BLOG DO ALFREDO MONTE

29/12/2009

“A SANGUE FRIO” como obra-prima do “romance” e essa abobrinha chamada “jornalismo literário”

(resenha publicada em 11 de março de 2006)

 

    Philip Seymour Hoffmann ganhou o Oscar, o Globo de Ouro e vários outros prêmios por Capote, filme que focaliza a obsessão com que A sangue frio (1966) foi escrito[1]. O resultado: o melhor romance norte-americano da 2a. metade do século 20 e é bom frisar o termo “romance”, embora a Companhia das Letras tenha lançado uma nova tradução do livro dentro de uma coleção chamada “jornalismo literário”. Ora, ora. Dizer que um escritor do porte de Truman Capote praticava jornalismo literário é o mesmo que dizer que Guimarães Rosa narrava casos de folclore.

    Ele mesmo embaralhou muito a questão ao insistir que inventou um gênero, o romance de não-ficção. Permanece o fato de que A sangue frio segue a linha de Flaubert quando escreveu Madame Bovary, ou seja, os acontecimentos reais servem ao gênio narrativo e não o contrário. Ou alguém pode achar crível que Capote consiga “entrar” na mente da dupla responsável pelos terríveis crimes acontecidos em novembro de 1959 numa cidadezinha do Kansas, em pleno “cinturão da Bíblia”, apenas baseado em documentos e depoimentos ? Ou na mente de cada pessoa da família ? Na dos investigadores, vizinhos da região, parentes dos assassinos?  Veja-se um trecho em seqüência a uma visita dos detetives do caso à irmã de Perry Smith: “… a compostura que tanto impressionara Nye cedeu; instalou-se nela um desespero bem conhecido. Ela resistiu, adiou seu pleno impacto até o final da tarde e a partida das visitas, até já ter alimentado e banhado as crianças e ter ouvido suas orações noturnas. E então a tristeza, como a névoa marinha noturna que cobria as luzes da rua, fechou-se em torno dela. Ela dissera que tinha medo de Perry, e tinha, mas seria apenas de Perry que tinha medo, ou antes de uma configuração de que ele fazia parte, os destinos terríveis que pareciam reservados para os quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith ? O mais velho, o irmão de que ela mais gostava, tinha-se matado com um tiro; Fern caíra, ou se jogara, de uma janela; e Perry era dado à violência, um criminoso. Assim, num certo sentido, ela era a única sobrevivente, e o que a atormentava era a idéia de que, com o tempo, ela também acabaria vencida: enlouqueceria, ou contrairia uma doença incurável, ou perderia num incêndio tudo que valorizava…” Isso é a mais pura ficção, e assim como a lição de Flaubert, Capote coloca em prática a lição de outro mestre, Tolstói, ao se (e nos) interessar até pelo destino da velha égua da moça assassinada, vendida num leilão para um triste fim (puxar arado).

    “A gente era criado sabendo o que estava certo, e livre para fazer o que estava errado”. Essa frase, de outro grande romance, A canção do carrasco (1979), de Norman Mailer, cuja ação se situa em outro estado dominado pela religião (Utah), ajuda a entender por que Capote escreveu um livro tão poderoso e fascinante. De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim (e uma série como Smallville, que transcorre num Kansas “sal da terra”, sinaliza essa mesma mentalidade com roupagem moderninha), mas que não têm problemas com armas, com a matança estúpida de animais, e com a exclusão social (aquele mito americano do fracasso), “sabendo o que estava certo”. E que se surpreendem com a violência dos assassinatos. E, do outro lado, os “perdedores”, aquelas vidas fraturadas e errantes, “livres para fazer o que estava errado”, que até viraram símbolo de uma boa parte da produção artística norte-americana, e que nunca foram tão bem descritos como em A sangue frio e  A canção do carrasco

    E é por isso que num dos trechos-chaves da obra-prima  de Capote, alguém observa: “As pessoas não estariam tão alteradas se isso tivesse acontecido com outros, não os Clutter. Com uma família menos admirada, menos próspera. Mas eles representavam tudo que as pessoas daqui valorizam e respeitam, e o fato de uma coisa dessa ter acontecido com eles, é o mesmo que alguém dizer que Deus não existe. Dá a impressão de que a vida não tem sentido…”

   


[1] Na verdade, o filme Confidencial (InFamous) explora o assunto de forma muito melhor, com um ator mais convincente  (porque não se nota tanto o peso da “composição”), Toby Jones, entre outras qualidades. Pena que acabou ofuscado pela produção rival, que eu acho apenas mediana, e com um direção amorfa. Os dois filmes foram baseados em duas biografias diferentes.  De qualquer forma, é sempre bom lembrar que há uma adaptação excelente e precisa, feita por Richard Brooks, do livro de Capote.

04/12/2009

Minha amiga Elizabeth

(resenha publicada em 18 de março de 2006)

Devido à sua interpretação (que não considero nada de especial) na mais recente (e mais rasa) das numerosas versões de Orgulho e Preconceito, Keira Knightley recebeu indicação para todas as premiações de maior repercussão (Oscar, Globo de Ouro, SAG), embora tenha perdido sucessivamente para Reese Whiterspoon, a qual, por sua vez, estrelou a adaptação de outro magnífico romance oitocentista, A Feira das Vaidades. Em conseqüência, a mais tradicional tradução (a de Lúcio Cardoso) do principal livro de Jane Austen ganhou nova edição. Esperemos que a obra-prima de Thackeray tenha a mesma sorte.

    É provável que mesmo o aguado desempenho de Keira Knightley tenha chamado tanta atenção porque Elizabeth Bennet é uma das personagens mais carismáticas da história da ficção, como digna sucessora que é daquelas heroínas inteligentes, mordazes e apaixonadas de Shakespeare (Rosalind, de Como gostais, Pórcia, de O Mercador de Veneza, por exemplo). Como se sabe, ela pertence a uma família que tem muitas filhas (cinco), todas sem dote e cuja propriedade, com a morte do pai, deverá passar para um distante (e insuportável) parente masculino. Este, em certo ponto da narrativa, resolve pedir a mão de Elizabeth, mas ela está encantada com o forasteiro Wickham, desafeto de Mr. Darcy, melhor amigo de outro estranho ao lugar onde mora a família Bennet, Mr. Bingley, que se apaixona por Jane, irmã mais velha de Elizabeth (romance desaprovado pelo orgulhoso e preconceituoso Darcy). Aliás, Mr. Collins, o absurdo pretendente, toca na questão central da vida de mulheres como as Bennet: “A senhora deve levar em conta que apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia. O seu dote infelizmente é tão pequeno que em todas as situações pesará contra a sua beleza e as suas louváveis qualificações.” Como se vê, uma situação muito parecida com a de outro livro de Austen (cuja versão cinematográfica, dirigida por Ang Lee, também foi sucesso), Razão e Sentimento. Em Orgulho e Preconceito tudo ganhou mais amplitude, principalmente o humor e a ironia. Com implacável precisão e lucidez, ficamos conhecendo aquela sociedade em que cada um é prisioneiro de sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista e comodista dita as regras (e que talvez seja menos hipócrita que a nossa, regida da mesma forma, porém onde se pratica outro discurso), como mostra a melhor amiga de Elizabeth, Charlotte, ao aceitar Mr. Collins como marido: “Sem pensar muito nem nos homens nem no matrimônio, o casamento sempre fora o seu objetivo; era a única condição digna para uma moça bem-educada e de pouca fortuna e por mais incertas que fossem as perspectivas de trazer felicidade, ainda era a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

    Mesmo assim, provavelmente os leitores apaixonados por Jane Austen, como eu,  nunca cansarão de reler Orgulho e Preconceito é por causa mesmo da mudança de sentimentos de Elizabeth com relação a Mr. Darcy, depois que reconhece o caráter dúbio e escorregadio de Wickham (que seduzirá a irmã dela),  percorrendo lentamente (em termos psicológicos, não narrativos) o arco que vai da antipatia ao amor. E isso através de diálogos ainda insuperados (a cena da declaração de amor dele é particularmente antológica). Nem a descoberta da protagonista de Emma de que ama Mr. Knightley é tão marcante.

