MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/05/2012

Borges: de que secretas regiões da astronomia ou do tempo, de que antigo e agora incalculável crepúsculo, haverá alcançado este arrabalde?

(esta resenha foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de julho de 2001, antes da Indústria Borges ser transferida para a Companhia das Letras; nesta nova fase, O LIVRO DA AREIA foi traduzido por Davi Arrigucci Jr.)

Além de editar a Obra Completa de Jorge Luis Borges (1899-1986), em quatro volumes, a Globo está relançando alguns títulos avulsos, que já trazem a bem-vinda mudança (na verdade, um resgate) do logotipo da editora.

E assim como fez a Companhia das Letras com as obras de Milan Kundera, os treze contos de O LIVRO DA AREIA (El Libro de Arena, Argentina-1975, em tradução de Lígia Morrone Averbuck) foram mesmo revisados (por Maria Carolina Araújo & Jorge Schwartz). Corrigiram-se, por exemplo, alguns trechos mal alinhavados em A noite dos dons; lia-se, antes: “Com uma chicotada, Moreira deixou-o estendido de costas no solo. Caiu de costas e morreu movendo as patas”; agora se lê algo mais eficiente e fiel ao original: “Com uma chicotada, Moreira deixou-o estendido no chão. Caiu de costas e morreu movendo as patas” (“De un talerazo, Moreira ló dejó tendido en el suelo. Cayó de lomo y se murió moviendo las patas”).

No entanto, o título anteriormente dado, A noite das dádivas, era bem melhor, e sente-se uma fidelidade demasiada ao espanhol em certas modificações. Por exemplo, se Borges pode colocar em seu original Adolfo Hitler, ao invés de Adolf, por que Adán de Bremen não pode virar Adão?

Em Como e Por que Ler, Harold Bloom afirma que o conto foi dominado, grosso modo, por duas tendências. Por um lado, a tchekhoviana, seguindo o impressionismo do autor de A dama do cachorrinho; por outro, a borgiana: “Em Borges, ouvimos a voz solitária de um elemento submerso no turbilhão, uma voz acossada por uma pletora de vozes literárias que a precederam (…) Borges encanta-nos e transporta-nos a um mundo de forças impessoais, onde a memória de Shakespeare constitui um imenso abismo, capaz de tragar-nos, fazendo com que percamos quaisquer resquícios da nossa pessoa”.

As palavras de Bloom caracterizam bem as narrativas (quase todas em primeira pessoa) de O LIVRO DA AREIA: nelas, encontramos solitários, senão misantropos: “Para um celibatário entrado em anos, o oferecido amor é um dom que não se espera” (Ulrica); “Por indecisão ou negligência ou por outras razões, não me casei e agora estou só. Não me dói a solidão, já é bastante esforço alguém tolerar a si próprio e suas manias” (O Congresso); “O homem esquece que é um morto que conversa com mortos” (There are more things); “Moro sozinho (…) Essas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia” (O Livro de Areia).

Acossados por situações fantasmagóricas, onde o “eu” se dilui e a experiência de vida se torna sonho, esses solitários nem sequer acreditam na alteridade, pois um torna-se o outro e uma experiência alheia tem o mesmo peso do sonho: “No curso fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho”, lê-se em Undr. Dessa forma,  duas posturas divergentes, como a dos acadêmicos que protagonizam O suborno acabam indiferenciando-se. Borges já fizera uma experiência inesquecível nesse terreno, em Os Teólogos, um dos seus maiores contos. Como diz o narrador de O Congresso: “Haverá na terra algo sagrado ou algo que não o seja?”.

Mesmo que tudo seja sagrado, em O LIVRO DA AREIA encontramos dois textos que despertam aversão: O Outro & Utopia de um homem que está cansado.

O Outro ainda tem a fascinante situação do encontro entre o Borges de quase 70 anos com seu “eu” de 18, onde semelhança e alteridade entram em discussão. O conto torna-se discutível e antipático quando percebemos que o enfadado escritor aproveita o encontro para desautorizar seu “eu” jovem, suas opiniões, suas paixões políticas. E lemos pérolas do tipo: “A América, presa pela superstição da democracia, não se decide a ser um império” !!!!????

Já o desagradável Utopia de um homem que está cansado, que irrita desde o título (se ele estava tão cansado, por que não se matou de uma vez?), narra uma visita de Borges ao futuro, o qual se apresenta árido, povoado por homens tão enfadados quanto ele próprio e que vivem uma espécie de nirvana auto-complacente, com direito a um elogio do suicídio. O tom é blasé, permitindo-se até uma brincadeira  leviana com o holocausto: “É o crematório… dentro, está a câmara letã. Dizem que foi inventada por um filantropo cujo nome, creio, era Adolf Hitler”!!!???

