BLOG DO ALFREDO MONTE

02/12/2009

O PACTO FICCIONAL ENTRE AUTOR E O LEITOR

(resenha publicada em 25 de fevereiro de 2006)

Todos têm seus bordões, e nesse ponto não sou diferente de ninguém, também tenho os meus e um dos que mais gosto de repetir é tirado de um pedaço de frase do admirável A Rainha dos Cárceres da Grécia (1976), última obra de Osman Lins, que agora, 30 anos depois, recebe nova edição: “romance, mundo imerso no mundo”. Em Áporo, de Carlos Drummond de Andrade, lemos: “Um inseto cava / cava sem alarme / perfurando a terra / sem achar escape // Que fazer, exausto, / em país bloqueado / enlace de noite / raiz e minério ? // Eis que o labirinto / (oh razão mistério) / presto se desata: // em verde, sozinha, / antieuclidiana, / uma orquídea forma-se.” Num país bloqueado (estamos nos anos “barra pesada” da ditadura militar), o narrador refugia-se num diário no qual procura analisar o romance inédito A rainha dos cárceres da Grécia, deixado pela sua falecida amante, Julia Enone, a respeito de uma “irmã em destino” da Macabéa de A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, também nordestina e miserável, chamada Maria de França, a qual passa anos da sua vida pleiteando um benefício do antigo INPS, em vão, não conseguindo romper a temível malha burocrática, mesmo porque não tem instrução ou equilíbrio psicológico (passa por períodos de loucura e internação): “Fazem-lhe, ainda na Riachuelo, nova sugestão: recorrer à Assistência Judiciária, antes obtendo atestado de pobreza. Ela ouve o conselho, desce as escadas, as escadas sujas, repetindo-o. Ao chegar embaixo, já se esqueceu de tudo.” Tanto quanto o jogo metalingüístico fascinante (que faz de Osman Lins um irmão de Nabokov e Paul Auster), A rainha dos cárceres da Grécia impressiona por sua dimensão política, apesar da sombria constatação do seu protagonista: “Assim, coincide melhor com as linhas gerais do romance outra visão –mais chã—do isolamento do escritor, não voltada para ele, e sim para a sociedade, que o recusa.” Inseto cavando sem alarme, perfurando a terra, escavando na obra de Julia Enone, sua orquídea antieuclidiana para desatar o labirinto (mito arquitetônico que foi um dos vários legados da civilização grega), o narrador comenta e transcreve notícias de jornal, nunca se referindo diretamente ao regime militar. Nenhuma obra dos anos 70, entretanto, captou tão poderosamente o clima opressivo da época e a degradação da informação enquanto valor na nossa sociedade, pois a maioria dos ficcionistas optou pela simplificação do “romance-reportagem” (Infância dos mortos, O crime antes da festa, Lúcio Flávio, Acusado de homicídio, alguém lembra desses títulos ?), onde, na tentativa de driblar a censura e oferecer um “retrato” da realidade nacional, o supostamente factual e referencial sufocava a narração e acabava-se reconfortando o leitor, mais do que o levando a uma atitude crítica, ao perseguir uma impressão de veracidade absoluta. Flora Süssekind radiografou muito bem essa perspectiva naturalista e redutora no seu memorável estudo Tal Brasil, qual romance? Ora, ao eleger a distorção dos fatos, até do espaço narrativo (Julia Enone funde Recife e Olinda como se fossem uma cidade só), o narrador de A rainha dos cárceres da Grécia dinamita essa mentira referencial, do que é “baseado na vida real”, e firma com o leitor um pacto ficcional, em que se finge a dor que deveras se sente. Ao descascar camadas e camadas de artifícios narrativos, ele nos transmite muito mais realidade ( transbordante, simbólica, delirante que seja) do que qualquer medíocre relato de casos da época. É o triunfo do romance, mundo imerso no mundo, e, em última instância, da verdadeira literatura, sobre a reportagem que se disfarça (mal) de ficção.

25/11/2009

SHERLOCK HOLMES À FRANCESA

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS acesse: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

ANOTAÇÕES FINAIS (dia 25.11.09, as anteriores encontram-se abaixo):

“Já era tempo de botar para funcionar aquela massa cinzenta de que tanto me orgulhava e de que até então fizera tão pouco uso”.        (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX)

   Holmes e Laura Lafargue, née Marx, iniciam um ardente romance em plena Paris sitiada.  Um dia ela desaparece misteriosamente. Em busca da mulher amada, ele  vai a Bordeaux, na qual  casal Lafargue reside, e descobre que teve em seus braços uma falsa Laura, pois conhece a verdadeira filha de Marx: “Era falsa a carta de Marx à sua filha que eu lera em Paris, falsas as boas novas. mais terrível ainda: falsa, a identidade da mulher que eu adorava e cuja doçura e entega haviam adormecido em mim todas as desconfianças, atenção e vigilãncia. Falso,  o rapto! Falsidade! Falsidade! Falsidade! Era tudo uma mistificação. Mas então quem era aquela mulher? O que ela pretendia? Quais eram seus motivos, seus interesses? “

      Na verdade, a falsa Laura é o verdadeiro X, é ela quem pretende assassinar Marx (não vou revelar os motivos aqui). Para chegar a Londres e impedi-la (o que acontecerá, com Holmes assumindo a identidade do autor de O capital, numa demonstração das suas habilidades no disfarce), Holmes, voltando a Paris, tem de sobreviver (e seus amigos também, e mais o pobre Rupelski, que era inocente) à invasão bárbara que a cidade sofre, e ao massacre dos seus habitantes, narrados de uma forma ao mesmo tempo concisa e eficiente por Lecaye. Na figura de X, a falsa Laura, vemos também uma alusão àquelas formidáveis e atraentes mentes criminosas femininas que tanto obsedaram o Holmes de Conan Doyle, embora nenhuma delas chegasse a ser tão destrutiva.

ANOTAÇÕES DO DIA 24.11.09

“A diferença entre criminosos e inocntos não está na concepção, mas no poder e na força de transformação de um pensamento em ato. Se tivesse respeitado essa verdade eterna, infelizmente inacessível a um espírito de 23 anos, inexperiente, ainda imbuído de princípios rígidos, incapaz de imaginar uma passagem, uma passarela entre o mundo do Bem e o do Mal, a seqüência de minhas aventuras teria, uma vez mais, sido outra” (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX, mas aí na esteira dessas reflexões, precisaria ter uma pitada de Freud na perspicácia sherloquiana).

(para o leitor se orientar: estou comentando o livro SHERLOCK HOLMES & MARX, de Alexis Lecaye, mas utilizando como apoio dois textos de Marx da época da comuna de Paris de 1871: A guerra civil na França & Cartas a Kugelmann; veja as anotações do dia anterior logo abaixo)

“É um fato estranho. Apesar de tudo o que se falou e se escreveu, com tamanha profusão, durante os últimos 60 anos, a respeito da emancipação do trabalho, mal os operários, não importa onde, tomam o problema em suas mãos, logo recomeça a ressoar toda a fraseologia apologética dos porta-vozes da sociedade atual, com os seus dois pólos, o capital e a escravidão assalariada… como se a sociedade capitalista se achasse ainda em seu mais puro estado de inocência virginal, com seus antagonismos ainda em germe, com suas ilusões ainda encobertas, com suas prostituídas realidades ainda não desnudadas. A comuna, exclamam, pretende abolir a propriedade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na dos expropriadores.  Queria fazr da propriedade individual e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é comunismo, o irrealizável comunismo! … Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil, se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas,  conseqüências inevitáveis da produçao capitalista, que será isso, cavalheiros, senão counismo, comunismo realizável?

      A classe operário não esperava da comuna nenhum milagre. Os operários não têm nenhuma utopia já pronta para introduzir, por vontade popular… Eles não têm que realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu bojo…”

                      (Karl Marx, A guerra civil na França)

     Ontem, contei que no romance de Lecaye, Marx marca um encontro com o jovem Sherlock Holmes em 13 de abril de 1871. Querendo contratar os seus serviços, o informa de que, sob as ordens de Bismarck, um anarquista russo, “com status de desertor, um homem estranho, aristocrata arruinado, anti-semita e xenófobo” se prepara para assassiná-lo. Seu nome: Rupelski: “O que eu quero lhe pedir… procurar o assassino, desmascará-lo sem que ele suspeite de nada e fazê-lo desaparecer… Quando digo ´desaparecer´, entendo com isso esconder, dissimular, raptar se quiser, subtrair  à atenção e colocá-lo fora de circulação… O senhor o guardará durante algumas semanas, o tempo necessário para eu concluir um trabalho que me é caríssimo. Depois poderia soltá-lo…o importante é ele não me matar agora, o que representaria um golpe fatal para o movimento.” Que movimento? A Internacional dos trabalhadores. Marx fica espantado com o desinteresse e ignorância políticos de Holmes:  “Vocês, britânicos, são incríveis! Concedem asilo, quase irrefletidamene, ao cérebro de uma organização que, com ou sem razão, faz tremerem todos os burgueses e governos do continente, e não sabem sequer da sua existência…O senhor, jovem burguês briânico, inteligente e culto, não apenas não têm medo, o que concebo perfeitamente, como sequer tem conhecimento da nossa existência!” Numa carta de 27 de julho do mesmo ano a Kugelmann, Marx diz: “O trabalho da Internacional é imenso, e além disso Londres está abarrotada de refugiados, pelos quais tenho de olhar. Mas estou sobrecarregado por outras pessoas, jornalistas e gente de toda espécie, que querem ver o monstro com os próprios olhos. Acreditou-se até agora que o crescimento dos mitos cristãos durante o Império romano foí possível apenas porque a imprensa ainda não fora inventada. É precisamene o contrário. A imprensa diária e o telégrafo, que em um instante difundem invenções por todo o mundo fabricam mais mitos (o gado burguês acredita neles e aumenta com base neles) em um dia do que antes se fazia em um século.”. Numa preciosíssima  carta anterior (de 18 de junho), ele escreve: “Você sabe que durante o período da última revolução de Paris fui denunciado continuamente como o grand chef da Internacional, pelos jornais de Versalhes, e por extensão, pela imprensa aqui da Inglaterra… tenho a honra nesse momento de ser o mais bem caluniado e ameaçado homem de Londres. Isso faz um sujeito sentir-se bem, depois de um idílio entediante de 20 anos em seu antro…”