    Outro prazer adicional é o de retomar contato com um dos pais mais deliciosamente irônicos já criados, Mr. Bennet, sempre roubando a cena quando aparece e que, entretanto, não escapa à prodigiosa visão crítica da genial escritora inglesa: “Elizabeth, no entanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Aquilo sempre a fizera sofrer mas, respeitando as suas qualidades  e grata pelo seu tratamento afetuoso, esforçava-se por esquecer o que não podia fingir não ver e bania dos seus pensamentos aquela contínua quebra das obrigações e do decoro conjugal, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas.”  Todavia, como resistir a um personagem que, quando sua tola esposa diz,”Você se diverte em me aborrecer, não tem compaixão pelos meus pobres nervos”, responde: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos.”

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10/11/2009

NOLL(WHERE)

 
 
Livraria Porto das Letras na Internet acesse:
noll
“…NEM O MEU PASSADO, NÃO, NÃO QUEIRA ME SABER ATÉ AQUI, DIGAMOS QUE TUDO COMEÇA NESTE INSTANTE ONDE ME ABSOLVO DE TODA DOR JÁ TRANSPASSADA E SEM NENHUM RESSENTIMENTO TUDO COMEÇA A CONTAR DE AGORA, MESMO QUE SOBRE A BORRA QUE AINDA FISGA O MEU PRESENTE, NEM ESSA BORRA, NADA,…”
“…ME FERE ACEITAR QUE NÃO ESCONDO DE MIM NEM DE VÓS (QUEM SOIS,…E SOIS?…) O MEU TRAJETO CHEIO DE RECUOS, PARADAS, SÍNCOPES, ACELERAÇÕES, ANSEIOS FORA DO AR, ADMITO SER EXTRAVIO ÀS VEZES, INEXISTENTE ATÉ, QUEM SABE EXISTENTE MAS JÁ MORTO. RECORRO ÀS RUÍNAS DE UM ESPELHO QUE ENCONTRO PELO CHÃO, AINDA NÃO SOU O ANCIÃO QUE PRESUMO QUE MEREÇO, AINDA NÃO GALGUEI POR INTEIRO MINHA SUBMISSÃO AO TEMPO, AINDA NÃO DOBREI O SUFICIENTE MEU JOELHOS EM ADORAÇÃO AO MISTÉRIO VIVO,…” (A fúria do Corpo, 1981)
 
“Diz que o problema é a perda do pensamento totalizante. Pergunto a João o que é o pensamento totalizante. Sinto João se impacientar além da conta. A bunda na ponta da cadeira,  morde a base do indicador como se quisesse arrancar o dedo. Começa a parecer as três mulheres de Boston… João abre a mão contra a lâmpada e diz que o pensamento totalizante é aquele que aspira à totalidade das instâncias humanas. Pergunto qual a garantia de se ter aspirado a mais instâncias do que o pensamento A ou B ou C. João responde que ando bebendo muito, que eu vá dormir que faz bem a um escritor desiludido…” (Bandoleiros. 1985)
 
  E eu alguma vez tinha aderido às coisas da terra? Senti um calafrio, como se uma nuvem tivesse passado por dentro do meu corpo, gelada e instantânea. Eu andara esses anos todos por aí, e que história pessoal eu poderia contar? Por essa geografia rarefeita quem tinha gerado comigo alguma memória duradoura? E sair pelo mar, pensei, para mim é tarde demais. Os meus músculos estavam combalidos, e o pior: eu me esquecera de exercitá-los. E a faina de um navio era mexer com cordas, mastros, máquinas escaldantes, ea você o tempo todo a conviver com toneladas, obrigado a vencer terríveis tempestades. Olhei o braço do garoto e imaginei o músculo que ele iria criar. Raciocinei se não era o caso de deixar aquele garoto seguir sozinho, ali, antes de atravessarmos a avenida à beira do cais eu deveria lhe dizer que tinha vindo a Porto Alegre para resolver uma questão muito urgente e que eu não poderia me atrasar. Ele talvez me olhasse sem entender que alguém pudesse resolver alguma questão muito urgente numa terça-feira de carnaval. É isso aí, falei: eu posso estar em Porto Alegre para me apresentar à polícia, ou quem sabe fugindo dela, eu posso estar aqui para fechar um negócio para hoje, ou recomeçar um amor da vida inteira, essas historias e muitas outras são plausíveis numa Terça-Feira Gorda porque a pausa é só aparente: a mão conspiradora continua a conspirar, assinam-se planos, selam-se afinidades eternas. O garoto respondeu que quando ele vier a Porto Alegre no futuro não terá uma única questão urgente a resolver. Por aqui estão todas resolvidas, ele completou. (Rastros do Verão. 1986)
              
     Aproveitando a adaptação cinematográfica de HOTEL ATLÂNTICO, escrevo um pouco sobre João Gilberto Noll, um dos maiores escritores brasileiros. Tive o prazer de dar um curso no ano passado sobre obras “pós-modernas” (“Literatura Líquida”) e um dos romances abordados era Bandoleiros. Mas nunca escrevi nenhuma resenha sobre um livro dele, o que não deixa de ser estranho.
    Então aqui vai:

JOÃO GILBERTO NOLL E  “A GRAXA DIFÍCIL DE SAIR”

 capa de hotel atlântico

       Suzana Amaral, que já fez duas marcantes (e difíceis) transposições da literatura para o cinema (A Hora da Estrela & Uma Vida em Segredo), mais uma vez demonstra gosto impecável na escolha de um livro, ao adaptar Hotel Atlântico, de João Gilberto Noll.

      Após um primeiro romance (A Fúria do Corpo, 1981) barroco, excessivo, transbordante, o notável escritor gaúcho, no texto seguinte (de 1985), Bandoleiros, surpreendeu com a linguagem seca, desidratada, sem a menor ênfase, estranhamente absorvente,  mostrando a trajetória de um narrador errante, que se envolvia em incidentes irrisórios (mesmo quando violentos)  e ao mesmo tempo claustrofóbicos e exasperantes. Essa tônica se manteve no livro seguinte, Rastros do Verão (1986) e chegou a um determinado clímax, justo em Hotel Atlântico, publicado há exatamente vinte anos.

     Mais uma vez, temos um personagem que está em trânsito e vive precariamente: viaja sem bagagem, fica um dia ou dois numa espelunca qualquer, e parte, quando acicatado pela urgência do desespero (“Eu estou velho. Mal chegado aos quarenta, velho”; mais adiante: “Quando me vi com a passagem na mão me senti como que comprando a minha alforria. E me invadiu a sensação de uma liberdade demasiada. Como se eu não fosse dar conta sozinho”). Sabemos apenas que foi um ator pouco conhecido, e que agora só vai em frente, seja para onde for: “O que importava é que eu precisava continuar dando rumos à minha viagem”.

      O relato se inicia no Rio de Janeiro, depois segue numa viagem de ônibus para Florianópolis, no final da qual a passageira norte-americana com quem o ex-ator conversa (surgindo certa atração entre eles) aparece morta (ela se suicidou; aliás, o texto se inicia com um cadáver sendo retirado do hotel  em que ele se hospeda). Depois, ele pega uma carona, indo para o Rio Grande do Sul, acompanhando um noivo e seu futuro cunhado. Há uma farra num bordel de estrada, e então uma parada misteriosa, quando ele ouve Nélson (o cunhado) dizer a Léo (o noivo) que precisam assassinar aquele ator, uma testemunha. Do quê? Nunca saberemos, os acontecimentos de Hotel Atlântico, como tantos outros na obra de João Gilberto Noll, são incompletos, não são explicitadas as motivações dos outros, não conhecemos a cadeia dos fatos. Nem por isso, a habilidade mágica do autor de Harmada é menos eficiente em nos envolver, como se estivéssemos lendo uma narrativa em que tudo vai se completar de modo unívoco e convincente: mais radical do que Paul Auster, Noll nos mostra que o fortuito  quase sempre pode ser irreparável e irrevogável.

