MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/05/2012

A FICÇÃO DO POETA BENEDETTI

 

“Não é boa uma vida sem fantasmas, uma vida cujas presenças sejam todas de carne e osso ”

“Existem matizes, não? (Mario Benedetti)

(abaixo, resenha  publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em  06 de junho de 2009)

      UM ESPELHO POLIFÔNICO EM 45 FRAGMENTOS

    Quem escreve periodicamente sobre qualquer assunto, percebe, ao longo do tempo, que a tarefa não fica mais fácil, que o maior desafio é encontrar ganchos diferentes, formas diferentes de abordagem, e que na verdade estas últimas se reduzem a umas poucas variações. Por isso, acaba sendo providencial e confortável um gancho fornecido pelas efemérides da vida. Exemplo: a morte de Mario Benedetti, em 17 de maio, que coincidiu com o lançamento da tradução de Primavera num espelho partido (Primavera con  una esquina rota, em tradução de Eliana Aguiar para a Alfaguara).

O Uruguai tem um gênio: Juan Carlos Onetti, autor de romances que eu considero obrigatórios como A vida breve; Junta-Cadáveres; O estaleiro; Deixemos falar o vento e de contos igualmente notáveis (Tão triste como ela). Não conheço quase nada da prolífica obra poética de Benedetti (o que conheço não é de molde a me fazer um admirador), porém um romance como A trégua (1960) é suficiente para que ele não fique ofuscado pelo responsável por colocar nosso país vizinho no mapa da literatura.

mario benedetti

A trégua (ver resenha abaixo) era um exercício modelar da narrativa em primeira pessoa, imitando a forma de diário e ocultando, numa superfície de simplicidade, requintes psicológicos e de estilo.

Primavera num espelho partido é mais diversificado e ambicioso, um espelho polifônico (são muitos os narradores) estilhaçado em 45 fragmentos. Polifonia era a técnica que permitia o que o grande pensador russo Mikhail Bakthtín denominava “texto dialógico”: várias vozes na montagem das quais não havia hierarquia ou predominância (a nossa outra leitura da semana, As meninas, também pratica isso, embora ambos sejam aplicações mais simples do dialogismo bakthiniano que tem os romances de Dostoievski como a grande referência e cuja textura discursiva é bem mais complicada).

O núcleo do romance é uma família cujo pai “caiu” em decorrência do golpe de estado de 1973 (e a transformação do país naquela nossa velha conhecida latino-americana, a Ditadura) e a qual tem de se exilar na Argentina. Em torno desse núcleo, o autor constrói e diversifica  seis segmentos narrativos:

–Intramuros (mais tarde, Extramuros), com a narrativa em 1ª. pessoa de Santiago, o pai,  preso por “cinco anos,  dois meses e quatro dias”, e depois anistiado (“intra”, articulada, linear; “extra”, desarticulada, primavera num espelho partido). São oito capítulos;

–Feridos e contundidos, em 3ª.pessoa, e muito caracterizado pela abundância de diálogos, onde Graciela, a esposa de Santiago, é focalizada em sete capítulos;

–Don Rafael, com a narrativa em 1ª. pessoa feita pelo pai de Santiago (num dos capítulos há uma longa carta do próprio Santiago narrando ao pai o único assassinato que cometeu em sua militância política), em sete capítulos;

– Exílios, no qual às vezes Mario Benedetti é o personagem, às vezes ele se refere a compatriotas exilados (há até uma linda história de solidariedade, no capítulo chamado “Adeus e Boas-vindas”), em nove capítulos;

–Beatriz, na qual a narrativa em 1ª. pessoa é feita pela filha de nove anos de Santiago e Graciela, em sete capítulos;

–O outro, no qual o foco narrativo é um discurso indireto livre focalizando Rolando Asuero, useiro e vezeiro em citar versos de tangos, também exilado em Buenos Aires, como a família de Santiago (seu velho amigo) e que se torna o novo amor de Graciela,  em sete capítulos.

Portanto, o problema é que Graciela já não consegue mais amar o Santiago, e se culpa porque a condição de preso político do marido se arrasta durante anos, o que faz com que sua vida fique emperrada até que resolve declarar sua paixão por Rolando. Um dos aspectos mais pungentes na alternância de vozes do livro é que ao mesmo tempo temos acesso às cartas de Santiago, com sua paixão por Graciela, e conhecemos o embate que se passa dentro dela (o marido ficando a cada ano mais e mais fantasmático). Não haverá mais Penélopes à espera dos desterrados Ulisses? “Ah, se pudesse jogar no imperialismo a culpa por essas olheiras”, diz outro personagem. Também conhecemos o papel secundário que os maridos militantes (Rolando é um caso à parte, um solteirão inveterado, don juan) reservam às mulheres, o machismo-leninismo dos ilustres varões”.

Até voltar em 1983 ao Uruguai Benedetti viveu na Argentina, no Peru (de onde foi expulso). Durante alguns anos sua obra girou em torno da descompressão do golpe (com todos os sentidos que a palavra pode ter), o “desexílio”, como chamava.

Primavera num espelho partido, que é de 1982, se situa nessa fase, entre os poemas de Vento do exílio (1981) e os ensaios de O desexílio e outras conjeturas (1984). “O exílio (interior, exterior) será uma palavra-chave desta década”. O título tem sua justificação interna (fora sua justificação poética) no relacionamento entre Santiago e a mãe. Dom Rafael lembra: “Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera.  Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida.  É como o seu termômetro,  seu padrão, sua norma”…

Todos os personagens e situações do romance são interessantes, porém Benedetti é particularmente feliz na criação da pequena Beatriz. Além do tour-de-force da linguagem (mimetizando a lógica infantil, por isso é sensacional o capítulo em que ela confunde “poluição” com “polução”), há a perplexidade (que eu nunca vi ser tão bem colocada) da criança que tem um pai preso e de quem se diz que é um herói e não um criminoso. Como ajustar isso a uma percepção incipiente da realidade? “Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um  preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora  meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade.  Estão vendo como é enorme?”. Com uma realidade como a latino-americana (espelho partido) essa é uma lógica de rigor impecável.


   

 

12/05/2012

DEFOE-CRUSOE

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bestbolso

(25.08.09)

Estou me ocupando novamente de ROBINSON CRUSOE (ou mais precisamente, A vida e as estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoe), motivado pela estréia da série Crusoe, na quinta-feira, dia 27. Não sei, é claro, o que vai restar do clássico de Daniel Defoe (1660? ou 1659? ou 1661?-1731), publicado em 1719, nessa adaptação modernosa.

A tradução que uso no momento é a de Domingos Demasi, relançada este ano pela Bestbolso (saiu pela Record em 2004). Tenho algumas implicâncias com ela, acho que ela empobrece diversas passagens, mas é só implicância mesmo, já que ela é muito satisfatória para o leitor moderno. É que quando a comparo com as outras que tenho, é a que me deixa mais insatisfeito. Pois finalmente consegui reencontrar, após muitos e muitos anos, a da Companhia Editora Nacional, que foi a que eu li quando mais jovem.

Sempre achei, não sei por que, que ela tinha sido realizada por Monteiro Lobato (a versão dele de fato existe, numa edição da Brasiliense). Na reedição de 2002 (que parece ter mantido a mesma capa da minha pré-adolescência ou é impressão minha, falsa memória?), entretanto, vem o seguinte: “tradução anônima”. Embora tenha persistido na minha cabeça que se trata do verdadeiro Robinson Crusoe brasileiro, há poucos anos tive a oportunidade de ler a maravilhosa tradução (publicada pela antiga editora Jackson) de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves. Eu a li em contraposição a uma tradução fraudulenta da Martin Claret de que me ocupei numa resenha. E pouco tempo depois adquiri a charmosa edição da Iluminuras, traduzida por Celso M. Paciornik, cheia de soluções brilhantes, porém com uma estranha e arbitrária divisão em capítulos.

Devo dizer que essa última releitura que fiz, motivado pelas pilantragens editoriais da Martin Claret, me deixou um saldo de antipatia pelo romance que é considerado fundador da moderna narrativa burguesa (e cujo protagonista virou uma figura arquetípica, maior que o livro ao qual pertence), pelos animais que ele mata por diversão e sobretudo pelo cabritinho a quem ele quebra uma perna para domesticá-lo (também tem o episódio dos gatos: Robinson salva duas gatas do navio, e uma delas some e depois aparece prenha; nascem três filhotes e o número de gatos começa a se multiplicar: ‘passei a ser importunado por tantos gatos que fui forçado a matá-os como uma praga…”). O que foi suficiente para jogar um balde de água fria na minha paixão juvenil pelas aventuras do mais famoso dos náufragos.

Agora a balança está mais equilibrada. Não é possível ler esses clássicos sem aceitar a mentalidade do homem da época. Como tive de fazer esse exercício recentemente, com O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Alexandre Dumas, ficou mais fácil aceitar o flagelo ecológico e ambiental, o ser predatório que é Robinson Crusoe (na nossa visão anacrônica e retrospectiva). Ele, na verdade, é o homem ocidental, para o bem e para o mal.

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daniel_defoe

26.08.09 -

ROBINSON CRUSOE debate muito a questão da Providência. Robinson sente-se azarado, perseguido pelas pragas moralistas do pai, no entanto não aprofunda muito o sentido religioso ou providencial do seu destino. Na ilha, essa indiferença ou superficialidade se mantém por certo tempo. Há um trecho significativo a respeito. Ele precisava, para algum uso importante, de uma saca do navio encalhado e destroçado (no qual ele fez várias excursões para retirar aquilo de que precisasse, pois Crusoe não é um náufrago totalmente desvalido, muito pelo contrário), e como os grãos que ali estavam foram comidos ou conspurcados pelos ratos durante a travessia malograda, ele joga tudo fora na parte de fora da habitação que vai construindo na ilha. Pouco tempo depois, vê alguns talos brotando do chão. E depois espigas:

“É impossível expressar a surpresa e a confusão dos meus pensamentos, na ocasião. Até então eu vinha agindo sem qualquer princípio religioso; aliás, em minha cabeça havia muito pouca noção religiosa, nem eu nutria algum senso sobre o que acontecia comigo, além do acaso,ou como dizemos frivolamente, da vontade de Deus; como também não questionava as intenções da Providência Divina nem os desígnios Dele em governar os destinos do mundo. Depois, porém, de ver a cevada crescer ali, num clima que sabia não ser apropriado para cereais, e, principalmente, por não saber como aquilo fora parar ali, essa coisa me abalou de um modo tão estranho que passei a considerar que Deus, miraculosamente, fizera a cevada crescer sem qualquer ajuda de semeadura, e que aquilo fora enviado apenas para o meu sustento naquele lugar agreste e miserável. Isso me comoveu um pouco, levando-me lágrimas aos olhos, e passei a me bendizer por aquele prodígio da natureza ter ocorrido em meu benefício; e foi mais estranho ainda, pois vi ali perto, ainda ao longo da encosta do rochedo, outros talos dispersos, que verifiquei depois serem hastes de arroz, que eu conhecia, porque tinha visto essa planta crescer na África, quando estive por lá.

Não apenas achei que isso fosse pura obra da Providência Divina para o meu sustento, como não duvidei de que mais daquilo por ali, e percorri a parte da ilha onde já estivera antes, vasculhando cada canto e debaixo de cada pedra, para ver se encontrava mais; porém, nada encontrei; finalmente ocorreu-me que havia sacudido o saco de ração…naquele local, e o espanto começou a cessar; e devo confessar que a minha religiosa gratidão à providência de Deus também foi minguando, ao descobrir que tudo aquilo não passou de algo normal, embora me sentisse grato por um acontecimento tão estranho e imprevisível, quase como um milagre, pois, para mim, fora realmente obra da Providência Divina, que ordenara que dez ou doze grãos do saco não sofressem dano … como se tivessem caído do céu; e também que eu os tivesse jogado fora justamente naquele lugar, onde, por ficarem à sombra de um alto rochedo, brotaram imediatamente, ao passo que, se na ocasião eu os tivesse jogado em qualquer outro lugar, os grãos teriam ressecado e sido destruídos”.

Mais adiante, no entanto, após tornar sua “fortaleza da solidão” um lar burguês, ordenado, após ter criado uma “rotina de trabalho”, Robinson cai muito doente. O resultado é uma preocupação com a salvação que transcende o âmbito da situação em que se encontra e remete a um exame de consciência com relação à sua vida “pecaminosa” de antes (não temos os detalhes do que consistia exatamente essa vida de que ele tantos se recrimina). Assim, ele começa a estudar a Bíblia (também resgatada do navio encalhado):”Passei a interpretar as palavras já mencionadas, Invoca-me e eu te salvarei, de um modo diferente do que havia feito antes, porquanto, naquela ocasião, não fazia idéia do que significava salvação, a não ser o desejo de ser salvo do cativeiro em que me encontrava, pois embora estivesse livre, naquele lugar, a ilha, para mim, não passava de uma prisão, e no pior sentido da palavra; mas, agora, aprendera a concebê-la em outro sentido. Olhei para trás, para o meu passado, com tal horror, e os meus pecados pareceram tão medonhos que a minha alma não pedia nada mais a Deus a não ser a libertação do fardo de culpa que me privava de todo o consolo; quanto à minha vida solitária, nada significava; nem mesmo rezava para me livrar dela ou sequer pensava nela, nem era objeto de reflexão, se comparada a isso. E acrescento isto aqui, como uma indicação às pessoas que o lerem, pois, quando atingirem o verdadeiro sentido da vida, descobrirão que a remissão de um pecado é uma bênção bem maior do que a libertação de uma aflição”.

 

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28.o8.09

“a tinta começou a escassear. e contentei-me em usá-la moderadamente, e anotar apenas os eventos mais notáveis de minha vida, sem continuar a fazer um relato diário dos demais acontecimentos…”

“… embora não queira importunar o leitor com um relato pormenorizado dos meus trabalhos nesse ano… devo observar que, de um modo geral, raramente ficava ocioso; ao contrário, dividia regularmente o meu tempo de acordo com as várias tarefas diárias que se apresentavam… em primeiro lugar, a minha obrigação com Deus e a leitura das Escrituras, para a qual separava um tempo três vezes ao dia; em segundo, a saída com a espingarda à procura de alimento, o que,quando não chovia, geralmente me tomava três horas de todas as manhãs; em terceiro, arrumar, preparar, conservar e cozinhar o que havia abatido ou capturado… isso me tomava grande parte do dia; deve-se também levar em consideração que, na metade do dia, quando o sol estava no zênite, a intensidade do calor era grande demais para sair; portanto, cerca de quatro horas da tarde era todo o tempo de que dispnha para trabalhar… A esse curto de período de tempo disponível para o trabalho, é bom que se acrescente o excessivo esforço exigido por cada tarefa; eu gastava muitas horas, por causa da falta de ferramentas, de ajuda e de habilidade, e tudo o que eu fazia tomava muito do meu tempo.”

Algumas observações sobre ROBINSON CRUSOE:

1) Quando era garoto, achei chatíssimas as descrições detalhadas da maneira como Robinso “aburguesa” a sua existência de náufrago, com suas casas em diversos pontos da ilha, a descrição de cada profissão imemorial (oleiro, padeiro, carpinteiro, etc), cujo percurso ele teve de retraçar para se cercar de conforto. Pois agora acho fascinante esse aspecto de materialidade que constitui boa parte da narrativa, em detrimento da aventura. A genialidade de Defoe está na configuração dessa mentalidade ordeira e burguesa, que necessita de casa, cercadinhos, artefatos, etc, para, mais do que sobreviver, se sentir dono e proprietário da natureza: “Desci um pouco pelo lado desse vale magnífico, inspecionando-o com um prazer secreto (embora misturado a pensamentos aflitivos), ao imaginar que tudo aquilo era meu, que era rei e senhor incontestável daquela terra, com direito de posse, e, se conseguisse legitimar a propriedade, poderia transmiti-la por herança, do mesmo modo que qualquer lorde uma herdade inglesa”.

2) A essa materialidade toda (que está na base do romance realista orientado para a verossimilhança, do qual Defoe é o pai fundador) vem se chocar um aspecto oposto, porém complementar, uma aura de insubstancialidade, de fantasmagoria, pois é o medo que move Robinson, medo do que é invisível (animais selvagens, seres humanos selvagens, corsários), do que é remoto, do que é improvável, e por isso sua engenhosidade e todas as profissões que recapitula são para a proteção, para a salvaguarda, orientadas pelo medo tanto quanto pelo fator utilitário… Além disso, temos os repetidos “exames de consciência” diante do Senhor e da Providência Divina, que mostram como realmente o homem é um animal simbólico. A condenação do passado ímpio, o arrependimento, o estudo da bíblia, o tipo de vida “regrada” e moral que Robinson se propõe é um feito simbólico tanto quanto material. Basta lembrar de como ele acha impossível andar nu fora da sua habitação, mesmo com o calor que faz e o tipo de vida que leva, e após tantos anos sozinho.

E vejam como Robinson trapaceia com a providência:“Mencionei antes que tinha grande desejo de conhecer toda a ilha, e que segui enseada acima até onde construí o meu caramanchão e onde havia uma passagem para o mar do outro lado da ilha. Resolvi, portanto, atravessá-la e ir até a praia daquele lado… Depois de passar o vale onde ficava o meu caramanchão, avistei o mar, a oeste, e como o dia estava muito claro, enxerguei terra nitidamente ao longe, mas se era uma ilha ou continente, não consegui identificar; era, porém, muito elevada e estendia-se a grande distância… o meu palpite era de que não podia estar a menos de 48 ou 64 milhas. Não sabia dizer que parte do mundo era aquela, a não ser que devia ser parte da América, e, como concluí por todas as minhas observações, devia estar próxima do domínio espanhol, talvez habitada por selvagens, onde, se eu lá tivesse ido parar, estaria em pior condição do que me encontrava agora; conformei-me, portanto, com os desígnios da Providência Divina, passando a admitir e acreditar que fazia o que era melhor”. Nem por isso, ele vai deixar de investir anos na confecção de barcos, mesmo “conformando-se” com tais desígnios. E não sendo bem sucedido com um barco mais elaborado que o levaria a alto-mar, ele confecciona um barco que lhe permite dar a volta à sua própria ilha…

Ainda no quesito “construção de barco” há um trecho sensacionalmente revelador: comentando a construção do seu primeiro barco (que se mostrou impossível de transportar até o mar), ele diz: “Trabalhei nesse bote tão ingenuamente como nenhum homem minimamente ajuizado teria feito. O projetar agradou-me tanto, sem que eu tivesse idéia se seria capaz de realizá-lo; não que a dificuldade de lançar a canoa no mar não me tenha passado pela cabeça, mas suspendi as minhas próprias indagações por causa desta estúpida resposta que dei a mim mesmo: Vamos primeiro fazer a canoa, e garanto que, de um modo ou de outro, darei um jeito de prosseguir com isso, quando ela estiver pronta.

Foi o método mais absurdo de se fazer algo, mas a ânsia da minha fantasia prevaleceu, e segui com o trabalho. Derrubei um cedro, e duvido muito de que Salomão tenha tido um igual para a construção de seu templo em Jerusalém… Não foi sem um infinito esforço que derrubei essa árvore; levei vinte dias cortando sua base… mais quatorze retirando galhos e ramos e a imensa e volumosa copa… custou-me mais um mês para lhe dar forma e dimensão… mais três meses para escavar a parte de dentro do tronco… até conseguir uma bela piroga… Fiquei extremamente feliz ao terminar o trabalho… Podem estar certo de que me custou uma labuta fatigante; nada mais restava a não ser levá-lo para a água, e se tivesse conseguido, não tenho dúvida de que iniciaria a viagem mais louca e a mais improvável jamais empreendida”

Por esses dois pontos, o fazer material e o guiar por uma insubstancialidade que no entanto é uma realidade simbólica é que vemos como Robinson sempre aparece como figura complementar a outro fundador do romance como entendemos, Dom Quixote, tanto na visão de Marthe Robert (Origens do romance, romance das origens) quanto na de Ian Watt (Mitos do individualismo moderno). Quixote e Robinson têm em comum, inclusive, como resultado dos seus destinos, a aparência estúridia e carnavalesca. Veja-se a auto-descrição de Robinson: “…se um outro inglês tivesse encontrado o homem que eu era na ocasião, morreria de medo, ou morreria de tanto rir; pois eu mesmo às vezes parava para me olhar, e não podia deixar de rir ao me imaginar passeando por Yorkshire com aquelas roupas e aqueles objetos. Divirtam-se com a seguinte descrição da minha aparência: Eu usava um chapelão, alto e disforme, feito de pele de cabra, com uma aba pendente na parte de trás para me proteger do sol… vestia também um casaco curto de pele de cabra, com as fraldas chegando até o meio das coxas, e um par de calções abertos nos joelhos… não possuía meias ou sapatos, mas eu havia feito um par de coisas, que mal sei do que chamar, parecidas com coturnos… eu usava um cinturaão de couro cru de cabras… em vez de espada e adaga, pendiam um serrote e uma machadinha. Eu tinha outro cinturão… que ia pendurado no ombro… Certa vez eu deixara a barba crescer até chegar ao cumprimento de quase vinte centímetros… agora eu a cortava rente, exceto o que crescia acima do lábio superior, que eu aparara e transformara em um comprido bigode maometano… não diria que o bigode era comprido o bastante para nele pendurar o meu chapéu, mas era monstruosamente longo e espesso, e alguém como um inglês morreria de medo ao vê-lo.”robinson_crusoe

3) Também é um capítulo à parte o texto enquanto performance de um narrador. Do aspecto material (a necessidade de economizar tinta, e por isso ter que se limitar aos aspectos mais relevantes, e escolher é narrar de fato) ao aspecto insubstancial e simbólico (criar suspense com certas antecipações, exortar moralmente, deter-se nos aspectos interessantes e surpreendentes), tudo configura uma consciência narrativa muito presente, uma teoria dentro da prática.

4) E como o romance é legível, como não cria dificuldades para qualquer leitor moderno medianamente informado.

5) Quanto a série “Crusoe”, que lástima, que ilha cenográfica, que luxo de cenário improvável para um náufrago. Que bobagem moderninha.

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record

01.09.09

“Mas a minha vida tomaria outro rumo, e talvez não seja inoportuno, para os que vão ler esta história, fazer uma simples observação, qual seja: quão frequentemente, no curso de nossas vidas, o mal que mais procuramos evitar, e o mais terrível de todos que poderiam se abater sobre nós, é repetidamente a única saída ou porta por meio da qual conseguimos emerigir da aflição em que estivemos mergulhados”.

ROBINSON CRUSOE tem todo aquele miolo (dos trabalhos e dos dias, ou seja, todo o esforço empreendedor de Robinson para ter lar, sustento e proteção na ilha) que pode desanimar o leitor que deseja aventura e ações (e que foi, entretanto, o aspecto que mais me chamou a atenção nessa releitura), e fazer com que ele desista do livro, só que sua etapa final, após o surgimento de Sexta-Feira é notavelmente movimentada e folhetinesca: começa com a famosíssima descoberta de uma pegada solitária, que infunde terrores em Robinson, de que sua ilha é menos deserta do que pensava. Ele descobre então que vários locais da ilha são usados para cerimônias de canibalismo. Após examinar os vestígios que os canibais deixam (eles vêm em canoas daquela porção de terra que nosso heroi supõe ser um continente, domínio dos espanhóis), acomete-o uma fúria homicida, querendo na proxima vez dar cabo de todos aqueles que praticam tais horrores. Mas o exame de consciência que se segue, de que ele não pode se arrogar um juiz, é todo muito interessante, principalmente pelo contraditório movimento da mente de Crusoe, debatendo-se com a “Providência Divina, em sua grande ordenação do mundo”: “que autoridade ou direito tinha eu para fazer as vezes de juiz e carrasco desses homens, tachando-os de criminosos?…Quanto essas pessoas me ofenderam, e que direito tinha eu de me envolver em suas promísculas disputas sangrentas?… portanto não se justificaria eu atacá-los. Isso apenas legitimaria a conduta dos espanhóis, em todas as atrocidades que cometeram na América, onde aniquilaram milhões dessas pessoas, as quais, mesmo sendo idólatras e selvagens, com vários rituais sangrentos e bárbaros em seus costumes, como o sacrifício de corpos humanos a seus ídolos, ainda assim, em relação aos espanhóis, eram completamente inocentes; e esse extermínio é comentado com enorme repulsa e abominação pelos próprios espanhóis de hoje em dia e por todas as demais nações cristãs da Europa, tido como uma mera carnificina, um desumano e sanguinário ato de crueldade, injustificável perante Deus ou o homem; de tal modo que o simples nome de um espanhol é presumido como medonho e terrível para todas as pessoas de humanidade ou de piedade cristã.”

A pegada e as descobertas subsequentes fazem com que ele viva em apreensão, veja-se por exemplo: “durante dois anos depois do ocorrido, creio que não disparei a espingarda uma só vez, apesar de nunca sair com ela”, com medo de fazer barulho e chamar atenção sobre sua presença na ilha. Essa obsessão com a possibilidade de ser capturado e ser canibalizado, se reflete até no seu trabalho: “creio firmemente que, se não tivesse havido a intervenção daqueles fatos, ou seja, o temor e o pavor aos selvagens, eu teria empreendido essa tarefa, e talvez a tivesse levado a cabo, pois raramente desistia de uma coisa sem tê-la exectuado, desde que estivesse suficientemente clara em minha cabeça para dar-lhe inicio.” Em outro trecho: “Minha pertrubação mental, durante esse intervalo de quinze ou dezesseis meses, era muito grande; dormia intranquilo, tinha sempre sonhos medonhos e costumava acordar no meio da noite, sobressaltado”.

Um outro navio encalha perto da ilha, mas da tripulação nenhum sinal (salvou-se indo para o possível continente em botes? pereceu? Crusoe vasculha o navio e só encontra cadáveres e um cachorro, e depois o corpo de um grumete vem dar à praia). Fantasiando esses náufragos, ele fica cada vez mais resolvido a aventurar-se naquelas terras distantes, não obstante os perigos inevitáveis.: “a minha malfadada mente, que sempre me deixava claro que nasci para desgraçar o meu corpo, passou esses dois anos inteiros repleta de projetose tramando um modo, se possível, de me tirar daquela ilha (…) sou um bom exemplo para aqueles que sofrem de um mal característico dos homens, ormeio do qual se dão quase todas as suas desgraças; eu me refiro àqueles que não se satisfazem com o lugar em que Deus e a natureza os colocaram; não refletir sobre a minha situação inicial e os excelentes conselhos do meu pai, e opor-me a isso foi, por assim dizer, o meu pecado original” (quer dizer,o pecado original do empreendedorismo burguês).

Robinson tem um sonho premonitário, no qual salva um selvagem dos rituais canibalescos,este lhe é grato eternamente, tornando-se seu criado fiel e um companheiro na solidão da ilha (depois ele multiplica, na sua fantasia, o número de selvagens que lhe devem a vida e lhe prestam vassalagem). E o sonho se concretiza: ele salva Sexta-Feira, o qual, após 20 e tantos anos na ilha se torna sua primeira companhia humana, “sujeitomuito vistoso, membros fortes, alto, bem-proporcionado, e, segundo avaliei, com cerca de 26 anos [Robinson já é um cinquentão a essa altura] de idade. Tinha a fisionomia bastante agradável e não parecia feroz ou rude, apesar de o rosto ter uma aparência viril, mesmo assim apresentava toda a doçura e suavidade de um europeu [ops], principalmente quando sorria… e os olhos reluzentes de grande vivacidade e inteligência. A cor da pele não era exatamente preta, mas castanho-amarelada, porém sem o feio e desagradável tom amarelado do bronze, como a dos nativos do Brasil e da Virgínia e outros da América; mas de uma especie reluzente de um oliva pardacento, que possuía algo de agradável, porem não muito fácil de se descrever.”

Os colóquios sobre Deus e a salvação cristã entre ambos estao entre os melhores momentos do livro (“com suas sérias indagações e questinamentos, tornou-me um conhecedor mais profundo das Escrituras do que teria sido por minha simples leitura particular”), só que em termos de folhetim o que mais interessa é que Sexta-Feira revela que os náufragos daquele outro navio (em número de 16) estão vivendo com o seu povo, o que torna Crusoe ainda mais determinado a se aventurar no continente. Contudo, antes que isso se efetive, ele tem a oportunidade de salvar um dos espanhóis náufragos, que é trazido à ilha para ser devorado. Há uma escaramuça, Robinson e Sexta-Feira acabam libertando não só o europeu como também o pai do comapnheiro de Crusoe, que também fora capturado: “Minha ilha agora estava povoada. Eu me via repleto de súditos e frequentemente fazia esta feliz reflexão: como eu era parecido com um rei. Antes de mais nada, toda a terra era de minha única propriedade, portanto tinha o indiscutível direito de autoridade soberana. Em segundo lugar, a população era totalmente subjugada: eu era senhor e legislador absoluto; todos deviam a vida a mim e estaam dispostos a abrir mão dela em meu benefício, se fosse necessário. Igualmente notavel era o fato de eu ter três súditos de três religiões diferentes. Meu criado Sexta-Feira era protestante, seu pai era pagão e canibal, e o espanhol, papista; contudo eu permitia a liberdade de pensamento em meus domínios.” Não preciso fazer nenhum comentário sobre esta incrível passagem.

Robinson então resolve trazer os outros espanhóis para sua ilha, preparando antes provisões suficientes para não haver penúria ou fome. Manda o espanhol e o pai de Sexta-Feira levar uma proposta: se eles estiverem dispostos a obedecê-lo, ele os proverá e assim construirão um navio e todos ficarão livres, desde que o levem não para as inquisitorias terras espanholas e sim para nações menos ameaçadoras para um protestante.

Na ausência dos dois, surge um inesperado novo navio…

iluminurascrusoe3

02.09,09

“tudo o que acontecera parecia ser uma sucessão de milagres…acontecimentos assim ram provas de que havia a mão secreta da Providência Diina governando o mundo…”

“Que ninguém despreze as secretas indicações e os avisos de perigo que às vezes recebemos, imaginano que não haja possibilidade de serem verdadeiros. Acredito que poucos observadores possam negar que tais indicações e avisos nos sejam dados; não podemos duvidar de que são, certamente, revelações de um mundo invisível, uma inegável conversa de espíritos e se sua intenção parece ser a de nos alertar de um perigo, por que não supor que se trata de agentes amistosos, sejam eles supremos, inferiores ou subordinados? Isso não importa, já que pretendem o nosso bem”.

Resta saber, a respeito de um trecho como o citado acima, se essa preocupação dos “agentes amistosos” se estende á humanidade em geral ou apenas ao empreendedor inglês.

Na reta final, Robinson deixa de lado os espanhóis e o pai de Sexta-Feira e após salvar o capitão do navio inglês que apareceu na ilha (páginas muito movimentadas), deixa um grupo de amotinados na ilha (após lhes explicar os mecanismos de sobrevivência que pôs a funcionar durante 28 anos) e parte com Sexta-Feira.

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Devo dizer que em todas essas páginas senti um tom tão esquisito que beirava a auto-paródia, embora não seja o caso, um tom que lembra Cervantes ao mostrar os ridículos do seu personagem, ou das comédias de Shakespeare. A pose de Robinson de “governador da ilha” (“após algum tempo, apareci, vestido coma minha roupa nova e sendo chamado novamente de governador“), Sua Excelência, sem contar generalíssimo movimentando suas tropas contra os amotinados, é mais para ser acompanhada de forma jocosa e cômica do que a sério. Ou será que foi o tempo que trouxe esse tom ao relato?: “avancei imediatamente com todo o meu exército, agora composto de oito homens: eu mesmo, o generalíssimo, Sexta-Feira, o meu lugar-tenente, o capitão e seus dois companheiros e os três prisioneiros de guerra, a quem foram confiadas armas”.

A despedida da ilha (ele voltará anos depois para reivindicá-la como propriedade sua e organizar seu povoamento): “Ao deixar a ilha, levei no navio, como lembrança, o grande chapéu de cabra que fizera, o guarda-sol e o papagaio; também não me esqueci do dinheiro mencionado anteriormente, que, por permanecer longo tempo comigo sem qualquer utilidade, ficara enferrujado ou embaçado…. E assim, deixei a ilha no dia 19 de dezembro, como vim a saber pelo registro do navio, do ano de 1686, depois de ter estado nela 28 anos, dois meses e 19 dias… Ao fim de uma longa viagem de navio, cheguei à Inglaterra nodia 11 de junho do ano de 1687, depois de 325 anos ausente”.