      Voltando ao romance, após algumas peripécias londrinas (inclusive, um atentado contra sua vida), Holmes aceita a proposta de Marx, que é a de viajar para Paris, onde Rupelski, ou X (porque não há certeza firme da sua identidade) está camuflado, nos meios anarquistas, “em pleno coração da Paris revolucionária. Hoje em dia é o melhor lugar para se esconder e se urdir complôs, no meio da desordem e da efervescência populares”. Holmes vai para o continente com um colaborador francês da Internacional,  Philibert Longuet, e depois de algumas aventuras pelo interior da França (há até um duelo, mas deixo os detalhes para o leitor do romance), entra disfarçado em Paris, através de túneis subterrâneos antiquíssimos. acompanhado pelo desdenhoso e intrigante Vigot. Entre os comparsas da viagem de Holmes está a família Gottlieb, e madame Gottlieb, contrariando o marido, diz a seguinte frase, que vem a propósito, quando pensamos na missão do detetive e nas palavras que Marx escreveu em suas missivas a Kugelmann: “Se perguntar aos operários parisienses, não encontrará muitos que sequer conheçam o nome do senhor Karl Marx”.

       Em Paris, Holmes refugia-se no apartamento de Vigot, conhecendo a irmã dele, Isabelle, uma pintora passional (e aqui podia-se temer que houvesse uma convencionalíssima aproximação amorosa, mas Lecaye se mostrou muito mais hábil do que se podia esperar, fazendo com que haja uma fixação por parte dele, enquanto os interesses dele irão por outros caminhos; ele a deixa indignado com sua “inocência” inglesa, não “entendendo” o que ela quer dele, e mantendo-se fleumático e racional: “Aquela desordem dos sentimentos, que nada seria capaz de explicar, bem diferente da apaixonante desordem de uma investigação criminal que esconde de fato elos secretos e encadeamentos rigorosos… O que há de mais fascinante que isolar o fio vermelho do crime da meada incolor da vida?”; mais adiante, numa daquelas considerações que são típicas das narrativas retrospectivas, ele se auto-congratula pelas decisões que moldaram sua existência: “felicito-me a cada instante por ter sido capaz, à minha revelia talvez, mas é o resultado que conta, de evitar os escolhos da paixão para me ater ao conforto de uma sólida e viril amizade“, referindo-se aqui, é claro, à sua relação com o doutor Watson).

       Enquanto conhece melhor os irmãos (chega a posar para quadros de Isabelle, entre um e outro arrufo), ele perambula por Paris, tentando estabelecer contatos (que Marx forneceu) e localizar X/Rupelski. E ele consegue se introduzir num círculo de niilistas (“o senhor viu a cidade que se diverte, vai descobrir a cidade que pensa”), que se reúnem nas catacumbas da Igreja Santo Eustáquio,  e ouvir o discurso inflamado, visando diretamente a figura de Marx, do tal Rupelski, um exemplo cabal dos eternos derrotistas, daqueles que teorizam para não agir e para impedir os outros de agir: “Entre esses homens, há um particularmente cuja ação e palavra devem ser imperativamente refreadas, tal é a astúcia diabólica que mostra na apresentação de seu programa e de suas idéias: trata-se de Karl Marx, gênio mau de todos os que aspiram ao movimento livre e espontâneo da revolta… Seguia-se então uma longa enumeração dos vícios imperdoáveis do pensamento e da ação de Karl Marx, um catálogo em que se misturava confusamente tudo o que Rupelski podia recriminar ao revolucionário alemão, inclusive sua origem judaica e seua pretensa lascívia (…) Apesar do tom virulento de Rupelski, a despeito do silêncio religioso que acolhia cada palavra sua, tive a estranha impressão de ter assistido a um sermão dominical, em que o fato de estar presente e escutar bastava para garantir a consciência limpa e sustentar a fé de todos os participantes. Decerto não era ali que se elaboravam os complôs e as decisões irrevogáveis.”

      E Holmes consegue capturar Rupelski e mantê-lo preso num porão abandonado do edifício em que moram os irmãos (Isabelle até se torna uma amiga do niilista russo). A missão estava completa? Holmes tem a sensaçao que não, sua intuição lhe diz que não aprisionou um tigre, mas um reles chacalzinho, astuto e escorregadio, porém inofensivo. Por isso, decide esperar instruções do próprio Marx…

      Holmes recebe, então, uma carta de Laura, a filha de Marx casada com o jornalista e colaborador da Internacional Paul Lafargue, dizendo que está em Paris e deseja encontrá-lo no Hotel de Bordeaux. Lá, ele sofre um “coup de foudre”: é amor à primeira vista, fica idiotizado, desajeitado, completamente tomado por aquela mulher (e a coisa pelo visto é recíproca): “sou incapaz de achar as palavras adequadas para explicar as razões daquela súbita e vergonhosa perda de autocontrole”). Mesmo embasbacado, há assuntos urgentes:  ela traz uma carta do pai, escrita no seu estilo característico (pitoresco e misturando palavras de vários línguas, uma das várias coisas que me fazem aproximar na minha cabeça, às vezes, as figuras de Marx e James Joyce). Nessa carta, ele diz que a missão realmente pode ser encerrada, pois ele não corre mais riscos. Holmes informa à Laura que capturou Rupelski (ela até chega a vê-lo no porão onde está trancafiado, embora tenha ficado desconfiada e mesmo em pânico quando Holmes a encaminhou até ali). De qualquer forma, Holmes está apaixonado, citando Werther e completamente indeciso quanto a voltar para a Inglaterra…

ANOTAÇÕES DO DIA 23.11.09

“O que há de mais mortal, mais destruidor que a ordem para o espírito curioso, para o olhar esquadrinhador, que encadeia elos aparentemente disparatados, mas na realidade profundamente complexos?” (Alexis Decaye, SHERLOCK HOLMES & MARX).

       Em 1974, Nicholas Meyer engenhosamente imaginou um encontro entre Sherlock Holmes e Freud, em razão do vício do primeiro em cocaína, em Uma solução sete por cento (A seven per-cent solution, um dos três livros em que ele reinventou o detetive de Conan Doyle) , que depois seria, infelizmente,  adaptado por Herbert Ross, com sua habitual preguiça de criar qualquer coisa de pessoal ou marcante, num desperdício da inteligência do texto e também do maravilhoso elenco (Nicol Williamson, Robert Duvall, Alan Arkin, Laurence  Olivier, etc). O  filme virou por aqui Visões de Sherlock Holmes e lhe faz falta a  mistura da pena da galhofa & da tinta da melancolia que o mestre Billy Wilder imprimiu a um filme contemporâneo: A vida íntima de Sherlock Holmes.

        Em 1981, fo a vez de Marx. O autor francês Alexis Lecaye escreveu o imaginativo SHERLOCK HOLMES & MARX, traduzido há alguns anos por André Telles e publicado numa interessante série da Zahar,  “Creme do Crime” (há outra aventura lecayana de Homes, Sherlock Holmes & Einstein).

        Lecaye imagina Marx (que morou em Londres boa parte da sua vida) contratando os serviços de um muito jovem Holmes (aliás, ele comete uma ousadia: faz do detetive o próprio narrador das suas aventuras: “É a primeira vez, e muito provavelmente a última, que pego da pena, pelo menos no que se refere à redação de um capítulo das minhas Memórias. Outros se encarregaram disso por mim. Por que, então, esse súbito prurido de escrever, esta necessidade irreprimível de traçar eu próprio os contornos esmaecidos de um passado irrevogavelmente morto?… O caso que vou recordar aqui… exerceu, mais que qualquer outro, grande influência em minha mocidade. Essa influência chegou inclusive a se estender para além da minha pessoa. O episódio talvez tenha alterado toda a história européia deste fim de se´culo. Será que o próximo também sentirá o seu peso?”), na época da eclosão da comuna de Paris (em 1871), quando a capital francesa ficou sitiada por meses, após a derrota francesa na guerra com a Alemanha. Um assassino, a soldo de uma potência estrangeira, pretende eliminar Marx, e este envia Holmes à França durante esses meses revolucionários que o autor de O Capital descreverá com uma retórica majestosa (às  vezes muito exagerada, porém como foi escrito no calor do momento) nos seus panfletos que consituirão A GUERRA CIVIL NA FRANÇA. Dessa mesma época temos as cartas que ele escreveu para seu admirador , o ginecologista L. Kugelmann, “que tomou parte em sua juventude no movimento revolucionário de 1848 e por toda a sua vida se considerou um ardente seguidor de Marx” (trecho do prefácio de Lênin a essa correspondência).

