MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/05/2012

1956, annus mirabilis de Guimarães Rosa (segunda parte)

PELAS VEREDAS: COLOCANDO A ALMA EM LINGUAGEM

                                I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 06 de maio de 2006)

“Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa –a inteira— cujo significado vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem— mas a gente mesmo, no comum não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer,  fica sendo o falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada como o que se põe, em teatro, ara cada representador –sua parte, que antes já foi inventada, num papel…

Eis que em maio de 1956, do pântano do regionalismo brasileiro, com seus jagunços, coronéis, quengas, lutas armadas, tudo num sururu pitoresco  e raso que continua a fazer sucesso (na televisão, por exemplo) ainda hoje, mantendo-se um bom artigo de exportação da nossa  “identidade nacional”, surgiu um romance único, o maior da nossa literatura: Grande Sertão:Veredas. Os mesmos elementos (jagunços, etc), mas que diferença! A travessia de Riobaldo, o narrador, pelo sertão brasileiro parecia uma jornada pelo cosmo; a aventura nos devolvia o sentido da jornada espiritual (ou existencial, como se queira) e na nossa dessacralizada época o livro de Guimarães Rosa nos proporcionava o que o crítico canadense Northrop Frye colocaria como um dos pontos essenciais da grande ficção do último século (Joyce, Kafka, Mann): o retorno ao mito.

Infelizmente, Grande Sertão:Veredas passou a ser visto sobretudo como um artefato lingüístico estúrdio, quando não estapafúrdio, tal a rejeição por parte de tantos leitores, que não suportam a linguagem adotada por Riobaldo e as dificuldades das primeiras páginas, e acabam por abandonar o livro (foi o caso de colegas de ofício como Érico Veríssimo, o qual escreveu para Clarice Lispector: “não consegui ir além da pág.20”; mesmo um entusiasta já de primeira hora como Fernando Sabino escreveu o seguinte disparate: “no princípio, as 10 primeiras páginas, é meio assim-assim, custa um pouco a engrenar”).

A verdade é que em boa parte do texto há um processo de embaralhamento da seqüência do enredo (basicamente, o relato das guerras internas de um grupo de jagunços) que colabora na decisão de desistir da leitura. Por isso, depois de tantas interpretações críticas, uma grande contribuição foi dada em 1972 por José Carlos Garbuglio e seu O mundo movente de Guimarães Rosa, que atacou pela raiz a questão da dificuldade da leitura e justificou a estrutura narrativa adotada por Rosa:  segundo ele, a 2a. parte do livro é o momento em que se revela o derradeiro chefe do bando de jagunços que faltava conhecer na embaralhada primeira parte: o próprio Riobaldo. É quando ele assume o seu destino, fazendo o pacto com o diabo que permite que ele resolva os assuntos pendentes do bando e comece as tremendas dúvidas existenciais que alimentarão e justificarão sua narrativa, que é toda feita para um interlocutor urbano que chegou à sua fazenda.

Graças ao processo empregado na 1a. parte, que está longe de ser confusa, quando começa o julgamento, por parte dos líderes jagunços, de Zé Bebelo (cena que está na metade do romance), já conhecemos por antecipação cada personagem importante e suas  características essenciais. Todos os chefes já foram apresentados e apareceram em ação (menos Riobaldo, que parecia ser levado passivamente pelos acontecimentos e pelo amor a Diadorim). Por sua atuação no julgamento (salva a vida de Zé Bebelo), Riobaldo se torna o chefe virtual do bando. Sua chefia já está inscrita no futuro. E justamente a sua atuação e o resultado é que causam as conseqüências (traição, nova guerra, pacto com o diabo, morte de Diadorim) que fazem a narrativa durar ainda centenas de páginas apaixonantes, que nos fazem adentrar nesse sertão que está em toda a parte e principalmente dentro da gente.

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de maio de 2006)

“Recorro a apenas três critérios em relação ao que leio e ensino: esplendor estético, força intelectual e sapiência… A mente sempre volta às suas necessidades de beleza, verdade, discernimento. A mortalidade flutua no ar e todos aprendemos que o tempo triunfa. Vivemos num intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece (…) os maiores escritores, antigos e modernos produzem equilíbrios (ainda que precários) que permitem a coexistência da sabedoria prudencial e de certas insinuações de esperança. A verdade, segundo William Blake, não pode ser conhecida, mas pode ser encarnada.  Quanto à sabedoria,  eu afirmo o contrário: não podemos encarná-la, mas podemos aprender a conhecê-la, a despeito de ser ou não identificável  com a Verdade que talvez nos liberte.”

As palavras acima, de Onde encontrar a Sabedoria(ed. Objetiva), de Harold Bloom, nos ajudam a prosseguir o comentário sobre o  grande livro da nossa literatura, Grande Sertão: Veredas.

Quem já leu o leu sempre se lembra de uma citação que ilumina um problema, uma situação, um dilema, a  condição humana, tal como foi sendo construída ao longo dos milênios. Há pessoas que o citam constantemente. Há até os que, sem nunca o terem lido, conhecem (e citam) trechos. Um exemplo famoso: “… o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas—mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro –dá gosto! A força dele, quando quer –moço!—me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho—assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

Onde encontrar a Sabedoria ? Em Grande Sertão: Veredas. Nesse monumental livro de auto-ajuda, que pulveriza as dicas-miojo presentes no mercado editorial de como encarar a vida e o quotidiano, esplendor estético, força intelectual e sapiência (no sentido existencial e místico) se entrelaçam de uma forma tão perfeita que mesmo recentes interpretações cujo objetivo é desmistificar a figura de Riobaldo (por conta do seu Pacto, o qual seria não com o Demo, mas com o poder instituído–como depreendemos de leituras críticas menos metafísicas e mais historicizantes) não conseguem tirar o seu charme e carisma de Hamlet/Fausto sertanejo.

O mais importante e bonito da obra-prima de Guimarães Rosa é que essa Sabedoria que se tira da leitura, contínua ou renovada algumas vezes, do romance está mergulhada no fluxo da narrativa, não dá para separar da “matéria vertente que é o existir, o ser-tão em meio a veredas que podem ser acaso ou destino. Como nunca permanecemos iguais (e mocidade não é “tarefa para mais tarde se desmentir ?) cada leitura é uma nova experiência e aferição de achados neste nosso misturado mundo. Pois a sabedoria que possamos conseguir jamais se desvincula do tipo específico de vivência que temos. Nem a religião (e Riobaldo prova de todos) é garantia suficiente: “Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório”.

Como bem notou Kathrin Rosenfeld (em Os Descaminhos do Demo, ed. Imago), o paradoxo da sabedoria a ser encontrada num mundo de veredas faz com que a narrativa de Riobaldo seja não a revelação e o desvendamento de um Sentido, “mas o desdobramento de uma densa trama de imagens nas quais a verdade –a essência, o Nome—se oculta(…) no desdobramento das imagens  do sertão  confuso e misturado, que impede a visão imediata da verdade, obrigando-nos a seguir laboriosamente os rastros sinuosos das veredas labirintícas.” Nesse ponto, porém, temos sorte: podemos seguir laboriosa e precariamente as veredas labirínticas (todavia tão prosaicas) desse viver que é tão perigoso (até na sua banalidade essencial), contudo as da travessia de Riobaldo são sempre um chamado ao máximo prazer da leitura

 III  

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de maio de 2006)

 “Quer percebamos claramente ou não o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos e em conseqüência mais capazes de organizar a visão que temos do mundo… A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado… toda obra literária pressupõe esta superação do caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido.” (Antonio Candido, O direito à literatura)

Na seção anterior afirmei que Grande Sertão: Veredas era um dos Livros de Sabedoria à nossa disposição, tanto no sentido básico das palavras acima de Antonio Candido, da literatura como organizadora da experiência (ou como diz Clarice Lispector tão belamente em A maçã no escuro: “organizar a alma em linguagem”), quanto no sentido de uma função—ou missão—pedagógica. É o traço que une livros tão díspares como os de Hermann Hesse (O jogo das contas de vidro), Thomas Mann (A montanha mágica), Doris Lessing (Shikasta), Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano) ou José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), para citar alguns romances que nos ensinam um pouco a viver. O fato de serem extraordinárias obras literárias também não é fortuito: para continuar citando o mestre da crítica brasileira, “quando recebemos o impacto de uma produção literária, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com sua organização… o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere” (como se vê, não é à toa que Candido escreveu o pioneiro ensaio esclarecedor sobre o significado da obra-prima de Guimarães Rosa, hoje chamado O homem dos avessos).

Esse é o lado iluminado, radioso, do livro. Todavia, há um lado sombrio, terrivelmente desolador, e é a sua revelação de que não basta organizar a alma em linguagem, como faz Riobaldo, seria preciso modificar o mundo em que se vende essa mesma alma ao diabo. Os recentes episódios do crime organizado impondo sua vontade à nossa desorganizada sociedade civil deram mais atualidade ao sertão simbólico de Guimarães Rosa onde o banditismo é um poder paralelo. Sertão simbólico que porém se enraíza em dados históricos bem reais (sua ação transcorre no início da República).

