MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/05/2012

O deserto e os espelhos: “Gringo Velho”, de Carlos Fuentes

(resenha publicada originalmente na revista cultural GAMBIARRA, número 2, novembro de 1988, editada na Universidade Federal de Viçosa-MG)

A editora Rocco vem se destacando nos últimos anos pelo lançamento de vários romances interessantes, entre eles GRINGO VELHO  [Gringo Viejo (The Old Gringo), em tradução de  Tizziana Giorgini], do mexicano Carlos Fuentes (conhecido no Brasil sobretudo por A morte de Artemio Cruz, de 1962), que é dedicado ao admirável escritor norte-americano Willliam Styron.

GRINGO VELHO entrelaça a história de uma figura real, o jornalista Ambrose Bierce (cujo nome só é mencionado no final) com a da Revolução Mexicana, em 1913. Bierce, aos 70 anos, desaparece na fronteir entre os dois países. O que Fuentes faz é imaginar o depois, fazendo com que Bierce, a partir daí o “Gringo velho” venha trazer mais ambiguidade à convulsão revolucionária, principalmente para outros dois grandes personagens: o general Tomás Arroyo e a professora protestante Harriet Winslow.

Embora a Revolução tenha um peso muito real dentro do livro, ele se reveste de um caráter muito mais lúdico, principalmente porque o deserto e os espelhos estabelecem o “clima” e a linguagem da narrativa. O romance transcorre basicamente no deserto e a palavra fronteira é sempre utilizada para evidenciar que os personagens ultrapassaram certos limites, seus marcos de referência, e estão naquela região psicológica, ou mítica, como se queira, onde tudo se confunde e onde todos os atos poderão ser definitivos e, ao mesmo tempo banais.  No deserto, Arroyo, filho bastardo (como o era Artemio Cruz), destrói a fazenda do seu pai latifundiário, deixando em pé apenas um salão de espelhos, para que seus homens, espoliados a vida inteira, possam ver, pela primeira vez, seus corpos.

O espelho normalmente nos fornece uma dimensão de individualidade: eu existo. Mas muitos espelhos podem fazer essa ilusão cair por terra, com um fenômeno similar ao do deserto, de apagar as diferenças individuais, as fronteiras entre Um e Outro, céu e terra. Nesse livro, cada consciência tem passagem livre para as outras,como a narrativa corporifica diante do leitor extasiado com as possibilidades que ela aponta (e nem sempre cumpre, apresentando aspectos discutíveis), com essa passagem de uma voz para a outra (sim, é uma narrativa de vozes),da narrativa impessoal para a primeira pessoa, do presente para o passado (lembrando Vargas Llosa, que, é preciso dizer, usa o recurso de forma superior).

Mas é graças aos personagens que GRINGO VELHO é um dos romances interessantes de que se falava no princípio: como Arroyo, chamado “filho do silêncio” porque foi obrigado a viver no silêncio a vida toda, já que na fazenda os criados eram açoitados se fizessem barulho ao “fazer amor”, por exemplo; sua amante, a Lua (um dos pontos altos do romance é a sua história); e mais que todos, Harriet, que fica com o legado mais doloroso, após a experiência da Revolução, do deserto e do salão de espelhos: a memória individual. Ela é quem se senta e recorda (o refrão, o fio condutor da narrativa) e confronta sua consciência às dos Outros,num eterno desfiar  de fato e imaginação, de expectativas e resultados irrevogáveis.

E é assim que ela é vista, ao atravessar novamente a fronteira dos Estados Unidos (e também esta “presença”no México deixa sua marca no livro, impossível de rastrear no âmbito de um pequeno artigo): “Não a ouviram gritar quando a ponte ardeu em chamas:  Estive aqui. Essa terra jamais me deixará.  Eles lhe deram as costas e viram-na para sempre entrando num salão de baile cheio de espelhos,  sem mirar a si própria porque na verdade adentrava num sonho.”

nota de 2012- Esta foi uma das minhas primeiras resenhas publicadas. Não obstante seus defeitos gritantes, constato que nem mesmo nessa época me deixei levar por jargões acadêmicos. Lembro de um amigo que me dizia ser péssimo terminar textos críticos com citações  porque quem estava escrevendo parecia que perdia a força. Eu, de minha parte, sempre achei que o texto deveria ter a última palavra.

Um ano depois, vi a versão cinematográfica de Luiz Puezo, que “academizou” por demais a história, mas não é um mau filme, só lhe falta personalidade. Como em tantos outros casos, afora a bela produção, o elenco é que vale o filme: Jimmy Smits está ótimo no papel de Arroyos (aliás, qualquer dúvida sobre a sua competência como ator seria dissipada pela sua atuação na terceira temporada de DEXTER), Gregory Peck deita e rola nas excelências da sua dignidade de veterano, na autoridade inatacável que parece associada à sua figura. Mas o ponto luminoso do filme é mesmo a grande Jane Fonda, arrasadora como Harriet Winslow. Numa década que deixou meio a desejar na sua carreira, com algumas exceções, eu não entendi até hoje como ela não foi indicada e recebeu o seu terceiro Oscar por essa atuação.

