BLOG DO ALFREDO MONTE

18/06/2009

POETAS: BAUDELAIRE e mais: Adélia Prado, Emily Dickinson…

               

A FUNDAÇÃO DA MODERNIDADE

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Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,

Enquanto eu me queixava um dia à natureza,

E de meu pensamento ao acaso vagando

Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,

Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,

Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,

Trazendo um bando de demônios maliciosos,

Semelhantes a anões perversos e curiosos.

Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,

E, como o povo que na rua olha um demente,

Eu os ouvia rir, entre si cochichando,

Piscando os olhos e também sinais trocando:

 

“Contemplemos em paz essa caricatura

Que da sombra de Hamlet imita a postura,

Cabelos ao vento e ar sempre hesitante.

Não causa pena ver agora esse farsante,

Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,

Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,

Querer interessar, cantando as suas dores,

Os grilos, os falcões, os córregos, as flores,

E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,

Aos berros recitar na praça os seus monólogos?”

 

Com meu orgulho sem limite, eu poderia

Domar a nuvem dos anões em gritaria,

Deles desviando a fronte esplêndida e serena,

Caso não visse erguer-se em meio à corja obscena

–Crime que até a luz do próprio sol abala!—

A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,

Que com eles de minha angústia escarnecia

E às vezes um afago imundo lhes fazia.  (CCV, “A Beatriz”)

 

     Charles Baudelaire é o precursor e mestre inconteste de toda a corrente principal da melhor poesia do século XX. O século e meio que decorreu desde a publicação original de As Flores do Mal o fizeram passar de “maldito” (processado criminalmente em 1857 devido à “sujeira” contida no livro) a clássico, criador de versos de estarrecedora perfeição quanto à métrica e à rima (e, nesse ponto, bastante diferente de outro fundador da modernidade, Walt Whitman, que apenas dois anos antes, com Folhas da Relva, instaurava o verso livre como método).

     Os (cerca de) 160 poemas de As Flores do Mal, entre outras qualidades, colocaram Paris no centro da modernidade (entendida como desconstrução do passado). Neles, a moralidade burguesa e cristã confronta-se com o seu avesso (como mostram os poemas satanistas e/ou ligados ao que antigamente eram conhecidos como “maus costumes”) ; a poesia confronta-se com a miséria do mundo moderno; a apreensão da “poesia das ruas” confronta-se com o recuo, cada vez maior, da natureza, até então a suprema moldura poética; o sublime, se houver, relampeja no quotidiano:

 

“Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros

As persianas abrigam secretas luxúrias

Quando o sol cruel golpeia redobradamente

Sobre a cidade e os campos, tetos e trigais,

Exercitarei sozinho minha bizarra esgrima

Buscando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas…”

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    “Tropeçando em palavras como em calçadas”. Foi por ter incorporado ao vocabulário poético as calçadas, as vitrines, o burburinho da multidão, o tédio do habitante da monstruosa metrópole, que Walter Benjamin consagrou Baudelaire como a consciência lírica do século XIX. Será nas calçadas, portanto, a bizarra esgrima do vate moderno, movimentando-se em função do “imprevisto que surge”, do “desconhecido que passa”, movido pelo “spleen”, condição fundamental do homem contemporâneo, que tem tudo à mão e sente que algo decisivo lhe escapa nessa atmosfera de saciedade, estragando-lhe a festa.

    Paradoxalmente a essa sensação de fastio, a esse sentimento da insuficiência da vida, desse que é, com Gustave Flaubert (cujo Madame Bovary também foi processado e igualmente publicado em 1857, essa incrível coincidência das duas maiores obras da literatura francesa terem aparecido juntas),o grande mapeador dos limites da nossa prisão perpétua quotidiana, há esse fervilhar urbano, com seus tipos, seus vícios, suas peculiaridades, que se tornam sob o olhar plástico do maior dos poetas, uma revelação.

    Baudelaire faz um pacto com o diabo do mundo moderno para gozar e sofrer da capacidade de vivê-lo como seu supremo intérprete, na contundência e beleza das Flores do Mal ((e, um pouco menos, dos Pequenos Poemas em Prosa) o “bebedor de quintessências” que se refocila rejubilando-se.

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 A BARCA DOS HOMENS

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Num dos seus mais belos poemas Adélia Prado afirma que a calça azul-pavão de um conhecido “faz parte da Bíblia”. Esse contínuo remeter do que é perecível e contingente para o transcendente, esse mergulho sem concessões no cotidiano mais trivial para encontrar a salvação prometida pelo Livro dos Livros, é que fazem com que alguns dos primeiros livros de poesia (Bagagem, O coração disparado, O Pelicano) sejam tão carismáticos. Agora que a Record está relançando toda a sua obra, temos a chance de reavaliar alguns títulos que pareciam menos satisfatórios, caso de Terra de Santa Cruz, publicado há exatamente um quarto de século.

    Dividido em 3 partes (Território, Catequese e Sagração) contém 40 poemas que, a uma primeira leitura, pareciam uma diluição do impacto do primeiro livro, Bagagem (1976), confirmado no seguinte, O coração disparado (78): um “eu lírico” que insistia na sua particularidade—mulher, mineira, provinciana e católica—para instaurar um clima poético que se transubstanciava numa grande narrativa: como fazemos parte da Bíblia, o lírico se transformava em épico, fazíamos todos parte de uma história multiplicada em lampejos, cacos para um vitral. Poucas obras contemporâneas têm esse poder de nos proporcionar o sentimento de realmente fazermos parte da humanidade, de estarmos todos na barca dos homens: “É bom pedir socorro ao Senhor Deus dos Exércitos/ ao nosso Deus que é uma galinha grande/ Nos põe debaixo da asa e nos esquenta/ Antes, nos deixa desvalidos na chuva/ pra que aprendamos a ter confiança n’Ele/ e não em nós.”

    E por isso Terra de Santa Cruz é mais que um livro individual, faz parte da Narrativa maior que Adélia “Scharazad” Prado vem engendrando em forma de livro, para nós, há três décadas. Ela mesma o diz: “Tenho os mesmos desejos de trinta anos atrás/ imutáveis como os mosquitos na cozinha ensolarada/ minha mãe fazendo café/ e meu pai sentado, esperando”.

    Tais imagens indicariam conformismo, resignação à vida que levamos ? Não. A bonomia, a tom cálido e saboroso dos poemas da grande poeta mineira não escondem a faca no peito da condição humana, “e não sendo melhor que Jô choro meus desatinos”. E o apelo ao divino é feito com o corpo: “O que farei com este meu corpo inóspito / já que não respondes nem me abres a porta / Tem pena de mim/ Não compreendo nada. Só Vos desejo / e meu desejo é como se miasse por Vós…” A imagem do miado, ligada ao cio, revela a voltagem erotizada de uma linguagem onde o místico cumpre sua função desde os tempos de Santo Agostinho: ser exaltação, desmesurar o que a sociedade reprime e vê com maus olhos: “Eu me casei e tenho a mesma medida de aflição/ O dia passa, a noite, saio da sombra e digo/ é só isso que eu quero/ ficar no sol até enrugar o couro/ Mas vai-se o sol também atrás do morro/ a noite vem e passa sobre mim/ que longe de espelhos alimento sonhos/ quanto a viagens, glórias/ homens raros me ofertando colares, palavras/ que se podem comer, de tão doces/ de tão aquecidas, corporificadas/ A parreira verga de flores/ eu durmo inebriada/ achando pouca a beleza do mundo/ ansiando a que não passa nem murcha/ nem fica alta, nem longe/ nem foge de encontrar meu duro olhar de gula/ A beleza imóvel/ a cara de Deus que vai matar minha fome”. A poesia de Adélia Prado é como a mesa preparada pela mulher do conto A repartição dos pães, de Clarice Lispector: foi posta para dar o melhor, não importa a quem.

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serviço: Terra de Santa Cruz (Brasil, 1981), de Adélia Prado. Record. 104 págs. RESENHA PUBLICADA EM 12 DE AGOSTO DE 2006

Toda uma vida passada em Abalone

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    Uma cena que nunca esqueci do filme As setes faces do Dr. Lao é, por acaso, uma das poucas que a obra-prima de George Pal aproveitou fielmente do romance de Charles G. Finney, O circo do Dr. Lao: o protagonista, o misterioso chinês que chega com seu espetáculo a uma cidadezinha do Arizona, está descrevendo as características de uma de suas atrações principais, a Medusa. Uma robusta senhora o vitupera: “Não acredito em uma só palavra do que o senhor está dizendo. Nunca ouvi tanta bobagem junta em toda a minha vida. Gente virar pedra! Que idéia! Seu marido ainda tenta intervir, mas ela insiste: “Cale a boca, Luther. Digo o que quero e quando bem entender.” Para então ouvir a resposta do Dr. Lao: “Madame, a atitude de ceticismo não lhe cai bem. Há coisas no mundo que nem a experiência de toda uma vida passada em Abalone pode conceber.”

