MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/05/2012

A IMPLACÁVEL SIMPLICIDADE DE “A TRÉGUA”

“…Conheço a Montevidéu dos homens com horário, os que entram às oito e meia e saem às 12, os que retornam às duas e meia e vão embora definitivamente às sete. Esses rostos crispados e suarentos, esses passos urgentes e tropeçantes são meus velhos conhecidos…”

Haverá modo de escrever mais fácil do que a imitação do formato de um diário? O escritor finge registrar o dia a dia e assim temos um livro… Esse é um dos equívocos mais freqüentes com relação à ficção. Tem tanta gente que se encanta com a “simplicidade” e “naturalidade” de O amanuense Belmiro, de Cyro dos Anjos! O mesmo com a poesia, ainda mais moderna, sem rima, verso branco. Todo mundo acha fácil escrever… E tem tanta gente que se encanta com a “simplicidade” e “naturalidade” de um Carlos Drummond de Andrade ao utilizar o cotidiano como matéria-prima!

Em A trégua (La Tregua, 1960)  que já fora traduzido há alguns anos (em edições pela Brasiliense e pela Martins Fontes) e agora ressurge com grande alarde, boa tradução (de Joana Angélica D´Avila Melo) e péssima capa pela Alfaguara, um poeta/ficcionista, o uruguaio Mario Benedetti, exercitou a forma de diário. E, como os autores acima mencionados, mostra cabalmente a complexidade e finura estilística que são necessárias para criar uma narrativa nesse feitio, toda calcada na poesia do cotidiano.

Trata-se de um ano na vida do senhor Santomé, o ano em que comemora seu cinqüentenário e pode se aposentar, viver no ócio. O que o espera? Nem ele sabe, acostumado a uma rotina opaca (sem lugar para “a rebeldia, o sacrifício ou o heroísmo”). Basta mencionar que um motivo de emoção irônica para ele, esse drummondiano que vive pela “paixão medida” e que trabalhou durante um quarto de século numa seção de contabilidade, é verificar a mudança na sua letra de Heródoto contábil“Em 1929, eu tinha uma caligrafia escarranchada: os t minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado que os d, os b ou os h, como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos f, dos g e dos j pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. Os M e o H eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um farsante, já que eu mesmo me tornei complicado, irregular, caótico, impuro.”

Viúvo, morando com os três filhos, descobre que um deles é gay e apaixona-se (e é correspondido) por Laura Avellaneda, subalterna com metade da sua idade. A salamandra arde em chama fria (a velhice já soprando em sua vida), porém há que se prestar atenção no que pode significar a “trégua” do título, ainda mais se pensarmos que o autor já afirmou ser o pessimista “um otimista bem-informado”.

A trégua é um romance formidável porque Benedetti poetiza o cotidiano com uma prosa sintética, regular, disciplinada, clara, calibrada com a mais absoluta precisão, e no entanto essa poetização se faz com objetivos mortíferos, pois realça o que há de absolutamente angustiante, asfixiador e amorfo no cotidiano (sem chegar aos extremos do seu compatriota genial, Juan Carlos Onetti). E o senhor Santomé, apesar da sua inteligência, é presa dos preconceitos e das superstições de um habitante pequeno-burguês da Montevidéu de meados do século passado. Falando do filho: “Já que o homem da família lhe falhara, dedicou-se a negar o homem que havia em si mesmo. Ufa! Que explicação complicada para desenvolver um fato tão simples, tão ordinário, tão indiscutível. Meu filho é um maricas… Eu preferiria que ele me saísse ladrão, morfinômano, imbecil.”

Mas assim como ele prefere a “assustadora franqueza” da feiúra arquitetônica do Palácio Salvo, até nas suas limitações pessoais ele sobressai como um dos grandes personagens da literatura latino-americana.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  19 de maio de 2007)

22/05/2012

Oncologia, Ecologia, Ontologia

Em Get a Life-De Volta à Vida (em tradução de Ivo Korytowski para a Companhia das Letras), Nadine Gordimer relata uma série de eventos dramáticos envolvendo a família de seu protagonista, Paul Bannerman: ele passa por uma “quarentena” obrigatória, após a operação de extração de um tumor maligno na tireóide e a aplicação de iodo radiativo; seu pai, numa viagem ao México, conhece outra mulher, apaixona-se e nunca mais volta para sua mãe, a qual, por sua vez, adota uma menina negra (é a África do Sul pós-apartheid) de três anos, que fora estuprada, contaminada com o vírus HIV e abandonada; sua própria esposa engravida novamente, contra a sua vontade.

Além disso, há a luta do grupo de ambientalistas do qual Paul faz parte contra projetos governamentais ecologicamente ruinosos: a destruição de dunas e de um delta cuja extensão o faz ser identificável até do espaço. A humanidade, a “civilização” como tumor maligno na natureza, desafiando sua capacidade de recuperação, uma “quarentena” muito além da capacidade imaginativa do indivíduo.

Não faltam, portanto, elementos para compor mais um vigoroso painel contemporâneo, com a musculatura narrativa que a grande escritora sul-africana alega ter desenvolvido tarde em sua carreira (mais especificamente, a partir de O Falecido Mundo Burguês, de 1966), em reação à sua “sensibilidade aguçada”, mais propensa a envolver a vida num envelope transparente na esteira de uma Virginia Woolf. Numa das famosas entrevistas da “Paris Review” ela declara: “minha luta tem sido para não perder a agudeza de captar nuances de comportamento e casá-las com sucesso a um talento narrativo. Porque a espécie de assuntos que estão ao meu redor, que me atraem, que vejo e me motivam, exige uma forte habilidade narrativa”.

Os resultados dessa luta não podiam ser melhores: o mosaico de uma sociedade repressiva e dividida, e sua posterior e conflituosa superação (“mas, é claro, num certo sentido você é ‘sortudo’ se tem grandes temas”), em romances já clássicos como The Conservationist- O Amante da Natureza (ganhador do Booker Prize em 74, publicado no Brasil apenas em 82), A Filha de Burger, O Pessoal de July. Neles, e em trabalhos mais recentes, como Ninguém para me acompanhar ou A Arma da Casa, a determinação é quase balzaquiana, mesmo com a apurada sofisticação técnica: é uma realidade social específica que está sendo delineada diante de nossos olhos (evidentemente, daí advém a sua eficácia universal, a velha história de que falando da nossa aldeia…).

Pois bem, com todos os conflitos que permeiam o livro, com toda essa tarimba, Nadine Gordimer manda tudo às favas em De Volta à Vida, desossando a tal musculatura narrativa desenvolvida por ela, desencarnando-a mesma, e nada ficando a dever a mestres da insubstancialidade contemporânea: Don DeLillo, Bernardo Carvalho, Paul Auster, João Gilberto Nöll. Acompanhando o estado fantasmático que cerca Paul Bannerman desde sua “quarentena”, ela nos apresenta a realidade sul-africana num puro “envelope transparente”, digno de Virginia Woolf, num estilo quase a ponto de se desfazer, de se volatilizar, que eu só tinha visto até hoje, com essa intensidade, nos romances de Joan Didion, Democracia e A Última coisa que ele queria, uma espécie de má vontade com o material que tem de lidar (e que visto do espaço, em escala cósmica…) e frases-refrão que reaparecem e reaparecem, dando ritmo a esse estranho sussurro narrativo, que persiste na reticência intransigente do que poderia ter sido um grande romance tradicional.

Mas que romance tradicional poderia surgir quando se lida com o inconcebível, quando as pessoas têm de se acomodar ao intolerável (esse “tema” que é tão caro ao compatriota de Gordimer, J.M. Coetzee, e que rendeu uma obra-prima como Disgrace-Desonra): “… O que aconteceu —essa formulação implica o passado, o que existe agora é um presente sem existência no domínio das experiências fornecidas…”?

Se Doris Lessing, aos 82 anos, impressionou com o fôlego épico de O Sonho Mais Doce (2001), também de certa forma mostrou-se estática (mesmo com toda a sua autoridade) na exploração do mesmo universo das  obras anteriores (é que o universo lessinguiano é rico e vasto), Gordimer (que também chegava aos 82 no ano da publicação original de De Volta à Vida, 2005) surpreende e faz um dos romances mais atrelados, ou entrelaçados, ao que conhecemos pelo nome vago de pós-modernidade. E assim como o corpo de Paul Bannerman irradia invisivelmente seu perigo, e assim como falamos em escombros (da tradição narrativa, da África do Sul do apartheid, do meio ambiente), falemos também de um talento, ainda que inaparente, que irradia perigo (“açula a atenção, isca-a com o risco”, como no poema de João Cabral de Melo Neto): o leitor pode ficar tão fascinado por ele que não aceite mais outro tipo de texto representativo de nosso zeitgeist, do espírito da nossa época. Assim, com uma simplicidade alucinante (que parece ser típica dela), essa senhora octogenária se torna a escritora mais moderna, up to date, do mundo.

