BLOG DO ALFREDO MONTE

28/11/2009

A luz e a sombra de Sartre

(resenha publicada em 18 de junho de 2005)

    Para comentar o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (que ocorrerá no dia 21 deste mês) fica-se na dúvida: que obra escolher ? São tantas, e  tantas são apaixonantes, até as obras de filosofia como O ser e o nada… E Sartre ainda continua a ser publicado, diga-se o que se quiser sobre o declínio de sua influência,  os livros mais inesperados ganham contínuas reedições, como Que é a literatura ?  Para homenageá-lo, seria preciso falar de ambos, do teatro, de  A náusea, dos contos de O muro,  da magnífica trilogia, Os caminhos da liberdade, da qual tantos não gostam, de As palavras, de  Questão de método, de textos das  diversas Situações, do belíssimo roteiro-que-não-foi-filmado, Freud, além da alma, do livro sobre Jean Genet, de A esperança agora

    Caminho mais fácil: comentar um livro a respeito dele e que justamente tem a ambição de fazer frente a todas as vertentes sartreanas: O século de Sartre (Nova Fronteira), publicado por Bernard-Henri Lévy na virada do milênio. Lévy vai tão fundo  que acaba por nos dar a impressão de fazer a Sartre o que este fez a Genet e tantos outros, ao estudar suas biografias e obras, precipitando seu eleito “no buraco negro do seu próprio pensamento. É a desventura de Genet, esmagado pela homenagem que ele lhe presta, canibalizado, reduzido a nada e quase parando de escrever, ou seja, de existir, após a publicação de São Genet, esse livro-mausoléu onde le meio que o enterrou vivo… longe de ser um acidente… esse beijo da morte é um dos modos normais de sua relação com os artistas que admira”.

      O nó da questão:  Sartre escreveu São Genet, canibalizou seu objeto de estudo, mas era Sartre, e um escritor muito mais importante do que seu colega. O que era exatamente Bernard-Henri Lévy antes de O século de Sartre ? O mais famoso e vendido dos chamados “novos filósofos” que apareceram na década de 70. Qual foi sua contribuição como pensador? Segundo Michel Winock, no fabuloso O século dos intelectuais,  mereceria um estudo especial a desproporção evidente entre a importância da sua obra e a freqüência com que aparece na tevê  (deve-se lembrar que o próprio Lévy tem um livrinho, Elogio dos intelectuais). No entanto, até que ele revelou certo talento como romancista em O diabo na cabeça e Os últimos dias de Charles Baudelaire.

    Com nó ou sem nó: O século de Sartre é a mais incrível surpresa dos últimos anos. Todos os pontos importantes são esmiuçados, os textos são percorridos com arrepiante minúcia (ainda que a análise peque, às vezes, por uma certa grandiloqüência). Qualquer leitura é sempre redutora, qualquer tipo de  citação poda, mutila, cria um contorno fácil demais ? Nada disso, a sensação é de que o leque Sartre abre-se cada vez, e nunca se esgota. Ele nos resgata a eminência do mais famoso intelectual do século XX, e como ela é constituída por suas próprias qualidades, pelo clima da época e por equívocos, mostra as influências omitidas, tanto literárias (Gide, por exemplo, enquanto ele proclamava Joyce, Kafka e John dos Passos), quanto filosóficas (Bergson, enquanto ele proclamava Husserl e o nazista Heidegger), como ele  pirateava pensamentos e pastichava estilos (moderno, portanto). Acaba com a velha baboseira da filosofia enfraquecer a força do romance sartreano (e finalmente alguém faz justiça a Caminhos da liberdade enquanto obra-prima da ficção), o que não o impede de ser injusto com o teatro praticado por ele (apesar de fazer uma magnífica leitura de Bariona, a primeira peça, ainda amadora). 

    Esmiuça o anti-totalitarismo radical do primeiro Sartre (cujas balizas principais são A náusea e  O ser e o nada, mas também aproveita de forma magistral vários textos  circunstanciais) para contrapô-lo ao segundo Sartre que se colocou a serviço do stalinismo (numa fase em que os intelectuais  já saltavam fora do barco) e, posteriormente, do maoísmo, e que passará a renegar sua obra até chegar ao ponto de condenar radicalmente o ato de escrever como uma doença adquirida na infância, uma quimera que destruiu sua vida, por influência do avô, em As palavras. Tudo pela causa do povo, de uma humanidade futura, ele, que afirmara que  “a existência precede a essência”  e que, por isso, jamais poderia acreditar numa abstração desse tipo.

    Nesses descaminhos da liberdade, a última surpresa do velho pensador, já cego, meio que desacreditado até por sua  “família”, ou seja, o grupo de amigos-discípulos liderados por Simone de Beauvoir (e Lévy nos faz repensar o até agora insuspeito relato do “declínio” de Sartre em Cerimônia do Adeus): sob a influência de um homônimo do autor de O século de Sartre, o ex-maoísta radical, o judeu-egípcio Benny Lévy (conhecido como Pierre Victor), a inclinação para o pensamento judaico. Mas a morte chegou antes de se verificar a extensão da nova mudança de rota, aquela anunciada de modo tão simples e comovente quando Benny Lévy pergunta: “Recomeça-se tudo? Recomeça-se aos 75 anos?” “É claro”.

 

26/11/2009

BERGMAN: palavras e imagens

 “Embora eu seja um neurótico, minha relação com o exercício da profissão tem sido sempre, surpreendentemente, não-neurótico. Tenho tido a capacidade de atrelar o carro de combate com os demônios à frente, forçando-os a serem úteis, isto ao mesmo tempo em que eles, a sós comigo, se comprazem em torturar e envergonhar. Como se sabe, o diretor de um circo de pulgas deixa que seus artistas lhe chupem o sangue”.   A morte de Ingmar Bergman propiciou a mim um relativo balanço existencial, já que seus filmes estão entranhados na minha alma desde quando comecei a me considerar um “cinéfilo” e vi primeiramente O Ovo da Serpente, Sonata de Outono e o fascinante Da Vida das Marionetes; este último, mais do que os outros dois, me fez ir ao cinema três vezes (início dos anos 80, ainda um tempo sem vídeo ou DVD, tinha-se de guardar dentro de si as imagens de um filme, sua atmosfera, o que certamente explica a “aura” que muitos deles adquiriam, ao contrário de hoje, quando se pode assistir a um Bergman entre o Faustão e o Fantástico) e, embora tenha deixado a crítica da época indiferente, ajudou a revelar para mim o que era “o” cinema, apresentando um descarnamento, uma frieza cirúrgica –mesmo assim não isenta de dramaticidade, muito pelo contrário— extremamente atraente (se é possível utilizar um termo assim para a paulada na cabeça que é essa obra), numa indústria já então dominada por ênfases disciplinadas e direcionadas. Depois vieram as grandes descobertas confirmatórias: O Sétimo Selo, O Rosto, Morangos Silvestres, Sorrisos de Uma Noite de Amor; um pouco mais tarde, A Hora do Lobo, Persona, e o maior de todos, Gritos e Sussurros (sobre os dois últimos trabalhos, ele lucidamente escreve: “Com Persona e, mais tarde, com Gritos e sussurros, fui o mais longe que pude quanto à técnica narrativa. Isto é, com total liberdade toco em segredos para os quais não existem palavras e que só a cinematografia pode patentear”).

    Quantos criadores deram origem a um adjetivo próprio (bergmaniano), o qual agrega toda uma gama específica de sentimentos e uma visão do mundo fundada na angústia?

    Não bastasse isso, Bergman fascinava também pela palavra: seus roteiros foram publicados no Brasil pela Nórdica e tornaram-se tão cruciais para mim quanto qualquer grande autor literário, e às vezes funcionavam mais do que os filmes (caso de Face a Face, Cenas de Um Casamento ou A Hora do Amor). Por isso, nada mais justo do que uma despedida mediada pela palavra, no caso seu livro Imagens, publicado em 1990, no qual comenta sua extensa produção (iniciada em 1945) valendo-se de uma forma muito pessoal, caleidoscópica, recusando o critério da linearidade cronológica, aproximando filmes distantes por obsessões recorrentes.

    As cinco seções (“Sonhos/sonhadores”, “Primeiros filmes”, “Farsas/farsantes”, “Crença/descrença”, “Comédias/divertimentos”, “Outros filmes”) são frutos de longas conversas com Lasse Bergström, o que justifica um pouco a forma descontraída, aparentemente descuidada, da prosa de Bergman, enriquecida e ampliada por anotações de agendas de trabalho e trechos de sua autobiografia, Lanterna Mágica.

 

“Quero que me tomem como pessoa adulta, mas surpreende-me continuamente que as pessoas me levem a sério (…) Não penso, é claro, que toda essa gente são crianças que representam o papel de adultos. A única diferença entre mim e eles é que já esqueceram ou nunca pensaram que, no fundo, continuam sendo crianças.”

 

    E é muito belo esse vai e vem que, apesar de toda a pluralidade da produção bergmaniana (cerca de 50 trabalhos, entre obras-primas, experiências personalíssimas, filmes comerciais e de encomenda, comédias), dá uma tremenda idéia de unidade e ajuda a entender o brado de Peter Egerman, em Da Vida das Marionetes: “O espelho está partido, mas o que refletem os pedaços?” Um ponto alto nessa reunião dos pedaços é a discussão do processo de descrença crescente que culminará com a realização de Luz de Inverno (1963), logo após o desmascaramento do deus que Harriet Andersson encontra no papel de parede, em Através de Um espelho (afinal, esse mesmo homem conseguiu encarnar a morte num ator, em O Sétimo Selo, sem cair no ridículo). Nessa discussão metafísica não se perde o bom senso que lhe permite discutir sua carreira com os pés do chão. Em meio às dúvidas e tormentos do seu pastor sem fé, ele observa: “é um filme sobre o homem sueco em termos da realidade sueca e, meteorologicamente falando, no período mais difícil do ano”. É o mesmo homem que afirma sobre suas comédias: “era imprescindível que elas me dessem dinheiro. E não me envergonho de confessá-lo. A maior parte das coisas que acontecem no mundo do cinema acontecem devido a esse fator.” Ou ainda: “me sentia, com freqüência, envolvido numa prostituição profissional contínua, ainda que bastante divertida. Trata-se, evidentemente, de atrair público. Não era outra coisa senão show business de manhã à noite”. E é o mesmo homem que se recrimina, por ter, em Sonata de outono, realizado um filme “à Bergman”.

    E que bonito esse grande homem nunca chegar a um acordo consigo mesmo. Pois é capaz de afirmar sobre a “magia do teatro da ilusão” propiciada pela Flauta mágica: “Nada é. Tudo está representado. No momento em que o pano sobe, faz-se um acordo entre o palco e o salão: agora vamos soltar a fantasia!”; e em outro passo, “isto de criar uma ilusão, de representar! Os atores representam comédias e eu os incito a isso. Por vias tortuosas tentamos conseguir impulsos emocionais que o público irá toma por sentimentos, até por verdades. Ora, isso começa a ser difícil. Sinto uma aversão crescente perante o próprio milagre da interpretação teatral”. Essa oscilação impregna a tessitura de Imagens: trata-se de uma vida reconstruída com palavras de antes e de agora. O velho e bom Henry James já escrevera: “Trabalhamos no escuro, fazemos o que podemos, damos o que temos. Nossa dúvida é nossa paixão e nossa paixão é nosso dever. O resto é a loucura da arte.” O velho e bom Ingmar Bergman, esse pedaço importante do meu próprio espelho quebrado: “Nós caminhamos passo a passo em direção às trevas. A única verdade existente é esse movimento”. E quem assistiu a uma de suas obras-primas, que em 2007 torna-se cinqüentenária (apesar de ser mais jovem que todo o cinema atual), Morangos Silvestres, sabe como isso é verdadeiro.