E aqui cometo o mesmo erro de sempre, terminando com uma citação:

“A mulher que ele chamava A Lua disse que era estranho ouvir um sino e não saber a origem de seu toque. Foi assim que ela soube que a Revolução chegara a seu vilarejo de Durango: os sinos começaram a repicar numa hora em que ninguém podia identificar com vésperas ou matinas ou qualquer outra coisa: era como um novo tempo, disse, um tempo que não sabíamos imaginar e então ela pensou na regularidade de nosso tempo, geração após geração aferrada às estações tradicionais, às horas consabifas, inclusive os minutos tradicionais: ela foi criada dessa forma, decente, não rica em demasia mas decente, isso sim, seu pai era comerciante de grãos, seu marido um prestamista no mesmo vilarejo onde todos, crianças ou mulheres, levantavam às cinco, para se vestirem quando ainda estava escuro (isso era muito importante, nunca ver o próprio corpo) para em seguida apresentar-se  na igreja às seis e voltar para casa com fome, mesmo quando tinham comido o corpo de Cristo (…) e a senhorita me dirá que não era uma vida ruim; mas quando a vida do homem é selada à vida da menina noiva, aí então miss Harriet, essa vida se torna sombria, repetitiva, como acontece com as coisas quando estancam e já não mais florescem a partir do que eram antes de que o homem, o pai, o marido, estivesse presente para garantir que a pessoa continuaria sendo a noiva menina e que o casamento era uma cerimônia de medo…”

06/05/2012

Deu a louca em Federico?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 1999)

Ao longo dos anos, Federico García Lorca (1898-1936) parece estar inscrito na literatura deste século mais por causa do seu final trágico, ligado às monstruosidades de uma ditadura (como se sabe, ele foi assassinado pelo regime franquista) do que pela sua obra, que apresenta momentos importantes tanto na poesia (é o caso de Poeta em Nova Iorque) quanto no teatro (é o caso de Bodas de sangue, Yerma & A casa de Bernarda Alba).

Não será, entretanto, com Sonetos de Amor Obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, em tradução de Afonso Félix de Souza para a Bertrand Brasil) que o poeta espanhol poderá pleitear a posteridade. Esses sonetos só foram publicados em 1984 pela família de Lorca, e a eles se reuniu outro grupo de poemas inéditos, Divã do Tamarit (Divan del Tamarit). Mais uma vez temos escritos póstumos que não apenas em nada contribuem para a obra de um autor como a atravancam e desfiguram.

A “novidade” dos Sonetos consistiria no fato de que, neles, Lorca assume completamente sua homossexualidade. Mas coitado do amado que recebeu esse presente. Quando não são insípidos, os 11 poemas são francamente horrorosos. É a cafonice dançando flamenco desavergonhadamente com as castanholas do mau gosto. Que, aliás, já começa pelo prefácio do tradutor, o qual tem o desplante de citar a ridícula reação de outro importante poeta da Espanha, o nobelizado Vicente Aleixandre, ao ler o conjunto: “Surpreendido, pude apenas ficar olhando-o e exclamar: Federico, que coração! Quanto teve de amar, quanto teve de sofrer”!!!!!?????

Realmente, quanto teve de amar e sofrer Federico para nos impingir coisas como Soneto da Grinalda de Rosas (“Soneto de la Guirnalda de Rosas”), que tem imagens do tipo “Sangue em coxa de mel bebe em seguida” (“Bebe en muslo de miel sangre vertida”) e termina com três versos horríveis: “Agora unidos,  enlaçados/ boca rota de amor e alma mordida/o tempo nos encontre destroçados” (“Que unidos, enlazados/boca rota de amor y alma mordida/el tiempo nos encuentre destrozados”). Boca rota de amor, bancarrota de bom senso poético de Lorca. Quase dá vontade de dar uma de José Simão e me valer de seus trocadilhos: Federico García, a Louca.

No Soneto da Doce Queixa (“Tengo miedo a perder la maravilla”), às imagens de um sentimentalismo constrangedor (“solitária flor de teu alento”, “íntimo verme de meu sofrimento”; no original, “la solitaria rosa de tu aliento”, “el gusano de mi sufrimiento”), soma-se a disposição masoquista e subserviente do homossexual-padrão diante do objeto amado (“sou o cão o teu solar guardando”, “soy el perro de tu señorio”), que vai se repetir, páginas adiante, no Soneto da Carta (“El poeta pide a su amor que le escriba”): “Por ti rasguei as veias às dezenas” (“Pero yo te sufri. Rasgué mis venas”);e mais adiante ainda, em Noite de amor insone (“Noche del amor insomne”): “eu me pus a chorar e tu, tu rias/teu desdém era um deus; minhas sombrias/ queixas, pombas” (“yo me puse a llorar y tú reias/tu desdén era un dios, las quejas mias/ momentos y palomas em cadena”)!!!!!!???? É coração demais, Federico, e vergonha de menos.

Viramos as páginas e encontramos um título horrendo: Chagas de Amor (“Llagas de amor”)—que coração, Federico! Quanto sofreu, quanto amou! Ali as chagas se sucedem em imagens paupérrimas: “este pranto de sangue que decora lira já sem vigor”, “esta lacraia que em meu peito mora” (“este llanto de sangre que decora lira sin pulso ya”,”este alacrán que por mi pecho mora”), embora voltem as grinaldas, um leitmotiv dessas Chagas de Amor Obscuro.

E quem será o culpado do “crime contra minhas flores” (o leitor permitirá a quem aqui escreve uma grinalda de exclamações: !!!!!!!!)—no original, “el asesinato de mis flores”—em O poeta diz a verdade, “El poeta dice la verdad” (é muito melhor quando o poeta é um fingidor, Federico deveria saber); depois de falar a verdade, O poeta fala por telefone com seu amor” (“El poeta habla por telefono con el Amor”), onde duas imagens competem em ruindade: “flor de feto” (“flor de helecho”) e “obscura corça malferida” (“oscura corza herida”), enquanto o poeta ouve a “distante e doce voz amortecida” (“lejana y dulce voz amortecida”) do amado.

E assim vamos: “Lá beijaram teus dedos os espinhos/ que coroam de amor pedra remota”, “Han besado tus dedos los espinos/que coronan de amor piedra remota” (O poeta pergunta a seu amor pela cidade encantada de Cuenca, “El poeta pregunta a su amor por la ciudad encantada de Cuenca”—um nome de cidade que quase mereceria uma paródia, utilizando aquele item do vestuário masculino, que teia tudo a ver no contexto dos sonetos), “ai, balidos sem lãs! Ai, ai, ferida!/ Ai, voz secreta. Ai, voz do amor obscuro” (“Ay balido sin lanas! ay herida!/Ay voz secreta del amor oscuro”)—será que deu a louca em Lorca?: “continua a dormir, tu, minha vida/ ouve meu sangue roto em notas finas”, “pero sigue durmiendo, vida mia/ oye mi sangre rota en los violinos” (O amor dorme no peito do peito do poeta, “El amor duerme en el pecho del poeta”).