Nesses passos em falso do mais importante autor da segunda metade do século XX, sentimos que ele está retocando a imagem que esculpiu para a mídia, a sua personalidade-clichê. Mas seis outros textos é que compensam a leitura de O LIVRO DE AREIA: 1) o conto-título, no qual se imagina um livro monstruoso porque infinito e irrepetível; 2) O Congresso, talvez o ponto alto da coletânea, no qual uma confraria torna-se tão abrangente que se confunde com o universo, tal como já acontecera com a loteria da Babilônia, ou tal como a memória de Funes, que anulava-se por não ser seletiva, por se confundir com a experiência; 3) O espelho e a máscara e 4) Undr, dois relatos que se passam em países remotos e lendários, onde o universo  é reduzido a uma única palavra (que pode ser qualquer uma), e que trazem a marca do melhor Borges; 5) A noite dos dons (meu favorito pessoal) e 6) Avelino Arredondo, que se acrescentam a uma das vertentes mais férteis do grande escritor argentino, o uso da história e da mitologia dos pampas e da banda oriental (Avelino, por exemplo, é o uruguaio que assassina o presidente Idiarte Borda, em 25 de agosto de 1897).

Sendo uma das melhores obras da fase final de Borges, O LIVRO DA AREIA funciona tanto para o leitor que se inicia na sua leitura, servindo como ótima introdução, como também para o leitor já aficionado, que pode apreciá-lo (às vezes, não) no exercício de sua maestria, depois de passar pelos desafios das suas criações supremas, Ficções & O Aleph, diante das quais (e do seu autor) a reação coincide com a experimentada pelo protagonista no final da lovecraftiana There are more things: “Como seria o habitante? Que podia buscar neste planeta, não menos atroz para ele do que para  nós? De que secretas regiões da astronomia ou do tempo, de que antigo e agora incalculável crepúsculo haveria alcançado este arrabalde e esta precisa noite? (…) Meus pés tocaram o penúltimo lance da escada, quando senti que algo subia pela rampa, opressivo e lento e plural. A curiosidade pôde mais do que o medo e não fechei os olhos.”

24/04/2012

FOREVER JUNG: o cinqüentenário da sua morte e O LIVRO VERMELHO

“Todo tipo de coisas me desviam para longe de minha ciência à qual eu acreditava estar dedicado firmemente. Através dela, queria servir à humanidade, e agora, minha alma, tu me levas para essas coisas novas. Sim, o mundo do meio, intransitável, multiplamente cintilante. Esqueci que cheguei a um mundo novo, que antes me era estranho. Não vejo caminho nem trilha. Aqui deverá tornar-se verdade o que acreditei sobre a alma, que ela sabia melhor seu próprio caminho e que nenhum desígnio lhe poderia prescrever um caminho melhor. Sinto que é tirado um grande pedaço da ciência. Deve estar certo, por amor à alma e por amor à sua vida. Dolorosa é apenas a idéia de que isto só aconteceu para mim e que talvez ninguém  consiga tirar alguma luz daquilo que eu produzo. Mas minha alma exige esta produção. Devo poder dizê-lo também só para mim sem esperança—por amor a Deus. Deveras um caminho duro. Contudo, aqueles eremitas dos primeiros séculos cristãos—o que faziam de diferente? E eram, por acaso,as piores e mais imprestáveis pessoas que viviam naqueles tempos? De modo nenhum, pois eram aqueles que tiravam a mais inexorável conseqüência da necessidade psicológica de seu tempo. Eles deixavam mulher e filhos, riqueza, fama, ciência—e se dirigiam ao deserto—por amor a Deus. Assim seja.” (Carl Gustav Jung, Livro Negro 3)

INTRODUÇÃO

Em O terceiro homem, de Carol Reed, o personagem de Orson Welles diz ao herói (Joseph Cotten) que as intrigas turbulentas e sanguinárias dos Bórgias e dos Médicis foram o pano-de-fundo  da Renascença, enquanto séculos de paz  na Suíça  criaram o quê? O relógio-cuco.

Em 6 de junho de 1961, às vésperas dos seus 86 anos (nasceu em 26 de julho de 1875) morreu Carl Gustav Jung, a maior refutação da pitoresca (embora divertida) hipótese ético-civilizatória do “terceiro homem”. O mais eminente suíço certamente não veio à Terra nem a passeio nem para espanar a poeira do relógio-cuco: foi o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas e práticas meditativas como a ioga.

Eu, que sou um freudiano convicto, nunca tive prevenção contra Jung porque, depois de alguns livros que hoje sei serem duvidosos” (porque na verdade não são de sua autoria), O homem e seus símbolos e Memórias, Sonhos, Reflexões[1], ainda muito novo “descobri” um precioso volume que, se formos rigorosos, também é uma contrafação, mas que conquista qualquer um para o universo das idéias junguianas. Para mim, durante um bom tempo, Jung foi O homem à descoberta de sua alma (com o subtítulo Estrutura e Funcionamento do Inconsciente). Por que se pode dizer que é uma contrafação como os outros dois? Trata-se de uma tradução portuguesa (da Tavares Martins, Porto, 1975)  de uma edição francesa organizada por Roland Cahen. Portanto, é café coado duas vezes. Mesmo assim, desafio qualquer um a dizer que não se trata de um livro fundamental para se descobrir por que Jung não se limitou a aperfeiçoar o relógio-cuco e a “paz” suíça. A leitura de James Hillman (que anda fora de moda ultimamente) também ajudou a estabelecer uma certa cristalização das idéias de Jung (hoje sei que Hillman representa apenas uma das inúmeras vertentes que foram adotadas a partir dessas idéias, mas quem tem noção dessas coisas quando se é um leitor onívoro de 20 anos?).