O resto do relato, pelo menos nessa edição da Bestbolso a qual venho comentando (há discrepãncias em todas as edições consultadas) é muito antipático, porém revelador: Robinson se preocupa com sua situação financeira, vai a Lisboa para saber em que pé andam seus bens e sua propriedade no Brasil, e entramos em pormenores delirantes a respeito de todas essas questões comerciais. O traço mais interessante dessas negociações é o desejo perene de voltar a se estabelecer no Brasil freado por escrúpulos religiosos, pela má vontade de viver (e principalmente morrer como papista): “Mas outros escrúpulos, os de motivação religiosa, se colocavam em meu caminho, pois alimentava dúvidas sobre a religião católica romana,mesmo quando estava no exterior e, principalmente, na minha temporada de solidão; portanto, sabia que não adiantaria voltar ao Brasil, muito menos me estabelecer por lá, a não ser que resolvesse abraçar sem qualquer reserva a religião católica romana; ou, por outro lado, resolvesse me sacrificar pelos meus princípios, tornar-me um mártir religioso e morrer na Inquisição; por isso decidi ficar em casa…”

O que há exatamente de antipático nessa parte final do relato? O que me incomoda é a falta de sabedoria de Robinson. Ele,que viveu tanto tempo solitário e extraiu do seu trabalho a sua sobrevivência, fica muito à vontade como “grande senhor”, não ha nunca um momento de dúvida, de auto-questionamento. A viagem que ele relata, por terra (ficou cismado com as viagens marítimas, que ele só vai retomar anos depois, com um sobrinho), de Lisboa até Calais (onde atravessaria o canal da Mancha) esfumaça os 28 anos de experiência da solidão, do despojamento e do desnudamento psicológico (isso sou eu que estou afirmando, eu, indivíduo do século XXI, que pouco tenho a ver com essa mentalidade pragmática e utilitarista do século XVII, embora eu tenha a suspeita de que Robinson seria muito bem compreendido em nossa época de consumo e percepção descartável):“Como estava predisposto contra uma viagem por mar, exceto entre Calais e Dover, decidi fazer toda a viagem por terra, já que seria muito mais agradável, pois não tinha pressa e não me importava com o custo… no todo, éramos seis, e mais cincocriados… consegui um marinheiro inglês para vijar como meu criado, além de Sexta-Feira,que era inexperiente demais para pder suprir o posto de um criado em uma viagem por terra. Dessa maneira, parti de Lisboa e, como nosso grupo estava muito bem preparado e guarnecido, formávamos um pequeno exército, do qual fizeram a honra de chamar de capitão, já que era o mais velho e tinha dois criados além de ter motivado aquela viagem”. Nem quero entrar em detalhes sobre a grotesca brincadeira de um apalhaçado Sexta-Feira, para divertir os europeus, atormentando e matando um urso. O que fica evidente no final de ROBINSON CRUSOE não é mais a engenhosidade humana, suas misérias e grandezas, físicas e simbólicas, numa situação-limite, e sim o perfil do homem do imperialismo inglês movimentando-se pelo mundo com toda sua empáfia e mentalidade utilitarista e predatória. Isso não diminui em nada o escopo do romance de Defoe, uma das releituras mais proveitosas e interessantes que já fiz, mas que dá o que pensar, isso dá.

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30/11/2011

A difícil decisão: ser Jonathan Swift ou Marina Silva (entre a veia satírica e a “seriedade” da mensagem militante)

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  A FESTA HUMANA E O SOFRIMENTO DOS ANIMAIS        

    Regina Rheda, um dos grandes talentos da nossa ficção atual, já há alguns anos mora nos EUA e milita pelos direitos animais e em prol do veganismo (o qual vê os animais como escravos explorados pelo ser humano). Após quatro irresistíveis livros, em Humana Festa, seu terceiro romance, resolveu expor suas idéias a respeito. O que será que predominou: o talento narrativo ou a pregação?

    O humor e a sátira são a especialidade de Rheda e aqui ela não poupa ninguém, nem veganos nem sectários da “cultura da carne” (uma das várias expressões ridículas que aparecem na história, tais como “paradigma hierárquico especista”, para não falar do uso de termos totalmente inadequados como luta abolicionista, escravo e campo de concentração em se tratando de animais).

    Há duas linhas narrativas. Uma delas envolvendo as americanas Megan e Sybil, ambas militantes veganas, que têm problemas com seus homens: o marido de Sybil, um chef, sabota sua dieta com produtos animais; o namorado de Megan, o brasileiro Diogo, um neófito nos arcanos da alimentação não-carnívora, titubeia a princípio, mas acaba aderindo com entusiasmo, o triste é que ele pertence a uma família de latifundiários que vive da exploração pecuária. A outra envolve dona Orquídea, colona de uma das fazendas da família Bezerra Leitão, da qual Diogo é herdeiro, uma matuta que também não aprecia o culto da carne e que sente desgosto em ver os porcos chafurdando, presos, no chiqueiro: “Para ela, a idéia de que animais com olhos de gente gostassem de viver metidos em excrementos carecia de tanto bom senso quanto a de que seres humanos gostassem de comer animais imundos como porcos de chiqueiro. Mas que sabia dona Orquídea? Não sabia coisa nenhuma, não mandava nem em si mesma. Os homens e as mulheres da fazenda, empregados e patrões, gostavam tanto dos pratos feitos com animais imersos em merda que chegavam até a celebrar o nascimento do próprio Menino Jesus com leitoa a pururuca, farofa de lingüiça e presunto tender…”

    As duas linhas se encontram quando Megan visita a fazenda dos pais de Diogo e dona Orquídea é contratada para cozinhar especialmente para ela, acarretando um disse-me-disse entre as empregadas da casa, numa guerra de picuinhas que resulta em greve, no escancaramento das tensões sociais do latifúndio e até numa inesperada conscientização política de dona Orquídea junto a sindicalistas, sem-terras e ambientalistas.

    A caracterização da família Bezerra Leitão é um primor, mesmo que irritem aqui e ali as liçõezinhas de moral embutidas no livro. Com o desenvolvimento da história, porém, tudo vai ficando mais integrado, embora eu considere sua conclusão precipitada (com relação aos eventos brasileiros) e mal ajambrada ao concentrar o clímax nos eventos americanos.

    O que não dá para entender mesmo é como uma defensora de uma boa causa dessas (afinal, o sofrimento dos animais nos rodeia, basta ver os cavalos explorados na nossa região, um dos maiores escândalos sociais que o cidadão é obrigado a suportar, sem falar no triste destino das pombas, transformadas em mendigas urbanas pela humanidade, e ainda vilipendiadas e perseguidas) se deixa levar pela frivolidade e escolhe porta-vozes personagens tão hilárias e folclóricas quanto Megan ou Sybil (elas pertencem àquela categoria de chatos que utilizam sua ideologia para aporrinhar a vida alheia, porque não só querem que as coisas mudem, mas que a linguagem seja antisséptica e purificada também). Na relação entre elas entra, todavia, um dos charmes perversos (e recorrentes) do universo de Regina Rheda: para além da sua orientação ideológica bom-mocista, há todo um mundo de intriguinhas e perfídias femininas, competição, rancor, que também se entremostra na relação patroa-empregada (Dona Marcela e Vanessa, parentes, de Diogo, e dona Orquídea), enquanto elas tecem críticas cruéis ao universo machista e patriarcal. O roto falando do esfarrapado. E os animais pagando o pato.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de junho de 2009, aqui ligeiramente modificada)

 LEITURA DIA A DIA DE “HUMANA FESTA”

Primeiro dia de leitura (09.06.09)  

   Gostei muito dos quatro livros anteriores de Regina Rheda. São duas coletâneas de contos, Arca sem Noé e Amor sem-vergonha e dois romances, Pau-de-arara: classe turística (ainda o meu favorito) e Livro que vende (o mais complexo literariamente). Esta semana me ocuparei do seu terceiro romance, Humana festa. De saída, coloco o problema: ao longo dos últimos anos, Rheda aprofundou sua militância “vegana”, indo além do vegetarianismo: é o ativismo em defesa dos direitos dos animais (é preciso dizer que os animais na verdade não têm direitos? -isso é uma concepção antropomórfica; o máximo que podemos desejar, e mesmo isso é muito pouco factível, é que o ser humano, tendo poder sobre os animais, os tratem “dignamente” –eis outro termo antropocêntrico; agora, como esperar isso, se aqueles que detêm o poder e fazem as regras, que somos nós, vivem entre si tão caotica e indignamente?).

      O que eu queria (não sei se será possível) é abordar Humana festa de um ponto de vista estritamente literário.  Tomo como precedente, por exemplo, um dos livros que mais amo, Mulheres apaixonadas, de D.H. Lawrence: há toda uma parte insuportável em que um dos protagonistas, Rupert, faz preleções “vitalistas” e emancipatórias que irritam qualquer um (mas também o que esperar daquela paisagem demoníaca em que as minas de carvão dominam tudo e fuliginizam até as almas?). Mesmo asssim, ele não consegue atrapalhar a imensa beleza do romance. Há também o fato de que Tolstoi e Doris Lessing, as duas únicas autoridades “morais”, por assim dizer, que eu reconheceria na minha vida de leitor, também às vezes serem chegados a uma doutrinação, a uma reeducação existencial.

    Tudo somado, o que encontrei nos três primeiros capítulos e 103 páginas do romance de Regina Rheda que li entre ontem e hoje?

    No primeiro capítulo, conhecemos o casal Megan- Diogo; ela, americana e vegana radical, que está fazendo uma tese comparando aspectos veganos na poesia de Shelley (que, aliás, forneceu o título do romance) e na prosa de Coetzee, que na minha opinião escreveu o mais impressionante romance da atualidade, Desonra; ele, brasileiro, filho de fazendeiros que exploram animais, mas que está se convertendo à ideologia da namorada, enquanto estuda problemas ambientalistas numa universidade da Flórida. Quando começa a história, ele a está levando a uma pequena cirurgia para extirpar um tumor indicativo de uma forma menos agressiva de câncer de pele (e no trecho em que uma especialista dá o diagnóstico, Rheda já mostra suas garras inconfundíveis: “Se você tiver de ter um câncer, é o melhor câncer para você ter”).

    Se eu não conhecesse a obra de Regina Rheda, mesmo com a frase citada, teria desistido do livro nesse primeiro capítulo. Não posso imaginar nenhuma pessoa mais insuportável e pentelha do que Megan, e só posso crer que a autora esteja tirando sarro de posturas como a dela. Se estiver endossando (e essa dúvida me corroeu durante toda a leitura até agora), creio que só posso dar um sorriso amarelo diante de uma tipa que anota todos os comentários “especistas” (ou seja, que denigrem os animais, ou que comparem  comportamentos humanos a supostas características animais, como no caso dos xingamentos de trânsito). Sendo uma escritora irônica por natureza, ela sabe que tais comentários nada têm a ver com os animais, é a velha e básica linguagem figurada, que usamos (e que eu amo). Só faltava o politicamente correto chegar aí. Aliás, a linguagem do politicamente correto é apenas um pretexto para o velho patrulhamento ideológico: a linguagem sempre será toldada pelas nossas referências, nossos limites, e portanto, nossos preconceitos, para isso existem a paródia, a ironia, a sátira, a diatribe. Megan é como os comunistas e esquerdistas obtusos, os evangélicos fundamentalistas e os eco-chatos que já conheci na vida. Há sempre uma ideologia que serve como uma luva para gente mal resolvida e neurótica aporrinhar o próximo. Os animais têm direitos ?, eu também tenho, de não ser chateado. O capítulo tem até um episódio constrangedor no seu mau-gosto, quando Diogo não resiste a comer galinha frita, contrariando todas as promessas veganas que fez à ridícula amada.

     Felizmente, não parei. No segundo capítulo já entramos nos esplendores do mundo-Rheda. Há um comentário na 4a. capa (justamente sobre Pau-de-arara: classe turística) em que  Bernardo Ajzenberg diz o seguinte: “Bem-humorada e despretensiosa, a linguagem de Rheda foge de clichês e carrega em descrições saborosas”;  só concordo com a fuga de clichês, não acho Rheda nada despretensiosa e muito menos apenas saborosa. Para mim, ela é como Anne Tyler, uma escritora em que uma aparência de bonomia e suavidade oculta uma visão ácida da vida e das pessoas. E é esse ácido que permeia a visita do casal Diogo-Megan à casa da mãe desta, Sybil, tão radical quanto a filha (e que mora com um chef, Bob, que impera na cozinha, enquanto Sybil e seus 12 gatos pretos, com nomes musicais, que aliás dão nome aos capítulos do romance, imperam no resto da casa). O veneno das relações humanas é mostrado sem dó nem piedade: a mãe sempre distante, a filha subserviente, que até ignora o namorado, que se ressente com a mãe; o ciúme que a filha tem da mãe, que lhe rouba os namorados… enfim, as unhas estão afiadas e toda a narrativa enfatiza esses aspectos dúbios e deletérios das relações humanas mínimas. Diante disso, não levei mais a sério a ideologia das duas “preciosas ridículas” do veganismo, Sybil (esta já imagino como alguma atriz histrionicamente folclórica de hollywood, quase uma Kim Cattrall) e Megan, com sua risível mania de dar um sentido útil  a todos os atos (se mãe e filha vão conversar a sós, têm de fazer alongamento juntas), O QUE É SE DAR MUITA IMPORTÂNCIA NO CONJUNTO DAS COISAS. Quase que dá para querer ser caótico, machista, mal educado, troglodita, patriarcal e retrógrado diante de um cotidiano desses. Volto a dizer:  não vejo como é possível que Rheda se identifique com ela ou que não as esteja caricaturando cruelmente.

      Porém, o perigo não está nelas. Está em Diogo, o personagem mais identificado com o público em geral e que está se rendendo aos arcanos do veganismo. É por meio dele que a pregação se torna sub-reptícia e malsã. Felizmente, como falei, há a observação perfeita das relações humanas nada veganas, e o próprio Diogo é explorado num campo que Rheda domina perfeitamente: o das manifestações fisiológicas do nosso organismo.  É aqui que reconhecemos uma perita nos segredos do veneno retórico.

     Ainda não consegui julgar com muita exatidão o terceiro capítulo (vamos ver o conjunto do romance). Representa uma guinada para o mundo rural brasileiro e nele Rheda mostra que está dominando todos os recursos do seu ofício, escrevendo bem para caramba. Ela mostra uma senhora rural, dona Orquídea, que tem horror à matança dos bichos, mas que tem de preparar comida para o filho, para os vaqueiros, para os patrões, enfim, um inferno de tripas, cortes, degolas, depenações, etc. O filho tem uma paixonite pela sobrinha do fazendeiro (pai de Diogo), Vanessa, que aparece aqui e ali, come da comida dos pobres (e, bulímica, depois vomita tudo às escondidas), e que com a desfaçatez de quem manda, às vezes alivia a vida dos bichos que cercam a casa dos colonos, mais talvez por capricho do que por convicção. Tudo é muito bem caracterizado, muito vívido, inclusive pelo contraste com as cenas anteriores, só me incomoda o seguinte: como falei, Rheda está senhora do seu ofício, para o bem e para o mal. Ela aproveita cada parágrafo, cada observação, cada pensamento para fazer sua doutrinação sobre os males que os humanos inflingem aos bichos, fica na cara que tudo serve a esse propósito. Ela até carrega nas tintas: o filho de Dona Orquídea está no córrego tendo um devaneio sexual com Vanessa e aí aparece a porca Mortandela e ele, interrompido (e com medo de ser apanhado em flagrante e ridicularizado, de pau duro com uma porca por perto) lhe dá um chute que a deixa manca. Precisa? Mais sutileza, dona Rheda.

     Mas ao longo desta semana veremos se vence o talento narrativo ou a doutrinação…

Segundo dia de leitura (10.06.09)

    Ontem eu me perguntava se o talento narrativo seria páreo para enfrentar a pregação e a doutrinação em Humana festa, de Regina Rheda, escritora que tenho acompanhado desde o seu primeiro e inspirado livro, a coletânea Arca sem Noé (os contos todos se passavam no mítico e babélico edifício Copan de São Paulo, e a autora ganhou o Jabuti na categoria), em 94 ou 95, e que desde então considero um dos grandes nomes contemporâneos da ficção brasileira.

    Pois tenho a alegria de informar que sim, o talento falou mais alto. Pelo menos é o que penso após a leitura de seis capítulos e 211 páginas, em especial o sexto capítulo, “Lá”, onde encontramos a autora muito à vontade e em plena forma narrativa. Mas antes, é preciso passar pelos espinhos: os problemáticos capítulos 4 (“Fá”) e 5 (“Sol”).

   O quarto capítulo foca a briga/separação entre Sybil e o marido Bob porque ela descobre (por intermédio da filha, que soube por meio do namorado brasileiro) que o marido, que é quem preparava a comida, sabotava sua dieta vegana com produtos animais camuflados. A situação é engraçada, os diálogos são ótimos, Bob é um personagem maravilhoso, e cheguei à conclusão de que realmente Rheda só pode ter criado Sybil com seu instinto cômico e caricatural (uma de suas falas me fez rir muito: “Vivo dizendo isso para ver se você entende por que o aspecto central da luta abolicionista tem de ser a ênfase na dieta!”)  .

       Minha implicância com o capítulo vem de dois fatores:

a) no fundo, Bob é uma caricatura do homem, sempre coçando o saco, varzeano, tosco e simplório nas suas expectativas de resolver os problemas sem ter de esquentar muito a cabeça. Ele é uma realização dentro do que Harold Bloom chama, muito sabiamente, de  “escola do ressentimento” por parte de escritoras feministas, escritores gays, escritores de raças oprimidas, etc. Uma das escritoras-pontas de lança da “escola do ressentimento”, na acepção de Bloom, é justamente Alice Walker (A cor púrpura) que fornece uma das epígrafes de Humana festa;

b) a caracterização da ex-companheira de Sybil, Karen, que está cuidando de um santuário de elefantas maltratadas. Sou muito implicante ou será que esse santuário transformou as elefantas num grupo de lésbicas? A homologia entre um grupo sapatal e as paquidérmicas resgatadas da opressão humana (ou do homem?) é tão gritante, que me pergunto: será que essa é a visão de Regina Rheda dos militantes das boas causas? Todos que ela apresenta são grotescos, hipertrofiadamente caricatos (aliás, um dos muitos pontos problemáticos desse livro é que ele nos afasta dos personagens, ao invés de aproximarmos dele, não sei se essa era a intenção da autora, todos são quase bufões; até os animais são antipáticos, veja-se os doze gatos de Sybil: tenho cinco gatos e nunca vi uma descrição tão irritante de indolência e esnobação, parecem nobres do ancien régime, ninguém sente a menor simpatia ou empatia por ou com eles, e aliás ninguém seria atraído por nenhuma boa causa através do livro).

trecho: “Observou as elefantas. Pareciam mais calmas. Quem sabe a matriarca Malásia abraçasse Mirna com a tromba. Karen já vira essa prova de amizade uma vez, no monitor do escritório, para o qual uma câmera instalada perto do lago transmitia imagens durante o dia. Era possível que o gesto de carinho se repetisse com frequência.”

     O quinto capítulo é simplesmente um caso de enxerto. Se eu estivesse lendo Humana festa antes de ser publicado, diria à autora que o capítulo está sobrando, apesar de ser mais uma volta do parafuso na crueldade e desfaçatez humanas (ou do homem?). Exímia contista, foi isso que Rheda escreveu: um conto, destacado do corpo principal da trama. O dr. Stanley, que operou o tumor  “inofensivo” de Megan se afeiçoa a um pássaro (um corvo? uma gralha?) que faz repentinas aparições no seu campo de visão. Caçador que é, resolve o problema de manter o pássaro junto a si matando-o e mandando-o empalhar.

     Bem, após passar por Cila e Caribde, pela caricatura malévola e pelo texto enxertado, chegamos ao que realmente interessa: o ótimo capítulo 6, um alentado exercício narrativo que vai da pág. 139 à pág. 211. O capítulo começa com dona Orquídea, que não gosta de comer carne, ou seja, é uma vegana naîve, indo trabalhar uma semana na casa grande dos Bezerra Leitão para preparar comida vegana para Megan, a namorada em visita aos donos da casa. Já de cara há a maravilhosa situação de picuinha das outras encarregadas da cozinha, que ficam despeitadas, numa “rebelião de picuinhas”,  inclusive porque dona Orquídea vai receber o dobro delas: “O disse-que-disse chiava na fritura, jorrava da torneira”

      Depois se passa para um banquete, onde são apresentados todos os membros da família, seus visitantes (um padre, parentes de fora), com uma verve e uma simultaneidade que só me lembro de encontrar nos maiores filmes de Robert Altman (por exemplo, Cerimônia de casamento, uma das obras-primas do cinema americano). Ninguém escapa (esse efeito de conjunto em que todos se tornam caricatos não incomoda tanto quanto a distância que a autora nos impinge dos personagens quando são focalizados sozinhos ou em cenas mais íntimas). Entre as vinhetas mortíferas, há o primogênito que não serve para nada e que resolve escrever poemas: “Tiago não suportou o vexame de decepcionar os pais. Esfacelou-se. Ao se recompor, viu-se um homem de idéias.  Rabiscou poemas, poucos demais para formarem um livro. Consolidou-se poeta inédito”. Eis aí, senhoras e senhoras, o que Regina Rheda tem a oferecer para nós, leitores, seu talento para a pincelada assassina. E eu apenas escolhi um exemplo, embora a personagem que roube a cena aqui seja a mãe, dona Marcela, surpreendida por uma greve das mulheres da cozinha, capitaneadas pela até então insupeita dona Orquídea (outro momento maravilhoso, é quando Diogo traz os empregados para cantar o parabéns para você junto dos convidados, fazendo com que dona Marcela literalmente fique com cara de parabéns).

     Nossa solerte autora quase estraga seu inspirado capítulo porque, como já disse ontem, o perigo sempre esteve em Diogo, já que no primeiro capítulo ela no-lo apresentava como neófito da filosofia vegana, é claro que seria ele que faria o discurso “resumindo” os princípios que regem o livro (enquanto doutrinação, bem entendido). Instado, pressionado mesmo, pela família, a se manifestar sobre o assunto, ele resume as idéias pró-direitos dos animais para que nós, leitores comuns, fiquemos informados do básico. Não é um recurso ilegítimo, longe disso, só é irritante, principalmente quando lemos:  “Acho que a melhor forma de responder a questão das plantas é resumir a teoria dos direitos animais“, começa o nosso herói, expondo as idéias de Tom Regan (de que os animais são alguém, não coisas,são seres complexos) e de Gary Francione (não importa a complexidade dos animais, basta vê-los como seres sentientes, que sentem dor,medo, e por isso é necessária a luta abolicionista).

    Depois do banquete, há um tour-de-force em que diálogos diferentes são apresentados simultaneamente (dona Marcela e o marido comentando a atuação de Diogo, o filho preferido para assumir os negócios da fazenda, na história da greve das empregadas da cozinha; Diogo e Megan comentando o mesmo episódio sob outro prisma; um grupo reunido na venda do Norato, sem-terras, ambientalistas, sobre as modificações tecnológicas introduzidas pelo fazendeiro e que vão alijar os homens do campo dos seus empregos).

     A partir daí nos afastamos da casa-grande e vemos que dona Orquídea, pasmem, está participando da assembléia, assimilando que sua atitude da vida toda (não comer carne) tem uma aplicação política. Aliás, numa das viradas típicas de Rheda (basta ler Livro que vende) a ação já passa para outro nível, incluindo sabotagem das coisas da fazenda, soltando os porcos da construção onde estão sendo presos, e a nossa amiga já quer participar da ação radical. No meio de tudo, discussões políticas prementes e importantes são colocadas no texto, da maneira correta: como forma de expressão da verdade de cada personagem, e em debate, não como pregação absoluta.

      Um capítulo e tanto.

Terceiro dia (11.06.09)

    Humana festa continua crescendo no meu conceito. O sétimo capítulo (“Si”), bastante longo também, provou-se tão bom quanto o anterior, se não melhor, já que indica um aumento na intensidade da trama. Curiosamente, no capítulo 6, tinha lido “que o motor da história não é o vegetarianismo, nem o veganismo, nem o ambientalismo, nem o veadismo e nem o caralho a quatro, mas sim a luta de classes”, fala de Pé-de-Anjo, um dos personagens, que poderia muito bem ser tomada como mais uma das brincadeiras caricaturais da autora, embora seja (anacrônico que sou) o que eu penso da vida. E não é que “Si” confirma essa fala? Vanessa se revela: irritada com dona Orquídea, revela a representante da classe patronal que escondia sob um comportamento caprichosamente “paternalista” e sentimental: “Vanessa esbugalhou os olhos, arreganhou as narinas, espichou os lábios em um bico. Dona Orquídea levou um susto. Nunca tinha visto uma moça tão linda se enfear tanto, tão rápido”. A patroa improvisada obriga nossa heroína a capinar erva daninha para benefício de Megan, que quer ver a colona em “ação”. Esse momento de intimidade entre Megan e dona Orquídea, apesar das diferenças entre as duas, é o momento mais simpático da veganista no romance até agora, o momento em que Rheda a torna mais humana e próxima do leitor, e também é um dos melhores momentos de Humana festa porque aqui também dona Orquídea adquire uma humanidade mais premente (há termos ridículos e imprecisos, e que não servem para nada, no capítulo, como nos outros, como chamar os cavalos de “escravos” e a edifício dos porcos de “campo de concentração”, “cultura da carne”, porém o estilo da autora está tinindo: na chegada de Vanessa e Megan, dona Orquídea que tirava um cochilo roubado dos patrões e do filho após tantos anos “acordou com o atropelamento de um sonho por um carro”; outro exemplo da graciosidade brejeira do estilo mais adiante, quando Diogo recebe a notícia de que é o herdeiro dileto do pai: “petrificado, a notícia tentando aprender a voar na sua mente, ave dando voltas sem rumo”). A cena fica ainda mais enriquecida em contraste com outra que se desenvolve no capítulo, entre Diogo e o pai, que cavalgam pela fazenda. Pela primeira vez no livro, vemos a doutrinação vegana se descolando das palavras dos personagens como pregação e discurso para se incorporar na própria tessitura da narração, na paisagem, tal como (segundo eu já comentei) D. H. Lawrence fez em Mulheres apaixonadas (e em certa medida em O amante de Lady Chatterley). O único resvalo, a meu ver, é quando Diogo insere a questão das mulheres africanas que têm seus clitóris decepados, um enxerto inconveniente e besta num tecido narrativo mais poderoso em que a fazenda dos Bezerra Leitão se assemelha a uma “waste land”, algo demoníaco e sinistro: “O rio Perobinha do Campo já deixara de ser cristalino quando Digo, ainda moleque, nadava nele. A turvação de suas águas se devia ao constante pisoteio das boiadas de todos os fazendeiros da região. Mas Diogo conseguiu caracterizar o rio de sua infância como um processo da natureza, forjado na evolução e na paciência de milhões de anos. Agora, o que o estudante de Floresta enxergava pelo binóculo era uma doença na epiderme do planeta… o rio tornara-se um fluxo de lama, droga e dejeto.Sufocava sob a terra caída das margens esfaceladas e achatadas pelos cascos de bois. Era uma chaga escorrendo…”

    Infelizmente, Megan volta ao seu natural pentalhal (dona Orquídea e a família de Diogo gozam da incapacidade de pronunciar “ão” da americaninha, cujas terminações de palavras sempre redundam em “al”), numa discussão com o namorado, magistralmente entremeada com uma conversa dos pais dele, mas pelo menos agora Rheda tem um objetivo bem próprio do seu mundo ficcional, de detectar as pequenas crueldades e mistificações das suas personagens femininas: ela descobre que terá muito trabalho pela frente, se ficar com Diogo e tentar modificar o destino das fazendas dele, e resolve voltar para o ex-, River, numa vida mais fácil e confortável, onde tudo que a cerca a confirma em suas crenças, e ela não precisa enfrentar as anacrônicas e marxistas marchas da história, que dona Orquídea começou a compreender. Instalada na sua visão do (não riam, por favor)  “paradigma hierárquico especista”, ela não tem o menor pudor de dar um sumário pé na bunda no herdeiro brasileiro fazendeiro (os diálogos e o texto, aqui, são deliciosos).

    Gostei bastante de “Clave de fá”, o oitavo capítulo, simplesmente porque ele conseguiu (de forma diferente, mas com efeito similar) deixar bem nítida a diferença entre satirizar pessoas com a filosofia vegana (caso de Megan, Sybil, River, Karen) e mostrar os horrores a que os animais são submetidos (horrores que incluem a linguagem dos veganos). Volto a repetir: não consigo imaginar Rheda escrevendo o que dizem essas personagens e as levando a sério.  No capítulo em questão, Sybil  está se sentindo culpada por ter sido enganada (?!!) por Bob na alimentação, por ter sido negligente com a filha, e quer mudar para perto dela. River, o ex- de Megan quer lhe mostrar casas, e ao mesmo tempo fazer uma nova tentativa de seduzir a mãe da namorada. Veja-se que trecho delicioso; “O mais perto que ele conseguira chegar do segredo de Sybil fora Megan. Como se parecia com Sybil, a menina! Ou pelo menos era assim que River a enxergava. A filha, uma versão fresca da mãe. O fetiche em duplicata. Tesão dobrado. Será que, como a mãe, Megan também se descobriria homossexual, um belo dia? Ele se deleitava. Lésbicas, a suprema fantasia do macho humano heterossexual americano contemporâneo! Sybil e Megan lésbicas… e incestuosas! River dava corda aos sonhos, masturbava-se…”  Claro que no fundo há aquela crítica ao macho da “escola do ressentimento”, mas acho que mais no fundo ainda está o amor de Rheda pelas intrigas da vida comezinha, por essas ardilosidades que o ser humano, em sua várzea afetiva e sexual, arma para si e para os outros, e que ela desvelou tão bem em Amor sem-vergonha (e Megan vai chegar, vai apanhar a mãe e River no banho, mas não vou contar os pormenores para quem quiser ler o romance). O que quero enfatizar é que nesse mesmo capítulo, há uma pungente visita a um santuário de animais, em que a biografia de cada um nos é contada de uma forma que  não precisa de discurso ou pregação. Tudo fala por si, entremeado à dinâmica da trama que se desenvolve entre o trio. Fiquei emocionado com a pantera Wanderlust sem ter deixado de rir muito com os ardis de River com relação a Sybil e com as reações de Megan. É preciso um bruto talento para conseguir isso.

    (meu feriado foi bem aproveitado, portanto; amanhã termino)

Quarto e último dia (12.06.09)

    Confesso que achei muito morno o final de Humana festa. O último capítulo (“Semifusa”) não poderia ter sido mais mal escolhido e anti-climático. Mas vai ser pior este comentário final sobre o livro: vou desempenhar uma das tarefas mais antipáticas como leitor, isto é, botar a colher no melado alheio, e sugerir como as últimas 49 páginas poderiam ter sido mais bem resolvidas.

    Há um contra-senso lógico-narrativo, na minha opinião: Diogo testemunha tudo o que acontece na fazenda (dona Orquídea e asseclas libertam os porcos do seu “campo de concentração”, porém a ação é atrapalhada e mal alinhava, e onde deveria haver uma explosão de granada, há várias, e o que seria uma ação política afirmativa se torna uma bandalheira, explorada pelos patrões; de dona Orquídea e seu filho Zé Luis teme-se o pior destino…afinal, ela já não era figura muito grata no latifúndio dos Bezerra Leitão) e simplesmente… vai para a Flórida (ele participa então, com Megan cujo namoro com River foi retomado de uma bem-sucedida ação política vegana contra um clube de caça do qual participa até  o governador). Pode-se argumentar que ele foi atrás de Megan, só que é uma atitude muito solipsista, autista demais, e não me convence que, vendo o bicho pegar na fazenda da qual será o herdeiro, ele simplesmente parta tranquilamente e mal se interesse pelos acontecimentos (parece que não há jeito no Brasil e que é melhor se concentrar no mundinho vegano dos EUA, pelo menos mais bem organizado e no qual uma pessoa pode circular a vida inteira sem ser afrontada por contradições sociais… e lá se foi minha simpatia por Diogo). Por outro lado, a narrativa da ação dos veganos contra o clube de caça é engraçadinha, diverte (inclusive pelo estilo da autora, já tão exaltado aqui: a secretária do presidente do clube arruma-o para uma grande comemoração, criando espaço para uma “mesa desmontável, sobre a qual será exposto o apetitoso necrotério. Cobre a mesa com uma toalha branca. Em cada ponta, ergue um mausoléu de pratos empilhados e baldes de prata contendo talheres. Espalha os guardanapos, bandagens para as bocas sangrentas. Olha o relógio. Dez para as dez. Em dez minutos chegará o pelotão de comensais com apetite pontual e ventres tumulares), mas não é nada demais no seu clima de pastelão, e no entanto parece que a autora deu a ela uma importância tal que a fez ofuscar a ação política dos colonos brasileiros (fadada ao fracasso), a qual ela narra rápida e abruptamente, tão desinteressada quase quanto seu personagem Diogo. Só que essa ação política chinfrim foi preparada durante vários capítulos e é muito mais importante do que a outra, e deveria ser o clímax do romance. Quanto ao “ataque” ao clube de caça, a figura de Sarah Palin o torna pálido, arrepiante como é, com sua ideologia e seu triunfalismo americanos.

     A solução narrativa perfeita seria fazer com que Diogo partisse da fazenda, antes da ação de dona Orquídea e comparsas e narrar, simultaneamente, como fez em outros momentos, os dois ataques, um enriquecendo o outro pelo contraste e pela complementação de perspectivas. E o livro deveria terminar com as frases finais do antepenúltimo capítulo (“Clave de sol”): “Todos os porcos soltos da edificação foram capturados e presos outra vez. Com Mortandela e seu grupo de capados na mata ninguém teve tempo de se incomodar”. Dito isso, gostei bastante da carta de dona Marcela para Diogo, descrevendo o rumo das personagens brasileiras, numa ortografia capenga e muito brilho por parte da autora.

   E o que dizer então do conjunto formado por Humana festa, após uma leitura tão parcelar? Creio que Regina Rheda ousou, e ousou muito, temática e estilisticamente. O que diminui o escopo desse salto na sua carreira é que, a meu ver, ela parece ter procurado se alinhar a um tipo de ficção recente (e de bastante sucesso principalmente nos EUA) que Harold Bloom chama desdenhosamente de “escola do ressentimento”, só que numa outra visão, positiva, seria a desconstrução ou denúncia de paradigmas como a visão patriarcal, etnicamente eurocêntrica, greco-romana-cristã, e pautada por horizontes em que a eco-bio-preocupação é maior do que os dilemas e embates psicológicos e épicos tradicionais.  Acontece que há um toque gaiato na visão do mundo de Rheda, bem típica em nós, brasileiros, um não levar tão a sério as coisas que conflita radicalmente com um projeto desses. Não que não possa haver humor num tipo de ficção desconstrutiva e pós-patriarcal (ufa, que termos!), só que não é o tipo de humor zombeteiro, que mina tudo pela raiz, que parece ser o vezo de Rheda. Se ela quiser embarcar nessa ficção “positiva” e “afirmativa”, por assim dizer, ela vai ter de se reformular totalmente enquanto escritora. Ou bem ela aprofunda um caminho ou o outro, se não vai derrapar na frivolidade, que para mim é o principal defeito de Humana festa: frivolidade porque ela não consegue levar a sério os personagens que defendem as causas defendidas pelo romance. Pode-se ser dramático ao extremo, paródico ao extremo, só não se pode ser frívolo, ainda mais com assuntos tão portentosos.

