MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/08/2014

“Virose” e o plano de deus para Lucas Barroso

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“O dia estava morrendo, um dia de que sequer lembraria. Um dia que não somaria nada à minha vida. Girei a chave com a intenção de não fazer barulho. Caminhei sorrateiramente em direção ao interruptor. Quando acendi a luz, minha mãe estava na sala, sentada no sofá.

__ Meu filho, estava preocupada com você. Tive um mau pressentimento. Você está bem?

    Não sabia responder. Me contive em observá-la. Em ter pena dela e de mim. Um sentimento idêntico para ambos. O que tínhamos feito, afinal, para sermos dignos de tanta pena?”

“Mas essa bagunça, essa maçaroca de tipos de acontecimentos chegou ao fim,  era muito cansativo ter que organizar a cabeça nesse mar de fatos. Não tinha um norte, uma linha a seguir.”

“Então, muitos acreditam em Deus. Eu apenas aumento o volume da televisão.”

(trechos de Virose)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de agosto de 2014)

Um homem é assassinado numa pizzaria, crime encomendado por sua companheira; um entregador com um membro de 30 cm, que nunca conseguira ereção com mulher alguma, encontra o amor com uma solitária, excessivamente dedicada ao trabalho secretária obesa; o funcionário de uma empresa de energia tem de cortar o fornecimento de uma família, da qual o pai não consegue parar em emprego, a mãe se chapa com medicações tarja preta e o filho fica diante da tela da tevê o dia inteiro; um velho funcionário subalterno, num daqueles periódicos “choques de gestão” (ou reengenharia, ou qualquer modismo do tipo), é cortado do quadro da empresa, pira e chacina os seus antigos chefes, reunidos numa confraternização; um magnata da área da informática, famoso pela filantropia, é o chefão do submundo da destinação ilícita do lixo; um vírus  apelidado de “gripe suína” transforma-se numa pandemia mortífera, alastrando-se pelo território do país…

Virose poderia ser uma coletânea de contos. Seria normal para uma estreia literária. Ambicioso, Lucas Barroso preferiu urdir um romance[1], explorando a vertente muito contemporânea dos seis graus de separação, em livros (Extremamente alto e incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer), filmes (Babel, Magnólia, Crash-No Limite, 360) e até seriados (Touch, com Kiefer Sutherland): a concepção, efetivada em termos de fabulação, de que as vidas individuais estão mais interligadas do que supõe nossa vã filosofia; e de que nenhum ato é gratuito, sem consequências, mesmo que inimagináveis para a pessoa fechada em seu mundinho próprio[2].

Nessa perspectiva, existências “se tocam” em Virose: por exemplo, o velho demitido é vítima das decisões do chefão da máfia do lixo; na cadeia, divide cela com o assassino da pizzaria. Certas frases reaparecem como refrões irônicos desses caminhos da providência, do plano de Deus: “as pessoas que não fazem dívidas não adquirem nada na vida”.

Um ponto que argamassa essas histórias: a maioria vira “noticiário” (mesmo os que não são notícia, transitam à volta do jornal que os veicula, como a secretária obesa e o entregador bem-dotado) nas mãos do único narrador em primeira pessoa dos 21 capítulos do romance, um jornalista “pau pra toda obra”, cobrindo todo tipo de matéria, e dando a cada uma delas o mesmo tratamento anódino, padronizado. De repente, é demitido também, contraindo uma vaga virose (como aquelas que estão  cotidianamente sendo diagnosticadas, mas não identificadas, de tal forma que viraram até piada pronta) que pode ser a mesma da pandemia, mas seus sintomas se traduzem mais numa paralisia da vontade, numa anomia: isolado no apartamento, sua única convivência próxima é com a mãe já morta, enquanto tem a expectativa de ser parte de uma contabilidade fatal:  “Quanto mais durmo, mais tenho sono… planejo ações que não pretendo realizar tão cedo. A vida é assim mesmo, a vida é assim… Minha mãe debate amenidades ou simplesmente me conta o que se passa na rua, nas horas que estou de olhos e ouvidos fechados. Minha mãe, agora, é minha consciência. Minha mãe faleceu há algum tempo (…) Mesmo não tendo uma rotina, sinto-me exausto… Ligo o computador e me atualizo um pouco…busco alguma companhia real: uma mulher, um amigo, um inimigo, tanto faz. Jogo conversa fora sem falar, sem sair da sala de estar. Discuto e me revolto sem me levantar da cadeira (…) Posso fazer parte de um grupo de risco, que não pode sair do hospital, de casa, de uma solitária. Posso desencadear uma peste ou derrubar um homem para sempre. Que lástima, como isso aconteceu? Ainda não tenho um diagnóstico. ..Minha vida estava em risco. Eu era notícia,um jornalista que poderia fazer parte da estatística, mais um número, talvez, mais um morto a ser inserido no balanço final. Quem escreveria minha história?”

Lucas Barroso é muito feliz na caracterização da “virose” de um jornalista que, encampando tantas histórias de vidas alheias, não se sente capaz de dar maior significado a elas[3] (por isso, nada mais natural do que a presença da falecida mãe: o mundo exterior se tornou fantasmático, virtual—e nesse mosaico “seis graus de separação” sua existência é a que não toca nenhuma outra[4]), a não ser colorindo-as de um falso verniz literário (é por isso que o romance começa—e isso não deve afugentar o possível leitor—da maneira mais fake possível, com diálogos inverossímeis entre o matador e sua vítima) quando não as desidrata no jargão associated press, nivelando o trágico, o exótico e o bizarro numa mesma miscelânea.

Já o acho menos bem-sucedido ao caracterizar a pandemia, narrada de forma ao mesmo tempo exagerada (fica parecendo um evento The walking dead) e truncada, mais uma sinopse do que um relato. Mais ainda: ele não consegue mesclar as duas “viroses”[5], o que seria crucial para as linhas de força de seu romance tão promissor, apesar dessa falha grave e de pequenos deslizes e arrefecimentos no seu texto, que se caracteriza, no geral, pelo uso austero e controlado (às vezes, por demais) da linguagem.

Assim como outros jovens escritores (como Javier Arancibia Contreras e Vinícius Jatobá), ele revitaliza os veios do expressionismo e do existencialismo; grosso modo, o mal-estar que envolve estar vivo numa sociedade tão desigual. Afinal, como desabafou seu conterrâneo Antônio Xerxenesky (cujo F comentei semana passada): “Depois de muito ter chafurdado na metaficção, deixei de lado esses recursos (…) Essa coisa de ficar escrevendo sobre o ato de escrever cansa – e muito!”. Já era tempo.

Acredito piamente que Deus tem um plano para Lucas Barroso como escritor.

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NOTAS

[1] Que ganhou uma boa edição (pela Bartlebee)—destaque para a capa com uma expressiva foto de Ramiro Furquim.

[2] VER: http://armonte.wordpress.com/2013/01/29/onze-de-bernardo-carvalho-o-mestre-de-paul-thomas-anderson-e-os-seis-graus-de-separacao/

[3] “(…) escrevo cinco matérias por turno e raramente ponho os meus pés na rua…”

[4] Pois mesmo as arestas, os aspectos desconfortáveis e risíveis (ainda que irrisórios) do dia a dia, não impedem que outros personagens procurem romper seu isolamento, como exemplifica a seguinte passagem: “Sabe-se lá a razão, mas com a obesinha, o motoboy, que tinha um pau de trinta centímetros, nunca broxou. Namoraram, casaram, tiveram filhos. Ele, no fundo, tinha um pouco  de vergonha dela.  Principalmente quando ia a jantares na casa de familiares e amigos. Ela também tinha vergonha da profissão e do rosto marcado dele. Principalmente quando conversava com familiares e amigas. De qualquer forma, ambos foram feitos um para o outro, gostavam-se.”

[5] A “virose” mais existencial (ao mesmo tempo, muito “social”) do jornalista também acomete outros personagens, como o assassino da pizzaria: “Conseguiu, depois de dois meses, uma vaga no departamento de lixo da cidade. Sentia-se humilhado por ter de enfiar a mão nos restos, na merda das pessoas, todo o dia. Doía ter que reciclar toda aquela imundície. Separar o que era orgânico do que era seco. O dia encerrava e ele sempre estava cansado, acabado. Como se contagiado por uma virose, que o prostrava mais e mais em sua solidão…” Neste trecho, insinua-se um dos pontos contraditórios e não inteiramente resolvidos de Virose: relatórios esquemáticos sobre a trajetória dos personagens—por vezes, esquemáticos em excesso; em contrapartida, transmitindo sucintamente a uniformidade que é uma praga contemporânea tão mortal quanto qualquer pandemia.

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12/08/2014

O tempo que, apesar dos espelhos, caminha em uma única direção: o inquietante “F”, de Antônio Xerxenesky

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“Inúmeras coisas aconteceram, e não entendo a relação entre elas. Não consigo avaliar o princípio nem o rumo que os acontecimentos estão tomando. No final das contas, praticamente fui envolvida nisso sem saber…”  (“1Q84- Livro 3”)

“Por alguns dias, escutei Bruce Springsteen, este americano tão americano, um músico mais afeito às guitarras do que aos sintetizadores, um roqueiro à moda antiga, e pensei nas possibilidades de vida que se espraiavam diante de meus olhos, ainda mais com tanto dinheiro para gastar (…) para não precisar me preocupar com o assunto por meses, um tempo para apreciar o ócio e as tardes inúteis, um tempo para assistir a mais filmes (…) e por dias posso me dedicar apenas a percorrer Los Angeles de carro ou a pé, fingindo que sou uma turista sem rumo ou mapa, enxergar a luz das cinco da tarde sem óculos escuros, com os olhos curiosos de quem nunca viu o sol.” (“F”)

“Não tinha para onde voltar, e não tinha para onde ir, pois todo lugar é qualquer lugar.” (“F”)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de agosto de 2014)

Na Granta-Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros (2012), seleção de textos de 20 ficcionistas nascidos a partir de 1972, um dos destaques incontestáveis era F para Welles, excelente amostra de um romance em preparação, criando enorme expectativa[1]. No ano em que seu autor, Antônio Xerxenesky, completa 30 anos, enfim aparece F.

Assim como o badalado (e recém-traduzido) 1Q84, de Haruki Murakami, o relato tem como protagonista uma peculiar assassina de aluguel agindo em meados da década de 1980: aos 25 anos, Ana já tem reputação assegurada na área das execuções. A sua próxima vítima é o septuagenário Orson Welles, lenda viva do cinema que nem assim consegue financiamento para levar a cabo seus projetos: o último foi o incompreendido e inovador F for Fake (aqui no Brasil, Verdades e Mentiras), de 1973.

Como faz todas as vezes, ela procura conhecer minuciosamente o alvo, por isso mergulha na obra do diretor de Cidadão Kane, a princípio não se impressionando nem um pouco. Até que um dia recebe o impacto tardio de uma das imagens daquele incensado filme, realizado aos 25 anos (para a desgraça futura do seu realizador): abandonado pela esposa, isolado e obsessivo, Kane atravessa “um corredor que tem espelhos nas duas paredes. Ao passar pelos espelhos, o reflexo de um reflete o do outro, gerando uma continuidade de imagens que prossegue até o infinito.” É o signo do sombrio e tortuoso processo que fará Ana se dar conta do que é viver no pós-tudo, principalmente ao conviver com Welles em Los Angeles, como suposta assistente de uma nova produção dele (baseada em Os sonhadores, de Isak Dinesen/Karen Blixen, onde uma mulher se multiplica em várias imagens para homens diferentes[2]): mais do que qualquer outra coisa, começa a desejar que ele consiga concluir o projeto, e desiste de eliminá-lo, embora no final acabe levando o crédito por sua morte…

Como esse avatar de assassina era até aí a sua “identidade”[3], que a defendia de memórias terríveis (o pai não só colaborou com a ditadura brasileira, aperfeiçoando máquinas para a tortura de presos políticos, como também abusava da outra filha, Lúcia), pouco movida por qualquer ideologia—embora seu treinamento inicial tivesse ocorrido em Cuba—, Ana tateia um mundo à volta cada vez mais fantasmático e perigosamente dissolvente, uma (ir) realidade onde começam a intervir irreversivelmente a batida eletrônica, as drogas sintéticas, a computação (todo o território da virtualidade) — os resultados de certas rupturas revolucionárias na estética e na percepção, como o modo de editar imagens realizado por Welles em F for Fake (antecipador do videoclipe), ou o som do Joy Division:

  “Sem acreditar em céu ou inferno, só me restava acreditar que, com minha morte, o mundo acabaria. Orson Welles não existiria, nem seu filme novo, nem Antoine, nem a boate, nem a música. A música por sinal era Isolation, do Joy Division, e me perguntei se Ian Curtis, antes de se enforcar no varal, tivera a revelação que estava definindo o som do futuro; que, assim como os Lumière definiram a mídia do século, e assim como Welles tinha inventado uma nova maneira de editar e estrutura um filme com F for Fake, Ian previra a música dos anos 80, o ruído e o silêncio, a distorção da guitarra coexistindo com a artificialidade noturna do sintetizador, e a sua voz—grave, em todos os sentidos—era uma mensageira que transportava um recado muito específico, uma mensagem de autodestruição, uma mensagem de morte. E então, enforcou-se no varal onde pendurava as fraldas de sua filha pequena (…) Porém, para Antoine, eu estava errada, Joy Division não tinha nada a ver com o som do futuro. Ele se identificava com o New Order, a banda formada pelos remanescentes do Joy Division, a banda interessada em deixar para trás o clima soturno e criar hits de pista. Bastava escutar com mais atenção algumas faixas do New Order, no entanto, para captar, preso em um acorde menor o fantasma de Ian Curtis, um espectro que, apostava Antoine, a banda precisava expulsar (…) Ele ignora, portanto, que a chaminé do crematório espalhou por toda Manchester—por todo o Ocidente—uma fumaça nascida dos restos mortais de Ian Curtis, que ninguém se livraria dele, muito menos os companheiros de banda que tanto conviveram com o rapaz saturnino [...que...] tinha aberto um furo de alfinete no tecido da existência e olhado através dele, e pelo buraco enxergou o som do futuro, e enxergou o futuro, que é a morte. Someone take these dreams away/that point me to another day, ele pede, mas não será atendido, os sonhos continuarão apontando para um passado que não está mais lá, e não há retorno possível, o tempo caminha apenas em uma direção, rumo ao futuro, o futuro que ele profetizou, e o futuro, repito—mas repetições nunca são o bastante—, o futuro é a morte.”

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O F do título seria então de fake, o falso, a impostura, os pastiches que se tornaram tão lucrativos na indústria cultural como um todo, e cada vez mais reivindicados pelos próprios artistas? Seria F de futuro, afinal o Brasil de 1985 saía da ditadura, ainda como o “país do Futuro” (em contraponto com aquele futuro à Ian Curtis, vocalista do Joy Division, sintonizado com o aniquilamento melancólico; ou ainda uma visão do futuro, como a sugerida por uma carta do inquieto tio de Ana, em que as cidades do mundo se uniformizam de forma a mal se distinguirem umas das outras[4])? É uma questão em aberto, e é quase irresistível seguir esse caminho (como já o fez Paulo Roberto Pires na orelha da edição da Rocco)[5].