Também tive sorte no rol de obras de fato escritas por Jung. Comecei com o maravilhoso e apaixonante Tipos Psicológicos [2]. Eu não sou a pessoa mais sistemática do mundo e decerto o modo junguiano de expor suas idéias é uma loucura, mas acho que o leitor ganha muito com isso e o livro não é menos sólido por causa desse enviesamento teórico: por exemplo, ao invés de definir de vez não só os tipos psicológicos, como as funções a ele relacionadas (o pensar, o sentir, o intuir e o perceber), ele analisa vários personagens históricos e obras filosóficas e literárias (Jung seria um esplêndido teórico literário). Perde-se a clareza didática, mas é um ganho ao fim e ao cabo. E dali saiu um dos motes da minha vida:”…o que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará o seu meio ambiente, a chamada vida real”[3]

O LIVRO VERMELHO

Neste ano do cinqüentenário da morte de Jung, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa (18 volumes subdivididos em 35[4]) Mas o evento memorável, de fato, é a publicação de O Livro Vermelho, o inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente[5].

Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com  o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigantesco que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem sérios riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho iniciático nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, apesar do prestígio e da estabilidade financeira (casara-se com uma mulher rica), o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si-mesmo, a sombra, os tipos psicológicos, a função transcendente, a sincronicidade), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana e representarão na prática clínica o mesmo que a Reforma significou para o cristianismo (todo mundo conhece a cisão entre psicanálise freudiana e psicanálise junguiana)[6].

Jung sempre tivera obsessão por fenômenos ocultistas e por manifestações do sobrenatural, e por essa época passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Desenvolveu, então, um método chamado imaginação ativa (embora tenha chamado essa fase de sua vida de “doença criativa”), no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado em cadernos denominados Livros Negros e depois fez uma destilação, incluindo sua interpretação pessoal do que vivera, num caprichado volume, o Liber Novus,  cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos), que foi muito trabalhado durante os anos seguintes, até que o interesse pela alquimia  o levou para outras direções. Esse livro pessoal se tornou mítico (tido como o manancial de onde brotaram os principais conceitos junguianos), com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

Muitos consideram Jung um mistificador. Que imagem sai desse exercício de “imaginação ativa”?  Jung produziu uma mistura de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo (no final, porém, ele condena a imitação porque ela anula a idéia de renovação, e o texto é basicamente anti-cristão), A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos  e ópera wagneriana, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico, e também do bom e do mau gosto[7].

Nesse processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, a alma de Jung vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar. .. O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através dele mesmo…O heróico em  ti é que és comandado pelo pensamento de que isso ou aquilo seja o bem, que esta ou aquela obra seja indispensável, que esta ou aquela coisa seja rejeitável, que este ou aquele objetivo deve ser alcançado pelo trabalho ambicionado lá adiante, que este ou aquele prazer deva ser reprimido por todos os meios e inexoravelmente.  Com isso pecas contra o não-poder…”

E assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes. E também vai se aclarando o “processo de individuação”, tão caro à psicologia junguiana. Devo dizer, contudo, que os embates da alma de Jung e o imaginário que daí emerge em O Livro Vermelho fornecem munição à visão crítica de Richard Noll, cujo O Culto de Jung é uma abordagem negativa do mestre suíço como liderança carismática e representante da mentalidade völkisch (culto aos antepassados teutônicos, insistência na supremacia germânica, fornecida pelas noções de geografia e raça)[8], que foi um componente psíquico que estimulou o desenvolvimento de uma mentalidade nazista.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por  meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

Contudo, para encerrar esse meu breve passeio pelos bosques junguianos, escolho citar—até para provocar o escândalo do eu freudiano—uma reveladora passagem de O homem à descoberta de sua alma:

“Seria lastimável considerar como ilusório esse sistema imenso de experiências da psique inconsciente. O nosso corpo visível e tangível é também um sistema de experiências inteiramente comparável, que encerra ainda os traços dos desenvolvimentos das primeiras idades e forma, incontestavelmente, um conjunto sujeito a um fim: a vida, que, de outro modo, seria impossível.