     Fugindo dos seus assassinos, nosso herói vai parar num povoado, onde se abriga na casa do padre (só que não há padre). Enquanto lavam sua única roupa, ele veste uma batina velha e sai a passear pelas imediações, inclusive dando a extrema-unção a uma moradora local.

    Deixando a região, e sendo colhido por uma tempestade, totalmente desamparado, ele literalmente desmonta num outro lugarejo  perdido nos cafundós gaúchos, Arraiol, e tem a sua perna amputada por um médico candidato a prefeito da cidade, cuja filha quer que o ex-ator agora mutilado a deflore. Desenvolve-se, a partir dái, uma relação de co-dependência com Sebastião, o enfermeiro que cuida dele e com o qual “foge” de Arraiol “Pensei  o que seria de mim se Sebastião desaparecesse agora”.

     Os dois vão para Porto Alegre e Sebastião deseja conhecer o mar. Aí aparece o Hotel Atlântico do título, o termo dessa jornada em que movimento e paralisia se alternam, e em que não veremos uma experiência de vida tornar-se coesa, discernível, ou seja, fazer sentido: “disse a Sebastião que um dia eu esperava entender por que foi que tudo aconteceu”. Esse dia nunca chegará, porque a morte, que poupou os narradores de Bandoleiros & Rastros do Verão  toma a dianteira (ou não, porque nada é certo efetivamente). Para no romance seguinte, O Quieto Animal da Esquina (1991), tudo recomeçar: “um caldo escuro escorrendo das minhas mãos debaixo da torneira, eu tinha perdido o emprego, me despedia daquela graxa difícil de sair…”

(resenha publicada em “A Tribuna” em 10 de novembro de 2009)

23/10/2009

VAMPIROS E HIGH SCHOOL, DRÁCULA E ZACH EFRON

Livraria Porto das Letras na Internet, acesse:

www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

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     Ontem assisti ao primeiro episódio de Vampire Diaries (Warner, 5as.feiras, 21 h) e foi o esperado em série capitaneada por Kevin Williamson: na linha de “Dawson´s Creek” e de várias temporadas da não-williamsoniana na produção, porém bem parecida proposta, “Smalville”, temos esses jovens velhos, essas mensagenzinhas caretinhas (a irmã vai atrás do irmão viciado no banheiro dos homens para conferir se ele está “chapado” e lhe passar um sermão).  Tivemos o cemitério de praxe do livro, a floresta onde jovens incautas penetram à noite, a ausência dos adultos, a melhor amiga da heroína branca (agora, sempre uma negra), que são figuras de fundo geralmente chatas e empatadoras…

       Fell´s Church do livro se transformou em Mystic Falls. Achei bem inteligente nos pouparem do ridículo de fazer com que Stefan e Damon fossem oriundos da Florença Renascentistas. Não, dessa vez, eles são da época colonial dos EUA, e talvez a guerra de secessão substitua a Renascença, o que é uma perspectiva muito mais convincente. Eles também não perderam tempo em tentar fazer com que a aparência dos vampiros fosse muito marcada ou marcada: são dois mauricinhos e pronto (Stefan agora mora com um suposto “tio” e não mais numa pensão, como no livro).

      O que estraga é que os dois atores são de lascar: em meio a todos os bonitinhos insípidos, escolheram justamente um ápice de insipidez: Paul Wesley, que é literalmente um “cara de nada”. Triste, preocupado, apaixonado, apavorado, em luta, em repouso, ele mantém impávido a mesma expressão. Chega a ser cômico que as jovens do lugar se digladiem por ele, tanto que nem insistiram muito nesse aspecto (bem acentuado no livro). Quanto a Ian Somerhalder, quando ele apareceu em alguns episódios de “Smalville”, sem se destacar exatamente pelo talento, chamou atenção pela sua beleza, digamos “pura”, irretocável. Depois, ele participou da primeira temporada de “Lost” e de lá para cá o que aconteceu? Acho que não vão cair no ridículo de colocá-lo como jovem de ensino médio (não é a linha de Damon), como aconteceu com o Duda Nagle, em “Caminho das Índias”. Só que ele está com cara de plástico, parece embotocado, ou maquiado demais, comprometendo toda a sua beleza, ou seja, sua maior qualidade, já que no quesito carisma, personalidade ou talento…

      Apesar do escândalo que é a cara sambada do elenco (Paul Wesley interpretar um jovem no ensino médio é uma piada, e não só ele; pelo menos poderiam adaptar a trama para alguma universidade provinciana), gostei da heroína Nina Dobrey, que no meio da insipidez geral, da inexistência de Wesley e da canastrice de Somerhalder, conseguiu o tom exato de sua Elena. Não sei o que vai ser da série, se ela vai vingar,ou o que vai ser da carreira de Nina Dobreý. Só sei que ela é a  melhor coisa de Vampires Diaries até agora. Ou a única coisa.

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           O DESPERTAR, GENÉRICO DE CREPÚSCULO?

    De quando em quando, os vampiros ressurgem dos seus túmulos e assolam a indústria cultural, abocanhando um suculento lucro. O tremendo sucesso dos romances de Stephenie Meyer (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer), agora prolongado no cinema, é certamente o marco da nova aparição daquelas figuras que nunca morrem. E dia 22, quinta-feira, estréia na Warner, o seriado Vampire Diaries, baseado em outra série de sucesso.                           

    Confesso que não consegui encarar a empreitada de ler Meyer (só Crepúsculo tem 416 páginas, na edição brasileira), contentando-me com seu genérico: O Despertar, primeiro volume de Diários do Vampiro, tem apenas 236 páginas. Curiosamente, embora pareça vir na esteira do sucesso da rival, a série de L.J. Smith é muito anterior. Os livros iniciais foram lançados em 1991. Mas ainda que apresentassem alguma inovação impactante (não apresentam), Smith nunca mais vai poder se livrar da sombra de Meyer.

      O único detalhe que diferencia O Despertar das histórias similares é que seus vampiros sobrevivem ao amanhecer e à luz solar, desde que usem um amuleto protetor, de tal forma que um deles pode freqüentar a escola e se tornar um elemento importante no time local.  Os irmãos Stefan e Damon (um, bonzinho; o outro, malvado) foram transformados no século XV, em Florença, pela menina que os dois amavam e que acirrara a rivalidade entre ambos. Reaparecem em Fell´s Church, na Virginia, como pretendentes de outra garota, Elena, a qual se parece com  a primeira amada. Original, não?  E, como já se convencionou, a figura dos vampiros  é sempre a de um dândi, cavalheiresco e meio lânguido (Damon  é perverso, mas charmoso e atraente).

      É claro que com toda a vivência de séculos dos dois vampiros, e ainda mais tendo vivido na Renascença, eles acham o máximo encanto da vida e da existência se enterrar em cidadezinhas provincianas dos EUA, e viver toda a magia única da vida do ensino médio, com sua obsessão pela popularidade, pela identificação dos “perdedores”, pelos bailes de formatura, pela rainha da festa, e toda aquela avalanche de estereótipos e figuras carimbadas que já vimos em milhares de filmes. O curioso é que Smith tenta nos mostrar que os estudantes que estão no topo da popularidade, os belos, os atléticos, são o equivalente da nobreza de outros tempos.

     As jovens do livro acreditam no “amor eterno”, quando encontrarem o “cara certo”, vão ao cemitério (que estão sempre abertos a qualquer hora) para conversar com  os pais mortos (a protagonista inevitavelmente tem um histórico de tragédia familiar, já notaram?), sempre têm pressentimentos certeiros e  conseguem conciliar todas essas emoções avassaladoras e experiências aterrorizantes (presença de vampiros, sepulcros abertos, assassinatos, etc) com trabalhos escolares, futricas e rivalidades comezinhas. Vampiros com séculos de experiências são abalados pela força de personalidade de jovenzinhas provincianas.    