De todo modo, ao contrário da frágil fábula (outro F) levada a cabo pelo colega japonês, favoritíssimo ao Nobel , em 1Q84(tido como um dos livros da nossa época; a meu ver, fake em demasia para tanto), o romance de Xerxenesky mostra que uma ficção (mais um F) bem urdida e consistente pode ser construída a partir de elementos aparentemente gratuitos, disparatados e até mesmo inconciliáveis. Aliás, o autor gaúcho vem preencher a lacuna deixada pela morte, em 2002, de Roberto Drummond (penso em livros, justamente dos anos 80, como Sangue de coca-cola; Hitler manda lembranças ou Ontem à noite era sexta-feira). Nem sei se Xerxenesky é leitor ou fã do criador de Hilda Furacão, entretanto a incorporação de elementos pop na essência da narrativa é algo notável nos dois, orgânica e profunda, e sobretudo muito rara[6].

Também não sei se era sua intenção a impressionante apreensão de um fracionamento imaginativo (a partir justamente das coordenadas cada vez mais fortes do universo pop) que tem mais a ver, talvez, com a minha geração, a dos nascidos em 1960[7].  E a criação da “voz” da narradora é um feito à parte, como amiúde insisto nesta coluna. Ter conseguido plasmar a linguagem dessa personagem é uma prova de que Xerxenesky já não merece ser visto como “jovem promessa”: está em plena posse da maturidade como escritor. Como Flaubert, ele poderá dizer , sem complexo de vira-lata: “Ana c´est moi”[8]. E ela é um pouco todos nós também, perdidos neste mundo contemporâneo e (para usar ainda um F) fugidio.

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Artigo F

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NOTAS

[1] VER aqui no blog: http://armonte.wordpress.com/2012/11/13/sobre-a-granta-e-os-melhores-jovens-escritores/. Só que, embora tenha adorado o trecho antecipado na Granta, equivoquei-me ao considerá-lo pelo prisma “leve e divertido”, que não faz totalmente jus ao romance.

[2] A capa da edição da Rocco com o formato gráfico do F do título lembrando os letreiros finais da série Bourne (na qual o protagonista não sabe exatamente qual a sua identidade, assumindo várias como assassino governamental, depois trânsfuga) também nos coloca no caminho dessa multiplicação incessante.

[3] Que ela encontra “espelhada” em produções cinematográficas: “Na videolocadora, me deparei com um filme que me chamou a atenção pelo nome. Crente de que era uma obra situada no Japão feudal, tirei da prateleira a fita O samurai, de Jean-Pierre Melville, a história de um sujeito estoico que mora em um minúsculo apartamento em Paris e ganha a vida como assassino por encomenda. A partir daí desenvolvi uma curiosidade por todo e qualquer filme cujo protagonista é um matador de aluguel (…) Mas o mais curioso é que quase todos os filmes retratam o assassino à moda de Melville, ou seja, um tio frio e durão, que esconde sentimentos enterrados em uma profundidade inalcançável. Outsiders, pessoas que não funcionam em sociedade. Assistia a filmes de assassinos de forma compulsiva, mas não me identificava com nenhum.”

[4] “… não faço ideia de onde estarei quando você sentar à mesa para redigir uma resposta. Espero que não em Seul: muitos carros, muito ruído (…) Meu medo é de que todas as cidades, daqui a uns cinquenta anos, transformem-se em réplicas de Los Angeles. E pensar que eu adorava Los Angeles.”

[5] Como [ressalvadas as muitas diferenças] outro título ancorado numa letra (ou inicial) “desdobrável” ou refletida em muitas imagens: V., de Thomas Pynchon, no qual podemos ler: “O que são umas coxas abertas para o libertino, o voo das aves migratórias para o ornitólogo, a parte móvel da ferramenta para o mecânico de produção, assim era a letra V para o jovem Stencil. Sonhava talvez uma vez por semana que fora tudo um sonho, e que agora estava desperto ia descobrir que a busca de V. era apenas uma pesquisa escolar afinal, uma aventura da mente, na tradição do Ramo de Ouro ou da Deusa Branca”.

[6] Sim, porque mais comum é: ou o autor “pós-moderno” enxerta informação “eruditas”, que parecem tiradas diretamente do google, como fizeram tanto Rubem Fonseca nos seus piores momentos como também seus seguidores; ou o autor tenta fazer o mesmo com um referencial mais pop, como fizeram tanto Bret Easton Ellis nos seus piores momentos como milhares de outros.

[7] Que tanto se formou com as realizações “vanguardistas” da época e ao mesmo tempo com “enlatados” televisivos como Além da Imaginação, naquela ruptura de padrões culturais estanques que caracteriza em certa medida o triunfo da chamada pós-modernidade.

[8] Afinal, estamos num universo de obsessivos que não seria estranho ao autor de Madame Bovary. Como diz Welles a Ana, “a obsessão exige muito do corpo do homem, não é fácil manter uma obsessão”. Ana descobrirá na carne o que é percorrer esse caminho.

Sobre Welles, aqui no blog, VER: http://armonte.wordpress.com/2013/03/29/longe-da-fronteira-a-marca-da-maldade-o-romance/

Sobre Murakami e 1Q84, VER:

http://armonte.wordpress.com/2014/01/21/lua-de-papel-1q84-de-murakami/

http://armonte.wordpress.com/2014/01/28/1q84-livro-3-de-murakami-a-poltrona-vagabunda-seduz-mais-que-a-sabedoria-da-coruja/ 

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25/07/2014

O SORRISO DO LAGARTO 25 anos depois

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de julho de 2014);

(VER também no “Letras in.verso e re.verso” de 23 de julho de 2014:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/07/relendo-o-sorriso-do-lagarto-25-anos.html)

Há 25 anos, João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) lançava O sorriso do lagarto, e parecia-me naquele momento — juízo que prevaleceu durante certa fase (ratificado com o aparecimento de “O feitiço da Ilha do Pavão, de 1997 e “A casa dos budas ditosos”, de 1999) — a indicação clara de que o outrora grande prosador baiano estava pendendo para o comercial, no sentido de aclimatar fórmulas do best seller internacional standard, numa mistura de triângulo amoroso com elementos de ficção científica e suspense (não faltavam nem cenas clichês como a da conversa entre o herói e o cientista-vilão, quando este explica seus planos para o adversário que tentava desvendá-los). De fato, as vendas foram expressivas e houve até uma adaptação televisiva, onde todos os elementos folhetinescos eram realçados até a caricatura.

A prevenção talvez fosse fruto do impacto da leitura de alguns de seus primeiros títulos: “Sargento Getúlio (publicado quando ele tinha apenas 30 anos, em 1971), uma das obras-primas fundamentais do romance brasileiro, assim como o menos conhecido “Vila Real, de 1979, bem como duas extraordinárias coletâneas de contos, “Vencecavalo e o outro povo” (1974) e “Livro de histórias” (1981).

Ainda hoje os considero as joias da coroa do reinado ubaldiano, com sua mescla genial de fabulação, experimentação linguística (o uso da língua em João Ubaldo Ribeiro é um caso à parte) [1] e escavação de certa mentalidade (aquela definida, para o bem e para o mal, como o atraso nacional).

Devo reconhecer que sou minoria: a maior parte dos leitores e críticos celebra “Viva o povo brasileiro” (1984) como obra maior. Para mim (pelo menos enquanto não faço uma releitura), esse romance ciclópico iniciou a “diluição” agravada pelos títulos posteriores, impressão (ou equívoco) que pode ser consequência do Zeitgeist, do espírito daquele tempo, a desilusão com a chamada Nova República (civil, porém espúria, acordo de caciques, numa eleição indireta): alguns leitores[2], entre os quais me incluo, consideraram certos romances com fôlego épico, “histórias de fundação” da identidade nacional, mais ou menos explícitas (além do livro de João Ubaldo, “A república dos sonhos”, de Nélida Piñon, e “Tocaia Grande”, de Jorge Amado, seriam outros fortes exemplos) como empreendimentos ficcionais legitimadores de um ufanismo carente de base, um tanto quanto fabricado[3].

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Em 2002, porém, apareceu o surpreendente “Diário do farol, com seu narrador insidioso, ominoso, terrível, e os pesos e as medidas tiveram de ser reavaliados. Saudando a volta do “verdadeiro” João Ubaldo (a essa altura, adorado por milhares de leitores de suas crônicas), impossível não rever juízos anteriores. Assim, na esteira do choque com sua morte súbita, resolvi reler o romance de um quarto de século atrás, encantando-me com o seu vigor e sua oportuna atualidade.

Em O sorriso do lagarto, se por um lado se atenua aquela ousadia experimental do início, há um domínio da técnica narrativa tradicional que se torna mais admirável ainda pelo que apresenta de especulação nos domínios da ciência, algo raro na nossa alta ficção, e que adquiriu um “quê” de profético (lembremos que o romance apareceu bem antes dos “Arquivos X, da onipresença da internet e da vulgarização das tecnologias mais evidenciadas hoje em dia, inclusive a da pesquisa genética).

O político (embora vindo das lutas estudantis, tornou-se corrupto e venal) Ângelo Marcos, abalado pelo tratamento de um câncer, passa uma temporada na Ilha de Itaparica. Ali, sua esposa, Ana Clara, se apaixona pelo dono de uma peixaria, João Pedroso, na verdade um biólogo manqué, meio fracassado e beberrão: “não nasci para plantar árvores nem para escrever livros e sou praticamente donzelo, aliás sou um donzelo militante, um punheteiro. Eu nasci para estudar, investigar, descobrir, interpretar. Mas não faço nada disso e com certeza é esta a razão por que sinto o Mal me rondando…”, ele desabafa, a certa altura, com seu amigo, padre Monteirinho.

O Mal que ronda Itaparica e bafeja João Pedroso é a existência de seres “monstruosos”, híbridos que foram criados em experiências científicas comandadas por um eminente médico, Lúcio Nemésio. O até então passivo biólogo-peixeiro se coloca no caminho de duas forças poderosas: o representante de uma elite grotesca em sua desfaçatez (e mesmo a ascensão da esquerda na nossa democracia não deixou de acirrar esse comportamento predatório, conforme vimos nos últimos 25 anos), Ângelo Marcos, através da sua relação com Ana Clara (ameaçando o casamento dele); e o representante de uma ciência sem ética, em nada diferente (e certamente praticada com muito empenho, apesar das “leis”, não tenha dúvida, leitor) das experiências em campos nazistas (e que chocaram tanto o mundo civilizado), o doutor que carrega a nêmese no nome, ao insistir em denunciar a existência das criaturas. É quase certo que, apesar do seu tardio despertar heroico, seu destino será trágico…

Decerto as questões levantadas pelo romance são riquíssimas e candentes (infelizmente causando um desalento enorme no leitor). O que me faz, entretanto, me penitenciar do apressado julgamento de anos atrás é a vitalidade com que o narrador, em cada segmento, se cola aos cacoetes de linguagem e da mente de cada personagem[4]. Dessa forma, até os clichês mais desaforados, até a cafonice tremenda de certas descrições eróticas podem ser faturados na conta daqueles que vivem o enredo, pois estão em cena os vícios e virtudes de sua classe, de sua formação específica[5]. Nesse sentido, Ângelo Marcos é um triunfo de criação de um caractere ficcional. Postado entre os discursos (em primeira pessoa) das mentalidades perturbadoras, diríamos até deformadas, do Sargento Getúlio e do narrador de “Diário do farol, ele nada a fica a dever a eles. É outro prisma de um espelho implacável das mazelas nacionais.

Que escritor perdemos no dia 18 de julho!

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NOTAS

[1] Como será que Patricia Secco (aquela mesma que simplificou o vocabulário dos textos de Machado de Assis) enfrentaria o trecho abaixo do extraordinário “Sargento Getúlio”, uma das provas mais veementes, se fora preciso uma prova ainda, de que a posse de vocabulário não é um luxo, e sim uma maneira de dar mais extensão, uma sintonia mais fina, não só à apreensão do real à nossa volta, mas também dos nossos processos e mecanismos mentais lidando com esse “à nossa volta” (e por isso, a literatura triunfa na linguagem “específica”): “Plantas e mulheres reimosas, possibilitando chagas, bichos de muita aleiva, potós, lacrais, piolhos de cobra, veja. Matei uns três infelizes assim, pelo cima de uns quipás, sendo que um chegou devagar no chão, receando os espinhos sem dúvida. Assunte se quem vai morrer se incomoda com conforto. Fosse dado a sangria, terminava o vivente no ferro, porém faz um barulho esquisito e não é asseado por causo de todo aquele esguincho que sai. E dessa forma acertei um disparo no cachaço, procurando atitude para não desperdiçar munição. Inda xinguei por me obrigar a caçar pelessas catingas, arremetido naquela soareira, estropeando as reiúnas novas naquelas catanduvas embarecentas. Só se vê cabeça de frade, macambira, cantingueira e urubu. Nem ouviu mais o xingamento, amunhecou e esfriou.Trabalheira ordinária. Ias me fazer chegar aonde? Itaspicuru? Vitória da Conquista? Sei lá. Não tem limites para a frouxidão que faz o homem dar nas canelas e botar a alma no mundo, correndo do destino. A hora de cada um é a hora de cada um. O bexiguento lá estrebuchado, agora ancho nos espinhos, como se o chão fosse forrado de barriguda. Que diferença faz? Quem já viu o derradeiro tiro sabe como é. Aquela sacudida no corpo, uma estremidela de uma vez só. Depois os urubus, que a tarefa aí já não é mais de punição, é de limpeza…” ?

[2] Como Flora Süssekind, cf. “Literatura e Vida Literária” (Ed. Jorge Zahar, 1985)

[3]  Não custa lembrar que O sorriso do lagarto também aparece num ano de forte carga simbólica, ano das eleições diretas, enfim, que polarizaram Collor e Lula, com a vitória do primeiro. Evidentemente, seria preciso verificar se, passados 30 anos, tal associação dos três romances à Nova República justifica uma visão parcimoniosa do seu valor literário.

[4] Como exemplo, um momento em que Ângelo Marcos está perorando sobre a raça negra, em função de ter tratado de forma injuriosa um empregado:

Parou de repente, achou que estava se explicando em demasia, dando importância excessiva a um incidente corriqueiro, afinal de contas só tinha feito umas brincadeiras com um negro da casa, praticamente da família, já vira brincadeiras mais pesadas entre primos e até irmãos. E agora está na moda esse negócio de fazer caras santimoniais, toda vez que alguém fala de uma coisa perfeitamente comum a respeito de pretos. É como judeu. Se você não empresta sua escova de dentes a um judeu, ele chama você de antissemita, existe uma história verídica sobre isso. Agora tudo é preconceito racial, até reconhecer que um sujeito é preto é preconceito racial. Que besteira, encarar a realidade não é preconceito, é apenas objetividade. Por exemplo, é uma verdade objetiva, que qualquer um pode comprovar, que o preto está mais próximo do chimpanzé ou do gorila do que nós, verdade indiscutível, não adianta querer obscurecer as evidências dos fatos…”

O “vilão” de O sorriso do lagarto é memorável em outros terrenos minados, basta observar seu discurso dissociado da prática com relação ao homossexualismo, e como esta dissociação corresponde a todo um lado perverso e oculto (a obsessão em matar pardais), inclusive pela ligação sexual com um matador desde a juventude (e a quem ele encomendará a execução do amante da esposa). Note-se, de passagem, que o matador-liaison dangereux torna-se um ruralista de Goiás.