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em A TRIBUNA de Santos,  em  27 de outubro de 2007)

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13/05/2012

SUICÍDIOS EXEMPLARES: Vila-Matas e a boa e velha arte de contar estórias

E pensar que eu nem tinha muito entusiasmo em ler SUICÍDIOS EXEMPLARES (a versão de Carla Branco para Suicidios Ejemplares), não obstante o título tentador. Pois a mim aborrecia, e ainda aborrece, o  lado enfatuado, cabotino, o fastidioso rótulo de “escritor para escritores” que Enrique Vila-Matas carrega, e que não passa de complacência mútua entre escritores: posso muito bem aceitar, como diz Paul Auster na Trilogia de Nova York, que uma estória no fundo tenha mais a ver com outras estórias do que com a realidade. Mas criar uma obra baseada em “conversa entre escritores”, já me parece o que na adolescência chamávamos de punhetagem intelectual, se me for perdoada a grosseria.

Após ler Paris não tem fim (que é de 2003),Bartleby e Companhia (2004),  e A viagem vertical (1999), já tinha a minha cota de Enrique Vila-Matas. Creio que o problema está naquilo que foi exaltado recentemente por Leyla Perrone-Moisés num extenso artigo sobre uma suposta “literatura exigente” em que o componente principal de um certo tipo de prática ficcional é a desconfiança, sob cujo prisma todos os elementos da narrativa (e seus elos com uma realidade sempre entre aspas) são colocados sob suspeita, dissolvidos num texto basicamente paraliterário. Não deixando de observar que nem nos seus momentos mais irritantes, Vila-Matas se limitou a ser apenas isso, um escritorzinho da literatura exigente e desconfiada, nem por isso ele se isenta dessa ideologia aberrante; nessa linha de raciocínio, uma ode à literatura “exigente” (para mim, sempre tem que vir com aspas um termo tão arrogante) se assemelha muito com aquelas apologias da consumação do capitalismo, em que se apregoa que o mercado é a nossa realidade última e que todas as alternativas são pruridos de um utopismo míope e de uma fixação infantil numa Grande Narrativa já desmantelada (que, em termos literários, significaria a literatura de enredo e mimética).

Pela ordem da publicação no Brasil, SUICÍDIOS EXEMPLARES foi o quinto lançamento. No entanto, era mais antigo que os demais. Sua publicação original foi em 1991.

Em 1991, portanto, Vila-Matas podia já trazer inoculado o vírus da desconfiança e do fazer literário como “conversa entre escritores” que tanto mal fez à sua feição posterior como um todo (embora eu tenha gostado bem mais de Doutor Pasavento e Dublinesca do que daqueles livros já citados), mas ele acreditava suficientemente na arte de criar e contar estórias para nos dar o seu livro (entre os que eu conheço, é claro) mais brilhante, o livro que talvez o redimirá no futuro de todo o enfatuamento, toda a “pose”, do personagem cabotino que ele adora representar.

Considero o admirável SUICÍDIOS EXEMPLARES uma obra-prima (coloquei-o, inclusive, na minha lista para o jornal A TRIBUNA de Santos, dos  dez destaques de 2009). Só não precisava (e esse é um indício do mal que estava por vir) das molduras, uma no começo (Viajar, perder países, que quase me fez desistir da leitura) e no fim (Mas não façamos literatura, onde se cita Mário de Sá-Carneiro escrevendo a Fernando Pessoa, porque, claro, a literatura “exigente” é uma “conversa entre escritores”).

Tirando essas inutilidades, que podem servir para os acadêmicos entreterem-se mutuamente em congressos e revistas especializadas, gozando as delícias das referências infinitas,  temos dez estórias a um só tempo deliciosas e inquietantes, poéticas e dissolventes. Sempre gostei da máxima de Guimarães Rosa (citada por Autran Dourado em Uma poética de romance: matéria de carpintaria), “faça pirâmides não faça biscoitos” que serviria de divisa para vários monumentos modernistas (A montanha mágica, Em busca do tempo perdido, Ulisses, O homem sem qualidades, o próprio Grande sertão: veredas); também há um lado “biscoito fino” que os leitores um dia deveriam provar (aqui já estamos em Oswald de Andrade), que sempre me encantou em certas obras, como a de Calvino, o exercício da leveza como improvável veículo da ficção, um veículo intrigante e quase paradoxal (e aqui não enveredarei pelas dicotomias estéreis e caducas, para não dizer arrogantes, entre “literatura exigente” e “literatura mais palatável e mimética”). Quando um escritor consegue fabricar um biscoito dessa qualidade, nós pressentimos a pirâmide fantasmática que enseja esse feito.

São, então, dez estórias da mais alta qualidade. Todas são da mesma qualidade? Penso que não, entretanto todas ganham força no conjunto.

A minha favorita absoluta entre as dez (embora eu deva destacar que foi o impacto da primeira, Morte por saudade, que me fez reavaliar toda a desconfiança que mantinha sobre Enrique Vila-Matas; por isso creio que ela deveria figurar como hors concours) é a terceira Rosa Schwarzer volta à vida: a protagonista, vigilante de museu em Düsseldorf  e uma dona de casa profundamente infeliz, sente o chamado do “país dos suicidas” em que vive “O príncipe negro” do quadro de Klee:

“Influi nisso tudo a segunda-feira que viveu ontem? Eu diria que sim. Ontem, Rosa Schwarzer fez cinquenta anos, e como o museu fecha às segunda, achou que teria toda a manhã para preparar o almoço de aniversário. Mas já desde o primeiro momento tudo se complicou enormemente.”

Deixo para a imaginação ou para futura leitura o que complica o aniversário de Rosa, mas só adianto que ela vai ficar perto do suicídio várias vezes nesse dia e que Enrique Vila-Matas criou um conto antológico. Se um dia eu preparasse, para meu próprio deleite, um volume com meus textos curtos prediletos, esse seria um dos que eu escolheria.

Também poderia escolher a estória anterior, Em busca do parceiro eletrizante, onde o narrador fica famoso como “tipo” cômico por sua magreza. Quando sua carreira (e conta bancária) entra em declínio por ter engordado, procura um parceiro de tipo oposto. Mas só o encontrará sob a forma de um fantasma, numa das reviravoltas sensacionais da narrativa.

Gosto demais também da nona estória, Os amores que duram por toda uma vida, na qual a maneira como o autor encena a coisa toda, com a narrativa dos fatos, feita/enfeitada? pela neta e ouvida/desacreditada? pela avó, torna tudo mais opressivo e denso.

No mesmo nível ainda temos Uma invenção muito prática, a sétima estória, com uma narradora missivista que bem poderia pertencer ao universo de Ricardo Lísias, na sua performance através de uma corda bamba de loucura e lucidez corrosiva (e eu me pergunto, perplexo, como Enrique Vila-Matas pode ser tomado/valorizado sobretudo como escritor metalinguístico quando já demonstrou a capacidade de criar situações e personagens assim!).

E, como já disse, foi a primeira estória, Morte por saudade, que me conquistou irresistivelmente. Trata-se de um texto riquíssimo sobre a infância, sobre as vidas possíveis, sobre as escolhas irrevogáveis e traz uma modalidade de suicídio absolutamente poética e admirável, que poderia ser praticada nas cidades invisíveis de Calvino, malgrado transcorra numa cidade bem concreta, Lisboa.

E o autor espanhol ainda se deu ao luxo de escrever um curto e belíssimo texto de extração quase cortazariana, A hora dos cansados, a sexta estória, em que Barcelona se torna o palco de perseguições insólitas entre vários personagens que nem se conhecem.

