BLOG DO ALFREDO MONTE

14/12/2009

O PROCESSO e A PESTE: a culpa e a inocência da humanidade

 camusFranz_Kafka

Possivelmente as duas obras que melhor simbolizam as preocupações centrais do século são O processo e A peste. A obra-prima de Franz Kafka  foi escrita (e interrompida) entre 1914 e 1915; e a obra-prima de Albert Camus foi publicada em 1947. Coincidentemente os dois estavam na faixa dos trinta e poucos anos quando as escreveram.

    No universo de O processo a totalidade da ação se passa, a uma visão superficial, no plano individual: Jozef K. acorda no dia do seu aniversário e encontra tudo modificado: está detido, é acusado por um crime que desconhece. Procurador de um grande banco, percorre um caminho que vai da atitude “superior” diante da situação absurda em que se vê metido até o patético desamparo diante da execução, quando dois homenzinhos burlescos o levam para uma pedreira, onde o matam “como a um cão”.

    Após viver alienadamente por trinta anos, K. se vê enredado por uma terrível e abstrata (terrível porque abstrata?) Lei, a qual parece congregar todas as pessoas à sua volta (o que dá um ar conspiratório e ameaçador ao romance inteiro), como se o mundo fosse uma vasta organização burocrática. K, entretanto, somente vagará pelos escalões mais subalternos e inferiores dessa organização que encarna a Lei. Isso dá margem à veia cômica incomparável de Kafka, pois vemos repartições, cartórios e salas de audiência localizados em cortiços, funcionários sórdidos e sempre envolvidos numa degradante atmosfera de sexualidade (o juiz de instrução manda buscar a esposa do oficial de justiça para servi-lo sexualmente, um estudante de direito mantém relações com ela durante um inquérito). Os acusados têm de viver nos quartos de despejo dos advogados para que eles se dignem a dar informações, quando lhes ocorre ou lhes dá na veneta, sobre o andamento do seu processo (é o caso do comerciante Block, humilhado pelo advogado que compartilha com K., e não é só o advogado que eles compartilham).

o processo

    Qualquer um pode fazer parte dos tribunais e qualquer quartinho (como o do pintor Titorelli, a quem K. procura para que o ajude no seu processo) revela entradas e saídas que se comunicam com cartórios e repartições (então, já que não há separação entre privado e público, também não se pode falar em “plano individual”). Todos os ambientes são miseráveis, baixos, pobres e abafados. Pesadelo de tísico. De fato, apesar do humor negro inato em Kafka, O processo parece um pesadelo ampliado. Mostra um mundo em crise, onde lei e justiça estão em pólos opostos, onde todos os valores e alicerces que achamos seguros e sólidos se viram contra nós, e ainda fazem com que acreditemos que carregamos alguma culpa, identificada e punida (é por isso que o sexo é uma presença tão forte no romance). O ser humano é um condenado que vive em aparente liberdade e K. acerta em cheio ao dizer para o sacerdote na catedral da cidade (quando sua condenação já é praticamente certa): “A mentira se converte em ordem universal”. O que se pode esperar quando a suposta lei que rege o universo é representada pela corrupção,  pela vaidade e pela degradação?

 II

     Se K. sucumbe ao absurdo, alienado de si e dos outros, contestando, mas apenas no (e aí sim se encaixa o) plano individual, A peste tenta equacionar o individual e o coletivo com relação à “mentira convertida em ordem universal”: a cidade de Oran é abalada pela morte inexplicável de seus ratos, depois por alguns casos isolados de uma doença misteriosa,até que o número de vítimas multiplica-se e a cidade é obrigada a ficar em estado de sítio, isolada. Nenhuma medida e nenhum soro parecem capazes de controlar e erradicar a epidemia e toda a vida cotidiana passa a se organizar em torno da peste, que aparentemente iguala a todos (embora não seja bem assim).