[5] Mesmo assim, ainda acho uma forçada de mão a cena, já citada, de confronto direto entre João Pedroso (herói) e Nemésio (cientista-vilão).

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22/07/2014

NOSTALGIA DA GRANDEZA: “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, de Ariano Suassuna

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Em Geografia do romance, comentando o pensamento de Mikhail Bakhtin, Carlos Fuentes escreve: Numa era de linguagens conflituosas (informação instantânea, sim, integração econômica global, idem, muita estatística e pouco conhecimento), o romance é, será e deverá ser uma dessas linguagens. Mas sobretudo deverá ser a arena onde todas elas podem marcar encontro. O romance não só como encontro de personagens, mas como encontro de linguagens, de tempos históricos distantes e de civilizações que, de outra maneira, não teriam oportunidade de relacionar-se .

Tais palavras aplicam-se bem a uma obra publicada em 1971 (embora venha ocupando boa parte da vida do autor, ao que tudo indica, pois ele pretende reformulá-la), bastante comentada e pouco lida efetivamente: Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna.

Escrita sob o signo do excesso, apresenta um narrador, Pedro Dinis Quaderna, o qual, aberta a sua tramela, não se consegue que a feche mais. É um tagarela que se repete, que promete sempre fatos e mais fatos e vai nos engambelando direitinho (às vezes, cansando um pouco a paciência), um Tristram Shandy de Taperoá, no sertão do Cariri, na Paraíba (ele começa a contar sua história, na prisão, em 1935). Rebento de uma estirpe de “fidalgos sertanejos” que tentaram impor uma monarquia paralela (ou em sublevação à nossa recém estabelecida, e autoritaríssima, República), num misto de exaltação política, sexual e mística, Quaderna é um intelectual, o qual, entre querelas com seus dois mestres (Samuel, reacionário e simpático ao Integralismo; Clemente, esquerdista e ligado às causas do povo; ambos, ao fim e ao cabo, comicamente parecidos, pois a idéia fixa se embebeda do oposto, já alertava Octavio Paz), almeja restaurar o Reino da família, através da criação de uma epopéia sertanejo-sebastianista, em forma de romance, transfigurando a pobre realidade do Nordeste.

Ao seu modo picaresco, Ariano Suassuna nos dá uma linguagem (através da qual se abebera de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira) que é evidentemente uma máscara: Quaderna, no exercício do seu estilo “régio” (delicioso e virtuosístico), acaba revelando o desencanto com seu mundo e sua posição social, como agregado de um rico clã, cujo ramo a que pertence empobreceu devido ao furor sexual do pai, a herança dilapidando-se pelos muitos filhos afora.

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Dois aspectos são particularmente notáveis em A Pedra do Reino: um, é o desejo de fazer um “romance”, que une narrador e autor. Curiosamente, num livro tão colorido e exuberante, vemos pouca ação; na verdade, é mais o anúncio eterno de uma ação que virá a ser narrada, tanto quanto o desejo de um Escolhido (o rei Sebastião ou o príncipe Sinésio) reaparecer e convulsionar o Sertão. Até agora não chegou à conclusão se isso é força ou fraqueza, no sentido literário (embora me incline mais para a primeira hipótese).

O outro aspecto é a vontade de que tudo seja significativo e simbólico, das pedras às roupas, dos animais de montaria aos animais selvagens. É a nostalgia do épico puro, das odisséias homéricas,  no qual “toda a ação é somente um traje bem talhado da alma”(Georg Lukács), embora tudo seja filtrado pelo des(encanto) cervantino.

Num mundo sem sentido e sem rumo, tal vontade não deixa de ser comovente. Não deixa de ser também uma forma de sublevação à autoritaríssima (e então recente), República Brasileira (Quaderna começa sua narrativa, preso, em 1938), engrandecendo até os embates, mais para cômicos e caricaturescos, dos dois “mestres” de Quaderna, Samuel e Clemente.

A linguagem de Suassuna, como seu anti-herói, que percorre todas as classes sociais, indo do legítimo e oficial, até o ilegítimo (seus irmãos, frutos do furor sexual de Quaderna-pai, cuja herança dilapidou-se entre os muitos bastardos) e o suspeito, é picaresca e paródica, abeberando-se e apropriando-se de inúmeras fontes literárias e populares, de José de Alencar a cantadores de feira, todos os criadores da “realidade do possível”. Nesse ponto, podemos aproximar o mundão sertanejo de Ariano Suassuna do labirinto urbano urdido por James Joyce, no “bloomsday” de Ulisses: o banal se transfigura, o mito é a “aura” de situações comezinhas.

Já que comecei este meu breve comentário com palavras alheias (Fuentes), também assim termino, adaptando ao sertão do Cariri as palavras de Anthony Burgess a respeito do périplo ulissiano: o épico antigo era expansivo, o teatro, contrativo. Homero abrange céu, terra e mar e uma grande fatia de tempo; Sófocles se atém a um pequeno espaço e restringe a ação a um único dia. Joyce se atém a Dublin no dia 16 de junho de 1904, mas também usa o delírio e a imaginação para conter grande parte da história humana e mesmo o fim do mundo. A épica e o teatro cifram-se na estrutura de um romance burguês moderno… Com painel tão amplo, nenhum detalhe humano fica de fora”.

Ariano Suassuna, escritor e Secretario da Cultura de Pernambuco31jan2014---detalhe-do-carro-alegorico-a-pedra-do-reino-inspirado-na-obra-de-ariano-suassuna-homenageado-do-bloco-recifense-galo-da-madrugada-no-carnava

10/07/2014

O FILHO INCORRIGÍVEL DAS DITADURAS: Imre Kertész e “História Policial”

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-uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 2014;

-uma versão da resenha abaixo foi publicada em LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 09 de julho de 2014- VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/07/imre-kertesz-o-filho-incorrigivel-das.html

Em Eu, um outro (1997), Imre Kertész deu a si mesmo uma veredito irrevogável: “Sou filho incorrigível de ditaduras, ser estigmatizado é minha particularidade”.

Vinte anos antes, em História policial [Detektívtörténe], curto romance lançado agora no Brasil pela Tordesilhas, o Nobel de literatura de 2002 examinava de forma implacável a lógica das ditaduras (infelizmente, Direita e Esquerda, em suas contrafações, equivalendo-se no tocante aos resultados históricos): mesmo que calcadas, a princípio, em lutas pela justiça social, não passam de projetos de poder, tudo o mais se subordina à sua manutenção; para isso, tornam-se “estados policiais”, mantendo os cidadãos sob vigilância, apelando para o arbítrio, a tortura, a supressão de qualquer oposição.

Numa passagem arrepiante, um torturador afirma: “O mundo seria diferente se nós, policiais, fôssemos unidos… Não apenas aqui em casa, mas no mundo todo”. O narrador, “novato” no ramo, replica: “Você quer dizer também os policiais dos países inimigos?”, obtendo a seguinte resposta: “Os policiais nunca são inimigos, em lugar algum[1].

Kertész tinha um background nada invejável (se não levarmos em consideração o rendimento literário) para seu esmiuçar cirúrgico dos fundamentos dos regimes totalitários: aos 14 anos, foi enviado para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz, campos de concentração nazistas, experiência-limite que propiciou a base de seu romance de estreia (ainda seu livro mais famoso), Sem Destino (1975), certamente um dos relatos mais desconcertantes e perturbadores sobre o tema[2]; depois da guerra, viu seu país, a Hungria, transformar-se num dos satélites da União Soviética: uma tentativa de revolução, em 1956, foi esmagada virulentamente, transformando-se no evento cristalizador da desilusão de toda uma geração com o comunismo.

Transpondo a ação para um país imaginário da América Latina, para cavar a publicação (as editoras, como de praxe no universo soviético e adjacências, eram estatais e submetidas à censura), Kertész conseguiu criar não só uma alegoria da opressão em seu país natal, como também (sem que esse fosse seu objetivo) uma síntese acurada dos processos truculentos então levados a cabo na nossa realidade latino-americana, com sua cota trágica de regimes autoritários de direita, ou seja, o outro lado do espelho.

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História policial narra a investigação que leva à prisão de Enrique, filho do importante empresário Federico Salinas, que almeja participar da luta clandestina contra o governo, sempre esbarrando na hostilidade e desconfiança contra a sua classe social. Após um episódio emblemático (fora alvo de uma diligência policial ao, provocativamente, ficar abaixo do limite de velocidade permitido numa faixa de rodovia próxima a um dos sinistros locais de reclusão de presos políticos; contudo, sua condição de membro de uma família importante o salvaguardara de represálias maiores), ao desabafar com o pai, descobre que este pertencia a um grupo de resistência.  Vigiado de perto, e num momento em que há a ameaça de um atentado (verdadeiro ou fabricado pelos agentes do regime, pouco importa), Enrique é levado para o “Departamento”. Seu pai, iludido quanto à própria imunidade pessoal, ali adentra para se informar do seu paradeiro, e o destino de ambos ali é selado.

Além da dinâmica da relação entre Federico e Enrique (há uma revelação surpreendente quanto a isso), o grande achado de História policial é que a narrativa é feita por um dos torturadores, justamente o “novato”, aquele que ainda está aprendendo os códigos da ação repressiva. Após a queda do governo, preso, confessa que está em sua posse o diário pessoal de Enrique, pelo qual tem um peculiar apego, verdadeira fascinação (eu, um outro?).

Através desse diário, ficamos sabendo que a insatisfação do mauricinho vai além da situação política, escancarando um mal estar que os frequentadores da obra de Imre Kertész (além das já citadas, o ambicioso romance O Fiasco, por exemplo, onde podemos ler a seguinte passagem: “se bem que ocorreu a Köves: será que o homem já não vive de um jeito impossível de viver, e ao final acaba descobrindo que apesar de tudo sua vida teria que ser essa?”[3]) reconhecerão de imediato: “Parece que após a filosofia do existencialismo só poderia vir a filosofia do não existencialismo. Ou seja: a filosofia do existir sem existir”[4]. E então o leitor começa a se perguntar que tipo de pessoa pode ser, de fato, o novato: “Fiz o curso, passei por uma lavagem cerebral. Não foi o suficiente, longe disso”.

Outro trunfo do texto é a sua sugestão dos horrores praticados no “Departamento”, sem ser preciso nenhum detalhe explícito. De explícito, apenas o horror da lógica totalitária, como na cena em que um tabelião colaborador do regime é submetido à tortura por sua associação meramente comercial com Federico Salinas:

“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”

È a esse destino que o filho incorrigível e pródigo sempre retorna.

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NOTAS

[1] Utilizo a tradução de Gabor Aranyi. Nessa versão lançada pela Tordesilhas há uma passagem que ficou estranhíssima em português, logo no Prefácio do autor, escrito em 2004 para a edição alemã. Nele, Kertész relata como História policial surgiu a partir da recusa de um romance anterior (seu segundo), O rastejador (ainda não lançado em português, mas conhecido em inglês como The pathseeker); lemos então que o diretor da editora (que aprovara a publicação do primeiro romance do autor húngaro, Sem destino) “leu O rastejador e também o editaria de bom grado—declarou-me—se fosse um texto maior. Um livro precisava ao menos de dez páginas (sic) inteiras para que tivesse corpo, e o meu texto não passava de seis páginas (sic), se tanto. Sugeriu-me que acrescentasse algo. Então me veio à mente o enredo de História policial”.

Bem, ou na Hungria o conceito de página é diferente do nosso, ou aí há um grosseiro erro de interpretação,e um ainda mais grosseiro de revisão.

Devo dizer, embora lamentando (por causa da louvável iniciativa editorial) que esse desleixo de revisão é constante nas edições que a Planeta fez das obras de Kertész (foram lançados quatro importantes títulos: Sem destino; O fiasco; Eu, um outro; A bandeira inglesa). Na tradução de Sandra Nagy para Eu, um outro, lemos: “Pois é: no final das contas, fora os meus dois livros, o Sem destino e o Fiasco, que acabavam de ser publicados naquele mesmo ano, nada mais constava da lista dos meus crimes”. Ora, a Planeta editou tanto Sem destino, que é de 1975, quanto O fiasco, que é de 1988, ninguém ali se deu conta do absurdo da passagem?!

Os outros títulos kertészianos lançados até agora no nosso país são Kadish, por uma criança não nascida (Imago), que compõe uma trilogia com Sem destino e O fiasco; a coletânea de ensaios A língua exilada e o primeiro romance pós-Nobel, Liquidação (ambos pela Companhia das Letras).

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[2] Como amostra, transcrevo a extraordinária passagem do anúncio da libertação dos prisioneiros do campo (utilizando a tradução de Paulo Schiller):

“Talvez já fosse quatro da tarde quando, por fim, o alto-falante emitiu alguns estalidos e, depois de um breve chiado e de sons sibilantes, deu a entender a nós todos que era o LagerältesterKamaraden, disse, lutando audivelmente contra um sentimento que o asfixiava e ora o fazia engasgar, ora a voz fica mais aguda, gemente, wit sind frei!, ou seja, estamos livres (…) e para minha grande surpresa, de repente: Atenção, atenção! O comitê húngaro do campo…—e pensei: nem suspeitava que isso existisse! Porém, não valeu a pena prestar atenção, pois também ele, como todos antes dele, só falou sobre a libertação e não fez nenhuma referência à sopa que não tinha vindo. Eu também fiquei muito feliz, sim, naturalmente, por estarmos livres, mas não tenho culpa de ter sido obrigado a pensar em outra coisa… A noite de abril estava escura, Pjetyka também havia voltado, vermelho, excitado, cheio de milhares de palavras incompreensíveis, quando o Lagerältester se apresentou de novo pelo alto-falante. Dessa vez, dirigiu-se aos membros do antigo destacamento dos Kartoffelschäler pedindo-lhes que fizessem a gentileza de reassumir os postos na cozinha, e aos demais moradores do campo solicitou que ficassem acordados ao menos até o meio da noite, pois começaram a cozinhar uma grossa sopa de gulash; só então me deitei, aliviado, no travesseiro; só então alguma coisa se desprendeu lentamente de mim, e só então pensei—talvez pela primeira vez com seriedade—na liberdade”.