    Pois bem, se o Dr. Lao armasse seu circo-mundo em Amherst, Massachussets, provavelmente não faria tal censura, pois toda uma vida ali passada não impediu que Emily Dickinson (1830-1886) escrevesse a poesia menos provinciana, mais desafiadoramente conceitual, concisa e arrojada, quase que se poderia dizer filosófica, repensando tudo em seus próprios termos (ela tem um arsenal terminológico peculiaríssimo) e dando a seus curtos poemas um aspecto inaugural, de renomeação do mundo, dos sentimentos, das idéias:

 

A Relva pouco tem a fazer-                            

Uma esfera de simples Verdura-                   

Com Borboletas somente a cuidar                 

E Abelhas a entreter-                                    

 

E ondular o dia todo aos bonitos Sons        

Que as Brisas arrastam-                             

E no colo do Raio de Sol                           

Cumprimentar cada coisa-                        

 

E trançar, cada noite, como Pérolas-        

E fazendo isso com esmero                        

Que uma Duquesa não saberia                 

Estabelecer a diferença-                            

 

E então ao morrer- passar                        

Para Aromas tão divinos-                        

De Especiarias, curtidos-                        

Ou de Nardos, periclitantes-                  

 

 

 

E então, em Altivos Celeiros, restar-    

E, sonhando, os Dias Findarem-            

A Relva pouco tem a fazer                    

Eu desejaria ser Feno.                         

 

    Duas novas seleções, vinte anos após a memorável centena de poemas na tradução de Aíla de Oliveira Gomes, permitem ao leitor brasileiro explorar um pouco mais esse cosmo criado pela genial e enigmática imaginação trancafiada por toda uma vida em Amherst: Poemas Escolhidos (L&PM) e Alguns Poemas (Iluminuras). Ainda longe a tradução integral dos 1.775 poemas, mas pelo número de textos incluídos em ambas as coletâneas (ambas bilíngües) já temos um avanço perceptível.

uma centena de poemas

 

Eu moro na Possibilidade-                        

Uma Casa mais aprazível que a Prosa-    

Mais numerosas Janelas-                          

E superior- em Portas-                               

 

De Câmaras como Cedros-                       

Inacessíveis ao Olhar-                              

E tendo como Perene Forro                      

Os Telhados do Céu-                                 

 

Visitantes- os melhores-                             

Por Ocupação- Isto-                                  

Abrir amplamente minhas estreitas Mãos 

Para agarrar o Paraíso                            

 

    Talvez só a poesia do seu conterrâneo, o igualmente original Wallace Stevens tenha certa similaridade, na economia da forma, na estranheza lexical e conceitual, na aparência de “neutralidade” que nos faz cair num estado de tabula rasa que logo se transforma em algo que não nos sai da cabeça por um bom tempo:

 

Quando você varrer aquele sagrado Armário-       

Intitulado “Memória”-                                             

Escolha uma reverente Vassoura-                           

E o faça em silêncio.                                               

 

Será um Labor de surpresas-                                  

Além da Identidade                                                  

De outros Interlocutores                                        

Uma possibilidade-                                                

 

Augusta a Poeira desse Domínio-                        

Intocada- deixe-a em repouso-                            

Você não pode removê-la                                    

Mas ela pode silenciar você-                               

 

    O Dr. Lao compreenderia de imediato, com sua sutileza e sabedoria, que  encontrou a Medusa em Abalone, em vez de levá-la para lá. Corremos o risco de petrificar-nos com o olhar poético da Madame de Sade de Amherst, para utilizar a feliz expressão de Camille Paglia, que no  seu fabuloso Personas Sexuais não deixa por menos: “Emily Dickinson e Walt Whitman, aparentemente tão dessemelhantes, são confederados tardo-românticos da União americana… Ambos são perversos canibais da identidade dos outros, Whitman em seus gulosos auto-empanturramentos e invasões dos quartos dos que dormem e estão doentes, Emily em seus pêsames ritualísticos e seu lúbrico connoisseurismo da morte. Voyeurismo, vampirismo, necrofilia, lesbianismo, sadomasoquismo, surrealismo sexual: a Madame de Sade de Amherst ainda espera que seus leitores a conheçam”

    Não seja por isso, Madame Camille (afinal, estamos falando de alguém que escreveu: “Morri pela Beleza- mas estava somente/ Acomodada na Tumba…”):

 

O catavento um pouco a Leste

Afugenta Almas de Musselina – para longe-

Se corações de Seda são firmes-

Mais do que os de Organdi-

 

A quem culpar? Ao Tecelão?

Ah, os enganadores fios!

As Tapeçarias do Paraíso-

Invisivelmente- são tecidas.

 

    E para encerrar, antes que fiquemos iguais à pobre estúpida senhora de Abalone, que paga para ver: “Bem, vou mostrar uma coisa. Vou desmascará-lo diante de toda essa gente, ora se vou”. Ela mete a cabeça no cubículo da “atração”: “…antes de poder pronunciar outra palavra já estava petrificada”:

 

Do Drama a mais Vívida Expressão é o Dia Comum

Que levanta e repousa sobre Nós-

Outra Tragédia

 Dissipada na Declamação-

Isto – a melhor encenação-

Quando a Platéia se dispersa

E a Bilheteria fecha-

 “Hamlet” seria Hamlet-

Ainda que não por Shakespeare escrito-

E “Romeu”, não através da Lembrança

De sua Julieta,

 Seria infinitamente encenado

No Coração Humano-

Único teatro conhecido

Não fechado pelo Proprietário.

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Serviço: Alguns Poemas: Emily Dickinson, seleção e tradução de José Lira. Iluminuras.  319 págs. R$ 44; Emily Dickinson- Poemas Escolhidos, seleção e tradução de  Ivo Bender. L&PM. Coleção Pocket Plus. 123 págs. R$ 6 (resenha publicada em 22 de setembro de 2007)

15/06/2009

GLOBALIZAÇÃO LITERÁRIA: A OBRA DE GRAHAM GREENE

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(aqui estão reproduzidas, com ligeiras modificações, uma série de resenhas escritas sobre obras de Graham Greene ao longo dos últimos 15 anos)

 

18 de janeiro de 1994: Reflexões

 

     Reflexões é um daqueles constrangedores produtos da decrepitude ou pós-morte de um autor importante, quando se fuça seus rabiscos e publica-se até a caderneta da padaria e a cartilha do beabá? Sabemos o quanto de lixo isso nos trouxe de Pessoa e Drummond, por exemplo, esse culto necrófilo e/ou mercenário das sobras…

    Muitos textos dessa coletânea de textos circunstanciais escritos ao longo de décadas por Graham Greene (1904-1991) ou são curtos, abruptos e vagos demais ou são francamente ruins e juvenis no pior sentido. Há lugares comuns indefensáveis, como no tributo a Jorge Luis Borges, “espantou-me a expressão daqueles olhos cegos. Não pareciam cegos. Era como se estivessem olhando para dentro de si mesmos”!!!!

    O leitor deve dar preferência mesmo ao ficcionista extraordinário, que nos deixou contos memoráveis, um trio de romances geniais (Brighton Rock- O condenado, de 1938; O Poder e a Glória, de 1940; The heart of the matter- O cerne da questão, de 1948), além de obras como Fim de Caso, O Cônsul Honorário, Viagens com minha tia, O fator humano ou Monsenhor Quixote, para citar algumas, que aguardam uma reavaliação para se conferir se não estão no mesmo patamar. Sem falar nos dois fundamentais depoimentos autobiográficos, Quase uma vida e Pontos de fuga.

    Mesmo assim, há algo de instigante em Reflexões, pela revelação que faz da ética pessoal de Greene. Escrevendo sobre a Alemanha e a França pós-Primeira Guerra (e prevendo, com acerto, aos vinte anos, a segunda), sobre a Indochina, o Haiti, Cuba, Paraguai, Chile, Conan Doyle, sebos, cinema (artigos marcantes sobre este assunto, afinal ele foi crítico cinematográfico por anos), acaba nos esclarecendo um pouco porque foi o romancista que ampliou a consciência mundial da literatura, que deu sentido à frase lapidar de Joan Didion (no seu belíssimo romance Democracia): “ninguém está isento do movimento geral”; e, ao mesmo tempo, mostrou dilemas psicológicos tão intimistas e intrincados. No seu entender, o que acontece em Phat Diem ou o que ocorreu em 1597 com católicos ingleses coloca a todos nós em questão.

    Por isso, o mais perturbador de todos os textos de Reflexões é “A virtude da deslealdade”: “Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vais, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? (…) Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, a fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana”.

    Realmente, esse é o espírito que sopra sobre as águas da obra de Greene. Não foi por acaso que ele pôde escrever Monsenhor Quixote, romance definitivo sobre a equação ideologia e individualidade (não confundir com individualismo).