       Antes de mais nada: o romance de Lecaye é ótimo. Eu teria o maior prazer de indicá-lo (sem que isso represente uma diminuição ou visão paternalista) para jovens leitores: é uma aula de como abordar uma aventura histórica sem pedantismos e sem explicações inúteis, confiando apenas na narrativa e na curiosidade e inteligência do leitor.  Em 170 páginas consegue nos transmitir uma imagem perfeita da Londres vitoriana, dos dias da comuna, da paisagem francesa (que Holmes atravessa para poder chegar a Paris e cumprir sua missão), das querelas ideológicas daquele momento, e, sobretudo, da transformação de Holmes em.. Sherlock Holmes, com as características que o consagrara, através de um relato retrospectivo que é um pouco também um balanço de vida, uma espécie de “ilusões perdidas” ou “educação sentimental” do detetive inglês. Gostei muito e recomendo (depois teríamos um “jovem Sherlock Holmes” muito interessante, também, na visão de Chris Columbus que resultou no filme, para mim e para vários amigos, memorável, porém pouco apreciado pela crítica: O enigma da pirâmide, talvez por ter sido realizado por outro diretor tão bisonho e nulo quanto Herber Ross: Barry Levinson).

      E, por falar em “jovem” Sherlock Holmes, abaixo temos uma foto do “jovem” Marx, longe do estereótipo de velho barbudão, meio Jeová, consagrado pela posteridade:

      A GUERRA CIVIL NA FRANÇA, fixando definitivamente o conceito de “luta de classes” vai tentar interpretar, mesmo no calor da hora, como afirmou Engels (num texto escrito vinte anos mais tarde), a “significação histórica da Comuna de Paris”: “A 28 de maio os últimos combatentes da comuna sucumbiam ante a superioridade de forças do inimigo… O desarmamento dos operários era considerado o primeiro dever para os burgueses que se achavam na frente do Estado… Era a primeira vez que a burguesia mostrava a que extremo de crueldade e vingança é capaz de chegar sempre o que o proletariado se atreve a defrontar-se com ela como uma classe independente, que tem seus próprios interesses e reivindicações… O Segundo Império fora o apelo do chauvinismo francês: a reivindicação das fronteiras do Primeiro Império, perdidas em 1814… isso implicava a necessidade de guerras periódicas e de ampliação de fronteiras… não havia extensão territorial que tanto deslumbrasse a fantasia dos chauvinistas franceses como as terras alemãs da margem esquerda do Reno… Defraudado em suas esperanças de  ´compensações territoriais´ por Bismarck e por sua própria política demasiado astuta e vacilante, não restava a Napoleão [não o original, bem entendido, e sim o seu desprezível arremedo] outra saída a não ser a guerra, que se deflagrou em 1870… A consequência inevitável foi a revolução de Paris de 4 de setembro de 1870. O Império desmoronou-se como um castelo de cartas e foi novamente proclamada a República…. A 25 de março foi eleita, e a 28, proclamada, a comuna de Paris… Como os membros da comuna eram todos, quase sem exceção, operários, ou representantes reconhecidos, as suas resoluções se distinguiam por um caráter marcadamente proletário. Uma parte de seus decretos eram reformas que a burguesia republicana não se atrevera a implantar por vil covardia e que lançavam os fundamentos indispensáveis para a livre atuação da classe operária, como por exemplo, a implantação do princípio de que, com relação ao Estado, a religião não é senão um problema de foro íntimo; outros tinham o objetivo de salvaguardar diretamente os interesses da classe operária, algumas vezes mesmo abrindo profundas brechas na velha ordem social. Mas tudo isso, numa cidade sitiada, não podia ir além de um início de realização… Paris estava submetida a incessante bombardeio e pelas mesmas pessoas que haviam estigmatizado como um sacrilégio o bombardeio da capital pelos prussianos… E então atingiu o seu ponto culminante aquela matança de homens desarmados, mulheres e crianças… Logo quando se viu que era impossível matar a todos, vieram as detenções em massa, iniciaram-se os fuzilamentos de vítimas arbitrariamente escolhidas entre as fileiras de prisioneiros e a transferência dos demais para grandes campos de concentração, onde aguardavam o comparecimento diante dos conselhos de guerra.” (utilizo aqui o texto constante nas Obras Escolhidas, volume 2, de Karl Marx & Friedrich Engels, publicadas pela Alfa-Õmega; nã há indicação de tradutor).

         No primeiro dos onze capítulos de SHERLOCK HOLMES & MARX, o detetive novato recebe uma carta de alguém que ele ignora completamente quem seja: Marx, marcando uma reunião no dia 13 de abril de 1871. O indivíduo que se apresenta, com cerca de 55 anos,  tinha “estatura ligeiramente inferior à média, vestido com um casacão escuro, um pouco puído, e levemente folgado nos ombros, como se seu proprietário o tivesse pego emprestado de um amigo mais gordo, ou então subitamente emagrecido. Sua tez amarelada, doentia, e as olheiras roxas me fizeram inclinar pela segunda hipótese. Colarinho branco e botinas reluzentes, o restante do seu traje era irrepreensível. Uma grande barba precocemente grisalha, muito na moda em alguns círculos do continente, nele bastante crespa e encimada por um bigode basto e negro, engolia-lhe a parte inferior do rosto, sem conseguir dissimular uma grande boca, de expressão irônica”. Holmes fica admirado diante das “incrível vitalidade de sua expressão… Acima de espessas sobrancelhas, erguia-se uma testa imensa e ossuda, com pequenas entradas. O enorme cérebro escondido por trás daquela fronte devia encerrar uma inteligência prodigiosa. O que quer que tivesse vindo me propor, certamente eu não estaria perdendo meu tempo em escutar”.

     Em 12 de abril de 1871, Marx escrevia a seu amigo Kugelmann, a respeito da sua saúde: “atualmente estou submetido ao tratamento do Dr. Matheson, o qual diz que meus pulmões estão em excelente estado e que a tosse é relacionada com bronquite, e pode afetar o fígado.” Ele informa seu correspondente também que, embora  genro (Lafargue) esteja em Paris, sua filha, Laura (guardem esse nome, terá grande importância neste post) não o acompanhou. Nesta carta lemos ainda: “Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício desses parisienses! Depois de seis meses de fome e ruína, causada mais pela traição que pelo inimigo externo, eles levantam-se por sobre as baionetas prussianas, como se nunca houvera uma guerra entre a França e a Alemanha  e o inimigo não estivesse às portas de Paris. A história não tem exemplo semelhante de tamanha grandeza…” (utilizo a edição conjunta, publicada pela Paz & Terra de O 18 Brumário & Cartas a Kugelmann, estas últimas traduzidas por Renato Guimarães).

13/11/2009

Dois aniversários na obra de Marguerite Duras: os 50 anos de HIROSHIMA, MEU AMOR e os 25 anos de O AMANTE

duras1bisalain-resnaishiroshima, meu amor

 10.11.09-     O  título deste “post”  é auto-explicativo: dentro da prolífica, irregular e muitas vezes deslumbrante obra de Marguerite Duras (1914-1996), podemos destacar, neste ano de 2009, duas datas comemorativas: 1) há 50 anos, o cinema era sacudido pela invenção, densidade e  fusão indissolúvel entre texto e imagem que resultou da parceria entre Duras e o genial Alain Resnais: HIROSHIMA, MEU AMOR, que eu eu colocaria sem hesitar entre os dez maiores filmes já feitos (o problema é que pelo menos três outros filmes de Resnais poderiam aspirar a pertencer essa lista, e ora estou mais apaixonado por um, ora mais apaixonado por outro: O ano passado em Marienbad, Providence,  Meu tio da América), absolutamente original na época em que foi lançado, em 1959, e até hoje uma experiência moderna, não “datada”; 2) há 25 anos, ela realizava o sonho dos sonhos: escrever um livro personalíssimo, com o léxico particular que todo escritor tem, mergulhar fundo nas suas obsessões (no seu narcisimo e auto-centramento, também)… e ser um grande sucesso, ter uma obra popular, que esgota edições e mais edições. E isso aos 70 anos, após décadas tachada como “difícil’, “impenetrável”, “hermética”. O AMANTE tem muitas dimensões, mas sobretudo é um livro “carismático”, que destoa de boa parte do que Duras escreveu e publicou (e como ela escreveu e publicou!) porque não necessita de “seguidores”, de fánáticos leitores apaixonados (um culto muito similar ao que ronda aqui no Brasil Clarice Lispector e que pouco tem a ver com o ato literário: são pessoas que querem ídolos, gurus, guias de vida, o qu eé um direito delas, claro, mas também é nosso direito ver os textos clariceanso e durasianos como “meros textos”, entendendo-se o mero num sentido irõnico, já que são grandes escritoras, únicas, assim como são únicos  Guimarães Rosa  e Claude Simon, sem que haja um culto fanático em torno deles).

Hiroshima, meu amor”: O AMOR ENQUANTO EXPERIÊNCIA DA MEMÓRIA

         Hiroshima e Nevers, as referências espaciais do filme, são abstrações. São palcos para encontrar, perder e sobretudo rememorar o amor, pois em Duras os amantes mergulham numa intimidade palpavelmente física, de uma maneira como raras viu se viu em cinema ou literatura (sem um clichê erótico, sem especificações de posições, quem fez o quê, sem terminologia de lugares, o que sempre resvala para  cômico), porém o ‘amor’  passa longe deles, é inagarrável: quando se fala de amor, sempre é outra coisa: os amantes de Moderato Cantabile (1958) falam do amor de outro casal, os amantes que se conhecem e trepam na Hiroshima de 1959 vão falar do amor perdido da protagonista, durante a Segunda Guerra, um alemão (o que acarretou que lhe raspassem os cabelos por ser uma “colaboracionista”, quando na verdade ela é uma ‘durasiana”, uma autista devido ao arrebatamento da paixão, que é bem diferente e mais abissal do que simplesmente estar apaixonada, ela fica é “folle”).

as peles de hiroshima

      Após vários minutos em que nós vemos suas peles, tão aproximadas, que se tornam territórios, ou ainda com um tom que parece o de vítimas da radiação nuclear, num máximo de intimidade física a que uma câmera já tinha se permitido com dois personagens, e ao mesmo tempo a protagonista (interpretada por Emmanuelle Rivas)  conta suas idas ao museu de Hiroshima, e nos dá variadas informações sobre a recuperação coletiva da cidade enquanto cidade e ao mesmo tempo a recuperação coletiva, através de um gigantesco esforço, da tragédia, o amante japonês diz: você não viu nada de Hiroshima, quer dizer, você não conhece nada de Hiroshima. E é a pura verdade. Hiroshima é uma abstração, no máximo será o corpo desse homem com quem ela passa algumas horas, e do qual se aproxima  e se afasta, reconstituindo o antigo amor (em Nevers, no interior da França, enquanto outra destruição era levada a cabo), ressurgindo de um sono de quatorze anos (as mulheres de Duras, a não ser que estejam no estado de ‘ravissement”, arrebatamento ou êxtase, costumam ser meio mortas-vivas).