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[3] Cujas primeiras 100 páginas são uma experiência formal desafiadora, com seus parênteses incessantes e frases que vão e volta para depois mergulhar numa fábula kafkiana, cuja atmosfera pode ser exemplificado pelo seguinte diálogo entre Köves (o protagonista) e a mulher que o aloja em casa:

““ __ Sim, Köves disse, só que não estou trabalhando para nenhum jornal—depois, pouco se incomodando com a decepção que poderia causar à mulher (quem sabe ela até já se tenha vangloriado de ter um inquilino jornalista)—acrescentou rapidamente: Fui despedido…

__ Então foi despedido—a locadora falou de novo, agora com certa familiaridade, como se não tivessem mais nada a esconder um do outro, ao mesmo tempo com a voz baixa, como se não quisesse que outros a ouvissem (apesar de ninguém mais estar no quarto além deles)—Por quê?…

__E pode-se saber?

__ Não—respondeu a mulher, deixando-se pender lentamente sobre a cadeira, momentos antes oferecida porém logo recusada, enquanto toda e qualquer expressão abandonava seu rosto, como se de repente se tivesse dado conta de sua incomensurável fadiga—não se pode… O senhor sabe… às vezes sinto que já não entendo mais nada…” (utilizo, fazendo algumas adaptações, a tradução de Ildikó Sütö).

[4] Não concordo nem um pouco com Luís S. Krausz, no posfácio à edição da Tordesilhas, intitulado Nos subterrâneos do século XX, quando diz que o “não existencialismo” é uma “cultura de resignação”, “única postura viável diante das arbitrariedades”. Fosse uma ética de resignação, a obra de Kertész perderia boa parte da sua força. Eu diria que é uma tortuosa ética de teimosia e obstinação, o que é muito, muito diferente.

Resignação, ou conformismo, é o que Enrique Salinas observa (revoltado) à sua volta, ou seja,  a acomodação ao regime, ao ponto de seus aspectos mais gritantes tornarem-se “invisíveis”, parte da paisagem social: “Estava andando pela cidade. Fazia um calor infernal. À minha volta, a algazarra noturna de sempre. Casais de namorados nas calçadas e gente se acotovelando rumo aos cinemas e às casas noturnas. Como se nada tivesse acontecido, nada. Vivendo sua vida inexistente. Ou será que eles existem e eu não? Na rua, um ou outro parecia ter perdido alguma coisa. Por toda parte se via gente com cara de policial, farejando, ouvindo as conversas e pensando que ninguém se incomoda com eles. E estão certos: as pessoas não se incomodam com eles. Bastaram esses poucos meses para se acostumarem com eles”.

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17/06/2014

DICAS LITERÁRIAS DE PAÍSES PARTICIPANTES DA COPA 2014

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salimOctavio Paz enla biblioteca de su csa en 1989. Foto: Fabrizio Leon DiezIvo-Andrić-2Herman Kochalejandro_zambraipad-art-wide-3-mccullough-420x0Cercas Javier

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2014)

(uma versão do texto abaixo foi publicada no “Letras in.verso e re.verso”,

VER  http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/06/copa-do-mundo-de-literatura.html)

Infelizmente, não é possível estabelecer uma relação de igualdade entre as produções literárias dos países participantes da Copa por uma razão muito simples: a lacuna nas traduções. Nenhum escritor de Camarões (Grupo A), da Costa do Marfim (C), sequer da Costa Rica (D), ou do Equador e Honduras (o que desfalca muito o grupo E), e olhe que são países do nosso continente, falantes de uma língua-irmã. E por que será que nunca pude ler nenhum autor contemporâneo do Irã [1] (F), em versão brasileira, fato inexplicável: países em ebulição social e política invariavelmente apresentam vigor literário (caso, também, da Bósnia). No G, estou em falta com Gana; no H, com a Coréia do Sul (no entanto, é bom lembrar que um dos favoritos ao Nobel nos últimos anos é o poeta Ko Un). Ao todo, nove países que entram em campo em total desvantagem. Chamando a atenção para esse grave e lastimável fato, abaixo vai uma dica literária (com o perdão dos comentários forçosamente genéricos) dos demais países:

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GRUPO A

Brasil- Um dos nossos grandes veteranos da ficção, Salim Miguel, comemora 90 anos em 2014. Ele voltou a produzir romances em 1984, as manifestações pelas “Diretas Já” parecem ter desentravado A voz submersa (Record), narrativa febril, que cresce como uma enchente, aproveitando um dos crimes da época da ditadura como gancho, e que acabou tornando-se o primeiro título de sua prolífica fase madura (a escolha de alguém nascido no Líbano também tem a ver com a vocação do nosso país de receber imigrantes, tão malbaratada às vezes);

México- Este é o ano do centenário do múltiplo Octavio Paz. O leitor brasileiro pode apreciar a nova edição (CosacNaify) de uma das obras principais do Nobel 1990: O labirinto da solidão (1950), reflexão fundamental que está para o seu país como  Casa grande e senzala para o nosso;

Croácia- Na complicada geopolítica da ex-Iugoslávia, o croata Ivo Andrić, Nobel 1961 (também escreveu em sérvio), se destaca. Uma boa amostra da sua arte de contar histórias (e que o coloca na linhagem de um Tolstói), oferecendo uma paisagem humana labiríntica, com o conflito étnico sempre aflorando, é a coletânea Café Titanic (Globo).

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GRUPO B:

Holanda- Um romance de grande transparência, nem por isso deixando de ser crítico e inteligente (é como se juntasse Deus da carnificina com Precisamos falar sobre Kevin), e que vem fazendo um inesperado sucesso, é O jantar (Intrínseca), de Herman Koch, cuja narrativa acompanha justamente as etapas de um encontro social entre irmãos (o aperitivo, a entrada, o prato principal, a sobremesa) num restaurante de reservas disputadíssimas para mostrar a melindrosa questão da responsabilidade ética sobre a próxima geração;

Chile- Um dos melhores livros do século até agora, Formas de voltar para casa(CosacNaify) mostra que Alejandro Zambra atingiu a maturidade na sua arte: se nos livros anteriores, ele descambava, apesar da qualidade do texto, para uma às vezes cansativa metalinguagem, aqui ele apresenta contrastes entre a geração dos seus pais e a sua de uma forma magistral, fazendo a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados, até nos terremotos que comumente abalam a nação chilena;

Austrália- O país continental tem seu Nobel (Patrick White, em 1973, contudo esse genial romancista mal foi traduzido por aqui[2]). Em compensação, Colleen McCullough ficou famosa como best seller, boa parte da crítica torce o nariz para ela. Nem por isso é menos verdade que Pássaros feridos (1977) é poderoso (até nos aspectos folhetinescos) ou que sua série Senhores de Roma seja notável. O romance que a inicia (em 1990), Primeiro Homem de Roma (Bertrand), é um dos melhores romances históricos já escritos;

Espanha- Um dos escritores marcantes da atualidade é Javier Cercas, cujos livros são mesclas fascinantes de reconstituições histórico-jornalísticas e de reflexão sobre sua elaboração narrativa. São livros “fronteiriços”, e uma boa síntese desse movimento pendular é As leis da fronteira (Biblioteca Azul), que mistura a passagem da adolescência para o mundo adulto (adentrando o submundo e a a delinquência) com o período de transição do franquismo para a democracia;

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GRUPO C

Colômbia- país que perdeu em curto intervalo de tempo seus dois maiores escritores. Um já é sobejamente reconhecido (García Márquez); o outro, merecia mais notoriedade: Alvaro Mutis. Que tal começar com o maravilhoso A neve do almirante(Record), de 1986, no qual, como já se disse, o protagonista (um marinheiro) “viaja pela paisagem humana”?;

Japão- Uma autora atual talentosa, num país de riquíssima literatura, é Hiromi Kawakami. Um exemplo é Quinquilharias Nakano (Estação Liberdade), de 2005, onde vemos claramente que as relações de trabalho muitas vezes impõe a trajetória dos nossos afetos, criando ligações, lealdades e pequenas intrigas, pois formam o horizonte da maior parte das vidas humanas;

Grécia- O leitor brasileiro agora tem a sorte de ter as obras do fantástico Nikos Kazantzakis traduzidas diretamente do idioma original (pela editora Grua): assim, além da nova versão do livro que o tornou mundialmente conhecido (mais em função da sua fantástica versão cinematográfica), Vida e proezas de Alexis Zorba, posso recomendar enfaticamente o monumental Capitão Miháelis, com sua Creta sob a opressão turca.

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GRUPO D

Itália- Candidato eterno ao Nobel, Claudio Magris é outro caso de escritor plural e quase inclassificável. Um de seus títulos mais lindos é Alfabetos (traduzido pela editora da UFPR), de 2008, em que ele mistura crítica literária, ensaística e memorialismo, ressaltando sua formação de leitor. E que leitor! Vale por todos os cursos de letras que se possa pensar;

Inglaterra- A pátria em que melhor floresceu a ficção policial tem uma genial representante neste século XXI: Kate Atkinson, com sua série em que Jackson Brodie, relutante detetive particular enfrenta tramas intrincadas que brincam com o destino e a tragédia. A Fundamento lançou recentemente o perturbador Saí cedo, levei meu cachorro (2010), quarta aventura de Brodie[3];

Uruguai- Além de ser um gênio da literatura (é o Samuel Beckett latino-americano), Juan Carlos Onetti tem uma de suas obras-primas chegando ao meio-século este ano: Junta-Cadáveres (Planeta)—ótima, embora desassossegante introdução ao anti-universo recorrente de Santa María e seu principal personagem, Larsen (que aparece em vários outros textos);

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GRUPO E

Suíça- Que escritor pode melhor representar a estranha nação que junta a ideia de civilização com uma espécie de cinismo institucionalizado do que Friedrich Dürrenmatt, com suas peças (como A visita da velha senhora) e narrativas (como Justiça) cujo eixo sempre perfaz uma parábola jurídica implacável ? O juiz e seu carrasco (L&PM), de 1950, é um jogo de gato e rato entre policiais e um poderoso criminoso. No final saímos com a impressão de que todos são (todos somos) culpados;

França- Há 50 anos, Sartre ganhava (e recusava) o Nobel. Em 2014, a L&PM lança a derradeira, inacabada e avassaladora obra do último dos mestres franceses do pensamento, da literatura e da vida: O idiota da família (1972), estudo sobre Flaubert que, no fundo, é a tentativa monstruosa de compreender (e explicar) até o último limite do conhecimento a vida de um indivíduo, numa tentativa de síntese do existencialismo e da psicanálise, sob a égide totalizante do marxismo;

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GRUPO F

Argentina- Dois dos maiores escritores argentinos (e universais, e aqui não há como não se render aos hermanos) têm seu centenário comemorado em 2014: Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. No ano passado, um dos títulos cortazarianos centrais, O jogo da amarelinha ganhou nova edição (Civilização Brasileira), comemorativa do seu cinquentenário, e a CosacNaify vem lançando títulos do parceiro de Borges, como suas requintadas e ambíguas histórias de amor e amizade conspiratórios (com toques sutis de fantástico): Histórias fantásticas. Ambos são autores para se levar para a proverbial ilha deserta;

Nigéria- Precisávamos de mais títulos traduzidos do Nobel (1986) Wole Soyinka (há O leão e a joia, bela peça teatral). Mas pelo menos agora já temos traduções dos geniais romances de Chinua Achebe, como O mundo se despedaça[4] (Companhia das Letras), de 1958, com sua caracterização estupenda do conflito de gerações, mentalidades, etnias, que descortinam os trágicos processos históricos que assolaram muitos dos países do continente africano;

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GRUPO G

Alemanha-Quando se lê Pontos de vista de um palhaço (Estação Liberdade), de 1963, a impressão é de que Heinrich Böll (Nobel 1972) é um escritor de agora, um jovem que poderia estar participando de manifestações, tal a garra, a verve, a raiva, a energia e a atualidade da narrativa. Poderia ser um texto do Ricardo Lísias, do Alexandre Dal Farra. O protagonista, palhaço de profissão, se desavém com todos à sua volta, mas não com o leitor. Uma obra-prima;

Estados Unidos- Este ano temos o centenário do grande escritor negro Ralph Ellison, e sua maior obra, um romance que mostra a condição da raça negra na sociedade norte-americana de forma definitiva, e ainda assim, é um livro fortemente experimental, livre de amarras, ganhou nova edição brasileira pela José Olympio: O homem invisível, de 1952.

Portugal- A atual safra de escritores portugueses talvez seja a mais pujante do cenário atual. Ainda assim, reservo este espaço para comemorar os 50 anos de um dos maiores livros da originalíssima Agustina Bessa-Luís, autora que não se parece com nenhum outro escritor, sempre criando mundos históricos muito particulares: Os quatro rios[5], primeiro volume da trilogia As relações humanas;

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GRUPO H

Argélia- Será impertinência destacar um autor que nasceu no país, mas oriundo dos povos colonizadores? Como, contudo, em 2013 tivemos o centenário de Albert Camus, não custa insistir que o Nobel 1957 escreveu alguns dos livros essenciais do século passado. A Hedra acaba de publicar seus preciosíssimos Cadernos em três volumes: “Esperança do Mundo” (1935-37), “A desmedida na medida” (1937-39), “A guerra começou, onde está a guerra?” (1939-42), que antecedem sua vida de celebridade;

Bélgica- Como deixar de destacar um dos escritores que melhor aclimataram tramas mitológicas numa prosa moderna (e muito marcada pela psicanálise, mas sem ser subserviente a ela): Henry Bauchau, autor de Édipo na estrada (Lacerda)? É um on the road no inconsciente;

Rússia- Quando será que vão esquecer de Alejander Soljenítsin (Nobel 1970) como dissidente, o homem que denunciou os gulags soviéticos, e começar a valorizar sua obra literária[6], seu fôlego como romancista (Agosto 1914 é um grande momento do gênero) e o fato de ter escrito uma das novelas mais perfeitas de todos os tempos, Um dia na vida de Ivan Denissovitch (Siciliano)?

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NOTAS

[1] Pensei em indicar Azar Nafisi e seu Lendo Lolita em Teerã, o que me fez chegar à seguinte (e desalentadora) conclusão: sem tirar os méritos inegáveis da autora, e o cerceamento de sua liberdade de professora, ela pelo menos tem as obras ocidentais e não-muçulmanas à sua disposição para ler e discutir; do nosso lado, não temos nem essa oportunidade.

[2] Leiam, por favor, Á arvore do homem e Voss.

[3] É bom ressaltar que, além de seus títulos no gênero, Atkinson tem outros romances, como por exemplo sua brilhante estreia com Por trás das imagens do museu, para mim a melhor história de gerações familiares (essa linha tão batida) junto com Cemitério de pianos, de José Luís Peixoto, dos últimos 25 anos.

[4] Things fall apart, no original.

[5] Este é o único título das minhas dicas não publicado por editora brasileira.

[6] Milan Kundera (a quem não deixo de admirar muitíssimo, apesar dessa blague) sintetizou bem o enterro simbólico de Soljenítsin no campo literário ao enunciar que ele “era mais um gigante entre os homens do que entre os escritores”.

A isso eu prefiro responder com uma citação de Camus, dos seus Cadernos justamente: “As obras de arte nunca bastarão. A arte não é tudo para mim. Que ao menos ela seja um meio”.

copa e literaturaliteratura e copa

05/06/2014

O ITINERÁRIO DE FÁBULAS INCONCLUSAS: “Os intrépidos andarilhos e outras margens”, de Adriano Lobão Aragão

adriano 1   intrépidos

publicado na revista  dEsEnrEdoS número 21-agosto 2014

VER  http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/21-resenha-AlfredoMonte-Andarilhos.pdf

I

Se eu começar este comentário citando o seguinte trecho de Os intrépidos andarilhos e outras margens[1], “… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”, o meu leitor mais experiente e safo poderá abanar a cabeça e dizer com seus botões, ai meu Deus!, mais outra narrativa de metalinguagem, de fabulação narrativa voltada para a própria práxis da fabulação narrativa (e suas conexões intertextuais) como tema, ai, não aguento mais!