 (resenha publicada, de forma ligeiramente condensada, em outubro de 2007)  

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17/11/2009

O FIO VERMELHO DO CRIME NA MEADA CINZENTA DA VIDA

Livraria PORTO DAS LETRAS: acesse www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

    Dedico este “post” à minha amiga Maria Valéria Rezende, pelas nossas conversas sobre Marx

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“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciênia. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sõbrevém então uma época de revolução social…”

      Em 1859, Karl Marx conseguiu publicar alguns capítulos mais ou menos em estado legível das suas primeiras investigações sobre o capital, que ele começara a esboçar dois anos antes: Contribuição para a crítica da economia política (cuja tradução pode ser encontrada no volume dedicado a ele em “Os Pensadores”, organizado por José Arthur Gianotti, responsável também pela tradução, com a colaboraçãode Edgard Malagodi). Como acontecia muito comumente em Marx, quando ele publicou, já estava “alhures”, o texto já se tornara algo superado (no sentido pessoal, claro), e ele estava pronto para se dedicar ao Capital.

     O trecho que transcrevi é do prefácio que escreveu, sintetizando sua trajetória até os limites da grande obra da sua vida (cujo primeiro volume só apareceu em 1867, como desenvolvimento extremo das idéias da Contribuição).

      Esse texto de Marx é da maior importãncia: temos a base das suas principais idéias sobre o capitalismo e além disso, ele estava no centro do Império. Como narra o doutor Watson, voltando do Afeganistão, muito doente e combalido: “… senti-me naturalmente atraído por Londres, essa grande cloaca para a qual todos os vagabundos e ociosos do Império são irresistivelmente drenados.” ( UM ESTUDO EM VERMELHO). Marx, o homem do “tudo que é sólido desmancha no ar”, esperando que as contradições do capitalismo, tal como as diagnotiscava no seu centro, a capital-cloaca do império Britânico. Se pensarmos que, no mesmo ano Darwin publicou A origem das espécies temos uma espécie de ano-chave, cabalístico. E foi justamente em 1859 que nasceu Arthur Conan Doyle.

    Ao contrário de Agatha Christie, o criador de Sherlock Holmes não foi generoso na quantidade de histórias do seu herói (que foi um peso na sua vida e ele estava sempre disposto a matá-lo): seis coletâneas de contos e quatro romances; porém, a quantidade de material que um dos mais famosos personagens da cultura ocidental (e certamente o mais conhecido detetive), ao lado de Ulisses, Quixote, Hamlet e poucos mais, gerou é  incontável.

       A coleção Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada, que agora chega ao sexto volume, pela Zahar, ajuda a compreender o mito Holmes, que ultrapassou o seu criador e os textos originais: nela, o gênio da dedução da Baker Street 221-B e seu parceiro Watson são tomados como seres reais, e todo o aparato de notas e informações é baseado nessa premissa lúdica e muito atraente para quem vive da bênção da leitura segundo Harold Bloom: “mais vida em tempo ilimitado”.

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     Foi com os filmes estrelados pelo magnífico Jeremy Brett (ver foto acima; onde vemos que na sua composição de Holmes ele deixou qualquer clichê para trás e deu-lhe um toque “Hannibal Lecter”;  outro talentoso Holmes moderno foi James D´Arcy, porém logo o substituíram por Rupert Everett que deu um show de canastrice), numa série de televisão memorável, e também devido a essa coleção que fiz as pazes com Sherlock Holmes. Quando era garoto, tive a maior decepção com As aventuras de Sherlock Holmes (como explico na resenha abaixo). Mais tarde, lendo os romances, considerei Doyle um escritor medíocre, muito inferior à criadora de Poirot e Miss Marple. No cômputo geral, seu personagem valia mais como paradigma incessantemente reinventado.

      O sexto volume proporciona a oportunidade de reler justamente o “nascimento” de Holmes & Watson, UM ESTUDO EM VERMELHO  (1887), e constato que minha paixão pelo tipo de mistério arquitetado por Agatha Christie atrapalhou na avaliação dos talentos de Doyle. É certo que a história é fraca, o mistério incolor, as deduções cabotinas e nada convincentes. Holmes informa aos policiais da Scotland Yard, após a descoberta de um corpo numa casa deserta: “… o assassino foi um homem. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, estava na flor da idade, usava botinas grosseiras de bico quadrado e fumava um charuto Trichinopolo. Veio para cá com sua vítima num fiacre de quatro rodas, puxado por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova na parte dianteira direita.  Com toda probabilidade, o assassino tinha um rosto avermelhado e unhas notavelmente compridas na mão direita. Estas são apenas algumas indicações, mas podem ajudá-los.” A não ser para impressionar o leitor, em que essas informações minuciosas, mas realmente inúteis, poderiam ajudar a polícia? Esse lado CSI oitocentista de Sherlock Holmes permanece o aspecto que mais me desaponta e irrita.

     Por outro lado, como é talentosa, colorida e bem-humorada a narração do Dr. Watson! Como resistiu ao tempo! Vemos de forma sintética o primeiro encontro dos dois, como começam a dividir os aposentos na Baker Street, as diferenças de temperamento, a fixação dos hábitos e manias do detetive, sua gangue de menores de rua, que se espalham por uma Londres-Babel. Há, ademais, todo o flash back ambientado em Utah, entre os mórmons, que explica o porquê dos assassinatos cometidos pelo vingativo Jefferson Hope (eu não dava grande valor a essa parte, porém agora a acho excelente e cheia de suspense). Levando isso em conta, até as vaidades de Holmes, ciosamente contabilizadas pelo seu parceiro (ou “discípulo”), que importância tem se os crimes (dois americanos são assassinados) são pouco interessantes e se os métodos para desvendá-los pareçam truques? São truques de um bom prestidigitador literário, é preciso que se faça a devida justiça a esse autor que foi um dos responsáveis por manter a era vitoriana como um fetiche absoluto na imaginação popular e na indústria cultural.

     Antípoda a Marx,  Holmes é o homem da ordem, da manutenção da lógica do capitalismo: “O fio vermelho do assassinato corre através da meada incolor da vida, e nosso dever é desemaranhá-lo, isolá-lo, e expor cada centímetro dele.”

     Temos, também, na fixação do Cânone Sherloquiano, as deliciosas notas em que, além das muitas informações da época, fanáticos pelo detetive analisam exaustivamente cada momento do livro, propondo interpretações e soluções para os desacertos e contradições (pois eles abundam, e os fanáticos pela obra são os primeiros a apontá-los), que são quase  um segundo livro para se ler.

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 (resenha sobre os dois primeiros volumes da coleção da Zahar, publicada em “A Tribuna”, em 05 de agosto de 2006)

  Após a “Obra Completa” de Arthur Conan Doyle (1859-1930) envolvendo Sherlock Holmes, em três compactos volumes, pela Ediouro (nota de 2009: a editora Agir fundiu os três volumes num só), a Jorge Zahar lança agora uma iniciativa bem mais ousada: a tradução dos cinco volumes de uma enciclopédia sherloquiana, sob a responsabilidade de Leslie S. Klinger: Sherlock Holmes- Edição Definitiva – Comentada e Ilustrada. Por enquanto, há dois volumes no mercado e eles são uma verdadeira delícia para o amante da ficção, ainda que não exatamente pela qualidade da ficção de Conan Doyle.

    Pois, ao reler –no primeiro volume—As Aventuras de Sherlock Holmes (1892), senti a mesma e frustrante decepção que tive aos 12 anos diante da mesma coletânea inaugural de casos do mais cultuado detetive do mundo: histórias medíocres, mistérios pífios, demonstrações ocas da pretensa acuidade de Holmes, embora –então, como agora— o dr. Watson escapasse milagrosamente ileso do desastre. Isso sempre determinou uma antipatia invencível pelo personagem até que ele foi admiravelmente encarnado por Jeremy Brett (secundado por um igualmente mais-que-perfeito Edward Hardwicke como Watson). A magistral caracterização de Brett (similar à perfeição com que David Suchet encarnou Poirot) operou uma necessidade de reavaliar o fascínio e o carisma de uma das personagens fictícias mais célebres, imitadas, pastichadas, verdadeiro ícone cultural.

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    E a essa expectativa a edição de Klinger atende fartamente: vastamente documentada, com anotações à margem do texto (é preciso que se faça justiça ao trabalho editorial, de primeira qualidade), ela se fundamenta num pressuposto fascinante: a crença na existência efetiva de Holmes & Watson, crença compartilhada há mais de um século por muita gente.

    No caso de Klinger, pouco importa se essa crença é simulada, produto de uma brincadeira intelectual, um auto-ilusionismo. O que importa é que ela funciona e faz da sua coleção um empreendimento importantíssimo para a literatura e a ficção, num momento em que a obsessão por histórias baseadas em fatos reais, reality shows e outras fórmulas acabam encenando pelo mundo afora uma espécie de morte da imaginação. Klinger vem reinstaurar o prazer de descobrir o “amigo imaginário”, aquele que nos dá acesso ao nosso próprio código pessoal. E o leitor de 40 anos, mesmo não se convencendo muito com relação a Arthur Conan Doyle, lembra-se de outras portas de acesso a esse mundo: Júlio Verne, Mark Twain, Agatha Christie, Robert Louis Stevenson.

    Pena que as aventuras de Sherlock Holmes ficam a dever, mesmo com o poder de persuasão do genial Jeremy Brett ou com o aparato de Leslie S. Klinger: por exemplo, na famosa e paradigmática Um escândalo na Boêmia, há uma ridícula aparição do cliente (o rei da Boêmia), que faz o leitor cair na gargalhada, não há mistério algum e ainda Holmes é derrotado, depois de encenar uma tola farsa; em A liga dos Cabeças Vermelhas há até um certo clima na narrativa do cliente, mas todas as ações de Holmes para solucionar o problema tiram o charme do conto, que fica como um protótipo distante dos seriados televisivos (Holmes seria um CSI hoje em dia); e, só para dar mais um exemplo, que raio de mistério seria Um Caso de Identidade?: no próprio ato de se contar o problema, qualquer leitor percebe a solução.

    Mesmo assim, e que se perdoe o paradoxo, vale a pena mergulhar nos volumes de Sherlock Holmes- Edição Definitiva, um presente para a memória afetiva de quem norteou sua formação pela leitura de livros.

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serviço: Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada. Organizador: Leslie S. Klinger. Primeiro volume: As Aventuras de Sherlock Holmes.495 págs. Segundo volume: As Memórias de Sherlock Holmes (1893). 427 págs. Tradução de  Maria Luiza X. de A. Borges. Editora Jorge Zahar.

13/11/2009

LÉVI-STRAUSS (1908-2009)

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O CENTENÁRIO DE LÉVI-STRAUSS

(resenha publicada em 29 de novembro de 2008)

    Ao longo de muitas páginas do livro de entrevistas De perto e de longe, Claude Lévi-Strauss, cujo centenário o mundo inteiro comemora, confidencia detalhes de sua vida a Didier Eribon, e o leitor confidencia para si mesmo: que homem chato!

    Falando sobre expedições, sobre as pessoas que conheceu (muitas delas, das mais fascinantes no cenário artístico e intelectual do século XX), sobre a infância, a aridez da abordagem faz com que tudo soe tedioso e todas as figuras fiquem meio apagadas (mesmo porque, o grande pensador francês as trata com tal parcimônia, que parece ter o objetivo de apequená-las). Fica-se perplexo: esse é o etnólogo que revolucionou o universo da filosofia e da abordagem das ciências humanas, obrigando os intelectuais a se curvarem diante da lógica e coerência do pensamento dito primitivo? A impressão que se tem é que, no fundo, apesar da ousadia das suas idéias, Lévi-Strauss queria mesmo (depois de poucos anos aventurescos) era um emprego seguro, uma carreira universitária vitalícia, e que a coisa mais natural da sua existência é ter entrado para a Academia Francesa (instituição tão ridícula e pomposa como a nossa): “seria uma hipocrisia não reconhecer que se, o convidam, é porque julgam que… você pode ser útil à preservação da instituição… Achei que era meu dever de cidadão e de etnólogo contribuir para mantê-la viva”??!!!