Já não gosto tanto, apesar da sua qualidade e refinamento, de  A arte de desaparecer (a quarta estória) e O colecionador de tempestades (a décima e última). São inteligentes, interessantes, mas a primeira delas já me parece trazer o lado artificioso de Vila-Matas (é a estória de um escritor secreto, o qual, quando sua obra se dá a conhecer a um editor, resolve desaparecer e recriar sua vida em outro lugar; o detalhe mais interessante é que ele é um nativo de Umbertha, palco da trama, mas construiu toda uma vida, após a guerra, fingindo ser estrangeiro); a segunda, onde um suicídio longamente preparado parecia finalmente chegar a bom termo, num livro em que as disposições efetivas não se efetivam (e quem de fato se mata está fora de cena), é sustado por um acidente, parece uma paródia daquelas  estórias de invenções bizarras (até o cenário da câmara mortuária ajuda a criar esse efeito), de Poe a Wells, narrada numa espécie de evocação à Henry James. Gosto, mas não sou apaixonado por elas.

E as duas estórias de que menos gosto, que definitivamente não me “pegaram” e que valem basicamente por estar num conjunto  poderoso são a quinta, As noites da íris negra, onde há um “clube do suicídio” a respeito do qual alguns membros que não conseguiram se matar mantém uma nostalgia que se resolve através da hostilidade mútua e um clima de mistério e intriga para o casal protagonista, e Pedem que eu diga quem eu sou, a oitava, em que me parece (posso estar enganado) uma reflexão sério-jocosa sobre a questão do exotismo, da atração por uma paisagem muito nitidamente geográfica e colorida por parte de uma parcela de artistas europeus (além de se valer de forma pícara e às avessas do tema fáustico, apresentando como personagem Satam Alive—brincadeira com o próprio nome de Vila Matas lido de trás pra frente). Veja bem, leitor, o fato de elas não terem me conquistado muito, ou eu não os ter compreendido muito bem, não lhes tira o nível de refinamento literário ou lança qualquer suspeita sobre sua qualidade. É uma questão de preferência pessoal.

Agora eu torço para encontrar outro SUICÍDIOS EXEMPLARES na obra de Vila-Matas. Expectativa talvez injusta, mas fazer o quê?

TRECHOS DAS ESTÓRIAS

“__Os últimos minutos da vida do meu avô—dizia-me Horácio—foram os mais intensos de uma vida intensa.

__E o que aconteceu nesses minutos?—supunha-se que eu devia perguntar. Mas não o fazia. Estava bastante atormentado com tantas histórias do avô. Mas era contraproducente não perguntar, porque então o mais habitual era que voltasse à carga com uma nova aventura do avô. Acabou conseguindo que eu perdesse a paciência, e uma tarde impedi sua passagem num canto do pátio quadrangular do colégio, dizendo-lhe:

__ Vamos acabar com isso, acho que já chega.Se o que você queria era me atormentar, é claro que conseguiu. Vamos acabar com isso de uma vez, me conta como o seu avô morreu, a vida dele eu já sei de cor, me conta agora esses minutos finais tão intensos da vida dele.

__Sério? Quer que eu conte mesmo? –me perguntava enquanto lançava um olhar terrível, como se fosse um crime que naquele pátio, onde só se respirava um tédio profundo, eu lhe exigisse (precisamente eu, que nunca terminava nada) completar um quadro, a história da vida de seu querido avô…” (Morte por saudade)

“Contribuiu para minha irresistível ascensão a cômica e exagerada magreza de meu corpo (as pessoas riam porque, quando eu andava, parecia uma folha levada pelo vento), mas esse mesmo traço físico não demoraria a se voltar tragicamente contra mim (…) Tive namoradas, dancei boleros, acariciei morenas, cantei o amor. Mas o infortúnio espreitava no ângulo mais iluminado de meu festivo jardim, e sem me dar conta, comecei a me abandonar. Como se existisse uma relação secreta entre a casa e a obesidade, comecei pouco a pouco a engordar, e quando me dei conta já nenhuma dieta era capaz de frear o irreversível processo, minha trágica transformação. E assim cheguei à última sexta-feira da década de sessenta: a ver navios, sem namoradas, transformado em um Brandy Mostaza desconhecido, um gordo infame que havia perdido sua veia cômica…” (Em busca do parceiro eletrizante)

“Não, também não seria dessa vez que tiraria sua vida. Seu pobre filho, seu querido Hans, merecia jantar comida quente aquela noite. Levantou-se, jogou o que restava da peruca no lixo, riu feito uma louca, e provou o pão de centeio.

  Porém, ao cair da tarde, seu pobre e querido Hans voltou para casa e nem sequer se interessou pelo leitão assado, nem perguntou  por que ela tinha demorado tanto no cabeleireiro, tampouco se queixou de ter tido de comer o frango frio da geladeira, nada, nem sequer a olhou e, portanto, não teve oportunidade de ver o escandaloso cabelo de piaçava branco que sua mãe exibia. Apenas a cumprimentou sem entusiasmo e pediu que ela pregasse os botões da camisa. Mas não a olhou. Rosa Schwarzer compreendeu que seu filho não se interessava nada por ela…” (Rosa Schwarzer volta à vida)

“Entre as medidas para poder viver como escritor secreto, a mais curiosa era o que havia tramado há mais de quarenta anos: a de morar em seu próprio país, a pequena e sedutora, mesmo que terrivelmente mesquinha, ilha de Umbertha, fazendo-se passar por estrangeiro. Foi fácil enganar todo mundo, porque o trágico e brutal desaparecimento de toda  sua família na guerra o ajudou na mudança de identidade. De repente, certa noite, todos mortos, Anatol compreendeu que estava só, completamente só no mundo, e sentiu essa sensação de extravio que se vive quando, no caminho, voltamos atrás e vemos o trecho percorrido, a via indiferente que se perde num horizonte que já não é o nosso….” (A arte de desaparecer)

“É da incumbência—li em voz mais baixa, quase sussurrante—de todos os sócios de nossa entidade saber que quando a carta do número 3 dos Notáveis chegou à sede central desta Sociedade de Simpatizantes da Noite da Íris Negra de Port del Vent, que tenho a grande honra de co-presidir, não tardamos em nos reunir, os Notáveis restantes, para ver o que faríamos a fim de satisfazer plenamente, e com a maior prontidão possível, os desejos desse amigo que, antes de tornar-se o assassino de si mesmo, desejava que seus íntimos acudíssemos a visitar sua casa e, falando toda a noite de filosofia, o acompanhássemos nas horas anteriores à desse gesto valente e final com que desejava ser fiel à máxima de nossa Sociedade, ou seja, desaparecer digna e serenamente depois de uma grande festa do espírito de uma vibrante homenagem à amizade e ao amor à filosofia, à maneira de um Catão ou de um Sêneca, cujas mortes são, ainda em nossos dias, o mais perfeito exemplo e modelo do suicídio clássico e sereno, profundamente mediterrâneo…” (As noites da Íris Negra)

Perto de uma das portas laterais da catedral, localizo perseguido e perseguidor. Recupero a calma ao retomar o terceiro lugar na singular procissão, mas não é uma calma total, já que do golpe contra o muro ficou uma dor que vai ganhando intensidade, e se não se pode dizer que eu vejo estrelas, vejo sim um foco de luz, como um lustre de milhares de lâmpadas. Meio cego pela luz, vejo que o velho se detém em frente a uma das portas laterais, tira da maleta um chaveiro magnífico e entra no que deve ser a sacristia da catedral. Tudo acontece muito rápido. E depois de uma sonora batida da porta, o velho desaparece da minha vista sem nem sequer dedicar-me um olhar de desculpas por ter arruinado a minha diversão. Sem nem sequer um adeus, um olhar de desprezo ou de compaixão. Nada. Desaparece como um raio, e me deixa perseguindo o negro. Penso que eu talvez esteja enganado, que o velho na verdade não perseguia ninguém, talvez estivesse apenas transportando uma bomba que fará voar pelos ares a catedral…” (A hora dos cansados)

“Fiquei tão sozinha que, de repente, os sons do andar de cima e do de baixo, começaram a me obcecar seriamente: no sétimo andar, sapatos de salto alto e brincadeiras aquáticas, entre outros horrores; no quinto, gritos e brigas entre pai e filho, de grande dramaticidade. Tudo isso foi me consumindo num desespero maníaco que me levou a tentar catalogar as diferentes modalidades de ruídos dos vizinhos.