Um dos episódios mais impressionantes de Grande Sertão: Veredas é o encontro do bando de jagunços liderados por Zé Bebelo (do qual fazem parte Riobaldo e Diadorim) com os “catrumanos”, o povo mais miserável do sertão. Encontrá-los é como entrar numa máquina do tempo que remetesse ao remoto, ao arcaico, ao mais atrasado, ao verdadeiramente vergonhoso em nossa nação: falam outra linguagem, estão devorados pela doença, pelo abandono, pela desesperança. É aí que Riobaldo percebe o vazio dos discursos progressistas de Zé Bebelo, o qual apregoa querer “civilizar” o sertão, como hoje políticos falam em políticas sociais compensatórias como se fossem milagres mandados por Deus.

Mais ainda: na região dos catrumanos, Riobaldo conhece um fazendeiro, seô Habão, e percebe como é derrisória (e tão perto da condição pária do sertanejo, ou melhor, do povo brasileiro em geral) a vida de jagunço, que ele acreditava a princípio ter uma aura de glória: “—aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Não sei se ele sabia que queria… Mas a natureza dele queria, precisava de todos como escravos”.

Logo depois, nosso amigo Riobaldo faz seu famoso pacto com o Diabo. Não seria lícito ver na junção desses episódios algo de extremamente revelador sobre a natureza da sociedade brasileira ? Jagunço levado pelo destino, Riobaldo se entende com o demo e se habilita a se tornar líder do bando; mais ainda, se habilita a  transformar-se num rico proprietário como seô Habão, livre, leve e solto para transformar sua vendida alma em portentosa linguagem.


29/05/2012

1956, annus mirabilis de Guimarães Rosa (primeira parte)

 

MANUELZÃO E MIGUILIM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de fevereiro de 2006)

    Guimarães Rosa publicou suas duas principais obras, Corpo de Baile Grande Sertão: Veredas em 1956. A primeira delas apareceu em janeiro e mesmo quem já apreciara Sagarana (1946) ficou impactado. Até há pouco tempo, os sete textos que a compõem encontravam-se divididos em 3 volumes (uma edição especial da Nova Fronteira restaurou a ordem original). Neste artigo, falaremos de um deles, Manuelzão e Miguilim.

   Miguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente  o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão e de  “A Terceira Margem do Rio”. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância (a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, A Harpa de Ervas, de Truman Capote, por exemplo), é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hiper-sensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmãozinho Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Miguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

 A beleza emocionante de Campo Geral sempre eclipsou injustamente o outro texto desse volume de Corpo de BaileUma Estória de Amor (Festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da  fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão (o pessoal da região, entretanto, vê em Manuelzão a encarnação da autoridade) e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo do povo, o dia inteiro. Dião de dia!”

    Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele morre de medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, uma atração inequívoca pela nora (“Leonísia era linda sempre, era a bondade formosa”). Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente a solidão de quem tem de estar em atividade constante para não cair na angústia: “Ao que veio o desânimo. A gente afrouxa… A ser, o que se dava. A gente afrouxa: Ao desalentos, o amontôo. Acizilino –amigo, de sua mesma idade, velho companheiro. Assim mesmo, esse tinha se casado, ainda na mocidade legal, agora estava no meio de sua família acostumada, somente que no peso da vida.”

    Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o gosto pelo mundo, dificultosamente, através da festa, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

   E, entremeando tudo, a festa da linguagem única de Guimarães Rosa: “Assim aquela procissão, ela marcava o princípio da festa ? Mas Manuelzão, que tudo definira e determinara, não a tinha mandado ser, nem previra aquilo. Quem então  imaginava o verdadeiro recheio das coisas, que impunham ara se executar, no sobre o desenho da ordem?”

 

 NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de fevereiro de 2006)

 “faça pirâmides, não biscoitos”(G.Rosa)

    O 2o. volume  de Corpo de Baile reúne três dos seus sete textos e tem o extravagante título de No Urubuquaquá, no Pinhém. No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não-traduzidas em alemão e italiano.

    Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já fora companheiro de infância de Miguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiafa a ele? Talvez trazer notícias da vida que Cara-de-Bronze  perdeu no processo de se fazer latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher.” A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra com Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado e perrengo Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé,  Sejisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim,  Zijisbéu Saturnim, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério,  Segisberto Saturnino).

    No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Não, leitor, não espere –felizmente—nada do tipo Ensina-me a Viver. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da Velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver.” Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing.

    O texto mais famoso de No Urubuquaquá, No Pinhém não se passa nem no Urubuquaquá nem no Pinhém, e sim em trânsito. Trata-se da obra-prima O Recado do Morro, no qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo, como mostra em Cara-de-Bronze), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de figurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos,  é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

 

 MIL E UMA NOITES DO SERTÃO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de fevereirod e 2006)

     O menos conhecido dos três volumes de Corpo de Baile  é Noites do Sertão, uma das mais requintadas representações literárias das relações erótico-amorosas que o responsável por esta coluna conhece. O autor se dá ao luxo, inclusive, de recriar a linguagem dos Cânticos de Salomão num dos momentos mais belos de Lão-Dalalão (ou Dão-Lalalão ou ainda O Devente), uma das duas “estórias” do livro, as quais são a coisa mais próxima de narrativas tradicionais que Rosa chegou a escrever pós-Sagarana.

    O protagonista de Lão-Dalalão  é Soropita e ele está voltando para casa,  “em meio-sonhada ruminação”. Ex-matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda, e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável.” Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até matá-lo. Por quê ? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de D. Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive o bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

    Aliás, o que faz com que Lão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

    Também complicada,  contudo não tão perfeita como realização artística,  é a ciranda amorosa de Buriti, a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele  chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro,  patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi buscá-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado dr. Miguel.

    Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alternando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1a. e a 3a. pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a impressão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências. 

 

20/05/2012

O FEITIÇO SARAMAGUIANO

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em “A Tribuna” de 22 de junho de 2010)

Para a minha geração, José Saramago (16 de novembro de 1922- 18 de junho de 2010) é, sem dúvida, o gênio da literatura da língua portuguesa. Eu tinha 17 anos quando ele lançou Memorial do Convento (1982) e começou a ser um autor-referência. Mas o primeiro livro que li dele, em 1985 (só li o Memorial no ano seguinte), ainda em edição portuguesa, O ano da morte de Ricardo Reis (ele o lançara no ano anterior) foi a ratificação absoluta: ali havia um feitiço, um uso inconfundível da linguagem (que só se confirmaria, pois, pró ou contra, quem não reconhecia de imediato o modo de escrever saramaguiano? E pensar que as pessoas perdem tempo implicando com a pontuação pouco ortodoxa, os diálogos indiferenciados nos longos parágrafos, enfim, miuçalhas,  coisas superficiais), e ao mesmo tempo, um domínio da arte da narração, que fazia com que seus romances fossem ao mesmo tempo tão exigentes e tão límpidos, tanto ‘alta literatura’  quanto obras carismáticas, que se tornaram populares, grandes sucessos de venda. E a prova desse feitiço é que ele criou uma legião de leitores apaixonados, assim como detratores passionais, porque era o nosso ponto-de-fuga, enquanto escritor (e infelizmente nenhum brasileiro se ombreou a ele no período): gostando ou não dele, Saramago nos definia para o mundo.

O aspecto mais curioso dessa sua eminência na minha geração é que esse sucesso todo lhe veio aos 60 anos. Era, portanto, um jovem gênio sessentão que despontava com Memorial do Convento e O ano da morte de Ricardo Reis. E isso também faz parte do enfeitiçamento em que ficávamos ao ler a primeira linha que nos caísse aos olhos desse português tão sisudo e tão apegado às suas convicções comunistas: não era um velho no sentido de ser um autor já com uma obra realizada (um João Cabral, ainda vivo na época), não era um autor mais antigo e já morto (como Guimarães Rosa), cujas obras descobríamos: era um autor que estava fazendo a sua obra naquele mesmo momento em que a minha geração se formava.

E que obra! Nem nos recuperáramos da magia daqueles dois livros, e logo vinha o deslumbrante O evangelho segundo Jesus Cristo (1991). Mal acabava a perplexidade de ele ter feito milagres com assunto tão batido, e sendo ateu, ainda por cima, vinha o lindíssimo Ensaio sobre a cegueira (1995), e logo depois a reatualização da lenda de Orfeu em Todos os nomes (1997). E então vinham os equívocos, como a aproximação de Saramago com Kafka (e mesmo com Borges). Certamente este foi uma influência, mas se tivéssemos de alinhar o autor português a alguma tendência seria àquela representada por nomes como Thomas Mann, Albert Camus,  Marguerite Yourcenar, Doris Lessing, representantes da vilipendiada literatura humanista, com propósitos nitidamente pedagógicos (mesmo Camus, com seu conceito de absurdo). É por isso que não o considero um autor pessimista, como afirmam, no sentido que é, dentro da linhagem de William Faulkner, pelo peso do fatalismo e do atávico,um António Lobo Antunes (e é curiosa essa continuidade que, pelo menos como eu vejo, se mantém na dupla Saramago-Antunes, da tensão, da brecha existente entre meus dois autores favoritos, justamente Mann & Faulkner).