     Uma leitura redutora da amplitude do livro de Camus está em considerá-lo simplesmente uma alegoria do Nazismo (a peste), da Resistência (o grupo que luta contra a praga, apesar das diferenças individuais: o doutor Rieux, seu amigo Tarrou, o jornalista Rambert, o padre Paneloux, o burocrata Grand) e do Colaboracionismo (o corrupto Cottard). As décadas transcorridas e os acontecimentos só valorizaram a alegoria da Peste utilizada por Camus (que, com incrível presciência, resgatou um dos símbolos mais fortes do imaginário medieval, que depois foi inúmeras vezes explorado como paralelo da nossa época), transcendendo as referências datadas e até as intenções possíveis do grande escritor franco-argelino: a Peste pode representar a mera estupidez da natureza que dizima populações inteiras, comprovando o absurdo do mundo, onde se vive e se morre gratuitamente; e pode representar uma ordem social alienada, contra a qual só a ação coletiva  pode ser uma força. Eficaz? Não importa. O livro não exalta o heroísmo coletivo, não há “mensagem positiva”. Apenas mostra que o indivíduo (e suas escolhas) nada é para a Peste, e nada é sem lutar contra a Peste, que Tarrou acredita estar dentro de todos nós.

camus e a pesteAlbertCamus-Apeste

     A Peste pode ser a guerra, a AIDS, o ebola, a globalização, o fanatismo, somos todos indivíduos que podem ser parte de uma estatística fatal, e não podemos nos desobrigar de trabalhar contra o absurdo e opor a ele o outro termo da equação camusiana básica: a revolta. Pois a culpa não está em nós, apenas o “micróbio” da Peste, em oposição à culpa difusa que parece envenenar os esforços de K. em O processo. É por isso que a palavra “inocência” é tão utilizada ao longo do romance. Somos inocentes porque nascemos num mundo indiferente ao nosso destino e aos valores morais que possamos criar para justificar nossa presença aqui. Divorciados do mundo, temos ainda a Peste, que representa tudo o que nos degrada e destrói, ou, num plano mais sutil, nos aliena de nós mesmos, tudo que serve à “mentira convertida em ordem universal”.

    Um dos recursos brilhantes de Camus para criar um diálogo entre as várias reações individuais contra a praga é fazer com que o doutor Rieux narre a história (identificando-se apenas no final), incorporando porém as descrições, depoimentos e testemunhos dos outros personagens, numa tessitura narrativa muito mais complexa e escorregadia do que parece. Ocultando-se como narrador, Rieux faz questão de assumir o papel de cronista, mais do que de protagonista; enquanto que, em O processo, a narrativa é em terceira pessoa, mas sempre tem uma atmosfera de narrativa em primeira pessoa, de tão colada às percepções de K. O doutor Rieux, narrando, esquece de si mesmo para enfrentar a banal e monótona burocracia da Peste.

     E assim, tendo em mente os acontecimentos do século XX, esses dois belíssimos romances colocaram em movimento imagens poderosas e bizarras, mostrado como as instituições forma se transformando em jaulas, como as abstrações que criamos passam a ter mais realidade que nossa própria existência cotidiana, como o indivíduo passou a ser irrisório e como o irracional ainda comanda nossas vidas.

(resenha publicada em 23 de dezembro de 1997, em homenagem ao meio século de A peste e em razão do lançamento de uma nova edição de O processo).

05/11/2009

LEITURA EM ESPELHO: Saramago e Lobo Antunes (“Caim” e “O arquipélago da insónia”)

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na internet: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

saramargoloboantunes

arquipélago da insonia

“Quem anda de noite misturado com o vento à roda da casa e eu para o meu irmão

     __ Não ouves?

      procurando os intervalos das janelas para espiar a gente, um defunto que se perdeu sem encontrar a travessa onde mora ou as doninhas que não respeitam ninguém obrigando-me a trazer a caçadeira  e a disparar ao calhas, quando de manhã as procuro os milhafres levaram-nas e há um texugo a lamber restos de sangue escondido nas ervas porque são ervas o que hoje temos na herdade de modo que a serra maior, a lagoa nos seus refluxos miúdos e vozes a falarem de uma época em que o meu irmão e eu não havíamos nasido, onde os campos cresciam e o meu avô rico a ordenar isto e aquilo, chegou da vila com o feitor e a mulher do feitor de que se serviam os dois na barraca a partir da qual se construiu esta casa, escutavam bandos de corvos evadidos das nuvens onde se guardam os pássaros  por ordem, estorninhos, gralhas, cegonhas que a mão de não sei quem distribui, se chamasse uma das empregadas da cozinha ninguém, no caso de subir ao compartimento dos baús nenhum perfume na roupa, vamo-nos embora amanhã, onde o mulo, o cavalo e as doninhas não cheguem, pela mesma vereda que a mulher do feitor seguiu sem dizer fosse o fosse abandonando a carne ao lume e a agulha espetada no novelo como se fosse voltar; o meu avô e o feitor acertaram no rastro apesar de tanto cardo e tanta pedra porque ao principiar a colina os pés  se arrastavam e alguns caules quebrados, alcançaram-na numas hidrângeas de ribeiro a olhar os gafanhotos que saltavam na corrente se é que  podia chamar-se corrente a uma linhazita incapaz de contornar os seixos, deu por eles de olhos mansos, viu a agulha de crochet na palma do feitor e pergunto-me se a terá sentido entre duas costelas absorvida como estava pelos gafanhotos… o feitor experimentou a agulha mais acima, no ponto em que o coração vai dando corda ao corpo e inventando ideias e a mulher amontoou-se sem cair, ou seja alargou  sentada dizendo qualquer coisa como sucede ao calcário se lhe encostamos o ouvido e uma artéria secreta a latir, a latir, a subir de tom, a parar, ao parar a cabeça no peito e foi tudo…”