   Sequelas, talvez, de sua má vizinhança naquele verão em Alicante? Não sei, mas a verdade é que me bateu um maníaco desespero. Depois de setenta anos respeitando muitíssimo os outros, tentando sempre, mesmo que fosse apenas por educação, não incomodar nunca e, definitivamente, perdendo a vida por delicadeza, começou a parecer tremendamente injusto que o prêmio para a minha conduta irrepreensível e a minha discrição perfeita fosse essa contínua perturbação dos vizinhos (…) Achei muito penoso que tudo isso acontecesse comigo, precisamente comigo, que jamais quis incomodar ninguém e sempre tentei passar por este mundo com passos de bailarina, leve, nas pontas dos pés pela vida. E quis me matar, é verdade, você não está enganada…” (Uma invenção muito prática)

“__ E o que o senhor sabe de mim?

    Com essa pergunta, conseguiu que eu voltasse a me indignar. Continuava resistindo em me ver como um homem instruído. Por que eu não podia conhecer de memória a sua obra?

__Sei, por exemplo, que o senhor jamais esteve em Babàkua, nem sequer em pintura.

__Puxa, em pintura sim é que estive—brincou com cinismo, sem dúvida inquieto e surpreendido ao ver que eu, um pobre-diabo, sabia bastante sobre sua vida.

__ E também sei—disse—que se tivesse se incomodado alguma vez em pisar nessa terra diabólica, saberia o quão intensamente equivocadas são todas as suas pinturas. Não posso deixar de rir quando penso em todos esses críticos que o consideram o último realisa…” (Pedem que eu diga quem eu sou)

“E em parte ela tem razão. Atropelo-me ao contar, estou nervosa.  Deveria contar as coisas de um modo mais calmo, para que pudesse me entender melhor; deveria contá-las do jeito que ela faz, ainda que na verdade a coitada tampouco as conte de um modo perfeitamente ordenado; além disso, repete-se, repete-se muito. Uma amiga me disse que minha avó só tinha uma história e por isso se repetia tanto. Se isso é verdade, supero minha avó em histórias, porque tenho, no mínimo, duas: a da cédula que voou (com a qual talvez se pareça muito o resto das histórias que até agora inventei) e a deste fim de semana em Cerler. Deus meus, tenho duas. Mas a segunda preferia não ter. E também acho que deveria demorar menos para contá-la. Porque está certo que vá preparando minha avó para a terrível notícia final, mas não acho que seja necessário ir tão devagar…”  (Os amores que duram por toda uma vida)

“Uma semana depois, Mestre deixou de aparecer na hora costumeira no mercado. Passados três dias sem que fosse visto, seus amigos forçaram a porta do palácio e desceram à cripta, que encontraram aberta. Entre descargas de trovões e visões de tempestades distantes, encontraram o cadáver do Mestre que, segundo todos os indícios, tinha sido surpreendido por uma taque do coração quando estava enlaçando duas arandelas com um cronômetro.

   Não teve tempo de concluir seu grande projeto. A morte—sempre tão estupidamente cômica—o surpreendeu antes de poder ver terminada a obra. Toda Bergamo ficou impressionada pela cenografia e magnitude da cripta. Nela o enterramos…” (O colecionador de tempestades)

DEZ DESTAQUES DE 2009

Pessoalmente, sempre acho meio ridículo fazer lista de melhores. O mercado editorial é um oceano e uma pessoa só consegue, no máximo, indicar gotas desse oceano (a metáfora não é muito rica, porém é bem exata). De tudo o que li em 2009, proponho dez destaques, levando em conta o ineditismo dos livros, apesar de 2009 ter sido um ano pródigo em novas traduções: por exemplo, surgiram versões novas de Cem anos de solidão, O  inominável,  Fundação, Zazie no metrô, O turista acidental , Alice no país das maravilhas, e um vasto etc.

Outro destaque à parte foram os livros relacionados ao Evolucionismo  e certamente, nesse quesito, além do seu brilhantismo próprio, Richard Dawkins foi o campeão, com A grande história da evolução & O maior espetáculo da terra (este último, nem comprei ainda…).

Após esse preâmbulo, passo à minha lista de destaques (outros livros vêm à minha mente, mas quero me ater a esse número   redondo):

10)  Após o anoitecer, de Haruki Murakami (Alfaguara)- belo romance japonês que nos mergulha nas cambiâncias da “modernidade líquida” (como Zygmunt Bauman caracterizou nossa época) que não pouparam nem o mundo oriental.

9) Suicídios exemplares, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- deliciosa e provocante coletânea de histórias cuja temática já e indicada pelo título., grande momento do autor espanhol. Espere mais ironia que drama, leitor..

8) Buscas curiosas, de Margaret Atwood (Rocco)- A grande escritora canadense reuniu textos onde comenta outros escritores, a feitura de alguns de seus livros e circunstâncias biográficas. O resultado é tão apaixonante quante sua própria ficção.

7) Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)- O melhor, mais inspirado, romance de Chico até agora, e simplesmente um texto primoroso, de primeira. Um século transcorre diante dos nossos olhos com uma insustentável leveza de estilo, e uma mirada poderosa no racismo latente em nossa sociedade. Maior poeta da nossa MPB, Chico agora também é um dos nossos grandes prosadores.

6) Dois grandes momentos da ficção uruguaia,: o primeiro livro de Juan Carlos Onetti (cujo centenário foi comemorado em 2009), O poço (1939), reunido a Para uma tumba sem nome (1959), numa edição da Planeta; e Primavera num espelho partido, de Mario Benedetti (Alfaguara), belíssimo romance político, utilizando a forma polifônica (muitas vozes) e comprovando a maestria de uma das grandes perdas do ano passado.

5) Súplicas atendidas, de Truman Capote (L&PM)- Apesar de inacabado e um pouco desagradável, é fascinante esse painel moralista do jet set americano e europeu entre os anos 40 e  70, que apresenta alguns momentos geniais, em meio a fofocas e revanches. Também vale destacar o atraso com que foi traduzido e o descaso com que foi traduzido.

4) Modernismo, de Peter Gay (Companhia das letras)- Foi bastante atacado esse esforço enciclopédico do grande historiador e biógrafo de Freud. Mas eu o acho admirável e necessário. Numa época de fragmentação, é preciso haver esses exercícios de totalização, e o Modernismo é ainda o nosso último horizonte “estável”.  O mundo seria muito mais sem graça se não existissem Peter Gay e Richard Dawkins.

3) Amuleto & Estrela distante, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras)- Embora nenhum dos dois tenha a amplitude suprema de Detetives selvagens, talvez o maior livro dos últimos anos, mostram como Bolaño, junto com W.G. Sebald (aliás,  o grande livro de Sebald, Os emigrantes, foi reeditado este ano, também pela Companhia. das Letras, havendo uma edição anterior pela Record), é o morto mais vivo da ficção contemporânea (ele morreu, pateticamente, aos 50 anos, esperando por um transplante de fígado foi publicada e conhecida quase toda postumamente).

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2) Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra)- É até engraçado colocar o genial Conrad num segundo lugar, uma vez que ele é um dos autor-referência, mesmo nas suas histórias curtas, escritas no início do século passado, e que abordam temas ainda atualíssimos (terrorismo e publicidade, por exemplo).Também é outro caso de atraso lamentável em matéria de tradução. É preciso também destacar o papel importante da editora em colocar títulos surpreendentes no mercado, na mesma série à qual pertence o livro do genial escritor polonês.

1) As aventuras de Augie March, de Saul Bellow (Companhia das Letras)- Outro caso estrondoso de descaso e atraso  Esse livro de 1953 estbeleceu definitivamente a reputação de Saul Bellow, um dos maiores escritores norte-americanos, e muitos ainda o consideram sua obra-prima. Talvez não seja (eu prefiro por exemplo, O planeta do sr. Sammler, publicado dez anos depois, e há ainda Herzog  & o esplêndido O legado de Humboldt), mas é um dos seus melhores livros. É bom lembrar que outra grande obra de Bellow, Henderson, o rei da chuva, tornou-se cinquentenária agora em 2009, e assim aproveito para corrigir uma omissão que cometi no meu post a respeito das comemorações literárias deste ano. Agora: se o romance de Bellow é o grande destaque do ano, a capa escolhida é uma das piores, simplesmente horrorosa.