Mas a taça do volume, a pérola do contrassenso, encontra-se em Soneto gongórico em que o Poeta manda uma pomba a seu Amor (“Soneto gongorino en que el Poeta manda a su Amor una paloma”). Veja-se a primeira quadra: “O pombinho de Túria que te mando/ de olhos doces e de branca pluma/sobre loureiro grego verte a suma/ do amor em chama lenta me queimando” (“Este pichón del Turia que te mando/ de dulces ojos y de blanca pluma/ sobre laurel de Grecia vierte y suma/ llama lenta de amor do estoy parando”. Ai, esse coração, Federico! Pombas! Não satisfeito, ele ainda nos brinda com “nevada melodia/ em flocos vai cobrir-te a formosura”, “nevada melodia/ esparce en copos sobre tu hermosura” (é que ele aconselha o amado a passar a mão bem de leve na pomba que ele mandou, não é lindo?). E o soneto termina desta forma: “Assim meu coração, sem ver-te, dia/ e noite na prisão do amor, escura/ fica a chorar sua melancolia” (“Así mi corazón de noche y día/ preso en la cárcel del amor oscura/ llora sin verte su melancolía”).

Esse choro de melancolia, dia e noite, na prisão do amor, deveria ter ficado guardado a sete chaves. Essa queda da Bastilha onde mofavam as bobagens do amor que não ousa dizer o nome escritas por Lorca é mais uma prova de que os escritores deveriam cultivar o saudável hábito do fogo e do cesto de lixo.

O leitor deve estar se perguntando: e o Divã do Tamarit?  Confesso que, depois de ler, nos primeiros poemas, versos como “ninguém sabia que martirizavas/ um colibri de amor entre teus dentes” (“nadie sabia que martirizavas/ un colibri de amor entre los dientes”) ou “mas eu irei/ entregando aos sapos o mordido cravo” (“pero yo ire/ entregando a los sapos mi mordido clavel”), desisti de prosseguir. Mas se alguém tiver muita, muita curiosidade de saber o que é “Tamarit”, isso eu posso contar: é uma chácara de propriedade da família de Lorca. Foi ali que ele escreveu tais versos tão essenciais à humanidade.

08/04/2012

Jesus Cristo e o entrechocar de espadas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de março de 1995)

Um leitor mais injuriado poderia acusar o selo “Nova Era” da Record de propaganda enganosa. Na capa traseira de A prova do labirinto (La prueba del laberinto,  Espanha- 1992, em tradução de Luísa Ibañez), de Fernando Sánchez Dragó, afirma-se que ele “conta a história de um detetive de 53 anos, obrigado pelos deuses, pela Confederação de Forças do Além e pelas circunstâncias a partir em busca de Jesus de Nazaré, pregador  judeu que desapareceu misteriosamente no 33º. Ano de nossa Era”. Ainda, segundo a editora, “há mistério, viagens, tensão, incerteza, emboscadas, pessoas boas e más, mulheres bonitas e mulheres piedosas, traidores, exotismo, ocultismo, tiranos, lutas políticas e religiosas, entrechocar de espadas (sic), conspirações, Reis Magos, leprosos, prostitutas, adúlteras, amor, dor, morte e até mesmo uma ressurreição”!!!!!!???????Ufa!

Parece muito para um livro só? E é, claro. Há algumas (poucas) obras que parecem conter a vida inteira: Guerra e Paz, de Tolstoi, é um exemplo, e mais ocntemporâneamente, tivemos A cidade de quatro portas ou Shikasta, de Doris Lessing. Mas o problema com A prova do labirinto é que se promete não apenas muito,  como também o que não está no livro. Tirou-se um trecho de seu contexto e falseou-se totalmente a expectativa do leitor com relação a uma narrativa decerto divertida, simpática. E também extremamente narcisista.

Dragó conta a história de Dionisio, escritor resolvido a não mais publicar e que, todavia, é pressionado por seu editor a se lançar numa pesquisa sobre a vida de Jesus. Por coincidência, esse era justamente o mais íntimo e genuíno projeto da vida de Dionisio, típico representante dos anos 1960 e que vê no retorno ao Cristo (desvinculado dos dogmas da igreja) a última opção, após passar por todas as experiências daquela década mágica e constatar que o mundo dos anos 1990 naufraga cada vez mais no materialismo, num proto-fascismo e no fundamentalismo fanático.

No que se refere aos anos 1960, o livro de Dragó chega a ser imperdível. Passa em revista os caminhos percorridos: drogas, xamanismo, Castañeda, liberação sexual, filosofias orientais, práticas meditativas, ioga; tanto que, para firmar sua decisão de ir a Jerusalém, consulta uma especialista em tarô (uma longa e interessante cena), o I-Ching, e, pasmem, os seus próprios livros, que ele se encarrega de citar, além de se referir amiúde a um grande amigo, o próprio Fernando Sánchez Dragó! Nem Woody Allen cavoucou tanto o próprio umbigo!

Já no que se refere a Jesus, as coisas são mais complicadas e, a partir da viagem, A prova do labirinto degringola, aborrece, enche lingüiça. E prova definitivamente que toda experiência mística é individual, intransferível por definição, isto é, a não ser em raríssimos casos, não dá para outrem afiançar sua veracidade, por mais simpatia que desperte. É por essa razão que 99% da literatura esotérica (e está se falando aqui da bem-intencionada) falha.