   A ninguém ocorreria negar o grande valor da anatomia comparada ou da fisiologia. O estudo do inconsciente coletivo e a sua utilização como fonte de conhecimento não pode ser visto como ilusão. Sob um ponto de vista superficial, a alma parece-nos ser essencialmente o reflexo de processos exteriores, que dela seriam não somente as causas ocasionais, como sua origem primária. Do mesmo modo, o inconsciente, de início, não parece explicável senão do exterior, a partir do consciente. Sabemos que Freud, na sua psicologia, fez essa tentativa. Mas ela só poderia ter triunfado se o inconsciente fosse, de fato, um produto da existência individual e do consciente.  Todavia, o inconsciente preexiste sempre, sendo a disposição funcional herdada de idade em idade. A consciência é um rebento tardio da alma inconsciente… A velha psicologia, presciente do inestimável tesouro de experiências obscuras ocultas sob o limiar da consciência individual e efêmera, não considerou a alma do indivíduo senão na dependência de um sistema cósmico espiritual. Para ela, não era apenas uma hipótese, mas uma evidência manifesta que esse sistema representava uma entidade dotada de vontade e de consciência, até mesmo um ser, um ser a que chamou Deus e que se tornou a quintessência de toda a realidade. Deus era o ser mais real, a prima causa, graças à qual somente a alma podia ser explicada. Essa hipótese tem a sua razão de ser psicológica: qualificar de divino, em relação ao homem, um ser imortal, dotado de uma experiência eterna, não é totalmente injustificado. Assim se esboça a problemática de uma psicologia fundada não sobre a ordem física, como princípio explicativo, mas sobre um sistema espiritual, cujo primus movens não é nem ma matéria e as suas qualidades, nem um estado energético, mas Deus…

  …O estudo desse dilema e o desejo de o resolver conduziram-me à seguinte conclusão: o conflito entre a natureza e o espírito nada mais é do que a tradução da essência paradoxal da alma, a qual possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que não parecem contradizer-se porque, em última análise, não lhe apreendemos a essência. Sempre que o entendimento humano quer apreender qualquer coisa que no fim das contas não compreende e não pode compreender, para captar alguns aspectos, submete-a a uma contradição e cinde-a em suas aparências opostas.

   O conflito entre o aspecto físico e o aspecto espiritual apenas prova que o psíquico é, na essência, qualquer coisa de inapreensível, e essa é a única experiência imediata. Tudo aquilo de faço experiência é psíquico, até a dor física, de que apenas experimento o reflexo psíquico. Todas as percepções dos meus sentidos, que me impõem um mundo de objetos espaciais e impenetráveis, são imagens psíquicas que representam a minha única experiência imediata, sendo essas imagens os únicos dados imediatos da minha consciência. A minha psique transforma e falsifica a realidade em proporções tais que é preciso recorrer a expedientes para verificar o que as coisas são fora de mim… Achamo-nos de tal modo envolvidos nas nossas imagens psíquicas que não podemos penetrar a natureza das coisas exteriores. Tudo aquilo de que adquirimos conhecimento é feito de materiais psíquicos. A psique é a entidade real no supremo grau…”


[1] O homem e seus símbolos apresenta uma série de ensaios e apenas o introdutório é de autoria de Jung, que o escreveu pouco antes de morrer; é hoje indiscutível que Jung está por trás do projeto mi(s)tificatório de Memórias, Sonhos, Reflexões, porém o texto final, afora a colher que editores e herdeiros meteram, é de responsabilidade da discípula Aniela Jaffé.

Ainda assim, os dois livros provavelmente vendem mais do que a obra junguiana propriamente dita.

Estabelecido esse ponto,  não dá para descartar nenhum dos dois. O ensaio de Jung em O homem e seus símbolos é uma ótima introdução às suas idéias, e quem negará o fascínio de Memórias, Sonhos, Reflexões, apesar dos seus aspectos irritantes e da sua dubiedade autoral?

[2]  Não na tradução publicada nas Obras Completas: eu trabalhei durante um ano, de 1984 a 1985, numa contabilidade, e ali, por sorte, havia uma biblioteca excelente, onde encontrei a tradução de Álvaro Cabral, editada pela Zahar. Li há pouco tempo a tradução das Obras Completas e a de Cabral ganha longe em expressividade e ao mesmo tempo clareza, apesar dos inúmeros erros de impressão. Mas isso é assunto para outro post.

[3] O leitor encontrará essa citação na pág. 207 da edição da Zahar, de 1974, e está no extraordinário capítulo em que ele analisa o Prometeu e Epimeteu  do nobelizado Carl Spitteler, comparando-o com os fragmentos do Prometeu goethiano. Antes, ele estudara as Cartas de Schiller onde este propugnava uma educação estética do homem, e também A Origem da Tragédia e os tipos apolíneo e dionisíaco de Nietzsche, sem contar as inúmeras referências às doutrinas e textos sagrados hindus e chineses.

[4] Na verdade, o correto seria Obras Reunidas, pois apesar de sua pretensão elas estão longe de ser “completas”.

[5] A edição original é de 2009. Os textos do volume foram traduzidos por Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos. A revisão da tradução é de Walter Boechat.

O editor de O livro vermelho, Sonu Shamdasani, escreveu uma ótima, objetiva e nada partidária introdução.

O preço é salgado: o valor pode chegar a mais de quinhentos reais, é preciso pesquisar em vários lugares, pois há muitas ofertas.

[6] Meu texto simplifica muito as coisas, evidentemente: esses conceitos tenham sido elaborados em épocas diversas e sofrido ajustes. Além  desse fato cronológico básico, vertentes diversas privilegiaram certos aspectos e deixaram à parte outros. E para ser franco eu nem sei como seria a prática clínica de um analista ou psiquiatra junguiano, uma vez que jamais escolheria essa linha para ser analisado ou diagnosticado. Se fizesse análise, teria o maior cuidado de escolher um analista da linha freudiana. O que não invalida Jung como pensador da cultura.