SOB O SIGNO DE BAUMAN: ficções da Modernidade Líquida: Vila-Matas, Bolaño, Chico Buarque…

 

paris não tem fim

A PELE LARGADA DE VILA-MATAS

 

Num dos belos livros do moçambicano Mia Couto, A Varanda do frangipani, um dos personagens, Salufo Tuco tem o hábito de se vestir com retalhos de tecidos, remendos mal costurados: Se apresentava assim para renovar memórias de sua inicial juventude. Recordava os primeiros pagamentos que recebeu como ajudante de alfaiate. O patrão era um indiano e lhe pagava o salário não em dinheiro mas em sobras de panos. Vestindo-se de remendos, Salufo se transferia para os perdidos paraísos da infância? Não sei. Uma vez lhe perguntei, ele negou. Retorquiu assim: a cobra pode reinstalar-se na pele que largou?”

Esse dilema (reinstalar-se numa pele que se largou) é o mote de Paris não tem fim do espanhol Enrique Vila-Matas (diga-se de passagemm um escritor antípoda ao autor de A varanda do frangipani), narrativa-conferência sobre a ironia, segundo o autor. E a ironia incide justamente sobre a época (meados dos anos 70) da juventude do então candidato a escritor, o qual fora morar em Paris mobilizado pelo charme da conjunção vida literária & boêmia que ressaltava das páginas de Paris é uma festa, de Ernest Hemingway, o livro clássico na descrição mitológica da chamada “geração perdida” nos anos 20 (Hemingway, o casal Fitzgerald, Gertrude Stein…).

Paris não tem fim nos relata como, ao escrever o seu primeiro livro (A assassina ilustrada), Vila-Matas se transformou num escritor antípoda a Hemingway: enquanto este utilizava os dados vitais, as experiências biográficas, as quais foram minguando, o que levou o escritor norte-americano mais famoso do século XX ao desespero e ao suicídio, nosso ofídico e viperino autor que procura a pele perdida preferiu fazer o que se pode chamar de ficção borgiana por excelência, na qual a literatura é o ponto de partida e não o de chegada.

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Para dar graça à situação, o gancho utilizado por Vila-Matas é a sua insistência ao longo dos anos de uma semelhança física que haveria entre ele e Hemingway, ao ponto de participar de um concurso de sósias. A teimosia é absurda e se torna emblemática das ilusões do jovem escritor que foi inquilino de Marguerite Duras, a quem presta uma homenagem ambivalente. É na casa dela que ele começa a intuir o que de fato representa o poder das palavras escritas como meio de adquirir certa distância do que chamavam realidade…essa necessidade que tinha das palavras…que elas pudessem ser úteis para me distanciar do mundo real. Seguramente comecei a me tornar de fato um escritor naquelas escadarias. Mas, como ainda não tivera acesso à ironia, as palavras pouco podiam fazer por mim naquele dia…”

Para se apreciar (quando não se conhece as demais obras do autor) Paris não tem fim é preciso ter um pouco essa predisposição para a literatura enquanto afastamento deliberado do real e exercício da ironia, embora no plano anedótico o relato memorialístico não seja desprovido daqueles dados vitais e daquelas experiências biográficas que tanto fizeram falta a Hemingway na solidão frente à velhice e ao esgotamento criativo em Ketchum, Idaho. Como  não sou  de todo afeito a essa dieta de palavras, ainda não me dei por satisfeito na minha chegada ao mundo de Vila-Matas. Porém, como Paris não tem fim…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de abril de 2008)

 

A POESIA POTENCIAL DA VIDA DERRAPANDO NA PISTA DA PROSA

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2007)

Nome de grande repercussão no momento literário atual, apesar de sua morte prematura em 2003 (aos 50 anos), o chileno Roberto Bolaño tem sido vítima da pressa com que críticos e resenhadores procuram ou corresponder ao interesse suscitado por sua obra ou se apropriar dela para fins de mapeamento do panteão artístico contemporâneo, sempre necessariamente uma paisagem na neblina porque feita de apostas.

Temos afirmações fundadas na facilidade: seu ciclópico Detetives Selvagens  já foi apresentado,e isso é repetido sem qualquer revisão, como o romance que Borges escreveria, só porque seus protagonistas são poetas e porque ele trata de uma das vanguardas poéticas dos anos 70; Francisco Goldman, em “The New York Review of Books”, afirma sobre A Pista de Gelo que a história “envolve a descoberta de um misterioso corpo nu que se descobre pertencer a um poeta”. Na verdade, o cadáver encontrado nesse romance de estréia de Bolaño é o de uma velha mendiga numa cidade balneária da Catalunha. Ela vivera certo tempo no camping onde trabalha clandestinamente o poeta e narrador Gaspar Heredia (o qual fica bem vivinho ao longo da narrativa e tem uma biografia parecida com a do seu criador, que depois de viver muito tempo no México, liderando inclusive um movimento de vanguarda, tornou-se um imigrante ilegal na Espanha, sobrevivendo em subempregos) e acaba assassinada numa grande propriedade à Xanadu do Cidadão Kane na qual há uma pista de gelo construída por meio do desvio de verbas públicas por Enric Lesquelles (nada que diga respeito a nós brasileiros), assessor da prefeita da cidade e um dos três narradores (o outro é Remo Morán, dono do camping que emprega o poeta), para sua amante, Nuria, uma patinadora que fora cortada da seleção e que, tentando uma volta triunfal, precisa de um lugar para treinar (ela também é amante de Morán).

Se pensarmos mais a fundo na arquitetura simbólica de A Pista de Gelo, talvez o errôneo resumo da história feito por Francisco Goldman não seja tão absurdo, se o aceitarmos como imagem: temos a morte da poesia (e, portanto, a morte simbólica do poeta), questão ampliada de forma alucinante em Detetives Selvagens (uma obra-prima que continua me desafiando  a comentá-la), que trata da obliteração de dois poetas ao longo das últimas décadas; um deles, aliás, a certa altura começa a escrever ficção, e esse ato parece mais uma capitulação, entre muitas, à realidade circundante (e por circundante entenda-se claustrofóbica). Em A Pista do Gelo parece que Remo Morán tem como fito domesticar Gaspar Heredia com o empreguinho que oferece a ele, selvagem colega de profissão (Morán também escreve). Assim como com relação à Arturo Belano e Ulises Lima, cultuadores incultos da sua arte, nunca se menciona um poema, um único verso de Heredia, que lhe dê substância como poeta. Ele apenas é apresentado como tal e cada vez mais se patenteia a insubstancialidade de sua “identidade” poética (diga-se de passagem o rasgo poético mais convincente do livro inteiro é a construção da pista por Enric).

No final, triunfa o mundo da intrigas, do enredo prosaico, que Bolaño parece tão bem mimetizar nesse romance, para depois parodiá-lo e triturá-lo em Detetives Selvagens e Noturno do Chile, seus outros livros publicados no Brasil.

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NA VIDA FANTASMA, A VERDADE DE UM ESCRITOR…

 “…depois de casado, nos dias em que estava seguro de haver escrito um texto de grande inspiração… meu desejo era o de que a Vanda o lesse. Então comprava vários exemplares do jornal e os deixava com meu artigo à mostra no caminho dela, na mesa de jantar, em cima do telefone, no berço do menino, junto ao espelho do banheiro. Ver a Vanda correr os olhos sobre as minhas letras, esboçar um sorriso, apreciar um texto meu sem saber que o era, seria quase como vê-la se despir sem saber que eu a estava olhando. Mas não, ela pegava o jornal e revirava as páginas, olhava umas fotografias, lia as legendas, a Vanda não tinha paciência para grandes leituras. Daí meu estupor ao saber de sua boca que ela lera meu livro, não uma, mas três vezes… tive pena e orgulho de mim, era  como se duas palavras dela reparassem sete anos de descaso”.

No trecho acima, José Costa, narrador e protagonista do festejado Budapeste, de Chico Buarque, esclarece, caso alguém ainda tivesse dúvidas, as suas prioridades. Acima de tudo, a palavra escrita, obsessivamente praticada por ele, como escritor fantasma, orgulhando-se  –-nesta época patética onde ser uma celebridade por 15 minutos conta tanto— do seu anonimato.

Escritor fantasma, Costa apaixonar-se-á por uma cidade fantasma, a do título, por causa de uns fiapos de linguagem, de algumas palavras ouvidas numa escala forçada de viagem: “Tratava-se de um pão de abóbora, conforme o maître informou em inglês, mas eu não queria a receita da broa, queria saborear seu som em húngaro”. Chega a participar de congressos de escritores anônimos, em várias partes do mundo, nestes tempos de globalização nos quais uma cidade equivale à outra, de tal forma que percorrer um mapa, trancado num quarto de hotel, pode substituir a experiência real, o que combina com um estilo de vida fundamentalmente fantasmático: Não me aborrecia caminhar assim num mapa, talvez porque sempre tive a vaga sensação de ser eu também o mapa de uma pessoa”.