      Por falar em experiência, só alguém muito jovem pode ler um livro desses e levá-lo minimamente a sério, até como fabulação. Não há nenhum momento em que O Despertar não seja absolutamente previsível: Elena vê um corvo meio ameaçador, e, é claro, descobre no final que se tratava de Damon., o irmão mau. Há um baile de Halloween e qualquer um percebe que um antipático professor de história, com o qual Stefan teve um entrevero, e que está fazendo o papel de uma vítima sacrificial druida, será realmente morto –por Damon—e que herói levará a culpa; há até aquele momento em que, ainda não sabendo que Stefan a ama, e sentindo-se desprezada por ele, Elena vai a um lugar ermo com um boçal da escola e  é quase surrada e estuprada e… é salva por Stefan.

     Smith nos dá a era high school da temática vampiresca (não à toa, o criador da série televisiva é Kevin Williamson, de Dawson´s Creek, aquele seriado com jovens que pareciam velhos, jovens com corações,mentes e almas já senis). Enfim, é o mundo reduzido à visão adolescente. Só falta a aparição do Zach Efron e a trilha sonora do Jonas Brothers. Não há nada de errado em alguém se iniciar na leitura através dessa série de L.J. Smith. Mas qualquer pessoa com mais de 16 anos que se encantar com essa história levantará as mais sérias suspeitas…

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Serviço: Diários do Vampiro: O Despertar, de  L.J. Smith (EUA, 1991) Tradução de  Ryta Vinagre. Ed. Record, Selo Galera. 236 páginas. R$ 24,90.

(resenha publicada em 20 de outubro de 2009)

INTRODUÇÃO (18.10.09)

      Na época da minha adolescência (estou falando aqui do final dos anos 70), após alguns anos de ostracismo, a figura do vampiro voltava: foi a  época dos antípodas Drácula, de John Badham, e Nosferatu, de Werner Herzog. Este, um belo filme; aquele, uma breguice (embora fosse uma produção “A”, que resgatava Drácula das sub-produções da Hammer inglesa, o filme envelheceu bastante) que trazia Frank Langella posando de vampiro-galã, numa composição que parece hoje meio cômica ou, no mínimo, equívoca, apesar de que o objetivo, na época, era deixar explícito o conteúdo erótico das investidas do vampiro e que as donzelas mordíveis e mordidas no fundo ansiavam por aquilo. Já o vampiro de Herzog era mais na linha da figura patética, quase de dar pena, com sua aparência verdadeiramente de morto-vivo (uma genial encarnação de Klaus Kinski), que Murnau imprimira à tradição pós-Bram Stoker.

     A partir daí, volta e meia surgem ondas vampirescas, algumas avassaladoras (como a série de Anne Rice, uma gay fantasy, que fez sucesso também em filme. Gosto muito do livro Entrevista com o Vampiro e o filme é bom, mas o resto da série me deixa impaciente; o Drácula de Coppola, que uniu com rara felicidade, o conteúdo erótico, o patético, e o aterrorizante, com ênfase nos três, o que o torna a mais ampla abordagem do tema; os vampiros de  de John Carpenter), algumas nem deixando marola (como a série (primeiro no cinema e depois na tevê) Blade. Só não posso deixar de dizer que Anjos da Noite, que está nesse sub-patamar, pelo menos tem a mais bela das vampiras: Kate Beckinsale (que teve, aliás, uma overdose  do gênero, pois participou também do péssimo Van Helsing).

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      Hoje novamente estamos em pleno vampirismo. Nos últimos anos, alguns seriados também abraçaram o tema: tivemos, entre outros, Blood Ties (exibido pelos canais AXN e Animax), com um vampiro-dândi, Henry Fitzroy, filho de Henrique VIII, vejam só, e que era companheiro de investigações sobrenaturais da detetive Vickie Nelson. Baseado em livros de Tanya Huff, o seriado tinha como atrativo a deliciosamente sedutora, fugindo de qualquer modismo de sensualidade, Christina Cox, uma das mulheres mais atraentes já vistas em qualquer série, capaz de ser gostosa utilizando comportado coque, cabelo preso e óculos. Tanto que quando vi um episódio pela primeira vez, não botando muita fé, não consegui desgrudar os olhos, não pela trama, pelos personagens (que até não são dos piores), mas pelo incrível magnetismo e pela presença de La Cox.

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      O ousado e afrontoso True Blood talvez seja o mais original, ou pelo menos, o mais alternativo entre as releituras do vampirismo no cenário atual. E tem o correspondente masculino de Christina Cox no sentido de explosão de sensualidade e talento: Ryan Kwanten, o desajustado  irmão de Anna Paquin, a protagonista. Que diferença dos aguados Zach Efron e Robert Pattinson, que são bonitos, mas parecem virtuais, bonequinhos de bolo de noiva.

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21/10/2009

EM TORNO DE UM CORPO

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DESPEDIDA EM SANGUE

    Em 1958, a mãe de James Ellroy (que tinha dez anos à época), Gineva, foi estrangulada com uma meia de nylon, um assassinato nunca esclarecido.  Vinte e nove anos depois, a obsessão do filho com o crime gerou Dália Negra, romance que explora ficcionalmente uma investigação-fetiche nos EUA e é dedicado à mãe do grande escritor norte-americano, uma “despedida em sangue”.

    O mesmo crime deu origem (dez anos antes de Dália Negra) à outra excelente engrenagem ficcional que remontava aos anos 40: Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne, que faz tudo o que Agosto de Rubem Fonseca não fez pelos nossos anos 50. Dunne e sua esposa, e ainda melhor romancista, Joan Didion (cujo recente O ano do pensamento mágico é uma  homenagem ao marido que acabara de morrer), adaptaram Confissões Verdadeiras para um ótimo filme de Ulu Grosbard, onde Robert de Niro e Robert Duvall estão magníficos como irmãos. E, como se sabe, Dália Negra foi adaptado por Brian de Palma, revelando-se uma desalentadora surpresa: não se sabe o que aconteceu, como o bolo desandou, porém o velho mestre realizou um trabalho que poderia ser assinado (ou assassinado) por qualquer um, burocrático e distante, a anos-luz de um Intocáveis ou, mais recentemente, de um Olho de Serpente, e principalmente das suas obras com um pé na paródia e na molecagem criativa, que pilha o terreno alheio e cria novos territórios, como Dublê de Corpo.

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    E por falar em corpo, o de Elizabeth Short é encontrado na rua 39 esquina com a Norton em janeiro de 47 e vira obsessão para os parceiros Lee Blanchard e Bucky Bleichert (narrador e protagonista), conhecidos como Mr. Fire (Fogo) e Mr. Ice (Gelo), pois como pugilistas adversários conseguiram uma verba importante para o departamento de polícia de Los Angeles; eles fazem parte (depois de maquinações fraudulentas de Lee, mr. Fire, pois ambos são da Divisão de Capturas, e esse é um dado importante no esquema geral) da imensa força-tarefa que investiga o crime. Completando o trio, há Kay, ex-prostituta “amigada” com o fogo (que não arde) e que se apaixona pelo gelo (e é correspondida, mas ele mantém sua lealdade ao parceiro até seu desaparecimento abrupto…).

    Ao seguir sozinho uma pista em bares de lésbicas, Bleichert conhece Madeleine, com a qual a “dália negra” se assemelhava um pouco, e assim se envolve com sua bizarra e criminosa família, cuja fortuna remonta a negociatas nos tempos do cinema mudo, quando o conhecido letreiro, idealizado por Mack Sennet, ainda era Hollywoodland, (as últimas letras são retiradas durante o espaço de tempo da trama, 1946-1950). Além disso, há um “amigo” da família, desfigurado, o que evoca o romance de Victor Hugo, O Homem que Ri (que eu só conheço através da sua adaptação, com Jean Sorel. O enredo é fascinante).