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    E por aí vai até a pág. 140 (o que é muito, convenhamos). De repente, desembaraçado do pessoal (lembrem-me de nunca ler as Memórias de Lévi-Strauss!), colocado no plano da especulação filosófica, ele passa a deslumbrar o leitor coma exatidão e argúcia das suas colocações, embora persista até o fim um fundo de antipatia pela primeira parte do livro. E por paradoxal que seja, são idéias que atacam a abstração e linearidade da mentalidade eurocêntrica: “puseram na cabeça das pessoas que a sociedade originava-s do pensamento abstrato, quando ela é feita de costumes, de hábitos, e, ao triturá-los sob as mós da razão, pulverizaram os tipos de vida baseados numa longa tradição, reduziram os indivíduos ao estado de átomos intercambiáveis e anônimos. A verdadeira liberdade só pode ter um conteúdo concreto: ela é feita de equilíbrios entre pequenas dependências, mínimas solidariedades; aquilo contra o qual as idéias teóricas que proclamamos racionais se debatem” É aqui que a persona cautelosa, travada, árida e parcimoniosa, o Dr. Jekyll da Academia Francesa, que Lévi-Strauss foi esboçando no decorrer dos tópicos, vai cedendo espaço a um Hyde transfigurador, interessante embora perturbador, e então nós entendemos porque esse senhor sacudiu tanto a intelectualidade francesa. É aí que entendemos uma afirmação, que em se levando em conta apenas a parte biográfica, ficaria difícil de acreditar: “Comecei a debruçar-me sobre a mitologia em 1950, terminei as ´Mitológicas´ em 1950. Durante vinte anos, acordando ao nascer do dia, embriagado de mitos, realmente vivi num outro mundo. Os mitos impregnavam-me.”

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12/11/2009

RESENHAS SOBRE MARGUERITE DURAS

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HAY QUE SER DURAS SEM PERDER LA TERNURA JAMÁS

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      (1a. parte)

“Estão deitados no corredor como que adormecidos enquanto outra coisa se prepara no lento retorno do desejo. Em gestos quase imperceptíveis eles estão se reaproximando. As peles, os suores que se tocam, os rostos, sua boca, a dela, reencontrada por ele. Eles ficam assim, tocados, à espera. E depois ela diz que deseja apanhar, ela diz no rosto, ela lhe pede, vem. Ele faz, ele vai, senta-se perto dela e olha mais. Ela diz: pancada, forte, como há pouco o coração. Ela diz que queria morrer.

  Eis que o retângulo da porta aberta é ocupado pelo corpo sentado do homem que vai bater.”

    O trecho acima é de O homem sentado no corredor, que acaba de ser reeditado pela Cosac & Naify, junto com A doença da morte. Já havia uma tradução anterior (de Sieni Maria Plastino) pela Record (com O homem atlântico), na esteira do sucesso de O amante nos anos 80. Talvez fosse  interessante uma coletânea mais abrangente de alguns textos curtíssimos de Marguerite Duras, mas é provável que ela funcione melhor assim, cada texto (no máximo um outro fazendo companhia) com sua “aura”, representando a força e a fraqueza da grande escritora francesa que, nos dois títulos agora traduzidos por Vadim Nikitim, potencializou ao extremo as possibilidades da sua linguagem na aproximação do erotismo com a violência, uma recorrência na sua obra desde os diálogos do clássico Moderato Cantabile (1958).

    O próprio narrador comete uma violência, sendo voyeur da cena que  narra. Ele é uma presença quase física ao lado do casal, produto da intimidade, ou promiscuidade mesmo, permitida pela palavra (“Falo com ela e digo-lhe o que o homem faz. Digo-lhe também o que é feito dela. Que ela veja, é o que eu desejo”). Por isso, O homem sentado no corredor não é um instante fotografado verbalmente, uma imagem pictórica; não é momento fixado nem epifania. É uma irrupção da linguagem escrita entre o movimento dos corpos, o furor passional, o autismo e a necessidade de ato físicos violentos, sempre com o mar ao fundo, que caracterizam os casais durasianos.

    E é por isso que não se cai no mau gosto nem na poetização do sexual (também um tipo de mau gosto), isto é, na perfumaria erótica, nesse  vertiginoso relance (que, entretanto, nunca dá a impressão de ser rápido) de um homem que, sentado num corredor, observa sua mulher se desnudar diante dele, e então se levanta, ejacula sobre o corpo dela inteiro, voltando ao corredor, após pisoteá-la e revirá-la; ela vai ao seu encontro, ele com o membro para fora da calça, e aí a mulher praticamente o pisoteia e o revira interiormente, (“Vejo que ele a deixa fazer e olha de novo com ela. Que ele a olha fazer, que se presta a seu desejo tudo o que lhe é possível”). Para que, na incomunicabilidade e impossibilidade, a pancada seja uma outra forma de aproximação, outra língua do amor (que o meu leitor não se levante, protestando e vituperando este artigo, esse é o universo de Marguerite Duras e ela nunca fez concessões a qualquer atitude politicamente correta). E depois, a própria confissão de fracasso do narrador, tão íntimo, tão próximo, tão voyeurista, ele que diz obsessivamente (nesse texto que é um espraiar de obsessões) “vejo, vejo, vejo”:  “Vejo que o homem chora deitado sobre a mulher. Dela vejo apenas a imobilidade. Eu desconheço, não sei nada, não sei se ela dorme.”

(resenha publicada em “A Tribuna” em 27 de abril de 2007)

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(2a. parte)

    Na seção anterior, a propósito da edição conjunta de O homem sentado no corredor & A doença da morte, afirmei coluna que era difícil imaginar muitos textos de Marguerite Duras reunidos em um só volume, pois cada um tinha uma “aura” própria, e isso era prova de força e de fraqueza, pois Duras é a típica escritora carismática. agregando admiradores de uma forma que por vezes impede a análise objetiva dos seus livros (e ela escreveu tanto obras-primas quanto textos ruins).

    Uma “aura” também parece percorrer a Cosac & Naify. Decerto a edição é muito boa, mas não se precisa chegar ao delírio da resenhista de Carta Capital, a qual saúda a inclusão das indicações de Duras para a representação teatral de A doença da morte como uma preciosidade digna de ser colocada num relicário. Além de afirmar que são “melhores que o próprio texto” (!!!!????), mostra-se bem mal informada: elas já constavam da edição bilíngüe que a Taurus lançou  em 1984 (tradução de Jorge Bastos), antes que O amante fizesse sucesso no Brasil, quando a grande escritora francesa era escassamente editada por aqui (aliás, foi essa a primeira vez que o autor deste artigo leu Marguerite Duras). A Companhia das Letras e a Cosac & Naify têm atualmente um apelo tal que chegam a convencer jornalistas e críticos que marketing e realidade são a mesma coisa.

    A doença da morte utiliza a 2a pessoa para a narração, um exercício que demanda extrema perícia,  ainda mais depois de ser utilizado de maneira definitiva por Michel Butor no extraordinário e agora cinqüentenário A modificação (1957). Esse uso da 2a pessoa (“Você diz que você quer experimentar, tentar a coisa, tentar conhecer isso, se habituar com isso…”) compromete e alarma o próprio leitor: será que estou infectado com esse autismo com relação à vida, diagnosticado pela interlocutora do protagonista? Quem é ela? Uma mulher que é paga para passar algumas noites com ele. Como sempre, Duras não precisa de crimes, de brigas, de ação, para deixar implícita uma violência terrível, uma necessidade de aniquilamento, de derrogação. E a linguagem se aproxima, nos momentos mais intensos, do afã autofágico de um Samuel Beckett:

“Não há mais nada no quarto além de você só. O seu corpo desapareceu. A diferença entre ela e você se confirma pela ausência súbita… Ao longe, nas praias, gaivotas gritariam na escuridão agonizante, elas começariam já a se nutrir dos bichos da vasa, a revistar areias deixadas pela maré baixa. No escuro, o grito louco das gaivotas famintas, parece-lhe repentinamente nunca tê-lo ouvido.”

    Com essa ausência, Duras atingiu um ponto-limite na sua obra. Não por acaso ela retornou à sua história de vida e ao gosto (meio enviesado, é claro) de narrar, no livro seguinte (O amante). A alternativa, permeada pelo grito louco das gaivotas famintas, com esse mar de fundo que nunca desaparece dos seus textos,  seria o silêncio.

(resenha publicada em 5 de maio de 2007)

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Resenha publicada em 12 de março de 1996, com ligeiras alterações, em “A Tribuna”, a respeito da morte de Duras:

   A morte de Marguerite Duras no dia 3 deixa uma sensação de melancolia e vácuo. Parece que os escritores maiores estão desaparecendo e que seus lugares não serão ocupados. O que é um escritor maior? É aquele com uma visão de mundo e estilo tão pessoais que criam até um léxico próprio, contaminando a análise da sua obra.

    No caso de Duras, nascida em 1914 onde hoje é o Vietnã e então era a Conchichina, essa visão de mundo, estilo e léxico próprios explodiram em 1958 (embora ela tenha escrito muito antes, e até livros bonitos como O marinheiro de Gibraltar e  Os pequenos cavalos de Tarquínia, publicados  aqui pela editora Guanabara), com Moderato Cantabile (José Olympio). Ao longo do texto, Anne Desbaresdes, mulher que cumpre como autômato todas as obrigações domésticas, mantém com Chauvin uma relação que é vivida na corda bamba do verbal, no perigo das palavras, fazendo-os “viver”  a relação de outro casal, na qual explode a carga de violência que paira entre eles e ameaça o cotidiano alienante.

moderato cantabile

    Nessa mesma época, é dela a mais original das história de amor, as mais belas e seminais palavras já escritas para um filme: Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais, uma das quatro ou cinco maiores realizações cinematográficas, principalmente porque não se prende ao conflito amoroso, tão opaco, mas sim à continuidade desse amor, à sua memória, umas vezes perdida, outras recapturada, esquecimento que também assombra a memória coletiva da dor da guerra, umas vezes uma coisa tão premente, outras algo oco e inócuo em evitar os mesmos erros.

    O autismo passional dessas duas mulheres, Anne e a narradora do filme, prepara o terreno para a obra-prima de Duras, o extraordinário Le ravissement de Lol V. Stein (1964), O arrebatamento de Lol V. Stein, tão mal traduzido por aqui como O deslumbramento (Nova Fronteira). Esse arrebatamento, esse rapto de Lol do centro da sua própria vida, esse seu êxtase, é um momento, vivido num salão de baile, que torna todo o resto sem sentido, e faz com que ela cumpra o destino de um autômato à espreita daquela sensação de plenitude que a seqüestrou do ramerrão.