 

 

9 de janeiro de 1996: A última palavraa última palavra

 

    Em A última palavra, coletânea de 12 contos, há duas histórias da Segunda Guerra: “As notícias em inglês” e “O tenente morreu por último”. Em ambas, dois solitários são o pivô dos acontecimento: uma mulher cujo marido é considerado por todos (a mãe, inclusive) um traidor, e que carrega consigo o peso de saber a “verdade”; um caçador ilegal que salva um daqueles típicos povoados ingleses (eles se tornaram quase míticos, após tantos filmes e livros, está aí Mrs. Minniver-A rosa da esperança, de William Wyler, que não me deixa mentir) de uma invasão alemã.

    Como são dois textos de alto nível, possuem outros aspectos que poderiam ser explorados, mas esta resenha insistirá na impressionante maneira como a solidão ecoa de uma ponta a outra, dando notável unidade e coerência a essa reunião de “filhos pródigos” do autor de The heart of the matter- O cerne da questão. São contos que ele deixou de lado e dos quais, salvo engano, apenas “O bilhete de loteria”, um dos melhores, já fora publicado no Brasil, em outra tradução, pela editora Agir (em 1959, na coletânea Contos, cujos 18 integrantes foram meu primeiro contato com o Greene contista).

     A própria história-título, que abre o livro, com um tom que parece ter saído dos versos de T.S. Eliot, aqueles do final de A terra arruinada, que nos falam do fim do mundo como evento mais melancólico que apocalíptico, mostra um solitário: o último papa, desmemoriado após um atentado e o qual, já não possuindo seguidores e não representando mais uma ameaça (ou seja, não podendo tornar-se mártir), é executado por um compadecido inimigo.

    Em “O momento da verdade”, um garçom descobre-se condenado pelo câncer e deposita toda esperança de solidariedade e simpatia num casal de fregueses americanos, freqüentadores por alguns dias do restaurante.

    Restaurantes também são os lugares onde passa a vida o espião de “Uma divisão do serviço”, uma das inúmeras brincadeiras de Greene com o serviço secreto britânico, para o qual trabalhou e que adorava espicaçar. Já nesse conto a solidão se reveste de um ridículo atroz, explorado também em “Assassinato pelo motivo errado”, no qual aparece um personagem freqüente na ficção greeniana, o assassino recalcado e inseguro. Basta lembrar A gun for sale- Assassino de aluguel e do inesquecível Pinkie da obra-prima Brighton Rock- O condenado.

    Outros que não escapam da ironia do grande autor inglês são os turistas, basta ler “O homem que roubou a Torre Eiffel”. Na verdade, só existem dois textos realmente fracos em A última palavra: “A casa nova” e “Uma obra inacabada”.

    O que sobressai do conjunto é uma visão da sociedade em que todos estão abandonados à própria sorte, uma sociedade que torna cada verdade pessoal paródia de si mesma, uma sociedade em que as pessoas dedicam-se por anos a atividades miseráveis e incompreensíveis (os espiões durante a Guerra Fria, por exemplo). Enfim, um mundo que os críticos costumam chamar de greeneland (ele brinca com isso em Ways of escape- Pontos de Fuga, depoimento sobre a feitura das suas obras) e que nada mais é do que o mundo globalizado, um mundo que ele soube intuir e retratar de maneira magistral.

 

 

22 de fevereiro de 2000: Fim de Casofim de caso

 

    Os freqüentadores de cinema já estão assistindo ao trailer da adaptação que Neil Jordan fez de Fim de Caso. O que está reservado a essa que é uma das melhores obras do escritor inglês só Deus sabe, após Jordan ter perpetrado o horrível In Dreams- Premonição, onde a maravilhosa Anette Benning enfrentava uma bizarra e constrangedora mistura de O sexto sentido com Psicose.

    Seja qual for o resultado cinematográfico, versão ou aversão, pelo menos servirá para colocar o livro em evidência novamente.

    O narrador-protagonista de Fim de Caso é o escritor Maurice Bendrix, que reencontra Henry Miles, marido de sua ex-amante, Sarah. A essa altura da narrativa, Bendrix faz questão de informar ao leitor várias vezes o ódio que sente por ela, após tê-la amado durante os anos de guerra.

    Henry (que não desconfia que Sarah e Bendrix enganavam-no) confessa ter dúvidas a respeito da esposa. Pensou até em procurar uma agência de detetives, desistindo por medo de se expor. Insidiosamente, Bendrix sugere tomar seu lugar na ida à agência, “passando-se por amante de Sarah”. Henry recusa a oferta, mas o outro, tomado pelo ciúme e pelo ressentimento, resolve de fato contrata um detetive para segui-la.

    Entre as muitas qualidades desse romance de 1951, o primeiro exercício de Greene com a 1ª. pessoa, seu agudo e arguto estudo do sentimento inquisitorial, para usar uma expressão de Proust, que é o ciúme, irmana-o a duas outras obras-primas supremas a respeito do tema, Dom Casmurro  e Em busca do tempo perdido. É bem de Greene transformar uma questão passional numa investigação detetivesca, um território profanando o outro. Pois Parkis, o detetive, desenvolve uma admiração romântica por Sarah, enquanto Bendrix deixa que o lado sórdido da investigação deforme o passado, para descobrir, ao fim e ao cabo, que nem de posse das palavras mais íntimas de Sarah (Parkis furta seu diário) consegue “saber tudo”: “Então ela ainda tinha segredos, pensei. Ela não colocou isto em seu diário, assim como não tinha escrito sobre sua doença. Quanta coisa mais haveria a descobrir? Essa idéia era desesperadora”.

    Nessa corrida para o abismo das impossíveis reconstituições, para mais uma vez usar palavras do mestre do assunto, Proust, Bendrix certamente concordaria com a seguinte passagem de A Prisioneira (quinto volume de Em busca do tempo perdido), assim como também subscreveria em baixo o seu outro colega, Bentinho Santiago: “Interminável é o ciúme, pois mesmo se o ser amado, tendo morrido, não o pode mais provocar pelos seus atos, acontece que reminiscências posteriores a qualquer fato se comportam de repente em nossa memória como outros tantos fatos, reminiscências que não havíamos esclarecido até então, que nos tinham parecido insignificantes e às quais basta que reflitamos sobre elas para lhe darmos um sentido novo e terrível… basta estarmos sós no quarto, a pensar, para que novas traições de nossa amante aconteçam, embora ela esteja morta. Por isso não se deve temer no amor tão somente o futuro, mas também o passado, o qual se realiza para nós muitas vezes depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas também daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler”.

    A originalidade de Fim de Caso é o Outro que emerge da investigação das idas e vindas de Sarah, Outro que determinou a separação entre ela e Bendrix, devido a um episódio que não convém contar. Quem é esse Outro, esse mr. X ? Greene assume o risco do ridículo e nos dá nada mais nada menos do que Deus. O descrente e ressentido Bendrix é obrigado a acompanhar, na sua corrida para o abismo das impossíveis reconstituições, passo a passo, o processo de conversão de Sarah, e obrigado, além disso, a encarar (aceitar já seria dizer muito) a possibilidade de existência do inaceitável, o milagre: após a morte de Sarah, alguns atos podem ou não configurar eventos milagrosos e Bendrix terá que se manter na corda bamba da dúvida. Se alguém tiver dúvida da intensidade a que se chega nesse triângulo em que Deus é um dos vértices, basta ler a cena inacreditavelmente (para usar um termo apropriado à trama) linda em que Bendrix encontra (e é a última vez em que a vê com vida) Sarah numa igreja.

    E haveria tanta coisa a mais a dizer sobre o livro: como Sarah é uma personagem incrível (o capítulo em que se conhece o teor do seu diário é um grande tour-de-force); como é emocionante a relação de amizade que se estabelece entre Bendrix e Henry (um dos achados de Fim de Caso é fazer com que eles, no final, acabem vivendo juntos, na esteira da “presença” de Sarah na existência de ambos); como o detetive Parkis e seu filho poderiam fazer parte do mundo de Samuel Beckett (o de Molloy, por exemplo, publicado no mesmo ano), com seu comportamento a um só tempo pateta e patético. Ou, ainda, a maneira como a trama é construída, com brilhantes ziguezagues temporais que permitem ao leitor conhecer passado (o tempo do “affair”) e presente (a partir do reencontro com Henry), ao mesmo tempo, e sem que ele quase se dê conta do deslizar de um para o outro.

    É sempre assim com o autor de O poder e a glória e The heart of the matter- O cerne da questão: tem-se a ilusão de que se vai ler algo simples e linear e, de repente, somos assombrados por tramas mágicas e inquietantes. Ele aprendeu muito bem os feitiços de seu mestre, Henry James, o qual já foi chamado (por Borges) de habitante resignado do Inferno. Alguém que escreveu Fim de Caso só pode estar residindo na mesma localidade. Deve ser uma área do Além extremamente valorizada.