    Elizabeth Short, a dália negra, além de “substituta simbiótica” à mãe de Ellroy, é também uma concentração de ícones norte-americanos: o fetiche pelo cinema, que fazia (e faz) mocinhas inquietas se deslocarem do país inteiro para acabar muitas vezes como prostitutas, a idealização dos G.I. Joes, os que lutaram na 2ª. Guerra (e eram objeto de desejo por parte da morta); e também a mulher-anjo, “perdida no lodo”, ou a femme fatale, no qual os homens projetam suas fantasias, quaisquer que sejam. Não é à toa que seu fantasma persegue Bleichert ao ponto de ele pagar uma prostituta anônima para reencarná-la ou gostar de Madeleine pela semelhança, principalmente na hora da transa. Quando ele consuma sua relação com Kay, uma das formas que Madeleine utiliza para voltar a atraí-lo é sair para noitadas fantasiada de “dália negra”. Eu acho incrível que alguém com a obsessão de Brian de Palma por Hitchcock, demonstrada tantas vezes, não tenha aproveitado esse gancho para relembrar a obsessão de James Stewart em recriar a supostamente morta Kim Novak em Um corpo que cai, de forma tal que ele atormenta a “substituta simbiótica”, vestindo-a e penteando-a para que fique igual à falecida. Possivelmente faltou isso à Dália Negra, o filme: obsessão. Ele é apenas uma sessão de cinema, fácil de ver e esquecer.  E é engraçado notar que um diretor que nunca se destacou por sequer uma mínima marca pessoal como Curtis Hanson conseguiu extrair a essência de Ellroy em Los Angeles- Cidade Proibida, como se tivesse visto ali a grande chance da sua vida.

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    O painel de Dália Negra enfatiza igualmente a canibalização do crime pela mídia, a qual praticamente comanda a investigação policial, com a opinião pública exacerbada pelo volume de exposição do caso, e o promotor (Ellis Loew, personagem também de Los Angeles, Cidade Proibida) tentando impedir que vazem notícias sobre a promiscuidade da vítima para não perder a simpatia do público (e futuros eleitores). O caso Isabela é a ilustração mais recente do fenômeno.

   É pena que um escritor tão brilhante seja também tão prolixo. O livro é sensacional até a elucidação do paradeiro de Lee Blanchard, quando mr. Ice o procura no México; depois começa a ficar saturado e quase informe até chegar a um clímax um tanto exagerado e irreal, mesmo amarrando todas as pontas (o que a certa altura parecia quase impossível). A “despedida em sangue” talvez tenha viciado por demais Ellroy: em sua obsessão ele extrapolou ao soltar todos os esqueletos do armário.

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FUMO E FASCISMO: quando sancionarão uma lei anti-borboletas da alma?

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21 de outubro de 2009

    A pequena obra-prima de Paul Auster O CONTO DE NATAL DE AUGIE WREN (ver minha resenha abaixo) foi relançada pela Companhia das Letras. Como segue a tradição, consagrada no universo anglo-saxão, dos contos de Natal, cujo maior expoente foi Charles Dickens, não deixa de ser uma  leitura importante: um mestre da “modernidade líquida”, da pós-modernidade, reavivando uma tradição da “modernidade sólida”, da Era Industrial.

10 de agosto de 2009

       Não sou fumante e no entanto considero autoritária, quase fascista, a lei anti-fumo (também, o que esperar de um José Serra?, um político que JAMAIS teria o meu voto nem para síndico). Meus amigos não poderão mais fumar em bares e restaurantes (e, na prática, em quase em todos os lugares),mas podemos aturar gente se esgoelando nos videokês da vida, gente que pára o carro e nos despeja a música do seu (mau) gosto em altos decibéis, e que,  curiosamente, nunca é a música que a humanidade sensata gostaria de ouvir, sem contar as onipresentes tevês em todos os lugares despejando Faustão ou qualquer outro horror enquanto jantamos ou jogamos conversa fora. Ninguém acha isso invasivo ou abusivo, e longe de mim querer censurar qualquer manifestação. Mas pensando na perseguição aos fumantes, lembrei de uma antiga resenha. 

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UM DETERMINADO CANTO DO MUNDO 

   O ponto alto das mais de 300 páginas que reúnem os roteiros Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in the face), lançamento da Best Seller na onda do sucesso que o filme Smoke vem fazendo há meses em São Paulo, é um texto de apenas 8 páginas escrito pelo autor do roteiro do filme, o romancista Paul Auster: O conto de natal de Auggie Wren.

    Nele, Auster narra como Auggie, gerente de tabacaria, fotografa a esquina onde trabalha todos os dias, exatamente à mesma hora. Ao ver as fotos, o narrador, após acostumar-se à estranheza de tal projeto de vida, percebe a atitude zen desse homem aparentemente comum (e presença fortuita em sua vida), que lhe dará de presente um conto de natal, daqueles que Dickens consagrou (não convém contá-lo aqui): “Percebi que Auggie fotografava  o tempo, o tempo natural, assim como o humano, e o fazia plantando-se numa pequena esquina no mundo e desejando que fosse sua, montando guarda no espaço que escolhera para si mesmo”. No filme, a palavra é do próprio Auggie (uma maravilhosa interpretação de Harvey Keitel, em belo duo com William Hurt): “É a minha esquina afinal. É apenas uma pequena parte do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho”. Infelizmente, o roteiro e o filme estão longe de ter o encanto diáfano do conto, a síntese densa que esse texto tão simples faz dos encontros na cidade grande, das doações insólitas e dos pequenos logros que aproximam estranhos. Sente-se, no filme, que faltou diretor para o material, que o redimensionasse cinematograficamente, aproveitando as infinitas possibilidades poéticas do texto durante as duas (longas) horas de projeção. Também, o que se poderia esperar de Wayne Wang, diretor daquela chorumela chamada O Clube da Felicidade e da Sorte? A colaboração Wang/Auster quase tira a credibilidade do autor de alguns livros simplesmente brilhantes. Mesmo assim, milagres acontecem (e não apenas natalinos ou na rua 34) e Cortina de Fumaça, no geral, ficando no limite da pieguice, apesar dos grandes atores, apresenta dois ou três momentos de genuínos de cinema, o que já é muito, não? Curiosamente, esses dois ou três momentos estão umbilicalmente ligados ao clima do pequeno texto já referido.

    No geral, excetuando-se o lindo conto, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego interessa a quem quiser conhecer melhor o “cantinho de mundo” de Paul Auster. Não faltam momentos saborosos, basta ler algumas das rápidas vinhetas que constituem as cenas do roteiro de Sem Fôlego, outro projeto em parceria com Wang (e que se ressente das pontinhas excessivas de gente famosa, quando o melhor são os mais desconhecidos, como Giancarlo Espósito). Dessa vez, apenas Auggie aparece, sem o escritor que o grande Hurt encarnava e que era o ponto de ligação das histórias. É como um “A Praça é Nossa” em versão “The New Yorker”.