Dragó, pelo menos, tem uma sensibilidade literária um pouco mais apurada que a média (e é mais um autor que tem uma dívida com Borges, já a partir do título) e mostra que na literatura espanhola do gênero há vida mais inteligente do que a transmitida pela carreira, digamos, literária, de J.J. Benítez, o pretensioso e enfadonho autor de outra escavação da vida de Cristo, Operação Cavalo de Tróia, que (pelo menos o primeiro volume, parabéns para quem conseguiu ler os outros) é uma tortura de perda de tempo e chatice cujo único similar talvez seja uma sessão dupla e sem intervalos de Mary Poppins com My fair lady.

De todo modo, como reinvenção da figura de Cristo, o livro de Sánchez Dragó é pífio. Aparecem, contudo, algumas “emboscadas” e algumas “conspirações”, tal como prometido pela editora. Quanto ao “entrechocar de espadas”, só se ela estiver se referindo a uma passagem em que o narrador cinquentão risivelmente resolve liberar sua porção mulher que até então se resguardara numa experiência gay que eu não consigo sequer descrever, mas que é considerada por ele uma escala essencial no seu encontro com o “homem de Nazaré”. Ou, segundo as conclusões do relato, com “o homem do Egito”. Que seja. Pouco importa.

O Jesus do credo determinista

A resenha abaixo, publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 16 de janeiro de 1996, foi escrita quando até então eu nunca ouvira falar na editora Martin Claret; depois da sua nefanda carreira editorial posterior, eu gostaria de nunca ter ouvido falar dela, ainda que agora eles estejam executando alguns tímidos passos para recuperar a credibilidade que perderam com plágios de traduções, tradutores fantasmas e outros horrores.

Publicado em 1863, Vida de Jesus (“Vie de Jesus”), de Ernest Renan (1823-1892), um dos livros mais famosos e influentes do século XIX, ganhou uma bem escolhida capa na edição da Martin Claret, que foge totalmente do clichê, ao reproduzir detalhe de um quadro de Salvador Dali. Além disso, a elogiável edição traz textos adicionais de Renan e reproduções de quadros sobre a vida de Cristo ao longo do volume inteiro. A tradução de Eliana Maria de A. Martins me pareceu bem razoável, ressalvando-se um ou outro erro mais evidente.

No livro, Renan discorre muito sobre a mistura que o desenvolvimento da pregação de Jesus fez, da mensagem profunda e autêntica da qual ele era portador (e que faz dele representante do melhor que a humanidade pode ambicionar) com  as superstições e tolices populares, em que lenda e fato confundem-se.

O autor francês também não deixa de misturar uma tentativa escrupulosa e honrada de relatar objetivamente a vida de um grande homem, a partir de escassas fontes documentais, com análises que pagam pesado tributo à época cientificista na qual ele escrevia, quando preponderavam visões essencialmente deterministas (e que hoje, com seus matizes racistas, hoje seriam consideradas politicamente incorretas), psicologicamente tão frágeis e tolas quanto as crendices populares supersticiosas: “Nós compreendemos pouco, com nossas naturezas frias e escrupulosas, uma tal maneira de ser possuído pela ideia da qual ele se fez apóstolo. Para nós, raças profundamente sérias, convicção significa sinceridade consigo mesmo. Mas a sinceridade consigo mesmo  não tem muito sentido para os povos orientais, pouco habituados às delicadezas  do espírito crítico. Boa fé e impostura são palavras que, em nossa consciência rígida, se opõem, inconciliavelmente. No Oriente, de uma a outra existem mil saídas e desvios… A verdade material não é muito cara ao oriental. Ele vê tudo através de seus preconceitos, seus interesses, suas paixões”. Realmente, como a história prova, franceses e demais povos europeus são espécimes humanos isentos de preconceitos, interesses e paixões, e incapazes de misturar boa fé e impostura.

Aliás, como o mundo é mesmo misturado, como nos advertia Riobaldo, não perdoando nem mesmo a mais alta figura da humanidade, não se deve estranhar que uma iniciativa editorial tão louvável seja avacalhada com um lançamento em forma de kit (incluindo um CD completamente arbitrário, beirando o ridículo), que quase a torna um produto de supermercado, de bazar oriental, ou mais modernamente, um daqueles produtos do telefone 1406 anunciados via tevê.

E qual a importância, afinal, de Vida de Jesus a esta altura do campeonato? Por que não trocá-la pelas magistrais e ainda mais problematizadoras visões de Cristo, realizadas por Kazantzakis, Pasolini ou Saramago? A resposta é simples: porque 130 anos depois de sua publicação original, o livro de Renan é ainda precioso material informativo. E literário. Porque ele aproxima-se bastante (ah, a ironia do tempo), apesar de algumas diferenças metodológicas, da atual situação das pesquisas sobre o assunto. Porque ele, ao provar a existência histórica de Jesus  (na época, um feito original), faz –ao contrário dos que pensam que basta ter fé em Cristo, o que nesses tempos de Edir Macedo e congêneres é muito perigoso—com que seu papel em nossas vidas seja mais impressionante e bonito.

Pena que no livro haja um excesso de retórica, e não apenas por conta do estilo da época: Renan trabalha obviamente em cima do abismo de fatos insuficientes e tem de preenchê-lo muitas vezes com trechos que se revelam constrangedores, como aquele em que compara a elevada meditação de Jesus nas montanhas com a mediocridade das reações e pensamentos que podem ocorrer a um burguês ante a mesma paisagem. Ora, ora. Quando se é um Jesus evidentemente os pensamentos podem ser tudo, menos burgueses. É martelar o óbvio e empobrecer a obra.

Mesmo assim, como tudo é misturado mesmo, Vida de Jesus ainda é uma leitura impactante, nos seus melhores momentos.

28/03/2012

Perguntas que podiam ser caladas

   Palavra de poeta (Portugal) pertence a uma das categorias mais inúteis de lançamentos editoriais: os livros de entrevistas com escritores. Mesmo exceções significativas como De olhos abertos, as longas conversas que Mathieu Galey  manteve com Marguerite Yourcenar, transformaram-se em desilusão. Sabemos hoje da intenção puramente mercenária e oportunista do livro e que Galey detestava e zombava da autora de Memórias de Adriano. Pior ainda, o resto da vida da grande entrevistada revelou-se uma cruel contrafação do que ali era dito.