    Esse é o fundo da minha eterna implicância com os irmãos Coen: não posso dizer que seus melhores filmes não são bons: entretanto, à exceção de No country for old men (e mesmo assim eles quase estragaram tudo com a personagem bufa de Javier Barden, que todo mundo acha sinistra, mas eu acho mera caricatura de psicopata), mesmo aqueles de que eu gosto (Fargo, O homem que não estava lá) deixam um gosto de “e daí?”, o que se agrava em filmes com potencial altamente dramático, como Barton Fink & Miller´s crossing. Volto a repetir, pode-se ser dramático até o limite do solene(Todd Field e seu In the bedroom), grotesco (os filmes de Cronenberg), bizarro (os de David Lynch), só não se pode ser frívolo e cortejar o besteirol (pelo menos, não quando a ambição é evidente: já disse que Rheda não é a autora “despretensiosa”que julgavam). A “graciosidade” que formava a película mais superficial dos livros anteriores dela era pertinente às tramas, aos ambientes, às pessoas. Mas vê-se que ela está lidando com outras coisas em Humana festa: um pouco mais de sentido de urgência moral, menina! No country for nasty girls.

    Bem, de qualquer forma, é apenas minha opinião e os irmãos Coen são muito cultuados. E não posso deixar de pensar que, com suas novas opções, Rheda me tornou a vida de leitor, esta semana, mais difícil, porém mais interessante também.

 

18/11/2011

JOSEPH CONRAD: MEDO DA ANARQUIA POLÍTICA & RECONHECIMENTO DA ANARQUIA INTERIOR

CONRADum anarquista

 PRIMEIRA ANOTAÇÃO (23.06.09)

Lendo Alexandre Dumas, a viagem do seu último herói, o Cavaleiro de Sainte-Hermine, pelas selvas da Birmânia me veio à mente Coração das Trevas, de Joseph Conrad. E resolvi então ler a seleção que Dirceu Villa fez de quatro contos de A set of six (1908) para a editora Hedra. Era um grupo de seis, ficaram quatro que se tornaram Um anarquista & outros contos. O tradutor explica por que foram deixados os outros dois (um deles, O duelo, já tem seu próprio caminho, independentemente da coletânea ao qual pertencia originalmente), e são boas razões, mesmo assim ainda acho que foi um erro e uma perda. Se o polonês que foi mestre da língua inglesa Conrad (1857-1924), e era extremamente consciente do ato de escrever (num grau só comparável ao de Henry  James), queria reunir um grupo de seis, com certeza é porque esse grupo tinha afinidades entre si. Quem quiser pelo menos a set of five em português, há três traduções de O duelo bem recentes, só mesmo Gaspar Ruiz eu desconheço se foi traduzido alguma vez no Brasil.

Conrad é um autor essencial. Para se ter uma idéia da dimensão que eu (seguindo tantos outros) dou à sua obra, na virada do milênio me pediram para listar os maiores romances do século passado e coloquei Nostromo (1904) entre os dez primeiros (o  mesmo para O coração das trevas na lista das dez maiores ”novelas”), junto com A montanha mágica (Mann), Luz em agosto (Faulkner), O castelo (Kafka), As ondas (V. Woolf), Em busca do tempo perdido (Proust), As asas da pomba (H.James), Ulisses (Joyce), O estrangeiro (Camus) e O homem sem qualidades (Musil).

A primeira narrativa de Um anarquista & outros contos é  O informante e quem leu O agente secreto (1907) vai reconhecer a atmosfera similar: Londres, os anarquistas refugiados, a mistura de indolência e pregação abstrata & atentados e grupos conspiratórios, cheios de gente mal resolvida e perigosa, mais do que ideologicamente, patologicamente.

A narrativa, como sempre em Conrad, é bastante enviesada: temos um primeiro narrador que toma contato com um monstro sagrado do anarquismo, o sr. X, que parece perfeitamente refestelado numa vida confortável, sibarita, filistéia, enquanto escreve os panfletos mais incendiários e demolidores. Num jantar, esse sr. X se torna o segundo narrador da história, ao contar que veio de Bruxelas a Londres, uma vez, para investigar por que uma célula anarquista só obtinha fracassos quando tudo era tão bem planejado. É preciso ler a descrição derrisória que o sr. X faz de diversos membros do grupo, no qual está obviamente infiltrado um informante da polícia, para o qual ele prepara uma armadilha (uma falsa batida da polícia no local onde o grupo se reúne).

Descobre então que um dos mais entusiasmados e aparentemente singelos e devotados membros é na verdade o informante, que era um inimigo ferrenho da causa. Ele só se entrega porque se apaixonou por uma outra participante do grupo (e dona do imóvel no qual eles se reúnem) e achando que ela pode ser presa pela polícia, acaba se denunciando e ingerindo um veneno. Porém, ela só está no movimento por pose, sem uma verdadeira convicção revolucionária, como uma atriz num papel vivendo-o histrionicamente. No final, vemos a obsessão de Conrad pelos dilemas cavalheirescos (que dominam, por exemplo, Lord Jim & Chance- A força do acaso) que sobrepujam os problemas ideológicos. Há também o contraste entre o primeiro narrador que leva a sério a ameaça do anarquismo (pelo qual Conrad tinha um horror ambivalente) ou outros movimentos revolucionários e a frivolidade com que o segundo narrador, o sr. X, vê os revolucionários de araque, ou então igualando aqueles que são fervorosamente “pelo” movimento e os que são fervorosamente “contra”.

Joseph_Conrad01

O primeiro narrador é alguém que, de fora, vê as coisas em estado puro: “Anarquistas, suponho, não têm famílias –de qualquer forma, não do modo como entendemos essa relação social. A organização em famílias talvez responda a uma necessidade da natureza humana,mas em última instância é baseada na lei, e  portanto deve ser algo odioso e impossível para um anarquista. Mas, de fato, não entendo os anarquistas. Um homem dessa… dessa facção permanece anarquista quando só, totalmente só e indo dormir, por exemplo? Ele deita sua cabeça no travesseiro, puxa suas mantas e vai dormir com a necessidade do ´chambardement général´, como na gíria francesa, o ´bombardeio geral´, sempre presente em sua mente? Se sim, como pode? Estou certo de que se tal fé (ou fanatismo) se apossasse de meus pensamentos, jamais seria capaz de compor-me suficientemente para dormir ou comer ou realizar quaisquer das rotinas da vida diária. Não desejaria esposa, ou filhos; não poderia ter amigos, me parece… Enfim, não sei. Tudo o que sei é que o sr. X fazia suas refeições num restaurante muito bom, que eu também freqüentava.”

      Já o sr. X, o panfletário, o incendiário, é totalmente pragmático e adepto da “Real Politik”. Ao comentar a figura do informante (note-se que não estou dando maiores detalhes da trama para não estragar a leitura desse “conto irônico”, como está no subtítulo): “A parte mais interessante era o seu [do informante] diário; pois esse homem, metido num trabalho tão mortal, teve a fraqueza de manter um registro do tipo mais condenatório. Lá estavam seus atos e pensamentos, desnudados diante de nós. Mas os mortos não se importam com isso… Um humanitarismo vago mas ardente o havia impelido em tenra idade para os mais amargos extremos da negação e da revolta. Você já ouviu falar de ateus convertidos. Eles se tornam fanáticos perigosos, mas a alma permanece a mesma. Após ter conhecido a garota, encontram-se naquele seu diário estranhas rapsódias político-amorosas. Tomasva as poses de soberania dela com seriedade circunspecta. Ansiava por convertê-la… não sei se você se lembra, faz uns bons anos já, da sensação jornalística do Mistério da Hermione Street; encontraram o corpo de um homem no porão de uma casa vazia;  o inquérito, algumas prisões, várias conjecturas, e então silêncio, o final costumeiro para muitos mártires e confidentes obscuros. O fato é que ele não era suficientemente otimista. É preciso ser um otimista selvage, tirânico, impiedoso, um faz-tudo como Horne [outro membro do grupo], por exemplo, para resultar num bom rebelde social do tipo extremista”. O narrador pergunta sobre a garota: “Você quer realment saber?  Confesso a pequena malícia de ter-lhe enviado o diário de Sevrin [o informante]. Ela retirou-se; foi, então, para Florença; daí, recolheu-se a um convento. Não saberia lhe dizer onde irá depois. E isso importa? Gestos! Gestos! Meros gestos de sua classe! … Por isso essa raça está com os dias contados”.

MORTE EM NÁPOLES (25.06.09)

A Itália é muito perigosa, pelo menos na alta ficção. O icônico Morte em Veneza, de Thomas Mann, está aí para provar. Mais benigno, porém trabalhando na mesma direção de forças libidinosas represadas explodindo de forma inquietante, temos  Um quarto com uma vista, de E. M. Forster. E contemporâneo, de certa forma, aos dois (todos foram escritos nos primeiros quinze anos do século XX), um dos textos traduzidos em Um anarquista e outros contos: Il Conde. Se O informante é um conto “irônico” e “O duelo” um conto “militar”, Il Conde é um “conto patético”. Parecem andamentos diferentes de uma sinfonia, cada um com sua modulação. Essa analogia é ainda mais apropriada (e já deve ter sido feita por alguém) porque Il Conde repete o mesmo esquema narrativo de O informante: temos novamente um narrador original, que conhece um outro personagem, seu interlocutor pela narrativa inteira, que lhe narra um episódio.

É preciso examinar um pouco esse “primeiro narrador” genérico desses textos conradianos. O grande autor de Sob os olhos do Ocidente criou um narrador memorável, Marlow, normalmente identificado nos textos dos quais participa por sua biografia ligada ao mar (é o caso de Mocidade, aqui também traduzido como Juventude, de Coração das trevas e de Lord Jim). Os narradores de O informante e Il Conde poderiam ser a mesma pessoa, só que não Marlow. Conrad parece ter criado a quintessência do “homem do mundo”, viajado, com conhecidos em capitais importantes, cidadão europeu civilizado, culto, mas não pedante, bem nascido, mas não insolente ou esnobe, com bom gosto, mas não demasiadamente refinado e lânguido, observador, sagaz, mas muito voltado para os princípios “sadios” da boa sociedade para não se deixar abalar por tudo o que essa sociedade não tem de sadio. Todos os detalhes que ele pinça nos seus interlocutores parecem refletir seus próprios dilemas éticos e cavalheirescos diante dos aspectos “desagradáveis” da vida.

Pois, veja-se, nos dois contos, o narrador e seus interlocutores se conhecem com a mediação de coleções de alto interesse estético e artístico.

O informante se inicia do seguinte modo:  “O sr. X veio a mim, precedido pela carta de recomendação de um bom amigo meu em Paris, especificamente para ver minha coleção de porcelana e bronzes chineses”. Ao receber a visita do famoso revolucionário, ele afirma: “Não falamos senão sobre bronzes e porcelanas. Era de uma sensibilidade notável”. Para depois nos dizer: “Onde estava hospedado, não sei”.

Il Conde, por sua vez, abre com este parágrafo: “Conversamos pela primeira vez no Museu Nacional, em  Nápoles, nas salas do piso térreo que contém a famosa coleção de bronzes de Herculano e Pompéia, aquele maravilhoso legado de arte antiga, cujas delicadas perfeições foram preservadas pela fúria catastrófica de um vulcão”. No parágrafo seguinte: “Ele se dirigiu a mim primeiro, a respeito do celebrado Hermes em repouso que estávamos observando lado a lado. Disse as coisas certas sobre aquela peça inteiramente admirável. Nada profundo. Seu gosto era antes natural que cultivado. É óbvio que havia visto muitas coisas refinadas em sua vida, e as apreciava, mas não possuía o jargão do diletante ou do connaisseur… Falava como um cosmopolita inteligente, um cavalheiro limpo de toda afetação” (é evidente que essa caracterização também reflete a auto-imagem do narrador, e tanto num quanto noutro conto haverá uma reversão, irônica e patética, dessa lisonjeadora caracterização inicial). Poucas páginas adiante lemos (o Conde está hospedado no mesmo hotel que o narrador): “Tinha um castelo, creio que na Boêmia. Isso foi o mais próximo que cheguei de conhecer sua nacionalidade. Seu próprio nome, por estranho que pareça, nunca mencionou”.

Como se pode ver, há muitas similaridades:  informações vagas sobre as circunstâncias mais corriqueiras (residência, num caso; nome e nacionalidade, no outro) tornadas irrisórias pela descrição da imagem cavalheiresca (estou observando muito isso nestes dias, já que em O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Dumas, o nobre Hector de Sainte-Hermine, após sua degradação, se apresenta simplesmente como “René” e todos o respeitam e recebem porque sentem que nesse prenome sem maiores detalhes há uma nobreza inata; aliás, comecei este LEITURA DA SEMANA afirmando que lembrei de  Coração das Trevas por causa da expedição de Hector à Birmânia, o que me levou a esta leitura dos contos de, entretanto também podia afirmar o mesmo de O duelo, que transcorre durante as guerras napoleônicas).

O retrato inicial do Conde é assim rematado: “…era um bom europeu –falava quatro línguas, pelo que sei—e um homem rico. Não muito rico, evidente e apropriadamente. Imagino que ser rico demais lhe teria parecido impróprio… demasiado indecoroso. E, obviamente também, a fortuna não havia sido obra sua. Não se pode amealhar uma fortuna sem alguma rudeza”.

O Conde gosta particularmente de Nápoles porque o clima lhe faz bem à saúde prejudicada (tem uma afecção reumática). Ele e o narrador se tornam companheiros de horas agradáveis e gentis até que o segundo tem de se afastar da cidade por cerca de dez dias (a cena em que o conde o acompanha à estação é emblemática da “ideologia de civilidade” que percorre essas páginas).

Quando ele retorna, encontra o conde mortificado e com um comportamento á mesa pouco tranqüilizante (“em vez de ficar ereto, fitando toda a sua volta com urbanidade alerta, curvava-se sobre o prato. Parei por algum tempo diante dele antes que erguesse os olhos, um pouco feroz, se palavra tão forte pode ser associada à correção de sua aparência”). Diga-se de passagem, o texto de Conrad não podia ser mais perfeito como nesse passo, pois podemos ver como se entremeia no discurso do narrador as marcações que indicam os gestos, a fala, o discurso do seu interlocutor, até suas pantomimas. É um momento virtuosístico da arte da narração.

Como em O informante inicia-se uma “segunda narração”, ainda que feita através de uma instância entre nós e o narrador original, que é justamente o primeiro narrador, e portanto essa segunda narração é enviesada e ambígua, temos de levar em conta, seu efeito sobre esse primeiro narrador. E é por isso que fiz questão de caracterizá-lo detalhadamente.

O que o conde tem a contar é um assalto um tanto incomum de que foi vítima durante um concerto musical ao ar livre. O rapaz que o assalta (encostando uma faca na sua barriga) o trata com certo desprezo porque ele carrega pouco dinheiro consigo e um relógio barato (segundo o Conde, havia deixado com o guarda-livros do hotel uma grande quantia no mesmo dia, e seu relógio de ouro estava no relojoeiro para limpeza ), e some na multidão. É um rapaz com todos os traços típicos da região e o Conde, meio abalado pela experiência, julga vê-lo depois em todos os lugares e em todos os rapazes (curiosamente, já tivera a mesma sensação, antes do assalto, quando sentara numa mesinha ao lado de um rapaz que pode ser o assaltante). Apesar de tudo,  sente-se também bastante esfomeado e resolve comer um risoto, utilizando uma “barra de ouro de vinte e cinco francos” que carrega no fundo do bolso caso haja algum “acidente” (“todos estão sujeitos a um furto, algo bastante diferente de um assalto descarado e ultrajante”). Ora, no  Café Umberto onde faz sua refeição, ele vê um rapaz idêntico ao seu assaltante, mas sendo tratado com deferência pelos garçons. Informam-lhe: ele pertence à Camorra, a máfia prototípica.

O Conde paga suas despesas com sua barrinha de ouro, o rapaz também paga, levanta-se, atravessa o café, “aparentemente com o objetivo de mirar-se no jogo de espelhos do pilar mais próximo ao assento do Conde.  Estava todo vestido de preto e com uma gravata borboleta verde-escura. O Conde olhou à volta e se assustou por encontrar um olhar maligno  vindo do canto dos olhos do outro… falou alto, o bastante apenas para que o Conde o ouvisse. Falou de entre os dentes com o mais insultante veneno de desprezo e olhando diretamente no espelho: Ah! Então você tinha ouro aí, seu velho mentiroso, velho birba-farfante! Mas eu não terminei com você, ainda.”

 

Eis a razão da consternação e mortificação do Conde, que está decidido a deixar Nápoles, apesar de ser uma decisão desastrosa para sua saúde. A explicação do narrador para essa decisão está fortemente enleada pela sua caracterização inicial: “A delicada concepção de sua dignidade fora maculada por uma experiência degradante. Isso era intolerável. Nenhum cavalheiro japonês, ultrajado em seu extremo senso de honra,  teria se preparado para o harakiri com maior resolução”. Depois ele associa a decisão do Conde com o adágio napolitano que serve de epígrafe a essa história “patética”: Vedi Napoli r poi mori, Veja Nápoles e depois morra, que ele considera vaidoso e patrioteiro. Porém, por mais que ele rejeite a idéia, o adágio parece que “pega” e se associa à figura do Conde que ele já vê como moribundo:

“Ele havia visto! Havia visto com alarmante completude –e agora ia para seu túmulo. E ia até ele no train de luxe da Companhia Internacional de Vagões-Dormitórios, atravessando Trieste e Viena. Quando os quatro longos e graves vagões deixaram a estação, eu ergui meu chapéu com o sentimento solene de prestar os últimos respeitos em um cortejo fúnebre…”

O que eu deixei para o final é a ambigüidade do episódio, calcado no equívoco sexual (e magistralmente “invisível” no texto do primeiro narrador). Tudo bem que se pode ignorar esse aspecto e mostrar todo o abalo sentido pelo Conde (e, por tabela, pelo narrador) pelo prisma da ameaça de um membro da Camorra, que mostra que não existe segurança, não há “civilização” suficiente que nos proteja do submundo, do que há para se ver  “com alarmante completude” (“Sua tranqüilidade fora licenciosamente profanada. A requintada gentileza de perspectiva de toda a sua vida havia sido desfigurada”). E também não gosto daqueles que procuram sub-textos homossexuais em tudo que é história ou texto.

Mas acredito que, sem forçar a barra, tratou-se de um episódio que, sem anular a informação sobre a Camorra (mas o próprio Conde diz que a pessoa que lhe deu essa informação é um mentiroso contumaz), há aquela velha situação da “caça”. A ida do senhor idoso de aparência impecável e abastada ao concerto público, ele sentando na mesa com um rapaz desconhecido, fitando-o muito (porque, segundo ele, via nesses traços típicos da região uma atitude de consternação profunda que o deixava alheado do que estava à sua volta e de quem estava ao seu lado), depois o afastamento da multidão para cantos mais solitários do parque, a visão do rapaz (muito parecido com o outro, sentado num banco, na mesma atitude taciturna), as passeadas para lá e para cá que sempre o fazem passar pelo tipo, a intimidade descarada com que o outro o assalta, e principalmente a desfaçatez insolente e desdenhosa com que ele o adverte e desacata no Café Umberto. E só para arrematar, a seguinte passagem, extraída da narração do assalto (cujo cerne é o fato de o Conde não estar de posse de bens que a sua aparência prometia):

“Aquele jovem poderia largar a faca num instante e fingir que eu era o agressor. Por que não? Poderia ter dito que o atacara. Por que não? Seria uma história incrível contra a outra! Poderia dizer qualquer coisa, levantar uma acusação desonrosa contra mim, como saber? Pelo modo de vestir, não era um ladrão comum. Parecia pertencer às melhores classes. O que eu poderia dizer? Ele era italiano, eu sou estrangeiro. É claro, tenho meu passaporte, e temos o nosso cônsul, mas ser preso, arrastado à delegacia de polícia à noite, como um criminoso!”

    Sem dúvida, um conto “patético”. Como também aquele do escritor Aschenbach vagando por uma Veneza que lhe traz a vida e a morte.

NAVIO PSICOPATA E BORBOLETA RARA

(28.06.09)

Ainda encontramos um primeiro narrador e um interlocutor nos dois outros contos, A bruta (que já foi traduzido no Brasil como A fera numa antologia de horror selecionada por Alberto Manguel) e Um anarquista. A diferença é que esses interlocutores já não pertencem a uma classe “cultivada”, como o ideólogo (o qual, apesar da apologia revolucionária, refestela-se com o mundo burguês, e afinal é um homem culto, um intelectual) de O informante e o personagem-título de Il Conde, são de classes mais populares, sendo o interlocutor de Um anarquista um proletário.

A bruta mostra o narrador chegando a uma taberna e ouvindo os comentários de três marinheiros. O leitor, a princípio, pensa que esses comentários são a respeito de alguma mulher fatal que finalmente teve a sua punição. Não. Antecipando Christine, o carro-assassino criado por Stephen King, com uma sutileza que o criador de Carrie jamais poderia sonhar, trata-se de uma embarcação, orgulho de uma família (tanto que seu nome é “A família Apse”), que sempre causa mortes e acidentes que os marinheiros atribuem à sua vontade maligna, numa personificação dos seus temores e pressentimentos: “Há embarcações difíceis de manobrar, mas em geral, conta-se com o fato de agirem racionalmente  [ isso quer dizer que eles contam com uma providência racional, benéfica]. Com essa,o que quer que você fizesse, nunca sabia como ia acabar. Era uma besta maligna.  Ou talvez fosse apenas louca… Por que não? Por que não haveria algo na sua constituição, em seu desenho, correspondente  a… –o que é a loucura? É só uma minúscula coisa errada na feitura do cérebro. Por que não haveria uma embarcação louca –digo, louca como uma embarcação pode sê-lo, e em ocasião alguma pudéssemos saber se ela ia fazer o que qualquer outra embarcação razoável naturalmente faria? Há navios de leme duro de manobrar e navios de estabilidade não confiável; outros requerem vigília cuidadosa quando navegando numa tormenta e, ainda, pode haver um navio que faça de uma brisa leve um tempo feio. Mas daí se supõe que seja sempre assim. Considera-se como parte de seu caráter de navio, assim como a gente repara nas peculiaridades de temperamento de um homem, quando lida com ele. Com essa embarcação, não. Imprevisível. Se não era louca, era então a mais bruta, ardilosa e selvagem que jamais flutuou”. O cerne da narrativa é a viagem que o interlocutor-segundo narrador faz na Bruta com seu irmão mais velho, Charles, como imediato. Charles está apaixonado e fica noivo de Maggie Colchester, que está a bordo (“O tio estava lhe dando uma viagem de navio para o bem de sua saúde. Não tenho idéia do que poderia haver de errado com a sua saúde. Tinha uma cor bonita, e um danado de um, monte de cabelo loiro. Não ligava a mínima para vento, chuva, jato d´água, sol, o mar verde, nem nada. Era um jóia de menina de olho azul, das melhores, mas o jeito como era atrevida com o meu irmão me assustava”, note-se a modulação do segundo narrador, bem diversa da dos anteriores). Ele tem como meta vencer a Bruta, fazendo sua primeira viagem “tranqüila”, sem tragédias (“… e antes de mais nada, ponha na sua cabeça que não deixaremos a Bruta matar ninguém nesta viagem. Vamos acabar com a sua farra”). Quando está prestes a cumprir seu objetivo, quase atracando, há um acidente no qual Maggie acaba morrendo (“Maggie subira na âncora de bombordo deixada no convés do castelo de proa. Ela havia sido colocada corretamente em sua base de carvalho, mas não houvera tempo de prendê-la com uma volta. De qualquer forma, estava bem segura, lá onde estava, para ir ao cais, mas pude ver claramente que o cabo de reboque levaria de roldão a pata da âncora em um segundo. Meu coração veio à boca, mas não antes que pudesse gritar: Se afasta daquela âncora! Mas não tive tempo de berrar seu nome. Não acho que chegou a me ouvir. No primeiro toque do cabo contra a pata de âncora, ela caiu…”). Há uma bela descrição da prostração do irmão após essa vingança da bruta: “Charley não se parecia em nada consigo mesmo”.

Vou deixar para os futuros leitores desse “conto indignado” (na antologia de Alberto Manguel, o sub-título aparece como “um caso de invectiva”) a “justiça poética” que dá cabo da embarcação psicótica. Só resta mesmo a “justiça poética” neste nesta nossa condição em que “o universo é basicamente inóspito e nós o povoamos com os nossos afetos”.

Todos os quatro textos de Um anarquista &  outros contos são notáveis. O que dá título à seleção, então,  é excepcional, um dos melhores que já li. O seu sub-título é “um conto desesperado”.  Novamente, como em O agente secreto, Sob os olhos do Ocidente e O informante, há o horror-fascínio preconceituoso, cauteloso, com relação à ação revolucionária, mas também há uma compreensão profunda de uma certa patologia que o stalinismo evidenciou plenamente. E também há as grandes imagens demoníacas de um capitalismo selvagem: o primeiro narrador, cuja ocupação é “caçar borboletas” pelo mundo afora, chega a Caiena e se instala (a um custo de 15 mil libras ) por alguns meses, numa ilha na qual funciona uma grande propriedade de exploração pecuária de uma “famosa companhia manufatora de extrato de carne”. As primeiras páginas do conto são dedicadas a mostrar essa vasta intrujice e fabricação de mentira universal que é a propaganda (isso, num texto do início do século XX), que é praticamente liquidada e caracterizada de uma vez por todas. O detalhe que eu achei mais delicioso é a propaganda dos produtos baseada em “informações científicas”, principalmente porque uma das coisas mais irritantes do nosso consumismo atual é que ele sempre se baseia “nas mais avançadas pesquisas” e o público assiste a anúncios onde se fala  de O% de gordura trans e o caralho a quatro (desculpem o meu francês), ou seja, de coisas de que quase ninguém realmente tem noção do que se trata (eu adoro especialmente aquela comercial de shampoo anti-caspa em que se fala de componentes químicos extraordinários e no final Helena Ranaldi diz enfaticamente: “Estou convencida!”): “É claro que o capital de um país deve ser empregado de modo produtivo. Não tenho nada contra a companhia. Mas sendo animado por sentimentos de afeição para com meus semelhantes, entristece-me o sistema moderno de propaganda. Qualquer que seja a evidência de iniciativa, engenho, ousadia e habilidade em certos indivíduos, ela prova para a minha inteligência apenas a ampla supremacia da degradação mental chamada credulidade”. Mais adiante: “Seja qual for a forma de degradação mental de que (não sendo senão humano) eu possa sofrer, não é dessa forma popular. Não sou crédulo.”

Além da propaganda, a propriedade em si, na ilha (onde ele está porque está atrás de uma espécie rara de borboleta que só existe ali, e de fato ele descobrirá no seu interlocutor um espécime raro), é descrita de forma demoníaca: “Ressoava com os mugidos de inumeráveis rebanhos, um som profundo e aflitivo a céu aberto, elevando-se como um protesto monstruoso de prisioneiros condenados à morte”. Além disso, há um administrador estúpido, boçal, auto-satisfeito, que faz inúmeras alusões debochadas ao esporte que o narrador pratica (“Seu deboche seria bem inofensivo se a intimidade comunicativa, na ausência total de sentimentos amistosos, não fosse uma coisa detestável em si mesma”).

    Após essas primeiras páginas introdutórias ao mecanismo infernal que sustenta o capitalismo moderno (e que continua o mesmo, de 1908 para cá), conhecemos o futuro interlocutor do primeiro narrador: o mecânico encarregado de fazer a manutenção de um barco a vapor de que se serve a propriedade insular). O odioso administrador vive mexendo com ele, provocando-o, chamando-o de Crocodilo (porque passa parte do tempo na água), mas sua provocação favorita é chamá-lo de “un citoyen anarchiste de Barcelone”, um cidadão anarquista de Barcelona, embora ele não saiba direito a origem do mecânico e nem sequer se ele é um anarquista. Ele tem certeza de um fato: é fugitivo da lei. E por isso o tiraniza, humilha e explora como ao gado condenado à morte. O narrador pergunta ao administrador quanto ele paga ao rapaz: “Salário! E para que ele quer dinheiro aqui? Comida ele pega na minha cozinha, e roupa, no depósito. Claro que vou dar alguma coisa para ele no fim de ano, mas você acha que empregaria um condenado e lhe daria o mesmo dinheiro que daria a um homem honesto? Estou zelando pelos interesses da minha companhia, antes e acima de tudo… se tivesse certeza de que ele é um anarquista e se tivesse a pachorra de me pedir dinheiro, eu lhe daria o bico da minha bota. Entretanto, que fique com o benefício da dúvida. Estou pronto a aceitar a idéia de que não tenha feito nada além de espetar uma faca em alguém… Mas aquela coisa podre de subversivo sanguinário que manda para o inferno toda lei e ordem do mundo faz subir o meu sangue. É de tirar o chão sob os pés de cada pessoa decente, respeitável e trabalhadora, simplesmente. Insisto que as pessoas que têm essa consciência, como você e eu, devem ser protegidas de algum jeito, ou então o primeiro salafrário de meia-tigela que aparecesse iria valer o mesmo que eu. Não iria? E isso é absurdo”. Confesso que durante a leitura desse quase-manifesto arrogante, eu fiquei tentado a imaginar toda a lei e ordem desse tipo do mundo indo para o inferno, e tudo que há de subversivo em mim, se não se apoltronou (termo tão caro a Lygia Fagundes Telles) veio à tona. E também fiquei imaginando o que poderia passar pela mente do narrador ouvindo um discurso que o iguala ao administrador, “as pessoas que têm essa consciência, como você e eu”…

Um dos primeiros adjetivos de que o narrador se vale para caracterizar suas impressões do “cidadão anarquista de Barcelona” é “delicado”, o que sem dúvida causa forte contraste com o nada delicado administrador e toda a sua positividade opressiva: “Ao som dos nossos passos levantou um rosto austero, com queixo pontudo e um minúsculo bigode loiro. O que podia ser cisto de seus traços delicados, sob manchas de graxa, parecia-me desgastado e lívido à sombra esverdeada da árvore enorme que estendia sua folhagem sobre o vapor atracado junto à margem”. Como o inesquecível personagem-título de Bartleby, de Hermann Melville, que tinha o seu exasperante bordão “Preferia não fazer”, esse mecânico delicado tem o seu, igualmente misterioso, “Não nego nada”.

Porém, ao contrário de Bartleby, ele se entrega a confidências (no seu catre, como o Kurtz moribundo de Coração das Trevas, e ele mesmo tem o seu quê de “prostrado”) . Ele conta sua história e, vejam só, foi realmente ligado ao anarquismo revolucionário, não em Barcelona, já que era um operário parisiense, conformado com a vida, juntando o seu dinheirinho na poupança. No seu aniversário de vinte e cinco anos, foi comemorar com dois colegas da oficina (e logo apareceram mais dois companheiros, os quais ele não conhecia, mas a quem convidou para se juntarem à comemoração) e bebeu… bebeu…bebeu. E nunca se sentiu tão feliz, pleno e satisfeito: “Mas uma coisa extraordinária aconteceu. Os estranhos disseram que, por algum motivo, sua animação se foi. Idéias melancólicas dispararam em sua mente. O mundo todo fora do café lhe pareceu um lugar mau e funesto, onde uma multidão de pobres infelizes tinha de trabalhar como escrava para o único objetivo de que uns poucos indivíduos andassem de carruagem e vivessem libidinosamente em palácios. Envergonhou-se de sua felicidade. A piedade pelo destino cruel da humanidade oprimiu seu coração [ temos na verdade aqui o velho sentimentalismo do homem bêbado]. Numa voz engasgada de mágoa ele tentou expressar esses sentimentos. Acha que alternadamente chorou e xingou” [aqui temos a narração da narração do acontecido de forma clara].

O que acontece é confusão, vidros quebrados, brigas, chegada da polícia, um cassetete na cabeça do nosso Crocodilo e a prisão. Que por culpa de um advogado ambicioso  se torna uma pena relativamente severa para um réu primário.  Saindo da cadeia, não conseguindo emprego em parte alguma, dele se acerca uma célula subversiva que acompanhara seu caso e não o deixam mais: “…uma existência impossível!Vigiado pela polícia, vigiado pelos camaradas, não pertenço a mim mesmo. O quê? Não poderia sacar uns poucos francos da minha poupança no banco sem um camarada plantado na porta para garantir que eu não fugisse! E a maior parte deles não era nada mais nada menos que arrombador. Os inteligentes, quero dizer. Roubavam dos ricos, apenas retomavam o que era deles, diziam. Quando bebia um pouco, eu acreditava neles. Havia também os tolos e os loucos. Des exaltés, quoi! Quando estava bêbado, eu os adorava. Quando ficava mais bêbado, me enfurecia contra o mundo. Era o melhor momento. Achava refúgio contra a miséria na raiva. Mas não é possível estar sempre bêbado…” É típico de Conrad frisar esse lado malsão da experiência revolucionária, ideólogos manipuladores e gente exaltada ou embriagada, patologicamente servindo a um ideal vão. Os revolucionários quase que caracterizados como mafiosos, um submundo. E assim, nosso herói vai preso novamente, e deportado para Caiena, na prisão da Ilha São José, com dois companheiros da célula anarquista.