Por isso, se pode entender que para José Costa é uma traição ao seu código de vida revelar à mulher que é o verdadeiro autor de um livro, num acesso de ciúme; também não causará espécie saber que ele abandona o outro pólo amoroso (húngaro) da narrativa, Kriska, por não ver apreciada a obra assinada por outro, e principalmente por ela não perceber como seu antigo aluno passou a dominar o seu idioma natal. É um amor tão grande pela (s) língua (s) e seu uso, que, num outro momento de ruptura, ao perceber que ela está prestes a xingá-lo com uma palavrão desconhecido, lemos: “A palavra estava ali nos seus lábios vacilantes, devia ser uma palavra que ela nunca se atrevera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, uma palavra caída em desuso de tão atroz. Devia ser a única palavra que eu não conhecia em todo o vocabulário magiar, devia ser uma palavra estupenda. Então não me contive e supliquei: fala”.

Também se pode entender, por isso, que a grande ironia da história será quando publicarem um livro cujo autor é José Costa (ou mais precisamente, Zsose Kósta), mas que ele não escreveu, um livro que o torna uma celebridade…

Budapeste é um romance danado de engenhoso. Tem um nível de elaboração de linguagem (o qual se reflete inclusive na sua paradoxal limpidez) quase desconhecido hoje em dia na ficção brasileira, a não ser em raríssimas obras. Como Chico Buarque escreve bem! Além disso, ele se livra de vez da aura fantasmática, da aura do “quase”, de obra-potencial, nebulosa e anticlimática, que marcou seu primeiro romance, Estorvo, cuja bruma já havia sido um pouco (mas só um pouco) dissipada com o romance seguinte, Benjamim.

Por que então sua leitura não satisfaz plenamente? Talvez porque, quando o livro se encaminha para uma maior densidade, uma verticalização do universo fantasmagórico do pós-moderno, o qual ele delineou tão lindamente, com suas cidades intercambiáveis, com seus hotéis impessoais, com um cosmopolitismo que se traduz em uniformização, em que todos os tipos de relação se deterioram (como na cena em que José Costa reencontra o filho crescido, que fica a um passo de agredi-lo gratuitamente, sem aparentemente reconhecê-lo: “…talvez soubesse desde o início que eu era seu pai, e por isso me olhava daquele jeito, por isso me encurralava no muro. E fechou o punho, armou o golpe, acho que ia me acertar o fígado…”), enfim, tudo que vai contra a complexidade da língua enquanto parte viva do nosso ser, Chico recua visivelmente e nos proporciona soluções decerto prazerosas de ler, porém aquém do rigor e do vigor de um João Gilberto Noll ou de um Bernardo Carvalho, entre os expoentes brasileiros da perplexidade, da inquietude e da insubstancialidade no cenário literário atual, para não falar do grande Paul Auster, que, aliás, leu trechos de Budapeste no congresso de escritores nada anônimos que é a FLIP, em 2004. Outra sensação desagradável é que parece termos lido tudo isso, com maior contundência, outras vezes. A diluição é agradável, porém, ainda assim, diluição, placebo, simulacro…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,em 22 de junho de 2004, e aqui reproduzida com ligeiras modificações)

chico

15 DESTAQUES DE 2010

(uma versão reduzida saiu em A TRIBUNA de Santos de 04 de janeiro de 2011)

É sempre  bom esclarecer que quando um crítico propõe destaques entre as publicações de um ano, ele não está propondo uma lista de melhores, o que seria risível. Quem lê tudo o que se lança num ano? E se lesse, que tipo de pessoa seria essa?  Por exemplo, saíram em 2009 e são dois dos melhores livros da década  A fantástica vida breve de Oscar Wao, de Junot Díaz, e Quando haverá boas notícias, de Kate Atkinson, e o leitor não os encontrará na minha lista do ano passado. O mesmo deverá acontecer com lançamentos de 2010, que não tive oportunidade de ler. Também não entrarão na minha lista obras que ganharam nova tradução, caso de reaparições importantíssimas, como  Walden, de Thoreau, nas mãos especialíssimas de Denise Bottmann, ou as novas versões dos romances de William Kennedy (A grande jogada de Billy Phelan & Ironweed), ou de Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow, ou ainda de A verdadeira vida de Sebastian Knight, de Nabokov, só para citar alguns; ou então  novas edições de autores essenciais (é o caso de dois lançamentos primorosos do ano que acabou, os Contos Completos de Lima Barreto e a edição conjunta de Diário do Hospício  & Cemitério dos Vivos).

Tendo em mente essas limitações, eis 15 lançamentos imprescindíveis do último ano (em comentários sumários e necessariamente superficialíssimos):

1)Sartoris, de William Faulkner (CosacNaify)-  Romance fundador, que em 1929 deu início à saga da decadência sulista, representada pelo mítico condado de Yoknapatawapha, um dos lugares fundamentais da ficção,  e em que a obsessão do maior escritor norte-americano pelo tempo se traduz numa narrativa  caleidoscópica fascinante.

2) Verão, de J.M. Coetzee, e Invisível, de Paul Auster (Companhia das Letras)-  Dois dos mais notáveis escritores da pós-modernidade no auge de sua maestria, em relatos que se aproximam do limite do relato tal como conhecemos.

3) Memórias Inventadas, de Manoel de Barros (Planeta)- Um poeta que se recusa a sair da infância e vet o mundo e a linguagem  com outros olhos que não sejam os da não-domesticidade, do não-conformismo. O resultado é uma poesia-brincadeira-infantil muito séria e contundente. Neste ano também, pela Leya saiu a sua Obra Completa, a qual preencheria um ano todo da vida de um leitor.

4) O arquipélago da insônia, de António Lobo Antunes (Alfaguara)- O mais lírico e pungente dos livros ciclópicos publicados pelo grande autor português nesta última década, chegando ao requinte de ter um narrador autista. Também prova cabalmente como a lição de Faulkner foi fecunda. Mas poucos o seguiram com tal radicalismo.

5)A câmara de inverno, de Anne Michaels (Companhia das Letras)- Finalmente, depois de mais de uma década,  o segundo romance da fabulosa autora canadense, que já criara um fascinante deslocamento geográfico em  Peças em fuga. Memória, esquecimento, conservação, deterioração, os opostos se atraem nessa autêntica poesia da prosa, incursão bissexta no gênero narrativo de uma poetisa consagrada.

6) Senhores e Criados e Outras Histórias, de Pierre Michon (Record)- O grande autor francês, de Vidas minúsculas, aproxima a ficção  da pintura e do relato biográfico, em três textos, pelos quais circulam figuras como Van Gogh, Goya, Watteau, Piero della Francesca ou Claude Lorrain. Michon é da estirpe de um W. G. Sebald ou de um Claudio Magris.

7) Um homem apaixonado, de Martin Walser (Planeta)-  Uma bela incursão pela alma, mente, espírito e corpo de Goethe, o qual, septuagenário, se inspira na sua paixão por uma mocinha de 19 anos para compor um de seus mais famosos poemas. É o eros da criação contra a aproximação da morte, e aí não importa tanto se a paixão biográfica foi bem sucedida ou não.

8) A morte de Matusalém, de Isaac Bashevis Singer (Companhia das Letras)- O maior contador de histórias curtas da 2ª. metade do século XX em plena forma, tanto nas incursões sobrenaturais, onde mergulha no imaginário judaico, quanto (ou sobretudo) nas soberbas narrativas realistas.

9) Hóspedes do Vento, de Chico Lopes (Nankin)- Talvez o mais talentoso contista  brasileiro surgido nesta década, em sua terceira e mais equilibrada coletânea, após os talentosos Nó de sombras & Dobras da noite.

10) Sabres e utopias, de Mario Vargas Llosa (Objetiva)-  Uma chance de conhecer o pensamento político do incontornável vencedor do Nobel de 2010, sem que necessariamente tenha de se concordar com ele.

11) A questão dos livros, de Robert Darnton (Companhia das Letras)- magnífica reunião de ensaios  do historiador norte-americano onde ele discute o passado, o presente e o futuro do livro e do conhecimento enciclopédico.

12) Doutor Pasavento, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- Quanto mais vou conhecendo a obra de Vila-Matas, mais vou achando que ele é um dos grandes nomes da literatura atual. Este talvez seja o seu livro mais ambicioso.