    Assim, após essa “louquinha” (como ela a chama em A vida material, lançado aqui pela Globo), a obra de Duras foi se realizando, difícil para o público, enveredando pelo teatro e pelo cinema, intrincada, e com livros do quilate de O vice-cônsul (Francisco Alves), de 1965, depois transformado num belíssimo filme pela própria autora (India Song) e nos quais reaparecia a mesma e fascinante Anne-Marie Stretter responsável pelo “ravissement” de Lol; ou A doença da morte (ed. Taurus), de 1983: “Ela diz que ela espera nunca saber nada do modo como você sabe, nada no mundo. Ela diz: Eu não queria nunca saber nada do modo como você sabe, com essa certeza saída da morte, essa monotonia irremediável, igual a si mesma em cada dia da sua vida, em cada noite, com essa função mortal da falta de amar.”

o vice consul

    Em 1984, veio o sucesso popular com O amante (Nova Fronteira). Esse livro é um daqueles raros milagres. Tanta simplicidade, ao mesmo tempo tanta coisa: a memória de um amor iniciático, um ajuste de contas com a família, uma constatação da velhice e da destruição pelo tempo, uma reescritura da própria obra e um reencontro com os fantasmas, a tentativa de fixar um momento de “ravissement”, momento fotográfico que engoliria todos os outros e apagaria o tempo.

lol v. steino deslumbramento

    Duras perdeu-se um pouco, escreveu demais, coisas ruins e repetitivas. Amiúde com lampejos de genialidade. A força da sua palavra sempre teve uma autoridade que a pobre literatura francesa desconhece. E é com o melhor dessa palavra, com um dos grandes momentos de Le ravissement de Lol V. Stein, que este artigo encerra sua despedida de um dos maiores escritores que já existiram: “Gosto de acreditar que se Lol está silenciosa na vida é porque acreditou, no espaço de um relâmpago, que essa palavra podia existir. Na falta da sua existência, ela se cala. Teria sido uma palavra-ausência, uma palavra buraco onde todas as outras palavras teriam sido enterradas. Não seria possível pronunciá-la, mas seria possível fazê-la ressoar. Imensa, sem fim, um gongo vazio, teria retido os que queriam partir, os teria convencido do impossível, os teria ensurdecido a qualquer outro vocábulo que não ele mesmo, de uma só vez os teria nomeado, o futuro e o instante. Faltando, essa palavra estraga todas as outras, contaminando-as…”

21/10/2009

“No meio da grande ruína”: Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

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“… escrevemos doravante, alegres, sobre ruína…f ragmentos esparsos, colunas rompidas, sistemas falidos,  cacos de linguagem…” (Alain Robbe-Grillet)

   Alain Robbe-Grillet foi vítima da letal mania de reduzir uma pessoa a um repisado rótulo. “Um dos principais representantes do noveau roman”! Embora tenha escrito um ensaio polêmico, Por um novo romance (1963), e feito parte de um grupo de escritores da editora Minuit que se celebrizou com seus experimentos na renovação do gênero (repudiando o psicologismo que teria chegado ao limite com Marcel Proust, e também aquele estilo lapidar e cinzelado, consagrado por André Gide), o fato é que ter sido “um dos principais representantes do noveau roman pouco tem a nos dizer. Há todo um fascínio próprio da época (uma das mais contestatórias de que se tem notícia), entretanto é provável que Robbe-Grillet, como outros autores em cuja permanência aposto (é o caso dos geniais Marguerite Duras e Claude Simon, e como esquecer dos dois belos romances de Michel Butor, L´emploi du temps- Inventário do tempo e A modificação, ou de A encenação, de Claude Ollier, ou ainda da misteriosa Nathalie Sarraute ?), fique melhor apartado do rótulo “consagrador”, que só incita mal entendidos ou simplesmente má vontade.

    A princípio, fiquei fascinado com o Robbe-Grillet que escreveu o texto de O ano passado em Marienbad (1961), uma das obras-primas de Alain Resnais (talvez o cineasta mais apaixonante do cinema europeu, tirando Bergman), bem mais do que com o autor de La jalousie- O ciúme (1957) e La maison de rendez-vous-Encontro em Hong Kong (1965), embora tivesse achado esses dois romances extremamente bem engendrados:

 

“O parque desse hotel era uma espécie de jardim à francesa, sem árvores, sem flores, sem nenhuma vegetação… O cascalho, a pedra, o mármore, a linha reta, marcavam nele espaços rígidos, superfícies sem mistério. Parecia, à primeira vista, impossível alguém se perder nele… à primeira vista… ao longo das alamedas retilíneas, entre as estátuas de gestos estáticos e as lajes de granito, onde você já estava quase perdida, para sempre, na noite tranqüila, sozinho comigo.”

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    No universo francês cartesiano, tão certinho e límpido, de repente era possível perder-se. Aliás, na obra de Robbe-Grillet (que, seja dita a verdade, conheço relativamente pouco, apenas cinco livros), sempre houve um gosto pelo trompe-l´oeil (aquele tipo de pintura que procura, a um só tempo nos convencer de que é real, e fazer saber que não passa de um efeito ilusório), como a quinta Triste-le-Roy, palco do clímax de A morte e a bússola, de Jorge Luis Borges:

 

“Lönrot explorou a casa. Por antesalas e galerias saiu a pátios iguais e repetidas vezes ao mesmo pátio. Subiu por escadas poeirentas e antecâmaras circulares; infinitamente multiplicou-se em espelhos opostos; cansou-se de abrir ou entreabrir janelas que lhe revelavam, fora, o mesmo jardim desolado de várias alturas e vários ângulos… a casa lhe pareceu infinita e crescente…”[1]

 

    Os dois únicos textos do autor francês que, salvo engano, foram publicados no Brasil na última década, Os últimos dias de Corinto (Sulina) e A retomada (Record), reafirmam esse aspecto de forma insistente. São excêntricos e brilhantes, apesar da irritante auto-referencialidade que parece ser um mal francês já que a obra de Marguerite Duras é toda assim também.

delphine-seyrigo filme marienbad

    A retomada é o livro de virada do milênio de Robbe-Grillet. Apareceu em 2001 e representa, tal como Atonement- Reparação, de Ian McEwan (publicado na mesma época), um elogio da ficção, essa “loucura fabulatória ativa. O título nacional é muito mal escolhido, aclimata muito mal o La reprise original, com seu sentido de reapresentação de espetáculo, de “vale a pena ver de novo”:

 

“Henri Robin tem agora, em todo caso, uma certeza: está de volta ao seu quarto de hotel, e foi lá que passou o final de uma noite agitada. Entretanto, embora tenha consciência de haver regressado muito tarde, não lembra de ter pedido para ser acordado a nenhuma hora… Aliás, pode-se dizer que a noção de tempo, exata ou mesmo aproximada, perdeu toda importância para ele, talvez porque sua missão especial tenha sido suspensa, ou então depois de ter submergido na contemplação do quadro de guerra pendurado naquele quarto infantil… De fato, a partir da espécie de deriva mental causada por aquela abertura duplamente cega, murada com um trompe-l´oeil, pleno de uma significação ausente,  os acontecimentos dessa noite lhe produzem uma desagradável impressão de incoerência, ao mesmo tempo causal e cronológica, uma sucessão de episódios que parecem não ter outros laços senão os da contigüidade (o que não permite dar a eles uma posição definitiva)…”

    Hoje que escrevo esse artigo-preito lamento (e olha que eu o possuo há vinte anos) não ter lido Les gommes- Entre dois tiros, seu primeiro romance publicado, em 1953, porque A retomada parece ser a “reprise” da trama daquele livro, inclusive repetindo sua estrutura (prólogo, cinco capítulos correspondentes a cinco dias, epílogo) e sua trama edipiana. Portanto, há toda uma dimensão que eu perdi, ainda que isso não impeça a fruição de uma ótima narrativa a se desfiar, se destecer, se esboroar, progressivamente. Ao fim e ao cabo (exatamente de quê?),  Henri Robin, que já lançara mão de vários nomes, adota a identidade e condição social do seu duplo? irmão?, o qual tentara matá-lo, por achar que os dois eram demais para a mesma história, e cujas notas à sua própria narrativa tentavam destruir sua credibilidade já precária.

    A certa altura, dois policiais da dividida Berlim pós-guerra (e no início de um milênio, onde há ainda uma parte toda fracionada e ocupada da Europa, é muito pertinente esse fantasma de uma situação que definiu boa parte do século XX para a consciência ocidental), confrontam Robin com objetos encontrados na revista feita (sem que ele soubesse) em seu quarto de hotel: um sapato feminino de festa com a gáspea de escamas azuis cujo forro em couro de cabrito branco estava manchado de sangue; uma pistola automática Beretta nove mm; quatro cápsulas disparadas; uma bonequinha nua de celulóide cor de carne; uma calcinha de cetim com babados de renda, igualmente manchada de sangue; um frasquinho de vidro branco contendo um resto de líquido; um fragmento de uma taça de champanhe cuja ponta aguda apresentava marcas de sangue. Robin, então, pondera a respeito do frasquinho de vidro: “Este, na verdade, é o único elemento no heteróclito conteúdo da maleta que não me recorda nada”. Porque todos os outros aparecem e reaparecem, saindo do baralho de forma protéica, fazendo parte de situações diferentes que se anulam, se contradizem, ou se complementam de maneira a sempre deixar arestas: “Como era de se esperar, após o longo percurso naquele túnel profundo semi-alagado, estou agora na outra margem do canal sem saída, em frente à suntuosa mansão de múltiplas armadilhas, loja de bonecas, ninho de agentes duplos, comércio de carne fresca, prisão, clínica…” Mais adiante: “Eu me preparava para responder com franqueza, hesitando porém quanto ao que tinha direito de revelar à polícia berlinense sobre a suposta missão, cada vez mais obscura, da qual progressivamente eu me tornava a vítima.”

    Tênue trama (claro que pode ser trompe-l`oeil) amarra essa sucessão obscura de episódios mirabolantes: dois irmãos separados pela guerra e pela fuga da mãe da Alemanha (por ser judia, e não ter o apoio do marido, oficial em ascensão na Gestapo), se odeiam entre si e ao pai, a quem ambos assassinam (essa é a suposta missão de Henri Robin, ele chega a acreditar que a executou, mas quem a executa é o irmão); há ainda uma madrasta sedutora para apimentar a quizila e, comprovando sua vocação de romancista perverso (como nos diz em Os últimos dias de Corinto), uma ninfeta, Gigi; aos 14 anos amante de ambos, apesar de ser possivelmente filha do “duplo” de Robin, ou Ascher, homem das cinzas e das sombras.

    O próprio artífice não se furta de aparecer para reiterar o caráter de ilusão fabricada:

 

   “À esquerda e à direita deste vasto escritório de carvalho, cuja pomposa ornamentação napoleônica já descrevi em outros textos, cada vez mais invadido por todos os lados pelas insidiosas pilhas de papelório existencial que se acumula em estratos, ficam agora fechadas o dia inteiro as três janelas que dão para o parque, ao sul, ao norte e a oeste, a fim de não me dar conta do descalabro em que vivo após o furacão que devastou a Normandia logo depois do natal, marcando de maneira certamente inesquecível o final do século e a mítica passagem para o ano dois mil. A bela harmonia de folhagens, vales e relvados cede lugar a um pesadelo de que não se pode escapar, perto do qual parecem ridículos os estragos homéricos do tornado de 1987, já relatado por mim… Muitas vezes falei da alegre energia criadora que o homem precisa desenvolver para transformar em construções novas o mundo em ruínas. E eis que volto a este manuscrito após um ano poucos dias depois da destruição de uma parte considerável da minha vida, encontrando-me então em Berlim, após outro cataclismo, mais uma vez com outro nome, outros nomes, cumprindo um ofício de encomenda munido de diversos passaportes e de uma missão enigmática, sempre prestes a se dissolver, continuando porém a me debater com obstinação em meio a duplicações, aparições intangíveis e imagens recorrentes em espelhos que retornam.”

 

    “Já relatado por mim”. É verdade, ele o relatou (“…o parque de Mesnil foi devastado por um furacão nunca visto, conforme a memória humana, em toda a Normandia e a Bretanha, desfiguradas desta vez em poucas horas) em Os últimos dias de Corinto, o final de uma trilogia iniciada com O espelho que retorna e continuada por Angélique ou O encantamento, uma forma de autobiografia invadida pela ficção, e também pela memória (“consciente de sua própria impossibilidade constitutiva) do próprio fazer literário, isto é, da fabricação dessa ficção. Temos mais um estrangeiro viajante e pedófilo, Henri de Corinto, mais meninas quase impúberes, e novamente um sapato de baile feminino aparecendo por toda parte (até na costa uruguaia; o Brasil também é cenário), mais duplos, mais bonecas que parecem vivas (ninfetas e bonecas…):

 

“… um relâmpago da memória, inapreensível, e talvez imaginário, Corinto tem a impressão muito viva de já ter visto em outro lugar esses sapatos de baile…” etc

.

    Já ao iniciar-se (“A carne das frases sempre ocupou, sem dúvida, um grande espaço no meu trabalho), brinca-se com a produção anterior do autor, parodiando o célebre início de La maison de rendez-vous, “A carne das mulheres sempre ocupou lugar de relevo em meus sonhos”. E o livro todo vai nessa toada. É claro que eu não consegui “pegar” todas as referências, já que, como disse, conheço só algumas poucas obras. Porém, eu me diverti muito. E saí da leitura convicto de que, qualquer que seja o seu destino literário, o autor de Os últimos dias de Corinto não merece ser somente “um dos principais representantes do noveau roman.