E se eu acrescentasse outra citação, “…com os mais diversos exemplos de histórias e temas, como um entrelaçar de dias e noites que não revelava seu fim. Mas agora tinha diante de si o enredar de fios que talvez tecesse o paradeiro do objeto de sua busca (…) à espera de quem chegasse para ouvir de-que-se-trata em cada livreto, e seguia um a um desvendando se estaria ali enredada a história que procurava, se entre todos aqueles breves e inúmeros volumes encontraria os andarilhos…”, talvez venha à mesma cabeça abanada desse leitor aquele trecho paradigmático do conto de abertura (“Os desastres de Sofia”) de uma coletânea que em 2014 chega, vejam só, aos 50 anos (A legião estrangeira): “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias…”; Clarice Lispector, há meio-século, parecia já esgotar o assunto.

Mas não esgotou. E o lindo romance de Adriano Lobão Aragão está aí para desafiar os arautos e augúrios do esgotamento. Sim, ele trilha os caminhos da metalinguagem e da intertextualidade[2], e as peripécias do seu herói (o caminhante) deságuam no mundo de histórias contadas em verso e prosa no mundo de cantadores e cordelistas; ao fim e ao cabo da sua perambulação temos um livro que tanto era sua bagagem inicial quanto foi objeto de busca, e dentro do qual ele, seu leitor (que se formou, arduamente, como leitor, vindo do analfabetismo total), está contido como personagem, naquela coisa circular da cobra-mordendo-o-próprio-rabo. E não afirmarei que, nesse ponto, encontramos exatamente o encanto peculiar de Os intrépidos andarilhos e outras margens (infelizmente, esse título não foi dos mais felizes[3]), ainda que possa afirmar que o autor piauiense seja um dos que se saíram melhor, na ficção contemporânea, ao enveredar por essas espinhosas e traiçoeiras sendas.

Antes de tentar, todavia, definir tal “peculiar encanto” e esclarecer por que achei tão lindo o texto, seria bom fazer um percurso (sumário) pelos mil e um percursos da narrativa, a qual, seguindo a mais pura matriz homérica, mostra um protagonista que erra pelo mundo.

andarilhos

II

O território delineado em Os intrépidos andarilhos e outras margens é um sertão simbólico (eu quase que diria conceitual, se esse termo não fosse tão escorregadio; então usemos: poético), mas que se apresenta muito verossímil. Até os detalhes mais “fantásticos” (outro termo escorregadio) são apresentados de uma forma que me lembra García Márquez ou Juan Rulfo: há um deslocamento das leis físicas, sem que tal “liberdade poética”, por assim dizer, afete o substancial prosaísmo do real.

Instigado pela passagem dos “andarilhos intrépidos”, “caravana mambembe que perambulava ininterruptamente, mas não se sabe desde quando”, o rapaz de 20 anos deixa sua isolada terra natal. São percursos dolorosos, marcados pela quase-morte e uma ressurreição (“à beira da morte, que à beira da morte sempre esteve”).

A primeira passagem de relevo é por uma região arcaica e erma, esquecida do mundo (como a dele próprio) e orientada por uma férrea tradição pré-cristã, nem por isso deixando de contar com seus próprios totens e tabus. Uma história exemplar demonstra isso de forma inequívoca: o forasteiro que fora bem recebido pelos nativos, comera e bebera, contara maravilhas e lorotas de lugares distantes, e que por roubar uma cabra à sua partida, era morto e desmembrado por todos:  “…todos queriam fazer valer a lei dos antigos, que era essa ainda a sua lei e o que poderiam nomear justiça (…) Onde tantas mãos se erguem bradando a necessária justiça, que nenhum nomearia vendeta, e a todos abarca o ofício de testemunha, acusador, juiz e carrasco, e que o culpado seja executado junto a seus defensores, se estes houvessem, claro, estes mesmos que não há…”

Nesse povoado há uma moça que vaga à noite (sonâmbula) até que um dia é violentada pelo filho do magarefe local. O avô mata o abusador (seguindo a Lei), mas a partir daí ela se sente vigiada pelo pai dele. Já não mais vaga inconsciente pela noite, e sim bem desperta. E em locais a que ninguém vai, quase interditos, ela descobre o caminhante, o rapaz que saíra de casa por conta dos “intrépidos andarilhos”, e que praticamente morreu de exaustão e escassez (uma de suas muitas mortes na narrativa). Como num conto-de-fadas, é o beijo da moça que o faz reviver, que o traz de volta ao seu corpo, num momento aliás de grande voltagem poética:

“E ela o beijou. Ela o beijou como as primeiras gotas de chuva chegam a tocar as pétalas das flores de seu perfumado campo (…) E ela o beijou como o odor da terra úmida se mistura ao odor do mato após a chuva e ofusca o perfume das flores (…) E ela o beijou como diversas vezes juntou várias flores e pétala a pétala as desmanchava  em seu corpo e fingia a si mesma estar adormecida, esperando que acreditasse em sua própria ilusão (…) E ela o beijou profundamente, e entregue ao fascínio daquele instante, o caminhante não pôde mais continuar distante de seu corpo, entregue aos enleios de uma moça que lhe devolvia sua própria vida.”

A meu ver, no entrelaçamento da trajetória do caminhante e da sua salvadora é que está o ponto alto dos 61 capítulos do romance. Apesar dos ricos veios explorados mais adiante, nada se iguala em beleza, concentração e apreensão de um mundo rústico, parado, atávico, e no entanto fremente, no qual por mais que se evoque uma tradição (violenta, por sinal) e interditos, todos os gestos parecem recém-inaugurados. Adriano Lobão Aragão parecia particularmente inspirado ao escrevê-los.

Tanto que quando o caminhante dali se afasta sentimos pelo resto do romance saudade da moça que lia os seres e as paisagens no céu, como se este fosse um espelho do mundo (haverá outra mulher, porém sem a sua força). E que se encaixa na macro-narrativa ao ser ao mesmo tempo uma individualidade e uma estória em estado virtual, nesse universo que exige exemplaridades (no sentido de histórias exemplares, que alertam e reprimem): Transformava-se assim em mais um enredo para a história de uma jovem que caminhava dormindo pelas trevas, pronunciando palavras terríveis, enquanto era seguida por um avô ensandecido, como um personagem acrescido a uma fábula inconclusa”; ou ainda: “… até ser esquecida por todos e transformar-se de vez em apenas mais uma das histórias que mantêm firmes as tradições morais de seu povo.”

   O próximo estágio civilizatório já é cristão, embora um mundo cristão agônico, pejado de superstição e violência, e onde o caminhante encontrará duas novas figuras iniciáticas: o padre local, que está ali como uma espécie de esteio contra a barbárie, e que se apresenta muito menos fanático do que os seus fiéis[4], e um membro desgarrado da trupe dos “intrépidos andarilhos”, o ilusionista, que abdicou do destino mambembe por conta de um amor.

Ao contrário do mundo iletrado e telúrico da moça que o beijara (e o salvara), aqui temos o mundo regido, teoricamente, pela Palavra, e palavra escrita, embora poucos tenham o aprendizado da leitura. Nota-se, porém, correndo sob a tensão dessa Palavra, um mesmo rio de brutalidade latente ou explícita (daí a terrível solidão do padre e também a ambiguidade do talento lúdico do ilusionista, que sempre pode ser tomado como demonismo, como um avatar da “mão esquerda”, a sinistra, a malsinada),[5] baseada no famigerado costume.

Como figura típica de história iniciática, o padre diz ao caminhante (quando supõe que ele já está de partida): “A pergunta, a verdadeira pergunta, seria: o que sabes sobre si mesmo? Procuras respostas sobre essa tua jornada, caminhas por estas ruas para descobrir quem é aquele homem, mas nunca paraste para perguntar nada a si mesmo. O que esperas saber dos outros?” E é ele quem dá as “pistas” para o prosseguimento da jornada: um caminho que segue o leito seco de um rio (tendo em mente que se palmilha o dorso de uma baleia, como em certos mitos e estórias romanescas havia o dorso do dragão), e do qual ele não deve se afastar para poder encontrar a fugidia trupe intrépida.

Antes de passar para a próxima etapa, não me furto a citar um dos trechos mais bonitos do romance: “Guiara o caminhante até aqui apenas os seus instintos, sem nenhuma outra indicação. Não poderia ter receio algum em continuar, até que seja inevitável que encontre o seu destino. Sabendo que o destino de todo vivente é sempre a morte? Justamente por isso, não haveria motivo algum para temer seguir adiante.”[6]

Há um interregno que evoca justamente as jornadas iniciáticas: o leito por onde se caminha, “vereda de águas ausentes”, o sono de exaustão, as cascavéis, os sete dias de “esmorecimento”, sendo tratado por um casal misterioso, que fornece a próxima “pista” (o que os cantadores cantam, como repositório de sabedoria)[7].

Após o território do arcaico e do território da sanção cristã, o caminhante se embrenha por uma espécie de mundo-feira, labiríntico mundo onde a cultura popular e mundana (“…detinha-se agora  no mergulho dos intrincados caminhos da memória dispersa de um povo…”) é destilada nos livrinhos de cordel, nas histórias mirabolantes que se imbricam com as lorotas dos vendedores de mazelas e de remédios, das malas onde pode sair uma cobra (da qual foram retirados elixires)[8].

Ao se tornar ajudante e acólito de um vendedor desses folhetos de histórias, ao tentar penetrar no seu âmago (e, por isso, aprender a ler), e assim conseguir a pista final para configurar sua jornada em demanda dos “intrépidos andarilhos” e seu paradeiro, o caminhante (e a narrativa) penetra num estágio que poderíamos chamar de “borgiano”. Malgrado haja ainda muitas peripécias (o caminhante servirá como tropeiro por muitas estradas, por exemplo), a respeito das quais não convém entrar em maiores detalhes, tudo vai se armando para equacionar esse leitor em formação, o Livro (além dos livros) e espelhá-los, sendo ele o que o livro que está lendo contém.

Nesse sentido, um dos momentos mais importantes (e verdadeiramente borgianos) é quando se evoca a vida do patrão do caminhante, e descobrimos que ela pode ser uma das vidas virtuais do jovem caminhante (“E se agora reaparecia restituído à juventude, outra vida era preciso viver, e novamente jogar-se ao interminável caminho, o mesmo”). O outro é o mesmo (e, assim, elementos anteriores da narrativa vão sendo recolhidos e transmudados, como a história do justiçamento do forasteiro, que toma outro vulto na boca do tropeiro-contador).

E aqui eu mesmo posso fazer a cobra morder o rabo, remontando ao começo deste meu comentário: “… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”.

cinzas palavras

III

Espero que aquele que me seguiu até este ponto tenha se dado conta (não fora por mais nada, pela insistência nas citações) do trabalho de linguagem que faz o deleite do leitor de Os intrépidos andarilhos e outras margens. Esse sertão que parece saído fresquinho do antigo testamento (quando Javé ainda era um deus primitivo, pouco tomístico), manhã recém-inaugurada do mundo, e seus contrapontos de feira e ruído, de palimpsestos de textos e referências (rios heraclitianos, vendedores de folhetins e tropeiros borgianos), só são críveis e só fascinam porque há um senhor poeta mapeando os percursos.

Ah, o perigo: fala-se em poeta, e imaginamos uma “prosa poética”, a narrativa apenas pretexto para um lirismo mal contido. Nada disso! Poeta, e dos bons[9], Adriano Lobão Aragão também é um ficcionista, só que daqueles que plasmam uma linguagem peculiar para a sua ficção (que, no entanto, tem um impulso épico, mesmo que com suas “fábulas inconclusas”).

Li em algum lugar que ele levou cinco anos para estruturar a forma final do romance e que, por isso mesmo, ela se ressente de conter em si vários estágios diferentes. Há, de fato, alguns pontos frouxos na tessitura geral, insisto, na impressionante coesão alcançada, o ponto de tensão mantido na maior parte das páginas. Se destaquei em especial a parte arcaica é talvez porque, localizada no início, ela já nos deslumbra de saída, o restante, portanto, pegando-nos prevenidos e já afeiçoados aos meios e recursos do escritor.

O que ele criou foi uma narrativa-fluxo incessante, que tem uma dicção muito ampla, correndo o risco de esfacelar-se. Para evitar isso, seu talento de estrategista poético encontrou a solução perfeita: pequenos capítulos concentrados e plásticos, verdadeiramente rapsódicos. Sem falar nas pequenas joias lapidares, ocultas no “enredar de fios”: “…continuou falando silêncios…”; “…porque aquela manhã foram muitas manhãs…”; “…o empoeirado chão lhe abrigou sereno, com seus modos amenos de abrigar tanto a semente quanto o cadáver…”; “…como o tempo que depois de desfalecer precisa o corpo reencontrar para o seu estar…”; “perfume é coisa rara em terra em que bala se alastra…”

   Agora só me resta convidar o leitor a tentar decifrar (e torná-lo mais conhecido, porque ele o merece) esse “livro escrito em osso, pecado e purgatório”. Osso, pecado, purgatório, signos de paisagens físicas e morais calcinadas e agônicas.

(escrito especialmente para o blog em junho de 2014)

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NOTAS

[1] Ed. Nova Aliança, 2012.

[2] Entre outros, o leitor identificará referências, veladas ou mais óbvias, a Guimarães Rosa, a João Cabral de Melo Neto, a José Saramago, a Borges, a Graciliano, a García Márquez.

E mais Milton, Sheherazade, Homero e tantos outros, como se pode verificar no longo trecho abaixo:

“Conta o cantador de versos que ao fim da praça com diversos livretos à venda, e que muitos dos versos que agora proclama aprendeu ali, como a história de um príncipe que voava com uma ave misteriosa, e de outro que matava suas esposas todas as manhãs, e de uma princesa que, raptada, enganava seu raptor com todos os homens que encontrava, e de uma outra princesa que contava histórias que não acabavam nunca, e de um poeta cego que escrevia um livro enorme sobre o céu e o inferno com a ajuda das filhas, e de um outro poeta cego que escrevia livros e mais livros com a ajuda do tempo e da eternidade, como se estivesse perdido no labirinto da imensa biblioteca da torre que deveria ligar o mundo dos homens aos céus, e de ainda outro poeta cego que mendigava e cantava a ira de um guerreiro temido que se afasta das batalhas e depois, para vingar o amigo, retorna a matar e morrer na mesma intensidade, e bem pareceria até que todos os poetas fossem cegos, mas havia ainda as aventuras de homens vestidos em metal, montados em cavalos, enfrentando dragões, vilões e bruxos que se organizavam rumo a uma terra distante que buscavam recuperar e por ela morreriam, e de jovens apaixonados que preferiam morrer a não vivenciar seus amores, e outras muitas outras histórias de toda feição e feitio que a voz de um cantador pudesse pôr em verso e enredo…”

[3] Ele é insatisfatório porque não dá conta do essencial da história, e também não combina com a gravidade da linguagem (mesmo com seus elementos picarescos e paródicos, decerto). É certo que os tais “intrépidos andarilhos” são uma espécie de elemento desassossegante no imobilismo sertanejo, e fazem com que o protagonista queira abandonar seu lugarejo, e é certo que eles são inúmeras vezes citados, entretanto não creio que funcionem para o título, o que é piorado pelo “outras margens”, vago e insosso.