Hors concours: 2666, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras) & Os embaixadores, de Henry James (CosacNaify)- O que teria em comum um romance escrito por um Chileno e que transcorre num México microcosmo da nossa época, e um romance  em que James nos mostra o problema do cosmopolitismo, a problemática convivência entre americanos e europeus? Simplesmente são os romances mais ambiciosos escritos na década inicial do século, no caso de Bolaño, o nosso próprio século, e no caso de James, o século passado, e que parecem esgotar as formas narrativas em curso.

Feliz 2011 e um monte de leituras para todos.

29/04/2012

LIRISMO E REALISMO AO MODO LOBO ANTUNES

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de novembro de 1994)

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MOTE

Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer sentido.

Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e pobre.

Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se levar (via experimentação lingüística ou via introspecção extrema) para um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a realidade”.

O CASO LOBO ANTUNES

    O português António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno (1980), fornece um belo exemplo do dito acima.  Seu texto é um magma de lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção, um grande talento sem dúvida:

“A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.

–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira.-Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de matar do que o bicho das vinhas.

     E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos, idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador, acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços”.

    Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (Fluxofloema; Qadós; Tu não te moves de ti).

CASA PORTUGUESA HORROR SHOW

Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica, esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo (no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.

Em Auto dos Danados,cujos acontecimentos principais transcorrem por volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência, pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de  Roberto Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…

Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca  agoniza, somos informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a Portugal para ajustar contas com o tio-amante.

Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com certeza.

 (a citação de CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas Publicações Dom Quixote, 1983)

 Lobo+Antunes

 

10/04/2012

Tudo o que é sólido afunda no mar: CADA UM POR SI e a luta de classes no Titanic

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 1998)

O leitor pensa: novamente a mesma triunfalidade na partida do Titanic, em abril de 1912, a mesma arrogância do pessoal da primeira classe, os mesmos avisos persistentes sobre icebergs ignorados pelo comandante, a mesma perplexidade diante da constatação de que o navio afundará, o mesmo atropelo, a mesma falta de escalares suficientes para todos, o mesmo avanço inexorável da água a bordo, a mesma quebra do navio em dois,  o mesmo desaparecimento no oceano gelado que arremata o serviço de mortandade…

Qual é a novidade de  CADA UM POR SI (Every man for himself, Inglaterra-1996, em tradução de Carlos Süssekind), de Beryl Bainbridge, após o disaster love (e, a meu ver, um desastre como obra cinematográfica) de James Cameron?

Dessa vez, a história é contada por Morgan, sobrinho do proprietário da Companhia que construiu o Titanic. Adotado pelo tio, com uma infância obscura e constrangedora, ele divide-se entre os interesses cotidianos da sua classe e uma superficial atração pelo socialismo. Durante os poucos dias da travessia, sofre também uma desilusão romântica: era apaixonado pela estranha Wallis. E ficara fascinado por Scurra, um homem misterioso (que me lembrou aqueles personagens de Orson Welles, como  o Mr. Arkadin, de Grilhões do passado), com o qual discutia com franqueza os mais variados assuntos, e o qual lhe deu dicas sobre a Vida (numa certa altura, chegara a suspeitar que ele fosse seu desaparecido pai).

Morgan descobre que Scurra e Wallis são amantes. Por causa dessa situação, Scurra diz a ele a frase-clichê que dá título ao romance. Cada um se vira por si e procura levar a melhor (a Lei de Gérson, em suma).

CADA UM POR SI concentra-se no universo da primeira classe, para a qual foi construído o Titanic e da qual ele é o símbolo, tanto na triunfalidade quanto na fatalidade.

Nada de rapazes pobres da terceira classe que, como Cinderelas, participam de jantares suntuosos e ainda dão lição de moral  para milionários enfatuados (o que a carinha de franguinho mal desovado de Leonardo di Caprio ajuda a tornar mais risível; mas a sua partner não fica atrás: como alguém pode aceitar o filme de Cameron como “romântico” quando se sai com a memória de uma cena em que ela, andando paquidermicamente, com uma aparência assustadora e um machado na mão nos parece transportar para o hotel mal-assombrado de O iluminado?). O mundo de Morgan é um mundo de domínio: “Foi a sublime termodinâmica de engenharia naval do Titanic que nos cortou a respiração. Deslumbrado, eu estava pensando que se o destino do homem se achava ligado à ordem do universo, e se era possível igualar o funcionamento cientificamente construído das máquinas ao do universo, em perfeita reciprocidade, meu Deus, nada poderia dar errado no meu mundo”.

É um mundo restrito: “Veja em volta. Este lugar está abarrotado de gente que frequentou os mesmos colégios, as mesmas universidades, assistiu às mesmas aulas de esgrima, teve os mesmos professores de dança, de música, de latim, os mesmos instrutores de tênis”.

E é um mundo perigosamente alienado. Enquanto há um persistente incêndio nas caldeiras, Morgan nos fala das preocupações do projetista do navio, que está a bordo: “Andrew planejava vários ajustes e alterações. O calçamento de pedras no passeio exclusivo do convés da primeira classe ficara com um colorido um pouco escuro demais; a aparência das cadeiras de vime no lado de estibordo poderia ganhar se tingidas de verde; havia parafusos demais nos cabides para pendurar chapéus dos camarotes…”. E assim por diante.

Portanto, pode haver a mesma triunfalidade na partida, a mesma arrogância da primeira classe,os mesmos avisos ignorados de icebergs, a mesma perplexidade diante da constatação do afundamento iminente, o mesmo atropelo, a mesma insuficiência de escaleres, o mesmo avanço da água, a mesma quebra em dois, o mesmo desaparecimento no oceano gelado, as mesmas mortes. Nem por isso, CADA UM POR SI se deixa levar para o mundo raso da pieguice industrializada que caracteriza a superprodução de James Cameron, onde o público parece uma claque amestrada: hora de rir, pessoal; hora de chorar…

Que alívio ver os momentos mais fortes da tragédia descritos com sobriedade, sem aquela perversidade de transformar tudo em espetáculo e efeitos de última geração.

O mundo de Morgan e seus parceiros da primeira classe é restrito e alienado, mas é justamente das suas preocupações triviais, das suas irrelevantes questões, tão fortuitas, que o livro da autora inglesa tira a sua força. Ao abalroar preocupações corriqueiras que contam com a existência do futuro com o iceberg da fatalidade, ela cria significados irônicos, inesperados.

E um deles se refere ao próprio título (que, a princípio, parecia ser uma provocante negação do heroísmo e da bravura diante da morte iminente, sempre associados a certos atos na tragédia do Titanic). Morgan, com suas ínfimas desilusões sentimentais, poderia dar crédito à afirmação de Scurra, de que na vida é “cada um por si”. Porém, o destino e a fatalidade, que mostram a ele que tudo pode dar errado em seu mundo, ao contrário do que acreditava, acabam por ensiná-lo que todos estão no mesmo barco.

06/04/2012

Mailer domando os quatro evangelhos ou os evangelhos domando Mailer?

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 1998)

“Deus me impressiona, mas não tenho fé”.

      São palavras que Judas dirige a Jesus num dos capítulos mais belos de O Ebamgelho segundo o Filho,  de Norman Mailer. Um capítulo estratégico, que divide a narrativa em duas. No capítulo seguinte, Jesus realiza seu maior milagre (a ressurreição de Lázaro) e chegará a Jerusalém para cumprir seu destino.

      É o próprio Cristo quem narra O Evangelho segundo o Filho. Acompanhamos a mesma história de sempre, pórém há um sutil debate do narrador com os que contaram e recontaram sua vida (Marcos, Mateus, Lucas, João). Além disso, o Jesus de Mailer está sempre em dúvida se as palavras que diz são inspirados pelo Senhor ou por Satã, se realmente ele está “inspirado” por ser Filho de Deus, se está ouvindo realmente o que deve dizer. Muitas vezes o que diz contraria diretamente suas emoções do momento. Depois de tudo consumado, Jesus acaba não conseguindo discernir ou avaliar qual o papel exato que desempenhou na história do mundo. Cosntata que esse mesmo mundo não melhorou em nada com seu sacrifício, não tem certeza sequer de que cumpriu sua missão, não sabe se Satã (que ganha um relevo especial nesse Evangelho peculiar) ganhou o jogo. Isso acaba dando à história um tom mais verossímil, mais próximo da relatividade das coisas que acontecem no reino deste mundo (e, na minha opinião, desperta mais simpatia): “Deus e Mâmon ainda disputam os corações dos homens e mulheres. Ainda assim, como a contenda permanece tão igual, não se pode dizer quem triunfou –o Senhor ou Satã. Continuo à direita de Deus, tentando cada vez ser mais sábio e pensando em muitos com amor… Meu Pai, porém, não me fala com freqüência… Suas guerras contra o Demônio tornam-se mais acirradas. Grandes batalhas têm sido perdidas. No último século deste segundo milênio sucederam-se holocaustos, conflagrações e pragas piores do que quaisquer outros já ocorridos. A grande maioria segue acreditando que Deus obteve uma grande vitória através de mim… nenhum outro profeta jamais teve tantos discípulos, tão prontos a morrer em seu nome”.