    Finalmente terminei a primeira parte de O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA, após algumas atribulações  e vicissitudes pessoais (neste sentido, e apenas neste, não dou sorte com Lobo Antunes: toda vez que leio um livro dele ou não estou muito bem de saúde, ou caio doente, ou acontece algo desagradável na minha vida).

      Como já afirmei (ver abaixo), apesar de repetir processos narrativos de livros anteriores (processo que, creio eu, chegou ao auge em Eu hei-de amar uma pedra), o que impressiona no romance é sua primordialidade.  Parece que estamos vendo em ação o “id” freudiana, sem nenhuma censura ou repressão, e as imagens, fantasias e fábulas pessoais (o “romance familiar”) são vistos de forma nua e crua e não sabemos se estamos numa alucinação, numa reconstrução memorialística, num eterno retorno, num pesadelo circular: essa herdade, erguida pela vontade balzaquiana do patriarca, o avô, cuja mãe abandonou o pai (que se suicidou com uma tesoura no pescoço) e foi viver com o padre da vila, renegando o filho (depois o feitor, a mando do avô, assassinará o padre)… essa herdade, que não terá um herdeiro forte que a herde, pois o avô “pegou” a avó para ser sua esposa, mesmo assim usando todas as mulheres do local (a mulher do feitor, as futuras empregadas, a mulher do filho, menos a filha do feitor, que se oferece, mas pode ser sua própria filha), só que a perdeu para o filho, o Idiota, o fraco, aquele que não consegue nem ser suficientemente homem para mandar na mulher, que escolheu entre as empregadas da cozinha, mas que serve sexualmente o pai dele e transa com um ajudante de feitor (que pode ser outro filho do padre), o qual pode ser o verdadeiro pai do narrador, um filho desprezado por todos, ao contrário do irmão mais novo, talvez legítimo, mas esse sim o verdadeiro Idiota, sem noção de nada… mas aí a herdade empobreceu, a vila despovoou-se, tudo ficou mais pobre, só restam os onipresentes retratos em suas molduras de gente morta que prossegue nos retratos e nas lembranças como gente viva, talvez até mais viva que os vivos,  como pressentimos numa frase genial logo na primeira página (quando fala da avó morta): “…fixando-me com um olhar de retrato que atravessava gerações…”. Cinquenta páginas depois: “…já só faltamos o meu irmão e eu na parede para que a família inteira em molduras ou seja há retratos nossos de criança, não de hoje… além das fotografias sobra-nos o cavalo e as vozes dos finados que conversa, conversam…”  Mais adiante: “De maneira que fico aqui à espra porque com um  bocadinho de sorte pode ser que alguma coisa aconteça, uma pessoa chegue da vila para ficar conosco ou levar-nos consigo e nem já da vila se calhar; meia dúzia de postigos que resistem e os parentes dos retratos aguardando que a lâmpada do fotógrafo os desperte para regarem as hortas…”

antunes

04.11.09- Quando eu pensei em fazer uma leitura comparativa entre livros de  Saramago & Lobo Antunes, a minha primeira idéia foi de usar Meu nome é legião como contraleitura de CAIM até por causa do seu título bíblico, mesmo que o romance de Lobo Antunes focalizasse a violência urbana dos nossos dias, centrando-se num grupo muito jovem de delinqüentes. Todavia, eu não resisti à beleza do título O ARQUIPÉLAGO DA INSÓNIA e até que não errei muito na troca, uma vez que se pode afirmar que esse livro (publicado em Portugal em 2008) é extremamente “bíblico”. Acredito que Lobo Antunes  atingiu, aqui, a primordialidade. Embora se possa (e se deva) fazer uma leitura histórica, de um meio rural português em meados do século passado, há um sopro de intemporalidade na descrição das relações, dos hábitos, da paisagem, que inscreve o texto numa ancestralidade bíblica, com o patriarcalismo triunfante: temos o Avô, o Pai, a Mãe, a Avõ, o Irmão, a Vila, a Herdade, enfim, tudo sendo construído e descontruído pela memória, naquela coisa louca loboantunisiana de fazer frases e falas voltarem a todo momento, mas tudo Único, primordial, ancestral no sentido mais visceral da palavra.