  Se ele diz que ela nada viu de Hiroshima, o final do filme fornecerá a confirmação: ela é ‘Nevers”, ele é “Hiroshima”, ambos são os palcos de seus arrebatamento passionais. Quando ela repete e repete a palavra “Nevers” e depois ele quer saber tudo o que a palavra evoca, explica-se: “de todos os milhares de dados sobre a sua vida escolhi essa palavra”, pois na verdade é um fio da meada, um instantâneo. uma imagem (em O AMANTE lemos, na bela tradução de Denise Bottmann: “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém”). Em Nevers encontramos alguém, que pode ser ninguém e que se torna alguém novamente por um curto tempo num curto-circuito passional em Hiroshima, onde é estrangeira, como era estrangeira na própria cidade natal, mas aí não há disfarces, não há família, não há nenhum modo de não encarar a verdade. Só não há juventude, que é simplesmente a senha para se deixar levar…

   Devo dizer que, embora o texto de Duras seja belíssimo (não conheço outro igual no cinema), o filme praticamente impecável e a interpretação de Rivas excepcional (um tour-de-force incomparável, como será  de John Gielgud, duas décadas mais tarde, em Providence), há alguns (poucos) momentos em que acho que Resnais deveria ter confiado mais na força da imagem e do silêncio. É o caso da cena em que Nevers fica fugindo de Hiroshima e vão parar num terminal, sentendo-se cada um ao lado de uma velhinha que os observa (e depois puxa papo com Hiroshima, possibilitando que Nevers fuja dele, que a quer reter na cidade, e transformar sua memória da paixão numa nova experiência da paixão, e não há mais juventude, disponibilidade… e será que alguma vida aguentaria?). Pois bem, nessa hora, Resnais podia ter se limitado a filmar os seus maravilhosos atores, e até intercalar imagens do passado em Nevers… mas as elocubrações mentais da protagonista parecem excessivas nessa hora . Isso, aliás, ocorre com mais frequência (embora seja o momento mais grave) nessa altura do filme… Na época também se tornou um certo clichê a mulher apaixonada caminhando pela rua e elocubrando (é o caso de Jeanne Moureau, em Ascensor para o cadafalso, de Louis Malle). Repito: nada tira a beleza do texto ou a força do filme, mas às vezes a imagem é sobrecarregada por ele, em dois ou três momentos próximos ao final, e especialmente nessa cena do terminal.

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11.11.09- “O Amante” e o tudo-nada da experiência v ivida (primeira parte):

“Nas histórias dos meus livros que se referem à minha infância, não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei sobre o amor que dedicamos à nossa mãe, mas não sei se falei do ódio também e do amor que havia entre todos nós, e do ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e de morte que era a história daquela família, a história do amor como a história do ódio e que foge ainda à minha compreensão, é ainda inacessível para mim, escondida nas profundezas da minha carne, cega como um recém-nascido de um dia. É o limiar onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, esse lento trabalho de toda a minha vida. Ainda estou lá, na frente daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.”

        Assim, como o nome da cidade natal da amante, Nevers, desperta o apetite de “saber” do homem em HIROSHIMA, MEU AMOR, também uma palavra me despertou o apetite de ler Marguerite Duras. Na capa da edição brasileira (da Francisco Alves, que no começo dos anos 80, publicava uma série magnífica e inesquecível chamada “A prosa do mundo”) de O vice-cônsul  (uma obra-prima) aparecia o nome da autora e, embaixo dele, seu país de origem: Conchinchina (o Vietnã atual). Que palavra pode ser mais poeticamente evocadora do longínquo, do confim do mundo do que Conchinchina? E volto a repisar uma afirmação que já fiz quanto a J.M.G. Le Clézio: há escritores que não só são bons, mas também tiveram sorte. Nascer na Conchinchina já torna M. Duras algo de único. E ela explorou bem isso: pode-se dizer que há um núcleo forte de experiências ligadas às condições do seu nascimento, da sua infância e da sua família. Essas são concretas, vividamente recordadas, mesmo que alteradas, deformadas… O resto é abstração, é prolongamento desse despertar para o mundo, o resto é como Nevers e Hiroshima no filme de Resnais: o que há de concreto é a intimidade do casal, e seus percursos passionais e memorialísticos, o resto é contorno, é o sombreado que realça o desenho principal. É o que acontece com o mundo das embaixadas e com a própria Índia em O vice-cônsul, meu primeiro contato (feliz primeiro contato, já que se trata de uma de suas melhores obras) com a obra durasiana, mas ainda longe da Conchinchina, que eu experimentaria apenas com a leitura de O AMANTE. Porém, antes, ainda li um outro texto belíssimo, traduzido então por Jorge Bastos, para uma pequena editora, Taurus,numa publicação bilíngüe: A doença da morte.

      Então eu tive a sorte de que, devido ao sucesso do livro na França, lançassem logo O AMANTE por aqui (na tradução de Aulyde Soares Rodrigues, que usei na citação acima), num momento em que a Nova Fronteira vivia uma grande fase, com vários livros notáveis que encabeçaram a lista dos mais vendidos (sim, houve esse momento): Memórias de Adriano, A insustentável leveza do ser, O nome da rosa., até mesmo Doutor Fausto. E assim vieram ao mesmo tempo os livros mais recentes de Duras, como A dor, Emily L., como também suas obras-primas dos anos 50 e 60 (Moderato Cantabile, Dez e meia numa noite de verão  e o seu livro supremo, Le ravissement de Lol V. Stein,  que deveria ser “O arrebatamento de Lol V. Stein” e virou por aqui O deslumbramento) e seus livros de uma outra fase, diferentes e no entanto fascinantes (O marinheiro de Gibraltar, Os pequenos cavalos da Tarquínia)…

       Uma das coisas mais deslumbrantes de O AMANTE é a lição que Duras dá de como tratar o sexo literariamente. Nada de descrições “eróticas”. A cena em que ela, aos 15 anos e meio, acompanha pela primeira vez seu amante chinês à garçonnière dele, em Saigon, e perde a virgindade, é um primor, um dos momentos mais bem escritos da literatura do século XX: “O ruído da cidade é intenso, na lembrança é o som de um filme alto demais, ensurdecedor. Lembro-me bem, o quarto está escuro, não falamos., ele está cercado pelo rumor contínuo da cidade, está situado na cidade,  numa rua movimentada da cidade. As janelas não têm vidros, só cortinas e persianas.  Nas cortinas  as sombras das pessoas que passam ao sol na calçada.Multidões sempre enormes.  As sombras regularmente estriadas pelas frestas das persianas. Os tamancos de madeira na calçada martelam minha cabeça, as vozes são estridentes, o chinês é uma língua gritada como sempre imagino serem as línguas dos desertos, é uma língua incrivelmente estrangeira.

      Lá fora o dia chega ao fim, percebe-se pelo ruído das vozes e o aumento das sombras que passam, cada vez mais misturados.  É um bairro de prazer que vive seu auge à noite. E a noite começa agora, com o pôr-do-sol.

     A cama está separada da cidade pelas persianas de treliça, pela cortina de algodão. Nenhum material resistente nos separa das outras pessoas.  Quanto a elas, ignoram nossa existência. Percebemos alguma coisa das suas vidas, o conjunto das suas vozes, dos seus movimentos,  como uma sirene que lançasse um grito entrecortado, triste, sem eco.”

     Chegam até o quarto cheiros de caramelo, de amendoim torrado, sopa chinesa, carne assada, ervas,  jasmim, poeira,  incenso, carvão vegetal, o carvão aqui é transportado em cestos, vendido nas ruas, o cheiro do bairro é o das aldeias do interior, da floresta (…)

    (…) O ruído da cidade está muito próximo, tão perto que o ouvimos ressoar na madeira das persianas. É como se as pessoas atravessassem o quarto.  Acaricio o corpo dele em meio a esse ruído, a essa movimentação. O mar, a imensidão que reflui, se afasta, volta. Eu lhe pedira que fizesse mais uma vez e mais outra. Que me fizesse aquilo. E ele o fizera.  Fizera-o em meio à untuosidade do sangue. E foi mesmo como morrer. Foi como morrer disso (…)

    (…)  Ficamos assim abraçados, gemendo por entre o clamor da cidade lá fora. Ainda o ouvíamos. E depois não o ouvíamos mais (…)

    (…) Pelas persianas a noite chegou. O barulho é maior. Mais estridente, menos surdo. Lampiões avermelhados se acendem.