   

 

29 de fevereiro de 2000: O poder e a glória

o poder e a glória

     Comentei na seção anterior Fim de Caso sem fazer alusão a nenhuma das outras narrativas do mesmo cacife que o autor, Graham Greene (1904-1991), publicou em sua carreira de muitas décadas (ele publicou seu primeiro romance em 1928), por exemplo, O americano tranqüilo, Um caso liquidado, Viagens com minha tia, O cônsul honorário, O fator humano, Monsenhor Quixote. Mesmo com a alta qualidade de todas elas (e de outras mais), ainda assim perdem longe para um genial trio produzido ao longo de dez anos: Brighton Rock- O Condenado (1938); O poder e a glória (1940); The heart of the matter- O cerne da questão (1948).

    No final da década de 30, Greene—que se convertera ao catolicismo—recebeu a incumbência de noticiar as perseguições religiosas do México revolucionário. Ele, então, escreveu um livro-reportagem, The lawless roads. Ninguém podia imaginar (apesar dos seus primeiros trabalhos serem muito bonitos —é o caso de Expresso do Oriente, Um Campo de Batalha, England made me-Bela e Querida Inglaterra,  Assassino de aluguel, livros que persegui em sebos, como resultado da leitura apaixonante de Ways of escape-Pontos de fuga— e de ele já ter publicado uma obra-prima como Brighton Rock) que dessa pesquisa factual surgisse um dos livros de ficção essenciais e obrigatórios do século: O poder e a glória.      

    Ele se passa numa província onde os bananais e a expectativa da estação chuvosa, que torna os caminhos intransitáveis, dão o tom, além dos abutres que sobrevoam o tempo todo os acontecimentos. As igrejas foram fechadas ou destruídas, vários padres fugiram ou foram fuzilados como “traidores da Revolução”. Restaram dois: um, padre José, abjurou de sua fé e casou-se, sendo constantemente ridicularizado. Um outro, que não ganha nome na narrativa, é um bêbado que consegue manter-se em liberdade, e que teve uma filha.

    Um fanático tenente deseja “limpar” o país das superstições e da corrupção clerical e persiste na perseguição ao padre fugitivo. Este, por sua vez, em meio à degradação material e psicológica, “toca” a vida para a frente, conhecendo cada vez mais a Humanidade, muito mais do que no seu encastelamento como sacerdote, cargo que usava para sua própria ascensão social.

    É muito espinhoso para quem não tem fé fazer um comentário imparcial ou simpático com relação aos problemas católicos levantados pelo livro. Prefiro, então, abordar outro ponto essencial, mais afim com o existencialismo do que com a religiosidade: todos os personagens de O poder e a glória são ou se sentem estrangeiros na aldeia, na cidade, na província, no mundo. Seja o padre perseguido, seja o tenente fanático pelo dever revolucionário, seja o dentista (sr. Tench) que não consegue juntar dinheiro para sair do país e voltar à Inglaterra, seja a menina inglesa (Coral) que, exilada da infância, tem de tomar decisões de adulta devido à inutilidade e infantilização dos pais (o casal Fellows), seja o “gringo” assassino que vem encontrar seu fim no México, seja o mestiço que acabará por trair o padre, seja o menino que não consegue se convencer da baboseira católica com a qual a mão doutrina a todos na sua casa, ninguém que venha a primeiro plano deixa de demonstrar o mesmo desconforto com a vida. Todos apresentam o mesmo “olhar de estrangeiro” com que o sr. Tench abre a narrativa, olhar compartilhado que impede essa obra-prima de ser a visão eurocêntrica de um escritor sobre o Terceiro Mundo. Greene conseguiu um feito enorme evitando a armadilha de focalizar personagens de um país dependente. A fissura que existiria entre o narrador e o mundo retratado já está nos personagens, já está no absurdo do homem e do mundo coexistirem.

    Além disso, poucos romances podem se gabar de ter a quantidade de cenas admiráveis de O poder e a glória. Entre as que nunca saíram da memória, mesmo anos depois da leitura do romance (primeiro, numa excelente tradução portuguesa, quem diria, de Antônio Gonçalves Rodrigues; depois, na clássica versão de Mário Quintana; atualmente se publica a de Lea Viveiros de Castro), estão a cena em que o tenente reúne todos os habitantes de uma aldeia onde o padre acabou de rezar uma missa furtiva e este fica esperando alguém delatá-lo; a longa cena da noite na prisão (por bebedeira!), que termina com a demonstração da generosidade paternalista do tenente, o qual dá ao padre uns trocados para prosseguir a vida, sem suspeitar que ele é o homem a quem persegue; a cena terrível em que o tenente procura padre José para que ele seja o confessor do outro padre, antes de sua execução; e, mais que todas, a cena em que o padre chega faminto ao local onde a família de Coral habitava e o encontra desabitado, acabando por disputar um osso com alguma carne com uma cachorra moribunda. É um dos dois ou três momentos mais impressionantes da ficção no século XX.

    E o estilo de O poder e a glória? Graham Greene criou para si mesmo o folclore de que escrevia diariamente 500 palavras e parava, independentemente de estar no meio de uma frase. O que ele nunca explicou e ninguém talvez explique é como conseguia encontrar 500 palavras iluminadas todos os dias para dar vida à sua obra suprema.

 

17 de junho de 2003: O Condenado

o condenado

    Com relação ao centenário do nascimento de Marguerite Yourcenar comentei que seu livro Golpe de Misericórdia (1939) era apreciado até mesmo por quem não gostava muito da obra da escritora belga. Isso acontece também com Brighton Rock- O Condenado, que geralmente sai ileso das críticas mais pesadas feitas a Graham Greene (de ser um autor convencional, comercial, para consumo da classe média, etc).

    Ele está sendo apresentado numa edição que se apresenta como “revista”, embora ainda utilize como base uma velha tradução de Leonel Vallandro, igualmente utilizada em Portugal (como A inocência e o pecado), e que é muito boa, só ficou anacrônica no quesito gíria, já que o romance se passa no submundo e nos meios populares. E também há o problema do aportuguesamento dos nomes próprios. Eu costumava me irritar com a aportuguesada Rosa (a personagem-chave do enredo) e fiquei feliz ao vê-la se tornar uma legítima e inglesa Rose. Mas parece a dose foi demasiada e o remédio só piorou a doença: uma sucessão de palavras incorporou o Rose reconquistado. O leitor conhece uma polícia vagaRose? Pois aparece na página 152. E há um vagaRosemente tanto na 205 quanto na 296. Temos doloRosemente (155,283,336), doloRose (190,279, 317), rancoRose (200), tenebRosemente (218), tenebRose (283, 295), indecoRosemente (291), prazeRosemente (239), temo “Roses, roses, roses, por todo o caminho” (234), ficamos sabendo que a vida não é cor-de-Rose (220), que “nem tudo são Roses” (270)!!???!!

    Será que estamos diante da versão Finnegans Wake de O condenado? A revisão é tão malfeita que fica faltando uma frase num diálogo entre Pinkie, o protagonista (vivido de forma memorável no cinema pelo então ótimo ator e agora soporífero cineasta Richard Attembourough), e Spicer, o comparsa que ele acabará por assassinar (“Para ? Que está querendo insinuar?”, o leitor NÃO encontrará na página 136), além de metade da frase “Que não foi vocês sabem quem, na página 159; além disso, dividiram em dois parágrafos uma fala importantíssima de Pinkie (numa conversa com Rose, quando tenta incitá-la ao suicídio), na página 311, truncando-a e quase a tornando incompreensível. Haveria muito mais a dizer. Paremos por aqui. Edição “revista” !!! é esse o respeito que as editoras brasileiras têm pelos seus leitores (ou vítimas).

    É uma pena que a obra-prima de Greene chegue aos brasileiros tão desfigurada: quando a publicou, em 1938, ele estava apenas com 34 anos e já escrevera alguns romances talentosos: o geralmente subestimado, até pelo próprio autor, Expresso do Oriente, Um campo de batalha, Bela e querida Inglaterra, Assassino de aluguel. Chegara, entretanto, a hora da genialidade na história do gangsterzinho de 17 anos, Pinkie, o Garoto, cuja quadrilha disputa com mr. Coleoni o faturamento do submundo das apostas em corridas de cavalo na cidade balneária de Brighton. Eles assassinam um jornalista, Hale, o qual (para azar deles), antes de ser apanhado, procurou refúgio nos braços de Ida Arnold, mulher de “implacável vitalidade” e que partirá para uma insólita retaliação. Dela se diz “não havia lugar no mundo onde se sentisse forasteira”, “não havia nada a que se sentisse alheia”, “somente aquelas trevas em que se movia o Garoto lhe eram estranhas. Não tinha piedade com aquilo que não compreendia”.