[4] Conheceremos sua história pregressa.

[5] Devo dizer que li o romance duas vezes e ainda considero os capítulos referentes ao ilusionista bem menos convincentes do que os do padre.

[6] E como confirmação do que coloquei nos parágrafos anteriores, a próxima frase: “Mas ainda existe muita selvageria habitando este mundo”.

A esta passagem podemos ligar outra, mais próxima do final: “… a sua única coragem talvez fosse apenas a estranha necessidade de continuar, como um rio que não sabe onde ou quando irá desaguar, ou se irá algum dia desaguar.”

[7] Há um travejamento meio à Guimarães Rosa/ Manoel de Barros na linguagem: “De tanto repetir, a gente aprende ou esquece, que é sempre a mesma coisa”. No entanto, há momentos que considero menos felizes, rebarbativos, por exemplo; “O que canta a musa antiga já acabou. Agora é só se alevantar e pegar rumo. No pé adiante é que se vai. Se é tua a parte feita, o por fazer é o por fazer. E quando se lascar todo, tá chegado então. Não tem graça nem simpatia, nem arte nem engenho. O único mistério é não ter mistério nenhum.” Felizmente, a tessitura narrativo-poética que Adriano Lobão Aragão imprime ao seu livro sustenta até essas quedas retóricas.

Mas a parte mais fraca do romance, felizmente poucas páginas, e por isso nem a incluo na minha síntese acima é a do barqueiro que nunca sai do rio e não pesca nada, apenas existe ali indefinidamente (meio  A terceira margem do rio), uma não-existência consentida. Há todo um trabalho de paródia (no sentido de apropriação a sério das leituras do autor) admirável em Os intrépidos andarilhos; nesse entrecho, porém, fica-se mais próximo do pastiche.

[8] “(…) inúmeros versejadores, inúmeros declamadores, inúmeros vendedores de alívio para tudo, em formas mil, seja em pomada, em garrafa, em raiz ou raspa de pau, e sempre acompanhado de inúmeras histórias que entretinham o povo ante a ânsia de uma mala prestes a ser aberta, tendo, diziam, uma cobra por conteúdo, e do veneno da cobra extraía-se muitos produtos ora anunciados, e na fala o espetáculo da paciência animada e novos resquícios do interminável poema. E repetiu esse escutar diversos vezes, atento a todos os detalhes e variações, pois diante de uma nova fonte, a esperança de realinhar a voz da história pulsava forte em suas veias, mas, após inúmeras audiências, era evidente que todas as narrações de todos aqueles famigerados divulgadores dos milagres da ciência e das misturas eram sempre as mesmas e, inevitavelmente, a mala com a cobra, origem de todos os lenitivos que anunciavam, jamais seria aberta, como caixa de alívio e de males que herdaríamos do princípio da narrativa.”

[9] Exemplos de boa fatura poética do autor de Os intrépidos andarilhos:

dois rios (de as cinzas as palavras)

há em minha terra dois rios

silenciosos

um

estendido em verde tapete de aguapé

onde não mais trafegam canoas

apenas diminutas criaturas buscando seu pasto

outro

árido tapete árabe

onde todos caminham acima de sua face

então (de as cinzas as palavras)

em perene forma permanece em idade e fortuna

tudo que no tempo não muda nem tempos nem vontades

nem mentira nem verdade penetra a forma profunda

somente em mim depositou-se irrelevante mudança

talvez desnecessária dança que o cair das folhas trouxe

talvez inseto da noite que de seu brilho descansa

quem sabe silêncio de outrora agora outra hora propaga

antes de ilusão inata à matéria apurar sua volta

em perene forma precisa mas dispersa inexata

somente em mim depositou-se irrelevante reverso

de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce

EMENDATIO  (de “A Coluna de São Simeão”)

corrigir um ato
refazer a coluna
reanotar cada indicação do caminho
onde não há horizonte
restam nuvens por solução

reelaborar o caminho
para continuar o mesmo
toda obra de um homem
se refaz no tempo

como tudo que é sólido
se desmancha no sangue
um homem busca corrigir seu tempo
que sozinho se esvai

não saber teu nome liberta (de “Yone de Safo”)

não saber teu nome liberta
a tarefa de nomear-te
não mais um substantivo, mesmo próprio
mas a ordem absoluta do caos

então chamo-te poesia
quando recolhes o mais tênue lirismo
na dimensão infinita de um sorriso

e quando passas breve e leve
entre silêncios justapostos
teu nome é brisa
e rompendo o silêncio te chamo lira

nomeio teu ser presságio
onde outros chamariam acaso

e não por acaso, em tua aparição repentina
juntar queria a teu nome todas as sensações
na mais profunda sinestesia

e se acaso perguntasse
que reposta me daria?
que adianta um nome
se nada mais estaria
nesse nome sua dona
que nunca mais veria?

então juntaria teu nome
a todos os nomes da vida
e em cada coisa querida
ali teu nome estaria

quando desejar não é ter
mas querer mais além ainda
mesmo apenas guardar um nome
entre as lacunas da vida

adriano

15/05/2014

O BRUXO DA CASA FORTE: Machado por inteiro

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“Acredito em minhas personagens, mas não em suas encenações. Todo personagem é mascarado.” (Pedro Maciel, Retornar com os pássaros)

“O maior feiticeiro seria o que se enfeitiçasse até o ponto de ver suas próprias fantasmagorias como aparições autônomas.” (idem)

Houve uma grita geral nos últimos dias por conta do projeto (financiado com dinheiro público) de “descomplicar Machado de Assis”, alterando seu vocabulário (a responsável, Patricia Secco, diz entender “porque os jovens não gostam dele”: “seus livros têm cinco ou seis palavras que não entendem [sic] por frase. As construções são muito longas”), e cujo primeiro título sairá em breve (O Alienista). De minha parte, só posso evocar o jovem leitor que fui: quando o texto me interessava, não eram palavras que eu não entendia que brecariam a leitura, mesmo sem dicionário à mão. Ia em frente, simplesmente, e isso não me fez mal nenhum, quero crer[1].

O contraponto mais adequado a essa visão míope do que seria “adequado” para jovens ou neoleitores é Machado devolvido a todo o esplendor de sua complexidade, e no melhor da sua obra (na contramão da preocupante hipervalorização da sua produção secundária — as crônicas, em especial), efeito final do mergulho (são quase 400 páginas) no maravilhoso Romance com pessoas, de José Luiz Passos.

A ideia-chave contida no título, simples e fecunda, de uma deliberada “confusão” entre personagem e pessoa, indica o maior feito de Machado enquanto fabulista: a criação de caracteres ficcionais com uma rica e ampla imaginação moral[2], a qual interfere na forma da narração (um ponto crucial); o que explica — independentemente de todas as outras interpretações que possam ser feitas — por que nos debruçamos inesgotavelmente nas tramas das suas “existências”. Tal escrutínio das intrincadas motivações pessoais (e suas máscaras sociais) renova e aprofunda uma literatura até então rasa:

“O romantismo havia criado um corpo para o Brasil. Machado lhe daria uma consciência. Tal consciência é, desde cedo, marcada pela faculdade de dissimular…”

A originalidade (e o decorrente charme) do texto de Passos — e não por acaso ele foi capaz de escrever um dos mais brilhantes romances da atualidade (O Sonâmbulo Amador, 2012) — é que seu argumento desdobra-se, matiza-se, contorce-se, dissimula-se em várias sendas. A argúcia de romancista ajuda o ensaísta a manter a capilaridade dessa meada toda em seus volteios e enrodilhamentos: nas cinco partes em que Romance com Pessoas se divide, temos capítulos “históricos”, capítulos “teóricos” e capítulos de exercício crítico aplicado de uma forma modelar. Assim, o leitor deve ficar muito atento para os liames, o “enredo” oculto permeando os capítulos com nomes de personagens ou os capítulos com nomes de autores, por exemplo, para montar o quebra-cabeça aos poucos e com deleite (pois estamos longe das formulações áridas e da especialização hermética habituais nesse tipo de empreitada).

Um fio da meada plausível é a pessoa-Machado, o jovem autor dos anos 1850, a escrever peças (fracas) para o teatro, seguindo atentamente as discussões em voga no meio. Entre elas, as postulações cênicas opostas que guiavam representações de Shakespeare no país (uma, moldando um bardo “moderado” pelo gosto classicista; outra, de forte teor romântico, ressaltando suas arestas, seus perturbadores pontilhismos de sombra e luz); e, dado não menos importante, a criação de um teatro realista contemporâneo, com forte viés moralizante, para entreter e educar a florescente classe média de espectadores.

Ao chegar ao romance (em 1872, com Ressurreição), Machado já tinha a bagagem de publicações em uma ampla gama de gêneros (além do teatro, crônicas, poemas, contos) e, como uma semente para seu gênio, essa experiência com os dilemas da representação dramatúrgica. E o teatro (sem contar a presença shakespeariana) seria essencial para a composição dos seus nove romances, e permitiria que ele superasse as limitações do gênero no Brasil, na passagem do romantismo para o realismo-naturalismo.

Ainda atendo-se mais ao comportamento de seus protagonistas (na maioria, jovens mulheres em situação social ambígua e desfavorecida) em suas primeiras realizações (até Iaiá Garcia, de 1878), todavia aprofundando-o a cada livro, de forma que tais personagens já são “pessoas” na acepção de Passos (como ele demonstra com suas finas análises e comparações)[3], na segunda fase, o uso de um narrador em primeira pessoa (caso de Brás Cubas e Bentinho — e como é interessante essa mudança de modulação, do feminino para o masculino![4]) permitirá que os enlaces das narrativas com a “teatralidade” do mundo social e mesmo íntimo, e o uso de motes shakespearianos impregnem o ficcional enquanto jogo de disfarces, de manipulações e, no limite, de dúvidas e remoeres angustiantes e insolúveis, abeirando-se do trágico (barrado pela ironia). Avançando em sua maturidade literária, Machado estará pari passu com o Henry James que escreveu as seguintes palavras no prefácio a uma de suas mais desafiadoras criações (de 1904, ano de Esaú e Jacó):

“Vemos bem poucas pessoas em A taça de ouro, mas o esquema da narrativa, em compensação, determina que devemos na realidade observá-las até o limite permitido por uma forma literária coerente”.

Machado de Assis ficou conhecido como Bruxo do Cosme Velho. Eu já desconfiara, lendo O Sonâmbulo Amador, que boa parte da sua cozinha de bruxedos fora herdada por José Luiz Passos, o Bruxo da Casa Forte[5]. Agora já não tenho mais dúvidas: só assim se explica o quebranto de um texto que foi lançado inicialmente numa edição acadêmica[6] (e já destoava dessa camisa-de-força) e que, na reedição requintada da Alfaguara, enriquecido com as estratégias da boa ficção, torna tão vivas as “pessoas” machadianas quanto a pessoa que as criou.

E sobretudo mostra cabalmente que o bonito mesmo é perder-se nos labirintos e nos subterrâneos do autor de Dom Casmurro e não tentar atravessá-los com um trator e penetrá-los com uma britadeira.

(uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de maio de 2014)

(uma versão com ligeiras alterações foi publicada no “Letras in.verso e re.verso”:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/05/o-bruxo-de-casa-forte-machado-no.html)

o bruxo e seus bruxedos

Shakespeare (1)

NOTAS

[1] E com a maior honestidade posso afirmar que a minha primeira experiência de leitura do próprio O Alienista, lá pelos meus catorze anos, foi assim mesmo: não entendia muita coisa (as analogias políticas, por exemplo), mesmo assim achei o texto divertido e “saquei de cara”, por assim dizer, a ironia e o ridículo a que submetia os personagens.

[2] Daí o subtítulo do livro: A Imaginação em Machado de Assis.

[3] Passos inclusive solucionou (para mim) um parentesco que sempre considerei misterioso: o dessas heroínas de Machado com relação a algumas heroínas de Jane Austen (penso particularmente em Mansfield Park e Persuasão, mas o paralelo pode se estender a todos os outros): todas elas têm como ancestrais as protagonistas das grandes comédias shakesperianas (As you like it; Noite de reis; O mercador de Veneza) e herdaram sua verve (com a ressalva de que nenhuma heroína machadiana chega a ser marcante como aquelas criadas por Austen).

Aventei esse paralelo em resenha que pode ser lida em:

http://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-a-luva-de-pelica-a-jane-austen/

[4] “(…) com exceção de Quincas Borba, seus protagonistas agora são autores das próprias histórias; e os romances se dedicam a sujeitos ruinosos, obcecados pela restauração. Narradores de si, mesclam passado e presente e insinuam versões de seus desenvolvimentos morais que invariavelmente acabam implicando o outro. A narração torna-se mais idiossincrática, e a história pessoal, não as ações presentes, é apresentada como meio de invocar o passado e reparar o eu. O que as primeiras heroínas desejavam esquecer passa a ser, precisamente, o único objeto de Brás, Bento e, de modo diverso, também do conselheiro Aires: a nostalgia desloca qualquer sentido de futuro, a questão de como viver a vida vem á tona e assume a proeminência, mesmo a despeito das convicções do narrador. Os romances machadianos da retidão feminina e do caráter moral cedem espaço às narrativas de protagonistas masculinos questionáveis em seus padrões ambivalentes de percepção ética”. Talvez por causa disso, numa das belas formulações do ensaísta pernambucano, tais protagonistas são “heróis da imaginação ululante”.

[5] Bairro do Recife.

[6] Cf. Machado de Assis: romance com pessoas (Edusp/Nankin, 2007)

Cf. aqui no Blog:

http://armonte.wordpress.com/2014/05/01/de-me-a-sua-pessoa-moral-jose-luiz-passos-e-a-invencao-do-humano-brasileiro-em-machado-de-assis/

Talvez não seja ocioso ressaltar que a nova versão, apesar de seguir a mesma linha de argumentação e boa parte do texto original, é muito diferente de uma forma muito sutil e, no entanto, decisiva: na versão de 2007, Passos precisou até apresentar um roteiro sumário das seções que compunham seu livro porque ele seguia a linha de ensaísmo mais livre e anticonvencional da tradição anglo-saxônica. Na forma atual, ele abdicou dessa excêntrica composição (e não se tome aqui o adjetivo num sentido pejorativo ou desvalorizante, muito pelo contrário), adotando estratégias muito mais aglutinadoras, com um resultado mais orgânico, sem se tornar pesado.