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  Saramago e os desígnios inescrutáveis do Senhor     

       O personagem-título de Caim só aparece na pág. 32, no terceiro capítulo. Antes, o mais recente romance de José Saramago narra com vivacidade ímpar a expulsão do paraíso, inclusive com uma interpolação especialmente saborosa ao relato bíblico, quando Eva pede, usando toda sua coqueteria de mulher, ao querubim que ficou de guarda no Éden alguns frutos para que ela e o marido se alimentem, e o anjo, seduzido por ela, desobedece ao senhor e ainda dá instruções de como eles se “virarem” pós-Queda: devem procurar agrupamentos humanos, integrar-se em alguma caravana: “Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi, tratou-se de um experimento…”.

      Duas páginas após aparecer, Caim já matou Abel e  questiona o Senhor, que afirma que o “pôs à prova” não aceitando suas oferendas: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou dono e soberano de todas coisas, E de todos os seres, dirás; mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um  momento fosses realmente misericordioso… tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado…”

    Não se sabe bem por que (talvez outra experiência, outro desígnio inescrutável), Deus não castiga Caim, mas faz dele um errabundo, sem parada. Mais ainda: o responsável pelo crime primordial dos seres humanos entre si torna-se um Viajante do Tempo, o que permite ao engenho saramaguiano passar em revista os principais eventos dos primeiros livros bíblicos: o quase-sacrifício de Isaac, a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, o bezerro de ouro, as filhas de Lot dormindo com o próprio pai, as batalhas sanguinárias de Josué, Satã atormentando Jô com a autorização de Yahweh… Tudo de forma muito bem contada, mas meio óbvia (é preciso reconhecer) porque servem para a argumentação teológica básica do romance: o Senhor é um deus psicótico, caprichoso, injusto, irracional, destruidor, imperialista: “Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”.

    Apesar do talento narrativo com que o autor de Ensaio sobre a cegueira revive essas passagens, há uma certa mão pesada em fazer com que elas levem a essa mesma conclusão deletéria sobre a divindade monoteísta que nos rege, repetidamente. Ou seja, os desígnios do Senhor são inescrutáveis, os de Saramago, transparentes demais.

      Em compensação, o clímax do livro desemboca numa surpreendente e inesperada versão da história do Dilúvio e da Arca de Noé, em que a rebeldia de Caim e o seu modo de expressá-la (o assassinato) serão levados ao extremo, como se as cobaias de um experimento forçassem o cientista louco a reconhecer seus erros.

      Embora seja o momento mais ousado de Caim, considero sua parte mais bem realizada os capítulos em que o herói chega à cidade governada por Lilith, a mulher devoradora de homens, a essência do domínio feminino negando o patriarcalismo fundamentalista de Yahweh e seus favoritos, e é escolhido como seu amante, mesmo que seu destino não seja fixar-se em lugar nenhum. Nesses capítulos que evocam o mundo de Lilith, Saramago mostra de forma cabal o seu poder de ressuscitar, sem detalhes cenográficos ou perfumarias, épocas antigas (poder de que tinha dado abundantes provas em Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo e no seu lindo romance anterior, A viagem do elefante, sua maior realização nesta última década), através dos miúdos e humildes detalhes do cotidiano e das relações humanas básicas.

       Se os holofotes sobre Caim estão fixados no tom blasfematório e provocativo com que ele castiga o “manual de maus costumes” que é o Antigo Testamento (uma molecagem terrorista deliciosa, se lembrarmos que se trata de um sisudo senhor de 87 anos), se a humanidade que emerge do dilúvio é uma das suas páginas mais amargas e desiludidas, o caminho que leva Caim a Lilith e o “idílio”, por assim dizer, entre ambos, estão entre os momentos em que vemos por que Saramago é um dos escritores fundamentais do nosso tempo.

(resenha publicada em “A Tribuna” em 03.11.09) 

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