E depois do Nobel, quando as exigências se complicaram, ainda mais pela presença de um universo tão assombroso quanto o dele, como acabou se provando o de António Lobo Antunes, mesmo assim, de vez em quando tínhamos o grande Saramago, em boa parte de A caverna, Ensaio sobre a lucidez, na maior parte de As intermitências da morte e na totalidade absoluta de um romance tão lindo e raro como A viagem do elefante. E que molecagem deliciosa, aos 86 anos, essa de sacudir a autoridade do Velho Testamento em Caim!

O único senão é a mania de querer transforma rum grande autor em “pensador”. Dono de uma autoridade estética e ética indiscutível, o pensamento de Saramago, o Thomas Mann de nossos dias,  brilha é nas suas narrativas, na sua arte, no seu estilo. Querer extrair “frases”, “pensamentos”, uma filosofia da sua obra é uma tolice. O feitiço está em outra parte. E alimentará outras tantas gerações.

10/05/2012

J.D.SALINGER (1919-2010)

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 7:55
Tags: ,

 

(resenha-homenagem publicada em  A TRIBUNA de Santos 02 de fevereiro de 2010)

“…fico imaginando uma porção de garotinhos num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto –quer dizer, ninguém grande— a não ser eu. E estou na beirada de um precipício louco. Sabe o que eu tenho de fazer? Tenho de agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se eles estiverem correndo sem olhar para onde estão indo, eu tenho que sair de algum canto e agarrar eles. Só isso que ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio”.

     O meu leitor habitual  me perdoará, espero, a interrupção do comentário a respeito de  Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, de  Lobo Antunes (na verdade,  ia fazer um paralelo entre a obra dele e a de Saramago, na última década,  como os grandes mestres da atual ficção de língua portuguesa) para homenagear J.D.Salinger, cuja morte teve grande repercussão na semana passada e que criou esse artefato raro, o livro-ícone, pop, cult, o que se quiser dizer, e que é ao mesmo tempo uma grande obra literária: O apanhador no campo de centeio (1951), um dos textos mais famosos e influentes do século XX, e em todos os níveis da cultura.

Quem viu o filme Teoria da Conspiração lembra que o personagem de Mel Gibson era um assassino criado por experiências de laboratório e que se desgarrava dos seus mentores; no entanto, havia nele a compulsão (incutida) de comprar exemplares do livro de Salinger, permitindo assim que o pudessem localizar. E esse é apenas um exemplo da constante presença no imaginário da nossa época da história de Holden Caufield, onde pela primeira vez se deu uma voz convincente a uma figura que ficava numa espécie de “limbo” entre os personagens da ficção: o adolescente.

Muito admirado, muito atacado e esnobado, O apanhador no campo de centeio transformou o esquivo Salinger num guru, e isso acarretou dois efeitos negativos: obrigou o autor a encerrar prematuramente sua carreira, com apenas quatro livros publicados (seu último livro apareceu em 1963,  e depois ele só publicou mais um conto, em 1965), e se tornar um recluso mítico e assediado, até sua morte aos 91 anos; pior ainda, obscureceu o resto da sua obra, num grave prejuízo para a literatura.

Pois se com o frescor da sua linguagem, o mais famoso texto de Salinger é uma obra carismática, sua obra-prima com certeza é a coletânea Nove Estórias (1953), que eu sempre chamo de as jóias da coroa salingeriana. São oito contos maravilhosos (não aprecio o nono,  “Teddy”, porque já tem aquele pé na auto-ajuda e no misticismo, que ficarão cada vez mais acentuados em sua produção posterior, porém é uma questão de gosto). Aí aparecem pela primeira vez os membros da singular família Glass, criada como contraponto ao materialismo do “american way of life”: sete irmãos, sendo Seymour, o visionário, o poeta, quase um santo. Ele surge no extraordinário conto “Um dia ideal para os peixes-banana”, e alguns de seus irmãos nos contos “Tio Wiggily em Connecticut” e “Lá embaixo, no bote” ,  mas os meus preferidos no livro são “O gargalhada”, com aquele tema essencial da ficção americana, a perda da inocência, “Pouco antes da guerra com os esquimós” e “A Fase Azul de De Daumier-Smith”, que entram em qualquer antologia sensata dos melhores contos de todos os tempos.

Nesses dois livros iniciais, temos uma visão muito clara do desamparo diante do mundo adulto e das escolhas que oferece (ou impõe), com a fixação na idéia de realização, sucesso e certezas monolíticas, o precipício no campo de centeio que Holden imagina, vendo-se como uma barreira para a imolação de futuras vítimas, num devaneio que muitos acham pueril, mas que é, no fundo, extremamente pungente.

O restante da obra de Salinger é perturbador e problemático: ele continuou sendo um mestre da narrativa e do diálogo (e no retrato de uma determinada faixa sofisticada de Manhattan e da Nova Inglaterra) em Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira  e Franny (1955), além de fazer experiências formais maravilhosas, como em Seymour, uma apresentação (1959), um dos textos mais radicais já escritos. Porém, seu apego pelo místico, pela disciplina do “zen”, e sua idealização da figura de Seymour Glass, prejudicaram muito o equilíbrio dessa última fase, especialmente  a última obra citada e  Zooey (1958), dando munição a seus detratores. São as peculiaridades e estranhezas do talento supremo, que nunca agradará a todos, mesmo. E  por isso, ele foi único.

 

 

03/04/2012

FAZENDO DE CONTA QUE MILLÔR MORREU

 

(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de  Santos, em 03 de abril de 2012)

“Quando eu morrer/ Vão lamentar minha ausência/Bagatela/ Pra compensar o presente/Em que ninguém dá por ela” (Poeminha com saudade de mim mesmo); “Me elogia, vai!/Escreve um troço, aí!/ Não dói não; faz de conta/Que eu morri” (Poeminha sem objetivo).

Nos últimos dias, o Brasil perdeu dois mestres do humor: Chico Anysio e Millôr Fernandes. Lembro, com relação ao segundo, de como eu era bobo lá pelo início dos anos 80, e comecei a colecionar a série “Literatura Comentada”, da Abril Cultural: fiquei espantado em ver um autor piadista e humorístico incluído numa mesma coleção em que figuravam Machado de Assis e Carlos Drumond de Andrade (em contrapartida, não me causou espécie a inclusão–que deve ter indignado muita gente de feição mais acadêmica e careta– de Chico Buarque ou Caetano Veloso, que eu ouvia o tempo todo na época, o que mostra que nossas percepções são sempre permeadas pelos nossos gostos). Espero ter ficado menos bobo.

E um país onde baluartes da moralidade no congresso pedem que  amigos bicheiros paguem para eles o frete de um táxi-áereo, entre outras ações duvidosas,  precisa desesperadamente de talentos desse naipe. O país que,em suas mazelas e fisiologismos, não é sério, precisa mais do que nunca da alta seriedade do humor de primeira.

É quase impossível mapear o legado de Millôr. Confesso que conheço pouco sua obra teatral própria, mas poucos tradutores do gênero foram tão importantes ou podem se orgulhar tanto do rol de traduzidos: Moliére, Racine, Tchekhov, Shakespeare.  Comentando sua versão brilhante de Rei Lear, já afirmei que Millôr  vertia peças clássicas para que funcionassem no palco (eu mesmo, como professor tive uma ótima experiência  com a leitura em voz alta do seu Hamlet em classe, com a antiga sétima série, agora oitavo ano, na Escola da usina Henry Borden em Cubatão:)  em português, e isso é um feito e tanto.