   Segundo a Civilização Brasileira, Denira Rozário “não apenas faz perguntas, mas tem empatia profunda com os poetas”. Lorota. Não se percebe tal empatia nas perguntas triviais e absolutamente externas às obras que conduzem as vinte e quatro enfadonhas entrevistas: “Como é o seu dia a dia?”; “O poeta precisa ser intelectual?”; “Considera-se feliz no amor?”; “ Por que começou a escrever poesia?”; “O que você está lendo?”; “Descreva a sua casa”, e a suprema tolice: “Fale alguma coisa sobre as palavras silêncio, solidão, poder, sucesso, liberdade, morte, prazer, medo, loucura, traição, eternidade e poesia”!!!!!!!!!!!!!!!????????????

    “Memórias somos”, o verso de Casimiro de Brito ajuda a iluminar a colaboração dos entrevistados na pesada banalidade do livro. Surpreendemos poetas velhos, cansados da vida e que parecem, como se diz, que morreram e esqueceram de enterrar. Ou poetas blasés que ficam o tempo todo jogando areia nas perguntas (mas também…).

   Há entrevistas com um quê de ridículo, como a de Natália Correia, uma Madame Mim da Nova Era, a julgar pelas fotos que compõem a aterrorizante galeria do volume (será que nenhum deles tinha um retratinho melhor?) e pelas suas impagáveis afirmações: “O poeta tem que se banhar na lunaridade da festa noturna” ou “não permito que nada me separe da escrita, porque o corpo e a palavra estão unidos” (ela escreve à mão, informação absolutamente essencial à nossa vida).

    Alguns entrevistados são simpáticos (Ana Hetherly, David Mourão-Ferreira, Nuno Júdice), mas as quase quatrocentas páginas só valem pela breve antologia. Bem poderia ser mais extensa, uma vez que poucos nomes são conhecidos pelo público brasileiro, caso de Mourão-Ferreira, de Sophia de Melo Brayner Andersen e do grande Eugênio de  Andrade.

   É bom ressaltar esse fato porque em meio a declarações apocalípticas (“O homem das cavernas trabalha agora com computador”; “A terra está a ficar inabitável”), vários deles registram sua dívida para com Carlos Drummond de Andrade. Além dele e do nosso maior poeta vivo, João Cabral de Melo Neto, os mais citados são sempre Manuel Bandeira, Murilo Mendes (redescoberto agora no Brasil) e Cecília Meireles.

   Da bacalhoada toda ficam alguns poemas, a razão de interessarmo-nos por esses cavalheiros e damas mais ou menos simpáticos: “Ergue-se aérea pedra a pedra/ a casa que só tenho no poema // A casa dorme, sonha no vento / a delícia súbita de ser mastro// Como estremece um torso delicado/assim a casa, assim o barco// Uma gaivota passa e outra e outra/ a casa não resiste: também voa// Ah, um dia a casa será bosque/ à sua sombra encontrarei a fonte/ onde um rumor de água é só silêncio”  (Eugênio de Andrade).

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de maio de 1994)

nota de 2012- Hoje eu não seria tão taxativo a respeito dos livros de entrevistas, mas ainda tenho um pé atrás.

10/06/2011

RESENHAS SOBRE MARGUERITE DURAS

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HAY QUE SER DURAS SEM PERDER LA TERNURA JAMÁS

a doença & o homem

      (1a. parte)

“Estão deitados no corredor como que adormecidos enquanto outra coisa se prepara no lento retorno do desejo. Em gestos quase imperceptíveis eles estão se reaproximando. As peles, os suores que se tocam, os rostos, sua boca, a dela, reencontrada por ele. Eles ficam assim, tocados, à espera. E depois ela diz que deseja apanhar, ela diz no rosto, ela lhe pede, vem. Ele faz, ele vai, senta-se perto dela e olha mais. Ela diz: pancada, forte, como há pouco o coração. Ela diz que queria morrer.

  Eis que o retângulo da porta aberta é ocupado pelo corpo sentado do homem que vai bater.”

    O trecho acima é de O homem sentado no corredor, que acaba de ser reeditado pela Cosac & Naify, junto com A doença da morte. Já havia uma tradução anterior (de Sieni Maria Plastino) pela Record (com O homem atlântico), na esteira do sucesso de O amante nos anos 80. Talvez fosse  interessante uma coletânea mais abrangente de alguns textos curtíssimos de Marguerite Duras, mas é provável que ela funcione melhor assim, cada texto (no máximo um outro fazendo companhia) com sua “aura”, representando a força e a fraqueza da grande escritora francesa que, nos dois títulos agora traduzidos por Vadim Nikitim, potencializou ao extremo as possibilidades da sua linguagem na aproximação do erotismo com a violência, uma recorrência na sua obra desde os diálogos do clássico Moderato Cantabile (1958).

    O próprio narrador comete uma violência, sendo voyeur da cena que  narra. Ele é uma presença quase física ao lado do casal, produto da intimidade, ou promiscuidade mesmo, permitida pela palavra (“Falo com ela e digo-lhe o que o homem faz. Digo-lhe também o que é feito dela. Que ela veja, é o que eu desejo”). Por isso, O homem sentado no corredor não é um instante fotografado verbalmente, uma imagem pictórica; não é momento fixado nem epifania. É uma irrupção da linguagem escrita entre o movimento dos corpos, o furor passional, o autismo e a necessidade de ato físicos violentos, sempre com o mar ao fundo, que caracterizam os casais durasianos.