           Saímos da garçonnière (…)  Na rua a multidão segue em todas as direções, lenta ou rápida, abre passagem, sarnenta como os cães abandonados, cega como os mendigos, uma multidão da China, vejo-a ainda nas imagens de prosperidade de hoje,  no modo como caminham todos juntos sem jamais demonstrar impaciência, aquele modo de estar só no meio da multidão, sem alegria, sem tristeza, sem curiosidade,  andando sem parecer ir a lugar algum , sem intenção de ir, mas apenas avançando,  por aqui e não por ali, isolados e no meio do povo, jamais sozinhos de verdade, sempre sozinhos no meio da multidão…”

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13.11.09- ‘O amante” e o tudo-nada da experiência vivida  (segunda parte):

“… todas as coisas confundidas numa única por essência inqualificável…” (M. Duras, O AMANTE)

      Pensando no sucesso que O AMANTE fez ao ser lançado, em 1984, me pergunto: as pessoas acharam que estavam lendo um “relato baseado numa historia verídica” ?  Seria delicioso saber que sim porque não há nada mais falso do que ler o livro por essa perspectiva. Não que Duras tenha inventado nada (embora também possa haver uma boa dose de invenção, ou pelo menos de ressignificação), é que, apesar do exotismo da situação (moça francesa de quinze anos e meio, pobretona, em 1929 inicia relacionamento de teúda e mantéuda com um chinês doze anos mais velho e rico,no que era então a Conchinchina antes de ser o atual Vietnã), esse aspecto é menos importante do que o desfile de obsessões da autora na sua Macro-Narrativa (isto é, na linha-mestra que percorre várias obras). O ser-escritora, frisado em diversos pontos do relato, é o que conta, e essa constelação de imagens primordiais (dos parentes próximos paradigmáticos, como a mãe e os irmãos; a travessia iniciática da balsa; a mulher fatal da embaixada; o carrão preto; o amante exótico) são as que povoam, mais do que um universo biográfico, um universo autoral (e por isso é totalmente pertinente, apesar de velha, essa discussão entre romancedepoimento biográfico): “Na balsa, ao lado do ônibus, está uma grande limusine preta, o motorista de libré de algodão branco. Sim, é o grande carro fúnebre dos meus livros. Éo Morris Léon-Bollée. O Lancia preto da embaixada da França em Calcutá ainda não estreou na literatura”.  Isso interessaria a um leitor do ”relato biográfico”? Para ele, uma passagem acidental; para um iniciado nos textos de Duras, a revelação de que o aparentemente simples é uma armadilha. Na edição recente da CosacNaify há um ensaio de Leyla Perrone-Moisés, “A imagem absoluta” , no qual se faz referência ao trabalho imenso de escrita do texto aparentemente muito ”legível” e “acessível” (em se tratando de Duras, é claro)  de O AMANTE (que, nesse ponto, lembra o sucesso de um outro texto igualmente complexo e desafiante, e no entanto “fácil”: A hora da estrela); “Quero escrever. Já disse a minha mãe: o que eu quero é escrever”… “Respondi que meu maior desejo era escrever, nada mais do que isso, nada”. E é isso que determina o belo jogo de linguagem, em que uma primeira pessoa (“eu”, a velha escritora, o rosto destruído) relata-se em terceira pessoa (‘ela”, a menina cujas experiências de prazer e dor já estavam inscritas na sina do seu corpo antes de ela vivê-las), de um modo muito mais complexo e caleidoscopico do que simplesmente passar de primeira para terceira pessoa, do que estar na Conchinchina, e depois na França.  “Eu” tenho um filho e desse filho tenho uma fotografia, onde ele aparece com determinada expressão e postura (“Encontrei uma fotografia de meu filho quando ele tinha vinte anos. Está na Califórnia, com suas amigas Erika e Elisabeth Lennard. É tão magro, magro demais, parece também um ugandense branco. Acho seu sorriso arrogante, um pouco zombeteiro. Quis parecer um jovem vagabundo. Agrada-lhe ser assim, pobre, com jeito de pobre, a magreza desajeitada da juventude”). “Ela” está na balsa do rio Mekong, aos 15 anos e meio, e está para atravessar um rito de passagem, é o último momento antes de “entrar” na obra durasiana. Só que a vida não forneceu uma fotografia dessa imagem da moça na balsa (a fotografia do filho é o que há de mais próximo, com as mil associações que podem ser feitas: “Essa fotografia é a que mais se parece com a que não foi tirada da moça da balsa”): “Durante essa travessia, a imagem poderia definir-se, destacar-se do conjunto. Ela poderia ter existido, uma fotografia poderia ter sido tirada… Mas não foi… A fotografia só seria tirada se fosse possível prever a importância desse acontecimento em minha vida, aquela travessia do rio… Por isso essa imagem, e nem podia ser de outro modo, não existe. Foi omitida. Foi esquecida. Não foi destacada, não foi registrada. A esse fato de não ter existido ela deve sua virtude, a de representar um absoluto, de ser seu próprio autor”. Ora, O AMANTE  se propõe a ser a fotografia em palavras que substitui a imagem que não foi fixada. Mas é uma travessia de rio, lembrem-se, e essas palavras formarão uma imagem fluida, auto-transformadoras, metamorfoseantes: o ódio-amor pela mãe, os irmãos oprimidos e desesperados, mas crianças risonhas, numa ótica que se corrige a todo instante, e que nos instila a cautela com a exatidão desses fatos contados (“Eu me esqueço de tudo, me esqueci de dizer isso, que éramos crianças risonhas, meu irmão mais novo e eu, que ríamos até perder o fôlego, a vida”); o amante que não é amado (no entanto, por que essa dor com o afastamento definitivo?, a viagem de navio, ao mesmo tempo libertadora, para a França): “Não havia vento e a música espalhou-se por todo o navio escuro, como uma injução do céu, vinda não se sabia de onde, como uma ordem de Deus de teor ignorado. E a jovem levantou-se como se fosse também se matar, jogar-se por sua vez ao mar, e depois ela chorou porque se lembrou daquele homem de Cholen e subitamente não tinha certeza de não tê-lo amado com um amor que não havia percebido porque se perdera na história como a água na areia e que só agora encontrava, no momento em que a música era lançada através do mar.” Ou só agora, quando o relato está sendo escrito, criando aquela música no mar que ressignifica todo o amor. Pois já não lêramos antes: “Durante a viagem, na travessia desse oceano (portanto, temos duas travessias iniciáticas pelas águas), tarde da noite, alguém morreu. Ela não sabe muito bem se foi essa viagem ou em outra qualquer. Algumas pessoas jogavam cartas no bar da primeira clsse, entre os jogadores estava um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, colocou as cartas na mesa, saiu do bar, atravessou correndo o convés e jogou-se ao mar (…) Não, agora escrevendo, ela não vê o navio mas outro lugar, onde ouviu essa história. Foi em Sadec. O filho do administrador de Sadec. Ela o conhecia, ele estudava também no liceu de Saigon. Ela se lembra,muito alto, rosto suave, moreno, óculos com aros de tartaruga. Nada foi encontrado na cabine, nem uma carta. A idade ficou na memória, apavorante, a mesma, dezessete anos. O navio tinha partido afinal ao nascer do sol. Isso era o mais terrível. O nascer do sol, o mar vazio,e a decisão de abandonar a busca…”

o amante (nova fronteira)o amante (cosacnaify)

     hiroshima

23/10/2009

Destaque do blog: UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ

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TRECHOS DA PRIMEIRA PARTE:

“– Imbecil! Não estou pedindo a você para me dizer o que é que ele era. Sei muito bem o que era, se é que você viu– O abade Arkos deu várias pancadas na mesa para acentuar o que dizia. — Quero saber se você, você!, tem absoluta certeza de que ele era apenas um homem comum!

       Essas perguntas estavam confundfindo o irmão Francis. Para ele não havia uma nítida linha divisória entre a ordem natural e a sobrenatural, mas antes uma zona intermediária mais ou menos obscura…uma região confusa, o preternatural, onde coisas deitas de simples terra, ar, fogo ou água tinham uma tendência a se comportar estranhamente, como coisas que não eram deste mundo… Ele nunca tinha ´certeza absoluta´ de nada, como o abade queria que tivesse…”

“Emily tinha um dente de ouro. Emily tinha ujm dente de ouro. Emily tinha um dente de ouro. Era, na verdade, perfeitamente certo. Tratava-se de uma dessas trivialidades históricas que, de algum modo, conseguem ficar na memória dos vivos, em lugar dos fatos importantes que deveriam ser lembrados, mas que nunca foram registrados, obrigando algum historiador monástico do futuro a escrever: Nada do que contém a Memorabilia ou qualquer fonte arqueológica até agora descoberta revela o nome do chefe que ocupava o Palácio Branco durante a sexta década do século XX… E, no entanto, estava claramente registrado na Memorabilia que Emily tinha um dente de ouro…”

“A Simplificação cessara de obedecer a qualquer plano ou propósito logo depois de ter começado, e tornou-se um frenesi insano de assassinato e destruição das massas, como só ocorre quando já não há mais vestígio de ordem social. A loucura foi transmitida às crianças que tinham aprendido não só a esquecer, mas a odiar, e vagas de fúria reapareceram esporadicamente até na quarta geração após o Dilúvio. Então, não mais se destruíam os sábios, que já não existiam, mas os simples alfabetizados.”

ATRECHO DA SEGUNDA PARTE

“O abade inclinou-se: …Seja bem-vindo em nome de São Leibowitz, Mestre Taddeo. Bem vindo em nome de sua abadia, em nome de quarenta gerações que esperaram pela sua vinda. Esteja em casa. Aqui estamos para servi-lo. –Ass palavras eram sinceras, tinham sido reservadas por muitos anos para esse momento…

      Por um momento seu olhar encotrou o do escolástico. Sentiu esfriar rapidamente seu ardor. Aqueles olhos de gelo –frios, investigadores e cor de cinza. Caóticos, famintos e orgulhosos. Sentia-se estudado por eles, como se fosse uma curiosidade sem vida.