Para entender as vertentes pós-junguianas, uma boa opção, apesar de já meio antiga (é de 1985, e a edição brasileira é de 1989) é Jung e os pós-junguianos, de Andrew Samuels. Foi nele que descobri que James Hillman era representante da “escola arquetípica”.

[7] Há até elementos metalingüísticos auto-críticos e bem-humorados. Jung, numa dessas visões, chega a um castelo onde há um velho com seus livros, que não lhe dá pelota. Passando a noite ali, ele sofre de insônia. Veja-se o divertido relato:

“Parece que não havia mais ninguém casa, a não ser o servo, que morava acolá na torre. Um modo de vida ideal, mas solitário o desse velho com seus livros, pensei eu.  E nisso se demoraram por longo tempo meus pensamentos, até que percebi que um outro pensamento não me abandonava, isto é, que o velho mantinha escondida aqui sua bela filha—idéia romântica absurda—um tema sem graça e já explorado—mas o romântico está em todas as juntas de cada pessoa. Uma idéia genuinamente romântica: um castelo  na floresta—solitário, crepuscular—um velho mumificado em seus livros, que guarda um tesouro valioso e o esconde ciosamente de todo o mundo—que idéias ridículas me chegam! É inferno ou purgatório que preciso conceber em minha viagem errada à semelhança dos sonhos infantis? Mas sinto-me incapaz  de elevar meus pensamentos a algo mais forte ou mais bonito. Devo consentir nesses pensamentos. O que adiantaria repeli-los? Eles voltam… Como será que ela se parece, essa heroína aborrecida? Certamente loura, pálida—olhos azuis—ansiosamente esperando de cada caminhante extraviado o salvador de sua prisão paterna. Ah, eu  conheço este absurdo trivial—prefiro dormir—por que, diabos, deixo atormentar-me com essas fantasias ocas?

    O sono não quer nada. Viro-de de um lado para outro, o sono não vem, devo eu ter em mim mesmo afinal esta alma não resgatada? Será que é ela que não me deixa dormir? Terei eu uma alma tão romântica? Só faltava isto—seria dolorosamente ridículoÉ simplesmente macabro para onde a insônia pode levar uma pessoa, inclusive para as teorias mais disparatadas e mais supersticiosas. Parece fazer frio, eu estou com frio, talvez não durma por causa disso, aqui é realmente sinistro. Deus sabe o que acontece aqui, não escutei passos há pouco? … A porta está se abrindo? Meu Deus, alguém está aí? Estou vendo bem? Uma moça esguia, pálida como a morte, está à porta? Céus, o que é isto? Ela se aproxima!

   Chegaste finalmente, perguntou baixinho. Impossível, é um engano pavoroso, o  romance quer tornar-se real, quer transformar-se em história estúpida de fantasmas? A que disparate estou condenado?  È minha alma que alberga tais glórias românticas? Isto também deve acontecer comigo? Estou realmente no inferno—o pior despertar do leitor de romances de biblioteca pública! Desprezei as pessoas de minha época e seu gosto, tanto assim que devo viver e escrever no inferno os romances sobre os quais cuspi há muito tempo? Será que a metade inferior do gosto médio da humanidade também tem direito à santidade e inviolabilidade, de modo que não possamos dizer nenhuma palavra desairosa sobre isso sem termos de pagar o pecado no inferno?

   Ela fala: Ah, tu também pensas o trivial de mim? Também tu te deixas seduzir pela malfadada ilusão de que eu pertenço a um romance? Também tu, de quem esperava que tivesse abandonado as aparências e se esforçasse para atingir a essência das coisas?

   Eu: Perdão, mas existes realmente? É uma semelhança por demais infeliz com aquelas cenas de romances, desgastadas até a parvoíce, que eu pudesse aceitar que não fosses apenas um produto de meu cérebro insone. Minha dúvida não está realmente justificada, quando uma situação coincide de tal forma com o tipo de romance sentimental?

  Ela: Infeliz, como podes duvidar da minha realidade? (…)

  Eu: Mas, dize-me, por amor de Deus, tu és real? Devo levar-te a sério como realidade?

    Ela chorava e nada respondia.

    Eu: Quem és então?

    Ela: Eu sou a filha do velho. Ele me mantém aqui numa prisão insuportável, não por ciúme ou ódio, pois sou sua única filha e o retrato vivo de minha mãe, falecida muito jovem.

  Recorri à minha razão: isto não é uma estupidez infernal? Palavra por palavra, o romance de uma biblioteca pública! Ó Deuses, para onde me levastes? É para rir, para chorar, é duro ser um belo sofredor, um destroçado tragicamente, mas tornar-se um macaco, vós belos e grandes? O banal e eternamente ridículo, o indizivelmente gasto e usado nunca vos foi depositado nas mãos

   Ela continuava sentada ali chorando—e se fosse real?… Se for uma moça decente, o que não lhe deve ter custado  entrar no quarto de dormir de um homem desconhecido!”