Há um motim, maravilhosamente narrado (inclusive com o detalhe caracteristicamente conradiano porque cavalheiresco em que há uma mulher que pode ser atacada e estuprada pelos amotinados e pela qual o operário desviado resolve se sacrificar e dar a vida; a situação não chega a tanto, todavia). Resumindo, os três companheiros anarquistas escapam num bote e aí é que se dá a crise para a qual o relato se encaminha:  toda a revolta do operário enganado pela ilusão revolucionária, as figuras desagradáveis e calculistas dos companheiros, suas artimanhas e mesquinharias, a Real Politik. Como tinha um revólver, ele os domina no bote e os obriga a remar. Um deles, ultrajado, o chama de Camarada: “Não tem camarada aqui. Sou seu patrão”. Mais adiante: “… enquanto falava, remava; e Simon continuou remando, também. Isso me fez sorrir. Ah! Esses dois amavam a vida, nesse mundo maligno deles, assim como eu amara minha vida, também, antes que a arruinassem com suas frases… Lembrei de suas mentiras, de suas promessas, suas ameaças e de todos os meus dias de miséria. Por que não me deixaram em paz quando saí da prisão? Olhei para eles e pensei que, enquanto vivessem, eu não seria livre. Nunca. Nem eu nem outros como eu, com sangue quente e cabeça leve. Pois eu sei que não tenho uma cabeça boa, monsieur”.

Apossa-se dele uma “fúria negra”, “mas não contra a injustiça da sociedade, oh não”. E grita para os camaradas-algozes-reféns no bote: “Eu quero liberdade”. Os outros acham que é uma palavra de ordem (já que avistaram um navio) e também gritam “Viva a liberdade”, afirmando que vão fazer a sociedade burguesa sentir a sua volta. Então ele os assassina. O navio que o recolhe tem a tripulação toda negra, comandada por um mulato que é o único que o compreende um pouco. Eles é quem o colocam em terra na ilha de propriedade da  “famosa companhia manufatora de extrato de carne”, após alguns dias ameaçadores e estranhos de convivência forçada. E é ali, na sujeição e na abjeção, em pleno coração da injustiça e da exploração (da vida humana e animal) que ele encontra a sua libertação do mundo da ideologia e seus rumos ambíguos: “… tentei induzi-lo a deixar o vapor atracado onde estava e ir para a Europa comigo, de lá mesmo e naquele momento. Teria sido delicioso imaginar a surpresa e o desgosto do excelente administrador com a fuga daquele pobre diabo. Mas recusou com obstinação inquebrantável”. O narrador lhe diz que não pode viver para sempre ali, naquela situação: “Devo morrer aqui…Longe deles.” Um pouco antes, no relato, o narrador tentara um diagnóstico do seu estranho interlocutor, da sua borboleta rara (mas mesmo de um tipo raro uma borboleta pertence  a uma espécie geral) encontrada na ilha: “… a minha idéia é a de que ele era mais anarquista do que confessou a mim ou a si mesmo e, de parte as características muito específicas desse caso, ele era muito parecido com muitos outros anarquistas. Sangue quente e cabeça leve, eis a solução da charada; e é fato que as mais amargas contradições e os mais mortais conflitos do mundo são levados adiante pelos corações individuais, capazes de sentimento e paixão”.

E o narrador o imagina deitado, de olhos abertos (ele sofre de insônia), na pequena oficina da ilha, que lhe serve de moradia: “o anarquista escravo da propriedade”.

CERTIFICADO COMEMORATIVO CONRADIANO

04/10/2011

Vários romances num só: CONVERSA NA CATEDRAL

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Não tem jeito, mesmo, é preciso mais que 24 horas para ser leitor e viver os compromissos do dia a dia, por isso prorroguei o LEITURA DA SEMANA de CONVERSA NA CATEDRAL. Já reli 3/4 do romance, no entanto hoje acrescentarei apenas uma resenha-homenagem publicada em “A Tribuna” em 11 de agosto de 2009:

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O MEIO SÉCULO DA CARREIRA DE VARGAS LLOSA

E SEU PONTO ALTO

Este ano, o peruano Mario Vargas Llosa (aos 73 anos) comemora meio século de carreira (iniciada com a publicação da coletânea Os Chefes; o primeiro romance apareceria em 1962: A cidade e os cachorros), ocupando o topo entre os romancistas hispano-americanos. Não há quem se lhe compare em virtuosismo, recursos técnicos e amplidão. Mesmo que seus últimos romances (A festa do bode; Travessuras da menina má) não estejam entre suas maiores realizações, são indiscutivelmente hábeis e envolventes e O paraíso na outra esquina ainda guarda o sopro do melhor Llosa.

A Alfaguara, felizmente, vem publicando novas traduções de seus livros, inclusive do formidável A guerra do fim do mundo (1981), e a ARX acaba de lançar nova edição da versão de Wladir Dupont para sua obra máxima, Conversa na Catedral (1969). A capa é um espanto de feiúra e erro: apresenta dois jovens conversando numa mesa, como se o romance tratasse de um bate-papo entre mauricinhos. Mas ela não é tão esdrúxula quanto a orelha da lavra do próprio tradutor (o qual cometeu vários deslizes e erros de interpretação ao longo do texto; por exemplo, na pág. 268, Amália está admirando o dormitório da amante de Cayo Bermúdez, chefe de segurança da ditadura do General Odría nos anos 50, Hortênsia, e não de sua antiga patroa, Dona Zoila, como ali aparece; o erro é endossado poucas linhas depois): ele simplesmente resume de forma errônea a história do livro que traduziu! É difícil, certamente, verter um texto para outra língua e ao mesmo tempo prestar atenção no seu enredo.

Disparates à parte, Conversa na Catedral é muito complexo: Llosa usou e abusou dos seus recursos como narrador, fazendo com que o seu painel da corrupção e desmoralização geral do período odriísta seja acompanhado por meio de diálogos intercalados (misturando várias situações), solilóquios, discursos indiretos livres (quando se confundem o discurso do narrador e do personagem) diálogos estratégicos. O principal deles, que dá título ao livro, é na espelunca Catedral, após o reencontro inesperado entre o protagonista, Santiago Zavala e o antigo chofer da sua família (o pai dele, don Fermín, ocupava uma posição importante no regime de Odría, até cair em desgraça), Ambrósio (amante da já referida Amália e que compartilha com Fermín um segredo estrategicamente enovelado pela narrativa). Quando se reencontram, os dois estão “ferrados” na vida: Zavalita  afundou-se numa medíocre carreira de jornalista e Ambrósio, que chegou a ser chofer e capanga de Cayo Bermúdez, mata cachorros a pauladas no canil municipal. Seu bate-papo agiganta-se até se tornar um afresco do Peru (“não era um saco de gatos este país, menino, não era um quebra-cabeças formidável o Peru? Não era incrível que odriístas e os apristas que tanto se odiavam agora fossem unha e carne, menino? Que é que seu pai diria disso, menino?… Um redemoinho interior, uma efervescência no fundo do coração, uma sensação de tempo suspenso e pestilento”), envolvendo uma gama balzaquiana de personagens. Entre eles, destaca-se Cayo Bermúdez, o homem forte do regime, com sua cara inexpressiva, sua figura apagada e miúda, e sua capacidade de corromper e vigiar a todos. Vargas Llosa já contou como surgiu essa figura fascinante, inspirada na impressão que teve numa audiência, quando estudante, de Alejandro Esparza Zañartu: “era o homem mais odiado do regime… conseguiu um eficiente sistema de delações e informantes que acabou permitindo que a ditadura durasse oito anos —provavelmente não duraria tanto sem ele. Eu me impressionou muito quando o vi: era um homem insignificante, que mal sabia se expressar e que transmitia a impressão de uma grande mediocridade. E pensar que esse homem concentrava semelhante poder!” A banalidade do Mal.

Quando Vargas Llosa ganhará o Nobel?

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“Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas idéias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história”.

Essas palavras  podem ser encontradas no livro de Ricardo A. Setti, Conversas com Vargas Llosa (Brasiliense, 1986). Embora haja uma verdade profunda nelas, creio que também é possível declarar que Llosa é um típico representante do romance no sentido modernista: enciclopédico, labiríntico e total, no sentido joyceano, e no caso dele muito especificamente, no sentido faulkneriano. Não foram poucas as vezes em que ele se declarou um admirador de Faulkner, tendo usado com muito proveito suas técnicas, inclusive a técnica de fazer a história surgir de conversas, de colóquios nos quais muitas vezes os fatos se refratam em diversas versões, que se opõem e se complementam.

Três autores, aliás, sempre apareceram muito nas entrevistas e ensaios de Vargas Llosa: duas admirações constantes, Faulkner e Flaubert, e uma relação de amor e ódio: Sartre (aliás, ele publicou um livro inteiro para se purgar do fantasma sartreano, Contra vento e maré), com o qual acabou sendo injusto, tachando seus romances de muito ruins, o que está longe de ser a verdade.

Um dos aspectos mais relevantes de CONVERSA NA CATEDRAL tem uma feição tipicamente sartreana: além das conversas (de Zavalita com Ambrosio, que é matriz do romance; com o jornalista desiludido, literato falhado, Carlitos; também tem um diálogo entre Ambrosio e Don Fermín, entre Ambrosio e Queta), dos diálogos interpostos, da discreta narrativa em 3ª. pessoa, dos discursos indiretos livres, enfim, de toda a pletora de recursos explorados no romance, um procedimento narrativo (que Llosa praticará com muito proveito inclusive no recente O paraíso na outra esquina) é o do solilóquio que Zavalita mantém consigo mesmo e que espelha sua perplexidade, sua frustração e sua má consciência (que origina situações em que ele age de má fé, no sentido sartreano do termo, de descompasso entre sua ação e sua consciência). Solilóquio + dúvidas= Hamlet.

Entre outras, a leitura de CONVERSA NA CATEDRAL me fez sonhar (um dos muitos projetos que já acalentei) em perseguir num estudo o arquétipo de Hamlet na ficção da modernidade, encarnado especialmente em intelectuais e artistas. O próprio Mathieu de Os caminhos da liberdade (a trilogia de Sartre formada por A idade da razão, Sursis & Com a morte na alma, que eu acho sensacional, malgré o que Llosa possa dizer contra seu antigo mestre),  e também os heróis e heroínas de Os mandarins (Simone de Beauvoir), Sem olhos em Gaza (Huxley), O jogo da amarelinha (Cortazar), O carnê dourado (Doris Lessing), O lobo da estepe (Hesse), só para ficar em alguns poucos exemplos notáveis. Mas voltemos ao nosso amigo Zavalita, que começa a participar nem sabe bem por que nas reuniões clandestinas do Partido Comunista peruano (ainda que como “simpatizante”) quando se torna amigo de Aída e  Jacobo (o caso é que ambos são apaixonados por Aída e Jacobo utiliza as reuniões clandestinas para separar Aída e Zavalita e se aproximar dela). Vejamos algumas passagens:

“Tinha sido nesse segundo ano [na universidade San Marcos], Zavalita, ao ver que não bastava aprender marxismo, que também fazia falta acreditar? Provavelmente o tinha fodido a falta de fé, Zavalita. Falta de fé para crer em Deus, menino ? Para crer em qualquer coisa, Ambrosio… O pior era ter dúvidas, Ambrosio, e o maravilhoso poder fechar os olhos e dizer Deus existe, ou Deus não existe, e acreditar… Então a vida se organizaria sozinha e a gente já não se sentiria vazio, Ambrosio.”

“… e isso o preocupava tanto, Zavalita? dizia Aída. E Jacobo, se de todas as maneiras ele tinha que começar acreditando em algo era preferível crer que Deus não existe a crer que existe. Santiago também o preferia, Aída, ele queria se convencer que Politzer tinha razão, Jacobo. O que o angustiava era ter dúvidas, Aída, não poder estar seguro, Jacobo… As dúvidas eram fatais, dizia Aída, paralisam-no e você não pode fazer nada, e Jacobo: passar a vida esmiuçando será verdade? torturando-se será mentira? em vez de agir… Para agir, era preciso acreditar em algo, dizia Aída…”

“Sempre mentindo, a vida toda fingindo… No colégio, em casa, no bairro, no Círculo, na Facção, em La Crónica. Toda a vida fazendo coisas em que não acreditava, toda a vida dissimulando… E toda a vida querendo acreditar em algo. E toda a vida mentira, não acreditando.”

“Tinha se dedicado furiosamente a ler, a trabalhar no Círculo, a acreditar no marxismo, a emagrecer.”

“Eu já invejava as pessoas que acreditavam cegamente em alguma coisa, Carlitos”

“E se você tivesse se inscrito naquele dia, Zavalita, pensa. A militância o teria arrastado, comprometido cada vez mais, teria dissipado as dúvidas e em alguns meses ou alguns anos teria se tornado um homem de fé, um otimista, um obscuro e puro herói a mais? Teria vivido mal, Zavalita, como Jacobino e Aída, pensa, entrado e saído da cadeia algumas vezes, sendo admitido e despedido de sórdidos empregos e, em vez de editoriais em La Crónica contra os cachorros raivosos, escreveria nas páginas mal impressas de Unidad, quando tivesse dinheiro e não fosse impedido pela polícia, pensa, sobre os avanços científicos da pátria do socialismo e a vitória no sindicato dos  panificadores de Lurín… ou teria sido mais generoso e entrado para um grupo insurrecional e sonhado e atuado e fracassado nas guerrilhas e estaria na prisão, como Héctor, pensa, ou morto e decomposto na selva, como o cholo Martinez, pensa, e feito viagens semiclandestinas a Congressos da Juventude, pensa, Moscou, levando saudações fraternais a Encontros de Jornalistas, pensa, Budapeste, ou recebido  treinamento militar, pensa, Havana ou Pequim. Você teria se formado em Direito, teria caso, teria sido assessor de um sindicato, deputado, mais desgraçado, a mesma coisa ou mais feliz? Pensa: ai, Zavalita.”

(04-05 de agosto)

Um dos fatos literários a se comemorar em 2009 são os 50 anos de carreira de Mario Vargas Llosa, que estreou em 1959 com os contos de Os chefes (que, confesso, não li ainda).    E nos últimos meses saiu  nova edição (pela ARX) da tradução de Wladir Dupont para CONVERSA NA CATEDRAL (é a segunda no Brasil, a primeira foi feita por Olga Savary). É incrível como nunca acertam nas capas: tenho uma edição da Francisco Alves, uma do Círculo do Livro e agora esta pela ARX, e todas são feíssimas e pouco inspiradas (é só ver a foto acima). A melhor ainda é a da edição anterior (de alguns anos atrás) da mesma tradução que comentarei esta semana.

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No entanto, creio que se trata da obra-prima de Vargas Llosa, a meu ver o grande romancista da América Hispânica de todos os tempos, com uma quantidade de títulos impressionantes. Basta lembrar de A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, A casa verde, Tia Júlia e o escrevinhador, A cidade e os cachorros, Cadernos de Don Rigoberto,  livros que ficam pouco atrás de CONVERSA NA CATEDRAL; tem também os deliciosos Pantaléon e as visitadoras, Elogio da Madrasta, O paraíso na outra esquina, Quem matou Palomino Molero? , e até A festa do bode e Travessuras da menina má têm seu interesse (apesar de mais fracos). E como esquecer dos surpreendentes e inusitados História de MaytaO falador?

os chefes

     Tenho lido muito durante esses anos todos a ficção de Vargas Llosa (que também é admirável ensaísta) e creio que posso afirmar: CONVERSA NA CATEDRAL é um romance total, um daqueles livros absolutos. É uma visão caleidoscópica e assombrosa da ditadura do general Odría, que deu o golpe no Peru no finalzinho dos anos 40 e impôs um regime ditatorial por boa parte da década de 50. E Vargas Llosa o publicou em 1969 (portanto, trata-se de uma obra quarentona), quando tinha apenas 33 anos. É claro que já tinha dado uma idéia mais do que precisa da dimensão do seu talento porque os seus dois primeiros romances, A cidade e os cachorros (durante anos, conhecido no Brasil, e foi assim que eu o li, como Batismo de fogo), em 1962, e A casa verde, de 1965,  eram empreendimentos ciclópicos e singulares (A casa verde ainda se desdobraria em outros devido ao personagem Lituma). Mesmo assim, há algo de incomparável no fôlego e na impressão de totalidade que nos dá o romance que estou relendo, após muitos anos (ainda que na descuidada –em vários pontos–versão de Dupont). O único caso similar das últimas décadas que eu conheço é Fado Alexandrino (1983), um dos grandes romances de António Lobo Antunes.

O título vem do reencontro entre Santiago Zavala, o Zavalita, com o antigo chofer da família, Ambrosio. Santiago vai ao canil municipal  porque homens da carrocinha pegaram seu cão, Batuque (como eles ganham uma miséria e por número de apreensões, às vezes não se furtam de roubar animais, ou mesmo de tirá-los à força dos donos, como aconteceu com a mulher de Santiago). A ironia é que ele, editorialista, vem escrevendo uma série a respeito da raiva e pedindo medidas das autoridades para conter o número de cães na capital. No canil, ele testemunha uma espantosa e bárbara execução de um cachorro (mas consegue resgatar o seu): dois funcionários enfiam-no num saco e o matam a pauladas. Um deles é Ambrosio. No começo do capítulo, saindo do serviço, Santiago (que acabou de fazer 30 anos) se pergunta “em que ponto se fodeu”, “em que ponto o Peru se fodeu”. E verá em Ambrosio um espelho, mais velho, numa escala social diferente, um outro tipo de derrota, de embotamento, de sensação de ter sido vencido pela vida. Aquela sensação de logro existencial que se abate sobre os personagens de Educação Sentimental (do autor predileto de Vargas Llosa, Flaubert, a respeito do qual ele escreveu o magistral ensaio A orgia perpétua), no final de suas trajetórias pelas aventuras da sua geração. A má consciência de Santiago Zavala como homem de imprensa, como marido, como peruano (depois conheceremos os sonhos de sua geração) já aparece logo no princípio de CONVERSA NA CATEDRAL.

E “Catedral” é o nome do boteco, uma espelunca, em que ele e Ambrosio bebem durante horas, numa conversa que permeará as quase 800 páginas (na edição ARX) do romance. Um nome significativo, uma vez que o começo da revolta de Santiago contra sua classe social e sua família foi o anti-clericalismo, a repulsa pelos padres e pelo catolicismo.

Como eu já disse, a conversa entre Santiago e Ambrosio (em torno da qual ronda um segredo bombástico sobre o pai de Santiago, que está no cerne da trama do romance), ambivalente e exasperante, permeia o romance inteiro. Mas, como é seu hábito, e uma das marcas do seu virtuosismo técnico, Llosa faz com que duas ou várias situações fiquem sobrepostas em cada passagem da narrativa. Um exemplo: no capítulo VII da primeira parte (são quatro ao todo), Ambrosio conta a Santiago como conheceu seu pai, Trifulcio; ao mesmo tempo, vemos Trifulcio no seu longo tempo de prisão (há uma cena em que ele e seus companheiros, atirando pedras, conseguem matar uma ave de rapina e toscamente assá-la, havendo uma disputa feroz pelos pedaços; também vemos como sua força é lendária, tanto que Dom Melquíades, possivelmente o diretor da prisão, traz um dos pilares do governo Odría , Emilio Arévalo, cujo filho, Popeye, será muito amigo de Santiago e casará com sua irmã, para uma demonstração), depois a libertação (ele trabalhará para Arévalo), em diálogos que se intercalam com as diligências do homem forte do governo Odría, Cayo Bermúdez para dominar os serviços de inteligência do regime e esmagar os “subversivos”; vemo-lo primeiro com militares, depois num diálogo com o homem que o chamou para fazer parte do governo (e o qual ele está visivelmente solapando e colocando em posição subalterna) e depois com civis poderosos (entre eles, Arévalo e Don Fermín, o pai de Santiago); também vemos torturadores em ação (e um dos torturados, ficamos sabendo, é Trinidad, o companheiro de Amália, a empregada da casa dos Zavala, a quem Santiago e Popeye, como autênticos playbozinhos,  tentaram seduzir numa noite em que a família estaria ausente, causando a demissão dela; ela será o grande amor da vida de Ambrosio; parte da trajetória de Amália, a mais ligada a Trinidad, tínhamos acompanhado num capítulo anterior, contudo parecia que era mitomania de Trinidad a perseguição política e sua morte misteriosa parecia indicar mais que ele era “ruim da cabeça” do que maus-tratos nos chamados “porões da ditadura”); vemos como é o encontro entre Ambrosio e Trifulcio (em que o pai tenta roubar dinheiro do filho, ameaçando-o com uma faca), vemos como Ambrosio saiu de sua cidade natal, e tendo ajudado o jovem Cayo Bermúdez a raptar sua futura esposa (que se tornou uma virago), ir à capital pedir um emprego ao poderoso Robespierre do regime Odría, como ele se transforma no chofer de Bermúdez e como se envolve com os profissionais de repressão e tortura. Tudo isso sem grandes necessidades de explicações e de narrativas muito longas e descritivas. Não, tudo através do intercalamento magistral de diálogos… Tudo puxado (neste capítulo) pelas reminiscências de Ambrosio com relação à sua mãe… O romance como exercício de virtuosismo e como cosmovisão…

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09/07/2011

Os prazeres do épico infinito: a obra inacabada de Alexandre Dumas

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MAIS VERDADEIRO QUE A HISTÓRIA

    Publicado de forma seriada em 1869, e depois interrompido, O Cavaleiro de Sainte-Hermine ficou esquecido até que, num trabalho quase detetivesco, Claude Schopp, especialista na obra de Alexandre Dumas o “reconstruísse” na medida do possível: apesar de suas mil páginas, o último romance histórico do genial criador dos Três Mosqueteiros e do Conde de Monte-Cristo permanece incompleto.

    Para o leitor, pouco importa. Prosseguindo a titânica ambição de Dumas de retratar a história da França desde o Renascimento, a trama é um colossal afresco da época em que Napoleão passa a ocupar o palácio das Tulherias, voltando do Egito como Primeiro Cônsul na França pós-revolucionária (e tendo de enfrentar as dívidas de sua esposa, Josefina).

    O protagonista é Hector de Sainte-Hermine, cuja família se opôs à Revolução. Resultado: o pai e os dois irmãos foram executados. Um deles era um dos líderes do bando de assaltantes cavalheirescos e honrados conhecidos como “companheiros de Jeú”, os quais se apropriam apenas do dinheiro do governo, nunca de particulares, e, quando preso e julgado, tenta se apunhalar antes da decapitação, contudo sua extrema vitalidade o impede de morrer, e mesmo após ser guilhotinado, “sua cabeça, em vez de cair no cesto como as outras, pulou por cima, rolou toda a extensão da plataforma, vindo cair no chão. Abri, numa sacudidela brutal, a fileira de soldados que continha a multidão e deixava um espaço vazio entre ela e o cadafalso e, jogando-me, antes que conseguissem me deter, sobre aquela cabeça querida, tomei-a nas mãos e beijei-a. Seus olhos tornaram a abrir-se, seus lábios estremeceram sob os meus. Oh, juro por Deus, ela me reconheceu”. Hector relata esses fatos descabelados para sua amada, Claire de Sourdis, amiga da enteada de Napoleão. A princípio, ele não se atrevia a se aproximar dela porque havia se tornado um Jeú por conta da sina fatídica que obrigava um membro masculino a suceder o outro na tarefa de vingar a honra familiar (destino ao qual adere Hector de muito má vontade uma vez que admira o futuro imperador, o qual, de fato, da maneira como Dumas o retrata, ofusca inequivocamente o herói da narrativa aos olhos do leitor).

    Por sorte, o chefe dos Jeús, Cadoudal, aceita fazer um pacto com Napoleão, retirando-se para a Inglaterra e “liberando” seus seguidores. Mas Fouché, chefe da polícia napoleônica, é destituído oficialmente do seu cargo, e para obtê-lo de volta cria um falso grupo de Jeús, que comete barbaridades, o que deixa Cadoudal ultrajado e faz com que ele obrigue os “companheiros” a retomarem seu juramento como legítimos Jeús. Assim, na sua própria recepção de casamento (tendo Napoleão como padrinho), numa cerimônia que atraiu toda a alta sociedade francesa, Hector é obrigado a desaparecer, cumprindo o vaticínio de uma vidente, que dizia que Claire seria a “viúva de um marido vivo e esposa de um marido morto”…

    E esse é apenas um dos fios de uma trama multifacetada e fascinante, até às vezes confusa, porque o autor a estilhaça, sem muito rigor de ordenação, em mil sub-tramas. A questão é que cada uma delas é interessante por si só. E o que as unifica milagrosamente é o desejo oceânico de Dumas de dar conta da França inteira no seu relato (e de uma Providência que solapa a ação individual, mesmo que seja a de um Napoleão). Ao responder críticas sobre o livro, ele disse que havia os que escreviam sobre a história baseando-se em documentos oficiais e os que (como ele) perseguiam a história nos pequenos detalhes recolhidos das memórias da época: “Seguindo esse método, entrando nesses pequenos detalhes, é que escrevi quatrocentos volumes de romances históricos mais verdadeiros que a história”. Sorte nossa.

 (resenha publicada originalmente em A TRIBUNA, de Santos,  em 20 de junho de 2009)

O ÉPICO E O ULTRA-ROMÂNTICO

Comentando O Cavaleiro de Sainte-Hermine, último romance (1869)  fiz o mesmo que Alexandre Dumas na primeira metade da trama: submergi o destino do herói no imenso oceano das conspiração à volta de Napoleão. Depois de esmagá-las, o futuro imperador, em 25 de junho de 1804, volta a ser alertado por seu ministro da polícia, Fouché, sobre o destino a ser imposto a Hector de Sainte-Hermine, encarcerado há três anos por seguir (a contragosto) a sina familiar, marcada pela fidelidade à monarquia.

    A partir daí, Hector assume de fato a própria história: indultado por Napoleão, com a condição de “sumir” da sociedade e engajar-se como soldado raso ou o mais reles dos marinheiros, a conselho de Fouché  se incorpora, com o nome de René, à tripulação de um navio corsário (que tem mais a ver com a atual marinha mercante do que com pirataria tal como a imaginamos;aliás, se dêssemos o mínimo crédito à descrição da vida marítima e miitar de O Cavaleiro de Sainte-Hermine teríamos de considerar todos os marinheiros e oficiais franceses como seres dotados do mais profundo cavalheirismo, senso de honra e de apreciação do próximo, embora  o livro seja coalhado de saques e assassinatos).

     Ali, ele realiza feitos notáveis (é praticamente  um super-herói de tanto que o autor exagera seus atributos, que vão da força física ao talento poli-instrumental) e torna-se proprietário de uma chalupa, que o levará, e às primas (às quais salvou do estupro sem se dar a conhecer como parente), à Birmânia. Assim, a narrativa que começou na França, estende-se para os mares e para as terras longínquas exóticas que o colonialismo vai abrindo para a imaginação européia.

    Na Birmânia, um quase antipático René mata tigres, cobras imensas, incendeia uma mata, numa desfaçatez ecológica que nos horroriza hoje em dia, mas que não causa o mínimo espanto nem nos personagens nem no autor. Além disso, assiste o definhamento da prima, Jane, que o ama (só que sabemos que ele não pode amar outra, após ter sido banido e perder a sua amada, Claire de Sourdis), com quem mantém belíssimos diálogos sobre a alma e Deus (um ponto alto do texto). Ela se suicida (fazendo uma feiticeira local picá-la com uma cobra), ele parte, chegando à Europa justamente quando Napoleão se prepara para a guerra com a Inglaterra. Ainda como René, se engaja num dos navios que participam da célebre Batalha de Trafalgar, na qual o Almirante Nelson destrói a esquadra francesa e, no entanto, morre atingido por um tiro que a narrativa insinua ter sido endereçada pelo seu herói (é um dos elementos constitutivos da sua “lenda” posterior). Aprisionado, René salva o navio em que está sendo levado para a Inglaterra do naufrágio, e na Irlanda consegue fugir. Voltando à França, apesar dos seus feitos, esbarra na má-vontade de Napoleão, que não o condecora nem o admite como oficial. Graças a Fouché e seus “conselhos”, ele parte para a Itália (que na verdade é uma colcha de retalhos de pequenos reinos) e, ali assume uma terceira identidade, o conde Léo, que perseguirá, com sua tropa de cinqüenta atiradores, bandidos locais que auxiliam os ingleses e os monarcas depostos.

    O livro repete a seguinte estrutura: René-Hector-Léo aparece em determinada situação (navio corsário, batalha de Trafalgar, caça ao banditismo) como um desconhecido e comete algum ato prodigioso. Essa proeza garante que ele fique próximo ao comandante em cena, que lhe dá liberdade para agir ao seu talante, o que propicia mais proezas e mais admiração. É um esquema muito simples,nem por isso menos eficiente.

De fato, para nossa tristeza (até para quem tem reservas quanto ao herói), esse triunfo do épico se interrompe justamente quando o conde Léo está caçando um facínora, o “Bizarro” (só que aí já foram 1.014 páginas fascinantes). O organizador do texto, o zeloso Claude Schopp fez uma escolha interessante: escreveu ele mesmo o resto do episódio e até que não fez feio, utilizando inclusive os truques dumasianos como a inclusão da correspondência dos personagens históricos.

    Depois, há uma solução de continuidade porque os três derradeiros capítulos (que foram encontrados num arquivo em Praga) já mostram o conde Léo a serviço do imperador, e já envolvido na Grande Guerra, da qual sempre ambicionou participar (além disso, ele recupera sua aura de herói byroniano, melancólico e mórbido). Pena que o mundo foi se alastrando no romance e não houve tempo de terminá-lo (haveria como?). É o velho adágio, a vida é curta, a arte é longa. Mas ninguém vai se arrepender de começar esse infinito O Cavaleiro de Sainte-Hermine.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos,  em 30 de junho de 2009)

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IMPRESSÕES DA LEITURA DIÁRIA (de  13 a 25 de junho) 

                                                                                  I          A editora Martins lançou o último romance (que ficou incompleto) do genial Alexandre Dumas (1802-1870), que só foi publicado em livro (saiu em folhetins ao longo de 1869) em 2005, na França, após uma década e meia de trabalho detetivesco para reconstituí-lo: O cavaleiro de Sainte-Hermine, continuação de um grupo de romances (Os azuis e os brancos, Os cavaleiros de Jeú) que abordam o período napoleônico (por exemplo, a intriga do romance que comentarei esta semana começa em 1801, quando Napoleão se instala nas Tulherias).

       Incompleto que seja, é uma delícia de ler, Dumas deveria ser estudado não só literariamente como também em cursos de criação de roteiros. Com sua experiência no teatro, ele consegue nos fazer “ver” as cenas através de diálogos admiráveis, rápidos, cinematográficos. Já trezentas páginas (são  1047) e nem sei por onde começar a comentar: de cara, além dos diálogos, impressiona a maneira imparcial como Dumas, como grande espírito épico que era, aborda tantos os republicanos quanto os monarquistas. Além disso, a figura de Napoleão é tratada de forma particularmente inspirada, chegando quase a ofuscar a trama central. Na verdade, talvez seja essa a alma do romance: o fascínio pelo destino de Napoleão. Espero ao longo da semana comentar as teorias de Dumas sobre o romance histórico (e também de que forma o destino da sua família, através do seu pai, está ligado a Napoleão), mas antes de mais nada devo dizer que a sua ambição enquanto romancista era criar um vasto painel, desde a época do Renascimento, no qual, mais do que cada indivíduo importante na história da nação francesa,a FRANÇA fosse o personagem central: uma espécie de “comédia humana” em que a história da França fosse o fio condutor.

     O que me impressiona constatar agora, depois que li tanto Dumas quando pré-adolescente (“Os três mosqueteiro”, “O conde de Monte Cristo”, “O máscara de ferro”) é ver como ele era um escritor consciente e refinado. Acho que vou sofrer sempre de uma síndrome de Peter Pan literária porque não consigo deixar de voltar aos mestres da narrativa de aventuras (pelo menos, na superfície) dos meus tempos de garoto (Verne, Twain, o Stevenson de “A ilha do tesouro”, já que conheci o Stevenson de “Jekyll e Hyde” e “O clube dos suicidas” um pouco mais tarde, o próprio criador de D´Artagnan). Quanto mais volto a eles, mais os acho geniais.

     Bem, voltando à trama de O cavaleiro de Sainte-Hermine, Napoleão voltou da campanha do Egito, tornou-se o Primeiro Cõnsul, mora nas Tulherias com Josefina, a qual está sendo acossada pelos credores e tem medo de falar ao marido o montante das dívidas. Napoleão por sua vez consegue a palavra de Cadoudal, grande monarquista e líder dos chouans (grupos monarquistas que se sublevaram na Bretanha) de que vai viver tranquilo no exílio na Inglaterra (devo dizer que Cadoudal é um personagem inesquecível), além de conseguir desbaratar os cavaleiros de Jeú, bandos de assaltantes cavalheirescos, que não roubam particulares, apenas dinheiro do governo :há um episódio delicioso em que um particular teve seu dinheiro roubado durante um assalto e está reclamando numa taberna, justamente onde está, disfarçado, Napoleão, e então aparece inopinadamente o líder dos jeús, mascarado, pede perdão pelo equívoco e lhe devolve a quantia.