    E é por isso que não se cai no mau gosto nem na poetização do sexual (também um tipo de mau gosto), isto é, na perfumaria erótica, nesse  vertiginoso relance (que, entretanto, nunca dá a impressão de ser rápido) de um homem que, sentado num corredor, observa sua mulher se desnudar diante dele, e então se levanta, ejacula sobre o corpo dela inteiro, voltando ao corredor, após pisoteá-la e revirá-la; ela vai ao seu encontro, ele com o membro para fora da calça, e aí a mulher praticamente o pisoteia e o revira interiormente, (“Vejo que ele a deixa fazer e olha de novo com ela. Que ele a olha fazer, que se presta a seu desejo tudo o que lhe é possível”). Para que, na incomunicabilidade e impossibilidade, a pancada seja uma outra forma de aproximação, outra língua do amor (que o meu leitor não se levante, protestando e vituperando este artigo, esse é o universo de Marguerite Duras e ela nunca fez concessões a qualquer atitude politicamente correta). E depois, a própria confissão de fracasso do narrador, tão íntimo, tão próximo, tão voyeurista, ele que diz obsessivamente (nesse texto que é um espraiar de obsessões) “vejo, vejo, vejo”:  “Vejo que o homem chora deitado sobre a mulher. Dela vejo apenas a imobilidade. Eu desconheço, não sei nada, não sei se ela dorme.”

(resenha publicada em “A Tribuna” em 27 de abril de 2007)

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(2a. parte)

    Na seção anterior, a propósito da edição conjunta de O homem sentado no corredor & A doença da morte, afirmei coluna que era difícil imaginar muitos textos de Marguerite Duras reunidos em um só volume, pois cada um tinha uma “aura” própria, e isso era prova de força e de fraqueza, pois Duras é a típica escritora carismática. agregando admiradores de uma forma que por vezes impede a análise objetiva dos seus livros (e ela escreveu tanto obras-primas quanto textos ruins).

    Uma “aura” também parece percorrer a Cosac & Naify. Decerto a edição é muito boa, mas não se precisa chegar ao delírio da resenhista de Carta Capital, a qual saúda a inclusão das indicações de Duras para a representação teatral de A doença da morte como uma preciosidade digna de ser colocada num relicário. Além de afirmar que são “melhores que o próprio texto” (!!!!????), mostra-se bem mal informada: elas já constavam da edição bilíngüe que a Taurus lançou  em 1984 (tradução de Jorge Bastos), antes que O amante fizesse sucesso no Brasil, quando a grande escritora francesa era escassamente editada por aqui (aliás, foi essa a primeira vez que o autor deste artigo leu Marguerite Duras). A Companhia das Letras e a Cosac & Naify têm atualmente um apelo tal que chegam a convencer jornalistas e críticos que marketing e realidade são a mesma coisa.

    A doença da morte utiliza a 2a pessoa para a narração, um exercício que demanda extrema perícia,  ainda mais depois de ser utilizado de maneira definitiva por Michel Butor no extraordinário e agora cinqüentenário A modificação (1957). Esse uso da 2a pessoa (“Você diz que você quer experimentar, tentar a coisa, tentar conhecer isso, se habituar com isso…”) compromete e alarma o próprio leitor: será que estou infectado com esse autismo com relação à vida, diagnosticado pela interlocutora do protagonista? Quem é ela? Uma mulher que é paga para passar algumas noites com ele. Como sempre, Duras não precisa de crimes, de brigas, de ação, para deixar implícita uma violência terrível, uma necessidade de aniquilamento, de derrogação. E a linguagem se aproxima, nos momentos mais intensos, do afã autofágico de um Samuel Beckett:

“Não há mais nada no quarto além de você só. O seu corpo desapareceu. A diferença entre ela e você se confirma pela ausência súbita… Ao longe, nas praias, gaivotas gritariam na escuridão agonizante, elas começariam já a se nutrir dos bichos da vasa, a revistar areias deixadas pela maré baixa. No escuro, o grito louco das gaivotas famintas, parece-lhe repentinamente nunca tê-lo ouvido.”

    Com essa ausência, Duras atingiu um ponto-limite na sua obra. Não por acaso ela retornou à sua história de vida e ao gosto (meio enviesado, é claro) de narrar, no livro seguinte (O amante). A alternativa, permeada pelo grito louco das gaivotas famintas, com esse mar de fundo que nunca desaparece dos seus textos,  seria o silêncio.

(resenha publicada em 5 de maio de 2007)

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Resenha publicada em 12 de março de 1996, com ligeiras alterações, em “A Tribuna”, a respeito da morte de Duras:

   A morte de Marguerite Duras no dia 3 deixa uma sensação de melancolia e vácuo. Parece que os escritores maiores estão desaparecendo e que seus lugares não serão ocupados. O que é um escritor maior? É aquele com uma visão de mundo e estilo tão pessoais que criam até um léxico próprio, contaminando a análise da sua obra.

    No caso de Duras, nascida em 1914 onde hoje é o Vietnã e então era a Conchichina, essa visão de mundo, estilo e léxico próprios explodiram em 1958 (embora ela tenha escrito muito antes, e até livros bonitos como O marinheiro de Gibraltar e  Os pequenos cavalos de Tarquínia, publicados  aqui pela editora Guanabara), com Moderato Cantabile (José Olympio). Ao longo do texto, Anne Desbaresdes, mulher que cumpre como autômato todas as obrigações domésticas, mantém com Chauvin uma relação que é vivida na corda bamba do verbal, no perigo das palavras, fazendo-os “viver”  a relação de outro casal, na qual explode a carga de violência que paira entre eles e ameaça o cotidiano alienante.

moderato cantabile

    Nessa mesma época, é dela a mais original das história de amor, as mais belas e seminais palavras já escritas para um filme: Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais, uma das quatro ou cinco maiores realizações cinematográficas, principalmente porque não se prende ao conflito amoroso, tão opaco, mas sim à continuidade desse amor, à sua memória, umas vezes perdida, outras recapturada, esquecimento que também assombra a memória coletiva da dor da guerra, umas vezes uma coisa tão premente, outras algo oco e inócuo em evitar os mesmos erros.

