto.

10/01/2010

O FILHO KAFKIANO DE RUBEM FONSECA

“Pensa o que você vai estar vivendo,meu camarada. Uns caras doidões leram um conto de Rubem Fonseca e resolveram fazer tudo aquilo virar real, esses riquinhos de merda, três bobalhões, leram o conto e bolaram um campeonato de conjunção carnal entre virgens, cara, dá para alcançar a dimensão da maluquice? E o pior é que conseguiram! E agora você está prestes a presenciar isso, a concretização de uma obra de ficção do seu ídolo.”

           O CAMPEONATO, de Flávio Carneiro, já tivera uma edição caprichada em 2002 pela Objetiva. Porém, só fui tomar conhecimento dele agora que saiu pela Rocco. Com relação à primeira edição, o autor manteve a instigante epígrafe de Paul Auster (de uma das narrativas de Trilogia de Nova York), mas tirou a dedicatória, que era para Adriana (a Lisboa, a autora de Os fios da memória) e para os Gordos.

      O ´protagonista e narrador de O CAMPEONATO   é André. Aos 26 anos (mora sozinho no apartamento dos pais, que morreram num acidente) tem como figura paterna o irmão Augusto, o qual pega no seu pé para que se transforme num “adulto”, pelo menos permanecendo num emprego. O motivo das demissões: André é sempre flagrado lendo. Seu único interesse é a leitura, principalmente de romances policiais. Ele lê em todos os lugares, nos bares, nos táxis (“Sentei, pedi uma gelada, tirei o livro da bolsa. Aquele não era o melhor lugar para se ler um livro, mas eu não escolhia lugar”). Após ser despedido mais uma vez, resolve fazer, em segredo, um curso de (e atuar como) detetive particular . Só conta a decisão para seu amigo Gordo, que o ajuda a pensar em como se anuar para futuros clientes, se os houver. E há. André é  contratado por um milionário, logo descobre os “podres” da vida de um dirigente do Flamengo, seduz belas mulheres, como Mariana, outra detetive (mais experiente e equipada que ele) e Lívia uma ninfeta (15 anos), que vivia com um guru, e fora seqüestrada para participar de um campeonato de sexo entre adolescente virgens orquestrada por uma máfia, assim como o filho de Montenegro, aquele milionário que procurou André para localizar o seu paradeiro . Parece, assim, que a seu modo estouvado, nosso amigo está realmente construindo uma vida independente…

        A trama de O CAMPEONATO, do goiano por nascimento e carioca por opção, o ex-jogador de futebol Flávio Carneiro, no que concerne ao certame que justifica o título do romance, e como se pode averiguar pela citação acima,foi extraída sem pudores e sem rebuços de um conto de Rubem Fonseca, que pertence ao extraordinário Feliz Ano Novo (1975), e que se chama justamente “O campeonato”. Fonseca, para o bem e o para o mal, é a referência absoluta da nossa ficção de feição mais policialesca. Portanto, assim como André tem problemas com a autoridade “paterna” do irmão sobre ele, Carneiro, ao que parece teve de bater de frente com o que Harold Bloom denominou “a angústia da influência”, enfrentando seu “pai” literário, por assim dizer, em sua própria arena.

       E aqui surge então um mistério digno de investigação: como o “filho” superou o “pai”, escrevendo um romance (um tanto longo, é preciso dizer) muito melhor do que todos os que li de Fonseca (O Caso Morel; A Grande Arte; Bufo & Spallanzani, por exemplo)?

       O CAMPEONATO, antes de mais nada, e apesar da sua extensão, é um livro charmoso. Com mão segura e talento inegável, o autor nos faz acompanhar, com o maior prazer, seu  herói-narrador em peripécias por um Rio de Janeiro muito vívido e bem delineado, assim como travamos conhecimento com uma das melhores personagens da nossa ficção mais recente, o Gordo, que faz às vezes do auxiliar necessário a qualquer detetive, mas que é um Watson  mais sagaz e que descobre mais coisas que o próprio André, o qual se pode dizer que vai sendo levado pelos acontecimentos mais do que os desvendando.

        Ao fim e ao cabo, ele acaba descobrindo que nunca saiu da órbita do irmão-pai. Este é que levava uma vida secreta desde a mocidade, a de leitor apaixonado, e foi um dos que idealizaram o campeonato (no qual André se infiltra com a identidade de um garoto de programa, o qual  assassinou o dirigente do Flamengo), e  no momento em que o irmão caçula entra no jogo, ocorre uma luta mortal entre as várias facções que compõem a disputa, que movimenta muitas apostas e, portanto, muito dinheiro.

         Augusto se revela um apaixonado pela obra de Rubem Fonseca, e a pretensa “liberdade” de movimentos que André se permitiu no tabuleiro da sua vida  não passou de uma ilusão, o que nos afasta muito da obra do autor de A coleira do cão e nos leva mais para o mundo kafkiano, em que figuras paternas oprimem os filhos até quando se tornam pródigos, basta lembrar de O processo, O desaparecido e O castelo.

          Se causava espanto, nestes tempos politicamente corretos, que André transasse com Lívia, de 15 anos, e até se esboçasse um relacionamento cada vez mais acentuado entre os dois, após as duas outras mulheres (André tinha uma namorada, Raquel, que o trocou pelo terapeuta que Augusto recomendara, um craque da auto-ajuda) do enredo terem sido descartadas, é porque no fundo, apesar do seu disfarce de detetive e de suas aventuras, ele fracassou na sua tentativa de ser adulto e maduro; na conclusão, vamos encontrá-lo ainda esperando um carro que lhe dê um destino, e também verificamos que todas as opções estão em aberto e que suas aventuras podem continuar… A julgar pelo resultado alcançado pelo romance, seriam muito bem-vindas.

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