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[1] “Lönrot exploró la casa. Por antecomedores y galerías salió a patios iguales y repetidas veces al mismo patio. Subió por escaleras polvorientas e antecámaras circulares; infinitamente se multiplicó en espejos opuestos; se cansó de abrir o entreabrir ventanas que le revelaban, afuera, el mismo desolado jardín desde varias alturas y varios  ángulos… la casa le pareció infinita y creciente…”

23/09/2009

SIMONE DE BEAUVOIR

SIMONE DE BEAUVOIR (1908-1986)

 simone-de-beauvoir

    Num dos seus belíssimos livros autobiográficos, A força das coisas (1963), Simone de Beauvoir esclarece o que pede a uma obra literária: “a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, e que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

    Janeiro quase vai indo embora e não é possível deixar em branco o centenário do nascimento (dia 9) de uma autora cujos textos me proporcionaram exatamente o que as palavras citadas descrevem. Infelizmente, quando ela não é reduzida a um satélite girando em torno do planeta Sartre, parece que só escreveu de importante O segundo sexo (1949), ou, quando muito, Os mandarins (1954). No entanto, sua obra é multifacetada, apaixonante e complexa, para além desses dois grandes títulos.

    Exigente, ela mesma afirmou que “rabiscou” muito papel na década de 30, sem produzir nada satisfatório, tendo como óbice o espiritualismo católico que marcou sua infância e adolescência (antes de conhecer Sartre e seus camaradas), e principiando um processo em que a força das coisas destronaria o amor pelo absoluto e a busca obsessiva pela felicidade, núcleos do seu projeto pessoal (como ela narraria mais tarde em Memórias de uma moça bem comportada, de 1958, e A força da idade, de 1960; este último, o qual, caso interesse a alguém, é um dos meus livros prediletos, seria mais fielmente traduzido como “Na força da idade”).

a força das coisas

    Curiosamente, no final da vida, ela permitiu a publicação de algumas dessas primeiras tentativas, novelas ligadas entre si, sob o título de Quando o Espiritual domina, e elas não se revelaram nem um pouco canhestras. Se aparecessem na época, contudo, não causariam o impacto do seu primeiro trabalho publicado, em 1943, A convidada, o meu outro favorito pessoal dentro da obra de Simone de Beauvoir. Escrito durante a ocupação de Paris pelos nazistas, com uma epígrafe inquietante de Hegel (“Toda consciência tem por objetivo a morte de outra”), mostra a rivalidade entre duas mulheres, num insólito triângulo amoroso (muito inspirado pelas experiências de Sartre e Simone como professores provincianos nos anos 30, antes da moda existencialista, embora a trama transcorra em Paris), que aos poucos se transforma num terrível confronto de consciências. A protagonista, Françoise, é uma daquelas personagens que se tornam quase nossas amigas pessoais, mas há a impressionante e exasperante Xavière, a “convidada” que se revela indesejável (e assassinável). Nunca esqueci uma passagem de A força das coisas em que o vanguardista Adamov fica chocado por Simone estar escrevendo um romance, com “começo, meio e fim”. Após a publicação de A convidada, ao reencontrá-lo, e esperando que a vitupere por tal atividade necrófila (já que o gênero morreu, segundo as vanguardas, aquela baboseira toda que escutamos vez em quando…), ele a surpreende com o seguinte elogio: “Ah, tem a Xavière, tem a Xavière!”

    Sem terem a contundência de A convidada nem a amplitude e riqueza de Os mandarins, creio que é um erro subestimar (como a própria autora o fez) os dois romances intermediários entre ambos, O sangue dos outros (1945) e Todos os homens são mortais (1946). Gosto particularmente do segundo, um devaneio envolvendo o desejo de imortalidade, e já o reli com grande prazer, o que ainda não aconteceu com o outro, mais um ajuste de contas (cheio de altos e baixos) com as suas ilusões juvenis. Na mesma época, ela se lançou em outras direções: o teatro e o ensaio, culminando com a polêmica que cercou o brilhante Segundo sexo, que se tornou uma bíblia feminista, o que obliterou sua qualidade como estudo fundamental sobre processos de socialização e formação de mentalidades que se confundiram com fatores biológicos e atávicos, e que acabaram conduzindo a mulher a uma situação de cidadã de segunda classe. Não faz mal nenhum lê-lo; entre outros motivos, por ser incrivelmente bem escrito. A única coisa contra o livro, como já disse, é ter confinado Simone como a eterna “autora de O segundo sexo”.

o segundo sexo

    Ainda bem que poucos anos depois ela triunfaria definitivamente na ficção com Os mandarins (inclusive ganhando o Goncourt, na época um prêmio que só perdia em prestígio para o Nobel, quando existia uma literatura francesa). É uma obra-prima, perfeitamente arquitetada, ao intercalar a história de Henri (a quem muitos associaram a Camus), dilacerado entre a literatura e os compromissos políticos, em 3ª pessoa, com a narrativa em 1ª. pessoa de Anne, a esposa de um intelectual importante, um “mandarim”, a qual, à margem das grandes questões francesas e mundiais após a Libertação, enfrenta seus próprios dilemas, igualmente dilacerantes. Parece que todos os grandes assuntos do século estão nas suas páginas. Há duas traduções muito boas do livro, uma de Maria de Lourdes Teixeira (um pouco rebuscada, é verdade), e a de Hélio de Souza, ainda em circulação (duas edições diferentes pela Nova Fronteira, ambas caras: 90 e 60 reais).

    Os mandarins também marca um momento em que o casal Sartre-Simone, admirado ou combatido, dá as cartas na intelectualidade francesa, com repercussão mundial, o que vai se estender pela década seguinte.

(resenha publicada de forma condensada em 26 de janeiro de 2008)

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 simone e sartre

O centenário do nascimento de Simone de Beauvoir- balanço final

 

“Seríamos caçadores de sentido, diríamos a verdade sobre o mundo e sobre as nossas vidas. Merleau achava-me otimista: estaria eu assim tão seguro de encontrar em tudo sentido? Ao que eu teria podido responder que o sentido do sem sentido existe e que nos competia descobri-lo. E sei o que ele teria respondido por sua vez: ilumina quanto tu queiras a barbárie, nunca conseguirás dissipar nela a obscuridade. A discussão nunca chegou a dar-se; eu era mais dogmático, ele era mais matizado, mas era uma questão de humor, ou como se costuma dizer, de caráter. Tínhamos ambos um mesmo desejo: sair do túnel, ver a claridade.” (Sartre, Merleau-Ponty, 1961)

 

“A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que eu e Sartre teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morar sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear circunstâncias entre nós que nunca nos poderiam separar? Um só projeto nos animava: tudo abarcar e testemunhar tudo; ele mandava-nos seguir, em certas condições, caminhos diferentes sem roubarmos um ao outro o mais ínfimo dos nossos achados; juntos, nos dobrávamos às suas exigências, a tal ponto que no próprio momento em que nos dividíamos, nossas vontades confundiam-se. Era o que nos ligava e nos desligava; e, com esse desligamento, nós nos achávamos de novo ligados profundamente.” (Simone de Beauvoir, A força da idade, 1960)

 os mandarins

    As citações acima, de textos praticamente coevos, ajudam a esclarecer o projeto pessoal de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre até mais ou menos a época de Os mandarins (1954), romance que marca o auge da carreira da grande escritora francesa, nascida há 100 anos: um sentido de disponibilidade total, de aventura, desejo de “sair do túnel, ver a claridade”, “tudo abarcar e testemunhar tudo”. Um projeto otimista, quase se pode dizer (e é bom lembrar que se trata em ambos os casos de olhares retrospectivos, o que sempre significa uma releitura estudada, quando não tendenciosa, do passado).

    Algum tempo depois de Os mandarins, ela iniciou seu ciclo de memórias, primeiro liquidando o espiritualismo católico que marcou sua formação em Memórias de uma moça bem comportada (1958). Aos poucos, com a Guerra Fria, no plano global; no plano nacional, a Guerra da Argélia e a ditadura de Charles de Gaulle; e, mais especificamente no plano da sua obra, com A força das coisas (1963), a nota de desencanto, de se encontrar “exilada em seu próprio país”, e à margem da voraz sociedade de consumo, é que prevalecerá na escrita de Simone de Beauvoir.

    Se, no final de Os Mandarins, lemos: “Estou aqui. Eles vivem, falam comigo, estou viva. De novo saltei de pés juntos na vida… Ou se soçobra na indiferença, ou a terra se repovoa: não soçobrei. Já que meu coração continua batendo, será preciso que ele bata por alguma coisa, por alguém. Já que não sou surda, ouvirei chamarem-me de novo. Quem sabe? Talvez um dia eu seja feliz outra vez. Quem sabe?”, em A força das coisas, predomina o ódio por seus compatriotas, o sentimento de desolação em meio a uma sociedade que compactua com a tortura, o massacre, a injustiça. Há também a percepção angustiada do envelhecimento: “Bruscamente esbarro na minha idade. Esta mulher ultra-madura é minha contemporânea. Um senhor idoso, que se parece com um dos meus tios-avós, diz-me sorrindo que brincamos juntos no jardim do Luxemburgo. Em todas as esquinas, a verdade me assalta, e custo a entender por que astúcia ela me atinge de fora, quando é dentro de mim que ela mora… Muitas vezes, paro espantada diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontram vejam simplesmente uma qüinquagenária que não está bem nem mal: tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei”.

    Mesmo assim, ela vive, escreve, sente, participa. E tudo isso é mostrado de uma forma quase milagrosa, ainda que no discurso ultra-organizado, cartesiano. Esse rigor discursivo, essa austeridade e transparência, não conseguem neutralizar a contradição (instigante, aliás, e que fornece a chave do livro) entre viver o horror de se sentir sitiada numa ditadura e dar o devido valor a instante, a uma paisagem, a um encontro, a um sentimento individual.

    Em todo caso, ainda sobrou fôlego para alguns vôos ficcionais curtos, porém nada rasantes, como o pequeno romance As belas imagens (1966) ou as três narrativas que compõem La femme rompue- A mulher desiludida (1968).

    O texto tardio de maior repercussão e impacto de Simone de Beauvoir acabou sendo o assombroso relato do declínio físico e mental de Sartre e sua morte, nas 150 páginas de A cerimônia do Adeus (o volume parece bem maior, mas é recheado com as caudalosas entrevistas que ela realizou, num autocentramento característico, com… Sartre!). Já havia o precedente do relato sobre a morte da mãe, Morte serena (ou, numa outra tradução, Uma morte muito suave); nada, porém, antecipava o tom cortante e quase cruel na sua secura dessa despedida literária, que parece colocar o fantasma do malogro daquela disponibilidade toda que as citações do início revelam até no fim, todas as contas feitas (título original do livro batizado por aqui como Balanço final). O próprio Sartre já havia indicado esse caminho sombrio ao descrever sua formação como leitor e escritor, ou seja, como praticante da literatura, como fruto da neurose, em As palavras. Uma coisa seja dita: ambos foram fiéis até o derradeiro instante a essa neurose. Ou ainda se trata do “tudo abarcar e testemunhar tudo”?

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Serviço: as trajetórias de Sartre e Simone de Beauvoir são a matéria de Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Editora Objetiva. 462 págs.

(resenha publicada de forma condensada em dois de fevereiro de 2008)

11/09/2009

O “Outro” de Roth: JOHN UPDIKE

COELHO CONTINUARÁ (1932-2009)

 

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    Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike esta semana, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

    Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belíssimos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).

    Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…

       Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este talvez seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo…

    De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava. Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.

    E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?

(resenha publicada em 31 de janeiro de 2009)

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A LIÇÃO DO MESTRE

Pouco antes da morte de John Updike (na semana passada), a Companhia das Letras lançou um dos seus derradeiros romances, Cidadezinhas (2004), ótima introdução ao seu universo. Na verdade, parece que estamos vendo a já clássica tetralogia do Coelho em “ponto pequeno”, condensada, eivada de um tom menos ácido e cáustico, mais voltado para o elegíaco, para reiterar sua obsessão com o materialismo e a prosperidade (que se traduz em consumismo exacerbado e crise de valores) de certa parcela provinciana ou suburbana da classe média, ligando-os a uma perda de inocência da civilização norte-americana (ele acreditava realmente nisso, e quem não aceitar essa noção de inocência embasando o sonho americano nunca apreciará as obras desse escritor-ícone dos EUA).