(os grifos na cena são todos meus).    

[8] Mais uma vez, sou obrigado a simplificar em demasia, no caso, o rico, complexo e ambíguo panorama traçado por Noll em seu livro. Mas acompanhemos alguns trechos: “Muitos grupos völkisch transformaram as noções de pureza racial em ideais quase de ciência e religião… O historiador Ekkehard Hieronimus fez um levantamento do fascínio pela religião germânica… No século XIX, grupos neopagãos dedicados a reviver os mistérios germânicos  assumiram a pesquisa sobre o passado alemão. E, de fato, o retorno à Idade de Ouro e à vida ´natural´ dos teutos foi freqüentemente invocado por grupos alemães em busca de renovação ou renascimento… À secularização de conceitos burgueses/protestantes como a família, a comunidade e a idéia de morte sacrificial, correspondia nesses grupos um patriotismo cada vez maior, que traçava paralelos entre o martírio de Cristo e o martírio de heróis nacionais como Siegfried… A morte sacrificial e a identificação do deus cristão com o deus teutônico eram temas que em 1912 reapareceriam com destaque numa obra extraordinária, Metamorfoses e símbolos da libido, de Jung”  [esse é provavelmente o primeiro livro importante do ex-discípulo de Freud, e atualmente é editado com o titulo da sua ampla revisão posterior, Símbolos da Transformação, volume 5 das Obras Completas). Noll fala de um importante editor de obras de tendência völkisch, Eugen Diederichs: várias de suas edições foram encontradas na biblioteca de Jung, o qual “citava essas obras, sobretudo em Metamorfoses e símbolos da libido, um livro que repudiava a ortodoxia cristã e promovia o misticismo völkisch do culto ao sol. Na década de 1890, muitos indivíduos völkisch acreditavam que o sol era  o único Deus dos verdadeiros alemães… A suástica, um antigo símbolo indiano para a contínua regeneração da vida foi colocada  num círculo que representava o sol… A suástica nesse disco branco  simbolizava as energias ressurgentes da vida… Graças à influência de figuras destacas como Diederichs e os autores que publicava, o interesse no simbolismo das mandalas dos antigos arianos começou a se espalhar pela Europa germânica. Jung, por exemplo, traçou sua primeira mandala em 1916 e mais tarde comentou sua importância como símbolo do ´self´ou do ´deus-imagem interior´   (todo esse imaginário pode ser encontrado nas páginas de O livro vermelho e a edição reproduz as mandalas criadas por Jung).

O livro de Noll (que é de 1994) foi traduzido no Brasil (por Mário Vilela) e lançado pela Ática em 1996.

14/04/2012

O LIVRO DOS MANDARINS: sátira deliciosa à linguagem da globalização

(resenha publicada  originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 19 de abril de 2011)

A China e os países islâmicos do norte da África não saem do noticiário. Um dos mais talentosos romances publicados neste novo século entrelaça essa complicada geopolítica em que a palavra “mercado” é a tônica dominante: O Livro dos Mandarins, de Ricardo Lísias, autor que eu conhecia apenas de uma leitura anterior, Duas praças, que não me preparara para essa explosão de exuberância.

Paulo, o protagonista, é executivo de um banco multinacional. Admirador fervoroso das idéias e da trajetória do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ele impressiona os superiores com seu visionarismo corporativo “até atingir o cargo de diretor do Setor de Desenvolvimento… .  Sua função era basicamente recolher dados e redigir relatórios para que os outros setores do banco pudessem tomar decisões com maior embasamento… foi designado para ocupar o posto principal do Projeto China, uma espécie de força-tarefa que o banco criou para estudar, em Pequim, como poderia lucrar com o desenvolvimento daquele país tão interessante… porém, ele começou a sentir que era o momento de mergulhar em alguma coisa mais pessoal, mesmo que isso significasse um recomeço. Foi então que surgiu a Confucius, uma empresa de consultoria cujo principal objetivo é dar acompanhamento a executivos e oferecer palestras e minicursos de atualização…” (além disso, ao longo desse percurso, Paulo prepara um “Livro dos Mandarins”,  manual para qualquer um que deseje obter sucesso e realização).

Esse resumo pseudo-sério faz parte da pândega machadiana que permeia o estilo de Lísias em O livro dos mandarins. Como todos aqueles que criam um romance único, ele plasmou uma linguagem original e inimitável para satirizar e demolir a mentalidade capitalista cuja impregnação atávica de ganância e arrivismo é maquiada com chavões do senso comum, manipulados pelos gurus da auto-ajuda e da neurolingüística (Paulo se orgulha até de ter criado a “lingüística corporativa” ao estudar os ideogramas chineses). E ás vezes até quem os utiliza de forma oportunista acredita mesmo nesses chavões, que acabam substituindo a realidade.