    Para escapar da forca, o Garoto resolve se casar com a única testemunha que sobrou do caso Hale, a garçonete Rose. Tanto ele quanto ela são católicos. Como também são menores, casam-se por meio de uma artimanha legal apenas no civil, caindo no mundo do pecado mortal segundo as leis da igreja (e é bom levar a sério esse conceito de pecado mortal, leitor, pois é essencial ao romance). Começa, então, a disputa entre Pinkie e Ida (“essa mulher nem sabe o que é um pecado mortal”) pela alma de Rose, que revolucionará a trama noir e transformará Brighton no palco temporário do Inferno.

 

24 de junho de 2003: O condenado – continuação

greene

    Depois de comentar os imperdoáveis erros da nova edição de O condenado, de Graham Greene,, é preciso falar mais a respeito do livro, obra-prima de um autor cuja popularidade não parece dar sinais de arrefecer, como mostram as contínuas adaptações cinematográficas: tivemos, há pouco tempo, uma surpreendente e brilhante versão de Neil Jordan para Fim de Caso (a qual deu ensejo para a alta inspiração de Julianne Moore e Stephen Rea como intérpretes de Sarah e seu marido Henry); no ano passado, Philip Noyce refilmou O americano tranqüilo, com o grande Michael Caine (que já havia sido um fantástico personagem-título na adaptação de O cônsul honorário).

    Como já se comentou aqui, o protagonista de O condenado, Pinkie, vulgo o Garoto, é um gangsterzinho de 17 anos, um “pequeno ditador”, que carrega sua “cruel virgindade”, assumindo a liderança de uma quadrilha no submundo das corridas de cavalo em Brighton, especialmente após a eliminação do jornalista Hale. Para não correr riscos, Pinkie resolve casar-se com a única testemunha que pode ligá-lo a Hale, a garçonete Rose, católica e menor de idade como ele.

    Casam-no civil, porém o sentimento de pecado mortal (por não se sacramentar o matrimônio na igreja) assombra o casal, “na sombria teologia em que os dois estavam absortos”.

    Uma das raras coisas boas da edição da Globo é o prefácio de Marcelo Pen, onde se fala do livro como “thriller metafísico”. De fato, é como se fosse um enredo policial ao estilo de um Borges ou de uma Clarice Lispector. Por um curioso erro de percepção, Greene achava que a base policialesca da intriga (a Primeira Parte, com a perseguição de Hale) deveria ter sido cortada quando o romance tomou sua feição final.  É o que se lê em Pontos de fuga: “As primeiras 50 páginas são tudo o que resta da história policial. Iriam irritar-me, se eu ousasse examiná-las agora, pois deveria ter tido a força de vontade suficiente para retirá-las, e começar a história outra vez, por mais difíceis que se tornassem as revisões, com a agora chamada Segunda Parte.” O problema é que a desprezada Primeira Parte é incrível: tudo está lá, todas as linhas de força do romance, a partir da inesquecível frase inicial (“Ainda não fazia três horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassiná-lo”); aliás, poucos livros podem se gabar de começar de forma tão inspirada, e terminar com uma frase mais perfeita ainda, se possível (“Rose caminhava rapidamente, no leve sol de junho, ao encontro do maior de todos os horrores”).

    Outro inacreditável erro de avaliação de Greene é justamente com relação a Rose. Para ele, era uma de suas personagens que não conseguiram adquirir vida, que só estão ali por causa da trama. Pois bem, Rose é a grande personagem, a alma de O condenado, bem mais do que o próprio Pinkie ou sua oponente, Ida Arnold. Rose está para Graham Greene como Macabéa para Clarice Lispector: a mesma nulidade social, o mesmo desamparo existencial, a mesma qualidade patética de “ser” com tão pouco, de tirar tanto de nada. Nos momentos em que Rose está no centro do palco, o estilo de Greene chega ao auge.

    E por falar em estilo, há determinadas imagens insólitas que parecem Faulkner (é só pegar Santuário). É o caso de uma caracterização do advogado, mr. Prewitt, responsável pelos arranjos para o casamento (e que tem perfeita consciência da situação de todos, ao citar Fausto: “O inferno é aqui e nós estamos dentro dele”; de passagem, há até um detalhe bobo e dispensável para indicar isso: o número do telefone da pensão de Pinkie é 666): “A expressão de simpatia não lhe assentava; tinha-se a impressão de que era possível despegá-la dos seus olhos, como etiqueta colada pelo leiloeiro num antigo instrumento de sílex”. Parece Faulkner (que justamente publicava suas grandes obras por essa época), mas a semelhança é devida a uma influência comum a ambos: Joseph Conrad. Pois o coração das trevas tanto fica em Brighton quanto no Mississipi.

 

16 de março de 2004: Os Farsantes

os farsantes

    Há algum tempo, Caetano Veloso cantava que o Haiti era aqui. Em 1966, Graham Greene mostrou-se mais profético ainda ao escrever em Os farsantes o seguinte trecho: “O Haiti não era uma exceção num mundo sadio: era uma pequena fatia do dia a dia tomada ao acaso”.

    Quase quatro décadas depois, com o estado das coisas no Brasil e no mundo, e depois da intervenção totalitarista dos EUA exilando de forma sumária um chefe de estado, o lançamento do romance pela Globo torna-se mais relevante, embora não seja uma das obras mais citadas do grande escritor inglês, cujo centenário de nascimento se comemora este ano.

    Felizmente, não temos uma edição “revisada” ao modo desastroso de O condenado. Mesmo assim, alguns problemas persistem. O título, por exemplo. Talvez fosse melhor manter a solução da antiga versão de Brenno Silveira, um literal Os comediantes (para The comedians), uma vez que as ligações entre os personagens são metaforizadas sob a forma da atuação (o que deixa indignada a protagonista feminina, que se recusa a ser vista como alguém que está “representando um papel”, como admitem cinicamente –ou seria resignadamente?—seus companheiros). O único problema no caso é que o termo comediante está associada em nossa língua aos papéis cômicos, e aqui teria de ser estendido à comédia humana que nos envolve a todos. “Farsantes” ou seu correlato “impostores” diminuem muito o alcance da metáfora.

     Há lapsos na revisão: na página 37, o sr. Smith diz que nem ele nem a esposa (ambos, personagens antológicos) são pessoas “que tenham prazeres moderados” (e é justamente o oposto); na página 79, a frase “quando penso em todo aquele desperdício na Broadway” é atribuída a Martha, amante do narrador e protagonista, Brown, e é a mulher que se recusa a ser uma “comedian”, comediante ou farsante (na burocrático e sonífera versão de Peter Glenville eles serviram de veículo para mais uma reunião do casal Elizabeth Taylor e Richard Burton), quando na verdade é dita pela sra. Smith (que, no filme, era a lendária Lílian Gish); na página 112, Brown afirma que “tinha razão para se preocupar” e deveria ser o contrário (naquele momento, ele não tinha razão nenhuma para ficar preocupado, o que será ironicamente desmentido pelos acontecimentos); enfim, volta e meia esbarramos nalgum enguiço. No geral, entretanto, a tradução é boa.

    Depois de Fim de caso (1951), Greene afeiçoou-se às narrativas em primeira pessoa. Em The comedians, Brown é o cidadão de nacionalidade inglesa (embora de origem duvidosa) que mantém um hotel de luxo em Porto Príncipe, abandonado pelos turistas quando a violência da ditadura de Papa Doc e dos tontons macoutes se torna mais virulenta. Ele é mais dos estrangeiros envolvidos em situações locais no mapa da Greenelândia (no México, em O poder e a glória; na África, em O coração da matéria; bi Vietnã, em O americano tranqüilo; em Cuba, em Nosso homem em Havana; no Paraguai, em O cônsul honorário), embora talvez seja o menos ilustre, talvez porque aqui o autor se mostre um tanto cansado. Além disso, ele persiste numa certa sátira aos americanos tranqüilos, ou “inocentes”: o casal Smith chega ao Haiti no mesmo navio de Brown e Jones (este, o mais enigmático e ambíguo dos “comedians” da trama) e hospedam-se no hotel do primeiro. Sua meta: convencer o governo haitiano das vantagens do vegetarianismo, o qual consumiria as paixões humanas.

    Humanitário, progressista, otimista, o casal comove Brown e o leitor, escapando do ridículo por causa da sua integridade e bravura quixotesca, ainda que ineficazes e até inconvenientes, quando se opõem às situações de arbítrio e opressão que por acaso testemunham, como o seqüestro, a caminho do velório, do corpo de um ministro que se matou (à beira da piscina do hotel de Brown) ao figurar como persona non grata do regime: “numa ditadura, as pessoas não são donas de nada, nem de um marido morto”.

    Parece que hoje em dia as coisas ficaram piores. As pessoas não são donas nem de um presidente em exercício. Ele pode ser levado a qualquer momento.