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    Cidadezinhas percorre um espectro temporal muito similar ao da vida de seu autor (nascido em 1932) e alterna dois tempos narrativos: num deles, na atualidade, Owen Mackenzie é um septuagenário que vive na cidadezinha de Haskells Crossing com sua segunda esposa; despertares, sonhos, a relação do casal vista através dos sinais de declínio físico, fazem com que o relato escorre para o outro tempo e então acompanhamos Owen desde a sua infância numa cidadezinha decadente da Pensilvânia, seu envolvimento com a incipiente informática nos anos 50 (sua próspera carreira será atrelada ao desenvolvimento do mundo virtual), suas primeiras experiências sexuais numa sociedade basicamente puritana, seu primeiro casamento, sua instalação na cidadezinha de Middle Falls (“não era nenhum lugar em particular, o que a tornava triunfantemente americana”.), onde transcorre a maior parte da ação, seu primeiro adultério e daí adiante seu mergulho no carnal knowledge (o título original do famoso filme de Mike Nichols, Ânsia de Amar), através das mais diversas mulheres.

    Updike use vale da fórmula clássica do romance de formação (que Goethe consagrou com seu Wilhelm Meister), dotando seu protagonista de uma “ingenuidade”, às vezes exasperante, mas que permite encarar cada contato e experiência como uma iniciação (no amplo sentido da palavra). No final, ficamos conhecendo Owen Mackenzie (e a sociedade à sua volta) de uma forma mais real e completa do que qualquer pessoa que possamos encontrar na vida. É preciso dizer também que o amor pelos detalhes do autor de Casais Trocados faz com que certas páginas (felizmente, poucas) sejam cansativas (ainda mais porque ele quer fixar cada ato sexual de Owen como o maravilhamento de alguém expandindo seu imaginário, como ritos verdadeiramente iniciáticos, pormenorizando-os à exaustão), ainda que não haja uma sequer em que não encontremos uma formulação luminosa, um exemplo da melhor prosa de ficção que se pode escrever, pelo menos no meu entender.

    Assim, mesmo para o apreciador da obra de Updike e para o qual não apresenta surpresas (a não ser as estilísticas), Cidadezinhas funciona como uma síntese desse eterno ir e vir entre graça, tentação e queda. Sexo, sexo, sexo: “algo tão arriscado, com tamanho potencial de vergonha e humilhação. A humilhação fazia parte do êxtase, talvez: era ser abaixado como um balde dentro do poço negro da biologia, sabendo o tempo todo que a corda continuava no lugar, o dia claro da sociedade aguardando lá no alto”.

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[resenha publicada em 7 de fevereiro de 2009]

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Updike: Flaubert Up to date

O MESTRE DA MESMICE FOSCA DO CODIANO

     Em 1960, uma obra-prima, Coelho corre, deu largada à famosa série de romances que a princípio interrompeu-se em 1990, com Coelho cai, ganhando há pouco tempo seu epílogo definitivo: Coelho se cala. Paralelamente a essa monumental realização, a cada década, John Updike apresentava uma memorável reflexão ficcional sobre a perda de transcendência (seu grande tema) no contexto da sociedade norte-americana: nos anos 70 foi Um mês só de domingos; nos 80, Roger´s version (aqui no Brasil, Pai-Nosso Computador, dá para acreditar?); nos 90, Na beleza dos lírios. Parece que na década em curso o lugar será preenchido por Terrorista.

    Nele, aos 74 anos, um dos mais sérios candidatos ao disputadíssimo título de maior escritor em atividade nos EUA, ousa entrar na pele de um rapaz de 18 anos, com ascendência árabe por parte do pai (e irlandesa, pela mãe) e ver sua pátria pelos olhos dele, ao contrário dos vovôs que descreve no livro, os quais “tendo renunciado a qualquer pretensão à dignidade, se expõem ao ridículo com roupas justas de muitas cores e estampados diferentes… Já próximos da morte, esses idosos americanos abrem mão do decoro e se vestem como crianças de colo”. É uma paisagem espiritual desoladora aquela na qual se movimenta Ahmad Ashmawy, em New Prospect, arredores do Coração de Satã, a metrópole que perdeu suas torres. E é uma pena que Updike tenha escolhido um título tão infeliz, já que o predestinou ao reducionismo temático (e por certo à desconfiança: quem esse wasp pensa que é, propondo-se a discutir e, pior, representar em palavras, a fé islâmica, pensarão alguns) que o termo “terrorista” suscita. De fato, Terrorista conta como Ahmad, possuído pelo conceito de jihad, aceita conduzir um caminhão cheio de explosivos a serem detonados no Lincoln Tunnel. Não obstante, é muito mais o vácuo da vida contemporânea, a falta de perspectiva, o materialismo grosseiro que parece ter se tornado o ar que respiramos, a onipresença da televisão, da propaganda, do consumo, a solidão e indiferença mútuas até de membros da mesma família (vivendo como “ovos que se tocam de leve, mas cada um contendo sua própria vida”; aliás, esse último aspecto permite a Updike uma das cenas mais lindas do romance: a última conversa entre o mártir voluntário e sua mãe), o que escancaramos ao acompanhar Ahmad: a civilização ocidental que perdeu o decoro.

    Em 2007, o paradigma dos romances modernos, Madame Bovary, completa 150 anos. Não poderia haver melhor homenagem a ele do que comentar o mais legítimo seguidor de Flaubert na atualidade, tanto da sua capacidade de criar com pormenores extremos o mundo chapado da mediocridade quotidiana, quanto do impulso (e talento genial), paradoxalmente inverso, de atingir o poético com esse material tão desprovido de Graça (no amplo sentido da palavra). E é por isso que um romance que coloca o dedo na ferida da hora, a ameaça terrorista e a severidade fundamentalista como resposta ao capitalismo, deserto versus mercado, atinge seu ponto alto numa cena de amor, quem diria, entre adolescentes contemporâneos, e quem diria que eles poderiam ainda gerar lirismo e mesmo assim parecer tão reais para o leitor, inclusive na sua linguagem limitada? Charlie Chehab, o homem que aproxima Ahmad do seu destino, quer que ele perca a virgindade antes da missão que lhe cabe, e o presenteia com os serviços de uma jovem puta, que é ninguém mais ninguém menos do que Joryleen, paixão do candidato a terrorista durante a high school. O que se passa entre eles (“Você pode acabar sendo a coisa mais próxima de uma noiva que eu vou ter na vida”), o desalento que nos dá quanto ao futuro de ambos e dos jovens em geral, porém a intensidade da beleza do encontro deles, já faz valer a leitura de Terrorista.

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[resenha publicada em 28 de julho de 2007)

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05/08/2009

Chandler após 50 anos: mestre da pulp fiction, do noir ou da boa e velha ficção em geral?

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“Havia uma porção de bugigangas orientais nas vitrines. Eu não sabia se tinham valor ou não, as únicas antiguidades que eu colecionava eram contas atrasadas”; “A casa em si não era grande coisa. Menor que o palácio de Buckingham e com menos janelas que muito arranha-céu de Nova Iorque”.

    Frases de efeito como essas são típicas de Philip Marlowe, o detetive particular canônico do noir, a feição mais consagrada que a ficção policial norte-americana adquiriu. Há 50 anos morria Raymond Chandler, que o havia criado exatamente 20 antes, em The Big Sleep-O Sono Eterno (também um clássico do cinema, na versão de Howard Hawks, conhecida no Brasil como À Beira do Abismo, a qual tornou lendária a união de Humphrey Bogart e Lauren Bacall). Das aventuras de Marlowe, as mais famosas, além da sua estréia, são Adeus, Minha Adorada (1940), A Dama do Lago (1943) e O Longo Adeus (1953), apesar dos fãs mais ardorosos nunca esquecerem de A Irmãzinha (1949)  e Playback (1958).

    Muito superior a seu rival (com o qual decerto compartilha muitas características), Dashiell Hammett, Chandler fez da região em torno de Los Angeles um espaço definido e singular, quase mítico, da literatura, com seus tiras corruptos, suas milionárias “da pá virada”, velhos ricaços com esposas bem mais jovens e de passado duvidoso (além de um apetite sexual indiscreto), traficantes, charlatães, ex-condenados. E no meio dessa desmoralização toda, o detetive sempre pobretão, perdedor, desiludido, sarcástico, sempre em apuros com a polícia e os clientes (porque nunca desiste de investigar um caso, apesar de todas as advertências), no fundo honesto e sentimental. Ele deu o tom do noir clássico: é sempre o narrador de suas próprias desventuras, catalogador suas ilusões perdidas, uma a uma.

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    Não há dúvidas de que Chandler era um grande escritor. Não conheço muito bem sua produção como contista, porém ele tinha evidentes dificuldades ao escrever romances, como mostrou de saída em O Sono Eterno, onde faz uma brincadeira: “… fiquei pensando em Harry Jones e sua história. Parecia muito certinha demais. Tinha a simplicidade austera da ficção ao invés da das tramas emaranhadas da realidade”. Acontece que não há trama mais emaranhada do que a desse romance (o roteiro do filme de Hawks, então, é sem pé nem cabeça). O meu palpite é que o criador de Marlowe não tinha fôlego de romancista (o que não tira o charme de nenhum deles), e contista experimentado, se sentia mais à vontade no episódico. Até na sua obra-prima absoluta, Adeus, Minha Adorada (que teve a sorte de ter duas belas versões: a primeira, dos anos 40, Até a vista, querida, com William Powell muito melhor do que Bogart na pele de Marlowe, para mim é o melhor noir calcado na figura do detetive particular; a segunda, dos anos 70, tem o grande Robert Mitchum envolvido numa atmosfera crepuscular), nós vemos a trama geral se estilhaçar em episódios isolados. O grande problema é que, na hora da explicação final, as pontas soltas e o material excedente ficam óbvios.

     Em O Sono Eterno, Marlowe é contratado para investigar uma chantagem que ameaça uma das duas belas e doidivanas filhas de um ricaço inválido. Há uma trilha de mortos na seqüência dessa investigação (pelo menos três), contudo o crime principal, o cerne da questão, permanece recôndito a maior parte do tempo, só assumindo sua importância na parte final. Defeito técnico (em outros esse traço se tornou um maneirismo, um artifício) ou intuição certeira? Em nossa época de fragmentação e evanescência, essas pistas que dão em nada, esses fios que permanecem soltos, esses romances que sempre têm um ar de incompletude e confusão, esses arremedos de esclarecimentos que nunca configuram uma verdade final e unívoca, e mostram que não há Sherlock que dê conta de todos os fatos, são afinal, muito modernos. Ou pós-modernos, como se queira.

(resenha publicada em quatro de agosto de 2009)

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A SIMPLICIDADE AUSTERA DA FICÇÃO OU AS TRAMAS EMARANHADAS DA REALIDADE?

      “Toda essa história é da minha conta. Estou sendo pago pra descobrir” (Philip Marlowe)

raymond chandler & gato

“___Quanto você está recebendo por essa história toda?

___Vinte e cinco dólares por dia, mais o reembolso pelas despesas…

___E por essa quantia você está disposto a criar caso com metade da polícia dessa cidade?

___ Querer isso, eu não quero –respondi– mas o que você quer que eu faça, porra? Estou trabalhando. Estou vendendo o que eu tenho pra vender pra ganhar a vida. A pouca coragem e inteligência que Deus me deu e mais disposição pra aguentar todo tipo de pressão pra proteger meu cliente… Os tiras ficam todos irritados e rigorosos quando um cara de fora tenta esconder alguma coisa, mas eles fazem exatamente a mesma coisa todo dia, pra favorecer um amigo ou alguém que tem influência. E ainda não terminei. Continuo trabalhando no caso. Se fosse preciso, eu faria tudo de novo”.

    Esse é um diálogo do capítulo 18 de O SONO ETERNO (The Big Sleep), de 1939, o primeiro romance em que Philip Marlowe aparece. Vinte anos depois, falecia seu criador, Raymond Chandler (nascido em 1888), criado na Inglaterra, mas que fixou Los Angeles como cenário do policial noir, da pulp fiction de alta qualidade, muito antes de James Ellroy.