Na primeira parte, absolutamente fabulosa, enquanto Paulo vai se qualificando para a vaga que todos cobiçam,elaborando suas idéias-chaves, a narrativa adota um tom prognóstico, antecipando incidentes futuros de sua brilhante carreira na China. Depois, entretanto, tudo se revela uma ficção: ele não foi designado para a China coisa nenhuma, e sim infiltrado no Sudão, de um modo “informal”, para dizer o mínimo, pois ali as condições para negócios são, digamos, mais turvas.

Paulo nunca deixará de dizer que esteve na China, e toda a sua empresa de “mentoring, coaching e counseling” é baseada nessa experiência forjada. Mais ainda, na divertidíssima segunda parte, Sudão e China intercambiam-se o tempo todo na narrativa, e prostitutas sudanesas cujo maior apelo (os homens ficam fissurados) é a mutilação genital praticada ancestralmente, depois de serem chamadas, todas, de Salma (os mesmos nomes são permutados entre inúmeros personagens[1]) recebem as alcunhas de Liu Xan Liu Xin e Liu Xun.  No Brasil, elas (após uma fuga rocambolesca do Sudão, que considero as páginas mais fracas do romance, felizmente são poucas) se tornam “gueixas massagistas” que oferecem relaxamento a empresários na recém-criada Confucius (um dos momentos mais deliciosos de O Livro dos Mandarins  ocorre quando a noiva de Paulo se depara com  o grupo, supostamente oriundo da China, no aeroporto). E farão mais sucesso do que os serviços de “mentoring, coaching e counseling” do visionário Paulo, o que encaminhará a terceira parte para um tom mais de chanchada, sem que o romance perca seu virtuosismo e graça.

O maravilhoso romance de Ricardo Lísias, cujas soluções criativas eu mal arranhei nesta resenha, descortina para o leitor tanto um mundo de mensagens subliminares, um mundo emblematizado por aquela cena de lavagem cerebral de Sob o domínio do Mal, de John Frankenheimer, na qual, sob a aparência de plácidas senhoras tomando chá e discutindo flores, ocultam-se militares chineses manipulando mentes, como também  um mundo dominado pela propaganda, mesmo que a mais mentirosa e absurda, como a de O segredo do bonzo, de Machado de Assis. O mundo em que vivemos.


[1] Eu adoro a maneira como Paulo vai ganhando epítetos que substituem seu nome ao longo da narrativa, ora de forma elogiosa, ora de forma depreciativa:

o homem-paulo; Maozinho; Pau**; Pa***; P****; *****; o branquelo; o grande amigo brasileiro; este aqui (ou neste aqui); Belé; Belé porra nenhuma; Versati (ou Versatinho); o bobo; Paulinho; exceção; o menino; um homem-feito; ming ming; o marido dela; o brasileirinho; o amigo aqui; o samurai chinês; seu malandrinho; o homem mais inteligente do mundo; o desgraçado; grande bvndão; essa mula (dessa mula); aquele cara que foi para a China; o doutor; muito detalhista e metódico; o autor; o escritor de verdade; o torto; o homem realizado; qualquer escritor, além de um ideograma chinês que não conseguirei reproduzir aqui.

Fiquei tentado a fazer várias comparações com autores como Don DeLillo (Cosmópolis), na capacidade de extrair material épico mesmo de situações pós-modernas, ou ainda  com Joan Didion (Democracia & A última coisa que ele queria) ou, em certo sentido,  com certos John Updikes.

Mas creio que a similaridade mais tangível é com Machado de Assis mesmo. O livro dos mandarins é o Quincas Borba do nosso tempo.

03/12/2011

ENCRUZILHADA DE BECOS PARA PORTUGAL

Filed under: livro... — alfredomonte @ 15:00
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(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de maio de 2011)

“Talvez ir para a França fosse uma espécie de guerra, talvez estivesse a ir no sentido de tudo aquilo de que queria fugir. Para onde ia? Subitamente, a vida parecia-lhe uma encruzilhada de becos”.

“A Adelaide pensou que aquele papel faria a viagem contrária à que ela própria tinha feito. Talvez a tia pousasse o envelope sobre o balcão da loja, talvez o pousasse sobre a mesa da cozinha, haveria de fazê-lo certamente. Deu consigo a sentir falta do balcão da loja e da mesa da cozinha, onde pousou os cotovelos tantas vezes. Ali, numa rua francesa, feita de cores diferentes e de materiais diferentes, pareceu-lhe estranho que ainda existisse esse lugar de cigarras no verão, inconcreto como o dia anterior, como o mês anterior, o ano anterior, a infância. Mas, sim, aquele papel haveria de chegar a esse tempo, aquelas palavras haveriam de chegar ao que foi e, no seu íntimo, continuava a ser”.

   Portugal pode estar em recessão, sua literatura não: a cada obra que leio de José Luís Peixoto mais me convenço de que ele é o grande autor surgido neste novo século, ao menos no âmbito da nossa língua. Se ainda restasse alguma dúvida, teria sido dissipada por seu último romance, Livro (Portugal, 2010), com o qual fechou sua primeira e gloriosa década de carreira, abordando  o mais clássico e batido dos temas: o desencontro entre um jovem casal enamorado. Mais ainda, o desencontro com a própria terra natal.