Amava, se é que se pode chamar a isso de amar, havia reparado seria um termo mais adequado, havia repardo num belo rapaz de uns vinte e três, vinte e quatro anos. Ele era loiro, tinha lindos olhos pretos, feições demasiado regulares para um homem, mãos e pés de mulher e, com tudo isso, formas tão precisas e tão em harmonia consigo mesmo, em todos os aspectos, que se percebia que aquele invólucro aparentemente frágil continha uma força hercúlea… quando se mostrava em sociedade, não precisava atrair sobre si os olhares por meio de excentricidades. Todos o miravam naturalmente. Seus companheiros, não vamos dizer de prazeres, mas de caça e de viagem, nunca conseguiam levá-lo a um desses divertimentos a que cedem até os mais rígidos,  pelo menos uma vez ao acaso, e ninguém se lembrava de tê-lo visto, não vamos dizer rindo com o riso franco e alegre da juventude, mas simplesmente sorrindo…”

    Pois bem, a enteada de Napoleão, Hortense, tem uma amiga, Claire de Sourdis que está apaixonada pelo belo e misterioso porque melancólico e sombrio  rapaz descrito na passagem acima, Hector de Sainte-Hermine (embora seja o personagem-título, a primeira menção ao nome dele é feita apenas do capítulo X, na pág.  155, numa cena de confidências mútuas entre Claire e Hortense). Ele também é visivelmente apaixonado por ela , mas não permite uma maior aproximação. Eis porque: aquele Morgan, o líder mascarado dos jeús, era seu irmão, e foi preso e guilhotinado (numa trama rocambolesca: um dos membros do grupo era o sr. de Fargas, um sujeito meio pusilânime, com uma irmã mais corajosa que ele,  Diana; ora, Fargas com medo de ser torturado, trai os jeús, e é punido com a morte por seus ex-companheiros,  o corpo sendo largado numa praça em frente à sua residência; Diana jura vingança e fica dois anos combatendo meio disfarçada de homem ao lado dos chouans de Cadoudal para ganhar a confiança dele; seu plano é descobrir a identidade dos jeús, sua localização, e levá-los a cair numa armadilha; ela consegue ser designada como mensageira de um pedido de dinheiro de Cadoudal aos jeús e faz com que eles sejam presos; após serem julgados, como acham indigno morrer na guilhotina, todos os quatro líderes, inclusive o irmão de Hector, se suicidam, mas Sainte-Hermine tem tanta vitalidade que mesmo se apunhalando várias vezes, ainda é levado com vida à guilhotina;  o irmão assiste a tudo; o pior é que seu pai também foi guilhotinado durante a revolução e um outro irmão foi fuzilado, e cada um passou ao outro a missão de vingar-se). Aliás, a cena da morte do irmão suicidando-se a caminho da guilhotina, e depois sua execução, é absolutamente descabelada:  “com a implacável vitalidade que não lhe permitira morrer por sua própria mão, sua cabeça, em vez de cair no cesto como as outras, pulou por cima, rolou toda a extensão da plataforma, vindo cair no chão. Abri [pois é Hector que está narrando, para Claire], numa sacudidela brutal, a fileira de soldados que continha a multidão e deixava um espaço vazio entre ela e o cadafalso e, jogando-me, antes que conseguissem me deter, sobe aquela cabeça querida, tomei-a nas mãos e beijei-a. Seus olhos tornaram-se a abrir, seus lábios estremeceram sob os eus. Oh, juro por Deus, ela me reconheceu!”

       Portanto, eis a situação fatal de Hector: ele está atado ao fatalismo familiar, à questão de honra de ser o varão responsável pela vingança. É por isso que quando o recrutam para os jeús ele não pode recusar. É por isso que ele não pode se aproximar de Claire de Sourdis e por isso ele, que admira Napoleão, não pode aderir ao regime do Primeiro Cônsul (“não pense que sou desses que teimam em elogiar o antigo regime em detrimento do novo, nem que sou cego para as grandes qualidades do Primeiro Cônsul. Eu o vi, outro dia, pela primeira vez, na casa da senhora de Permon e, em vez de sentir repulsa, senti-me atraído”) . Mas Cadoudal, que é o verdadeiro líder da resistência monarquista, sai do caminho de Napoleão, vai para Londres, liberando todos os jeús e chouans das promessas que fizeram (a não ser que ele volte e peça o cumprimento delas…). Dessa forma, Hector se sente livre, declara-se para Claire, narra a ela os destinos dos seus familiares, e eles marcam o casamento,  cujo contrato terá a honra de ter como signatário o próprio cônsul e Josefina, numa grande recepção, digna de um romance de Balzac ou de Proust.

       Na hora da assinatura do contrato de casamento, no entanto, aparece um sujeito distinto mas misterioso, chama Hector à parte e o noivo desaparece, cumprindo o vaticínio que uma profetiza fez a Claire de que ela seria “viúva de um marido vivo” e “esposa de um marido morto”.

      Acontece que Napoleão havia dispensado do seu cargo de ministro da polícia o maquiavélico e sinistro Fouqué, e este resolvera ressuscitar por sua conta os ataques dos cavaleiros de jeú para desestabilizar a nação e conseguir o cargo de volta. Só que os falsos jeús impõem a barbárie: são fogueiros, criminosos que queimam as vítimas para fazê-las confessar onde estão os bens. O pior de tudo é que esses crimes são cometidos sob a invocação do nome de Cadoudal. Este, na Inglaterra, ao saber do fato, fica indignado com Napoleão e desfaz todo o pacto, convocando por apelo à palavra de honra os verdadeiros jeús a se mobilizarem novamente. É por isso que um contrafeito Hector desaparece do próprio casamento…

II

“O que seria dos pobres sem os pobres?”  (Dumas, “O cavaleiro de Sainte-Hermine”,  cap. XXVII, pág. 316)

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     Dumas inicia o capítulo XXX da seguinte forma: “Os leitores devem ter percebido com que profundo escrúpulo apresentamos as personagens históricas que desempenham algum papel nesta narrativa,  sem qualquer posicionamento a priori, e tal como elas se apresentam à imparcial história. Não nos deixamos impressionar nem pelas recordações pessoais de nossas desgraças familiares [o pai dele perdeu um posto para Napoleão, significando para este o primeiro passo para sua ascensão meteórica, e para o sr. Dumas a decadência e a subseqüente penúria econômica para sua família, embora neste trecho ele dê outra explicação, mais  enfeitada], cuja fonte remonta às divisões no Egito entre Bonaparte e Kleber, pelo qual meu pai tomara partido, nem pela hosana de seus eternos adoradores, cujo princípio é tudo admirar, nem por essa moda, vinda com um retorno de oposição a Napoleão III, de denegrir todo o passado a fim de solapar as bases em que se apóia a sua vacilante disnatia”.

    Cito esse trecho para mostrar que, conversando com o leitor o tempo todo sobre os seus méritos, e sempre alegando (inclusive com notas de rodapé e referências bibliográficas) estar documentado (o que é desmentido pelas pesquisas do restaurador do texto, o valente Claude Schopp, que mostra várias invenções, deformações e inexatidões, tiradas de textos inexistentes, listas de nomes falsas, recordações vagas, etc), o grande autor de O cavaleiro de Sainte-Hermine é um escritor profundamente consciente do seu ofício, e faz uma performance de narrador digna das suas teorias sobre a arte do romance histórico. Enquanto avanço na trama (após fugir do seu casamento, Hector é preso. A última vez que o vemos, por muito tempo, é quando ele consegue de Fouché, chefe do serviço secreto de Napoleão, a promessa de que será executado no anonimato, e eles se despedem com o seguinte diálogo:  “Adeus, senhor Fouché, disse Sainte-Hermine, e mil vezes obrigado. Até logo, respondeu Fouché. Até logo?, exclamou Sainte-Hermine, O que quer dizer com isso? Quem sabe, meu Deus, respondeu o ministro da polícia; e a trama, a partir daí, por duzentas páginas, pelo menos, se estilhaça magnífica mas confusamente em mil sub-tramas, a partir de um atentado contra a vida de Napoleão, e a reação dele, de sua polícia, oficial e secreta, aos conspiradores, particularmente os grandes chefes, Cadoudal, Pichegru, Moreau e um suposto herdeiro dos Bourbons, que seria o Duque de Enghien; há, além disso, vinhetas narrativas que traçam retratos de Haydn e Chateaubriand), creio que é a hora de revelar o lado “teórico” da realização dumasiana.

    Quando Dumas começou a publicar seu folhetim, um tal Henry d´Escamps o anatematizou por solapar o “senso de moralidade” e contar intimidades e fatos comezinhos sobre Josefina, o Primeiro Cônsul, o secretário Bourrienne. Para o sr. d´Escamps esse senso de moralidade deveria vir em primeiro lugar, antes da imaginação, do talento ou do espírito, mesmo que o autor afirmasse (antecipando a História das Mentalidades) que a “melhor maneira de escrever a história” é procurar não em documentos públicos e sérios, mas em Memórias do tempo.

     Decerto na esperança de sua história “acontecer” (não aconteceu, Dumas já estava saindo de moda e o realismo-naturalismo já era a nouvelle vague, o noveau roman), mas também com toda a tarimba de quem escreveu dezenas de romances históricos, o romancista enviou uma carta endereçada ao diretor do jornal onde saíra o comentário de d´Escamps:

“Existem duas maneiras de escrever a história.

Uma, ad narrandum; uma, para contar…

Outra, ad probandum; a outra para provar…

Esse segundo modo nos parece ser o melhor e eis por quê: o primeiro consulta as peças oficiais, o Moniteur, os jornais, as cartas e as certidões depositadas nos arquivos, ou seja, os acontecimentos escritos por aqueles que os realizam, e consequentemente, quase sempre desfigurados em seu benefício. É Napoleão revendo a sua vida em Santa Helena, e arrumando-a para a posteridade.Vi nas mãos do sr. Montholon o original do bilhete que anunciava a Hudson Lowe a morte de Napoleão. Estava, em três passagens, corrigido pela mão do próprio Napoleão. Assim, ele, ao morrer, ajeitava para si uma morte napoleônica…

A segunda maneira é bem distinta: estabelece a linha cronológica dos acontecimentos, ou seja, dos fatos incontestáveis, depois procura as causas e os resultados desses acontecimentos nas memórias contemporâneas. Por fim, ela tira uma dedução que não pode ser estabelecida por aqueles que escrevem apenas para relatar, mas de que se servem  vitoriosamente aqueles que escrevem para provar.

Assim, por exemplo, dirá a história ad narrandum: a unificação da Itália efetuou-se sob a alta proteção de Napoleão III. E a história ad probandum dirá: a unificação da Itália efetuou-se apesar da oposição de Napoleão III, que adotou a conquista da Sicília como fato consumado, mas proibiu que Garibaldi transpusesse o estreito de Messina, e os grãos-duques da Toscana e outros caíram apesar do apoio que lhes dava, por ordem do ser. Walewski, nosso cônsul em Livorno, o qual, por ter fracassado, foi despachado para a América.

Seguindo esse metido, entrando nesses pequenos detalhes, é que escrevi quatrocentos volumes de romances históricos mais verdadeiros que a história. O autor de Os três mosqueteiros, O máscara de ferro e A rainha Margot pode afirmar isso. Aliás, ao longo do texto, ele comenta a dificuldade de escrever a história. Por exemplo: É difícil esta nossa posição de romancista: se omitimos esse tipo de detalhe acusam-nos de não conhecer melhor a história do que certos historiadores, e se os revelamos, acusam-nos de querer impopularizar as classes monárquicas”. E ele chega a detalhes extremos como a investigação policial do atentado contra Napoleão feita a partir da descrição dos despojos da égua que morreu durante a tentativa de assassinar o primeiro cônsul.

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    E apesar de ele deixar o leitor completamente siderado pela figura de Napoleão em O cavaleiro de Sainte-Hermine (ainda quero ver se faço uma antologia de suas frases memoráveis no livro), o que ele quer “provar” através da narrativa, entrando nos pequenos detalhes, tem lá sua similaridade com o intuito de Tolstói ao escrever Guerra e Paz (no sentido de restringir o poder individual ante o peso da providência) :

“Quando  é decretado por essa força invisível e desconhecida que um acontecimento feliz ou fatal irá acontecer, tudo contribui para essa vontade que toma conta dos homens e os empurra aqui e ali, ao acaso, para um mesmo objetivo. O que caracteriza os grandes acontecimentos dos tempos modernos, sem  nenhuma exceção, é a pouca influência que os indivíduos neles exercem. Aqueles  homens considerados mais fortes e mais capazes não dominaram nada, não conduziram nada, foram arrastados pelos acontecimentos. Poderosos enquanto  foram os apóstolos do movimento, nulos quando tentaram opor-se a ele, foi essa a verdadeira estrela de Bonaparte, que se manteve brilhante enquanto ele próprio representava os interesses populares e foi se perder naquele insensato cometa de 1811. Aliando-se aos Césares romanos, ele quis aliar, o que era impossível, a causa da Revolução à causa das velhas monarquias. O que o filósofo pode perceber com humilde surpresa é essa força que paira acima das sociedades e cuja ação está nela mesma: não é nas superioridades de gênio ou de casta que devemos buscar os meios de governar”.

III

         Dumas trapaceia desavergonhadamente com relação ao destino de Hector Sainte-Hermine, que volta à baila na pág. 507, três anos após sua prisão e seu mergulho no anonimato. Em 25 de junho de 1804,  Fouché (que consegue reaver seu cargo como ministro da polícia, após esmagarem os conspiradores  e matarem injustamente o Duque de Enghien, morrendo também vários personagens interessantes: Cadoudal, Pichegru, o elegante e janota Coster de Saint-Victor) pergunta a Napoleão o que farão com Sainte-Hermine.

    A partir daí, libertado, mas degradado (terá de servir como simples soldado), Hector ocupará o centro da narrativa. A conselho de Fouché (que tem um estranho e ambíguo interesse por ele e seu destino; o engraçado é que Hector nem questiona as decisões do ministro), ele resolve se engajar num navio corsário. O leitor atual logo imagina: navio pirata. Mas parece mais, a princípio, o equivalente à marinha mercante (embora, na seqüência dos acontecimentos, o Revenant (“aquele que retorna” ou “assombração”), navio no qual ele se engaja, realmente aborde outras embarcações de um modo piratesco, que no entanto parece ser conseqüência do estado de guerra entre França e Inglaterra).

     Quando também imaginamos o nosso herói, um nobre, como simples marinheiro (o equivalente a soldado raso), imaginamos uma vida de sofrimento, de trabalho duro. Que nada! Logo de cara ele impressiona o comandante do Revenant, Surcouf, pelo seu denodo, beleza, força física (ele atira balas de chumbo pesadíssimas a uma distância impressionante), capacidade de esgrima, mais tarde, com o seu inglês fluentíssimo, que é essencial num momento crítico… e o supostamente degradado Hector, agora simplesmente René, vai a bordo como secretário do comandante, com uma rede própria para dormir, e de simples marujo sua vida não tem nada. Ele usa sua fortuna para avalizar dívidas dos outros marinheiros, bebe taças que contêm três garrafas de vinho de uma só vez sem ficar bêbado, canta e toca violão de uma maneira arrebatadora e ainda se atira na água e abre um rasgo de um metro com o seu punhal na barriga de um tubarão que ameaçava um companheiro. Vida mais de diversão do que de degradação. O pobre do Ben-Hur teve de remar, remar e remar nas galés, mas ainda que Hector/René diga a Surcouf que, com quase vinte e seis anos, tem o coração “morto” e que só lhe resta “passar o tempo”, esse tempo é passado de forma bem interessante. E apesar de seus feitos, é um herói de muito pouco carisma para o leitor. O que salva o livro, afastando-se de Napoleão e abrindo-se para o mar é justamente a vitalidade narrativa que nos recria quase cosmicamente a época (só acho que, mesmo para um romântico, Dumas exagerou na dose ao idealizar de tal forma a vida marítima: nem Hollywood aplicou tanto glamour; até as carnificinas cometidas parecem um elemento de pitoresco a mais).

     Ah, tem mais: o Revenant ataca um navio inglês e nesse navio morre um passageiro inocente, e quem ele é? Em todo o vasto mundo, no oceano René foi encontrar o tio, que na sua infância lhe deu rudimentos da vida de marinheiro, e do qual foi afastado por causa da Revolução. Esse tio, que morre na abordagem, tem duas filhas (primas, portanto), que ficam sob a proteção do “simples marinheiro” (aliás, ele as salva de serem violentadas, tendo de matar um companheiro para isso).

     Após a abordagem e captura de uma chalupa que fazia comércio negreiro ilegal (pelas informações, sempre duvidosas, de Dumas, só oito barcos tinham permissão de fazer esse comércio), René acalenta um projeto: pede licença de seis semanas a dois meses a Surcouf (que está com o navio sendo reparado na Ilha de França) para levar as protegidas (a quem não revela ser seu primo), compra a tal chalupa e vai navegar até o litoral da Índia, o destino do navio inglês que abordaram. René quer cuidar delas até o desembarque e reencontro com a família, e quer caçar tigres, panteras e elefantes. Antes disso, fazem excursões pela Ilha de França, com a população negra carregando as jovens em palanquins (e olha que elas estão supostamente de luto), para o meio da exótica mata, com piqueniques e visitações aos cenários do romance pastoral “Paulo e Virgínia”, que foi um tremendo sucesso na Europa da época.

     Para quem se dizia com o “coração morto”, até que não foi mau negócio, não?

IV

     Só na página 787, após alguns indícios, é bem verdade, é que a situação política da França reaparece em O cavaleiro de Sainte-Hermine. Na pág. 631, Hector como René e suas primas vão na chalupa  “Le coureur de New York”, adquirida por nosso herói, para a Birmânia. Essa viagem é descrita com a maior exuberância, com todos os dons de narrador épico do nosso amigo Dumas, e tem até um toque pré-Coração das Trevas em alguns momentos em que mostra a ameaçadora majestade da selva ainda intocada:

“…tudo então parecia ganhar voz para ameaçar o homem: a floresta, a água, as matas pareciam ter cedido o campo de batalha para um exército de demônios pronto a se destroçarem mutuamente; o ar foi o último a se povoar, mas, por volta das onze horas, morcegos do tamanho de corujas vieram esvoaçar sobre as chamas do acampamento e acrescentar suas notas agudas à assustadora sinfonia,passando pelos rolos de fumaça, como se essa fumaça surgisse das bocas do Inferno…”

     Só que Dumas não é autor de problematizar; ele, como Jorge Amado, é um autor afirmativo, os aspectos mais escorregadios da existência sempre são levantados, mas de forma a fazer contraste com um conjunto antes alegre e luminoso do que inquietante.

      O que nos revolta e nos choca, a nós leitores de hoje, é a alegre desenvoltura com que seus personagens massacram vários tigres, em cenas de caça minuciosamente descritas. O meu exemplar está cheio de pontos de exclamação indignados diante dessa barbárie tida como coragem, por mais que eu tente me colocar na mentalidade da época.

     Bem, não vou me ater muito a isso, mesmo porque há todo um lado exasperante na composição de Hector. Ele é tido quase como um super-herói nesse passo da narrativa, e chega um momento cômico em que ele até se torna médico improvisado. E como faz tudo bem, é mais um traço no seu super-heroísmo. Agora me lembrei porque nossos heróis de hoje,mesmo heróicos, sempre apresentam uma pontinha de ironia, como Indiana Jones. Ninguém conseguiria levar um tipo como Hector de Sainte-Hermine a sério, nem que ele fosse interpretado pelo Zach Effron.

      Quando ele e as primas chegam à propriedade delas na Birmânia, encontram um paraíso terrestre: uma colônia harmônica de seres gentis, bacanas, prestativos, honestos, capitaneados por um intendente de lealdade ao patrão a toda prova. Se os homens de Conrad se desmancham moralmente nos “postos avançados da civilização”, os de Dumas florescem e desabrocham. Quem não floresce nem desabrocha é a prima Jane, a qual apaixonada pelo heróico primo, e não correspondida, vai definhando, definhando, até que num gesto desesperado (quando ele comunica sua partida, após cumprida a missão), ela combina com uma feiticeira local uma morte à la Cleópatra (é picada por uma serpente, e depois da mordida a pessoa só tem 24 horas de vida).

     A parte mais interessante desse passo da narrativa, a meu ver, são os diálogos trocados nas noites majestosas pelos dois primos em que são expostas idéias sobre a vida após a morte, Deus, a eternidade. É meio difícil imaginar essas colocações como colóquios de dois jovens que no mais são dois tontos, mas eu gostei muito desses capítulos (vê-se que o assunto preocupava Dumas): “… em vez de criar um Deus dos mundos, que estabeleça a harmonia universal pela ponderação dos corpos celestes, fizemos um Deus à nossa imagem, um Deus pessoal, a quem cada qual pede contas, não dos grandes cataclismos atmosféricos, mas dos nossos pequenos infortúnios individuais. Rezamos a Deus, esse Deus que o nosso gênio humano não pode compreender, que as linhas humanas não podem medir, que não se vê em parte alguma e que, no entanto, se existe, está em toda parte, rezamos como os antigos rezavam ao deus do seu lar, pequenas estatuetas de um côvado de altura, como o índio reza ao seu fetiche, como o negro reza ao seu amuleto (…) minha cara Jane… não atenta para o fato de que está confundindo o tempo com a eternidade. Somos pobres átomos arrastados nos cataclismos  de uma nação, esmagados entre um mundo que se acaba e um mundo que começa…” Jane pergunta se ele não acredita em Deus: “Acredito, sim, Jane, acredito, mas acredito num Deus que fez os mundos, que traçou seus caminhos no éter, mas que, por isso mesmo, não tem tempo para cuidar da felicidade ou da desgraça de dois pobres átomos que rastejam na superfície deste globo… Deus é uma palavra que me serve para nomear aquele que procuro…”

    Jane morre, René parte e volta para a Ilha de França (na volta, ainda socorre Surcouf no combate contra duas embarcações inglesas). Ali, toda a incoerência da narrativa com relação à degradação contida no indulto a Hector se confirma: ele, que nunca fez nada como “simples marujo” no navio de Surcouf, simplesmente pede ao governador da Ilha que o indique como aspirante à oficial em algum navio francês oficial, para que possa lutar na guerra que se prepara. Mas Napoleão e Fouché tinham combinado expressamente que ele não poderia fazer isso. E não combina também com o sentimento de auto-renegação por parte do herói (sentimento que nunca convence ninguém, aliás).

     A verdade da condição de René/Hector, mais literária do que verossímil, mais dentro da psicologia do Alto Romantismo, é que ele é uma encarnação já tardia do herói byroniano, do ultra-romântico. Basta conferir o fato de que ele pede ao governador que o recomende para um comandante de navio, porque deseja se fazer matar. O governador pensa que ele está brincando: “Não estou nem um pouco brincando, estou morrendo de tédio; um dia, num acesso de spleen, vou estourar os miolos; vou ter então uma morte inútil e ridícula, vou estar sendo louco. Ao morrer pela França, vou ter uma morte útil e gloriosa, e vão me chamar de herói”. Antes, por causa do amor de Jane, já lêramos: “Sendo ele próprio jovem e cheio de magnetismo, não escapava da embriagante influência de uma moça bonita, apaixonadamente enamorada, que com seus olhares, apertos de mão, suspiros, flechava a sua própria vida nas artérias do homem que amava. Havia para ele, naquelas conversas apaixonadas, uma atração a um só tempo dolorosa e sensual. Proibir-se de amar aos 26 anos, ou seja, no auge da vida e da juventude, quando o céu, a terra, as flores, o ar, a brisa, os embriagantes estímulos do Oriente, tudo diz Ame, significa lutar sozinho contra todas as forças da natureza”. É a morbidez ultra-romântica na sua manifestação mais plena: o amor fica mais poético e bonito banhado pela morte e pela impossibilidade de amar.

V

Apesar de em certos aspectos (é preciso ter em mente que o autor não reviu para publiccação definitiva) ser uma narrativa desordenada, O cavaleiro de Sainte-Hermine, desde a partida de René/Hector da Ilha de França e do retorno às questões napoleônicas consegue fazer convergirem as duas linhas desenvolvidas pelo autor: a do registro amplo da passagem do consulado ao império, isto é, a liquidação da Revolução; e a da vida marítima, das aventuras em mar aberto, que constituíram o pano de fundo principal da segunda existência do cavaleiro de Sainte-Hermine como René.

      Após (como consumado épico que é, que não tem pressa, e é equânime com todos os lados da questão) ter feito um parêntese para contar a trajetória do Almirante Horatio Nelson e seus amores com Lady Hamilton (assunto de tantos livros e filmes, inclusive da obra-prima de Susan Sontag, O amante do vulcão), ele faz René se engajar como terceiro-tenente de um dos navios franceses que vão participar da Batalha de Trafalgar, vencida pelos ingleses, mas na qual perece Nelson (Dumas chega a insinuar que a bala que o matou foi endereçada por Sainte-Hermine).É certamente o grande momento épico do romance inteiro, tanto que os dois capitulos que narram a batalha e seu resultado (há uma tempestade depois, que atrapalha os planos dos ingleses de se apoderarem de boa parte dos despojos da esquadra francesa) são os mais longos até agora.

 Dumas se esmera nos detalhes quase ao ponto do fastidioso, mas que romance longo não tem seus momentos fastidiosos? , já é quase  um elemento componente do gênero (por isso, tantos desgostam dele). Talvez por minha leitura parcelar, quem está acompanhando-a talvez pense que já não acho a mesma coisa do princípio, de que estamos diante de uma obra-prima do gênero, ainda que inacabada. É certo que não gosto muito do herói, mas ele é quase secundário no efeito geral do livro,que cada vez mais acho poderoso.

                                                             dumas & sainte-hermine

06/07/2011

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

LYGIA

   

antes do baile verde

(as anotações abaixo foram escritas em maio de 2009)

A POÉTICA DO SORRATEIRO

“Assim que comecei a usar a lupa… levei um susto, então era a cara de um inseto debaixo da lente? Fiquei apavorada, aumentados eles eram horríveis! Fui me acostumando quando fui achando que todos esses insetos eram parecidos com a gente nas suas festas. Nas suas brigas. Trabalhavam sem parar e também vadiavam como naqueles ajuntamentos de domingo no largo do Jardim, gostavam de se divertir. E gostavam de brigar e algumas brigas ficavam tão feias que eu fugia com vontade de vomitar. Debaixo da lente era medonho demais”.

(trecho de “A rosa verde”, de A noite escura e mais eu)

Lygia Fagundes Telles está em nova casa editorial. Após a José Olympio, a Nova Fronteira e a Rocco, migrações que fui acompanhando desde os meus 16 ou 17 anos, agora ela está no rol da Companhia das Letras. De saída, foram lançados três dos seus melhores livros, que serão o assunto desta seção, nesta semana: Antes do baile verde, seleção de contos (1970); e  As meninas, seu romance mais prestigiado (1973)..

Por uma questão cronológica, começo com Antes do baile verde.  Lygia nunca foi uma escritora prolífica em obra, sempre o foi mais em títulos. Excelente estrategista, foi sempre uma antologista de si mesma, recambiando contos daqui e dali e reconfigurando sua carreira. Que fique claro, isso não é uma crítica.

Por exemplo, Antes do baile verde, em 1970, era uma espécie de antologia que Lygia F. Telles fazia de seus livros anteriores (há uma seleção chamada Histórias escolhidas, anos antes, mas parece que foi feita pelos editores e não por ela), a primeira de muitas vezes em que fez isso. Hoje a Companhia das Letras publica uma obra com 18 contos (vários deles dos melhores que ela escreveu). A princípio eram 15: de 1949, da sua coletânea O cacto vermelho, ela escolhera três (“O menino”, “Os mortos” e “Olho de vidro”), de 1958, de Histórias do Desencontro foram cinco (“Natal na barca”, “A ceia”, “Venha ver o pôr do sol”, “Eu era mudo e só”, “As pérolas”), de 1965, de  O jardim selvagem foram outros cinco (“Antes do baile verde”, “A caçada”, “A chave”, “Meia-noite em ponto em Xangai”, “A janela”) e havia contos de antologias (“Os objetos” e “O moço do saxofone”).

Com a repercussão, numa 2a. edição, ela incluiu mais cinco: “Verde lagarto amarelo”, “Apenas um saxofone”, “Helga”, “Um chá bem forte e três xícaras”, “O jardim selvagem”, excelentes escolhas.  Assim, durante anos, ele foi republicado com vinte contos (pelo menos, é assim nas edições que tenho, uma do Círculo do Livro, outra –a oitava–  da José Olympio).

Na reedição da Companhia das Letras saíram “Os mortos” e “Olho de Vidro”. Da safra mais antiga, só permaneceu o belissimo “O menino”. Mesmo assim, o livro abrange uma produção entre 1949-1970.

lygiajovem

Bem, após essas considerações de gente minuciosa demais, podemos passar aos textos da seleção (depois haveria muitas outras, Filhos pródigos, que virou A estrutura da bolha de sabão; Mistérios, seleção de contos “fantásticos” e outras tantas, que não podem ser confundidas com as –poucas– coletâneas de textos novos). Resolvi tomar o seguinte caminho, já que adoro o livro e sou profundo admirador dos contos de Lygia F. Telles (dos seus romances também, mas com certeza ele é fundamentalmente uma contista): vou tentar sintetizar a atmosfera e o charme de Antes do baile verde como um todo através dos comentários sobre um conto típico, no caso, “Um chá bem forte  e três xícaras” (da safra de 1965). A primeira coisa que chama a atenção num leitor de 2009 (principalmente os mais jovens e/ou que não conhecem a obra de Lygia) é a atmosfera recôndita, que tem agora um quê de nostalgia, por tratar-se de um tempo já passado, que se revestiu de uma aura quase proustiana: imaginem casas com jardins espaçosos, vizinhos que ficam treinando piano, chás, empregadas zelosas… Parece a atmosfera de textos de Somerset Maugham, ou, mais contemporaneamente, Tennessee Williams (embora o paralelo mais pertinente, a meu ver, na evolução de Lygia seja com a obra de Truman Capote, aspecto que terei oportunidade de desenvolver durante esta semana; a essa altura, ela se identifica com o primeiro Capote, aquele de Outras terras, outras gentes e A harpa de ervas).

O conto começa com uma borboleta pousando numa roseira e sugando o âmago de uma flor. Maria Camila está no jardim da sua casa, conversando com a empregada, que está debruçada na janela. As duas falam da borboleta, das rosas (a empregada nota que a rosa “abriu ontem cedo” e já está murchando, e nada deve ser desconsiderado nesse texto, inclusive que parece estar dizendo respeito à patroa). A atmosfera é aparentemente bucólica e idílica: “Havia uma  poeira de ouro em suspensão no ar”. A empregada, Matilde, está tentando pregar uma alça, mas falta um botão, a patroa lhe diz que pegue outro na sua caixa, mas na verdade impede-a de ir, comentando coisas e mais coisas, aparentemente triviais.

Depois de esgotarem o assunto da borboleta e da rosa, Matilde pergunta se a patroa não quer que traga o chá. Maria Camila diz que está esperando “a menina”, que ficou de aparecer às cinco (que coisa mais inglesa, mais civilizada, evocando a cerimônia do chá das cinco, algo que lembra decoro, boa educação, berço). No silêncio da tarde o zumbido de uma abelha avulta e um riso de criança ouvido ao longe (não há criança na casa). A empregada pergunta se conhece a tal menina.  Maria Camila diz que não e perguntada sobre a idade da convidada, diz: “Uns dezoito”. Resposta de Matilde: “Mas então não é menina“, destruindo a idéia inofensiva e pueril (no sentido literal) que o termo escolhido, “a menina”, poderia evocar nessa tarde de jardins, chás, borboletas e rosas (mas sem crianças e com a maldita abelha zumbindo, e a rosa fanando…aliás, Maria Camila comenta desgostosamente que chega a ser obsceno ver aquela borboleta sugando aquela flor).

Com barulhos vindo da rua, a borboleta alça voo e Maria Camila faz o gesto de tocar a corola da flor: “Não chegou a tocá-la. Recolheu as mãos e ficou olhando para as veias intumescidas com a mesma expressão com que olhara para a rosa”. Matilde pergunta se a visitante é “conhecida do doutor” (primeira referência ao marido). “Trabalham juntos” e o conto vai tomando nova feição. A moça é estagiária no laboratório em que o dono da casa trabalha. E a senhora conhece ela, pergunta Matilde. “Já vi de longe“. Matilde: “Então é essa que às vezes telefona para ele“.  “Deve ser, sussurrou Maria Camila apanhando a pétala que caíra na relva. Levou-a aos lábios que estavam  lívidos: Deve ser”. Os lábios que estavam lívidos já nos transmitem, sorrateiramente, toda informação que precisávamos sobre a reação de Maria Camila aos telefonemas da estagiária. E os termos da empregada: “essa”, por exemplo.

Matilde insiste no assunto dos telefonemas. Maria Camila: “Os velhos, os mais velhos gostam da companhia dos jovens, acrescentou… dilacerando a pétala entre os dedos”. Aí ela passa para o assunto do menino treinando piano no vizinho, antes era violino. Nisso passa uma adolescente na rua: “[Maria Camila] ficou seguindo com o olhar congelado uma adolescente que passava na calçada. Franziu a cara como se enfrentasse o sol”. E Matilde volta à carga: “Como e que ela se chama? Essa do chá…” Maria Camila lembra do botão que ela tem de pegar na caixa para  pregar a alça. Maria Camila conversa com a rosa, pergunta o que deve fazer agora, passando a pensar logo em seguida: “Augusto, Augusto, o que eu faço agora?” A empregada volta com um botão, conversam sobre o avançar da tarde, Maria Camila ri de repente: “Acho a vida tão maravilhosa!”, surpreendendo a empregada.  O menino pára de tocar. Maria Camila fica alerta.  Olha o relógio, ordena a Matilde: “Assim que a moça chegar, sirva o chá aqui mesmo, faça um chá bem forte. E traga três xícaras”. “Mas se é só a senhora e ela…”  Na verdade, a patroa também espera o patrão, “o doutor”, ele deve aparecer. Nesse assomo de energia: “Quero os guardanapos novos, não vá esquecer, hein? Os novos.” Passos ressoam na calçada, deve ser a menina, “essa” que telefona, a estagiária, aquela contra o qual os exércitos de Maria Camila devem estar alinhados (o chá bem forte, a sua bonita e arrumada casa, os guardanapos novos), a amante do marido: “Maria Camila levantou a cabeça. E caminhou decidida em direção ao portão“.

Não é preciso uma revelação bombástica, uma cena de dramalhão, um elemento a mais, para indicar essa cumplicidade meio hipócrita da empregada com a patroa, a distância social jamais sendo preenchida, porém a convivência obrigando a “aludir” a uma situação intolerável. Acho esse conto sensacional.