Além disso, há a perspicácia, a ironia corrosiva, a falta de complacência com que acompanhou como jornalista, chargista, cronista e poemista a vida nacional das últimas décadas. Com seu assombroso poder sintético, suas frases mínimas, seus trocadilhos e inversões maravilhosos (“pé em deus e fé na tábua” , por exemplo, ou então: “No princípio era o caos/ou é agora?”),  que só encontram par em Oswald de Andrade, ele se prestava a ser citado, a estar na boca de qualquer um, às vezes sem a pessoa sequer ter consciência de saber que o estava citando. Não há área, cotidiano, política, sexualidade, questões essenciais do ser humano, para a qual suas sequências de poemeus ou poeminhas, como gostava de caracterizá-los, não deem seu pitaco: “Mentira, dizer que a idade/ Nos torna mais aptos ao amor/ Mais sensíveis ao seu/ Sabor e valor./ Os que fazem da meia-idade/ O supremo da vida/Ainda força e muita experiência/ Estão querendo iludir/A própria essência/ Do tempo./Querem/ Pálida compensação/ Pros dias em que amavam/ Sem jeito e sem razão./Não topo essa mentira—/ Eu não!/ O que quero é deter/ O ponteiro fatal/ Que, aliás, nem existe mais/ Em meu relógio digital.”  Nos Poemas e na Bíblia do Caos-Millôr Definitivo, são inúmeros os exemplos de pérolas do tipo Coragem é isso, bicho!: “Eu sofro de mimfobia/ Tenho medo de mim mesmo/Mas me enfrento todo dia; ou o petardo mortífero de Conselho à moda da casa: “Madama/ Não infunda/ Uma minissaia/Numa maxibunda”. Se as popozudas lessem Millôr…

Ele ainda se deu ao luxo de produzir centenas de Hai-Kais. E sempre do seu jeito: virando tudo do avesso, mas com o rigor que a forma pede, usando o molde para dinamitar o caos instituído: “É meu conforto/Da vida só me tiram/Morto”; “Probleminhas terrenos:/ Quem vive mais/ Morre menos?”; “Maravilha sem par/A televisão/Só falta não falar”;”Ao anoitecer/Um tiro evita/ O envelhecer”; “Na visa, o gozado/ É que nem o palhaço/ É engraçado”; “Vida rural, senhor/ É ver vacas/Na tevê em cor”; “Será que o doutor/Cobra pela cura/ Ou cobra a dor/”; “O pobre com seu gemido/Nem acorda/ O pão dormido” e por aí vai…

E um Hai-Kai que serve como uma luva aos nossos juízes com medo de devassas nas contas do judiciário: “Lá está o magistrado/ Com seu ar/De injustiçado”.

Fazendo conta que você morreu, mestre Millôr, como é que alguém pode não dar por sua presença no mundo? 1923-2012: Os millôres anos de nossas vidas.

15/03/2012

50 anos de uma boa hora na obra de Garcia Márquez

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de setembro de 2006)

Antes de ficar famoso e superestimado com Cem anos de solidão (1967), Gabriel García Márquez já explorara seu universo ficcional de Macondo em alguns livros muito promissores. Um deles, A má hora (conhecido no Brasil como O veneno da madrugada, e traduzido por Joel Silveira), de 1962, foi reeditado agora pela Record.

Nele, García Márquez amplia o virtuosismo técnico que marcara o seu primeiro trabalho, La hojarasca (atualmente A revoada, mas cujo título anterior era O enterro do diabo), no qual três narradores (um menino, sua mãe e seu avô) se alternavam para contar a história. O grande problema: o tom das três narrativas, muito parecido, insinuando-se para o leitor o mal que assola a musa do demiurgo de Macondo: a tendência ao monocórdico.

Curiosamente, essa tendência se realizava de forma muito feliz no brilhante Ninguém escreve ao coronel (narrado numa terceira pessoa que nunca difere muito das primeiras pessoas em García Márquez), talvez o seu melhor texto, apesar da beleza de O outono do patriarca, porque se casava a um relato em que havia uma opressiva e repetitiva espera e um clima de fracasso generalizado.

A má hora (não há como negar que a tradução literal tira a graça do título original, La mala hora) mostra Macondo já como uma cidade derrotada, esquecida no tempo e no espaço. Nessa pasmaceira, pasquins misteriosos delatam crimes e pecados de determinados cidadãos. Há um assassinato e a investigação que o novo Alcaide promove serve como pretexto para impor um estado de sítio e para que ele efetive um sutil plano de corrupção, de forma a enriquecer o mais rápido possível. Ele que fora flagrado a princípio como vítima de um problema dentário que o reduzia à prostração, vai revertendo o quadro aos poucos (e através de pequenas frases, como na cena em que conversa com o empresário de um circo que vem se apresentar na cidade. O empresário diz: É um espetáculo completo, para crianças e adultos”. Seu interlocutor: “Isso não basta. É preciso que seja próprio também para o Alcaide”; numa cena posterior maravilhosa, ele fica indignado com um aviso do barbeiro proibindo discussões políticas no seu estabelecimento: Aqui o único que tem direito de proibir qualquer coisa é o governo. Estamos numa democracia”) até que temos a sensação de que verdadeiramente se apossou de Macondo.

Apesar de um certo arrastamento, A má hora é um livro talentoso e muito melhor do que quase todo o García Márquez posterior (tirando o já citado Outono do patriarca e Crônica de uma morte anunciada o que veio depois sempre deixou a desejar). Ele experimenta um tipo de narrativa-mosaico, onde cada capítulo ganha um crivo coletivo, centrando o foco narrativo em diversas personagens, de uma forma que Macondo emerge como a personagem central do romance, mais até do que os personagens relevantes, caso de padre Ángel ou do Alcaide. Um dos episódios principais, aliás, ganhou outra versão, menos melodramática e colorida, num dos contos (“Um dia desses”) da coletânea Os funerais da mamãe grande: trata-se do momento em que o Alcaide ao invés de humilhar-se para pedir ajuda ao dentista, inimigo do governo, invade a sua casa com policiais armados.

Depois da má hora para a literatura que foi Memórias de minhas putas tristes, o leitor tem a possibilidade de constatar o que perdeu no caminho, de 1962 para cá. 

 

 

 

 

 

 

 

14/03/2012

A nomeação do mundo: os 50 anos de O SÉCULO DAS LUZES

  

             Explosão numa Catedral. Este é o título norte-americano de O Século das Luzes, o mais famoso romance de Alejo Carpentier, de 1962, reaparecendo agora  em nova e  arejada tradução (de Sérgio Molina). O sentido arquitetônico e uma conhecida tirada de Marx  (“tudo o que sólido desmancha no ar”) ficam bem claros na imagem que evoca por um lado a solidez (a catedral) e, por outro, a desestabilização (a explosão). E é esse o legado de Victor Hughes, francês que vem implantar a Revolução Francesa no Caribe, para a vida dos primos Esteban e Sofia, os quais moram em Havana numa mansão labiríntica, barroca, em completa desordem. Ao adentrar a morada e ordená-la (bem ao gosto francês), Hughes no entanto os desenraíza, deslumbrando-os com o espetáculo de uma mudança da humanidade através do ato revolucionário que, entretanto, acaba tendo a Guilhotina como fetiche (ela também é trazida da França para impor Ordem e Progresso aos tristes trópicos).

    Primeiro, Carpentier nos mostra Hughes sob o ponto-de-vista de Estebán, que o acompanha de Cuba à França, e depois novamente à América (Guadalupe, Guiana, Suriname, Venezuela). Boa parte de O Século das Luzes é dedicada à educação sentimental do jovem cubano e sua desilusão diante da associação Revolução-Guilhotina. Retornando ao lar, Estebán descobre-se apaixonado pela prima que, ao ficar viúva, foge ao encontro de Hughes, para se tornar companheira de um Titã, envolvido numa nova épica da humanidade. É a derradeira apertada no parafuso do desencanto: com a ascensão de Napoleão, a Revolução aburguesou-se e até se revoga o decreto que abolira a escravidão nas possessões francesas.

    Fica evidente que, sendo cubano, Carpentier está nos contando também, por alusão, o fracasso do Mito da Revolução Russa e sua adaptação aos trópicos por Fidel Castro através do seu luxuriante resgate da mentalidade do final do século XVIII.

 

    Pois  O Século das Luzes é um banquete de linguagem, nas mãos de um narrador que tem o gosto inventariante, o prazer de encampar o teatro do mundo através das palavras, na melhor tradição da língua espanhola.

    Na semana passada, comentei A Vida Breve, do uruguaio Juan Carlos Onetti, um livro maravilhoso. Nele, a linguagem é rarefeita, cônscia da sua insuficiência. É algo que os leitores de Clarice Lispector conhecem bem.

    Se Onetti deve ser colocado ao lado da autora de A Maçã no Escuro, Carpentier estaria definitivamente ao lado de Guimarães Rosa. Sem escamotear  o lado mais incômodo do ato de existir, escritores como eles potencializam a linguagem de uma tal forma que ela parece por si só ser  uma demonstração de otimismo, como se fosse responsável pela povoação do mundo, por preenchê-lo com a luz do seu Verbo (talvez nem todos concordem, mas Grande Sertão: Veredas é um livro radiante). Num dos mais belos momentos de O Século das Luzes, Esteban, que serve Hughes como escrivão de uma flotilha de corsários (a serviço da “Revolução”), encontra um desconhecido arquipélago: “Nenhuma dessas ilhas era semelhante à seguinte e nenhuma era feita da mesma matéria… Esteban sentia-se inclinado a exprimir seu assombro diante das coisas posta ali, inventando-lhes nomes” e daí segue-se um longo e nada fastidioso catálogo desses nomes inventados para fazer existir enfim esse lugar inédito.