      Fervorosamente, Paulo rezara para que esse momento fosse como uma ponte sobre o abismo de doze séculos– e para que, através dele, o último cientista martirizado de uma era remota pudesse dar a mão ao porvir. Havia, na verdade, um abismo. Isso era claro. O abade sentiu de repente que não pertencia à era presente, que ficara encalhado num banco de areia ao longo do rio do Tempo, e que nunca houvera uma ponte.”

TRECHOS DA TERCEIRA PARTE (“Fiat voluntas tua”)

“Velha de séculos mas recentemente alargada, a estrada era a mesma que fora percorrida por exércitos pagãos, peregrinos, camponeses, carroças de burro, nômades, selvagens cavaleiros do leste, artilharia, tanques e caminhões de dez toneladas. Seu tráfego fora intenso, médio ou quase nulo, de acordo com a época ou a estação. Uma vez, há muito tempo, houvera seis pistas e tráfego de robôs. Depois, o movimento cessara, a pavimentação rachara, e uma relva rala chegara a aparecer depois de chuvas ocasionais, através das fendas. A poeira terminara por cobri-la. Os habitante do deserto picaram o concreto quebrado para construir choupanas e barricadas. A erosão a transformou em simples caminho através do deserto. Mas agora havia seis pintas e tráfego de robôs, como antigamente.”

Fogo, o mais belo dos quatro elementos do mundo e, todavia, um elemento do Inferno. Ao mesmo tempo que ardia em adoração no centro do Templo, exterminara a vida de uma cidade, naquela mesma noite, e lançara o seu veneno sobre a Terra. Como é estranho que Deus tenha falado do interior de uma sarça ardente, e que o Homem tenha feito de um símbolo do Céu um símbolo do Inferno. Olhou outra vez as estrelas nevoentas da madrugada. Bem, não haveria Paraíso ali em cima, diziam. Entretanto, pra lá tinham ido homens que olhavam para estranhos sóis em ainda mais estranhos céus… em mundos de geladas tundras equatoriais e de escaldantes florestas árticas, suficientemente parecidas com a Terra para que, de algum modo, o Homem pudesse viver com o mesmo suor do seu rosto (…) Os homens quanto mais se aproximavam de um paraíso por eles mesmos construído, mais impacientes pareciam ficar com a sua obra e consigo próprios… Quando o mundo jazia na escuridão e na tristeza, era fácil crer na perfeição e desejá-la ansiosamente. Mas quando tornou-se brilhante com a inteligência e as riquezas,começou a pressentir a estreiteza do fundo da agulha e a exasperar-se, pois nada mais havia a esperar. E agora iam destruí-lo outra vez, este jardim do Paraíso, civilizado e sábio, iam outra vez dilacerá-lo, para que o Homem pudesse voltar a esperar no meio da escuridão angustiosa.”

 

 

leibowitz

                                         

                        capa de leibowitz                                                           Anotações de 16 de outubro

       Quando eu passei a comprar livros sistematicamente, no começo dos anos 80, além das livrarias e dos sebos, havia o Círculo do Livro.  Foi através dele que tive minha primeira experiência com UM CÃNTICO PARA LEIBOWITZ, de Walter M. Miller Jr (1923-1996). A capa da edição do Círculo  é a imediatamente acima, breguinha de doer. A obra, porém, foi um impacto e um  deslumbramento que se repetem agora que estou me ocupando dela  devido ao cinqüentenário do seu lançamento em livro (a publicação original ocorreu num magazine de ficção científica, uns quatro anos antes, em forma de três novelas; creio que a última publicação no Brasil foi pela Melhoramentos, na mesma ótima tradução de Maria da Glória de Souza Reis, embora também com uma capa horrível).

      UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ  é tão bom quanto Fundação, de Isaac Asimov (com o qual tem pontos de contato, embora seja melhor escrito; não melhor romance ou realização ficcional, apenas melhor escrito; outro livro com o qual ele apresenta afinidades temáticas é O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse) ou Solaris, de Stanislaw Lem.

       Apesar do título elegíaco e do próprio tema apocalíptico, o livro é extremamente bem-humorado: Miller se vale, de forma muito inspirada, do imaginário católico (e da terminologia católica) para nos apresentar um futuro pós-devastação pela guerra nuclear, no qualo Ordens monásticas  procuram preservar os fragmentos da cultura e de conhecimento, pois as gerações que sobreviveram ao desastre optaram por uma drástica Simplificação, ou seja, a martirização de todos os sábios, intelectuais, eruditos e letrados que, de forma ativa ou não, colaboraramm para que a civilização chegasse àquele estágio. Quase todo o nosso arsenal cultural  foi destruído, e só a pertinácia de alguns monges permitiu que sobrasse algum vestígio.

      Esse é o quadro geral, e não é de forma alguma original com relação ao Zeitgeist, o espírito da época dos anos pós-Segunda Guerra (dominados pela Guerra Fria), uma vez que a ameaça nuclear penetrava fundo na indústria cultural e na cultura popular, e havia a paranóia da destruição global (hoje, ainda há essa paranóia só que adquiriu outros contornos).

        Miller (que escreveu as três partes que compõem o livro mais ou menos quando tinha 32 anos) era católico, tinha sido da Força Aérea norte-americana na Segunda Grande Guerra e evoca-se bastante uma imagem que o impressionou fortemente: o bombardeio de um mosteiro beneditino em  Monte Cassino.

      A primeira parte, “Fiat Homo” (um latim meio estropiado, assim como aconteceu na Idade Média, é o meio de comunicação entre os personagens de várias ordens) mostra uma abadia em meio a uma das paisagens desérticas que surgiram a partir da destruição nuclear, seiscentos anos antes (essa parte terminará no ano 3174). O personagem principal é um noviço,  irmão Francis (de Utah), que não sabe se tem a vocação monástica, contudo não há outro caminho intelectual. A abadia é dedicada ao Beato Leibowitz, o qual foi um dos principais mártires da época da Simplificação, e que ao perder contato com a esposa, fez-se religioso. A narrativa se inicia quando está ocorrendo o processo de canonização do Beato (o sobrenome judeu parece não causar espécie alguma nesse nada admirável mundo novo, embora para nós evoque o genocídio dos judeus durante a guerra, a qual, lembrem-se, ainda estava muito próxima na época da publicação original). Como toda a Memorabilia manuseada pelos monges (ou seja, textos, imagens, diagramas, etc), a vida desse santo homem é mal conhecida, a documentação é fragmentária e todos repetem e copiam os conhecimentos sem os entender muito bem. Cultuadores incuiltos, assim como somos da Grécia ou de pretensas civilizações mais antigas (Atlântida, por exemplo), o passa-tocha é mais importante que a compreensão. O que importa é a idéia civilizatória. É o caso  de Roma: o Papa já não está mais na cidade original, destruída, ou em ruínas, tanto faz,  mas em algum lugar que sempre está mudando, porém ainda é o centro religioso: a Nova Roma, onde quer que esteja. Os viajantes utilizam burros, ainda se come pão e queijo e se bebe vinho, mas os caminhos são perigosos porque um bando de monstrengos, seres mal formados, podem atacar, roubar e até devorar suas vítimas. As aves de rapina sobrevoam as paisagens, mais soberanas que o papa.

      Pois bem, o irmão Francis está fazendo jejum no deserto durante a Quaresma e encontra um velho peregrino, uma espécie de Judeu Errante, nada simpático, ainda mais para alguém que vive a tortura da fome e da sede e que teme o ataque das aves de rapina e dos lobos e, para isso, tenta construir uma frágil toca para a noite. Só que falta uma pedra para rematar esse abrigo tosco e o velho peregrino é quem acaba indicando a mais adequada. Como está desconfiado dele, Francis não se aproxima muito e o velho coloca uns sinais para que ele a reconheça. 

       Ao remexer nessa pedra, após a partida do intruso, Francis descobre um antiquíssimo abrigo nuclear, com documentos e restos mortais (que podem pertencer à esposa do Beato Leibowitz; conseguir a data exata da morte dela seria uma ajuda inestimável ao seu processo de canonização, pois dúvidas pairam sobre se, ao tomar o hábito, ele continuava ou não casado, já que não a encontrara em meio ao desastre).

       Ao levar uma caixa com achados para a abadia, inicia-se uma deliciosa comédia humana. O abade fica alarmado diante da celeridade com que a boataria e a imaginação romanesca aumentam o acontecido com Francis (há quem diga que ele esbarrou com o próprio Leibowitz), interroga Francis diversas vezes, em diálogos engraçadíssimos e memoráveis. Como o noviço estava em estado de jejum e por isso propenso aos delírios e às alucinações (mesmo que tenha realmente descoberto algo concreto, pois tem a caixa para provar), ele quer um desmentido cabal para encerrar o diz-que-diz. O sadio senso de realidade do noviço poderia ajudar, mas não ajuda (ele diz que pensa ser altamente improvável que tivesse encontrado o Beato Leibowitz, morto há tantos séculos, não diz que é impossível, o que faz toda a diferença do mundo). Como castigo, por sete anos ele é impedido de pertencer à Ordem, tornando-se um noviço veterano, ajudando na cozinha.