    Ilídio e Adelaide são jovens de uma cidadezinha nos cafundós lusitanos. Apaixonam-se. Por conta disso, a tia dela, Lubélia, que não aprova o namoro e é amarga e ressentida, a envia à força para a França (ainda na época de Salazar, com caravanas constantes e clandestinas). Ilídio emigra para encontrá-la (a narrativa das duas viagens é extraordinária nessa prosa tocada pela “nitidez de todas as arestas”), acompanhado do amigo Cosme, que foge do recrutamento militar.

    Residindo no mesmo país, suas vidas permanecem paralelas (um pouco por conta das artimanhas de Lubélia, um pouco por conta do destino, um tanto pelo próprio temperamento de ambos). Ela chega a casar-se com outro português, Constantino,  que recebe da mesada da família e alimenta sonhos esquerdistas (fomentados pelos acontecimentos revolucionários dos anos 60).

    De Ilídio, Adelaide guarda o mais insólito dos talismãs (já que nenhum dos dois é o que se pode chamar de letrado): um livro, que nunca saberemos qual é. Entretanto, o filho dela chamar-se-á Livro. E português nascido na França, voltará ao país da mãe, para viver (com ela, que terá a grande chance de se acertar com Ilídio) na aldeia, após atropelar sem querer (e fugir) uma conterrânea incauta nas ruas de Paris. E embora não saibamos qual é o livro-tesouro amoroso de Adelaide, teremos diante dos olhos o livro que Livro escreve e que talvez seja o livro que estamos lendo…

    Apesar do jogo metalingüístico e da pós-modernidade que vai se impondo em Livro, mais uma vez Peixoto surpreende com seu raro olhar sobre o universo camponês ou pelo menos a mentalidade “camponesa” que permaneceu latente até mesmo em portugueses citadinos, embora cada vez mais em refluxo, evidentemente. Não há nada mais bonito do que o estilo do autor de Cemitério de pianos e Uma casa na escuridão, e ele se mostra especialmente inspirado e certeiro na evocação de uma atmosfera que pareceria, a princípio, para um autor tão jovem (nasceu em 1974) e de aparência e  atitude tão “modernosa”, remota e arcaica.

     Com Livro, aliás, matei a charada do feitiço que seus textos provocam em mim: sempre me senti meio agente duplo, pois gosto tanto de autores onde o mundo material aparecia em sua plenitude, e a narrativa é fortemente ancorada na “realidade factual”, como de autores onde a insubstancialidade do mundo é a tônica, e somos levados de roldão numa tabula rasa do que seria o real e o concreto.

    As vidas de Ilídio e Adelaide vão ficando cada vez mais frágeis e fantasmáticas na França, e Livro é um personagem confrontado com a própria condição insubstancial. Ele não pode ser como a velha Lubélia, sobre a qual lemos: “… acreditava que era por isso que, com quase trinta anos, quando já tinha desistido de casar, aceitou trabalho naquela vila. Foi tomar conta de uma velha sozinha e amarga. Nunca gostou da velha, mas herdou-lhe a loja e encontrou nela um exemplo da própria amargura (…) Por costume, amaldiçoava cada grão daquela terra, mas era ali que pertencia. Sentia paz quando fechava os olhos e, para lá da inveja, desprezo e ódio que alimentava por um grupo vasto de pessoas, sentia uma certa comunhão com aquele lugar. Sabia o nome de todas as ruas, becos e travessas. Sabia de cor o nome completo de todas as pessoas adultas da vila”.

    Todavia, num incrível feito, o mundo material avulta mesmo assim em Livro, daí as cenas inesquecíveis do menino (Ilídio) que é abandonado pela mãe e fica à sua espera interminavelmente à beira de uma fonte contaminada, até desistir, e procurar aquele que será seu pai simbólico (Josué); as já referidas cenas de emigrantes em jornada clandestina para a França; a casa de um dos companheiros de Ilídio, com um irmão inválido física e mentalmente, e uma coorte de pombas esvoaçando em meio à escuridão e ao cheiro da pobreza, quase da miserabilidade. E também a solidão de Adelaide na França, trabalhando como faxineira numa casa de família e também numa biblioteca (onde conhece Constantino e tem início uma insólita forma de paquera), e mais ainda como mulher casada, não compreendendo e não sendo compreendida pelos amigos engajados e “inteligentes” do marido.

   E no final o mundo rural português, apesar de tão entranhado nas personagens (até naquele que ali não nasceu) é atropelado pela modernidade  pós-industrial como uma velha incauta na rua.

    Acho que ninguém acertou mais na mosca do que o escritor angolano José Eduardo Agualusa quando afirmou que o universo de José Luís Peixoto era luminoso e ao mesmo tempo tristíssimo, “ou seja, absolutamente português”: “O Josué vinha a teimar consigo próprio quando entrou na Rua de São João. Setembro podia acabar, o telhado do jazigo estava quase pronto e o Josué tinha pressa de envelhecer um pouco mais. Dentro de poucos anos, talvez se pudesse sentar no terreiro, ao lado dos homens que não esperavam por nada”.

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