O esquema de “Um chá bem forte e três xícaras” se repete no bem mais (e merecidamente) famoso “Antes do baile verde”, o conto-título,  ainda que com modulações diferentes: ainda é a surda cumplicidade hipócrita com a empregada, da moça com o pai moribundo e que não quer se sentir culpada por ir pular o carnaval. (acho que não é ocioso anotar aqui que Clarice Lispector também tem um pequeno grande texto que aproxima carnaval e morte, “Restos do carnaval”, de Felicidade clandestina, uma seleção que ocupa na obra clariceana de certa forma a mesma posição de Antes do baile verde; ressalte-se que no conto de Lygia é o pai, no de Clarice, a mãe). E analisando friamente, trata-se de uma arcabouço paradigmático:  boa parte dos textos de Antes do baile verde são estruturados em torno de um diálogo entre duas pessoas, uma das quais é marcadamente frágil se flagrada num confronto direto, por isso os confrontos lygeanos são sinuosos e mediados. Temos os irmãos,o introspectivo e inadaptado Rodolfo e o bem sucedido Eduardo de “Verde lagarto amarelo” (confesso que acho esse título meio forçado), o casal (?) de “Os objetos” (um conto onde  o personagem mais frágil se agarra a objetos “arredondados” e hospitaleiros porém sua atenção, sabemos depois, está no focada no objeto com arestas, que não convida, que não conforta: uma adaga), temos os casais de “A chave” (na verdade, é um confronto desdobrado, entre o personagem masculino e a mulher mais velha que ele abandonou e a mulher mais jovem que ele não consegue acompanhar em sua vida social), de “A ceia” (conto belíssimo, em que uma mulher abandonada dá vexame num restaurante que está quase fechando), “As pérolas” (o homem que foi  “apoltronado” pelo casamento que debate com sua esposa se deve ou não participar de sua vida social) e assim por diante.

A coisa fica mais dramática e menos sorrateira nos confrontos de “Venha ver o pôr do sol”, onde o amante abandonado, à Poe, tranca a ex-amada num sepulcro, após atraí-la com a  lorota da “despedida civilizada” (esse conto foi um dos primeiros que li de Lygia e me impressionou fortemente e até hoje resiste a qualquer revisão); de “Natal na barca” (onde o narrador tem de passar por uma experiência de fé e espiritualidade, para o qual não está preparado); do excepcional “O moço do saxofone” (onde o caminhoneiro quer transar também com a “fácil” mulher do saxofonista, mas acha intolerável que ela infrinja tal sofrimento ao companheiro); do clássico “O menino”, em que sorrateira é a mãe que leva o filho ao cinema onde vai encontrar o amante, e que desperta violentas emoções edipianas e vingativas no rebento, que nunca mais vai ver o filme da vida da mesma maneira. E talvez o mais violento confronto de todos seja o da diva da ópera com o seu “invisível” e por isso perfeito criado chinês no estupendo “Meia-noite em ponto em Xangai”, que para mim seria o ponto alto da seleção se ela não estivesse coalhada de pontos altos (eu não consigo me decidir  quais os melhores, só identifico os de voltagem mais fraca).

Há os contos-monólogos que, no fundo, são diálogos truncados com seres ausentes: é o caso dos maravilhosos “Apenas um saxofone” (a ricaça que subiu na vida explorando os homens e que, tendo sugado o poético e viril saxofonista, com o suicídio dele, pode decorar e redecorar com todo o mau gosto do mundo a sua mansão que não vai recuperar os “dias de saxofone”) e o brasileiro, descendente de alemã, que se incorporou à juventude nazista e que, após a guerra, para dar um grande golpe envolvendo tráfico de penicilina, rouba a perna ortopédica da mulher que ele depois descobre amar intensamente, isso nas convulsões de consciência de homem muito rico (em “Helga”). Pode-se perceber que a perversidade à Nélson Rodrigues não é estranha à Lygia F. Telles. Só é mais elegante.

Dois contos escapam do paradigma confronto seja pela presença ou pela ausência, e são ambos famosos: “A caçada” me impressionou muito há duas décadas, hoje já li coisas mais misteriosas e instigantes, mas ainda acho a atmosfera e construção do texto dignas de figurarem numa aula sobre os princípios básicos do gênero, particularmente o efeito. Hoje em dia, portanto, tenho mais uma admiração técnica pela história do freguês que fica fascinado com uma tapeçaria toda puída representando uma caçada e que é engolfado por ela contemplação após contemplação. Se Lygia tivesse a repercussão de um Cortazar hoje esse seria um conto universalmente estudado. O outro conto se manteve mais forte, para mim: “O jardim selvagem”, a definição que o tio (tão mimado pela tia da narradora) dá à sua esposa, Daniela, que anda sempre com uma luva numa das mãos, que toma banho pelada na cascata, que monta em pêlo, e que pratica eutanásia num cão velho e doente, com um tiro de misericórdia. O tio descobre que está com uma doença terminal e no final a narradora fica sabendo (há muita conversa de comadre no texto, conversa de cozinha, diz-que-diz) que ele se matou com um tiro. Será que se matou mesmo (o que é possível, com um homem casado com um “jardim selvagem”, portanto vivo e implacável, incapaz de dar espaço à fraqueza e à tibieza) ou foi misericordiosa e decididamente morto pela esposa? Isso importa? O que importa é que na vida da narradora adolescente, envolvida pelo adocicamento (doces, doces, doces) e pelo decoro, insinua-se, sorrateira, a peçonha do incivilizado, do indecoroso, do imprevisível. E são sempre famílias que já tiveram tostão e que agora se mantêm dignamente. Os muito ricos em Lygia são as putas que venceram na vida, os traficantes de penicilina que roubaram a perna da amada…

as meninasLygia_FAGUNDES_TELLES

O DESENHO DO TAPETE (imutável?)

Lendo as situações retratadas nos contos de Antes do baile verde (e em boa parte da obra de Lygia), vemos que basicamente se trata de personagens “enredadas” presas na proverbial ciranda petrificada, no aquário (não por acaso os títulos dos seus romances iniciais, Ciranda de pedra; Verão no aquário).  Apesar dos acordes dissonantes, é um mundo em que a estagnação e a decadência  permeiam as relações de forma quase patológica, sinistra. Paradigmático, nesse sentido, é o destino do cliente de “A caçada”, sugado para dentro da tapeçaria que retrata uma cena que reconditamente, a princípio, depois com mais força, até chegar a um ponto premente, convoca a sua participação, a sua “reentrada” fatalística no palco, do qual ele era peça integrante sem nem o saber.

    Em As meninas, no capítulo em que Lião, uma das meninas do título (baiana revolucionária, que justamente está se mandando para a Argélia encontrar-se com o amante, também militante, que fugiu às garras da ditadura), visita (a fim de pegar algumas roupas) a mãe de Lorena Vaz Leme (de família rica, porém decadente, riqueza rural que vai sendo desgastada por empreendimentos infelizes e tresloucados), há a seguinte descrição de desenhos no tapete: “Os olhos acostumados à penumbra viam melhor o desenho enrodilhado mas nítido: o tigre perseguia a gazela até montá-la nos dois lances seguintes, cravando garras e dentes em seu flanco de onde escorria um filete de sangue aguadamente azul. Outras gazelas perseguidas e abocanhadas se multiplicavam na lã e seda da miniatura oriental. Por mais que corressem, como corriam!, estavam todas condenadas. Alisou a cabeça espavorida da que saltava na moita. Procurou no intrincado dos arabescos de folhas um caminho diferente que a gazela pudesse fazer para escapar do tigre iminente: mas teria que sair do tapete. A volúpia com que os homens criam e descriam a fatalidade em tudo quanto tocam. E depois atribuem a responsabilidade aos deuses. Você é livre, soprou no ouvido em pânico da gazela. Agora era livre. Ainda era livre…” 

    A mãe de Lorena (que tenta enganar o tempo com plásticas, amantes mais jovens, baladas) representa a quintessência desse fatalismo representado nos desenhos do tapete. No diálogo com Lião, ela diz: “o terrível da vida é que as coisas acabam”. É automistificação, pois é justamente o contrário. O terrível da vida, em Lygia Fagundes Telles, é que certas coisas nunca acabam. Ficam mofando como a tapeçaria do conto para depois nos pegar desprevenidos e nos sugar para o seu mundo gasto, petrificado, fatalístico. E é nesse perigo que vivem Lorena e Ana Clara, as outras meninas da história, embora com origens sociais quase que antípodas. Lião é a única que pode subverter esse perigo do desenho fatalístico do tapete, das coisas que parece que acabaram, mas nunca acabam. É difícil dizer isso, sem parecer edificante ou parecer estar procurando uma “mensagem” num romance tão complexo, mas ela é o pólo positivo do romance, o fiel da balança, é a novidade no mundo da ciranda petrificada. Ela é o que As meninas traz de novo à ficção de Lygia, e o que torna mais bonito esse novo elemento é a sua ligação com os outros fios da trama que ecoam as recorrências da autora com sua prosa toda feita de “delicadezas perigosas” (é assim que Lorena caracteriza seu gato sumido, Astronauta).

O romance é constituído por doze capítulos. Há a presença da terceira pessoa, da primeira (em geral, tão intercaladas que é preciso um esforço didático para destrinçá-las), mas no geral predomina uma terceira pessoa em “discurso indireto livre”, ou seja, uma 3ª. pessoa que parece contaminada pelo foco da primeira, de tal forma narrador e personagem se misturam (parece difícil e muito técnico, porém As meninas, que é um romance altamente literário e sofisticado, parece fluir “naturalmente”). No primeiro capítulo,  o foco está em Lorena, no seu mundo-concha, na presença dos seus “mortos” e “fantasmas” (mesmo que estejam vivos, como o tal amante misterioso, M.N.), Lião é a amiga folclórica (mas que aparece em cena e com a qual ela conversa), que tem tudo para desagradar em termos de impacto físico (como sua tendência a desleixar a higiene), assim como também é escorregadia a visão que temos da outra moradora do pensionato de freiras, Ana Clara, que domina o foco no segundo capítulo, no qual justamente Lião aparece bem distanciada, apenas como uma referência, enquanto Lorena entra sempre no campo das ruminações turvas da nada clara Ana:

“Resolvo tudo. Então fico verdadeira.´Só peço a Deus pra ser sempre verdadeira´, ela disse não sei quantas vezes naturalmente com intenção de. Verdadeira. Com dinheiro também fico, pomba.  Fico a própria boca da fonte  jorrando a verdade. É fácil dizer a verdade na riqueza…”

    O trecho acima é importante porque é Ana Clara, a drogada, mentirosa, enrolada, malaca, que está com a palavra, confrontando o seu ser e a sua consciência com Lorena, a quatrocentona, refinada, sutil, neurótica . Como nós cohecemos o “lado” de Lorena igualmente, é fácil reconhecer a má fé e a implicância, o ângulo tendencioso da visão turva de Ana Clara sobre a amiga/desafeto. Nenhuma afirmação, em cada um dos lados, é completa porque só há determinados dados.    Concha e tabula rasa. A concha querendo a “vida impecável”, limpa, arrumada, ordeira,quase diáfana, como se não houvesse caos dentro e fora; a tabula rasa desejada pela “dançada”, que tenta se fazer acreditar que há um ponto em que a vida possa ser reformada/reformulada, o passado anulado, que se possa começar do zero, toda a fragmentação interior, a miséria psíquica, reordenadas numa estrutura unívoca e harmônica. Duas faces da mesma automistificação, embora a lucidez ronde avisando que são tão somente automistificações (pois elas não são nada bobas, e Ana Clara, querendo ficar chapada, admoesta o namorado traficante que continua “podre de lúcida”). O roque-roque do pensamento-realejo roendo o (e rodando pelo) cérebro, os recalques e obsessões indo e vindo. Lião, nesse ponto, é como a realidade (caótica e opressora): vem de fora, exige o posicionamento, o comprometimento que ambas tentam recusar de modos diferentes e igualmente irrisórios (Joan Didion: “ninguém está isento do movimento geral):

“Bom é ficar olhando a sala iluminada de um apartamento lá adiante, as pessoas tão inofensivas a rotina. Comem e não vejo o que comem. Falam e não ouço o que dizem, harmonia total sem barulho e sem braveza. Um pouco que alguém se aproxime e já sente odores. Vozes. Um pouco mais e já nem é espectador, vira testemunha. Se abre o bico para dizer Boa noite! passa de testemunha para participante. E não adianta fazer aquela cara de nuvem se diluindo ao largo porque nessa altura já puxaram a nuvem para dentro e a janela-guilhotina fechou rápida. Eram laços frouxos? Viraram tentáculos”.

Como variações musicais, o esquema se repete no terceiro capítulo (Lorena), no quarto (Ana Clara) e no quinto (Lorena, novamente), enquanto a ação, sem que pareça acontecer nada, vai avançando, Lorena na direção da imponderabilidade, Ana Clara da impossibilidade, ambas na insustentabilidade.

O sexto capítulo rompe com o quadro de diversas maneiras: Lião ocupa a cena, ao mesmo tempo tudo é mais objetivo, sem as ruminações, sem o roque-roque do pensamento recorrente e obsessivo. São ações, são projetos, estamos a princípio num escritório de militância política, depois há a notícia da  libertação de Miguel, o amante e a necessária partida para a Argélia (gozado: o que pareceria a princípio datado, essa história da ação revolucionária, é o que mais dá sangue e vida a esse romance, apesar do charme dos outros lados do triângulo, e foi essa justamente a maior surpresa da minha releitura, quando na minha memória afetiva a personagem de Lião era a que menos contava, e para mim, agora, ela é que dá o significado mais pleno ao texto). Nesse sexto capítulo, há também uma conversa-chave entre Lião e  a madre responsável pelo pensionato.

No sétimo capítulo, pela primeira vez há uma divisão do foco narrativo, entre Lorena e Lião.  O oitavo, que é o mais dramático e um ponto alto da prosa de Lygia, temos o clímax da participação de Ana Clara, perdida na cidade, na noite e na vida (os perigos sobre os quais a madre acautelava Lião, as ciladas que gazelas sofrem no desenho do tapete da casa da mãe de Lorena?). A impossibilidade encenada não mais na modorra de uma sesta/morgação, mas na própria ação. O nono capítulo volta a Lorena, e a sua imponderabilidade é colocada em xeque, não mais em fantasias e devaneios, mas no concreto (a cena com o rapaz que é a fim dela, Guga) e é quando Lião lhe dá a notícia da sua viagem (o mundo em torno da concha vai rachando-a).

No décimo capítulo ocorre a já citada visita de Lião à casa da mãe de Lorena (simétrica de certa forma ao seu diálogo com a madre no sexto capítulo). No décimo-primeiro, Ana Clara chega destroçada no quarto de Lorena, que lhe dá um banho (o mundo concha tentando lavar os pecados do mundo real, também uma aspiração à tabula rasa por vias mais subreptícias) e depois vai ao quarto de Lião, que está preparando sua partida. Ao voltar para seu quarto, Lorena descobre que Ana Clara está morta e chama a amiga. É curioso que nesse capítulo que “reúne” as três não há (como no romance inteiro) encontro real entre Ana Clara e Lião.

E no último capítulo, eis as três pela noite paulista: Lião e Lorena “desovando” o corpo de Ana Clara, de forma a que não haja complicações no pensionato. O cuidado de Lorena com a morta, salvando as aparências, deixando-a linda. Os caminhos que se bifurcam: Lião indo para a Argélia, o futuro em aberto, Lorena voltando para a casa da mãe, para a concha-mor, para o desenho do tapete. Embora haja alguma esperança. Porque senão, pelo que vimos no posterior As horas nuas (1989) sabemos no que dá essas mulheres em apartamentos-conchas, o enlouquecimento e desvario progressivo, essa preocupação em salvar as aparências, e nada acabando, nunca…

Houve portanto uma troca de posições entre Ana Clara e Lião, em termos de estratégia narrativa e Lorena continuou sendo, grosso modo, a representante do mundo asfixiante e estagnado, mundo  ao qual Ana Clara aspira e o qual Lião rejeita, por isso a mais frágil das três meninas é de certa maneira o fio condutor de toda a trama.

 

 

22/04/2011

Vão Brown

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DOZE RAZÕES PARA ODIAR DAN BROWN

15.05.09- APÓS 137 capítulos de Anjos e Demônios

1) Porque ele não respeita a regra dos Illuminati: “O caminho estava oculto. Era um quebra-cabeça, construído de tal forma que apenas determinadas pessoas teriam a capacidade de encontrar os marcos”  ou mais adiante: “Podem ter visto e não ter percebido o que viam. Lembra-se dos marcos dos Illuminati? A habilidade para esconder o que está à vista?”  A “arte” de Don Brown consiste em reiterar o óbvio, não desvelar o desconhecido, instigar para o oculto. É um laxante espiritual, não um estimulante.

2)  Porque ele subestima a inteligência dos leitores  ao achar que está lhes prestando um serviço ao inserir informações de forma tosca e não-trabalhada no seu texto (por exemplo nas págs. 22-23 da edição brasileira, a respeito do termo Hassassin, ligado ao assassino da trama: “Seus antepassaos haviam formado um pequeno mas mortífero exército para se efender… hábeis carrascos que percorriam o país trucidando o inimigo onde quer que o encontrassem. Eram afamados não só por seus extermínios brutais, como por celebrá-los entregando-se ao entorpecimento causado pelo uso de drogas. A droga escolhida era uma potente substância inebriante a que chamavam de hashish, o haxixe. À medida que sua notoriedade se espalhava, esses homens letais parecem a ser conhecidos por uma única denominação: Hassassin, literalmente os seguidores do haxixe… Hoje pronuncia-se assassino”´; isso é um texto do autor ou é uma informação “colada” ?)

3)Porque ele só parece trabalhar por fórmulas. Eu li O código da Vinci antes e nele ele utilizou os seguintes elementos de Anjos e Demônios (entre os que colhi até agora):

um assassinato brutal iniciando a intriga;

o assassinado tem uma filha ou neta ou qualquer parentesco que se pense e que é sedutora, além de inteligente, e que vai fazer parte da investigação; aliás, ela está intimamente ligada ao trabalho e à missão do falecido;

há um assassino que é uma espécie de fanático, exaltado pela sua própria missão criminosa;

há mais um expert aleijado, que parece suspeito.

4)  Porque o seu suposto erudito e especialista acadêmico (além de herói das histórias), Robert Langdon, se comporta indignamente, como um brocoió. Dá para imaginar alguém com formação acadêmica (e mais de que os dois neurônios “tico e teco”), quando, na pág. 51, ouve que a cientista está trabalhando em emaranhamento quântico, estudando, para tanto, um cardume de atuns, tendo a seguinte reação basbaque (que é provavelmente a reação do público subestimado ao qual ele certamente representa): “Langdon examinou o rosto de seu anfitrião em busca de qualquer vestígio de humor. Einstein e atuns. Ele começava a se questionar se o avião espacial X-33 não o teria deixado no planeta errado por engano”.Ele deve ter vindo, então, do Planeta Imbecilidade.

Aliás, a visão de Langdon como professor é ridícula. Imagine-se um professor diante de uma classe universitária, “andando diante do quadro negro e comendo uma maçã” (p.205). Parece mais uma tia do primário.

5) Porque ele no fundo se ama. Veja-se a caracterização física de Langdon (que os espectadores nunca imaginariam tendo em vista aquele penteado breguinha e ridículo de Tom Hanks querendo parecer inteligente e culto): “Apesar de não ser propriamente bonito no sentido clássico, Langdon, com seus 45 anos, possuía o que as colegas do sexo feminino classificavam de um encanto erudito, mechas grisalhas misturadas ao espesso cabelo castanho, perspicazes olhos azuis, uma voz grave atraente e o sorriso forte e despreocupado de um atleta universitário”.

6) Porque ele não pode narrar simplesmente (apesar de ser um narrador “simples”). Ele tem de “situar” o leitor em relação a tudo, tutelá-lo em tudo. Os personagens chegam em Roma. Não, eles não podem chegar simplesmente em Roma: “Roma…o caput mundi, onde César um dia reinou, onde São Pedro foi crucificado. O berço da civilização moderna. E em seu âmago… o tique-taque de uma bomba”. Valha-me Deus e todos os orixás! Que coisinha abominável!Em Roma, claro, “a brisa cheirava a café expresso e a massa de torta”.Se fosse na Bahia, cheiraria a vatapá.

7) Porque ele convoca o que há de mais estereotipado em seus personagens . A italiana Vittoria pensando no assassino do seu pai adotivo: “notava algo correndo em seu sanue italiano que nunca sentira antes: o sussurro dos ancestrais sicilianos que defendiam a honra da família com justiça brutal. Vendetta, pensou ela, pela primeira vez compreendendo o verdadeiro sentido da palavra” (209). Porca miséria!

OITO- Porque ele acredita ainda nas “historinhas morais”. Por exemplo, o tenente da guarda suíça Chartrand, na melhor tradição “gafanhoto”, pergunta ao “mestre’, o camerlengo Ventresca (e a coisa se torna mais deliciosa porque ele é o vilão da história, será então que Brown não está tirando uma da nossa cara?): Mestre, se deus é onipotente e benevolente, se ele nos ama, não deveria nos proteger do mal? O camerlengo: Tem filhos, tenente? O tenente responde que não. E o mestre, em sua sabedoria: “Imagine se você tivesse um filho de oito anos. Você o amaria?E faria tudo o que pudesse para evitar que ele sofresse na vida? (e o outro responde “claro”)…E deixaria que ele andasse de skate?”. A essa altura, Chartrand já está “admirado, e responde: “Com certeza deixaria que ele andasse de skate, mas diria a ele para ter cuidado”. O camerlengo: “Quer dizer que, como pai desse menino, você lhe daria uns bons conselhos básicos e deixaria que ele cometesse seus próprios erros?” Chartrand: “Eu não correria atrás dele para mimá-lo” O super-sábio: “E se ele caísse e ralasse o joelho?” Chartrand: “Ele aprenderia a ser mais cuidadoso”. O camerlengo, sorrindo: “Então, quer dizer que, mesmo tendo o poder de interferir e evitar que seu filho sentisse dor, você optaria por demonstrar seu amor deixando-o aprender suas próprias lições”. E assim, Deus como pai é para o ser humano, sniff, sniff…

9) Porque no fundo toda a aventura (e isso não é um defeito só de Dan Brown,já é um pressuposto hollywodiano) é resolvido na porrada. Langdon acaba mesmo é nas vias de fato com o Hassassin (na fonte e na Igreja dos Illuminati). Rambo & Cia dispensariam os adornos eruditos e renascentistas.

10) Porque ele amesquinha Kohler, o suposto vilão, com uma historinha chinfrim de ressentimento contra a igreja devido ao que aconteceu com ele quando jovem (deixando-o paralítico). As pessoas não podem ter meramente aversões ontológicas e intelectuais, tem de ter uma historinha pessoal. Isso também serve para as motivações patológicas do camerlengo, com sua historinha com o Papa (aliás, a explicação de como o assassinado resolveu ter um filho é algo “sem comentários”).

11) Porque Dan Brown age de má fé com os católicos. Várias vezes os personagens sentem “orgulho de ser católicos” diante de algum ato heróico ou grandioso, que mais tarde será transformado no seu reverso. Isso é golpe baixo.

12) Porque não dá para não imaginar como cômica (mesmo sendo uma manipulação dos eventos ) a atitude do camerlengo em gritar para o mundo a célebre frase: “Sobre  esta pedra edificarei minha igreja”. O desenvolvimento da história ajuda muito, mas na hora é difícil ler sem rir.

Razões para gostar (um pouco) de Don Brown

anjos e demônios

(resenha publicada em 16.05.09, em “A Tribuna” de Santos)

Sou obrigado a confessar que a leitura preliminar de O Código da Vinci arruinou minha objetividade no julgamento de Anjos e Demônios, fazendo com que reparasse mais nos seus defeitos (transformados em fórmulas pelo livro posterior) e custasse a aceitar suas inegáveis qualidades de enredo  bem arquitetado (e que, tomado em si mesmo, revela bastante engenho). Mesmo assim, tentarei aqui fazer justiça ao que a trama em que Dan Brown criou seu herói erudito, Robert Langdon, tem de melhor e que foi reciclada de forma tão ruim no romance seguinte.

Em primeiro lugar: o prazo. É muito feliz a idéia de criar um limite de tempo em que o tubo com a antimatéria roubada do laboratório do CERN na Suíça (e camuflado na imensidão do Vaticano) causará uma explosão, o que faz com que a ação fique concentrada e ágil (as inverossimilhanças de praxe são irrelevantes numa aventura desse tipo, o que incomoda mesmo são aquelas informações acadêmicas que são “coladas” pelo método mais rudimentar, sem o mínimo trabalho autoral, de forma a que o leitor sinta fraudulentamente que está aprendendo alguma coisa, quando de fato está vivenciando um pastiche do conhecimento; e também a sensação de que, além de demorar um pouco a começar, depois da explosão do artefato, o desfecho se arrasta um pouquinho demais).

Depois, para alívio daqueles que aturaram o pretensioso oportunismo  de O Código da Vinci de estar revelando segredos que abalariam a cristandade e reescrevendo a história oficial, e apesar dos embates entre ciência e religião que embasam a trama (e são a base da ação terrorista e apocalíptica atribuída aos Illuminati), Anjos e Demônios é realmente uma aventura e só: assassinatos ocorrem, há um perigo letal a ser evitado, os mocinhos correm para lá e para cá, desvendam pistas que têm a ver com gênios da humanidade (Galileu, Bernini), mas isso é decorrência da própria substância da conspiração que envolve o Vaticano e seus inimigos, e não uma jornada em direção ao desvendamento de nenhum arcano. No final, o próprio mocinho reconhece que quer mesmo é salvar a mocinha, seqüestrada pelo assassino do cientista que descobriu como criar a antimatéria (pai dela) e de quatro cardeais favoritos na sucessão do Papa, o qual se descobre ter sido envenenado. Ficasse nisso, e tivesse um texto mais bem acabado, teríamos uma obra-prima do gênero.

Por fim, ao contrário do livro que, utilizando pesquisas espúrias, transforma Maria Madalena no Santo Graal, a solução da trama não é grotescamente pífia (reparem que a história de Código da Vinci  não leva a nada, só serve para a mocinha saber que pertence a uma pretensa “linhagem feminina sagrada”), Brown consegue realmente transformar o Vaticano num palco de acontecimentos hecatômbicos, além de divertidos. E até que consegue manter o verdadeiro vilão na sombra quase até o fim, embora utilizando o velho recurso de nos fazer desconfiar do personagem mais antipático, um cientista prepotente e aleijado.

Não quero enfatizar os deslizes de Anjos e Demônios principalmente por ter gostado da sua trama. Só não posso deixar de lamentar que já nesse romance, Brown tem de apelar para uma temerária credibilidade, ao colocar, logo na abertura, “FATOS”, afirmando que os apresentou fidedignamente. Ora, que importância isso teria, se sua ficção (neste caso) é inventiva e auto-suficiente? Quem se importa se o uso que faz de Galileu, Bernini e de suas esculturas, fontes e obeliscos espalhados por Roma seja verdadeiro ou falso? Neste ponto, quando nos convence da verdade da sua mentira, isto é, da sua ficção, ele ainda é um autor com potencial, talentoso. Depois, no seu livro mais divulgado, quando nos tenta convencer de que suas mentiras são verdades, já estamos no reino da lorota e da fraude… ou seja, para usar uma linguagem cara a ele,  no ouro de tolos.

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17/04/2011

Os personagens de Shakespeare (em quatro atos longos e um quinto ato curto)

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1º. Ato (06.05.09)

A editora Martins Fontes lançou, muito oportunamente, um clássico de 1904 da bibliografia sobre Shakespeare, ainda inédito no Brasil: A tragédia shakesperiana.

O livro de  A.C.  Bradley é composto, no essencial (embora haja aspectos “marginais” que comentarei ao longo dos próximos dias) por dez conferências: a primeira delas é sobre A substância da tragédia shakesperiana, e embora muitos possam considerar o texto “datado”, com pressupostos críticos “pouco científicos” e metodologia e terminologia críticas envelhecidas, isso não acontece simplesmente porque sempre vamos nos interessar pelos personagens de um texto, não há morte do sujeito anunciada por nenhum teórico francês que desfaça isso. Bradley propõe uma análise da substância trágica de Shakespeare através do caráter de seus heróis, e associa-a à questão do destino. Sabemos que a Providência (representada pelos Deuses) na tragédia grega era caprichosa, ou quando muito distribuía seus favores e desgraças equitativamente entre bons e maus. Bradley procura definir o que seria a Providência na tragédia shakesperiana. Para ele, no mundo trágico o poder supremo é uma ordem moral  (“vamos entender a afirmação de que o poder ou ordem suprema é moral no sentido de que ele não se mostra indiferente ao bem e ao mal, nem favorável ou desfavorável igualmente a ambos, mas afeita ao bem e hostil ao mal”). Portanto, existe o mal e ele é que causa a convulsão trágica, mas por meio de uma “trágica interação” com o bem num “único e mesmo personagem”.

A conclusão de Bradley é que “se é precipuamente o mal que perturba violentamente a ORDEM DAS COISAS, essa ordem não pode ser simpática ao mal ou pender igualmente entre o bem e o mal, tanto quanto um corpo convulsionado pelo veneno não é receptivo a essa substância nem indiferente à distinção entre veneno e alimento (…) o mal se revela em toda parte como algo negativo, árido, debilitante, destrutivo, um ditame de morte. Ele isola, divide e tende a anular não apenas seu oposto, mas também a si mesmo”.

O personagem dominado (Macbeth) ou contaminado (Otelo, Lear) pelo mal destrói outros e a si mesmo, deixando um rastro de destruição quase “cósmico”: “O que permanece é uma família, uma cidade, um país, arrasado, enfraquecido, mas vivo graças ao princípio do bem que o anima; e, dentro dele, pessoas que, se não possuem o brilho e a grandeza do personagem trágico, não obstante ganharam nosso respeito e confiança.”

Resumindo, a tragédia é a “exposição dessa reação convulsiva” de uma ordem moral envenenada pelo mal, o “sofrimento e a morte trágica nascem da COLISÃO não com uma sina ou com um poder neutro, mas com um PODER MORAL, um poder que se coaduna com tudo que admiramos e respeitamos nos personagens em si (…) a ordem moral não age movida por capricho ou como um ser humano, mas por um IMPERATIVO DA SUA NATUREZA, ou, se preferirmos, POR FORÇA DE LEIS GERAIS, uma necessidade ou lei que, é claro, não conhece exceções e é tão ´impiedosa´ quanto o destino”.

Como se vê, Bradley toca em questões que vão além do mero exame literário. É uma metafísica da tragédia shakesperiana e isso é que desagrada hoje em dia (não a mim, evidentemente). Mas ele envereda por um caminho ainda mais fascinante: “o mal ao qual essa ordem se opõe, e as pessoas nas quais esse mal habita, não são de fato algo externo à ordem, algo que poderia atacá-la ou não sujeitar-se a ela; são intestinos a ela e partes dela [isso nós vemos até na dupla trilogia de Guerra nas Estrelas]. A ordem não é vítima de envenenamento, mas envenena a si mesma. Como Bradley afirma, quando assistimos Otelo não podemos dizer que a ordem moral é responsável pelo bem em Desdêmona e Iago é o responsável pelo mal em si mesmo. “Se fizermos essa afirmação, estaremos nos baseando em outra coisa que não os fatos tal como representados nas tragédias de Shakespeare”.

O envenenamento da ordem moral faz com que ela faça os seus heróis sofrerem e “desperdiçarem a si mesmos”, como um ato de purificação, para salvar a si própria e recupera a paz a partir dessa luta interna, mas nesse processo “perde uma parte de sua própria substância, uma parte mais perigosa e inquieta, mas muito mais valiosa e próxima da sua essência do que aquilo que permanece (um Fortinbrás, um Malcolm, um Otávio). Não há tragédia  na expulsão do mal que ela promove; a tragédia está no fato de que isso implica no desperdício do bem.

A segunda conferência trata da construção das tragédias de Shakespeare, e portanto, da forma. Grosso modo, elas se dividem em três momentos (que abrangem os cinco atos costumeiros): a Exposição (aponta a situação ou estado de coisas de que nasce o conflito; o Conflito (que lida com o desenvolvimento dessa crise e que ocupa a maior parte da peça, todo o segundo, o terceiro e o quarto atos, além de uma parte do primeiro e do último; a Catástrofe, na qual o conflito se converte.

Badley:  “O plano geral de Shakespeare é mostrar um conjunto de forças avançando, em secreta ou aberta oposição a outro, na direção de um êxito inquestionável, e então sucumbindo diante da reação provocada. E as vantagens desse plano são evidentes. Ele apresenta o movimento do conflito com notável clareza e força. Ajuda a produzir a impressão de que, em seu declínio e queda, a ação do agente está se voltando contra ele”.

Nesse capítulo, ele mostra um agrupamento de peças trágicas que até supera o número das que estuda no livro (em A tragédia shakesperiana ele estuda basicamente Hamlet, Otelo, Macbeth, Rei Lear) e mostra a peculiaridade da construção de Otelo, diferente das outras, e que nos faz suspeitar de forte predileção por ela (o que é reiterado na quinta conferência, mas não nos adiantemos).

hamlet

A terceira conferência é sobre Hamlet (cada uma das quatro tragédias ganha é objeto de duas conferências) e trata especialmente do caráter do seu protagonista, das diversas teorias sobre o caráter de Hamlet, que Bradley vai desconstruindo (para utilizar um termo modernoso), antes de apresentar a sua hipótese. Há um trecho que considero bem significativo, mas que vou deixar para daqui a pouco.

Na quarta conferência, ainda sobre Hamlet, após uma série de reflexões sobre as hipóteses quanto ao amor de Hamlet por Ofélia, e a importância disso (ou não) para a ação da peça, Bradley faz uma afirmação surpreendente, que mostra porque sua visão crítica é ainda muito interessante: “como essa explicação não me parece mais convincente e completa do que a outra, prefiro abster-me de opinar e também suspeito que o texto não admite interpretação segura [este parágrafo exprime a minha visão de modo imperfeito]“.  Isto está na pág. 117 da edição da Martins Fontes. Quantos críticos fariam o mesmo e diante de uma platéia? Assumir que não podem chegar a uma conclusão acabada e pronta, e que até a expressão do pensamento é oscilante e tateante? Lembremos que isso foi publicado em 1904!