    Essa investimento na Palavra, no seu poder, não tem nada a ver com a retórica pomposa e vazia dos que usam a linguagem de forma corrompida e transformam a Razão num sono de monstros, como outra passagem relacionada a Esteban pode comprovar. Ele vai a um hospital na holandesa Paramaribo e vê uma fila de negros: “E o jovem soube com horror que esses escravos, convictos de revolta e tentativa de fuga, haviam sido condenados pela Corte de Justiça do Suriname à amputação da perna esquerda. E como a sentença tinha de ser executada de maneira limpa e científica, sem o uso de processos arcaicos, próprios de épocas bárbaras, que causavam excessivo sofrimento e punham em risco a vida do condenado, os nove escravos eram levados ao melhor cirurgião de Paramaribo para que este, de serra em punho, cumprisse a decisão do Tribunal.” 

 

(resenha publicada  originalmente em 22  de janeiro de 2005  em A TRIBUNA de Santos) 

 

 

 

 

 

 

07/02/2012

A volta ao mundo Júlio Verne

 

Jules Verne (ou melhor, Júlio Verne, para as muitas gerações de aficcionados brasileiros) morreu em 1905, embora sua decadência física tivesse começado quase uma década antes com um suspeitíssimo acidente no qual seu sobrinho Gaston o atingiu com um tiro. O homem que transformou a geografia em aventura não era muito de se deslocar, ainda que se possa ver uma projeção irônica no fato de que seu mais famoso herói, Phileas Fogg,  inglês metódico e sedentário, ser justamente aquele que percorre mais intrepidamente o mundo.

Está saindo uma coleção de banca das obras de Jules Verne. Os dois primeiros título logo de cara são duas das três obras que mais povoaram meus sonhos de pré-adolescente: A volta ao mundo em oitenta dias e Vinte mil léguas submarinas (a outra, claro, é Viagem ao centro da terra).

Há poucos anos (justamente no centenário da morte de Verne),  reli A volta ao mundo em oitenta dias, numa primorosa edição da Melhoramentos, com boa tradução (alguns escorregões visíveis, é verdade, mas nada grave). Por mais bonita que seja a edição que se encontra nas livrarias, da Ediouro, é preciso deixar para a garotada a adaptação de Paulo Mendes Campos.

volta ao mujndo em 80 dias

Pensando bem, seria necessário mesmo adaptar e reduzir Júlio Verne para a garotada,  pelo menos a história de Phileas Fogg ou a do professor Lidenbrock ou a do Capitão Nemo ? Após a releitura de A volta ao mundo em oitenta dias, é possível dizer que não. Verne é um mestre da narrativa, nem descrições (sempre enxutas no romance, e muito expressivas) nem didatismos (discretíssimos) nem a mentalidade eurocêntrica atrapalham. É óbvio que se a aposta de Phileas Fogg mostra o homem europeu como senhor do mundo, o que hoje propicia um grau de ironia para a leitura,  isso não afeta em nada a perfeita construção do enredo, seu ritmo preciso, a distribuição notável dos episódios entre o patrão fleumático e generoso (Fogg) e o criado passional e trapalhão (Passepartout). O inglês e o francês. É o francês quem dá mais humanidade ao relato e quem vê o mundo, totalmente ignorado pelo inglês, nesses oitenta dias.

Verne não dispensa uma certa malícia ao retrato de um Fogg tão autômato, tão impassível, tão confiante na exatidão, típico homem de um momento de glorificação da ciência, do planejamento, do progresso (e que no entanto adere sem hesitação a uma idéia fixa, a uma meta fantástica): “Sir Francis Cromarty teria dado com prazer informações sobre os costumes, a história, a organização da Índia, caso Phileas Fogg fosse homem de fazer perguntas. Mas o cavalheiro nada perguntava. Não viajava, descrevia uma circunferência. Era um corpo pesado que percorria uma órbita ao redor do globo terrestre, de acordo com as leis da mecânica racional. Neste momento, refazia de cabeça o cálculo das horas gastas desde sua partida de Londres, e teria esfregado as mãos, se fosse da sua natureza fazer gestos inúteis”.

Também há malícia no relato da travessia dos EUA (de San Francisco a Nova York) que aparecem tão pitorescos e exóticos quanto a Índia ou o Japão (e com a fascinação dos escritores europeus pelo universo mórmon, como também vemos em Conan Doyle). Mas o que arremata mesmo o encanto de A volta ao mundo em oitenta dias, esse livro maravilhoso, é o humor. Fogg resolve atrasar sua viagem para salvar a bela Auda (que será o seu grande amor), vítima da seita da deusa Kali, porque está “doze horas adiantado” ! Sir Francis Cromarty diz a ele: “O senhor tem um bom coração!” E a resposta já valeria o livro: “Às vezes. Quando tenho tempo.”

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de maio de 2005)

            

 

05/02/2012

WISLAWA SZYMBORSKA (1923-2012)

Filed under: Homenagens,traduções — alfredomonte @ 12:04
Tags: ,

 

  A morte de Wislawa Szymborska nada tem de triste ou terrível, decerto. Uma senhora que “morreu tranquilamente, enquanto dormia“,  na sua casa (em Cracóvia) aos 88 anos (completaria 89 em dois de julho), apesar do câncer do pulmão, viveu uma longa  vida. E nesse caso específico uma longa vida no sentido da sabedoria poética, da consolidação em fórmulas líricas das percepções mais sagazes, lúcidas e pertinentes.

   Mesmo assim, sempre há um rastro melancólico, Para mim, porque faz pouco tempo que “descobri” a poesia de madame Szymborska (foi exatamente em outubro do ano passado).

   Minha queridíssima amiga (também grande escritora) Maria Valéria Rezende escreveu-me, afirmando  que eu “inoculei o veneno” da admiração por Zymborska nela. E me deu um grande presente: uma antologia de versões em várias línguas, que ela mesmo preparou.

    Para começar, vou transcrever algumas versões dos poemas que eu já tinha apontado como notáveis na minha resenha sobre o livro Poemas, a seleção feita por Regina Przybycien, e na minha pequena antologia de um poema para cada dia da semana da grande poeta polonesa. Há versões em francês, italiano, espanhol e inglês, e versões diferentes em português,  embora infelizmente nem sempre indicação do responsável pela versão, o que contraria meu costume aqui no blog, mas o que se há de fazer?, nem sempre é possível ser rigoroso.

UN CHAT DANS UN APPARTEMENT VIDE

 

Mourir. Il ne faut pas faire cela à un chat.

 que peut-il faire

Dans un appartement vide ?
 Grimper aux murs 
 se frotter contre les meubles?
 Apparement rien n’a changé 
 et pourtant rien n’est pareil.

 rien n’a été déplacé
 et pourtant rien n’est en place.

 et le soir pas de lampe allumée.

 un bruit de pas dans l’escalier
 mais ce n’est pas le bon.

 une main

Met le poisson dans l’assiette
 mais ce n’est pas la bonne. 
 Quelque chose ne commence pas 
 à l’heure habituelle,
 quelque chose ne se passe pas
 comme cela devrait.

 quelqu’un était là depuis toujours
 et soudain n’est plus
 s’obstinant à rester disparu. 
 On a fureté dans les armoires
 fouillé les étagères
 on s’est faufilé sous le tapis

Pour vérifier.

 on a même bravé l’interdit

En allant au bureau
 et en mettant les papiers en désordre  
 que faire maintenant ?
 Dormir et attendre.

 attendre qu’il revienne  s’il ose!
 Et lui faire savoir

Qu’on ne fait pas ça à un chat. 
 On avancera vers lui
 l’air détaché un peu hautain
 en faisant semblant de ne pas le voir.

 on marchera très lentement
 la patte boudeuse
 et surtout pas un bond

Pas un ronron, 
 du moins au début

  UN GATO EN UN PISO VACÍO


MORIR, ESO A UN GATO NO SE LE HACE.

PORQUE, ¿QUE PUEDE HACER UN GATO
EN UN PISO VACÍO?
SUBIRSE POR LAS PAREDES.

RESTREGARSE CONTRA LOS MUEBLES.

NADA AQUÍ HA CAMBIADO,
PERO NADA ES COMO ANTES.

NADA HA CAMBIADO DE SITIO,
PERO NADA ESTÁ EN SU SITIO.

Y LA LUZ SIGUE APAGADA AL ANOCHECER.

SE OYEN PASOS EN LA ESCALERA,
PERO NO LOS ESPERADOS.

UNA MANO DEJA PESCADO EN EL PLATO
Y NO ES, TAMPOCO, LA DE ANTES.

ALGO NO EMPIEZA
A LA HORA DE SIEMPRE.

ALGO NO SUCEDE
SEGÚN LO ESTABLECIDO.