Passos  de Assis

06/05/2014

OS GUERREIROS DE MONTE-MOR, romance adulto camuflado em edição infanto-juvenil

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“Então era um mentiroso? João explicou-se. Ninguém ali mentia. No máximo, desconhecia a sombra dos acontecidos.” (de Os GUERREIROS DE MONTE-MOR)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de maio de 2014)

Mesmo não levando em conta o restante da sua prolífica obra, o recém-falecido Nilto Maciel (nascido em 1945) teria lugar garantido na melhor literatura brasileira com Os Guerreiros de Monte-Mor.

Difícil de entender é por que, não obstante ser bem bonita a edição da Armazém de Cultura[1], tentam vender o romance como infanto-juvenil, equívoco que pode afastar o leitor adequado para o livro, o qual, sem que se pretenda desdenhar aqui a garotada (e os virtuais leitores precoces), é muito complexo, com sua linguagem incomum e uma visão cáustica da nossa história.

Transcorrendo na virada do século XVIII para o XIX, até os tumultuosos anos da Independência e as décadas do Império, é incrível como o autor cearense não parece fazer qualquer esforço para apresentar uma narrativa “histórica”. E ainda assim, com seus tipos humanos bizarros, exagerados, Os Guerreiros de Monte-Mor nos transporta convincentemente para uma época arcaica, ainda marcada pela “longa duração”: as quatro gerações do clã Cardoso, através dos seus “varões assinalados”: Antônio, João, Pedro (este, na verdade, destoará nessa continuidade) e José.

O que os une é a utopia separatista: parcialmente descendentes de um povo indígena (Jenipapo), o sonho é expulsar os portugueses e recriar uma grande nação nativa.  Encantando-se com todos os movimentos revoltosos (desde a Inconfidência até a Confederação do Equador), desconfiados do proclamado Império, cada geração se propõe a efetivar a justa rebelião. Antônio estagnará numa existência pacata (com seu hobby de idear armas estrambóticas) e Pedro também optará pela rotina de colono conformado (mais tarde, será malvisto como um “espião” dentro da família). Já João (cujas perambulações e ziguezagues ideológicos da juventude acompanhamos com mais detalhe) e o neto José, mais exaltados, se conluiam a certa altura, com o acréscimo de um escudeiro, Chicó, índio velho da etnia Xocó e Sancho Pança desses quixotes sertanejos, para mirabolar a estratégia da invasão da Vila de Monte-Mor (na serra de Baturité) e proclamar a nova nação.

Lastimavelmente, nas suas reuniões conspiratórias, não chegam a um acordo sobre o nome a adotar do nascedouro país, nem sequer a hierarquia entre eles, e mesmo de que forma comunicarão ao mundo essa sacudida geopolítica:

“A quem devia ser enviada a mensagem anunciando a criação do novo estado? O primeiro nome a sair da boca de José foi o de Jerusalém. De jeito nenhum, tal país não existia mais, havia sido destruído pelo dilúvio, se opôs João. Então não sabia mais a História Sagrada? Pôs-se a cutucar o chão, a forçar a memória. Desconfiado da momentânea ignorância de seu antigo cavaleiro, Xocó lembrou os nomes de Icó, Jardim, Crato.

    Sempre sabedor de tudo, João explicou ao seu ex-escudeiro serem aqueles nomes de vilas do Ceará e não de países estrangeiros. Não metesse a tramela naquele assunto, para não falar besteiras. Deixasse para dar palpites mais adiante, quando fossem tratar de táticas de guerra.

__ Agora estamos no capítulo da diplomacia.

   Enumerou os nomes dos países mais importantes do mundo, a Rússia, reino dos bárbaros; a secular França de Carlos Magno e seus doze pares; a China, onde todos eram chineses; a Macedônia de povo guerreiro; a Pérsia dos magos; a Galícia dos galegos; Flandres dos metais, terra de sua admiração. Não, Portugal não. Esse ficava de fora, não recebia nenhum recado. Precisava de explicação? Não era ele, Chicó, uma vítima, assim como todo o seu povo, das barbaridades praticadas pelos portugueses? Ora, a revolução ia ser feita justamente contra esse país, destruidor de tantas nações, a dele próprio e muitas outras.”

A principal arma na invasão da vila: morcegos adestrados por Chicó, e este aproveita essa circunstância para, num inesperado golpe de estado, reivindicar a chefia da empreitada, justamente quando ela é levada a cabo.

Portanto, o cômico (chegando ao ridículo) e o patético se unem na caracterização do trio visionário, conforme seu projeto utópico vai se tornando mais obsessivo.

Mas o que faz de Os guerreiros de Monte-Morum grande e inesperado romance, além da maneira sinuosa, mas firme, com que incorpora os acontecimentos políticos daquelas décadas em que o país passou de colônia a Império (usando a técnica do “ouviu dizer”, do que foi contado e aumentado), é o fato de que os personagens não se limitam a caricaturas. Das relações familiares tensas até o compartilhamento belicoso da loucura revolucionária, o trio sempre parece muito verossímil para o leitor. Inclusive pelas suas contradições: João quer instaurar uma grande nação indígena, mas seu vocabulário e imaginário estão repletos do cancioneiro e dos mitos importados (não há a mais leve alusão a nenhum elemento da cultura pré-homem europeu): “ De conversa  em conversa, compreendeu João a necessidade de criação de um exército, antes de iniciar a guerra nativista, a maior guerra desde o começo do mundo. Coisa para ficar nos livros, nunca ser esquecida. Como as guerras dos faraós, cheias de pragas mil. Como as guerras do leviatãs, coatitas e gersonistas, nas terras de Canaã. Como as guerras em Jericó, no rio Jordão e entre tribos israelitas…”; ou então: “Quem mais podia fazer parte desse grupo? Apontaram-se nomes, todos rejeitados por ele. Um por se chamar também João. Ora, não podia haver duas pessoas com o mesmo nome, se um mandava e outro obedecia. O segundo por falar mal de Tristão. O terceiro por desconhecer Carlos Magno…”(como sói acontecer, é uma luta em nome do povo, mas sem o povo).

E em meio a todas essas extravagâncias e esturdices, daqueles que foram sendo deixados para trás no processo político nacional, uma linguagem de admirável precisão (além de deliciosa). É um mundo Ariano Suassuna coado no filtro machadiano. Nada falta, nada sobra.

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ANEXO

No seu livro de crônicas memorialísticas, Quintal dos dias (Ed. Bestiário, 2013), Nilto Maciel nos relata os vestígios históricos na tessitura do seu romance, no capítulo  Guerreiros fictícios e aventuras reais. Creio que vale a pena transcrevê-lo em parte:

“Em meados do século XIX, inicia-se mais um movimento nativista no Brasil. Semelhante à Inconfidência Mineira, à Conjuração Baiana, à Confederação do Equador. O palco dessa nova rebelião é a serra de Baturité, no Ceará (…) A epopeia jocosa desses rebeldes. Seus planos, suas lutas, seus fracassos. Contudo, não se trata de romance histórico. Melhor chamá-lo de romance picaresco (…)

   A primeira aventura político-militar, no entanto, se dá em 1817, com a Revolução Nativista de Pernambuco, similar nordestina da Inconfidência Mineira. O movimento se estendeu por outras províncias do Norte. Na vila do Crato, mais tarde deixada de lado, com o aparecimento do Padre Cícero de Juazeiro, José Martiniano de Alencar (pai do romancista), Tristão Gonçalves e outros heróis e farsantes proclamam a república. A patuscada não dura uma semana e resulta no enforcamento dos primeiros republicanos do Brasil.

   Em 1822 dá-se a grande farsa da aclamação de Pedro I. Dois anos depois, o imperador dissolve a Constituinte e faz irromperem novos focos de rebelião. No Ceará instaura-se a segunda república, que adere à Confederação do Equador, ou República do Equador, também de curta duração. Alguns aventureiros e farsantes ditos nativistas e republicanos esquecem as batalhas e voltam ao palco para as farsas da monarquia. Uns são conservadores, apelidos de caranguejos; outros, liberais, alcunhados de chimangos ou ximangos. E brigam pelos papéis principais. Em meio a tantos aspirantes a chefe, surgem aqui e ali truões, como o lendário padre Alexandre Francisco Cerbelos Verdeixa, chamado de Canoa Doida, por andar caído para diante, a cabeça baixa e pender para um lado, passadas curtas e muito rápidas…”

(Esses fatos e personagens como o Verdeixa “Canoa Doida” aparecem no livro, mesclados aos projetos quixotescos e incidentes pessoais dos protagonistas)

“Baturité foi também palco dos acontecimentos do resumo de linhas atrás, quando ainda se chamava Vila de Monte-Mor o novo d´América. Antes de 1764, no entanto, denominava-se Missão da Serra de Baturité, onde foram reunidos índios das tribos canindés, paiacus, jenipapos e quixelôs, todos tarairiús, uma das famílias de tronco independente dos tupis e gês. A dos cariris habitava o território cearense. A formação da missão se deveu, sobretudo, à solicitação feita em 1739 às autoridades de Pernambuco pelo capitão-mor dos jenipapos Miguel da Silva Cardoso. Em 1858 a vila passou a cidade e, no ano seguinte, aportava em Fortaleza a barca francesa Splendide, procedente de Argel, com 14  dromedários a seguir conduzidos a Baturité, onde viveram por algum tempo, Outra farsa imperial…” (este último episódio histórico também é aproveitado no romance)

No mais, o autor nos conta um ambicioso projeto ficcional, raiz de OS GUERREIROS DE MONTE-MOR: “(…) constituiria a saga de várias gerações de caboclos (descendentes de índios) da serra de Baturité, desde a eliminação da aldeia até o século XX. Desmembrado, esse arcabouço deu origem a quase todas as novelas e romances, como A guerra da donzela, A busca da paixão, Os varões de Palma e Os luzeiros do mundo. Criada Palma, outras tramas  foram inventadas, todavia já sem nenhuma ligação ideológica com o desígnio inicial… Quase todas escritas até 1990. É desse período minha paixão por temas indígenas…”

Depois, segundo ele, passa a “euforia indianista” e ele se voltou para “a recriação ou a invenção de Palma e seus habitantes”. Mas a leitura de OS GUERREIROS DE MONTE-MOR mostra cabalmente que a “euforia indianista”, essa paixão por temas indígenas, contam com um componente fortemente desencantado, já que o indianismo é apenas  uma aragem, uma ilusão ao longo da narrativa,  confirmando a famosa asserção de que “os paraísos verdadeiros são aqueles que já perdemos”.

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NOTAS

[1] A original,  pela Contexto, foi publicada em 1988

artigo

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15/04/2014

Sobre os passeios de Noemi Jaffe pelos bosques da ficção: uma resenha quase alfabética e um impertinente esquema

Noemi Jaffealfabeto

“Que absurdo poder utilizar um mesmo verbo com várias preposições diferentes, assim possibilitando alterar seu significado. Como pode uma língua prestar-se a tamanha flexibilidade? Isso só pode querer dizer que, nessa língua, como parecia ser a tendência de todas as outras, as palavras não têm significado próprio, permitindo que outras se aproximem e transtornem seu conteúdo e, pior ainda, sua forma. Qual é a substância de uma língua como essa?” (Noemi Jaffe)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de abril de 2014)

Após frequentar a lista de finalistas nos mais prestigiados galardões literários, como o do Portugal-Telecom, A verdadeira história do alfabeto[1] venceu na semana passada o Prêmio Brasília na categoria conto.

Brincando com as 26 letras do nosso idioma, Noemi Jaffe cria pequenas narrativas sobre a origem de cada uma (além de verbetes em torno de vocábulos como “dádia”, “gabarra” ou “libuzia”, na segunda parte do livro[2]), num exercício raro no Brasil, e no qual Italo Calvino era um mestre supremo, é só lembrar dos clássicos O castelo dos destinos cruzados (1969) e As cidades invisíveis (1972) : uma moldura enciclopédica e quase rígida para o conjunto e, no seu interior, correndo soltas a imaginação e a fabulação.

Com o italiano (cujas propostas para o milênio –  sempre foram assaz comentadas, mas pouco praticadas por aqui), a talentosa autora paulista compartilha outro traço: a leveza que consegue imprimir ao seu texto, mesmo tratando-se de um amplo passeio pelas antinomias e concepções antitéticas com as quais a humanidade vem se debatendo desde o início dos tempos, tentando resolvê-las através do mito, da religião, da ciência e das artes (a geometria tem uma função muito especial na tessitura e colorido descritivo do livro).

De cada relato resulta uma letra, e também uma palavra a ela associada fortemente (por exemplo, “vidro” em relação ao V, ou “xadrez”, em relação ao X), num caleidoscópio de lugares e épocas.

E até mesmo “fora do tempo”: há o episódio no Éden, quando Adão nomeava os seres—e assim nasceram o G e o grilo (enquanto designação de um ser)—, ou aquele na pré-história, quando um antepassado nosso vê sua própria imagem refletida, adquirindo a noção de si e dos outros, “a primeira vez que um ser humano conseguiu compreender precariamente o lado de dentro e o de fora” (é a origem do E).

Faz-se o percurso desde a nomeação dos átomos (por Epicuro, em 341 A.C), que “já existiam desde toda a eternidade e o infinito dos infinitos, desde o momento causador do caos, mas ainda não havia uma letra para designá-los” (letra A) até a era triunfante da física quântica, quando um próton, molécula “dotada de introspecção”, perdida no “léxico do acaso”, compartilha sua perplexidade com o humano que a estuda: “Até hoje, milhões de outras partículas continuam girando em falso e gerando brechas, falhas e surpresas. Alguns homens as acompanham” (letra Z).

Graças à destreza intelectual de Noemi Jaffe, o leitor passa pela antiguidade (Caldeia, Fenícia, Grécia), pelo mundo bíblico (Jó), e depois, em pleno cristianismo, pela Itália das disputas teológicas, dos autores como Ariosto e Petrarca, pelos espaços do mercantilismo e do colonialismo, pelo império austro-húngaro.

Há as aventuras da intertextualidade, com letras surgidas a partir da leitura de obras como as de Luciano de Samosata (a história de Lúcio, transformado em burro, dando origem ao S e ao “sim”: “por contraste com a aridez reta e seca do não humano, o consentimento dos burros era complexo e sinuoso”), de Borges (duas letras, o L e U), de Nabokov (o X).

Isso não sobrecarrega de forma alguma A Verdade História do Alfabeto.

Jamais temos a sensação de pedantismo ou de gratuidade metalinguística, apesar da noção de jogo ser essencial ao projeto do livro.

Lapidar e afiado, o estilo de também não deixa que o tom descambe para o monocórdio, talvez o maior perigo da empreitada.

Mas é claro que sempre algum texto se destaca, mesmo num conjunto singularmente harmônico.

Notável, por exemplo, é aquele que trata da origem do Q.

Outro ponto alto é o conto de Baltazar, lutando pelo reino português nas Ilhas Molucas, no começo do século XVIII, contra os holandeses, e que na verdade é Maria Úrsula D´Abreu Lencastre, travestida de soldado.

Perdido (a) em dúvidas hamletianas, sintetiza bem os muitos personagens perplexos diante do terreno escorregadio das palavras (um deles diz: “sempre me isolara das outras pessoas porque todas pareciam saber exatamente como dominar códigos aparentemente tão fáceis e eu mal conseguia articular três palavras. Todas me soavam tão decisivas. Como alguém podia dizer Bom Dia impunemente?”).