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     O noir tem um peso canônico na nossa cultura, em grande parte devido ao cinema dos anos 40 (e um pouco dos anos 50, sem falar nas constantes releituras), preto e branco, expressionista. Em termos da figura do detetive particular, os dois filmes paradigmáticos que sempre vêm à memória são aqueles em que Humphrey Bogart personificou o Sam Spade de Dashiell Hammett (O falcão maltês, dirigido por John Huston, em 1941, e que aqui no Brasil foi intitulado Relíquia Macabra) e o Marlowe de Chandler (a adaptação de O SONO ETERNO, dirigida por Howard Hawks em 1946, e cujo título brasileiro é À beira do abismo; foi aqui que se consolidou o casal Bogart-Lauren Bacall).

     Já assisti aos dois várias vezes e esta semana mesmo tive a oportunidade de rever o filme de Hawks, e há uma inversão quanto ao que acontece com os livros: eu não aprecio muito o romance de Hammett e acho o filme de Huston sensacional (apesar de alguns detalhes, como a improvável Mary Astor como femme fatale), embora não seja o melhor noir de detetive particular (creio que esse posto deveria ser ocupado por Murder, my sweet ou Até à vista querida, de Edward Dmitryk, com William Powell como Marlowe); acho fundamental o livro de Chandler, mas creio que o filme de Hawks se perde no caminho, apesar de sua atmosfera realmente marcante. O problema é o roteiro: ele segue fielmente até quase o final o romance, eliminando algumas coisas importantes, decerto, só que derrapa mesmo porque há a necessidade de dar a Lauren Bacall mais espaço, o que atropela a compreensão da história. Eu não sei se alguém que não tenha lido o livro algum dia pode entender a explicação para a complicada trama de À beira do abismo. Eu mesmo o vi algumas vezes e nunca entendi. Até ler o livro, que foi lançado pela Brasiliense nos anos 80 (e depois pela L&PM, ao que parece), traduzido por Paulo Henriques Britto. Toda a parte final da trama fica comprometida pelas cenas finais, após Bogart matar o famigerado Canino. A cena em que ele conversa com Bacall é sem pé nem cabeça, a não ser para registrar a tensão sexual entre os dois no filme inteiro (diga-se de passagem, não considero que Bogart esteja particularmente feliz no personagem; ele funcionou bem como Spade, mas eu não entendo que tanto sex appeal vêem nele… O que é essencial numa história em que logo nas primeiras cenas uma das personagens femininas se joga em cima dele e ele diz: “ela tentou sentar no meu colo quando eu estava em pé”; contudo, é lógico que isso é uma questão de gosto pessoal).

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    Narrado em primeira pessoa, O SONO ETERNO contraria, como todos os livros de Chandler (mas sem o quase nonsense da sua adaptação cinematográfica), uma reflexão do narrador e protagonista Marlowe no capítulo 25: “Voltei para o escritório, sentei e fiquei pensando em Harry Jones e sua história. Parecia muito certinha demais. Tinha a simplicidade austera da ficção ao invés da das tramas  emaranhadas da realidade”.

    Marlowe é contratado por um milionário (o dinheiro veio do petróleo), o inválido general Sternwood, por causa de chantagem. Acontece que as duas filhas muito jovens do velho general são da “pá virada”, principalmente a mais nova, Carmen. O dono de uma loja de livros raros, Geiger, parece tê-la fotografado como veio ao mundo, quando estava drogada e bêbada. Geiger é assassinado (por um dos amantes de Carmen, Owen, chofer da família, que depois aparece morto também); a funcionária da loja de fachada (pois na verdade é um comércio pornográfico disfarçado), Agnes, prepara um esquema com outro ex-amante de Carmen, Joe Brody, para assumir os negócios de Geiger, porém Brody é assassinado por Carol Lundgreen, o michê que vivia com Geiger (pois ele pensa que Brody é quem matou seu, digamos, protetor). A incansável Agnes se associa a outro cara, Harry Jones, que conquista a simpatia de Marlowe, mesmo carregando todo um lado patético (essa reação de Marlowe me lembrou a do narrador de Fim de Caso, de Graham Greene, com relação ao apatetado detetive que investiga as supostas traições de sua amada Sarah). E Harry Jones também é assassinado (por um tipo chamado Canino, do qual já falarei, e é preciso dizer que esse assassinato é uma das motivações para Marlowe insistir em prosseguir investigando o caso, apesar de todos os conselhos em contrário). Mesmo com essa lista nada modesta de mortos (Geiger, Owen, Brody,Jones) ainda nem estamos no veio principal da mina.

    O que toda a sucessão de mortes e perambulações de Marlowe por cinco dias (“Toquei a campainha. Eu a havia tocado pela primeira vez há cinco dias. Parecia um ano”, afirma Marlowe no capítulo 30, quando se inicia o clímax do romance, que não consta do filme de Hawks) prepara para o leitor, além de um retrato verticalizado do perfil urbano e das complicadas (e muitas vezes desmoralizadas e corruptas) relações sociais que a transformação dos pequenos povoados numa região metropolitana, em volta de uma das cidades míticas do nosso tempo, é que na verdade tudo aponta para o assassinato principal: o do marido de Vivian, a outra filha do general Sternwood (e a personagem de Lauren Bacall, que no filme açambarca ações de uma outra personagem do romance,resultando numa mixórdia incompreensível:  a Peruca Platinada, da qual também já falarei). Rusty Regan, apesar de um passado meio nebuloso e gangsteresco, é um cara simpático (conquista até o general), mas está desaparecido. A versão da polícia é que ele se envolveu com a mulher de um dos grandes nomes do crime de Los Angeles (com o qual Vivian tem relações porque joga e perde muito no seu clube), Eddie Mars  (que morre no filme, como uma espécie de vilão-mor). Duas hipóteses: ou Regan e Mona escapuliram juntos e caíram no mundo ou Mars deu cabo deles.

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     O curioso é que o general Sternwood pede a Marlowe (no início) para investigar apenas o caso de chantagem, e depois todos ficam perguntando a ele se está investigando o sumiço de Regan e meio que o desaconselhando a prosseguir nessa investigação. Quando toda aquela cadeia de mortes já citada se conclui, parece que não há razão para continuar no caso, mesmo porque recebeu 500 dólares do general e pode se dar por satisfeito. Mas… ele não engole a história toda e acontece a morte de Jones e o aparecimento do sinistro Canino, que é o principal assecla de Eddie Mars.

      Para Marlowe, Mars tem a polícia e a promotoria no bolso e Canino deu fim a Regan & Mona. Só que Agnes, a vulgaríssima e interesseira parceira de dois dos presuntos da trama vende a Marlowe a seguinte informação: que Mona está vivíssima e o paradeiro do seu esconderijo. É claro que nosso herói (numa climática atmosfera de chuva incessante) vai até o lugar, nos arredores ermos de uma fábrica que produz veneno contra rato, numa oficina onde carros roubados ganham nova aparência, e Canino o domina e o soca com um saco de moedas. E então a conhecemos, Mona, a grande figura feminina da história, a Peruca Platinada (ela a usa porque cortou o cabelo bem curtinho, para se disfarçar). É ela quem mais atiça a libido de Marlowe e o ajuda a escapar (essas ações foram atribuídas de forma absurda, se alguém se der ao trabalho de prestar atenção na história, a Vivian Sternwood, na adaptação de Hawks). Graças a ela, Marlowe acaba com Canino (em retribuição ao que fez com Harry Jones).

       Mas quem matou Regan (se Mona está viva, decerto ele estará morto)? Eddie Mars. Claro que não. Foi a doidivanas da Carmen, que além de ter ataques epilépticos, se é que o são, não suporta que nenhum cara a rejeite. Marlowe faz isso quando chega a sua casa e a encontra nua na sua cama (ele não ia comer a filha de um cliente, isso não entra na ética do detetive durão, sucessor remoto mas legítimo dos cavaleiros andantes: “Escuta aqui, disse eu, apontando o cigarro para ela. Não vá me obrigar a vestir você outra vez. Estou cansado. Agradeço a oferta. Mas é demais para mim… Sou seu amigo. Não vou fazer issso, apesar de você mesma querer que eu faça. Eu e você temos que continuar amigos, e não vai ser desse jeito que vamos continuar amigos. Agora seja boazinha e se vista, está bem?… Não é por causa dos vizinhos, eles não ligam nem um pouco. Tem muita mulher dando sopa em qualquer prédio de apartamentos, e não vai ser por causa de uma a mais que esse edifício vai cair. É uma questão de orgulho profissional. Eu estou trabalhando pro teu pai. Ele é um homem doente, muito frágil, totalmente indefeso. Ele tem uma certa confiança em mim. Você quer fazer o favor de se vestir, Carmen?).

     Quando é chamado, no final do livro, à mansão Sternwood, para se explicar ao general porque investiga o sumiço de Regan (e afinal era isso mesmo que o general queria, vá se gostar de um genro assim… e sem beijo no asfalto), Carmen o leva até as proximidades de um campo petrolífero e atira várias vezes em Marlowe (só que ele colocou balas de festim no revólver que devolveu a ela, um dos muitos detalhes de um enredo enovelado) é a repetição do que fez com Regan, só que no caso deste último os resultados foram fatais. Vivian teve de procurar ajuda e se comprometeu com Eddie Mars, que assim começou a chantageá-la e dominar sua vida. Como se vê, toca-se aqui num dos pontos do noir: a proximidade das classes privilegiadas com o submundo do crime.

     Marlowe, que no fundo tem um coração de ouro, faz um acordo com Vivian: ele não aceitará os mil dólares que o general lhe propôs para descobrir o paradeiro de Regan desde que ela interne a irmã em algum lugar, onde fique vigiada e segura, para não causar mais desgraças. Portanto, toda a cadeia de crimes e sordidez maciça que acompanhamos foi acionada pelas leviandades de uma mocinha mimada e que acha que pode tudo (um pouco como a Daisy de O grande Gatsby, guardadas as devidas diferenças, é claro), a mítica “little sister”, a irmãzinha mala sem alça, dos livros de Chandler.

     No final, sobra a pobreza honesta, a desilusão e a nostalgia erótica do único contato físico com a Peruca Platinada, Mona:

“Encostei-me nela e apertei-a contra a parede. Encostei a boca em seu rosto. Falei nessa posição:

__ Não tem pressa nenhuma. Me dá um beijo, Peruca Platinada.

      Seu rosto parecia gelo encostando nos meus lábios. Ela pegou minha cabeça e me deu um beijo forte na boca. Os lábios delas também eram como gelo.

     Saí e fechei a porta, silenciosamente, e a chuva me pegou na varanda, não tão fria como os lábios dela.”

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16/06/2009

BLOOMSDAY NO BLOG: duas resenhas sobre ULISSES e o 16 de junho de 1904

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16 de junho. Uma data que aproxima Homero, lá na remota Grécia Antiga, o irlandês James Joyce e o paraibano, de alma pernambucana, Ariano Suassuna. Em 1904, nessa data, os personagens de Ulisses (publicado em 1922) se encontravam e desencontravam para reviver num único dia, e dentro da jaula do cotidiano moderno, no aparentemente nada épico espaço urbano, a relação de Ulisses-Penélope-Telêmaco da odisséia homérica; nessa data, há 132 anos, nascia em Taperoá Pedro Diniz Quaderna, narrador e anti-herói de A pedra do reino,  cujo objetivo, errando numa existência degradada de rebento empobrecido, e cheio de expedientes, de antiga e ilustre família, é superar Homero criando a “suprema epopéia da Humanidade”, ao mesmo tempo grega, latina, ibérica e sertaneja. Para dar vida a essa rei/epopeida (como ele mesmo denomina), já que lhe falta a inclinação para o heroísmo, e a ação heróica de qualquer forma parece que ou já foi ou ainda será, nascia há exatos 82 anos Ariano Suassuna.