ALGUIEN ESTABA AQUÍ, ESTABA SIEMPRE,
Y DE REPENTE DESAPARECIÓ
Y SE EMPEÑA EN NO ESTAR.

SE HA BUSCADO YA EN LOS ARMARIOS,
SE HAN RECORRIDO LOS ESTANTES.

SE HA COMPROBADO BAJO LA ALFOMBRA.

INCLUSO SE HA ROTO LA VEDA
DE ESPARCIR PAPELES.

¿QUÉ MÁS SE PUEDE HACER?
DORMIR Y ESPERAR.

¡AY, CUANDO ÉL REGRESE,
AY, CUANDO APAREZCA!
SE ENTERARÁ DE QUE ESTAS NO SON MANERAS
DE TRATAR A UN GATO.

COMO QUIEN NO QUIERE LA COSA,
HABRÁ QUE ACERCÁRSELE,
DESPACITO,
SOBRE UNAS PATITAS, MUY, MUY OFENDIDAS.

Y, DE ENTRADA,  NADA DE BRINCOS NI MAULLIDOS

IL GATTO IN UN APPARTAMENTO VUOTO

 

Morire . Questo a un gatto non si fa.

Perché cosa può fare il gatto

In un appartamento vuoto?
Arrampicarsi sulle pareti
strofinarsi contro i mobili?
Qui niente sembra cambiato
eppure tutto è mutato
niente sembra spostato
eppure tutto è fuori posto
la sera la lampada non è più accesa
si sentono passi sulle scale
ma non sono quelli
anche la mano

Che mette il pesce nel piattino
non è quella di prima. 
Qualcosa non comincia
alla sua solita ora
qualcosa non accade
come dovrebbe
qui c’era sempre qualcuno. Sempre.

E poi d’un tratto è scomparso
e si ostina a non esserci
in ogni armadio si è guardato
si è cercato sulle mensole
e infilati sotto il tappeto

Ma non ha portato a niente
si è  persino infranto il divieto

Di  entrare nell’ufficio

E si sono sparse carte dappertutto.

Cos’altro si può fare
aspettare e dormire 
che provi solo a tornare
che si faccia vedere se osa !
Deve imparare che

Questo non si fa a un gatto.

Gli si andrà incontro

Con aria distaccata

Un po’ altezzosi

Come se non lo si vedesse

 camminando  lentamente
sulle zampe molto offese
e soprattutto

Non un salto nè un miagolio.

Almeno non subito.

 CAT IN AN EMPTY APARTMENT

TRAD. 01
Die – you can’t do that to a cat.

Since what can a cat do
in an empty apartment?
Climb the walls?
Rub up against the furniture ?
Nothing seems different here,
but nothing is the same.

Nothing has been moved,
but there’s more space.

And at nighttime no lamps are lit.

Footsteps on the staircase,
but they’re new ones.

The hand that puts fish on the saucer
has changed, too.

Something doesn’t start
at its usual time.

Something doesn’t happen
as it should.

Someone was always, always here,
then suddenly disappeared
and stubbornly stays disappeared.

  

Every closet has been examined.

Every shelf has been explored.

Excavations under the carpet turned up nothing.

A commandment was even broken,
papers scattered everywhere.

What remains to be done.

Just sleep and wait.

Just wait till he turns up,
just let him show his face.

Will he ever get a lesson
on what not to do to a cat.

Sidle toward him
as if unwilling
and ever so slow
on visibly offended paws,
and no leaps or squeals at least to start.

Cat in an empty apartment

TRAD 02

Dying–you wouldn’t do that to a cat.

For what is a cat to do

in an empty apartment?

Climb up the walls?

Brush up against the furniture?

Nothing here seems changed,

and yet something has changed.

Nothing has been moved,

and yet there’s more room.

And in the evenings the lamp is not on.

 

One hears footsteps on the stairs,

but they’re not the same.

Neither is the hand

that puts a fish on the plate.

 

Something here isn’t starting

at its usual time.

Something here isn’t happening

as it should.

Somebody has been here and has been,

and then has suddenly disappeared

and now is stubbornly absent.

 

All the closets have been scanned

and all the shelves run through.

Slipping under the carpet and checking came to nothing.

The rule has even been broken and all the papers scattered.

What else is there to do?

Sleep and wait.

 

Just let him come back,

let him show up.

Then he’ll find out

that you don’t do that to a cat.

Going toward him

faking reluctance,

slowly,

on very offended paws.

And no jumping, purring at first.

 

 

Museu

 Há pratos, mas falta apetite
Há alianças, mas falta reciprocidade
pelo menos desde há 300 anos.
Há o leque – onde os rubores?
Há espadas – onde há ira?
E o alaúde nem tange à hora gris.
Por falta de eternidade juntaram
Dez mil coisas velhas.
Um guarda musgoso cochila docemente,
com os bigodes caindo sobre a vitrine.
Metais, barro, plumas de ave
Triunfam silenciosamente no tempo.
Apenas um alfinete da galhofeira do Egito ri zombeteiro.
A coroa deixou passar a cabeça.
A mão perdeu a luva.
A bota direita prevaleceu sobre a perna.
Quanto a mim, vivo, acreditem por favor.
Minha corrida com o vestido continua
E que resistência tem ele!
E como ele gostaria de sobreviver!

 In Quatro poetas poloneses. Organização e tradução Henrik Siewierski e José Santiago – edição da Secretaria de Cultura do Paraná, 1995.

 

    

  Quarto do suicida 

 

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta – um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

 

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os rnoralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos. 

 

 E  não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo – ou seja, ainda viva. 

 

 Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma -
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

 

Tradução: Ana Cristina Cesar em colaboração com a polonesa Grazyna Drabik.

 

  

 

La habitación del suicida

 

 

 

Seguramente crees que la habitación estaba vacía.

 

Pues no. Había tres sillas bien firmes.

 

Una lámpara buena contra la oscuridad.

 

Un escritorio, en el escritorio una cartera, periódicos.

 

Un buda despreocupado. Un cristo pensativo.

 

Siete elefantes para la buena suerte y en el cajón una agenda.

 

¿Crees que no estaban en ella nuestras direcciones?

 

 

 

Seguramente crees que no había libros, cuadros ni discos.

 

Pues sí. Había una reanimante trompeta en unas manos negras.

 

Saskia con una flor cordial.

 

Alegría, divina chispa.

 

Odiseo sobre el estante durmiendo un sueño reparador

 

tras las fatigas del canto quinto.

 

Moralistas,

 

apellidos estampados con sílabas doradas

 

sobre lomos bellamente curtidos.

 

Los políticos justo al lado se mantenían erguidos.

 

 

 

No parecía que de esta habitación no hubiera salida,

 

al menos por la puerta,

 

o que no tuviera alguna perspectiva, al menos desde la ventana.

 

 

 

Las gafas para ver a lo lejos estaban en el alféizar.

 

Zumbaba una mosca, o sea que aún vivía.

 

 

 

Seguramente crees que cuando menos la carta algo aclaraba.

 

Y si yo te dijera que no había ninguna carta.

 

Tantos de nosotros, amigos, y todos cupimos

 

en un sobre vacío apoyado en un vaso. 

 

 

 

 

 le tre parole più strane

 

 quando pronuncio la parola  f u t u r o

 

la prima sillaba già va nel passato.

 

quando pronuncio la parola  s i l e n z i o

 

lo annullo.

 

quando pronuncio la parola  n i e n t e

 

creo qualcosa che non entra in alcun nulla.

 

discorso ufficio oggetti smarriti – adelphi

 

 

As três palavras mais estranhas

 

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.

 

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

 

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

 

Tradução: Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves 

 

de Alguns gostam de poesia- Antologia- Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska, Cavalo de Ferro, 2004

 

     

 

Las tres palabras más extrañas

 

 

 

Cuando pronuncio la palabra Futuro,

 

la primera sílaba pertenece ya al pasado.

 

Cuando pronuncio la palabra Silencio,

 

lo destruyo.

 

Cuando pronuncio la palabra Nada,

 

creo algo que no cabe en ninguna no-existencia.

 

 

 

Versión de Abel A. Murcia

 

 

 

 

 

 

Opinión sobre la pornografía

 

 

 

No hay mayor lujuria que el pensar.

 

Se propaga este escarceo como la mala hierba

 

en el surco preparado para las margaritas.

 

 

 

No hay nada sagrado para aquellos que piensan.

 

Es insolente llamar a las cosas por su nombre,

 

los viciosos análisis, las síntesis lascivas,

 

la persecución salvaje y perversa de un hecho desnudo,

 

el manoseo obsceno de delicados temas,

 

los roces al expresar opiniones; música celestial en sus oídos.

 

 

 

A plena luz del día o al amparo de la noche

 

unen en parejas, triángulos y círculos.

 

Aquí cualquiera puede ser el sexo y la edad de los que juegan.

 

Les brillan los ojos, les arden las mejillas.

 

El amigo corrompe al amigo.