Nessa quarta conferência, ele fala sobre a figura do rei e mostra seus movimentos na peça em relação aos de Hamlet. Na terceira conferência havia dito: ” não encontramos ao lado do herói  nenhuma figura de proporções trágicas, ninguém como Lady Macbeth ou Iago,  ninguém sequer como Cordélia ou Desdêmona, de tal modo que, na ausência de Hamlet, os demais não seriam capazes de produzir uma tragédia shakesperiana”. Isso está em flagrante contradição com a seguinte reflexão: “…em tudo que acontece ou é feito, apreendemos algum poder maior. Não o definimos, nem sequer o nomeamos, ou talvez ainda sequer dizemos a nós mesmos que está ali, mas nossa imaginação é tomada pela impressão que produz, à medida que se insinua no meio dos atos e omissões dos homens em direção do sem FIM INEXORÁVEL”. Até aí tudo bem, isso se imbrica com as reflexões sobre a Providência, a ordem moral, da primeira conferência. O busílis está na sequência: “Acima de tudo, nós o sentimos em relação a Hamlet e ao rei. Pois esses dois, um pelo recuo diante da tarefa que lhe compete, o outro pelos esforços cada vez mais febris de se ver livre de seu inimigo, parecem determinados a evitar-se mutuamente. Mas não conseguem.  Por caminhos tortuosos, os caminhos mesmos que tomam pensando em escapar, algo os está atraindo silenciosamente, passo a passo, na direção um do outro, até que se encontram e essa força entrega a espada na mão de Hamlet. Ele próprio precisa morrer, pois sente necessidade desse imperativo antes de ser capaz de cumprir a ordem do destino, mas tem de cumpri-lo.  E  rei também, por voltas que dê e atalhos que tome, precisa atingir a meta estabelecida, e só faz  precipitar-se em direção a ela quando envereda por trilhas tortuosas que parecem levar a outro lugar. A concentração voltada para o caráter do herói é capaz de retirar nossa atenção desse aspecto do drama; mas em nenhuma outra tragédia de Shakespeare esse aspecto é tão marcante”. Ora, para que isso valha, quer dizer que as trajetórias são complementares, de Hamlet e do rei, e que o rei é co-parceiro da aura trágica de Hamlet, apesar do seu carisma, então não é possível dizer que nenhuma figura assume proporções trágicas na peça. Ou estou enganado?

laurence olivier como hamlet

2º. Ato (07.05.09)

A quinta conferência trata de Otelo, peça na qual Bradley nota um agigantamento da estatura do herói. A partir do Mouro, os heróis shakesperianos serão DESCOMUNAIS (“dir-se-iam sobreviventes da era dos heróis vivendo num mundo posterior e menor”, o que me lembra imediatamente a atmosfera que cerca alguns dos maiores personagens de O senhor dos anéis, como Aragorn, Boromir, Faramir, o rei Théoden).

Bradley considera a peça a mais pungente e a mais atroz das realizações shakesperianas, com um método de construção único, e a que melhor trabalha com o Conflito que vai desembocar na Catástrofe.

Um aspecto que a ótima tradução (de Alexandre Feitosa Rosas) valoriza é a qualidade do texto de Bradley, suas fórmulas precisas: “A trama de Iago é o caráter de Iago em ação”, que contrastam, de maneira instigante, com o raciocínio tateante, anelante por clareza, apesar das dúvidas e da insegurança de interpretação, que o próprio autor anuncia (ou denuncia).

Para ele, Otelo é um drama da vida moderna (o que a distingue das outras tragédias): “Quando surgiu pela primeira vez, era quase um drama da vida contemporânea, pois o ataque turco sobre Chipre aconteceu em 1570. Os personagens se aproximam de nós, e nossa identificação como drama é mais imediata do que pode ser com Hamlet ou Lear. Além disso, os destinos deles nos impressionam como os de PESSOAS PRIVADAS, mais do que é possível em qualquer das últimas tragédias (…) Otelo não tem, com intensidade igual à das outras três, o poder de expandir a imaginação por meio da sutil sugestão de imensos poderes universais agindo sobre os destinos e paixões individuais… Ficamos mais conscientes de um certo limite, uma supressão parcial daquele elemento do gênio de Shakespeare que o aproxima dos poetas místicos e dos grandes compositores e filósofos… deixa a impressão de que não estamos em contato com o Shakespeare integral”. Ainda assim, parece ser a sua favorita, e essa análise parece aproximar a peça dos modernos romances, não?

Mesmo analisando de forma lúcida e contida, Bradley não deixa de ecoar aqui e ali aquele assombro sentido por todos que lêem e analisam Shakespeare. Fala de um verso, “um dos milagres de Shakespeare” (aquele famoso em que Otelo susta uma briga, dizendo “Keep up your bright swords, for the dew will rust them”, “guardai vossas espadas brilhantes para que o orvalho não as enferruje”), ou mais adiante, “Shakespeare, no que é quase único entre seus pares poetas, parece criar de modo muito semelhante à natureza”… Na oitava conferência, sobre Rei Lear, ele afirma: “Essa é uma das passagens que fazem venerar Shakespeare”… No entanto, ele não chega aos exaltados exageros de Harold Bloom em seus maravilhosos e folclóricos livros.

Na análise do caráter de Otelo, há muita admiração e uma tentativa de desfazer a antipatia que “alguns críticos e não poucos leitores” têm por ele, mas a questão da raça é tratada de forma ambígua, e chega a haver uma nota odiosa nas págs. 444-445: “Não entrarei no mérito de outro debate, segundo o qual, admitindo que o Otelo de Shakespeare era negro, deveria ser representado como negro nos teatros da atualidade. Ouso dizer que não. Não gostamos do Shakespeare real (!!???)… mesmo que  estivéssemos preparados para fazer uma tentativa… se víssemos Otelo negro retinto com os olhos da carne, a aversão da nossa raça,  uma aversão que chega tão perto de ser meramente física quanto qualquer outra sensação humana, talvez tomasse conta da nossa imaginação…” Mesmo pensando em 1904, eu preferia não ter lido essa nota. Outra coisa que embaça o nítido espelho do livro de Bradley: a lengalenga sobre o “feminino” em Desdêmona. Acho que é o pior trecho do livro (mas há um outro terrível: “admitimos perdoá-la por amar a um mestiço, mas consideramos monstruoso que pudesse amar a um negro”): “Desdêmona é o ´feminino arquetípico´ em sua mais adorável e delicada forma, simples e inocente como uma criança, ardorosa na coragem e no idealismo de uma santa  (!!??), radiante naquela sublime pureza de coração que os homens veneram tão mais profundamente porque a natureza foi tão menos pródiga com eles nesse respeito”. Faça-me o favor! Que breguice! Será que realmente as convenções de época podem nos cegar tanto? E cegar uma pessoa tão inteligente e arguta?

Sobrevivendo, leitor, não desista, porque temos uma outra (a sexta) conferência sobre Otelo, muito melhor resolvida (embora toda a primeira parte, antes desse escorregão, da quinta conferência seja excelente), que versa sobre a figura de Iago: “Em nenhum outro lugar, o mal foi retratado com tanta maestria como no caráter de Iago (…) Compará-lo com o Satanás de Paraíso Perdido soa quase absurdo, tão imensamente maior é o mal que caracteriza o personagem de Shakespeare (…) Apenas no Mefistófeles de Goethe encontramos um par à altura. Ali existe algo da tétrica frieza, o mesmo regozijo diante da destruição (…) Dos personagens de Shakespeare, Falstaff, Hamlet, Iago e Cleópatra são possivelmente os mais excepcionais”.

O mal em Iago é a falta de empatia com os chamados “sentimentos humanos”, um “extraordinário embotamento dos sentimentos”. Ele contesta vivamente a idéia de que à paixão por ciúme de Otelo corresponde uma paixão por inveja ou ambição frustrada de Iago: “O poeta que representou Macbeth e Shylock entendia do seu riscado. Quem jamais duvidou da ambição de Macbeth ou do ódio de Shylock? E que semelhança existe entre essas paixões e quaisquer sentimentos que possamos identificar em Iago? A semelhança entre um vulcão em erupção e o fogo mortiço da brasa; entre o desejo fulminante de dilacerar as carnes do inimigo e o desejo, tão encontradiço na vida quotidiana, de, movido pelo ressentimento, infligir castigo em represália a um agravo. A paixão, nas peças de Shakespeare, é extremamente fácil de reconhecer. Que fração disso, ainda que mínima, que vestígio de uma paixão frustrada ou satisfeita, é visível em Iago? Nenhum: esse é exatamente o horror que o caracteriza. Possui MENOS paixão que um homem comum e, apesar disso, perpetra esses atos chocantes”

Othello_Welles

    Bradley procura, então, os motivos que impulsionam Iago: “A ânsia de Iago em satisfazer sua sensação de poder é, creio eu, a maior das forças que o impelem”, que faz dele um artista da arte de intriga pela volúpia em manipular os outros, fazer com que sejam títeres a seu bel prazer (“aqui, com efeito, Shakespeare põe muito de si mesmo em Iago”).

Mas ele contesta o poder intelectual que atribuem a Iago (contrapondo-o curiosamente a Napoleão, “vilão de poder intelectual supremo”; nunca pensei em Napoleão como “vilão” e nunca vi seu fascínio ser explicado por um “poder intelectual supremo”). Na sua visão, isso seria impensável em Shakespeare: “O divórcio entre um intelecto fora do comum e a bondade é alarmante para o espírito saudável; e, sem dúvida, era assim para Shakespeare. A combinação de um intelecto fora do comum com uma profunda maldade é mais que alarmante, é assustadora. Trata-se de algo raro, mas que existe, e Shakespeare o representou em Iago. Mas a aliança de um mal como o de Iago com um intelecto supremo é uma ficção impossível, e as ficções de Shakespeare eram verdadeiras”. Então Shakespeare não podia criar um gênio do mal, só um homem muito inteligente, vaidoso, cheio de desfaçatez e lábia, que joga com todo mundo porque é impudente, embora não imprudente. Pena que ao longo da sua análise, Bradley caia numa visão moralista da verossimilhança psicológica e dramática que sustenta esse raciocínio. Ele afirma que é “a única fonte inesgotável de edificação moral”. Valha-me Deus!

3º. Ato (09.05.09)

As conferências VII e VIII tratam de Rei Lear, a qual Bradley considera, “no todo”, “imperfeitamente teatral”, apesar do imenso escopo, do volume e diversidade das experiências que contém, numa “interpenetração de imaginação sublime, de páthos pungente e humor quase tão comovente quanto o páthos; a amplitude da convulsão tanto da natureza como das paixões humanas (…) Esse mundo nos parece indefinido, em parte, por sua imensidão, e em parte porque se encontra imerso na escuridão”.

Qual é o problema, então? Ainda mais que quase todos concordam que se trata da obra-prima suprema de Shakespeare (embora seja a menos popular entre o público das grandes tragédias). “Existe algo na sua própria essência que luta com os sentidos e exige uma realização puramente imaginativa. Trata-se da maior obra de Shakespeare, mas não da sua melhor peça”. Bradley comenta as experiências de modificação do final, com Cordélia sobrevivendo, e “usando de toda a coragem de que me sinto capaz”, afirma que nossa sensibilidade “clama” por esse final feliz. E tem a ousadia de afirmar: “não me refiro à sensibilidade humanitária, filantrópica, mas à dramatúrgica. A primeira quer que Hamlet e Otelo escapem à sua condenação; a última não; mas deseja que Lear e Cordélia sejam salvos”. É engraçado porque ele chega a afirmar que à exceção de Lear, nenhum dos personagens nos impressiona como uma criação magistral (só que suas análises contrariam muito essa afirmação), e podem mais ser vistos como pertencentes a grupos que representam “extremos”, para o lado do bem ou do mal, da condição humana: “Como pode haver homens e mulheres assim, perguntamos a nós mesmos. Como é possível que a humanidade possa assumir formas tão absolutamente contrárias? E, em especial, a que omissão de elementos que deveriam estar presentes na natureza humana, ou, se não há omissão, a que distorção desses elementos devemos o fato de existirem seres como esses? (…) a nós parece que o próprio autor está fazendo essa pergunta”. Daí a tendência da imagística da peça ao bestiário, proporcionando todo um catálogo de comparações, símiles e analogias com os mais diversos bichos, que deve muito também a uma predileção de Shakespeare pela teoria de Pitágoras sobre a “transmigração das almas”.

Sobre a “ação dupla” da peça (Lear e suas filhas; Gloster, ou Gloucester, e os filhos): “o enredo secundário conta uma história que, por si mesma, precária em densidade [ops], e que dá azo a um contraste extremamente eficiente entre seus personagens e os da trama principal, a força trágica e estatura desta última ganhando relevo diante da conformação mais modesta da primeira [creio que é um equívoco semelhante ao que ele cometeu com relação a Cláudio, o rei, em Hamlet]. Mas seu valor principal está em outro ponto, e não é meramente dramático. Está no fato de que a sub-trama simplesmente repete o tema do enredo principal (…) Essa repetição não se limita a duplicar o sofrimento de que a tragédia dá testemunha: sobressalta e horroriza ao insinuar que a loucura de Lear e a ingratidão de suas filhas não são acidentes ou meras aberrações individuais, mas que nesse mundo frio e sombrio grassa uma força maligna e fatídica, lançando pais contra filhos e filhos contra pais, lançando uma maldição sobre a terra (…) Daí nasce o sentimento que nos assombra em Rei Lear, como se estivéssemos diante de algo UNIVERSAL, não tanto um conflito entre indivíduos, mas entre as forças do bem e do mal do cosmo”.

Há, então, uma tendência à análise e teorização, ou seja, a arte concreta de Shakespeare deriva para o conceitual, “a tendência que, poucos anos mais tarde, desembocou em Ariel e Calibã [ou seja, em A tempestade], a tendência que a imaginação apresenta na direção da análise e da teorização, da decomposição da natureza humana em suas partes integrantes, e então de conceber seres nos quais um ou mais desses fatores está ausente, atrofiado ou apenas incipiente. Essa, é claro, é uma tendência que produz símbolos, alegorias, personificações de qualidades e idéias abstratas; e estamos acostumados a pensar que isso é bastante estranho ao gênio criativo de Shakespeare, que era concreto no mais algo grau (…) mas é arriscado atribuir limites a esse gênio criativo”. Na outra conferência sobre a peça, ele dirá que “a combinação de paralelismos e contrastes que observamos em Lear e Gloster, e também na atitude dos irmãos Edmund e Edgar em relação às superstições do pai, é um dos muitos sinais de que em Rei Lear Shakespeare estava trabalhando mais do que de hábito sobre idéias consciente e maduramente pensadas”.

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A sétima conferência ainda versa sobre o cerne dramático da tragédia, as cenas de tempestade: “Para a imaginação as explosões de paixão de Lear e as descargas de chuva e trovão não são o que para os sentidos têm de ser, duas, coisas, a manifestações de uma coisa só”. E esse é um dos motivos que prejudicam a encenação da peça,onde a necessidade de “efeitos” descaracteriza e diminui de estatura essa identificação: “o motivo é simplesmente tratar-se de poesia, e de uma espécie que não pode ser transplantada para o espaço iluminado pela ribalta, mas respira apenas na imaginação”. Ou seja, voltamos ao começo.

A oitava conferência analisa os personagens. E confesso que eu sempre cultivei certa aversão e rejeição pela figura de Lear, mesmo sendo minha peça favorita de Shakespeare (gostava mais do que acontece em volta dele, e tinha mais interesse pelos irmãos Edgar-Edmund e pelas irmãs Regan-Goneril). Bradley sacudiu um pouco a minha opinião: “Não existe nada mais grandioso e nobre, em toda a literatura, do que a exposição que Shakespeare faz do efeito do sofrimento na ressurgência da grandeza e no despertar da afabilidade da natureza de Lear (…) que aprende a condoer-se e a rezar pelos miseráveis e pelos desassistidos pela sorte, a identificar a falsidade da bajulação a violência da autoridade, e a enxergar além das diferenças de posto e vestimenta a condição humana ali oculta; cuja visão é de tal forma lavada pelo calor das lágrimas que finalmente enxerga como o poder, a posição social e todas as coisas do mundo, exceto o amor, não passam de vaidade (…) Não existe certamente, no universo poético, outro vulto a um só tempo tão magnífico, tão patético e tão belo quanto ele. Ora, mas Lear deve tudo isso aos tormento que nos fizeram imaginar se a vida não se resumiria ao mal, e se os homens não seriam moscas que meninos perversos torturam para seu divertimento. Não estaríamos igualmente perto da verdade se chamássemos esse poema de A redenção do Rei lear  e declarássemos que a intenção dos ´deuses´ em relação a ele não era nem atormentá-lo, nem ensinar-lhe a ´nobre ira´, mas fazê-lo atingir, por meio de uma derrocada aparentemente irremediável, a própria finalidade e o objetivo da vida?” Bradley  voltará a esse ponto insistentemente nessa conferência e é onde mais claramente vemos a inserção daquela idéia sobre a substância da tragédia shakesperiana da primeira conferência, da ORDEM MORAL que rege tal mundo trágico. E a quintessência disso é a fala de Lear diante do “maltrapilho” (depois da instalação da “loucura”, do som e da fúria em sua cabeça): “Então o homem não é mais que isto?Observem-no bem…Ah, três de nós aqui somos por demais sofisticados, tu és a própria coisa. Bradley: “sentimos que todas as coisas externas se tornaram insignificantes para ele, e que o que sobra é a coisa em si, a alma em sua grandeza nua” [note-se que mesmo tocando nesse assunto apaixonante do despojamento e desnudamento total da condição humana, Bradley é bem contemporâneo de Henry James, que adorava expressões como “a coisa em si”].

As questões do parágrafo acima são retomadas na abordagem de Cordélia.  Bradley chega a perguntar: “Por que Cordélia morre?” E sua arte como crítico se eleva nesse ponto, e ele realmente caminha numa corda bamba: “Ora, a destruição do bem pelo mal de terceiros é um dos fatos trágicos da vida, e ninguém pode ser contra a sua representação, dentro de certos limites, dentro da arte trágica”. Mas há um sentimento, uma impressão, que vai além disso, em Rei Lear, nos casos do próprio Lear e de Cordélia: “O sentimento a que me refiro é a IMPRESSÃO de que o ser heróico, apesar de, em certo sentido, e externamente, ter fracasso, é sob outros aspectos, superior ao mundo no qual se movimenta…é antes libertado da vida que privado dela.” Esse sentimento, essa impressão tão pouco crítica já que pouco objetiva e completamente transcendente à análise textual  (e tão apaixonante) “parece implicar a idéia de que, se fosse aprofundado, mudaria a visão trágica das coisas. Implica que o mundo trágico, tal como se apresenta, com todos os seus erros, dolos, fracassos, pesares e perdas, não é a REALIDADE FINAL, mas apenas uma parte da realidade destacada do todo, e, quando vista assim destacada, ilusória; e que SE PUDÉSSEMOS ENXERGAR O TODO, e os fatos trágicos ocupando seu verdadeiro lugar dentro desse todo, nós os veríamos não extintos, é claro, mas de tal modo transmudados que deixariam de ser estritamente trágicos; veríamos, talvez, o sofrimento e a morte significando pouco ou nada, a grandeza da alma significando muito ou tudo, e o espírito heróico, apesar do fracasso, mais próximo da ESSÊNCIA DAS COISAS do que os seres menores, mais prudentes e talvez até  ´melhores´ que sobreviveram à catástrofe” (na nota referente a esse trecho lemos: “Segue-se disso que, se essa idéia fosse tornada explícita e acompanhasse na íntegra nossa leitura da tragédia, confundiria ou até mesmo destruiria a impressão trágica. O mesmo se daria se houvesse a presença constante da fé cristã. O leitor mais apegado a essa fé a põe temporariamente de lado quando está imerso numa tragédia de Shakespeare. Esse tipo de tragédia parte do pressuposto de que o mundo, tal como se apresenta, É A VERDADE, apesar de também despertar sentimentos que levam a crer que NÃO É TODA A VERDADE, e, portanto, NÃO É A VERDADE”).  Ainda dentro dessa linha, temos a idéia (enfatizada no “estupendo” terceiro ato da peça) de que se os maus prosperam nesse mundo e os bons sofrem é pela própria intensificação do contraste entre o externo e o interno, entre a condição social e a alma, entre o que acontece a alguém e o que se é de fato: “vemos os bons se tornando melhores e os maus piorando em função do êxito. O confortável castelo é um vestíbulo do inferno, a charneca batida de tempestades um santuário”. E a vida é sonho.

Passo por cima das análises que ele faz dos vilões e dos personagens bons secundários (Edgar, Kent, o Bobo), a não ser por duas observações. Falando do trio infernal (Goneril, Regan, Edmund), ele nos apresenta outra pérola com relação ao “feminino” que não resisto a transcrever, embora corra o risco de trazer ridículo ao meu bom e brilhante Bradley: “Edmund, para não falar de outras atenuantes, pelo menos não é mulher”. Isso para comentar que a filha má é “o ser humano mais vil jamais concebido por Shakespeare”, e o fato de ser mulher torna isso ainda mais impensável!!?? A outra observação é que na fixação da importância do personagem do Bobo, Bradley se compraz imaginando o próprio Shakespeare voltando de uma noitada de bebedeiras e discussões com dramaturgos rivais, concebendo a utilização do Bobo quase como uma provocação criativa (p. 237

macbeth

4º. Ato  (11.05.09)

Sendo a mais tétrica (mas também a mais densa e vigorosa) das tragédias shakesperianas, não é de se admirar que Macbeth (objeto das duas últimas conferências, a nona e a décima) seja permeada, em sua própria linguagem, tanto quanto nos atos dos personagens, de sangue. Bradley nos dá uma gama enorme de exemplos, comentando também o forte uso da ironia ao longo da peça. Outro aspecto bastante explorado é a questão da presença do suposto sobrenatural (as bruxas, as predições, etc), tudo concorrendo para “gerar essa impressão geral de desassossego em relação a forças ocultas assediando espíritos que jazem alheias nele”.

Infelizmente, após Northrop Frye ter mostrado (em obras como Anatomia da Crítica, A escritura profana, Fábulas de identidade & Sobre Shakespeare, a meu ver, algumas das maiores obras de crítica que existem) o deslocamento do mito na “escritura profana” que é a literatura, os disfarces que os elementos míticos podem adotar, até mesmo na ficção realista, não dá para aceitar de todo as proposições basicamente racionalistas e redutoras de Bradley sobre as “weird sisters”, as bruxas da peça:  “As bruxas não são deusas nem parcas nem sob nenhum aspecto, seres sobrenaturais. São velhas, pobres e maltrapilhas, esquálidas e detestáveis, cheias de escárnio (…) Nem uma sílaba de Macbeth dá a entender que sejam algo além de mulheres (…) apesar de a influência das bruxas sobre Macbeth ser imensa, é mostrado com muita clareza [isso é o que ele diz!] que se trata de influência e nada mais. Não existe na peça o menor sinal [idem] de que Shakespeare concebia os atos de Macbeth como fruto da imposição de forças externas… Macbeth tem total liberdade em relação a elas [!!??]Rigorosamente falando, temos que considerar que Macbeth foi tentado apenas por si mesmo”. E o que isso impede de que vejamos nas weird sisters uma imagem deslocada e altamente eficiente (até no seu aspecto repugnante) de portadoras do destino, enfim, de Parcas [lembro que na minha juventude havia um filme sobre a história de Perseu, Fúria de Titãs, no qual as Parcas eram representadas meio como que as bruxas de Macbeth, repulsivas como as descreve Bradley, velhas, pobres, maltrapilhas, esquálidas, detestáveis, cheias de escárnio].

as sisters weirds

Bem, de qualquer forma as palavras fatídicas das weird sisters trazem algo à tona do fundo de Macbeth e no resto da nona conferência vemos um análise do papel da imaginação no caráter do personagem [o que, lembrem-se, é a tônica do livro, anunciada desde a primeira conferência]. Sua alma nunca deixa de “lhe estorvar o avanço com imagens tétricas, ou de soprar-lhe aos ouvidos que está a assassinar sua paz… Não se trata da imaginação reflexiva e universal de Hamlet… Tampouco seria capaz de compreender, como Otelo, o fascínio da guerra ou a infinitude do amor…Sua imaginação é excitável e avassaladora, mas estreita. Excita-a, quase que exclusivamente, o medo que de súbito a toma de assalto, não raro ligado ao sobrenatural”. Bradley cita versos nos quais, próximo ao seu final aterrador,  Macbeth recorda de sensações da juventude: “Foi-se o tempo em que ouvir um grito à noite/ Teria enregelado os meus sentidos; e a um caso de pavor/ Os meus cabelos levantar-se-iam, pondo-se em pé/ Como se vivos fossem”. Para dizer que é a alma de Macbeth lhe falando na única linguagem em que consegue se expressar, a da imaginação. Mas nesse momento em que recorda sua alma jovem, nele “o mal agora jorra livremente por todos os seus poros”, o que nos indica que essa imaginação ativa não é só do personagem. Esses versos recordam “a pessoa que já tinha sido um dia, e que Iago e Goneril nunca foram”. Mas tudo está consumado e Bradley nos transmite essa sensação da derrocada psíquica de Macbeth com uma das suas formulações precisas e lindas: “Ele já não tem tempo para sentir”.

Apesar de analisar as personagens secundárias e até algumas cenas “marginais” e objeto de discussão dos especialistas, se foram ou não escritas por Shakespeare [como a famosa cena do porteiro], a décima conferência é dominada por Lady Macbeth, como aliás, segundo Bradley, ela domina toda a primeira parte da peça, apagando-se quase totalmente na segunda. Por isso, “seria um equívoco considerar Macbeth, a exemplo das tragédias de amor, Romeu e Julieta e Antônio e Cleópatra, uma peça com dois personagens centrais de igual importância”.  Mesmo assim, Lady Macbeth é considerada por nosso autor  a mais espantosa criação de Shakespeare.

Uma das coisas que Bradley mais enfatiza na sua análise é o amor dela pelo marido, que é desnaturado pela perversão ideológica se podemos dizer assim: “vemos que ´ambição´, ´grande´ e ´glorioso´, até mesmo ´maldade´ para ela não passam de expressões elogiosas e ´santamente´ e ´bondade humana´ são termos cheios de opróbrio.  Em plena euforia, deixam de existir as questões morais, ou melhor, mostram-se invertidas: ´bem´ para ela é a coroa e o que quer que seja necessário perpetrar para obtê-la, ´mal´ é o que quer que lhe estorve o caminho”. E a conclusão de tudo, maravilhosa: “Por estarrecedora que seja, resulta sublime”.

macbeth e lady macbeth

Mais uma vez, como no caso de Iago, Bradley rebate os argumentos que fariam de Lady Macbeth uma vilã de alcance intelectual. É mais sua desfaçatez, sua firmeza de propósito, sua coragem, o fato de ser uma esposa perfeita, que caracterizam seus atos. Sua evolução na peça é diametralmente oposta à do marido (nele a imaginação é solapada pela barbárie e pela sanha assassina, que o fazem pragmaticamente cruel; nela o pragmatismo e oportunismo cedem à imaginação, que Bradley considera diferentemente despertada nela, ou seja, muito presa aos sentidos, como a questão das manchas de sangue).  Ela também é o único dos grandes personagens trágicos shakesperianos a quem é negada a “dignidade do verso” em sua derradeira aparição.

Na análise do casal e na do personagem de Banquo, Bradley mostra a questão da incalculabilidade do mal, “o fato de que, ao mexer com essa força, os seres humanos sequer imaginam do que serão capazes. A alma, o Bardo parece dizer,é dotada de tão inconcebível profundidade, complexidade e sutileza que, quando introduzimos ou deflagramos nela qualquer fator de mudança,  e sobretudo aquele chamado de mal,  só será possível formarmos uma pálida idéia da reação que virá. Só podemos estar certos  de que não será aquilo que esperávamos, e que não será possível escapar dele”[ Michael Corleone, o Macbeth de Coppola, com certeza conheceu muito bem isso].

Bradley explora a questão da simplicidade de Macbeth, que pode ser entrevista até na economia com que Shakespeare caracterizou suas personagens secundárias: Macbeth se destaca por sua simplicidade, pela exuberância na simplicidade, não há dúvida, mas ainda assim por sua simplicidade (…) O estilo em se tratando de Shakespeare não é muito variado, mantendo-se em geral um tom acima em relação às outras três tragédias, e há bem menos intercalação entre verso e prosa do que o usual. Tudo isso concorre para o efeito da simplicidade.  E, sendo assim, não é possível que Shakespeare sentisse instintivamente, ou temesse conscientemente, que conferir demasiada individualidade ou atratividade às figuras secundárias comprometeria esse efeito, e, assim, como um bom artista, tenha sacrificado uma parte em prol do todo? E estaria errado ao fazê-lo? Sem dúvida, evitou a sobrecarga que nos aflige em Rei Lear e produziu uma tragédia bastante diferente dessa última,  não muito aquém em sua magnificência como poema dramático, e superior como teatro” (não é essencial aqui, mas pode-se indicar que Macbeth seria um exercício maduro do tipo de tragédia praticado por Sêneca, que influenciou muito Shakespeare em sua juventude; é curioso porque, nas analogias com peças antigas, antes só haviam sido citados  Ésquilo e Sófocles; nessa linha afirma que é a peça shakesperiana que menos se afasta da tragédia clássica).

A tragédia shakesperiana não acaba nessa décima conferência. Há ainda 33 apêndices sobre aspectos “marginais” que abundaram das análises efetuadas por Bradley. Não vou comentá-los, apesar de haver alguns brilhantes, até mesmo fascinantes. São assuntos como “Onde estava Hamlet no momento da morte do seu pai?”, “Otelo  e as últimas palavras de Desdêmona”,  “Shakespeare encurtou Rei Lear?”, “Algumas passagens difíceis de Rei Lear”,  “A datação de Macbeth. Testes de métrica”, “Quando o assassinato de Duncan foi tramado pela primeira vez?” Pela variedade de extensão, desenvolvimento e até mesmo pela voltagem alta ou baixa de interesse ou brilho de exposição, trata-se mais de uma miscelânea, mostrando igualmente o mergulho (até em aspectos francamente anedóticos) de Bradley no mundo shakesperiano. E ao todo perfazem 120 páginas da edição brasileira.

5º. Ato (11.05.09)

Como inúmeras outras pessoas, já gastei boas horas da minha vida (principalmente nos últimos quinze ou dezesseis anos) me ocupando com os personagens de Shakespeare (inclusive fora da leitura em si das peças), e lendo muito sobre eles. Em seus livros, Harold Bloom diz que nunca conheceremos tantas pessoas na vida, e nem saberemos o suficiente delas, e que a literatura é a suprema bênção porque nos oferece “mais vida, em tempo ilimitado”. Creio que essa é a essência do encanto de A tragédia shakesperiana, de A.C. Bradley, concorde-se ou não com suas afirmações e proposições.Mesmo que pontualmente eu tenha, ao longo da minha leitura do livro aqui, criticado algumas das colocações de Bradley, ele me mostrou que “mais vida, em tempo ilimitado” é o que temos na experiência shakesperiana. Sinto que lendo sobre Hamlet, Lear, Otelo, Macbeth, estou lendo sobre pessoas que conheço, mas que estão me revelando coisas novas e insuspeitas sobre elas, e que elas se tornam ainda mais “reais” e efetivas na minha vida do que já eram, e que posso pensar sobre suas características, seus defeitos e qualidades, de um modo que ultrapassa até as obras das quais fazem parte. Não sei se isso é sadio ou sábio, só sei que é assim. São os nossos “amigos imaginários”. E nem sei se o adjetivo para amigos é totalmente justo ou preciso.

).

                                   

06/04/2011

“O triste hábito de ser alguém”: a poesia do último (ou penúltimo) Borges

jorge_luis_borges_hotelpoesia (borges)

INTRÓITO (30.06.09)

        Num dos poemas do espólio de Joseph Knecht (knecht= servo, em contraposição ao Wilhelm Meister, de Goethe; meister= patrão), protagonista de O jogo das contas de vidro (1943), “Um sonho”, vemos um visitante de um convento nas montanhas, o qual, enquanto todos estão rezando, vai à biblioteca, que possui “livros aos milhares”, pergaminhos “com inscrições maravilhosas”:

“Tomei de um livro e li:

Último passo para se encontar

A quadratura do círculo.

Este livro, pensei. levo comigo!

num outro livro, um in-quarto de couro dourado,

Em letras minúsculas se lia:

De como Adão também comeu da outra árvore…

Da outra árvore? De qual: da vida?

Nesse caso, imortal seria Adão?

Não era em vão, eu percebi, que eu me encontava ali…”

     E assim ele vai de maravilha em maravilha:

“… E comecei a pressentir,

O que cada livro que eu pegava

Vinha comprovar:

Nessa sala se achava a biblioteca

Do Paraíso; todas as perguntas

Que jamais me atormentaram,

Toda a sede de conhecimento

Que me havia queimado,

Encontrava ali sua resposta,

E toda a fome o pão do espírito.

Porque por onde quer que eu lançasse

Um rápido olhar a um volume,

Encontrava nele um título

Cheio de promessas; havia ali resposta

Para todas as necessidades, e podia-se

Partir toda a espécie de frutos

Que um discípulo jamais imaginou e desejou a medo,

A que jamais um mestre estendeu ousado a mão.

O sentido mais oculto e mais puro das coisas,

Toda espécie de sabedoria,

Poesia, ciência, a força mágica

De toda espécie de investigação,

Com sua chave e seu vocabulário,

A mais fina essência do espírito,

Conservavam-se ali em obras magistrais,

Misteriosas, inauditas,

Havia ali respostas a todas as questões

E todos os mistérios, cuja posse era o dom

Que o favores da hora de magia ofereciam…

 

Nas revelações sonhadas pelos povos,

Heranças de milênios de experiência cósmica,

Unia-se em novos laços, harmoniosamente,

Em que jogo mútuo de correlações;

Surgia em revoada toda espécie

De conhecimento de outras eras,

De símbolos, e descobertas sempre novas

De questões sublimes.

E assim, ao ler, em minutos ou horas,

Eu percorri de novo

O caminho de toda humanidade.