    O volume traz, entretanto, uma importante entrevista com Auster, realizada por Annete Insforf, na qual (entre outras mil coisas), em poucas palavras o autor de A Música do Acaso (um dos romances-chaves da nossa época) trata lucidamente da histeria fascista que virou a perseguição aos fumantes (e o texto-filme tem muito do seu sabor calcado na politicamente incorreta e deliciosa exaltação ao ato de fumar):

“O fato é que as pessoas fumam. Se não me engano, mais de um bilhão de pessoas fuma diariamente. Sei que o lobby antifumo se fortaleceu muito nos últimos anos… Não estou dizendo que fumar seja bom, mas comparado aos ultrajes políticos, sociais e ecológicos cometidos todos os dias, o tabaco é questão menor. As pessoas fumam —é um fato. As pessoas fumam e gostam disso, mesmo que não lhes faça bem”.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 14 de novembro de 1995)

17/07/2009

blog nas férias de julho: HARRY POTTER

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   MAIS UM PROFESSOR DE DEFESA CONTRA A ARTE

                                 DAS TREVAS PERDIDO

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   Finalmente, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe (mais precisamente, Harry Potter e O Príncipe Mestiço), o antipático (embora descubramos mais tarde que ele é uma figura mais para trágica) professor Snape consegue o que almejava desde que apareceu pela primeira vez na história: ser o professor de Defesa contra as Artes das Trevas. O leitor da série sabe, porém, que esse é um cargo azarado: nenhum dos ocupantes voltou para o ano seguinte; também sabe que cada um desses malfadados mestres (Quirrell, que carregava Voldemort como parasita no seu corpo; Gilderoy Lockhart, que era um embusteiro; Remus Lupin, vítima de preconceito por ser um lobisomem; Olho-Tonto Moody, que era um disfarce, proporcionado pela poção polissuco, para um seguidor do grande inimigo de Potter; a repelente e totalitária Dolores Umbridge) estava diretamente ligado à trama principal do volume de que participavam. E desta vez não é diferente: Snape assassina o diretor de Hogwarts e protetor de Harry, Dumbledore, o qual depositava nele uma confiança não compartilhada por mais ninguém, uma vez que o temido professor de Poções (nos anos anteriores) já fora um Comensal da Morte, assecla de Lord Voldemort. Só no volume seguinte saberemos que esse crime foi arquitetado pelo próprio Dumbledore, para proteger Draco Malfoy, encarregado pelo grande vilão, de executar  essa terrível tarefa (e nós conheceremos o desamparo do rapaz, em seus colóquios com a patética Murta-que-geme, o fantasma dos banheiros de Hogwarts).

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    O andamento da trama também explica por que tanta atenção se dá ao professor que troca de lugar com Snape, Horace Slughorn, que vem dar à  escola de magia um toque de mundanidade e sede de prestígio social, com sua escolha de “favoritos” que lhe podem ser úteis no futuro (“Ocorreu a Harry a nítida imagem de uma grande aranha inchada, tecendo a teia em torno dele, torcendo um fio aqui e outro ali para trazer mais perto suas moscas gordas e sumarentas”). Potter, agora com 16 anos, se destaca nas suas aulas ao usar um velho livro paradidático cheio de anotações criativas (e potencialmente perigosas) de um ex-aluno, um “Príncipe mestiço” (que descobriremos tratar-se do próprio Snape), apesar dos avisos de sua amiga Hermione (parece que ele se esqueceu do que acontecera em Harry Potter e A Câmara Secreta).

    Enquanto isso, ele e Dumbledore se ocupam em vasculhar o passado de Lord Voldemort quando era o jovem Tom Riddle e vivera, muito à Dickens, num orfanato (ficamos conhecendo também a sua mãe, que era bruxa, e seu pai, trouxa, que fugira com ela e a abandonara, grávida), e em localizar os objetos nos quais ele concentrou parte de seu ser, as horcruxes (ter tentado destruir uma delas parece ser a causa da ampla mutilação de uma das mãos do grande bruxo). Harry participará, inclusive, de uma incursão em busca de um medalhão antigo numa caverna, cujo clímax será o crime de Snapes.

    Na condição de penúltimo volume, e postado entre dois livros monstruosamente prolixos e vibrantes (A Ordem da Fênix e As Relíquias da Morte), O Enigma do Príncipe parece o mais sem graça de toda a série. O primeiro (A Pedra Filosofal) a apresentava de forma muito bem sucedida, os dois seguintes eram brilhantes (A Câmara Secreta & O Prisioneiro de Azkaban) em termos de fabulação e esgotavam todas as possibilidades de Hogwarts como cenário principal (e na minha opinião ainda constituem seu ponto alto), depois o quarto (O Cálice de Fogo) abria-se para uma visão mais ampla do mundo bruxo (com o torneio internacional, além da copa mundial de quadribol), além de marcar a restauração física de Voldemort, o quinto (A Ordem da Fênix) é o ciclope que conhecemos, e o sétimo (As Relíquias da Morte) um “grand finale”. Apesar de conter o fato mais dramático até então ocorrido, a morte de Dumbledore (além disso, traído ignominiosamente), o que a sexta aventura de Harry Potter oferece?

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    Para começar, tem o início mais inteligente e divertido, entre todos, com o encontro entre o ministro da magia e o ministro trouxa. Além disso, é o único em que há realmente uma excursão aventuresca clássica, ou seja, para um lugar desconhecido (quando Dumbledore e Harry penetram na caverna onde Voldemort escondeu uma das horcruxes), que não seja as dependências ou imediações de Hogwarts ou do Ministério da Magia, talvez o grande momento narrativo do romance. Aliás, o desaparecimento de Dumbledore, que era uma figura perpassada por um sopro poético  (não é à toa que, quando busca Potter na casa dos tios, ele diz a seu protegido de forma shakesperiana: “E agora, Harry, vamos sair para a noite em busca dessa sedutora volúvel, a aventura”) mostra o grande vazio que se abate sobre os heróis: a sucessora é a sempre firme, leal, mas inabalavelmente prosaica Minerva McGonagall (e caberá a Harry preencher o vazio).

    Para os adolescentes (será que só para eles ?), há decerto um charme a mais: pode parecer estranho (e no entanto é totalmente verossímil) que Harry e seus amigos se preocupem com exames, matérias e paixonites e rusgas e picuinhas, com tal ameaça pairando sobre eles. Ou seja, o cotidiano equilibra a sombria atmosfera geral. Esse é o momento das descobertas amorosas (inclusive da paixão de Harry pela, a meu ver, chatinha Ginny Weasley, que substitui em definitivo a anódina Cho Chang), dos beijos, dos amassos, dos ficares e demais rituais da idade. Esse deve ser, aliás, o grande apelo do filme de David Yates (incrementado pela crescente beleza de Daniel Radcliffe e Emma Watson desde o primeiro filmeJ.K. Rowling os captura com precisão. Parece não estar acontecendo nada, e está acontecendo tudo.

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Dumbledore__

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HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE

(resenhas publicadas em 10 e 17 de novembro de 2007)

    Como milhões de pessoas, eu aguardava fervorosamente Harry Potter e As Relíquias da Morte, sete e último volume da série,  oficialmente lançado hoje no Brasil. Não tanto para saber se o Harry viveria ou morreria (e J.K. Rowling maliciosamente brinca com tal expectativa, fazendo o bruxo descobrir que a aparente intenção de seu mentor, Dumbledore, era que ele morresse no confronto com Lord Voldemort; e, em pleno clímax, colocando um capítulo que se passa numa espécie de Além, com Harry debatendo seu destino com o falecido diretor de Hogwarts, o qual fora supostamente assassinado à traição pelo professor Snape, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe), mas para saber se a autora conseguiria amarrar todos os fios de uma trama geral que a cada volume ficava mais intrincada e politizada.

    Saldo de uma leitura febril: tirando os persistentes pequenos defeitos (muita gente acha que a prolixidade é um deles, só que as páginas de Rowling são devoráveis, e ela criou um mundo completo, então…; não, o que mais incomoda é certa obtusidade do protagonista, que insiste em uma atitude burra e às vezes nos aliena do seu ponto-de-vista, que, afinal, domina a narrativa, pois Harry está presente em 99% do texto, à exceção do primeiro capítulo, e muitas vezes isolado do mundo dos bruxos), tudo se cumpre à perfeição e com absoluta habilidade. Só é dispensável inapelavelmente o apêndice onde se dá um salto de 19 anos e que contraria de forma inconvincente o clima mais para pessimista desse livro semeado de perdas: a coruja Edwiges, Olho-Tonto Moody, Professor Lupin e sua esposa, um dos gêmeos Weasley, o elfo Dobby…

    Um dos aspectos mais fortes de Harry Potter e As Relíquias da Morte é a denúncia do totalitarismo que ameaça o mundo na esteira dos acontecimentos do 11 de setembro: a limitação das liberdades, principalmente àqueles que são os Outros. Aliás, já  comentei em outras ocasiões como Rowling entrelaçou de forma magistral o antigo sistema de classes da Inglaterra com o seu mundo de famílias bruxas “sangue puro” as quais têm de engolir a convivência com mestiços e “sangues ruins”, sem falar de outras espécies (elfos, duendes, gigantes).