    O autismo passional dessas duas mulheres, Anne e a narradora do filme, prepara o terreno para a obra-prima de Duras, o extraordinário Le ravissement de Lol V. Stein (1964), O arrebatamento de Lol V. Stein, tão mal traduzido por aqui como O deslumbramento (Nova Fronteira). Esse arrebatamento, esse rapto de Lol do centro da sua própria vida, esse seu êxtase, é um momento, vivido num salão de baile, que torna todo o resto sem sentido, e faz com que ela cumpra o destino de um autômato à espreita daquela sensação de plenitude que a seqüestrou do ramerrão.

    Assim, após essa “louquinha” (como ela a chama em A vida material, lançado aqui pela Globo), a obra de Duras foi se realizando, difícil para o público, enveredando pelo teatro e pelo cinema, intrincada, e com livros do quilate de O vice-cônsul (Francisco Alves), de 1965, depois transformado num belíssimo filme pela própria autora (India Song) e nos quais reaparecia a mesma e fascinante Anne-Marie Stretter responsável pelo “ravissement” de Lol; ou A doença da morte (ed. Taurus), de 1983: “Ela diz que ela espera nunca saber nada do modo como você sabe, nada no mundo. Ela diz: Eu não queria nunca saber nada do modo como você sabe, com essa certeza saída da morte, essa monotonia irremediável, igual a si mesma em cada dia da sua vida, em cada noite, com essa função mortal da falta de amar.”

o vice consul

    Em 1984, veio o sucesso popular com O amante (Nova Fronteira). Esse livro é um daqueles raros milagres. Tanta simplicidade, ao mesmo tempo tanta coisa: a memória de um amor iniciático, um ajuste de contas com a família, uma constatação da velhice e da destruição pelo tempo, uma reescritura da própria obra e um reencontro com os fantasmas, a tentativa de fixar um momento de “ravissement”, momento fotográfico que engoliria todos os outros e apagaria o tempo.

lol v. steino deslumbramento

    Duras perdeu-se um pouco, escreveu demais, coisas ruins e repetitivas. Amiúde com lampejos de genialidade. A força da sua palavra sempre teve uma autoridade que a pobre literatura francesa desconhece. E é com o melhor dessa palavra, com um dos grandes momentos de Le ravissement de Lol V. Stein, que este artigo encerra sua despedida de um dos maiores escritores que já existiram: “Gosto de acreditar que se Lol está silenciosa na vida é porque acreditou, no espaço de um relâmpago, que essa palavra podia existir. Na falta da sua existência, ela se cala. Teria sido uma palavra-ausência, uma palavra buraco onde todas as outras palavras teriam sido enterradas. Não seria possível pronunciá-la, mas seria possível fazê-la ressoar. Imensa, sem fim, um gongo vazio, teria retido os que queriam partir, os teria convencido do impossível, os teria ensurdecido a qualquer outro vocábulo que não ele mesmo, de uma só vez os teria nomeado, o futuro e o instante. Faltando, essa palavra estraga todas as outras, contaminando-as…”

27/09/2010

FUMO E FASCISMO: quando sancionarão uma lei anti-borboletas da alma?

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21 de outubro de 2009

    A pequena obra-prima de Paul Auster O CONTO DE NATAL DE AUGIE WREN (ver minha resenha abaixo) foi relançada pela Companhia das Letras. Como segue a tradição, consagrada no universo anglo-saxão, dos contos de Natal, cujo maior expoente foi Charles Dickens, não deixa de ser uma  leitura importante: um mestre da “modernidade líquida”, da pós-modernidade, reavivando uma tradição da “modernidade sólida”, da Era Industrial.

10 de agosto de 2009

       Não sou fumante e no entanto considero autoritária, quase fascista, a lei anti-fumo (também, o que esperar de um José Serra?, um político que JAMAIS teria o meu voto nem para síndico). Meus amigos não poderão mais fumar em bares e restaurantes (e, na prática, em quase em todos os lugares),mas podemos aturar gente se esgoelando nos videokês da vida, gente que pára o carro e nos despeja a música do seu (mau) gosto em altos decibéis, e que,  curiosamente, nunca é a música que a humanidade sensata gostaria de ouvir, sem contar as onipresentes tevês em todos os lugares despejando Faustão ou qualquer outro horror enquanto jantamos ou jogamos conversa fora. Ninguém acha isso invasivo ou abusivo, e longe de mim querer censurar qualquer manifestação. Mas pensando na perseguição aos fumantes, lembrei de uma antiga resenha. 

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UM DETERMINADO CANTO DO MUNDO 

   O ponto alto das mais de 300 páginas que reúnem os roteiros Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in the face), lançamento da Best Seller na onda do sucesso que o filme Smoke vem fazendo há meses em São Paulo, é um texto de apenas 8 páginas escrito pelo autor do roteiro do filme, o romancista Paul Auster: O conto de natal de Auggie Wren.

    Nele, Auster narra como Auggie, gerente de tabacaria, fotografa a esquina onde trabalha todos os dias, exatamente à mesma hora. Ao ver as fotos, o narrador, após acostumar-se à estranheza de tal projeto de vida, percebe a atitude zen desse homem aparentemente comum (e presença fortuita em sua vida), que lhe dará de presente um conto de natal, daqueles que Dickens consagrou (não convém contá-lo aqui): “Percebi que Auggie fotografava  o tempo, o tempo natural, assim como o humano, e o fazia plantando-se numa pequena esquina no mundo e desejando que fosse sua, montando guarda no espaço que escolhera para si mesmo”. No filme, a palavra é do próprio Auggie (uma maravilhosa interpretação de Harvey Keitel, em belo duo com William Hurt): “É a minha esquina afinal. É apenas uma pequena parte do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho”. Infelizmente, o roteiro e o filme estão longe de ter o encanto diáfano do conto, a síntese densa que esse texto tão simples faz dos encontros na cidade grande, das doações insólitas e dos pequenos logros que aproximam estranhos. Sente-se, no filme, que faltou diretor para o material, que o redimensionasse cinematograficamente, aproveitando as infinitas possibilidades poéticas do texto durante as duas (longas) horas de projeção. Também, o que se poderia esperar de Wayne Wang, diretor daquela chorumela chamada O Clube da Felicidade e da Sorte? A colaboração Wang/Auster quase tira a credibilidade do autor de alguns livros simplesmente brilhantes. Mesmo assim, milagres acontecem (e não apenas natalinos ou na rua 34) e Cortina de Fumaça, no geral, ficando no limite da pieguice, apesar dos grandes atores, apresenta dois ou três momentos de genuínos de cinema, o que já é muito, não? Curiosamente, esses dois ou três momentos estão umbilicalmente ligados ao clima do pequeno texto já referido.