Apreendendeo o sentido comum interior

Das mais antigas e modernas descobertas;

Eu lia e via os vultos simbólicos da escrita

Se aparelharem, se afastarem,

Circularem, separarem-se a fluir,

Derramando-se em novas formações,

Simbólicas figuras de um caleidoscópio,

Que recebiam um sentido novo, inesgotável

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 Ele percebe que não é o único visitante desse espetáculo deslumbrante. Ou não será um outro visitante, mas o arquivista: trata-se de um ancião, fervorosamente dedicado a uma ocupação. É preciso chegar mais próximo a ele para ver do que se trata:

“E vi o ancião, com engelhada e branda mão,

Tomou de um livro leu

O que estava escrito na lombada,

Sussurrou com lábios pálidos o título

–Um título de entusiasmar, prometedor

De horas preciosas de leitura!–

Borrou-o com os dedos, levemente,

Escreveu sorrindo um novo título,

Completamente diferente, e em seguida

Continuou a andar, tomando aqui um livro,

E um outro acolá, o título apagando,

E escrevendo outro em seu lugar.

 

Confuso, observei-o longamente,

E então , já que minha razão

Negava-se a entender, voltei ao livro

Onde há pouco havia lido algumas linhas;

Mas a seqüência de imagens

Que me encantara não mais encontrei,

E o mundo simbólico

Apagou-se e se afastou,

Esse mundo em que eu mal penetrara

E cujo conteúdo era tão rico de sentidos cósmicos;

Vacilou, correu em círculo,

Pareceu nublar-se,

E ao se esvair, nada mais deixou de si

do que o vislumbre pardacento

De pergaminhos vazios.

 

Sobre meu ombro eu senti u´a mão,

Ergui aos olhos e vi ao meu lado

O aplicado macróbio; ergui-me. A sorrir,

Ele  pegou meu livro, enquanto um calafrio

Percorria-me, e qual esponja, seu dedo

Foi borrando o título; sobre o couro limpo

Escreveu novo título, questões e promessas,

E desenhando cuidadosamente as letras

Uma a uma, sua pena deu

A velhas questões as mais modernas refrações.

Em seguida levou em silêncio livro e pena.”

      Num poema intitulado “Junho, 1968″, Jorge Luis Borges escreveu:

“…Ordenar bibliotecas é exercer,

de modo silencioso e modesto,

a arte da crítica…”

        Em outro poema do mesmo livro (Elogio da sombra), chamado “O guardião dos livros”, no qual  lemos:

“Ali estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,

A música precisa, as precisas palavras,

Os sessenta e quatro hexagramas,

Os ritos que são a única sabedoria

Que o Firmamento concede aos homens…

As secrretas leis eternas,

O concerto do orbe;

Essas coisas ou sua memória estão nos livros

Que eu guardo na torre.

 

Os tártaros vieram do Norte

em crinudos potros pequenos;

Aniquilaram os exércitos…

Mataram o perverso e o justo,

Mataram o escravo acorrentado que vigia a porta,

Usaram e esqueceram as mulheres…

O pai de meu pai salvou os livros.

Aqui estão na torre em que, jazendo,

Recordo os dias que foram de outros,

Os alheios e os antigos.

 

Em meus olhos não há dias. As prateleiras

são muito altas e meus anos não podem alcançá-las.

Léguas de pó e sono circundam a torre.

Para que me enganar?

A verdade é que eu nunca soube ler,

mas me consolo pensando

que o imaginado e o passado já são o mesmo

para um home que foi

e que contempla o que foi a cidade

e agora volta a ser o deserto.

O que me impede de sonhar que um dia

eu decifrei a sabedoria

e desenhei com aplicada mãos os símbolos?

Meu nome é Hsiang.  Sou o que guarda os livros,

que talvez sejam os últimos

porque nada sabemos do Império…

Ali estão nas altas prateleiras,

ao mesmo tempo perto e distantes,

secretos e visíveis como os astros.

Ali estão os jardins, os templos.”

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (30.06.09)

      A Companhia das Letras reuniu num único volume (singelamente intitulado Poesia)  os sete livros da maturidade poética de Borges, num período que vai de 69 a 85 (ele morreu em 86): Elogio da sombra, O ouro dos tigres, A rosa profunda,  A moeda de ferro,  História da noite, A cifra, Os conjurados.

     O volume começa em esplendor, já que Elogio da sombra (69) é um dos melhores livros de Borges. Foi um dos primeiros que li (numa edição do Círculo do Livro, que o reunia a três coletâneas de ficções, no sentido borgeano da palavra), quando adolescente: uma colega de colegial, Lúcia,  me emprestou dois livros do irmão mais velho (o outro era O eu profundo e outros eus, a conhecida seleção de poemas de Fernando Pessoa editada pela Nova Fronteira; devido a esse contato precoce, ambos, Borges e Pessoa, me ficaram desde essa época, embora não tenha entendido muita coisa, quase como “pessoas da família”, e por isso logo me acostumei com as estranhezas muitas vezes irritantes das suas obras.  Aliás, só aquilo ou aquele de que se gosta muito consegue irritar). 

     Reli-o há alguns anos quando a Globo lançou uma nova edição (ver resenha acima), e agora mais uma vez me ocupo de suas imagens quase lapidares, de suas construções paradigmáticas do que Borges tem de mágico e ao mesmo tempo de exasperante. 

     Acho que o poema de Hermann Hesse, do qual eu transcrevi a maior parte, fornece uma boa idéia da atmosfera desses 31 poemas onde o que se leu é tão importante quanto o que se viveu, e no final tudo é irrisório porque transitório, mas também é recorrente a idéia de continuidade : continuidade dos antepassados no sangue, do Israel bíblico e da tradição apátrida no país que se desenvolveu no século XX, do labirinto clássico na cidade contemporânea, da memória no esquecimento, da natal Buenos Aires nas outras cidades que o poeta percorre (“New England” termina assim: “Buenos Aires eu continuo caminhando/ por tuas esquinas, sem por que nem quando”):

“Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;

eu me orgulho das que li…

ao longo de meus anos professei

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão repletas de Virgílio;

ter conhecido e esquecido o latim

é uma posse, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu porão difuso,

a outra face secreta da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram

as vãs aparências estimadas,

os rostos e a página,

dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro

empregada por meus antepassados para cantar

espadas e solidões…”

Ou ainda num dos poemas a Israel:

“Quem me dirá se estás nos perdidos

Labirintos de rios seculares

Do meu sangue, Israel? Quem, os lugares

Por meu sangue o teu sangue percorridos?

Não importa. Sei que estás no sagrado

Livro que abarca o tempo e que a história

do rubro Adão resgata na memória

E agonia do Crucificado.

Nesse livro estás, que é o reflexo

De cada rosto que sobre ele se inclina

E do rosto de Deus, que, em seu complexo

E árduo cristal, terrível se adivinha…”

        No seu prólogo (Borges era afeito a eles, e era uma das suas estratégias favoritas para ir retocando sua imagem) desse livro que publicou aos 70 anos, o grande escritor argentino afirma que se trata do seu quinto livro de poemas. Nas obras completas pela Emecé ,(e se não contarmos também o inclassificável e fabuloso O fazedor) encontramos Fervor de Buenos Aires; Lua defronte; Caderno San Martín; O outro, o mesmo; Para seis cordas (será que estes dois últimos foram publicados juntos?). O “quinto” (ou o sexto) livro e, como já se disse (Jorge Schwartz), sua “summa” poética:

“Somos nossa memória,

somos esse quimérico museu de formas inconstantes,

essa pilha de espelhos quebrados” (“Cambridge”)

       Nessa edição que estou lendo e comentando, foram retirados três poemas (que constavam nas edições da Globo):  “Elsa” (que ficava entre os poemas “Cambridge” e “New England 1967″); “Milonga de Manuel Flores” & “Milonga de Calandria” (que ficavam entre “Acevedo” e “Invocação a Joyce”).

“Elsa”:

“Noites de longa insônia e de castigo

Que ansiavam a alba e a temiam,

Dias daquele ontem que repetiam

Outro inútil ontem. Hoje os bendigo.

Como pressentiria nesses anos

De solidão de amor, que as atrozes

Fábulas da febre e as ferozes

Auroras não eram mais que degraus

Intrincados e errantes galerias

Que me conduziriam à pura

Culminância de azul que no azul perdura

Desta tarde de um dia e de meus dias?

Elsa, em minhamão eu prendo a tua. Vemos

No ar a neve e a queremos”. (Cambridge, 67).

     Acho que o motivo da exclusão é óbvio. Nada que melindre madame Kodama.

     Já as duas milongas fazem parte agora (nas Obras Completas) de Para seis cordas.

      O primeiro dos 31  poemas restantes, “João I, 14″ (que evoca o famoso “o verbo se fez carne”) mostra um Cristo nostálgico da sua encarnação:

“Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

as noites e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva,

o odor da chuva da Galiléia”

    E a idéia de CONTINUIDADE nos avatares transitórios já dá o tom, dentro do jogo de imagens típico da obra borgeana:

“Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria”.

      A impossibilidade ou o provável também são também faces da eternidade com sua promessa:

“Um pintor prometeu-nos um quadro.

Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos  como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.

(Só os deuses podem prometer, porque são imortais).

Pensei depois se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.

Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.

(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal).

 (02.07.09):                                    O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu  levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim  “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

      A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

 WaltWhitman

    E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos  “Tankas”  (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

 

    “…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

      E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada  no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

 

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

     No poema anterior:

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam  de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

    Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

      Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

 

    Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

                              “… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

 

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu  pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

 

      Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

     Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

 

    E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

         os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

 caricatura (borges)

     Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

    Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

         que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

         esperando.”

      Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

    Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

 

     Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem  Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

     Não posso me furtar a transcrever parte de  “A um gato”:

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

 borges cugato

    E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

     A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

el oro de los tigres

                                         , 

              

jorge_luis_borges[2]

     (05.07.09)

   Nos últimos três dias me ocupei dos livros de poemas que Borges publicou em meados dos anos 70 (em 75, 76 e 77): A rosa profunda; A moeda de ferro; História da noite. Fiquei encantado, contrariando a expectativa (sempre tive um pé atrás com essa fase tardia da poesia borgiana). E na verdade, acredito que História da noite é um dos seus grandes livros e os dois outros livros estão a ele (e à Macro-Narrativa borgiana) tão intimamente ligados, que mesmo o que ficou de repetitivo, de exasperante, faz parte de um conjunto “de ferro” (para utilizar uma locução adjetiva cara ao autor). Em A rosa profunda & A moeda de ferro não há nada particularmente genial ou excepcional nos poemas, mas quase todos têm uma distinção, uma dignidade que nada tem a ver com o acadêmico… E História da noite é um livro de mestre. Neles, perpassa o sopro das quatro metáforas que ele localiza nas Mil e uma noites:  a do rio (no sentido de Heráclito); a da trama do tapete;  a do sonho; a do mapa do Tempo:

                        “…um orbe fluido

De formas que variam como nuvens,

Sujeitas ao arbítrio do destino

Ou do acaso, que são a mesma coisa (…)

                        … a trama

De um tapete, que oferece ao olhar

Um caos de várias cores e de linhas

Irresponsáveis, acaso e vertigem.

Mas uma ordem secreta o governa.

Como aquele outro sonho, o Universo,

Esse Livro das Noites está feito

De cifras tutelares e de hábitos:

Os sete irmãos e as sete viagens.

O trio de cádis e os três desejos (…)

Como no paradoxo do eleata,

O sonho se desfaz em outro sonho

E este, em outro e em outros, que entretecem

Ociosos um ocioso labirinto.

No livro está o Livro (…)

                        … um mapa

Daquela região indefinida, o Tempo,

De quanto medem as graduais sombras

E o perpétuo desgaste de alguns mármores

E os passos de diversas gerações.

Tudo. A voz e o eco, o que miram

As duas opostas faces do Bifronte (…)

Dizem os árabes que ninguém consegue

Ler até o fim esse Livro das Noites.

As Noites são o Tempo, o que não dorme…” (“Metáforas das Mil e Uma Noites”, de História da  Noite)

                                                                 A ROSA PROFUNDA

                                  “No dialeto de hoje

                                  Direi, por minha vez, coisas eternas…”

 

                                  “Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

                                  Erigir este monumento…”

 

                                  “Que arco terá lançado esta seta

                                  que sou ? Que cume pode ser a meta?”

    Em A rosa profunda, talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos  26 poemas) é “1972”:

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias. 

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em  nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

 

    Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

 “Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa  e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

     Na coletânea,  há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

    E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

 “O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

                        “…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

                        …”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

    Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há  o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

    As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

 “Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

    O tigreiro Simón Carbajal:

 “Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

    A cegueira:

 “Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)  

    A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

     Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

 “Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”) 

    Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

                        “…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.”  (“Meus Livros”)

    Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

    E, por fim, a visão da “cerva branca”:

 “Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

             A MOEDA DE FERRO: “As perpétuas águas de Heráclito”

                                  “…o intrincado jogo

                                  Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”

 

                                 “Hoje somos noite e nada”

 

                                  “Eu cometi o pior dos pecados

                                  Possíveis a um homem. Não ter sido

                                  Feliz…”

 

                                  ‘A firme trama é de incessante ferro”

     São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:

 “Que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com muros baixos,

De um alto cavaleiro invadindo a alvorada

(Longo e surrado o poncho)

Em um dia qualquer sobre a planura,

Em um dia sem data.

Que não daria eu pela memória

De minha mãe contemplando a manhã

Na estância de Santa Irene,

Sem saber que seu nome ia ser Borges.

Que não daria eu pela memória

De haver combatido em Cepeda

E de ter visto Estanilao del Campo

Cumprimentando a primeira bala

Com a alegria da coragem (…)

Que não daria eu pela memória

(Que já tive e perdi)

De uma tela de ouro de Turner,

Extensa como a música.

Que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte de Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões (…)

Que não daria eu pela memória

De que tivesses dito que me amavas

E de não adormecer até a aurora,

Perdido e feliz.”  (“Elegia da lembrança impossível”).

     Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi:  “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.

    Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:

 “Pompas do mármore, árduos monumentos,

E pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas a cinza, a menor flama

Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)

“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,

Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia

E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia

–Minha própria versão –de facas ignorantes

E de velha coragem.) Já estremece o Canto,

Já, a custo contidas pela prisão do verso,

Surgem as multidões do futuro e diverso

Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.

Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos

Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.”  (“A Manuel Mujica Lainez”)

     Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.:  “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordandoos fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.

    Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.

     Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.

    Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.

    Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.

     Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms: 

 “Quem te honre há de ser nobre e valente.

Sou um covarde. Sou um triste. Nada

Poderá justificar esta ousadia

De cantar a magnífica alegria

–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)

    Se ainda fosse Shakespeare:

                        “… alguns séculos

E o rei volta a morrer na Dinamarca

E ao mesmo tempo, curiosa magia,

Em um tablado em meio aos arrabaldes

De Londres…” (“Os ecos”)

      Ou Espinosa:

                      “…O assíduo manuscrito

Aguarda, já repleto de infinito (…)

O feiticeiro insiste e lavra

Deus com geometria delicada…”  (“Baruch Espinosa”)

      Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:

                       “… E então sente

Com o assombro de um horror sagrado

Que também ele é um rio e uma fuga.

Deseja recobrar essa manhã

E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)

      Mas resta o consolo dos espantos singelos:

                      “não há no orbe

Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.

A mim só inquietam os espantos singelos.

Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;

Assombra-me que minha mão seja um fato certo;

Assombra-me que do grego a eleática seta

Instantânea não alcance a inalcançável meta;

Assombra-me que a espada cruel seja formosa,

E que a rosa tenha o perfume da rosa.”  (“O ingênuo”)

    Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:

 “Nós te vimos morrer risonho e cego.

Nada esperavas ver do outro lado,

Mas tua sombra talvez tenha avistado

Os arquétipos que Platão, o Grego,

Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe

De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)

    Assim como o poema a Melville:

“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,

Os saxões, que ao mar deram o nome

De rota da baleia, em que se juntam

As duas enormes coisas (…)

Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos

Viram em alto-mar as grandes águas,

Já o havia desejado e possuído

Naquele outro mar, que é da Escritura (…)

…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)

Melville cruza nas tardes New England.

Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)

    Ou o sonho com Kafka:

“Ela era a companheira de Kafka.

Kafka a sonhara…

Ele era o amigo de Kafka.

Kafka o sonhara…

A mulher disse ao amigo:

Quero que esta noite me queiras…

O homem lhe respondeu: Se pecarmos,

Kafka deixará de sonhar-nos…

Kafka disse a si mesmo:

Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.

Deixarei de sonhar-me”.  (“Ein Traum”)

    Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.

    Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.

    De “Para uma versão do I-Ching”:

 “A firme trama é de incessante ferro.

Porém em algum canto de teu encerro

Pode haver um descuido, a rachadura.

O caminho é fatal como a seta,

Mas Deus está à espreita entre a greta”.

     E do poema-título:

“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos

As duas contrárias faces que serão a resposta

Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:

Por que um  homem precisa que uma mulher o queira?”

    Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.

                             HISTÓRIA DA NOITE: O QUE A MEMÓRIA CONCEDE

                                       “…A memória

                             Me concede esta estampa de um livro

                             Cuja cor e cujo idioma ignoro…

                             Às vezes sinto medo da memória.”

 

                             “…no tempo repetem  uma trama

                             Eterna e frágil, misteriosa e clara”

 

                             “As coisas são seu porvir de pó.

                             É óxido o ferro. A voz, o eco”

    Contrariando seu apego por prólogos, essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

     De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

 

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.”  (“Buenos Aires, 1899)

    A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

    “Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

     Em “Leões”:

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

    Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote  (“Eu nem mesmo sou pó”):

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

    Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.”  (“Um livro”)

    E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

     No  poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

    Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

    Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

     Para terminar, o poema-título  (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(o6.07.09)

“…se a memória me devolve um verso,

repito o ritual inumeráveis

vezes em meu assinalado rumo.

Não posso executar um ato novo,

teço e torno a tecer a mesma fábula,

repito um repetido decassílabo,

torno a dizer o que outros me disseram,

as mesmas coisas sinto, sempre à mesma

hora do dia ou da abstrata noite…

Sou o cansaço de um espelho imóvel…”

 ****

                                       “… certo homem

feito de solidão, de amor, de tempo,

acaba de chorar em Buenos Aires

todas as coisas.”

                      NA “DELICADA PENUMBRA DA CEGUEIRA”

 

“Oh, dias consagrados ao inútil

empenho de esquecer a biografia

de um poeta menor do hemisfério

austral, a quem o fado ou os astros

deram um corpo que não deixa um filho

e a cegueira, que é penumbra e cárcere,

e a velhice, alvorecer da morte,

e o renome, que ninguém merece,

e o hábito de tecer decassílabos

e o velho amor pelas enciclopédias

e pelos finos mapas caligráficos

e pelo marfim tênue e a nostlagia

eterna do latim…

e esse mau costume, Buenos Aires…

e que na tarde, igual a tantas outras,

resigna-se a estes versos.”

 

    Passaram-se alguns anos após aquela sucessão de livros e em 1981 o agora octogenário Borges reaparece com um livro surpreendentemente ágil e intenso, A cifra, com 45 poemas. Novamente há uma “Inscrição” para María Kodama e um prólogo importante:

“Minha sina é o que se costuma chamar de poesia intelectual… Admirável exemplo de uma poesia puramente verbal é a seguinte estrofe de  Jaimes Freyre: Peregrina paloma imaginária/que avivas os últimos amores / alma de luz, de música e de flores/ peregrina paloma imaginária. Não quer dizer nada e, à maneira da música, diz tudo; exemplo de poesia intelectual é aquela silva de Luis de Leon, que Poe sabia de cor: Viver comigo quero / gozar do bem que devo ao Céu anseio / sem testemunha, austero / de amor e ciúme, alheio / de ódio, de esperança, de receio. Não há uma única imagem. Não há uma única palavra bonita, com a duvidosa exceção de testemunha, que não seja uma abstração.

     Estas páginas procuram, não sem alguma incerteza, uma via intermediária”. 

    O primeiro poema, “Ronda”, não poderia ser mais típico:

 

“O Islã, que foi espadas

que desolaram o poente e a aurora

e um fragor de exércitos na terra

e uma revelação e uma disciplina

e a aniquilação dos ídolos

e a conversão de todas as coisas

em um terrível Deus, que está só…”

 

    Na minha leitura das outras cinco coletâneas, não tive dificuldade de extrair pequenas citações de cada poema. A cifra, no entanto, me deu trabalho: é difícil não transcrever cada poema inteiro.

    “O ato do livro” entrelaça Cervantes e sua criação ao Islã: “Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

    “Descartes” inaugura um tipo de poema comum no volume: aquele que repete em uma seqüência de versos a palavra inicial, dando uma cadência diferente ao livro com relação aos anteriores.

“Talvez um deus tenha me condenado ao tempo, essa

         longa ilusão.

Sonho a lua e sonho meus olhos, que percebem a lua.

Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.

Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago…

Sonhei a geometria.

Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.

Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.

Sonhei minha enfermiça infância.

Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo ao alvorecer.

Sonhei a inconcebível cor…

Quem sabe eu sonho ter sonhado.

Sinto um pouco de frio, um pouco de medo…

Continuarei sonhando Descartes e a fé de seus pais.”

     Dois poemas seguidos, “As duas catedrais” e “Beppo” aludem aos Arquétipos platônicos.

    Transcrevo algo de “Beppo”:

“O gato branco e casto se contempla

no luzidio vidro do espelho

e não pode saber que essa brancura

e esses olhos de ouro nunca vistos

antes na casa são sua própria imagem.

Quem lhe dirá que o outro que o observa

é somente um sonho do espelho?

Digo-me que esses gatos harmoniosos,

o de cristal e o de sangue quente,

são simulacros que concede ao tempo

um arquétipo eterno…”

     “Ao adquirir uma enciclopédia”, após falar da “dilatada miscelânea que sabe mais que qualquer homem”, ele alude a um  

 

                             “…novo hábito

deste antigo hábito, a casa,

uma gravitação e uma presença,

o amor misterioso pelas coisas

que nos ignoram e se ignoram”.

    Em “Duas formas da insônia”, ficamos sabendo que a insônia é “ensaiar com inútil magia uma respiração regular, é o peso de um corpo que bruscamente muda de lado, é apertar as pálpebras, é um estado parecido com a febre e que certamente não é a vigília…é querer mergulhar no sono e não conseguir mergulhar no sono, é o horror de ser e de continuar sendo…”; mas há a insônia pior, a da longevidade, “o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se me mede por décadas e não com ponteiros de aço… é não ignorar que estou condenado à minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e continuar sendo”.

     “Buenos Aires”, onipresente desde o seu primeiro livro de versos, Fervor de Buenos Aires, publicado nos anos 20:

“Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.

Recordo o ruído dos ferros do portão gradeado.

Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia…

Recordo o que vi e o que me contaram meus pais…

Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.

Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os

         paraísos perdidos.

Alguém quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta

         página,

lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.”

    Em “Hino”:

“Esta manhã

há no ar o incrível aroma

das rosas do Paraíso.

Às margens do Eufrates

Adão descobre o frescor da água,

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus….

Pitágoras revela a seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo…

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela captura agora

o unicórnio branco.

Todo o passado volta feito onda

e essas antigas coisas reaparecem

porque uma mulher te deu um beijo.”

 

(o8.07.09)

ESPELHO E ECO

“Não passo de imagens que o acaso

Vai embaralhando e que nomeia o tédio.

Com elas, mesmo cego e alquebrado,

Hei de lavrar o verso incorruptível

E (é meu dever) salvar-me”.

    Como já disse, A cifra é um livro muito “citável”. Por isso, quem ler e achar coisas lindas não fique achando que as desprezei, é que dá vontade de colocar poemas inteiros aqui (como, por exemplo, “Blake” ou “A trama”).

              “… Minha verdadeira estirpe

é a voz, que ainda ouço, de meu pai,

comemorando música de Swinburne,

e os grandes volumes que folheei,

folheei e não li, e que me bastam…”  (“Yesterdays”)

“Tem o hábito da mate, que de algum modo

povoa a solidão…

…costuma contar, sempre com as mesmas palavras, aquela longa marcha de tantas léguas de Junín a San Carlos. Talvez ele a conte com as mesmas palavras porque as saiba de cor e já tenha esquecido os fatos.” (“Andrés Armoa”.

“Realizei um ato irreparável,

estabeleci um vínculo.

Neste mundo cotidiano,

que se parece tanto

ao livro das Mil e Uma Noites,

não há um único ato que não corra o risco

de ser uma operação de magia,

não há um único fato que não possa ser o primeiro

de uma série infinita.

Pergunto-me que sombras não irão lançar

estas ociosas linhas.”  (“O terceiro homem”)

“Naquele exato momento, disse o homem a si mesmo:

Que  não daria eu pela ventura

de estar a seu lado na Islândia

sob o grande dia imóvel

e de compartilhar o agora

como se compartilha uma música

ou o gosto de uma fruta.

Naquele exato momento,

o homem estava junto dela na Islândia.” (“NOSTALGIA DO PRESENTE”)

    Ele se permite inclusive repetir versos de poemas anteriores (veja-se “O ápice”); em contrapartida oferece-nos alguns dos seus melhores momentos, como o “Reverso”  do “Poema”:

“Acordar aquele que dorme

é impor a outro o interminável

cárcere do universo….

É revelar-lhe que é alguém ou algo

Que está sujeito a um nome que o divulga

E a um cúmulo de ontens…

É saturá-lo de séculos e estrelas.

É restituir ao tempo outro Lázaro

saturado de memória.

É infamar a água do Letes.” (belíssimo, não?)

“A noite nos impõe sua tarefa

mágica. Destecer o universo,

as infinitas ramificações

de efeitos e de causas, que se perdem

na vertigem sem fundo que é o tempo.

A noite quer que esta noite esqueças

teu nome, teus ancestrais e teu sangue;

cada palavra humana e cada lágrima,

o que a vigília pôde te ensinar,

o ponto ilusório dos geômetras,

a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,

o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,

tua face sobre a fronha, o frescor

do lençol estreado, os jardins,

os impérios, os Césares e Shakespeare

e o que é mais difícil, o que amas.

Curiosamente, uma pílula pode

riscar o cosmos e erigir o caos. (“O SONHO”)

    Já “Um sonho” me trouxe à memória as histórias da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, todo construído nessa atmosfera:

“Em um deserto lugar do Irã há uma não muito alta torre de pedra, sem porta nem janela. No único quarto… há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem que se parece comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que em outra cela circular escreve um poema sobre um homem que em outra cela circular…” 

“Do outro lado da morte talvez saiba

se fui uma palavra ou fui alguém”. (“Correr ou ser”, um título que tem o seu quê de cômico.)

    Algumas razões que embasam “A fama”, ou seja, a figura construída publicamente:

“Professar o amor ao alemão e a nostalgia do latim…

Agradecer o xadrez e o jasmim, os tigres e o hexâmetro…

Ter honrado espadas e sensatamente desejar a paz…

Ser Alonso Quijano sem me atrever a ser Dom Quixote…

Ter urdido um ou outro decassílabo.

Ter voltado a contar velhas histórias.

Ter disposto no dialeto de nosso tempo cinco ou seis metáforas…

SER DEVOTO DE CONRAD.

Ser essa coisa que ninguém pode definir: argentino.

Ser cego.

Nenhuma dessas coisas é estranha e seu conjunto me depara

uma fama que não consigo compreender.”

 

    Um dos “Justos” é “o que agradece que na terra exista Stevenson”

    Em “O cúmplice”: “devo justificar aquilo que me fere”.

“Antes de adentrarem o deserto

os soldados beberam longamente da água do poço.

Hérocles entornou sobre a terra

a água do seu cântaro e disse:

Se havemos de entrar no deserto,

 já estou no deserto.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Um homem foi deixado pela mulher.

Resolveram fingir um último encontro.

O homem disse:

Se devo entrar na solidão,

já estou só.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Ninguém na terra

 tem a coragem de ser aquele homem. (“O DESERTO”)

    “O bastão de laca” repete o mote de “O terceiro homem” (e de “A trama”), do vínculo secreto entre todas as coisas:

“Não é impossível que Alguém tenha premeditado

este vínculo.

Não é impossível que o universo precise deste

vínculo.”

 

    “A certa ilha” é uma homenagem-idealização da Inglaterra: “Não falarei de teus mares, que são o Mar/ nem do império que te impôs, ilha íntima/ o desafio dos outros”.

    Há uma série de poemas “orientais”, como “Shinto”: “…por instantes nos salvam/ as aventuras ínfimas/ da atenção ou da memória…” Entre eles, dezessete haikus, dos quais transcrevo quatro:

“É ou não é

o sonho que esqueci

antes da aurora?

 

Calam as cordas.

A música sabia

tudo o que sinto.

 

A ociosa espada

 sonha com suas batalhas.

Outro é meu sonho.

 

A lua nova.

Ela também a olha

de uma outra porta.”

    Esse haiku prepara o poema-título, uma homenagem à lua, esse “hábito da noite”, que vivemos  “descobrindo e esquecendo”.

    Como me surpreendeu esse velho Borges. Muito mais vivo e vivaz do que eu esperava, apesar dos seus cacoetes.

O NÚMERO DA AREIA

“… triste

hábito de ser alguém…”

 

“Somos a água, não o diamante duro…”

 

“esse fato tão notório de que ninguém pode morrer… A morte é mais inverossímil que a vida…”

    Não posso dizer que Os conjurados (1985) seja um livro tão bom quanto História da Noite  ou A Cifra. Mesmo assim, não é uma despedida da vida (ele morreu um ano depois) que se possa desprezar. O próprio autor, mencionando os quatro elementos, no seu prólogo, diz: “costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, entretanto, escrevendo…Seria muito improvável que esse livro, que compreende quarenta composições, não entesourasse uma única linha secreta, digna de acompanhar-se até o fim”.

    Muitos poemas são repetecos (há novamente uma “Trama”, por exemplo), cansados e corretos: “Já somos o passado que seremos”. Ele chega ao cúmulo, em “A soma”, de copiar (piorar) um de seus mais famosos textos, o epílogo de O fazedor. Mas prefiro descobrir as linhas dignas de se acompanhar até o fim.

“O hemisfério austral. Sob sua álgebra

de estrelas ignoradas por Ulisses,

um homem busca e seguirá buscando

as relíquias daquela epifania

a ele concedida, há tantos anos,

de outro lado de uma numerada

porta de hotel, junto ao eterno Tamisa,

que flui como flui esse outro rio,

o tênue tempo elementar. A carne

esquece seus pesares e venturas.

O homem espera e sonha. Vagamente

resgata circunstâncias triviais.

Um nome de mulher, uma brancura,

um corpo já sem rosto, a penumbra

de uma tarde sem data, o chuvisco,

umas flores de cera sobre um mármore

e as paredes, cor-de-rosa pálido.”  (“Relíquias”)

“As lustrais águas dessa noite já me absolvem

das cores variadas, das variadas formas.

As aves e os astros no jardim já exaltam

o regresso almejado das antigas normas

do sonho e da sombra. A sombra já selou

os espelhos que imitam a ficção das coisas.

Melhor o disse Goethe: O próximo se afasta.

Essas quatro palavras cifram todo o crepúsculo…” (“A jovem noite”)

    “Alguém sonha”:

“… esses dois curiosos

irmãos, o eco e o espelho…

… o livro, esse espelho

que sempre nos revela outra face…

… a enumeração que os

tratadistas chamam de caótica e que,

de fato, é cósmica, porque todas as

coisas estão unidas por vínculos secretos…”

    “Alguém sonhará”:

“O que sonhará o indecifrável futuro?… Sonhará que poderemos fazer milagres e que não o faremos, porque será mais real imaginá-los.”.

     E o genial verso de “Sherlock Holmes”: “Vive de modo cômodo: em terceira pessoa”. Só esse já valeria o livro, além do belo título da coletânea (pena que o poema, no qual os membros de uma confraria atemporal ,, no que ele lembra mais uma vez Hesse e seu  Viagem ao Oriente, segue a “estranha decisão de ser razoáveis”, “no centro da Europa, nas terras altas da Europa, cresce uma torre de razão e de firme fé”, nao seja grande coisa).

“Furtivo e cinza na penumbra última,

vai deixando suas pegadas na margem…

Mil anos adiante um homem velho

vai sonhar-te na América. De nada

pode servir-te esse futuro sonho.

Estás cercado de homens que seguiram

pela floresta os rastros que deixaste,

furtivo e cinza na penumbra última..” (“Um lobo”)

“Aos outros todos resta o universo;

a minha penumbra, o hábito do verso…” (“On his blindness”)

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas, agora, são o que é meu… só e nosso o que perdemos… Todo poema, com o tempo, é uma elegia”. (“Posse do ontem”)

“A cinza é tudo que me resta. Nada.

Das máscaras que fui já absolvido,

serei na morte meu total olvido.” (“Pedras e Chile”)

“Deus permite que os homens

sonhem com coisas reais…

 

Entregaram-lhes a um só tempo

o rifle e o crucifixo….

 

Ele só queria saber

se era ou não era valente…

 

Ninguém fique admirado

de que eu sinta inveja e dó

desse homem e de seu fado.” (“Milonga do morto”)

    Talvez o grande poema do livro seja “Juan López & John Ward”, alusivo à guerra das Malvinas.

“Coube-lhes por sorte uma época estranha.

    O planeta tinha sido dividido em diversos países, cada um provido de lealdades, de queridas memórias, de  um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos,de uma mitologia peculiar…

     López nascera na cidade junto do rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade pela qual caminhou Father Brown. Estudara castelhano para ler o Quixote.

      O outro professava o amor a Conrad…

    Talvez tivessem sido amigos, mas viram-se uma única  vez frente a frente, em umas ilhas muitíssimos famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.

    Foram enterrados juntos. A neve e a decomposição conhecem-nos.

     O fato que narro se passou em um tempo que não podemos entender;”

    E para terminar essa minha travessia dos poemas maduros de Borges:

“Nosso belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos para perdê-lo em um ato de fé, em uma cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na pura e simples felicidade.” (“O fio da fábula”)

borges carão

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