 

30 de junho de 2007: O terceiro homem

o terceiro homem

    Aos poucos, Graham Greene, um dos meus autores favoritos  (apesar do veredicto derrisório de Vargas Llosa, em A verdade das mentiras: “um escritor eficiente, tímido e funcional, que se sentia satisfeito contando uma história com acerto, que fizesse toda uma classe de leitores passar um tempo feliz e distraído.. o que se propôs foi sempre pouco e muito abaixo do seu talento”), vai reaparecendo nas livrarias. A Globo acaba de lançar novas traduções de O americano tranqüilo e do magnífico The heart of the matter, agora com o título nacional de O cerne da questão. A L&PM já republicara O fator humano e adicionou O terceiro homem à série que é vendida pelo espantoso preço de seis reais (mais espantosos ainda são os autores que dela constam: Rilke, Sartre, Rimbaud, Scott Fitzgerald, Dalton Trevisan…)

    Basicamente o argumento para um filme (aquela curiosa obra-prima de Carol Reed, que parece ter a mão, senão a alma, de Orson Welles, já que ele e seu amigo Joseph Cotten são os astros e toda a atmosfera evoca o universo do criador de Cidadão Kane e Mr. Arkadin mais do que o do próprio Reed, sempre um diretor mais para o “eficiente, tímido, funcional”, o que pode ser uma grande injustiça), escrita em 1949, O terceiro homem representa uma história-chave para se compreender Graham Greene, principalmente pela maneira como Rollo Martins, o protagonista, se envolve na trama (cujo cerne da questão aparenta ser o mercado negro de penicilina no após guerra), e pelo cenário (Viena ocupada pelas grandes potências, uma terra de ninguém, ora patrulhada por americanos ora por russos).

    A narrativa é feita por Calloway, o oficial britânico que está à caça de Harry Lime, o “terceiro homem”, companheiro de adolescência do imaturo Rollo, para quem é um ídolo, uma amizade de fascinação e subjugação, que o mantém em Viena, mesmo quando é informado da morte de Harry. A relutância de Rollo em aceitar conhecer o “verdadeiro” Harry Lime o faz penetrar cada vez mais nos meandros do submundo e na humilhação vienense, nessa ex-capital do supra-sumo da cultura européia, transformada numa opressiva e deprimente zona de guerra e mercado negro; ao mesmo tempo, um espaço privilegiado para a intuição poderosa de um escritor como Greene, que praticamente condensou o romance noir com o thriller da Guerra Fria (o filme ainda adicionou a pitada de pesadelo expressionista: quem pode esquecer, entre outras coisas, a perseguição pelos esgotos?).

    O grande autor inglês se dá ao luxo de brincar consigo mesmo: a essa altura, ele já publicara seus três maiores romances (O condenado, O poder e a glória e o recém batizado O cerne da questão). Não é que ele caracteriza Rollo Martins, o homem que se recusa a crescer (“A muralha uniforme da ilusão não exibira rachaduras reais ao toque de seus dedos, até então”, diz Calloway), aquele que será “sempre um colegial” (para utilizar um título dado aqui no Brasil a um romance do discípulo de Greene, John Le Carré), como autor daqueles livros ordinários de faroeste, escritos sob pseudônimo (e sequer ganha dinheiro com essa produção!) –e quem leu Pontos de fuga sabe como foi angustiante, para Greene, a adoção de uma carreira profissional de escritor. Pois bem, mal chega a Viena, Rollo é confundido com um prestigiado e aguardado romancista inglês, e acaba dando uma palestra sobre “o romance moderno”. Um dos pontos altos de O terceiro homem, a cena torna-se particularmente deliciosa ao lhe perguntarem sobre James Joyce, como “situaria” o autor de Ulisses no quadro do romance moderno: “tivera um dia cheio: bebera demais com o coronel Cooler; apaixonara-se; um homem fora assassinado, e agora tinha a impressão de que estavam mangando dele. Zane Grey era um dos seus heróis. Estavam loucos se pensavam que ia aturar disparates…

__Se quer mesmo saber, nunca ouvi falar de Joyce. O que é que ele escrevia?”

    No angustiante universo de mentiras e logros de O terceiro homem, esse é um dos raros instantes (ainda que cômico) em que se diz uma verdade. 

19/05/2009

três comentários sobre REI LEAR

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rei-lear-iiirei-lear-irei-lear-ii   

 O leitor brasileiro encontra diversas traduções de Rei Lear ao seu dispor. Neste artigo, o destaque ficará com a de Aíla de Oliveira Gomes não só por sua qualidade como também por ser apresentada numa edição bilíngüe. Ainda assim, é indispensável conhecer as versões de Millôr Fernandes (L&PM) e Bárbara Heliodora (Lacerda), entre as mais modernas. Há ainda versões mais antigas e tradicionais: a de Carlos Alberto Nunes (Ediouro) e a (em prosa) de Oscar Mendes e F.C. de Almeida Cunha Medeiros (Aguilar). Cinematograficamente, apesar da notável e austera versão de Peter Brook,  sempre vem à mente de imediato a transposição da trama para o Japão feita por Kurosawa no avassalador Ran, talvez o maior filme do último quarto do século XX.

    “Thou should’st not have been old till thou hadst been wise/ Não devias ter ficado velho antes de teres ficado sábio” diz o Bobo a Lear no final do primeiro ato quando este começa a perceber que foi ludibriado pela bajulação de duas de suas três filhas, Goneril e  Regan, no momento de sua prematura decisão de antecipar a herança delas e dividir o seu reino, quando também escorraçou e deserdou Cordélia, a única filha a se recusar a tal mistificação. A verdade, porém, é que Lear está tão imbuído de sua grandeza e tão auto-iludido que é fácil enganá-lo. Terá de passar por um duro aprendizado antes de reencontrar (no quarto ato) sua filha pródiga e mesmo assim será uma curta redenção.

    Assim como a história de Laertes reflete a de Hamlet (ambos procuram vingança pelo assassinato do respectivo pai e, em certa medida fracassam e se mostram aquém da tarefa), a tragédia de Lear também tem um espelho: o destino do cortesão Gloster (no original, Gloucester), enganado pelo filho bastardo, Edmund (um dos inesquecíveis criminosos shakesperianos, na linha de Iago e Macbeth) e que passa a perseguir o filho legítimo, Edgar, o qual tem de se disfarçar como mendigo (uma degradação que espelha a de Lear, quando este ficar vagando como um velho louco): Tom, o Maluco, pobre Tom (“Poor Turlygod! Poor Tom! That’s something yet; Edgar I nothing am”: “Ser Tom é algo; ser Edgar é nada.”).

    Gloster será torturado numa cena tenebrosa, onde Regan e o marido lhe arrancam os olhos, incitados por Edmund, quando  começam a conspirar para obter o poder (e o bastardo, que dá o mote da trama –“The younger rises when the old doth fall”: “Caiam os velhos, que os jovens vão crescer”— ainda colocará irmã contra irmã ao seduzir ambas). Cego, enxergará a verdade: “Ó Edgar, filho meu querido, que foste objeto das iras de teu iludido pai; se eu vivesse p’ra ver-te pelo tato, era como ter olhos outra vez” e será conduzido, sem saber,  pelo filho disfarçado de louco, dando ensejo à famosa máxima: “É a maldição dos tempos quando é o demente que conduz o cego”. Pois Rei Lear, mostrando esse apocalíptico desencontro de gerações, alude constantemente a um crepúsculo da humanidade, um momento em que tudo é virado do avesso e o mundo é “this great stage of fools”: “este grande palco de loucos”.

Rei Lear. Edição bilíngüe. Tradução de Aíla de Oliveira Gomes. Editora UFRJ. 361 págs

shakespeare

“Gloucester: E quem és, meu senhor ?

Edgar: Um homem muito pobre, tornado submisso aos golpes do destino: que por artes de dores vividas e sofridas se tornou sensível à compaixão.” (Ato IV, cena VI) Continuando o comentário a respeito de Rei Lear nada mais natural do que abordar a maneira poderosa com que Shakespeare mostra o aprendizado pelo sofrimento dos seus dois personagens centrais (Lear e Edgar), seguindo um dos fundamentos da mentalidade cristã.

    O trecho citado acima é  da tradução de Millôr Fernandes. A de Aíla de Oliveira Gomes (utilizada na resenha passada) é ótima, poética, porém um tanto “dura”. Millôr consegue um milagre de maleabilidade e precisão, sem sacrificar os efeitos do texto na maior parte das vezes, apesar de parecer não ter dado muito atenção à tensão estabelecida no uso alternado da prosa e do verso pelos personagens. É uma versão para os palcos e, sem desmerecer nenhuma das outras cinco lidas pelo responsável por esta coluna (embora pairem algumas dúvidas sobre a de Pietro Nassetti, pela Martin Claret), fará muito bem quem entrar em contato com ela primeiramente.