 

Degeneradas hijas pervierten a su padre.

 

Un hermano chulea a su hermana menor.

 

 

 

Otros son los frutos que desean

 

del prohibido árbol del conocimiento,

 

y no las rosadas nalgas de las revistas ilustradas,

 

pornografía esa tan ingenua en el fondo.

 

Les divierten libros que no están ilustrados.

 

Sólo son más amenos por frases especiales

 

marcadas con la uña o con un lápiz.

 

De “Gente en el puente” 1986         

 

Versión de Abel A. Murcia

 

  

 

 

Tortures

 

 

 

Nothing has changed.

 

The body is susceptible to pain,
it must eat and breathe air and sleep,
it has thin skin and blood right underneath,
an adequate stock of teeth and nails,
its bones are breakable, its joints are stretchable.

 

In tortures all this is taken into account.

 

Nothing has changed.

 

The body shudders as it shuddered
before the founding of Rome and after,
in the twentieth century before and after Christ.

 

Tortures are as they were, it’s just the earth that’s grown smaller,
and whatever happens seems right on the other side of the wall.

 

Nothing has changed. It’s just that there are more people,
besides the old offenses new ones have appeared,
real, imaginary, temporary, and none,
but the howl with which the body responds to them,
was, is and ever will be a howl of innocence
according to the time-honored scale and tonality.

 

Nothing has changed. Maybe just the manners, ceremonies, dances.

 

Yet the movement of the hands in protecting the head is the same.

 

The body writhes, jerks and tries to pull away,
its legs give out, it falls, the knees fly up,
it turns blue, swells, salivates and bleeds.

 

Nothing has changed. Except for the course of boundaries,
the line of forests, coasts, deserts and glaciers.

 

Amid these landscapes traipses the soul,
disappears, comes back, draws nearer, moves away,
alien to itself, elusive, at times certain, at others uncertain of its own existence,
while the body is and is and is
and has no place of its own.

 

 

 

torture

 

 

 

Nulla è cambiato.

 

Il corpo è suscettibile al dolore

 

Deve mangiare respirare e dormire

 

Ha pelle sottile e subito sotto sangue

 

Ha una buona riserva di denti e di unghie

 

 

Deve mangiare respirare e dormire

 

Ha pelle sottile e subito sotto sangue

 

Ha una buona riserva di denti e di unghie

 

Ossa rompibili e giunture estensibili

 

Nelle torture  di tutto ciò si tiene conto.

 

Nulla è cambiato.

 

I! Corpo trema come tremava

 

Prima della fondazione di roma e dopo

 

Nel ventesimo secolo  prima e dopo cristo

 

Le torture sono così da sempre

 

 solo la terra è cresciuta di meno

 

E qualunque cosa accade

 

Sembra giusta dall’altra parte del muro.

 

Nulla è cambiato  c’è soltanto più gente

 

Oltre le vecchie offese  ne compaiono di nuove

 

Reali  immaginarie  temporanee e inesistenti

 

Ma il grido con cui il corpo  risponde loro

 

 era  è  e sarà un grido di innocenza

 

Secondo eterni registri e misure

 

Nulla è cambiato

 

Se non forse i modi  le cerimonie  le danze

 

Anche se !l gesto delle mani

 

Che proteggono il capo

 

È rimasto lo stesso.

 

Il corpo si torce  dimena e  divincola

 

 le gambe cedono  cade  le ginocchia in aria

 

Livido  gonfio  sbava e sanguina.

 

 nulla è cambiato tranne i confini

 

La linea dei boschi  litorali  deserti e ghiacciai.

 

Tra questi scenari l’anima (animula vagula blandula) vaga

 

Sparisce  ritorna  si fa più vicina  si allontana

 

Estranea a sè stessa  elusiva

 

Ora certa  ora incerta del proprio esistere

 

Mentre il corpo  c’è  e   c’è   e   c’è

 

E non ha un posto suo…

 

 

 

 

 

  

LA BREVE VITA DEI NOSTRI ANTENATI

 

 

 

Non arrivavano in molti fino a trent’anni.

 

La vecchiaia era un privilegio 
di alberi e pietre.

 

l’infanzia durava quanto 
quella dei cuccioli di lupo. 

 

Bisognava sbrigarsi

 

Fare in tempo a vivere
prima che tramontasse il sole,
prima che cadesse la neve.

 

Le genitrici tredicenni, 
i cercatori quattrenni di nidi

 

Fra i giunchi, 
i capicaccia ventenni-
un attimo prima non c’erano, 
già non ci sono più.

 

I capi dell’infinito si univano in fretta.

 

Le fattucchiere biascicavano esorcismi
con ancora tutti i denti della giovinezza. 

 

Il figlio si faceva uomo sotto 
gli occhi del padre.

 

Il nipote nasceva

 

Sotto l’occhiaia del nonno.

 

E del resto non si contavano gli anni. 

 

Contavano reti, pentole, capanni, asce. 
Il tempo, così prodigo 
con una qualsiasi stella del cielo, 
tendeva loro la mano quasi vuota, 
e la ritraeva in fretta, come dispiaciuto. 

 

Ancora un passo, ancora due
lungo il fiume scintillante,
che dall’oscurità nasce 
e nell’oscurità scompare. 

 

Non c’era un attimo da perdere, 
domande da rinviare
e illuminazioni tardive, 
se non le si erano avute per tempo.

 

La saggezza non poteva aspettare 
i capelli bianchi.

 

Doveva vedere con chiarezza, 
prima che fosse chiaro,
e udire ogni voce, prima che risuonasse.

 

Il bene e il male -
ne sapevano poco, ma tutto: 
quando il male trionfa, il bene si cela;
quando il bene si mostra, 
il male attende nascosto.

 

Nessuno dei due si può vincere 
o allontanare ad una distanza definitiva.

 

Ecco il perchè d’una gioia 
sempre tinta di terrore, 
d’una disperazione mai disgiunta 
da tacita speranza.

 

La vita, per quanto lunga, sarà sempre breve.

 

Troppo breve per aggiungere qualcosa.

 

 

 

  

The Turn of the Century

 It was supposed to be better than the others, our 20th century,

But it won’t have time to prove it.

Its years are numbered,

its step unsteady,

its breath short.

 

Already too much has happened

that was not supposed to happen.

What was to come about

has not.

 

Spring was to be on its way,

and happiness, among other things.

 

Fear was to leave the mountains and valleys.

The truth was supposed to finish before the lie.

Certain misfortunes

were never to happen again

such as war and hunger and so forth.

 

These were to be respected:

the defenselessness of the defenseless,

trust and the like.

 

Whoever wanted to enjoy the world

faces an impossible task.

 

Stupidity is not funny.

Wisdom isn’t jolly.

 

Hope

Is no longer the same young girl

et cetera. Alas.

 

God was at last to believe in man:

good and strong,

but good and strong

are still two different people.

 

How to live–someone asked me this in a letter,

someone I had wanted

to ask that very thing.

 

Again and as always,

and as seen above

there are no questions more urgent

than the naive ones.


 
 

13/01/2012

O FIO VERMELHO DO CRIME NA MEADA CINZENTA DA VIDA

Dedico este post à minha amiga Maria Valéria Rezende, pelas nossas conversas sobre Marx

conan doyleumestudo em vermelho

“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciênia. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sõbrevém então uma época de revolução social…”

      Em 1859, Karl Marx conseguiu publicar alguns capítulos mais ou menos em estado legível das suas primeiras investigações sobre o capital, que ele começara a esboçar dois anos antes: Contribuição para a crítica da economia política (cuja tradução pode ser encontrada no volume dedicado a ele em “Os Pensadores”, organizado por José Arthur Gianotti, responsável também pela tradução, com a colaboraçãode Edgard Malagodi). Como acontecia muito comumente em Marx, quando ele publicou, já estava “alhures”, o texto já se tornara algo superado (no sentido pessoal, claro), e ele estava pronto para se dedicar ao Capital.

O trecho que transcrevi é do prefácio que escreveu, sintetizando sua trajetória até os limites da grande obra da sua vida (cujo primeiro volume só apareceu em 1867, como desenvolvimento extremo das idéias da Contribuição).

Esse texto de Marx é da maior importãncia: temos a base das suas principais idéias sobre o capitalismo e além disso, ele estava no centro do Império. Como narra o doutor Watson, voltando do Afeganistão, muito doente e combalido: “… senti-me naturalmente atraído por Londres, essa grande cloaca para a qual todos os vagabundos e ociosos do Império são irresistivelmente drenados.” ( UM ESTUDO EM VERMELHO). Marx, o homem do “tudo que é sólido desmancha no ar”, esperando que as contradições do capitalismo, tal como as diagnotiscava no seu centro, a capital-cloaca do império Britânico. Se pensarmos que, no mesmo ano Darwin publicou A origem das espécies temos uma espécie de ano-chave, cabalístico. E foi justamente em 1859 que nasceu Arthur Conan Doyle.