    No geral, excetuando-se o lindo conto, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego interessa a quem quiser conhecer melhor o “cantinho de mundo” de Paul Auster. Não faltam momentos saborosos, basta ler algumas das rápidas vinhetas que constituem as cenas do roteiro de Sem Fôlego, outro projeto em parceria com Wang (e que se ressente das pontinhas excessivas de gente famosa, quando o melhor são os mais desconhecidos, como Giancarlo Espósito). Dessa vez, apenas Auggie aparece, sem o escritor que o grande Hurt encarnava e que era o ponto de ligação das histórias. É como um “A Praça é Nossa” em versão “The New Yorker”.

    O volume traz, entretanto, uma importante entrevista com Auster, realizada por Annete Insforf, na qual (entre outras mil coisas), em poucas palavras o autor de A Música do Acaso (um dos romances-chaves da nossa época) trata lucidamente da histeria fascista que virou a perseguição aos fumantes (e o texto-filme tem muito do seu sabor calcado na politicamente incorreta e deliciosa exaltação ao ato de fumar):

“O fato é que as pessoas fumam. Se não me engano, mais de um bilhão de pessoas fuma diariamente. Sei que o lobby antifumo se fortaleceu muito nos últimos anos… Não estou dizendo que fumar seja bom, mas comparado aos ultrajes políticos, sociais e ecológicos cometidos todos os dias, o tabaco é questão menor. As pessoas fumam —é um fato. As pessoas fumam e gostam disso, mesmo que não lhes faça bem”.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 14 de novembro de 1995)

23/07/2010

O tédio e o hábito tocaiando uma obra: as inúmeras voltas do parafuso moraviano

Em 1960, Alberto Moravia (1907-1990) publicou uma de suas obras-primas, talvez mesmo o seu maior livro, La Noia (no Brasil, Vidas Vazias), no qual, através de Dino, o narrador, apresentava sua preocupação em desmascarar o mundo burguês no seu trinômio sexo-dinheiro-posse, recorrente em tantos dos títulos do autor italiano, inclusive no último, A mulher leopardo (La Donna leopardo, traduzido por Mário Fondelli e editado pela Bertrand Brasil), lançado após sua morte. E que deveria se chamar “O mofo”. Há assuntos e estilos os quais, se o autor não lhes der um remelexo, não fizer um ziriguidum, perdem sua capacidade crítico-provocativa e passam a ser eles mesmos vazios e tediosos.

      A mulher leopardo nos conta como o protagonista, Lorenzo, orgulhoso de sua bela mulher, Nora, a apresenta a Colli, um dos acionistas do jornal para o qual trabalha, e que o convidara a uma viagem ao Gabão, na África. Nora e Colli simpatizam até demais um com o outro e Lorenzo atormenta-se com a suspeita de que eles tenham iniciado um caso. Ada, a esposa de Colli, contribui para a desconfiança com seu comportamento dúbio, e ela e Lorenzo agem como espelho subalterno do outro casal, na tentativa de reproduzir tudo aquilo que eles supõem que o outro, mais fascinante, faça.

      Talvez quem nunca tenha lido Moravia, ou Durrell ou Kundera, entre outros, ache instigante esse vaudeville, porém a própria narrativa parece afetada pelo vazio e alienação das personagens. O aspecto potencialmente mais rico e sedutor da história, que seria o impacto da África sobre os casais (e as reflexões de Colli sobre o papel do homem nesse tipo de paisagem são momentos felizes de A mulher leopardo) é abafado pela atmosfera “huis clos” dessa trama déja vu. O leitor se sente tentado a sair correndo antes que o acúmulo de bocejos o leve ao sono dos justos e pegar O céu que nos protege, de Paul Bowles (ou o notável filme de Bertolucci baseado nele), possivelmente a palavra definitiva em se tratando de mostrar como os problemas burgueses ficam mais fúteis e frágeis diante de uma paisagem física e cultural basicamente indiferente ao mero indivíduo.

   O bom de A mulher leopardo, fruto sem dúvida do tanto que Moravia debruçou-se sobre o assunto, é mostrar sem rebuços a vulgaridade das relações sexuais estabelecidas. Ao invés de tentar injetar “requinte” ou um toque trágico ao erotismo burguês, como acontece a maior parte das vezes, até com gente do cacife de um Louis Malle (no seu lastimável Perdas e Danos), para não falar nos Walter Hugo Khouri da vida, Moravia escancara o materialismo e o utilitarismo e, sob as elucubrações dialéticas de Lorenzo a respeito do poder de Colli e da felinidade de sua esposa, aparece nitidamente o orgulho ferido do macho preterido em favor de outro com maiores atrativos. Ele se irmana, assim,  a outros heróis de Moravia que tentam transformar o ser amado em objeto de estudo e procuram iludir sua perda com uma lógica cerrada. Esse eco de uma grande obra ajuda um pouco a transformar essa Mulher leopardo se não numa criação do calibre de Vidas vazias, As ambições erradas, Os indiferentes, A romana ou 1934, para não falar nos maravilhosos Contos romanos, pelo menos num produto digno de um grande mestre que se repetiu demais.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 28 de junho de 1994).

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