    Pois bem, Edgar é o personagem mais visivelmente cristão de Rei Lear, e não é a toa que ele “herda” o reino no final (como um dos poucos sobreviventes da trama), contrastado com Lear, cuja autoridade se associa de forma pagã à própria natureza mesmo quando despojado do seu poder (na cena da tempestade parece que é ele quem a está convocando).

    Perseguido  e privado de sua herança e de seus direitos de homem nobre pelo pai (Gloucester), o qual se deixou enganar pelas intrigas do filho bastardo (Edmund), Edgar só começa a crescer como personagem quando resolve assumir a mais humilde e humilhada condição: disfarça-se como o Pobre Tom, o mendigo louco com quem um escorraçado (pelas filhas em favor das quais antecipou sua herança e partilha do reino) Lear compartilhará a noite da tempestade, percebendo todos os erros da Pompa  e da Vaidade e dando início à sua insânia curativa: “O homem é apenas isto ? Observem-no bem. Não deve a seda ao verme, a pele ao animal, a lã à ovelha, nem seu odor ao almiscareiro. Ah! Aqui estamos nós, tão adulterados. Tu não, tu és a própria coisa. O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal, como tu, nu e bifurcado.”   Portanto, Tom vem como um emissário dos miseráveis e só emergirá como vencedor e triunfador (de forma muito relativa, devido à desoladora seqüência de mortes do quinto ato), resgatando sua condição, usurpada pelo meio-irmão, só depois de um exercício de despojamento e desnudamento, que também será de fortalecimento.

    Talvez nada mais nessa peça inexcedível seja tão emocionante quanto a dedicação com que ele guiará seu pai (a quem arrancaram os olhos), sem se dar a conhecer, sempre bancando o mendigo e o louco. Shakespeare  descarta qualquer pieguice ao fazer com que a cena de reconciliação entre ambos seja narrada e não presenciada pelo leitor/espectador.

    Também um traço cristão, e bastante incômodo, é a condenação da sexualidade que se põe na boca tanto de Edgar quanto do Bobo e de Lear, e que está no âmago da própria trama da peça (cujo início é a discussão, entre Gloucester e Kent, da bastardia de Edmund), já que tudo acontece em razão do adultério e o vilão se proclama “filho da natureza”. Lear diz que suas mãos “cheiram a mortalidade” porque na parte de baixo do ser humano “é tudo uso do demônio. Ali está o inferno, a treva, o poço sulfuroso- queimando, ardendo, fedendo, consumindo. Que asco! Asco!”

Rei Lear, de William Shakespeare (1564-1616). Tradução de Millôr Fernandes. Coleção Pocket. L&PM.  140 págs. A mesma versão pode ser encontrada em Teatro Completo de Millôr Fernandes (!!??)- vol.II, junto com A Megera Domada. L&PM. 185 págs.

 

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Seria impossível finalizar o comentário sobre  Rei Lear sem aproveitar para, tardiamente, é verdade, fazer justiça ao esforço de anos (e ainda um “work in progress”) da nossa mais famosa crítica teatral, Barbara Heliodora, de apresentar versões íntegras, precisas e modernas de todas as obras de Shakespeare, seguindo os passos de Carlos Alberto Nunes e da dupla Oscar Mendes/Cunha Medeiros.

     Na verdade, sua tradução de Rei Lear não chega a ser tão primorosa como a de Aíla de Oliveira Gomes  nem tão brilhante e dinâmica quanto a de Millôr Fernandes, mesmo assim é eficaz e útil.

    Aliás, Barbara Heliodora tem sido sempre útil ao leitor brasileiro do autor de Hamlet, e não apenas por seu trabalho como tradutora. No livro Falando de Shakespeare encontramos um indispensável ensaio sobre Rei Lear, no qual vemos como o título da peça expressa um ponto fundamental, já que a abdicação de Lear, nos moldes em que é feita (abdica mas continua rei), é inadmissível cosmologicamente: “antes dos tempos modernos da monarquia constitucional, o rei reinava e governava, e ninguém poderia reter o título sem desempenhar plenamente as funções a ele ligadas. Em Rei Lear, após a abdicação, no vácuo deixado pelo rei, uma constelação de forças passa a ter brilho muito maior do que poderia acontecer se o monarca cumprisse adequadamente sua função de sol: ele deveria ser não só o astro mais brilhante do sistema, mas também a fonte da força de gravitação que o mantém em funcionamento harmônico (…) mesmo que o mal não esteja nele, ele é responsável pela tragédia, na medida em que, abdicando, deixa, como rei, de represar e manter sob controle o mal que, privado da ordem natural do Estado, aflora, explode, expande-se”.

    Daí a atmosfera de “mundo virado pelo avesso” (que assume proporções bem mais catastróficas do que imaginava Gloucester ao dizer para Edmund: “Embora conhecimento da natureza possa dar estas ou aquelas causas racionais, mesmo assim a natureza se vê açoitada pelas conseqüências: o amo esfria, os amigos brigam, os irmãos se separam. Nas cidades, motins; nos países, discórdias; nos palácios, traições; e quebradas as ligações entre o filho e o pai. Esse meu vilão se enquadra nessas previsões: é um filho contra o pai; o Rei se afasta do caminho da natureza: é um pai contra filha. Já vivemos o melhor de nosso tempo. Maquinações, fraqueza interior, traição, toda espécie de desordens nos levam inquietos para a cova”) e a sensação, conforme avança a ação e todas as personagens convergem para o campo de batalha, de que chegamos aos confins do universo, em Rei Lear. Kurosawa captou isso com a imagem final fortíssima e eloqüente do cego à beira do precipício, em Ran, sua adaptação da peça.

    E a grande ironia da peça é que a pergunta de Lear às filhas , logo no início, “Qual das três vai dizer que mais nos ama”, que causa a ruptura entre ele e Cordélia, será respondida amplamente por ela no final, quando numa dessas situações de inversão, o pai vira filho, o velho vira criança o que dá ensejo a um trecho lindo e patético quanto este (ambos foram capturados por Edmund): “Não, não, não, não; vamos para a prisão / Pra cantar, como aves em gaiolas; / Quando pedires bênção, me ajoelho / E peço o teu perdão; vamos viver / Orar, cantar, contar histórias, rir  / Das borboletas douradas, e ouvir / Novas da Corte; e saber dos tolos / Quem perde ou ganha, quem ‘stá dentro ou fora ; / E observar o mistério das coisas / Quais espias de Deus; sobrevivendo / Na prisão a partidos e importâncias / Que variam com a lua.” 

 Rei Lear. Tradução de Barbara Heliodora. Lacerda Editores. 190 págs.

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GÓGOL & POE- 200 ANOS EM 2009

gogol-surreal
                     O GRANDE PRECURSOR

O dia 19 deste mês marcou os 200 anos do nascimento de Nikolai Gógol, o menos conhecido dos gênios da literatura russa do século XIX. Num certo sentido (o que o torna tão fundamental quanto Edgar Allan Poe, também bicentenário neste 2009), porém, ele é o que se apresenta mais atual para nós, com sua linguagem límpida e seus textos “velozes”, a maioria deles de feitio curto, e que antecipam alguns dos escritores mais significativos da modernidade, como Kafka e Pirandello.

 

Ucraniano, Gógol foi para São Petersburgo em 1828, tornando-se o primeiro grande cronista dessa cidade-ícone do imaginário literário. Aliás, ela é uma personagem tão importante quanto as pessoas em obras-primas como O Capote e O Nariz, certamente dois dos textos mais divertidos de todos os tempos, e que para o leitor brasileiro parecem antecipar um tom, uma atmosfera, um modo de ver a vida, que encontramos em boa medida na obra de Machado de Assis e, em larga medida, na de Lima Barreto.
Antes de morrer prematuramente (como Poe) aos 43 anos, Gógol escreveu uma maravilhosa farsa teatral que ainda não envelheceu (O Inspetor Geral) e que podia ser anualmente encenada para nossos políticos e funcionários públicos; a pequena narrativa épica, muito bonita, Taras Bulba e o romance extraordinário e inacabado (o que não tira o prazer da leitura), Almas Mortas, magistralmente traduzido por Tatiana Belinky (editora Perspectiva) e eivado de ironia e crítica ferina das instituições (“almas”, na Rússia czarista, eram os mujiques, servos em condição de escravatura). No entanto, a fama mundial de Gógol se deve mesmo a novelas como Diário de um louco, O Nariz (estas duas publicadas juntas pela L± O Nariz foi traduzido e estudado por Arlete Cavalieri em O Nariz & A Vingança- A magia das máscaras, pela Edusp), e sobretudo a mais antológicas das histórias gogolianas, O Capote, na qual o insignificante e ridicularizado funcionário público (protótipo do “homo burocraticus” que aparecerá em Lima Barreto & Kafka),Akaki Akakiévitch Bachmatchkin se arruína para adquirir um belo e vistoso capote de inverno, que lhe dá pela primeira vez a sensação de ser uma pessoa…até que lhe é roubado. Percorrendo inutilmente as instâncias policias e hierárquicas para reavê-lo, ele é humilhado e esmagado de tal forma que cai doente, morre… e São Petersburgo ganha uma aparição fantasmagórica que agride transeuntes e passageiros de carruagens, para lhes tomar os casacos. Veja-se o estilo mortífero com que o texto é escrito: “Quem poderia ter acreditado que levaria no além-túmulo uma existência movimentada, capaz de conhecer aventuras ruidosas, sem dúvida para compensar o pouco brilho de sua vida terrena?”. Isso após narrar de forma sumamente cruel a morte do seu herói: “Graças à generosa colaboração do clima de Petersburgo, a doença evoluiu muito mais rapidamente do que se poderia esperar… O morto foi levado, colocado na sepultura e Petersburgo ficou sem Akaki Akakiévitch”.
Existem alguns momentos de perfeição literária e, com certeza, O Capote é um deles.