Ao contrário de Agatha Christie, o criador de Sherlock Holmes não foi generoso na quantidade de histórias do seu herói (que foi um peso na sua vida e ele estava sempre disposto a matá-lo): seis coletâneas de contos e quatro romances; porém, a quantidade de material que um dos mais famosos personagens da cultura ocidental (e certamente o mais conhecido detetive), ao lado de Ulisses, Quixote, Hamlet e poucos mais, gerou é  incontável.

A coleção Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada, que agora chega ao sexto volume, pela Zahar, ajuda a compreender o mito Holmes, que ultrapassou o seu criador e os textos originais: nela, o gênio da dedução da Baker Street 221-B e seu parceiro Watson são tomados como seres reais, e todo o aparato de notas e informações é baseado nessa premissa lúdica e muito atraente para quem vive da bênção da leitura segundo Harold Bloom: “mais vida em tempo ilimitado”.

brett

Foi com os filmes estrelados pelo magnífico Jeremy Brett (ver foto acima; onde vemos que na sua composição de Holmes ele deixou qualquer clichê para trás e deu-lhe um toque “Hannibal Lecter”;  outro talentoso Holmes moderno foi James D´Arcy, porém logo o substituíram por Rupert Everett que deu um show de canastrice), numa série de televisão memorável, e também devido a essa coleção que fiz as pazes com Sherlock Holmes. Quando era garoto, tive a maior decepção com As aventuras de Sherlock Holmes (como explico na resenha abaixo). Mais tarde, lendo os romances, considerei Doyle um escritor medíocre, muito inferior à criadora de Poirot e Miss Marple. No cômputo geral, seu personagem valia mais como paradigma incessantemente reinventado.

O sexto volume proporciona a oportunidade de reler justamente o “nascimento” de Holmes & Watson, UM ESTUDO EM VERMELHO  (1887), e constato que minha paixão pelo tipo de mistério arquitetado por Agatha Christie atrapalhou na avaliação dos talentos de Doyle. É certo que a história é fraca, o mistério incolor, as deduções cabotinas e nada convincentes. Holmes informa aos policiais da Scotland Yard, após a descoberta de um corpo numa casa deserta: “… o assassino foi um homem. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, estava na flor da idade, usava botinas grosseiras de bico quadrado e fumava um charuto Trichinopolo. Veio para cá com sua vítima num fiacre de quatro rodas, puxado por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova na parte dianteira direita.  Com toda probabilidade, o assassino tinha um rosto avermelhado e unhas notavelmente compridas na mão direita. Estas são apenas algumas indicações, mas podem ajudá-los.” A não ser para impressionar o leitor, em que essas informações minuciosas, mas realmente inúteis, poderiam ajudar a polícia? Esse lado CSI oitocentista de Sherlock Holmes permanece o aspecto que mais me desaponta e irrita.

Por outro lado, como é talentosa, colorida e bem-humorada a narração do Dr. Watson! Como resistiu ao tempo! Vemos de forma sintética o primeiro encontro dos dois, como começam a dividir os aposentos na Baker Street, as diferenças de temperamento, a fixação dos hábitos e manias do detetive, sua gangue de menores de rua, que se espalham por uma Londres-Babel. Há, ademais, todo o flash back ambientado em Utah, entre os mórmons, que explica o porquê dos assassinatos cometidos pelo vingativo Jefferson Hope (eu não dava grande valor a essa parte, porém agora a acho excelente e cheia de suspense). Levando isso em conta, até as vaidades de Holmes, ciosamente contabilizadas pelo seu parceiro (ou “discípulo”), que importância tem se os crimes (dois americanos são assassinados) são pouco interessantes e se os métodos para desvendá-los pareçam truques? São truques de um bom prestidigitador literário, é preciso que se faça a devida justiça a esse autor que foi um dos responsáveis por manter a era vitoriana como um fetiche absoluto na imaginação popular e na indústria cultural.

Antípoda a Marx,  Holmes é o homem da ordem, da manutenção da lógica do capitalismo: “O fio vermelho do assassinato corre através da meada incolor da vida, e nosso dever é desemaranhá-lo, isolá-lo, e expor cada centímetro dele.”

Temos, também, na fixação do Cânone Sherloquiano, as deliciosas notas em que, além das muitas informações da época, fanáticos pelo detetive analisam exaustivamente cada momento do livro, propondo interpretações e soluções para os desacertos e contradições (pois eles abundam, e os fanáticos pela obra são os primeiros a apontá-los), que são quase  um segundo livro para se ler.

(o texto acima é a versã ampliada de resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de novembro de 2009, em homenagem aos 150 anos de Conan Doyle)

_____________

(resenha sobre os dois primeiros volumes da coleção da Zahar, publicada  originalmente em “A Tribuna”, em 05 de agosto de 2006)

  Após a “Obra Completa” de Arthur Conan Doyle (1859-1930) envolvendo Sherlock Holmes, em três compactos volumes, pela Ediouro (nota de 2009: a editora Agir fundiu os três volumes num só), a Jorge Zahar lança agora uma iniciativa bem mais ousada: a tradução dos cinco volumes de uma enciclopédia sherloquiana, sob a responsabilidade de Leslie S. Klinger: Sherlock Holmes- Edição Definitiva – Comentada e Ilustrada. Por enquanto, há dois volumes no mercado e eles são uma verdadeira delícia para o amante da ficção, ainda que não exatamente pela qualidade da ficção de Conan Doyle.

Pois, ao reler –no primeiro volume—As Aventuras de Sherlock Holmes (1892), senti a mesma e frustrante decepção que tive aos 12 anos diante da mesma coletânea inaugural de casos do mais cultuado detetive do mundo: histórias medíocres, mistérios pífios, demonstrações ocas da pretensa acuidade de Holmes, embora –então, como agora— o dr. Watson escapasse milagrosamente ileso do desastre. Isso sempre determinou uma antipatia invencível pelo personagem até que ele foi admiravelmente encarnado por Jeremy Brett (secundado por um igualmente mais-que-perfeito Edward Hardwicke como Watson). A magistral caracterização de Brett (similar à perfeição com que David Suchet encarnou Poirot) operou uma necessidade de reavaliar o fascínio e o carisma de uma das personagens fictícias mais célebres, imitadas, pastichadas, verdadeiro ícone cultural.

sherlock-holmes-dvd-3

E a essa expectativa a edição de Klinger atende fartamente: vastamente documentada, com anotações à margem do texto (é preciso que se faça justiça ao trabalho editorial, de primeira qualidade), ela se fundamenta num pressuposto fascinante: a crença na existência efetiva de Holmes & Watson, crença compartilhada há mais de um século por muita gente.

No caso de Klinger, pouco importa se essa crença é simulada, produto de uma brincadeira intelectual, um auto-ilusionismo. O que importa é que ela funciona e faz da sua coleção um empreendimento importantíssimo para a literatura e a ficção, num momento em que a obsessão por histórias baseadas em fatos reais, reality shows e outras fórmulas acabam encenando pelo mundo afora uma espécie de morte da imaginação. Klinger vem reinstaurar o prazer de descobrir o “amigo imaginário”, aquele que nos dá acesso ao nosso próprio código pessoal. E o leitor de 40 anos, mesmo não se convencendo muito com relação a Arthur Conan Doyle, lembra-se de outras portas de acesso a esse mundo: Júlio Verne, Mark Twain, Agatha Christie, Robert Louis Stevenson.

Pena que as aventuras de Sherlock Holmes ficam a dever, mesmo com o poder de persuasão do genial Jeremy Brett ou com o aparato de Leslie S. Klinger: por exemplo, na famosa e paradigmática Um escândalo na Boêmia, há uma ridícula aparição do cliente (o rei da Boêmia), que faz o leitor cair na gargalhada, não há mistério algum e ainda Holmes é derrotado, depois de encenar uma tola farsa; em A liga dos Cabeças Vermelhas há até um certo clima na narrativa do cliente, mas todas as ações de Holmes para solucionar o problema tiram o charme do conto, que fica como um protótipo distante dos seriados televisivos (Holmes seria um CSI hoje em dia); e, só para dar mais um exemplo, que raio de mistério seria Um Caso de Identidade?: no próprio ato de se contar o problema, qualquer leitor percebe a solução.

Mesmo assim, e que se perdoe o paradoxo, vale a pena mergulhar nos volumes de Sherlock Holmes- Edição Definitiva, um presente para a memória afetiva de quem norteou sua formação pela leitura de livros.

____________________________________________________

serviço: Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada. Organizador: Leslie S. Klinger. Primeiro volume: As Aventuras de Sherlock Holmes.495 págs. Segundo volume: As Memórias de Sherlock Holmes (1893). 427 págs. Tradução de  Maria Luiza X. de A. Borges. Editora Jorge Zahar.

Próxima Página »

Tema: Rubric. Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 35 other followers