    Por outro lado, a escolha da moldura da série (os anos escolares da escola de magia de Hogwarts) não podia ter sido mais feliz, pois permitiu que se acompanhasse o desenvolvimento do personagem desde seus 11 anos, com as rivalidades, anseios e rebeldias da passagem pela adolescência. Por isso, embora a maior parte da narrativa transcorra longe de Hogwarts (Harry, Hermione e Rony saem pela Inglaterra numa peregrinação em busca das Horscruxes que contêm, cada uma, uma parcela da alma de Voldemort, para destruí-las, com escassas pistas; ao mesmo tempo, são proscritos da “nova ordem mundial” dos bruxos, e ainda ficam sabendo da existência de três “relíquias da morte”: uma varinha invencível, uma pedra ressuscitadora e a já famosa capa de invisibilidade, que Harry herdou do pai no primeiro volume da série), é mais do que justo que seja  ali, o lugar que o portador d cicatriz tem como seu verdadeiro lar, o palco do embate final entre Lord Voldemort e seus Comensais da Morte e Harry e a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore, após a história começar como de praxe, com o aniversário de Harry, quando ele completa 17 anos e perde o feitiço de proteção que o resguarda e portanto se torna suscetível de ser morto com sucesso pelo Bruxo das Trevas.

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O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, número 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.”

    Desde a publicação, há 10 anos, do livro (Harry Potter e A Pedra Filosofal, 1997) que se abria com a frase acima, os sete volumes da série não só encantaram milhões de pessoas, entre elas o autor deste artigo, mas também foram progressivamente configurando um universo completo, “mobiliado” (para utilizar uma expressão de Umberto Eco), auto-suficiente em termos ficcionais.

    J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e adolescentes: a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (principalmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso. Foi ótimo que os jovens gostassem de uma coisa tão boa, tão inventiva. Só que os leitores adultos tiveram também um quinhão apreciável desse prazer inesperado. Quando surgiu o Harry da pedra filosofal foi preenchido um vácuo no mundo da fabulação: entre o infantil e o adulto nada havia, a não ser os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais/meio-visão debilóide da vida, pós Spielberg & Lucas.

    Podia ser um feliz acaso. Veio o segundo (talvez o mais impressionante de todos), Harry Potter e A Câmara Secreta, reafirmando as qualidades do anterior e permeado por um suspense incrível, até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

    Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do próximo, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho, que se disfarçava no rato Perebas), o leque se abre, os finais tornam-se inconclusos, exigindo continuação, o que fica mais claro ainda em Harry Potter e O Cálice de Fogo, no qual a macro-narrativa (a guerra entre o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio) que percorre a série delineia-se nitidamente, o que exigirá volumes de fôlego de forma a sustentar convincentemente o clímax, Harry Potter e As Relíquias da Morte.

    Na seção anterior, salientei seu lado mais politizado, a denúncia da limitação das liberdades civis, devido a uma ameaça latente ou efetiva. O que é preciso enfatizar realmente é que o dado mais preocupante reside no fato de que Lord Voldemort, com toda a sua maldade e megalomania, apenas serve como elemento catalisador de preconceitos, intolerâncias e desigualdades subjacentes à sociedade dos bruxos. Ele não perverte essa sociedade, e sim expõe o seu lado mais feio e desagradável, tão revoltante como a indiferença e estupidez do casal “trouxa” Dursley no início da história (aliás, Rowling redime o filho deles, Duda, da sua excessiva sanha caricatural neste seu adeus à série). E com que rapidez o Ministério da Magia reage, limitando ou anulando direitos civis, e transformando indivíduos em “indesejáveis” ao regime, não tanto num passe de mágica, mas através de decretos arbitrários e expurgos! Provavelmente esse fator, mais do que a extensão, é que propiciou o clima opressivo dos três últimos volumes, além da habilidosa redução do ponto-de-vista narrativo, que faz com que tudo fique ainda mais aflitivo.

    Por outro lado, entre as muitas qualidades de Harry Potter e As Relíquias Sagradas, não se poderia deixar de destacar a justiça que o livro faz a dois personagens essenciais à trama (é verdade também que a adorável Sra. Weasley tem seu momento de glória ao duelar com a perversa Belatriz): o professor Snape e Neville Longbottom.

    Snape é um dos personagens de trajetória mais bem urdidas dentro da série, em razão da ambigüidade que cerca seu posicionamento, e isso até o fim, quando Harry descobre o porquê dos seus atos (seu amor por Lílian Potter) e a combinação entre ele e Dumbledore (acometido por uma doença terminal) para tirar o máximo efeito possível de um pretenso assassinato (propiciando ao diretor da Sonserina reaproximar-se de Voldemort), num dos capítulos-chaves do romance, o quase elegíaco “A história do príncipe”. O que torna efetivamente trágica a figura de Snape e o redime de todos os desagradáveis confrontos anteriores com Harry é que este fica sabendo da verdade após testemunhar a morte do seu professor mais detestado (ou seja, quando a vida deste transformou-se em destino) por ordem de Voldemort, o qual acredita ser indispensável sacrificar seu “colaborador” para possuir de fato uma das três “relíquias da morte” (como se vê, tudo é muito bem amarrado).

    Já a figura de Neville cresceu junto com a série: era o gordinho desajeitado, objeto de risotas e peças de mau gosto, servindo um pouco de alívio cômico, e aos pouquinhos (muito aos pouquinhos, discretamente) foi mudando e afirmando-se; também ficamos sabendo do passado terrível de sua família, e houve até a possibilidade de que ele fosse o predestinado, ao invés de Harry (como se aventou em Harry Potter e A Ordem da Fênix). Pois na volta de Harry, Rony e Hermione a Hogwarts, após centenas de páginas, descobrimos que ele é o líder da resistência a Voldemort na escola, o que levará ao desenlace (a batalha entre os dois lados), no qual ele estará ao lado do protagonista (cumprindo de certa forma a enviesada profecia) no momento crucial, em que tudo se decide.

 

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05/06/2009

livros que viram filmes: O perfume, O leitor

Arquivado em: os livros e suas adaptações — alfredomonte @ 16:48
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                   O CHEIRO DA HUMANIDADE

 O PERFUME

    Com a transposição de O perfume para o cinema, uma revisão do romance de Patrick Süskind, após vinte anos, mostra que ele resistiu bem ao tempo.

    Como se sabe, a narrativa transcorre na França pré-revolucionária do século XVIII e seu protagonista, Jean-Baptiste Grenouille, nasce com extraordinária capacidade olfativa e cheiro algum. Isso causa repulsa nas pessoas à sua volta, até que ele, com sua incrível pertinácia em sobreviver (o narrador o compara a um carrapato que se agarrasse teimosamente à existência), e após um período de aprendizado como perfumista, consegue criar um perfume com o qual emula o odor humano (e cuja base nada mais é do que a mistura de bosta de gato com queijo rançoso). Indiferente a tudo, alheio a qualquer noção de moral ou do código social (a não ser naquilo que lhe seja conveniente), a única coisa que inebria Grenouille é o perfume exalado pelas meninas virgens. Por isso, ele executa uma série de assassinatos (25 ao todo), através dos quais extrairá a fragrância que o faria amado por todos.