 

 

 

 O AMERICANO NADA TRANQUILO

Por muitos motivos, Edgar Allan Poe (que nasceu em 19 de janeiro de 1809) é o mais importante escritor dos últimos 200 anos. Certos críticos (como Harold Bloom) se queixam da sua “prosa atroz” e lendo seguidamente sua enorme produção de contos constatamos diversos problemas que vão do pedantismo das referências até a repetição de soluções e a reiteração irritante dos mesmos motivos e do mesmo vocabulário, sem falar na monotonia da primeira pessoa que praticamente tem a mesma “voz” em quase todos os relatos. O fato é que isso não importa: tal como Shakespeare, Poe é um fenômeno, o impacto cognitivo e imaginativo das suas obras supera a simples leitura e o fato literário e se estende por toda a cultura, nos mais diversos estratos. Esgotada a influência realista de um Balzac e de um Flaubert (pelo menos, no que diz respeito aos aspectos “óbvios” das obras desses autores), que mesmerizou por décadas a ficção ocidental, hoje vemos o alcance dos contos fantásticos do norte-americano: ele é perceptível na obra sofisticada de um Borges tanto quanto no gosto de um adolescente aficcionado pelo gênero terror e que é discípulo de Poe mesmo que não saiba. Ironia à parte, é que ele sempre teve consciência disso, embora tivesse sido desprezado na sua curta e tribulada vida (morreu aos 40 anos). Escrevendo visionariamente as obras que determinariam muito do nosso horizonte ficcional, aos 20 e 30 anos, ele não tinha tempo de burilar muito sua prosa mesmo (não que ela deixe de ter seus momentos da mais alta inspiração), bastava criar o seu legado inimitável, o efeito, atendo-se quase sempre (com exceções notáveis) a poucas páginas, de modo a criar um máximo de expectativa e não desgastá-la com um desenvolvimento excessivo.

Raciocinador sempre, malgrado o universo passional e tétrico que descortinou em sua ficção, não é à toa que ele praticamente criou (com Auguste Dupin) a figura do detetive que seu sucessor Conan Doyle iria cristalizar em Sherlock Holmes. E menos à toa ainda é ele ter criado uma fabulosa teoria poética para seu belíssimo poema “O Corvo”, que até hoje é discutida ardentemente. Se não bastassem sua ficção e sua poesia, os ensaios filosóficos e os textos humorísticos de Poe mostrariam sua genialidade. Aliás, um conto filosófico de Poe deveria ser incluído entre os documentos que esclarecem ao ser humano o que ele é, mais do que ele pensa que é: falo do quase inacreditavelmente freudiano O Demônio da Perversidade:

 

…sob sua influência nós agimos pelo motivo de não devermos agir. Em teoria, nenhuma razão pode ser mais

Ficção Completa

Ficção Completa

desarrazoada, mas, de fato, nenhuma há mais forte. Para muitos espíritos, sob determinadas condições, torna-se absolutamente irresistível… esta acabrunhante tendência de praticar o mal pelo mal. É um impulso radical, primitivo, elementar (…) Estamos à borda dum precipício. Perscrutamos o abismo e nos vêm a náusea e a vertigem. Nosso primeiro impulso é fugir ao perigo. Inexplicavelmente, porém, ficamos… uma forma se torna palpável, bem mais terrível que qualquer Gênio ou qualquer Demônio das fábulas. Contudo, não é senão um pensamento, embora terrível, e um pensamento que nos gela até a medula dos ossos com a feroz volúpia do seu horror. É, simplesmente, a idéia do que seriam nossas sensações durante o mergulho precipitado duma queda de tal altura… E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do precipício, por isso mesmo mais impetuosamente nos aproximamos dela. Não há na natureza paixão mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo à beira dum precipício, pensa dessa forma em nele se lançar.

 

Infelizmente, embora haja uma “Ficção Completa” de Poe (pela Nova Aguilar), não temos uma edição satisfatória no Brasil dos seus Contos do Grotesco e do Arabesco, que universalmente ficaram conhecidos, graças a Baudelaire, como Histórias Extraordinárias. Há um recente lançamento da Companhia de Bolso com esse título, utilizando uma insuspeita tradução de José Paulo Paes, mas se trata apenas de uma seleção de 18 textos, muito bem escolhidos, só que longe de ser completa ou mesmo ampla. Pelo menos ali figuram os contos obrigatórios, a quintessência de Poe . São eles, por ordem de preferência pessoal, o extraordinário William Wilson, certamente a sua obra-prima, paradigma no tratamento do duplo; Berenice, cuja situação da amada sepultada ainda viva (além disso, há a horripilante fixação do protagonista nos “dentes” dela) Poe iria variar à exaustão, porém é certamente o melhor tratamento que ele deu a ela; O Gato Preto (que faz parelha com O Coração Delator, também presente na coletânea, pois ambos, o coração e o gato emparedado, denunciam o criminoso no momento em que ele ia se safar); O Homem da Multidão, do qual só se pode dizer, singelamente, que inventou o ser humano que ainda está andando pelas ruas nos dias de hoje; A Carta Roubada, o melhor dos contos de mistério policial escritos por Poe, muito superior a Os Crimes da Rua Morgue e Mistério de Maria Roget (entretanto, como não ler estas duas histórias canônicas, quase míticas?; mas atenção, elas não foram incluídas por José Paulo Paes); o maravilhoso O Caixão Quadrangular, que mistura relato de viagem aventuresca (onde os passageiros se tornam até náufragos) com um misterioso artefato a bordo, e que é uma das raras narrativas absolutamente perfeitas de Poe, do início ao fim; O Poço e o Pêndulo, cujas modulações narrativas encontramos até em Borges, e que quando garoto era o conto que mais me impressionava e dava medo (e relido agora não perdeu nada da sua força de pesadelo); A Máscara da Morte Rubra , onde a Peste aparece como “penetra” num castelo onde o Duque e mil convidados se mantinham isolados e protegidos (a descrição do cenário, dos sete salões, é uma das coisas que me autorizam a fazer a afirmação que abre este artigo); e, por fim, dentre os escolhidos, O Barril de Amontillado, a mais canônica das histórias curtas de vingança (outro com uma atmosfera cênica, a da adega labiríntica, alucinante). Com relação ao tema da vingança, pena que Paes não incluiu outra variação excelente, Hop-Frog, história de um bobo da corte que se vinga do seu cruel senhor de uma forma terrível, assim como não incluiu o debochado Rei Peste I , no qual, numa área interditada porque empestada de Londres, dois marinheiros encontram uma estranha Corte.

No entanto, só me reservo o direito de lamentar, de fato, a não inclusão de um conto que para mim figura entre as grandes realizações imaginativas da literatura: Os Fatos do Caso de Mr. Valdemar (e que acho superior aos famosos, e cheios de detalhes impressionantes, mas muito não tão perfeitos, A Queda da Casa de Usher e O Escaravelho de Ouro), o outro conto de Poe que mais me aterrorizou na época das leituras de adolescência (ainda que meu preferido, desde então, fosse William Wilson), junto com O Poço e o Pêndulo. Como esquecer a história do moribundo que é mantido vivo à força pelo transe do “magnetismo”, e, quando libertado dessa influência (após sete meses)

 

… todo seu corpo de pronto, no espaço de um único minuto, ou mesmo menos, contraiu-se… desintegrou-se,

Histórias Extraordinárias

Histórias Extraordinárias

absolutamente podre, sob minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela gente, jazia uma quase líquida massa de nojenta e detestável putrescência.

 

Eis o resultado de uma ciência que pretende dominar o que está além do seu alcance, a ciência que faz emergir os Hyde dos doutores Jekyll. A ciência que não respeita os limites, sujeitando tudo e todos à idéia de um hipotético “avanço”. Como se vê, a morte foi detida. O resultado: um cadáver vivo. Apesar das suas grandes descobertas, invenções e tecnologias, eis uma boa descrição da ciência enquanto substituto da religião.

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