Quase cedendo à covardia, ele-ela consegue tomar uma fortaleza e ganhar fama.

Resisto a citar outros (a origem do R, ligado a Manuel Bandeira e sua fecunda solidão, por exemplo), igualmente inspirados.

Seria tarefa interminável.

Tomara tenha iscado o interesse do meu leitor por esse livro singular.

Um dos mais originais surgidos nos últimos anos.

Vou terminar esta minha resenha sem conseguir (além das embaraçosas K, W e Y, o primeira delas proporcionando, inclusive, um dos textos mais significativos de A Verdadeira História do Alfabeto, associado à palavra “kadish” e sua intraduzibilidade) imaginar frases iniciadas com X e Z, depois de tentar seguir o exemplo de Noemi Jaffe: falta-me a sua vigorosa e enxuta criatividade.

alfabeto 1- OK

ANEXO

ESQUEMA PSEUDOCRONOLÓGICO E PSEUDOORGANIZADOR DE A VERDADEIRA HISTÓRIA DO ALFABETO (com algumas anotações soltas de leitura pseudosérias/objetivas)

recorrências: a descrição geométrica da “formação” das letras, exemplos poéticos de palavras começadas com cada letra (e, na maioria dos casos, a invenção da letra corresponde à invenção de uma palavra[3], e sempre com adesão aos processos de pensamento dos personagens)

-acaso, jogo, geometria, ciências, engenhos, artes, religiões.

Então, uma possível sequência temporal da invenção das 26 letras do alfabeto seria:

O “fora do tempo”, mito indígena da criação da humanidade, muito calcado no matriarcado (a “avó da humanidade”)

“O mundo, nessa época, já estava parcialmente criado; mas faltava a humanidade, que seria tarefa específica dos trovões. Para isso, era preciso também inventar o sol e a lua, as florestas e os bichos, para que a humanidade pudesse se aquecer, se alimentar e reproduzir”

G letra auspiciosa”, criada “fora do tempo”, no espaço do Éden (Gênesis), o mundo ainda por nomear, depois de criado (tarefa adâmica).

Adão e o grilo

“Alguns seres ora não manifestavam prontamente a natureza de seu nome, ora resistiam ao nome que Adão lhes designava”

E pré-história, nenhuma localização temporal precisa, porém o espaço é onde é a “atual França”

Homem das cavernas, consciência de si, do outro, e do que é exterior, descoberta do ritmo e da imagem (reflexo)

“a primeira vez que um ser humano conseguiu compreender precariamente a distinção entre o lado de dentro e o de fora

H Antiguidade remota, abeirando-se do mítico, sem localização temporal. Mas bem localizada espacialmente (Caldeia, Babilônia, margens do Eufrates). Uma das raras narrações em primeira pessoa.

Astronomia, Dilúvio.

“Afinal, as águas se movimentavam geniosamente de acordo com sua imprevisível atividade pelos céus, e as letras daquela nova escrita em forma de cunha teimavam em reagir sempre de forma diferente ao que o escriba previa”

V Antiguidade remota, por volta de 2.000 a.C, quando soldados fenícios acampavam à beira do rio Belus (Palestina).

o rio (e a experiência humana) remetendo aos conceitos de Heráclito

Positivo. Negativo. Civilização x Barbárie. Invenção de artefato revolucionário (no caso, o vidro).

Realidade. Imagem.

“Encostou de leve a ponta dos dedos sobre a chapa e ela já estava morna. Ergueu-a lentamente e observou que era dura e se sustentava transparente e sólida diante do seu corpo. Através dela, viu os homens dormindo, o rio correndo mando, a lua mais branca do que a olhos nus. Era como se o mundo ficasse melhor, mais bonito e também ele transparente; como se o mundo se transformasse numa imagem”

P Antiguidade mítica- Antigo Testamento, história de Jó e do “deus incaracterístico

Moral da fábula: somos feitos da mesma matéria do mundo: Pó.

“Soube, naquele instante, que ele também, puro Jó, era feito daquela própria matéria, como fora Adão antes dele, e o mesmo Abraão, seu parente distante, de quem se falava em todas as aldeias, e também seus filhos e filhas, agora já mortos. Soube que ele mesmo era terra, como quem dele viera antes e viria depois”

A Antiguidade bem localizada espaço-temporalmente (Grécia, 341 a.C.)

Physis.

Epicuro- teoria atomística- “em função da constatação sobre o desejo que os átomos sentiam uns pelos que Epicuro descobriu a letra A”

S Aproveitamento intertextual do personagem Lúcio (transformado em burro, um “burro abarrotado de emoções) de Luciano de Samosata (o paradigma da “sátira menipéia”), obra do século II d.C, e por sua vez também uma operação intertextual, com a obra de Apuleio.

O Sim vs. o Não. Recusa e consentimento.

“Compreender que, por contraste com a aridez reta e seca donão humano, o consentimento dos burros era complexo e sinuoso, carregado de possibilidades

M Um anacronismo (proposital?): a superposição da figura de Boécio, do século VI, com a do papa Nicolau III, do século XIII.

Gramática, Teologia, Atributos do ser.

“Os dois já tinham passado quatro noites inteiras redigindo aquela carta, perdendo toda a tinta e os papéis que nem possuíam, penhorando tudo o que podiam e criando todos os problemas possíveis com usurários, estalajadeiros e religiosos”

J século XIV, relativamente localizado no tempo (Petrarca, concluindo uma obra: um soneto) e no espaço (Pádua)

Vida onírica, criação de idioma, filiação/competição entre autores

O que o atormentava era preciso, não diluído na fraqueza do agora. Era a fonte imediata de lágrimas noturnas. A palavra estava certa. Mas não havia nenhuma boa tradução para ela (…) formar uma nova letra, que se chamaria J, em homenagem àquela palavra que Petrarca acabava de criar, a palavra , que daria conta de dizer o que o poeta sentia. O que lhe doía era já”

F século XVI, relativamente localizado no tempo (momento em que Ariosto conclui seu “Orlando Furioso”) e no espaço (Ferrara, Itália).

Com o pressentimento do Quixote, a questão da filiação entre os textos literários (os epítetos para os heróis como “topoi” clássico, por exemplo)

“Orlando tinha enfim um epíteto, Ariosto, uma obra e um livro”

cobrinha alfabeto

C século XVII bem localizado espaço-temporalmente (Jacarta, “Índias Orientais”, 1611)

Mentalidade dos holandeses (marinheiros) da Reforma, Mercantilismo

Monstro- cobra

“Noventa dias no mar, sem conhecer o destino de chegada, enfrentando tempestades que certamente poriam fim à vida de tantos pobres coitados, ladrões, condenados, estupradores honestos, e tudo isso sem poder fornicar, beber um único gole de gim”

T Não especificado no texto, mas certamente início do século XVIII (reinado de D. João V), quando Maria Úrsula d´Abreu e Lencastro, travestida como o soldado Baltazar, lutou contra os holandeses nas Ilhas Molucas (tomando a fortaleza de Amboina)

Exemplo da recorrente “donzela guerreira”, do travestimento feminino para assumir um destino “masculino”. Ser outro em si mesmo. Duplicidade. Outridade.

Covardia e coragem. Certeza e dúvida. Fato e lenda (versão).

“No meio de todas aquelas palavras, sentiu-se perdido como se estivesse morando numa floresta de letras. Nada mais tinha sentido próprio, era como se as palavras dançassem na sua frente e o tentassem para agir, ou para manter-se oculto”

B séc. XVIII bem localizado espaço-temporalmente (Leipzig, 1725)

Bach e a recusa de uma nota, ainda não-nomeada, em soar

“intervenção pitagórica das esferas cósmicas em meio à devoção das notas cristãs”

I século XIX bem localizado espaço-temporalmente (Viena, 1857)

Império, minoria linguística (húngara), assimilação por uma cultura metropolitana dominante. Fascínio por certas línguas “estranhas”.

“Era ela a amada agonizante, que a ele cabia agora resgatar de volta à Hungria, mesmo, e mais ainda, porque no exílio. Na linha reta de sua pupila, Károly divisou uma letra ainda inexistente no alfabeto húngaro e soube imediatamente que com aquela letra ele inventaria seu nome, bem como uma nova palavra, que o húngaro forneceria ao mundo para sempre”

L apesar de não-especificado, tem de ser na 2ª. metade do século XIX, na Argentina dos pampas, dos gaúchos, dos compadritos.

Intertextualidade direta com “O morto”, de Jorge Luis Borges.

“Formou com elas uma linha reta na vertical e, num ângulo de noventa graus à direita, na parte inferior, outra linha horizontal. Pensou que a linha vertical era como o tempo, que vinha desde a sombra de Otálora e seu desafio cego à tristeza sem fim dos pampas e ia até o futuro, quando aquele escritor, também cego, escreveria aquelas linhas. A linha horizontal era a própria planície, o pampa, que se estendia do vazio onde Manoel se encontrava agora até os lugares onde havia cavalos e cavaleiros sentados a esmo”

U Outro exercício de intertextualidade com Borges, dessa vez com “Ulrica”, personagem nórdica (norueguesa). Outra rara narrativa em primeira pessoa.

Regra. Jogo. Destino. Acaso (Vida e Morte)

“sempre me isolara das outras pessoas porque todos pareciam saber exatamente como dominar códigos aparentemente tão fáceis e eu mal conseguia articular três palavras. Todas me soavam tão decisivas. Como alguém poderia dizer bom dia impunemente?

K não especificado no texto, mas pelas indicações (Picasso com 14 anos), final do século XIX (1895), na Espanha.Um dos textos mais próximos do conceito do conto tradicional, sem aquele ligeiro esquematismo que perpassa outros relatos do volume.

Pintura. Química. Cabala/talmudismo. Palavra, imagem, geometria.

“no texto que Gérard pronunciava naquela língua que o menino não entendia mas que soava como se fossem os desenhos que ele via. Alguma coisa entre o possível e o impossível, entre o fora e o dentro, o azul que não se via e que ele sabia que poderia criar”

D século XX bem localizado espaço-temporalmente (Índia, 1922)

Pesquisador inglês, Colonialismo x Homo Ludens

“num dos dados que possuía em casa, amontoados ao acaso, como cabe fazer com os dados”

X intertextualidade com “A defesa Luzhin”, de Nabokov, escrito em 1930 (em russo) e depois retrabalhado em inglês (1964).

Xadrez. Jogo. Acaso. Regras. Beleza. Estratégia. Liberdade. Loucura. Ou seja, o circuito de antinomias e duplas antitéticas da existência disposto no tabuleiro.

“Luzhin era russo. Suas jogadas podiam não ser tão belas, mas seria difícil prevê-las, por mais feias que fossem. Como decifrar os caminhos de seu cérebro, que se perdiam pelos desvãos dos cálculos, pela matemática que mais criava o futuro do que se submetia a ele?”

W Intertextualidade com “Macunaíma” (por sua vez, com uma relação intertextual com o livro etnológico de Koch-Grünberg), de 1928, entrelaçando selva e espaço urbano industrializado (São Paulo)

Folclore. Mito. Ficção. Literatura. Processo histórico (aculturação)

A imposição do Nome como princípio da realidade x princípio do prazer

“Macunaíma e seu povo, o povo que não carecia de nome porque se sentia completo em sua existência”

R Ambientação temporal inespecificada, mas certamente meados do século XX, no Rio de Janeiro (Santa Teresa), tendo como personagem Manuel Bandeira (alusões à sua infância no Recife, o Capibaribe)

o rio- fluir e correr

Mais conceitual, por assim dizer, do que narrativo

“Também era bom estar triste e só. Era uma forma de cumprimentar um destino que sempre fora o seu. Estar só na noite e na paisagem vazias, era para ele o mesmo que para os outros era ter uma família, uma casa cheia, barulhos”.

six-memos-millenium

N ambientação evidentemente contemporânea (dicção narrativa mais próxima do conto tradicional também), todavia nenhuma preocupação em uma ambientação espaço-temporal.

Personalidades antípodas e complementares, bem apropriado num livro de antinomias e rumos antitéticos:

“Clara era mais esperta, Lúcia sabia, mas tinha certeza de que, na sua lentidão, alguma coisa a salvava. Sabia que alguma coisa ela conhecia melhor do que Clara, apesar de sua lerdeza; podia sentir que havia um conhecimento que estava depois ou antes das coisas mas que era diferente”

Q ambientação contemporânea inespecificada

Filologia, Linguística, origem das línguas (no caso, a basca)

Acaso- Jogo- Ciência- Mistério

“Criou com essa forma a letra Q e a palavra quase, que é quase parecida com ia porque também possui o ditongo crescente, que vai do fechado para o aberto e porque a letra Q, que lhe dá início, indica também sua imperfeição. A letra Q é quase um O, sem jamais sê-lo”

Y ambientado numa China contemporânea.

Medicina chinesa (acupuntura). Harmonia. Correspondências. Corpo. Jogo de opostos. Encruzilhadas (mimetizadas pela letra)

“O avesso do avesso é o direito, embora não exista o direito integral, pois o corpo como a natureza, encontra a unidade no movimento, não no repouso; na mudança, não na permanência”

Z voltando ao átomo que motivou a letra A. O protagonista é um próton, “molécula dotada de introspecção, perdida num quase austeriano “léxico do acaso.

Física quântica. Realidade primordial, cósmica. Onde o “humano” se situa, aí?

“Até hoje, milhões de outras partículas continuam girando em falso e gerando brechas, falhas e surpresas. Alguns homens as acompanham”

ALFABETO MAIÚSCULO

NOTAS

[1] O título completo é A verdadeira história do alfabeto (e alguns verbetes de um dicionário)

[2] Sobre “Libuzia” lemos:

lentidão, loucura, janela. Foi catalogada no Tratado Holandês de Psiquiatria, em 1736, uma doença rara que acomete somente pessoas com mais de 75 anos, do sexo masculino e que tenham vivido solitárias por mais de trinta anos. São pessoas que passam, inevitavelmente, muito tempo dentro de suas casas, sentadas em frente às janelas, e, por essa razão, perdem a mobilidade normal e acabam arrastando-se lentamente ou para ir à cozinha ou para voltar à rua. Dificilmente saem às ruas, e depois de algum tempo, acreditam que tudo o que acontece está se passando por trás de uma janela. Assim, perdem a noção de distância, de tato e do próprio tempo, relacionando-se com tudo indiretamente…”

[3] Essas palavras podem designar nomes, artefatos, seres, qualidades, fenômenos e elementos naturais, conceitos ou até mesmo serem “palavras-intervalares” ou demonstrações do “intraduzível” (como “quase” e “ talvez” e de “kadish”). De A até E não há uma palavra específica relacionada à invenção da letra (embora o A surja a partir do átomo, claro), mas a partir de F encontramos:

F (furioso); G (grilo); H (hemisfério); I (Írisz); J- já; K (kadish); L (laço); M (modo); N (nuvem); O (ovo); P (pó); Q (quase); R (rio); S (sim); T (talvez); U (uivo, o “chamado dos lobos”); V (vidro); W (wapixana); X (xadrez); Y (yang/yin); Z (zinco)

resenha noemi jaffe

 

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