      Quando Roma mostra interesse pelos documentos encontrados (inclusive, num detalhe muito divertido, pois Miller era engenheiro elétrico, há um diagrama  de uma turbina elétrica que é um dos objetos de devoção e cópia, pois há uma indústria de cópias da Memorabilia do Beato Leibowitz e eles não têm a menor idéia da serventia daqueles artefatos ou conceitos, pois houve um total retrocesso tecnológico, e a narrativa parece antes ambientada no remoto passado do que no futuro por vir), o Abade se torna mais afável e condescendente com Francis e permite que ele tome o hábito, passando a trabalhar na seção de copistas e fazedores de iluminuras. Por quinze anos ele vai trabalhar numa iluminura que recria um diagrama elétrico que ele achou no abrigo nuclear e é ele quem vai levar o original e a cópia (muito mais bonita) para o Papa, durante um faustoso jubileu (como se vê, as cerimônias religiosas sobreviveram ao colapso da civilização, a Roma papal  sobreviveu à Roma de César), no qual, entre outras comemorações, dar-se-á a tão aguardada canonização de Leibowitz.

      Na jornada para Roma (que pelo visto agora fica no território dos antigos EUA), Francis, já bem mais velho, é assaltado: roubam-lhe a mula, vários objetos e ainda por cima a cópia na qual trabalhou por 15 anos, pois o ladrão acreditava que era o original. Só fica com ele a sagrada relíquia, que chega sã e salva até o Papa, o qual, após saber das aventuras e desventuras do monge leibowitziano, dá a ele um presente: as duas moedas de ouro que permitiriam pagar o resgate da iluminura (exigência do salteador). Assim, Francis fagueiramente retorna à abadia e leva uma flechada bem entre os olhos, caindo morto no mesmo local onde fora assaltado e sendo enterrado pelo velho peregrino que aparecera a ele quando noviço e que iniciara toda a sua trajetória.

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A segunda parte, “Fiat Lux” (19/10/09) 

   A segunda parte de UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ se encerra em 3781, já vários séculos depois da descoberta do irmão Francis. O único personagem que se mantém da narrativa anterior é o estranho peregrino, responsável pela descoberta do abrigo nuclear e dos novos documentos para a Memorabilia. Será o mesmo?  O abade Paulo se irrita porque todos o consideram o próprio Judeu Errante (e que está aguardando a vinda do Messias), vivendo há séculos.

    Houve progresso e vemos cenas mundanas, na corte de Hannegan, governante que quer criar um Império, unificando todo o antigo território norte-americano e submetendo as tribos nômades. A Memorabilia ainda é guardada, copiada e estudada na erma abadia da Ordem de São Leibowitz, mas há também o Collegium, uma espécie incipiente de Universidade, em que sábios leigos procuram reavivar a ciência. O mais brilhante deles é Mestre Taddeo, um tanto quanto descrente da autenticidade e utilidade da Memorabilia, mas que é recebido na abadia para estudar os documentos… Recebido com desconfiança, mesmo porque vem escoltado por uma guarnição militar de Hannegan, com o propósito expresso de protegê-lo na travessia de regiões perigosas, mas com o propósito oculto de estudar a arquitetura do santuário, que  o torna uma verdadeira fortaleza, de forma a que, numa guerra, ele sirva como fortificação militar, defendendo as fronteiras de um nascente império.

        Boa parte da narrativa (tão brilhante quanto a primeira parte, e talvez mais colorida e diversificada) se funda nos debates entre os pontos de vista de Paulo e de Taddeos. Quando este chega, um dos monges (Irmão Kornhoer), que gosta de fazer experiências, acabou de aperfeiçoar um dínamo que permite a iluminação elétrica da sala dos copistas (não é à toa que essa parte chama-se “Fiat Lux”), e para que o dínamo funcione ali, retiram um grande crucifixo que ali estava há séculos (o simbolismo da cena fala por si). No final, quando as posições ideológicas se tornaram bem polarizadas, o abade ordena que recoloquem o crucifixo e, pasmem leitores modernos e esclarecidos, somos quase tentados a ficar do lado dele, mais simpático do que Taddeos. Mas Walter M. Miller Jr. aparentemente não toma partido,  deixa que seus personagens exponham suas idéias e visões do mundo, e todos têm razão em parte, o que significa que nenhum ponto de vista é absoluto.

      Taddeos descobre que a Memorabilia não era tão inútil assim e mesmo assim fica um pouco despeitado porque suas “descobertas” científicas e “criações” de conceito são, de fato, redescobertas tardias e recriações do já feito e já pensado em épocas mais evoluídas. E fica espantado como um simplório humilde como Kornhoer chegou a uma invenção sensacional, apenas pelo bom senso prático e pela intuição no uso dos antigos conhecimentos fragmentários e não pelo raciocínio, pela dedução e pela lógica.

      As páginas finais dessa parte expõe um cenário de guerra, que também é evolução e mobilidade, após séculos de estagnação e paralisia. Porém, sobranceiras, no deserto e nas regiões ainda inóspitas, as aves de rapina sobrevoam e aguardam.    

terceira parte, “FIAT VOLUNTAS TUA” (23.10.09)

“Nenhum mal no nundo, exceto o que é  introduzido pelo Homem (…) O único mal no mundo, agora, é o fato de que o mundó já não é….”

      Na terceira parte, confirmando a estrutura cíclica a que a visão de Miller se atém, nós vemos a civilização humana novamente atingir um novo auge tecnológico, as potências novamente se ameçarem mutuamente com armas nucleares e, enfim, a destruição do planeta. Mais uma vez, um abade da Ordem de Leibowitz (Zerchi) é o centro da trama. Ele instrui o irmão Joshua a se preparar para ser o líder espiritual de um grupo que embarcará numa nave, levando os tesouros espirituais da abadia para outra galáxia, para iniciar uma nova etapa da existência da humanidade (quando a nave parte: “Viram a face de Lúcifer,qual um horrível cogumelo sobre a nuvem tempestuosa, subindo vagarosamente como um titã erguendo-se depois de séculos de aprisionamente na Terra“), seguindo ordens da Nova Roma, quando se constata que o fim é iminente e inevitável.

       Sempre surpreeendendo com suas soluções narrativas, Miller coloca o abade Zerchi em situações insólitas e contestatórias (ele chega a ser quase agredido por policiais quando tenta impedir uma vítima da radiação e sua filha sejam encaminhadas a um eufemístico “Campo de Misericórdia”, organiza piquetes, etc). No clímax da narrativa, quando realmente se dá o desastre nuclear final (pelo menos, neste ciclo da história), ele está ouvindo a confissão de uma mutante, a sra. Grales, que é bicéfala, e sempre está arengando porque sua outra cabeça, que ela chama Raquel, e da qual nunca ninguém viu o menor sinal de vida (a não ser o irmão Joshua) não é batizada.

       O desastre acontece, o padre fica entalado num buraco,  moribundo (“Quando voltou a si não havia senão pó. Estava preso no chão até a cintura… Começou a recolher as hóstias, desajeitadamente, com a mão que ficara livre. Cuidadosamente, foi apanhando cada uma do meio da areia. O vento ameaçava fazer voar, os pequenos flocos de Cristo…. Um fio de sangue, de vez em quando, entrava-lhe nos olhos. Enxugava-o com o braço para evitar manchar o Pão Sagrado com os dedos sujos. Esse não é o sangue certo, Senhor, é o meu e não o vosso….), vendo as aves de rapinas mais uma vez reaparecendo (…quando acordou já não estava só… Era um pássaro escuro e feio, mas não como aquela Outra Escuridão. Esse só lhe cobiçava o corpo: O jantar ainda não está pronto, irmão pássaro –disse, irritado.– Você vai ter de esperar. Não haveria mais muitos jantares, notou o abade, antes que o próprio pássaro se tornasse jantar para outro, pois tinhas as penas chamuscadas pelo clarão e um dos olhos, fechado. Estava encharcado com a chuva, e Zerchi imaginava que esta trouxesse consigo a morte”).

Aí sobrevem o ponto mais discutível do livro, pois a sra. Grales morreu e Raquel nasceu, é o ser que surge da destruição, a última visão do abade, na sua inocência e candura. Eu até compreendo a necessidade de Miller de inserir essa cena na sua saga religiosa, mas ela se abeira perigosamente do piegas (ela é quem batiza o padre moribundo, embora esteja aprendendo a falar, como ser recém-nascido): “A imagem daqueles olhos verdes e cheios de frscor ficou com ele até o fim. Não indagou por que Deus quisera fazer surgir uma criatura com a inocência primitiva (sic) do ombro da Sra. Grales, ou por que lhe dera os dons preternaturais do Paraíso, aqueles mesmos dons que o Homem tentara arrancar o Céu a viva força, desde que os perdera. Vira a inocência primitiva naqueles olhos e uma promessa de ressurreição. Um só vislumbre tinha sido uma magnanimidade e ele chorou de gratidão…”

15/10/2009

O COMPROMISSO: A classe operária não vai ao Paraíso

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    Um trajeto de bonde constitui a espinha dorsal de O Compromisso: a narradora, que vive sob o regime comunista de Ceausesco, tem de comparecer, nesse dia, a mais um interrogatório (e pode ser presa ou torturada, quem sabe?), pois vive em “estado de convocação” desde que, operária de uma fábrica, tentou contrabandear bilhetes em ternos de linho que seriam exportados: “… eu decidira me casar no lado ocidental, e em cada um dos bolsinhos traseiros enfiei um bilhetinho: Case comigo, ti aspetto, assinado com meu nome e meu endereço. O primeiro italiano que respondesse seria aceito. Meus bilhetes foram julgados prostituição em local de trabalho…”

    No trajeto do bonde, além de incidentes, impressões e apreensões (ela leva até pasta de dente e escova para o caso de não voltar para casa), além de uma surpresa final, temos acesso às suas lembranças: o primeiro casamento, o sogro que fora responsável pela deportação dos avós dela para um campo de concentração, a tentativa do marido de matá-la (por não conseguir bater nela), o fuzilamento da melhor amiga, quando tentava escapar do país clandestinamente com o amante, o segundo casamento com um alcoólatra, a sensação de estar sendo vigiada por estranhos e pelos vizinhos…

      Esse “estado de convocação” em que vive a personagem de Herta Müller, mobilizando toda a sua energia, fez com que muita gente a comparasse aos personagens de Kafka (por exemplo, o herói de O Processo), apesar das lentes da escritora romena naturalizada alemã que conquistou o Nobel de literatura de 2009 (exatamente cem anos depois da primeira mulher conquistar o prêmio, a sueca Selma Lagerlof) estarem voltadas para a classe operária e o malogro da promessa de paraíso do comunismo. Porém, nem era preciso sair da Romênia para encontrar um ilustre antecessor: mais forte ainda do que a denúncia de um regime opressor e aterrorizante, O Compromisso faz jus à obra do grande Ionesco (cujo centenário de nascimento também é comemorado este ano), que com seu teatro do absurdo (A Cantora Careca, Os Rinocerontes) desconstruiu o automatismo do dia-a-dia, desmascarando os falsos sentimentalismos e a incomunicabilidade básica em torno da qual nos movimentamos e fabricamos nossas identidades ou máscaras.