     Labirinto urbano, mundão sertanejo. E Ulisses ainda tenta chegar em casa porque a épica não morre, apenas encontra novas e revolucionárias formas.

   

                    O HEROÍSMO DO COTIDIANO

 

        De todos os acontecimentos literários importantes de 1922 (e são muitos) o principal é Ulisses, de James Joyce, um dos livros que mais justificam uma bela definição de Osman Lins (em A rainha dos cárceres da Grécia: “romance: mundo imerso no mundo”). Ao recortar  “do mundo” um dia da vida de Dublin (16 de junho de 1904), Joyce deu forma a um imenso universo literário e recriou a Odisséia de Homero, mostrando que heroísmo é enfrentar o dia-a-dia.

     O livro começa com Stephen Dedalus (de Um retrato do artista quando jovem), que se sente culpado com a morte da mãe e a miséria da família, mas está preocupado muito mais em não ser  engolfado pelo marasmo em que se debate a Irlanda. Portanto, Stephen, que é um candidato a escritor (e alter ego de Joyce) luta contra várias dependências emocionais e intelectuais: contra a dependência familiar, nacional e lingüística.  Depois dele, apresenta-se para nós Leopold Bloom, corretor de anúncios para jornal, judeu, casado com uma cantora de segunda categoria, Molly Bloom, com quem não teve mais relações sexuais desde que o filho deles morreu, ainda criança.

    Como Ulisses é uma imagem da vida real, mundo imerso no mundo, acompanharemos tudo o que se passa na mente e no corpo de Bloom: ele pensa, come seu desjejum, defeca, sai pelas ruas de Dublin, vai a um enterro, ao jornal onde trabalha, a um banho público, masturba-se, almoça, vai à biblioteca, a uma taverna (enquanto isso, sua mulher encontra-se com o amante, Blazes Boylan), à praia, ao hospital e depois à zona do meretrício, antes de voltar para casa. Nessa trajetória, ele encontra indiretamente Stpehen várias vezes, antes do encontro verdadeiro, no qual vai se estabelecer o que muita gente considera o tema central do romance: a procura de um pai espiritual por parte de Stephen e de um filho simbólico para o casal Bloom.

    E por que Bloom seria um candidato ideal para preencher tal papel? Porque ele tem o heroísmo de enfrentar o cotidiano com a delicadeza e a sutileza de um gato (tem em comum com esses felinos, também uma certa rejeição por parte da maioria das pessoas). De toda forma, o encontro para o qual a narrativa vai se armando simboliza também o destino fechado de Bloom (já adaptado ao marasmo) e o destino aberto, prenhe de possibilidades, de Dedalus (afinal, o grande arquiteto escapou da prisão).

    Ulisses não termina aí. Ainda falta o momento mais célebre do romance, quando temos acesso aos pensamentos de Molly, a senhora Bloom, num processo chamado de fluxo de consciência, cuja função é transformar o texto numa aparentemente caótica corrente de associações mentais. O romance que nos fez tatear labirinticamente por Dublin ao longo do dia, termina numa atmosfera de sonolência, de semi-sonho, adequada a um autor que admira Shakespeare. E não foi o autor de A tempestade (e de Hamlet, tão citado ao longo de todo Ulisses) que colocou na boca de um de seus personagens “somos feitos da matéria com que são feitos os sonhos”? Ou, como pensa Dedalus: “na escuridão da minha mente uma preguiça de inframundo, relutando, avessa à claridade, remexendo suas dobras escamosas de dragão. Pensamento é o pensamento de pensamento. Claridade tranqüila. A alma é de certa forma tudo que é: a alma é a forma das formas. Tranqüilidade súbita, vasta, candescente, forma das formas”.

    Infelizmente, graças aos esforços de uma panelinha de tradutores vanguardistas xiitas . Ulisses ficou famoso no Brasil mais por causa de mirabolantes técnicas lingüísticas do que pelo seu lado de representação admirável do mundo real.

    É evidente que toda obra literária é uma construção lingüística (e, no Brasil, quem pode esquecer de Grande Sertão: veredas e sua peculiar linguagem?), e a de Joyce mais que qualquer outra, porém pode-se abordar Ulisses “apenas” como um dos romances totais da nossa época, em que um máximo de representação da realidade dá a impressão de que a vida toda está contida neles. Esse é, aliás, o aspecto preferencial (o de representação, não de experimentação lingüística para iniciados) que eu resolutamente prefiro extrair desse livro extraordinário e difícil.

    É por isso que a tradução de Antônio Houaiss (ao contrário da do português João Palma-Ferreira) é tantas vezes detestável. Ela ajuda a tornar mais ilegível e distante o texto de Joyce para o leitor brasileiro. Até Augusto de Campos, um dos gêmeos-mórbida semelhança do Concretismo (um dos movimentos mais chatos e autovangloriadores da nossa literatura, e que parece ter feito de Joyce uma possessão particular) reconheceu: Houaiss exagerou na dose, criando palavras feias, de sonoridade desagradável e pesada, que não ajudam em nada o texto: “cordissentidos”, “pluvirociada”, “marifrígidos”, “frescamaciadas”, “oculivacuna”, “cintibrilhichispeantes”, “subobscurainfra”, “cheiilambigrudosos”, só para citar algumas soluções medonhas da tão celebrada (a)versão.

    Ao leitor que ultrapassar tais inconvenientes sobrará a sensação de estar lendo o Livro do Mundo e alguns momentos da mais alta poesia: “tal qual ele era eu, esses ombros caídos, essa desgraciosidade. Minha infância aconchega-se ao meu lado. Muito longe para eu pousar nela a mão uma vez ou de leve. A minha é distante, a dele é secreta, como nossos olhos. Segredos, silentes, pétreos, moram nos palácios sombrios dos corações de ambos nós dois; segredos exaustos de sua tirania; tiranos desejosos de serem destronados”.

(resenha publicada em oito de abril de 1997, nos 75 anos do livro)

 

 uma capa de ulissesM_Joyce

                      16 de junho de 1904

 

    Certamente a data mais famosa da literatura. O bloomsday. O dia da ação de Ulisses (1922), no qual acompanhamos as andanças dos protagonistas por Dublin: Stephen Dedalus, 22 anos, que retornara à Irlanda devido à morte da mãe (estava estudando em Paris) e se debate contra o marasmo da pátria e dos seus compatriotas (tema de Dublinenses, 1914, e Um retrato do artista quando jovem, 1916, dos quais vários personagens reaparecem em Ulisses), que ameaça engoli-lo também; Leopold “Poldy” Bloom, 38 anos, corretor de anúncios judeu, o qual, após sair de casa nesse 16 de junho de 1904, perambula para retardar o momento em que deve voltar, pois sua esposa, Molly, receberá um amante, Blazes Boylan, provável sócio numa turnê musical.

     Os dois representam o Joyce da época da narrativa e o Joyce da execução e publicação da obra, 18 anos depois. Etapas e prismas diferentes “da mesma personalidade, numa contransmagnificandjudeibumbstancialidade: a consubstancialidade do Pai e do Filho no catolicismo, de Shakespeare e seu filho morto, Hamnet, transformado em Hamlet, que tem um pai morto. Stephen tem um pai vivo a quem não respeito e do qual permanece alheado. Bloom perdeu um filho onze dias depois do nascimento, cessando suas relações sexuais com a fogosa esposa.

    Ao transfigurar a Odisséia dentro do cotidiano pequeno-burguês (cada cena do romance reproduz fielmente episódios homéricos, através de variados e desafiadores recursos estilísticos; por exemplo: após o almoço, a sonolência causada pela digestão evoca os efeitos de esquecimento narcótico dos lótus ingeridos pelos imprudentes companheiros de Ulisses), Joyce configura (consubstancia) uma estranha família para emancipar Stephen da paralisia dublinense; Poldy e Molly o assumem como filho.

    Após encontros fortuitos e mal se conhecendo, acabam por reunir-se numa maternidade: Stephen fora procurar companheiros de farra entre estudantes de medicina, Poldy aparecera à procura de notícias de uma conhecida que estava sofrendo para dar à luz. Preocupado com a exploração do jovem (cujo salário, como professor, fora pago no final da manhã) pelos camaradas, e aqui o autor aproxima as agruras de ambos à usurpação e dissipação de bens sofridas por Telêmaco e Ulisses em Ítaca. Poldy o acompanha até um puteiro, permanecendo com ele até o final da noitada e levando-o para casa, fazendo-lhe a oferta de ali se instalar como hóspede.

    Stephen recusa, mas a proposta paira como uma possibilidade implícita, cujo raio de alcance é capaz até de renovar a relação entre o casal Bloom: mesmo depois de horas com um amante vigoroso, Molly, que fora servida pelo marido no começo do dia, acaba sendo intimada a fazer o mesmo por ele no dia seguinte. Pois embora tenha havido certas demonstrações de menosprezo por Poldy (o anti-semitismo é exposto cruamente ao longo de Ulisses), entre outros motivos devido a um mal entendido com uma dica de aposta em corridas de cavalos (evocando a astúcia meio desonesta de Ulisses e o Cavalo de Tróia), embora tenha sido um dia de consumação adúltera consentida, e embora Molly inicie o célebre monólogo que fecha a narrativa depreciando as peculiaridades do marido, o fato é que Leopold Bloom deita-se na cama, ao final, no cômputo dos vestígios do dia, como um vencedor, aquele que prevaleceu, mesmo que seu heroísmo tenha sido vencer cada hora desse dia, tendo sido visto em todos os aspectos de um ser humano, até o ponto da defecação e da masturbação ou, num pólo oposto, da alucinação.

outra capa de ulisses

    Boa parte de Ulisses não oferece problemas ao leitor mais experimentado, ainda que exija muito dele. Os monólogos interiores das personagens (Stephen na praia, Molly na cama), a cena do enterro (na qual se mostra os mortos muito presentes para os vivos, idéia que domina o conto mais famoso de Dublinenses e que fará praça no posterior e muito joyceano Ironweed, de William Kennedy), as vastas cenas do jornal e da biblioteca (esta última centrada em Shakespeare e Hamlet).

    E a lírico-perversa cena em que Bloom se masturba contemplando Getty MacDowell na praia, descobrindo, desiludido (como o Brás Cubas de Machado de Assis com relação a Eugênia, a flor da moita) que ela é coxa (há um reaparecimento dela na zona do meretrício, mais tarde), e a pungente cena em que Bloom ouve o pai de Stephen cantando com sua bela voz, na taberna, e na qual vemos um mundo de possibilidades desperdiçadas numa geração (o que também é muito forte no monólogo de Molly), transcendendo aquele bando de beberrões truculentos do qual o senhor Dedalus faz parte, e a cena pós-noitada, em que aparece um falso Ulisses (o marinheiro mentiroso) em sua volta para casa, e depois sua rebarba, já na casa dos Bloom.

    Entretanto, três seqüências quase fazem naufragar a persistência do leitor, de tão difíceis: a cena em que um Cidadão meio alegórico (hostil a Bloom) e equiparado ao ciclope Polifemo através da “garganta”, ou seja, da retórica agigantada; a maior parte da cena da maternidade, na qual se faz o parto da língua inglesa moderna, a partir da paródia de vários estilos, desde o mau latim dos cronistas do início da cristandade, e que na verdade era virtualmente intraduzível; a cena da alucinação de Bloom no puteiro. O que irrita nelas, basicamente, é a necessidade de recorrer a estudiosos para entendê-las minimamente. A tradução de Houaiss também não ajuda em nada.

    Em leituras anteriores, eu me identificava com Stephen Dedalus. Certamente por efeito do tempo, agora me sinto mais na pele de Poldy, o marinheiro das ruas de Dublin, esse maravilhoso personagem com “um plano multiacarinhado que ele tencionava um dia realizar numa quarta-feira ou sábado, de viajar para Londres,via alto-mar, para não dizer que jamais houvera viajado  extensivamente nenhuma grande extensão pois que ele era de coração um aventureiro nato ainda que por um logro dos fados tivesse consistentemente permanecido como marinheiro de água doce”.

(resenha publicada na véspera do centenário do Bloomsday, 15 de junho de 2004, quando eu tinha 39 anos)

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