    Mesmo com um enredo engenhoso desses, a característica imediatamente memorável de O perfume é o estilo de Süskind. Assim como Grenouille com relação ao cheiro da humanidade, o autor alemão consegue emular a leveza irônica e corrosiva dos autores setecentistas sem cair no anacronismo ou nos cacoetes do “romance histórico”. Um exemplo, entre tantos, é a passagem em que se descreve a maceração de flores: “Druot… fazia uma sopa cremosa de sebo de porco e de gado num grande caldeirão, no qual…jogava as mancheias de flores frescas. Com olhos mortalmente assustadas, elas jaziam por um segundo à superfície e murchavam instantaneamente, já que a longa espátula as empurrava para baixo e a banha quente as recobria. E quase no mesmo instante já estavam pálidas e abatidas, sobrevindo-lhes a morte tão rapidamente que não lhes restava nenhuma outra escolha senão entregar seu último suspiro aromático exatamente àquele meio que as sufocava… não eram as flores mortas que continuavam cheirando na gordura, não, era a própria gordura que se apropriava do perfume das flores (…) a maior parte do aroma, a alma de um mar de flores, ficara no caldeirão, aprisionada e resguardada na gordura cinza-clara, de medíocre aparência e que agora lentamente ia se solidificando.”

    Junte-se isso a personagens retratadas, em seus ridículos, quase com a verve de um Eça de Queiroz, e a passagens marcantes, que permaneceram 20 anos na memória (entre elas, a azarada—como todas as pessoas que entram em contato com Grenouille—sina da ama que o cria e que junta dinheiro para ter uma morte confortável, contudo sobrevém a Revolução e o capital se desvaloriza, com a mudança da moeda, e ela acaba agonizando numa cama coletiva; o período de sete anos em que Grenouille se esconde numa caverna e que é uma cruel contrafação das asceses místicas; o inesquecível momento da sua execução, em que utiliza o perfume extraído das virgens; e, é claro, o final, quer pela cena em si, quer pela derradeira frase do romance), teremos –numa analogia perfumística—um best seller que não se volatilizou como uma essência agradável e efêmera, após sumir da lista dos mais vendidos.

    Bizarro é o fato de as pessoas se horrorizarem com a figura e os crimes de Grenouille e, no entanto, viverem perfumando-se e utilizando loções, cremes, xampus, condicionadores e desodorantes lançados no mercado após testes que causam sofrimento indizível às mais diversas espécies de animais, torturadas diariamente em laboratórios. Não é à toa que o misantropo visionário olfativo acaba não vendo sentido em se fazer amar por uma humanidade assim.

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serviço: O perfume (Das parfum, Alemanha: 1985), de Patrick Süskind. Tradução de Flávio Kothe. Editora Record. 256 págs (resenha publicada em 20 de janeiro de 2007)

 

O que o senhor teria feito?”

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Uma trama como a de O leitor (cuja adaptação, a qual concorre a vários Oscars, incluindo melhor filme, foi dirigida por Stephen Daldry, responsável pelos competentes Billy Eliott e As horas) já apresenta de imediato um trunfo: uma personagem feminina enigmática e intensa que obseda o narrador em primeira pessoa e que mesmo não ocupando o centro do palco é a alma da história.

A Hanna do romance de Bernhard Schlink sob esse aspecto (e apesar das diferenças) pode ser vista como irmã da Capitu (de Dom Casmurro), da Sofia (de A escolha de Sofia, de William Styron, belíssimo romance que está completando agora em 2009 trinta anos), da Sarah (de Fim de caso, de Graham Greene), até mesmo da Macabéa (de A hora da estrela), entre outras. Não é à toa que a grande Kate Winslet mereceu tantos prêmios (e pode ganhar o Oscar) ao interpretar a cobradora de bonde de que mantém relações sexuais durante meses com um adolescente, Michael Berg, até sumir misteriosamente.

Poucos anos depois, quando Berg participa (como estudante de direito) de um caso onde são julgados criminosos menores do Nazismo, ele a reconhece entre os acusados: é a mais visada de um grupo de carcereiras de um campo de concentração, sendo vista como a líder e sobre quem recai a mais severa sentença.

O narrador sabe de um segredo que não inocentaria Hanna (que se mostra irredutível em não o revelar), mas que a isentaria da pecha de arrogância, desfazendo a impressão de liderança. Esse segredo tem a ver com o título e o papel que Berg ocupou e ocupará na vida de Hanna (ela é analfabeta, embora nunca o admita, e o faz ler os mais variados texto para ela, entre eles Guerra e Paz, antes dos rituais amorosos; quando ela está cumprindo pena, ele envia fitas com gravações de leituras, ainda que não queira ter contato direto com ela, a não ser perto do final).

Uma mulher que no fundo é uma vítima estúpida de um sistema que ela não tem meios de entender, preocupada em não expor as suas fraquezas, endurecida: obedecia às ordens, executava tarefas monstruosas, nunca teve domínio sobre sua própria vida e nunca compreendeu (a não ser anos depois) as linhas de força que a levaram a ser uma criminosa de guerra. O momento memorável do livro é quando o juiz a interpela quanto aos atos de que é acusada e ela, singelamente, pergunta a ele: “O que o senhor teria feito?”. Como comenta o seu ex-amante: “Ela não sabia o que devia ter feito de diferente, e por isso queria ouvir do juiz, que parecia saber tudo, o que ele teria feito”. E nós, o que teríamos feito? Porque, de fato, esse é o ponto: o que fazer quando é legalmente possível agir como um monstro, e ainda nem se saber que se está cometendo monstruosidades?

Se Hanna é o trunfo e a força de O leitor, Berg é o seu calcanhar-de-aquiles. Nos livros que mostram uma figura feminina fascinante, o relato extrai seu poder do fato de que o narrador acaba se revelando na medida em que se debruça sobre o feitiço da mulher sobre ele, Bentinho que o diga.

Berg anestesia o leitor de qualquer empatia, e sempre que Hanna sai de cena o relato se arrasta, adota um tom abafado, amorfo, principalmente porque ele nunca aprofunda colocações, experiências; às vezes temos o começo de uma reflexão que tem tudo para ser maravilhosa, e logo é truncada e se passa para o próximo item. Um exemplo: “… não quero ocultar a libertação que devo ao mergulho em direção ao passado, cuja significação para o presente é restrita. A primeira vez que a senti foi quando fazia um estudo sobre os códigos legais e seu delineamento no Iluminismo. Eram baseados na crença de que existe no mundo uma boa ordem, de que o mundo pode ser conduzido à boa ordem. Era uma felicidade, para mim, ver como os artigos do código penal foram produzidos como guardiões solenes da boa ordem, transformando-as em leis que se esforçavam por ser belas e, com sua beleza, dar provas de sua verdade. Durante muito tempo acreditei que há um progresso na história do direito, apesar de terríveis retrocessos… um desenvolvimento em direção à maior beleza e à verdade, à racionalidade e à humanidade. Desde que me ficou claro o fato de tal crença ser uma quimera, trabalho com outra imagem do percurso da história do direito. Nessa imagem, o percurso ainda se orienta para uma meta, mas a meta de que se aproxima, após diversos abalos, desorientações e fanatismos, é o seu próprio ponto de partida, de onde, assim que o alcança, precisa partir novamente.” E daí? Como isso se relaciona com as experiências relatadas? O que isso tem a ver com a presença de Hanna na vida dele?

Dizem que o texto de Schlink é “límpido”. Parece mais é medroso, optando por uma “limpeza” superficial. De fato, há um comentário esdrúxulo (retirado, vejam vocês, do The New York Times Book Rewiew), na capa de trás, dizendo que “fala direto ao coração”. Sem contar a besteira que uma afirmação dessas representa, só temos algo direto no coração quando Hanna irrompe com a sua verdade, que é também o seu enigma. Um narrador tão desinteressante não merece uma mulher como ela.

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Serviço: O leitor (“Der Vorleser”, Alemanha: 1995), de Bernhard Schlink. Trad. Pedro Süssekind. Record.  239 págs. (resenha publicada em 21 de fevereiro de 2009)

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