      Temia-se que o imprevisível Mailer pudesse criar uma história de Jesus irreverente e caricata, nos moldes de Joseph Heller ou do Gore Vidal de Ao vivo do Calvário; ou que cedesse ao ímpeto caudaloso e informe de algumas de suas obras  mais recentes (como Noites Antigas), ele que é um autor basicamente  barroco e incandescente, e que está comemorando 50 anos de produção literária (estreou em 1948 com o fabuloso Os nus e os mortos).

     Nada disso aconteceu. Fundindo os diversos textos evangélicos e usando seu tremendo sendo de poeta da prosa, Mailer nos dá o romance mais sóbrio e elegante já escrito sobre Jesus Cristo. Quase que se poderia usar a palavra “puro” para descrever um texto que flui com uma naturalidade incrível. Nem parece o autor que gosta de projetos ciclópicos, enormes e “impuros” (e sempre interessantes, quando não admiráveis), como os já citados Os nus e os mortos & Noites antigas (1983), além de A canção do carrasco  (1979) e O fantasma da prostituta (1991), isso sem falar nas obras-primas mais curtas como Um sonho americano (1965) e Os exércitos da noite (1969), cujo virtuosismo extravagante nada têm a ver com a simplicidade fluente de O Evangelho segundo o Filho.

       De qualquer forma, com relação à literatura, Jesus não pode se queixar. Pelo menos três dos maiores escritores do século,sem contar as versões cinematográficas antológicas de Pasolini e Scorsese, criaram grandes “evangelhos”: Nikos Kazantzakis, José Saramago, e agora Mailer com seu pequeno grande livro. Obras assim desafiam até mesmo quem não tem fé, operando o milagre de suspender a descrença e até fazer acreditar que a água pode se tornar vinho: “Diante de nós estavam depositados seis grandes jarros de pedra, todos com água, e, numa mesa ao lado, cachos de uvas vermelhas, uma das quais comi bem devagar, pensando intensamente no Espírito que residia dentro da fruta. Em verdade, pude sentir um anjo perto de mim. No mesmo momento, a água dos jarros se transformou em vinho. Eu não vi, mas sabia que tinha acontecido, apenas  em virtude do paladar de uma uva e graças à presença do anjo. Ah, eu nunca me sentira tão perto do reino de Deus e crente de sua inesgotável beleza. Meu Pai não era somente o Deus da ira, mas podia oferecer uma ternura tão delicada quanto a que existe num suave toque de mão. Ao mesmo tempo, experimentei uma tristeza imensa, ante a visão de um banquete de que nunca participaria.”

    

30/03/2012

UM SENTIDO DE MISSÃO: Palavra de Poeta (Cabo Verde/Angola)

 

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de julho de 1999)

   Apesar de já ter afirmado nesta minha coluna a inutilidade  dos livros de entrevistas com escritores, é preciso chamar a atenção para PALAVRA DE POETA (CABO VERDE/ANGOLA),organizado por Denira Rozário (editado pela Bertrand Brasil), por conta do desconhecimento que ainda mantemos a respeito das literaturas dos países africanos de língua portuguesa.

   A empreitada parecia perigosa porque no seu livro anterior de entrevistas, com escritores de Portugal, Denira Rozário notabilizou-se pela indigência intelectual e pela completa vacuidade (quando não estultície) das suas perguntas. Tudo fazia cfrer que ela seria contratada para o Video Show ou qualquer programa do gênero.

    Mas eis que ressurge madame Rozário e, que os céus sejam louvados, ela está fazendo menos perguntas, está sendo mais objetiva,  mais crua e direta, portanto as entrevistas funcionam melhor.

     De vez em quando ela tem uma recaída, e aí vem um petardo do tipo “Sofre muito quando não está escrevendo?”; ou, então, no meio de uma reflexão do cabo-verdiano Mário Fonseca sobre patriarcalismo, “Parece que você está gripado”!!!!???? Há, ainda, pérolas de tolice renitente: “Sentiu-se poeta quando recebeu direitos autorais do seu primeiro livro?”!!!!!!!?????; “Com uma boa esferográfica o prazer de escrever é maior?”????!!!!

    A verdade, contudo, é que o tom das entrevistas é mais austero e elas permitem entrever um universo literário muito peculiar. É bom que se diga que não se trata de escritores que são predominantemente poetas, muitos escrevem até mais ficção do que poesia. O fato é que avulta das entrevistas o sentido de missão, de papel social fundamental dos escritores angolanos e cabo-verdianos: construir uma identidade, após o fracionamento que a situação de colônias e as guerras de independência causaram. Por isso destaca-se muito o papel das revistas e periódicos e o papel de determinados grupos literários em momentos  estratégicos.

    De fato, surpreende uma valorização quase unânime do trabalho coletivo, ao invés do talento individual, coisa muito rara em se tratando de uma atividade que tantas vezes instiga a mera vaidade.

   O destaque de PALAVRA DE POETA (CABO VERDE/ANGOLA) é a pequena antologia de poesias de cada autor. Com essa amostra, e confessando a falta de um conhecimento mais aprofundado do contexto, tendo em vista o que puerilmente poderíamos chamar de “leitura universal”, baseada apenas numa apreensão imediata do trabalho textual, não levando em conta o alegado trabalho missionário dos autores e o esfacelamento ideológico-cultural dos seus países, o saldo é terrível: a maioria esmagadora é de maus poemas.

   Há bons momentos, como “Nasci em um país que não é meu/ Se de meu país só restar o que me deram” (Arnaldo França; aliás, há um poema dele que visivelmente foi impresso em páginas invertidas).

   Há aquele tipo de verso, muito comum em nações que sofreram sob um regime autoritário: “Então/o poeta/ esquece a sua dor/ e põe-se a sorrir/ só porque seu irmão sorri” (João Rodrigues), que poderia ser chamado de “apelo fraternal”, só que infelizmente tresanda a pieguice. Em matéria de pieguice, diga-se de passagem, o escritor cabo-verdiano dá um verdadeiro show, como neste poema que poderia virar uma música de Vicente Celestino: “São as flores/ que não tive/ para/ depor sobre essa campa/ quando/ fecharam-te os olhos/ cruzaram-te as mãos/ e te cobriram de pó/ E eu te cobri de lágrimas” !!!!???????

    Há um apelo utópico que subjaz em muitas imagens: “Oh rosa/ Onde fincar os pés senão em tuas inexistentes pétalas?/ Onde senão no insistente sonho de tuas persistentes pétalas? Aqui?/ Aqui onde tudo o que medra é só e apenas terras?” (Mário Fonseca), que contrasta com a desilusão com os rumos nacionais: “O exílio é a Pátria/ que me confirma/ no meu país confiscado/ onde a Nação abortou” (Manuel Guedes dos Santos Lima).

   Há a inevitável lembrança da guerra: “Dois meninos sentados/ um terceiro de pé/ todos irmanados/ na orfandade de um pé” (idem).

    E, é claro, temos sempre a consciência racial: “Não, não feches os olhos à tragédia/ olha os negreiros ancorados na baía da nossa desgraça/ os nossos irmãos acorrentados/ como gado, sorvidos pelo negrume dos bojos insaciáveis/ semelhando ventres de deus bárbaros/ Virginia, Alabama/ Mississipi/ sangue vermelho/ suor de negro branqueando algodão/ Cuba, Brasil/ Martinica/ mais sangue vermelho/ suor de negro movendo engenhos de açúcar” (Jofre Rocha).

   Eis então, leitor, 368 páginas e 26 escritores, número que dá bem a idéia de como se negligenciou no Brasil a circulação de obras de países com a mesma língua.

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