    Impregnado, além disso, da linguagem dos sonhos e da poesia, com um quê do surrealismo (a amiga da narradora, Lili, é chamada de “Cereja” pelo amante; quando ela morre, dilacerada por cães, as cerejas vêm à mente da narradora, que depois,no bonde, vê uma sacola que parece ensanguentada e da qual a passageira tira… cerejas para comer no percurso), o concentrado e espiralado texto de Herta Müller nos proporciona uma experiência inquietante: as várias associações de imagens com que a narradora repassa sua experiência, a sua relação com os objetos e com os fenômenos da natureza, transmitem um dos aspectos mais impenetráveis da experiência individual, mesmo com todas as referências específicas de lugar, de época, de geração, passando em revista relações de amizade,de parentesco, de trabalho, de vizinhança e conjugais: uma espécie de linguagem cifrada e intransferível, que permanece “estranha” e alheia. Nós acompanhamos o trajeto de bonde da narradora, compartilhamos seus incidentes, suas impressões, suas apreensões e lembranças enoveladas, mas sempre temos a sensação de uma barreira, de que estamos diante de um Outro. Herta Müller não nos oferece a fácil identificação, a empatia epidérmica por uma vítima de uma ditadura. Por isso, seu romance é curto, porém árduo e intenso, já que nos transmite uma sensação de enclausuramento que vai além do circunstancial político e do ideológico (que mal comparece aqui de forma explícita), e vem de um mal estar essencial, da claustrofobia existencial que já assolava Madame Bovary.

    Uma passagem reveladora: quando revela ao sogro (que, de resto, é um salafrário, e que, entre outras coisas, não se furta de se oferecer como substituto do marido quando este vai cumprir serviço militar) que não gosta de dançar, este lhe diz: “… faz parte de sua cultura. Nos Cárpatos há danças diferentes das que há no campo, e as do mar são diferentes das do Danúbio, e nas cidades se dança de um jeito diferente de como se dança no campo. A gente aprende a dançar  quando é pequeno, com os pais e os parentes. Nisso sua família foi negligente… você perdeu algo importante”. Ela replica: “… minha família era mais melancólica do que negligente; depois do campo de concentração, ninguém era muito alegre na minha casa”. E ele: “Acredite, sem campo de concentração eles também não seriam felizes”.

(resenha publicada em 13 de outubro de 2009,de forma ligeiramente condensada,  com o título “Nobel 2009 revela autora de talento”)

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (08.10.09)

“Também conheço os bondes pelo lado de dentro.Quem embarca a essa hora usa mangas curtas, carrega sua bolsa de couro gasta e  tem a pele arrepiada de frio nos braços. Cada um que entra é analisado com olhares lentos. Estamos entre nós, a classe operária. Gente melhor de via vai de carro até o trabalho. E, entre nós, comparamos: esse tem vida um pouco melhor; aquele, pior. Temos pouco tempo, logo chegam as fábricas, e os embarcados vão descendo. Sapatos lustrados ou poeirentos, saltos retos ou gastos, colarinho bem passado ou enrugado, unhas, pulseiras de relógio, fivelas de cinto, repartição de cabelo, tudo provoca inveja ou desdém. Nada pode se ocultar de olhares sonolentos, nem mesmo na multidão. A classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã…”

“Olhe para nós, diz Paul, e pare de falar em felicidade.”

“Há muito que dizer sobre a vida, mas essencialmente nada sobre a felicdade, porque assim que a gente abe a boca, ela some. Nem mesmo a felicidade perdida suporta ser falada. As coisas a queme habituei têm a ver com a passagem de um dia a outro, não com felicidade.”

       A Romênia nos deu o mito de Drácula, essa escuridão da não-vida sugando ao longo dos séculos a vida, essa sombra de imortalidade. Também nos deu o teatro do absurdo de Ionesco, essa paciente desconstrução do que é lógico, racional através do que o lógico e racional têm de ilógico e irracional. Pelo trechos que escolhi acima, de O COMPROMISSO (o título em alemão  é  Heute wär ich mich lieber nicht begegnet), cuja publicação original é de 1997, parece que estamos longe dessas paisagens desconstrutivas, o foco seria mais epidermicamente social, mais envolvido com a temática de classe, ainda mais porque estamos dentro do regime comunista (alguém ainda lembra do famigerado Ceausescu? quando eu era garoto, estava sempre no noticiário, como Idi Amin ou Franco era uma espécie de bicho-papão da política), ainda que insidiosamente  insinue-se o veneno da não-igualdade essencial entre os homens, mesmo os da mesma classe: “tudo provoca inveja ou desdém”, “a classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã”…

      O relato em primeira pessoa é mobilizado pela informação que o inicia: “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.” Esse estado de convocação situa todos os elementos da narrativa, é o seu ponto de fuga: aquele momento em que a narradora é interrogada, aquela insistência de comprometê-la com o Serviço Secreto, que é o canto paralelo dos seus atos quotidianos.  No entanto, assim como a figura de Drácula e a des-razão instituída pelo absurdo no palco, o registro do quotidiano é contaminado pela presença do sonho. Não a fantasia e os devaneios de uma Emma Bovary, como elemento compensatório de uma vida insuficiente. Mas o sonho em sua linguagem cifrada, inquietante, quase monstruosa, porque por mais interpretável que seja, deve ser lido em seus próprios termos: “Quando me deitei no sofá, meu primeiro marido botou a mala sobre a ponte do rio, agarrou meu pescoço e deu risadas estentóreas. Depois olhou a água e assobiou a canção em que o amor se quebra e a água do rio fica preta como tinta. Não parecia tinta, eu vi, e dentro da água vi o rosto dele, de cabeça para baixo e me olhando do fundo de cascalho. Então um cavalo branco comia abricós debaixo de árvores densas. A cada abricó, erguia a cabeça e cuspia a semente como uma pessoa. E quando me deitei na cama sozinha, alguém me pegou por trás, pelos ombros, e disse: Não olhe para trás, eu não estou aqui. Não virei a cabeça, espiei só pelos cantos dos olhos. Eram os dedos de Lili que me seguravam, sua voz era a voz de um homem, portanto não era ela… Eu vi os dedos, eram os dela, só que outra pessoa os estava usando. E essa pessoa eu não vi.  E no sonho seguinte meu avô podava um arbusto de hortênsias coberto de neve e me chamava para junto de si. Venha cá, eu tenho um cordeirinho. A neve caía sobre a calça dele e a tesoura cortava flores manchadas de marrom por conta do gelo. Eu disse: Mas isso não é um cordeirinho. Tampouco é uma pessoa, ele disse. Os dedos dele estavam rígidos e só lentamente conseguiam abrir e fechar a tesoura.  Eu não sabia direito se o que rangia era a tesoura ou a mão dele. Joguei a tesoura na neve. Ela afundou e não se via onde tinha caído. Ele procurou por todo o pátio, o nariz bem perto da neve.  Quando chegou ao portão do jardim, pisei nas mãos dele para que ele olhasse para cima e não saísse pelo portão, para procurar por toda a rua branca. Ele disse: Pare co m isso, o cordeirinho congelou e a lã queimou de frio. Havia ainda uma hortênsia junto da cerca do jardim, toda pelada. Eu apontei para lá: O que aconteceu com ela. Essa é a pior de todas, ele disse, vai ter filhotes na primavera. Isso é impossível.”

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       Ao contrário da polonesa Wislawa Szymborska (Nobel de 1996) e da austríaca Elfriede Jelinek (Nobel de 2004),  e com a exceção das mulheres premiadas em língua inglesa dos últimos 18 anos (Nadine Gordimer, em 91; Toni Morrison, em 93; Doris Lessing, em 2007), a premiada deste ano, a romena que vive na Alemanha (na verdade, já na Romênia sua família pertencia à minoria de origem alemâ)  Herta Müller, 56 anos, tem um livro publicado no Brasil (traduzido por Lya Luft, editado em 2004 pela Globo). Sua premiação foi, para mim, como para quase todo mundo, uma surpresa, mas pelo menos, já que tenho o livro, posso dar uma idéia mínima do seu universo, se um romance apenas permitir tal coisa.

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“Ando pela cidade sem destino. Quando ia à fábrica, não via sentido nisso. Difícil de acreditar, mas era mais fácil esconder a falta de sentido naquela época. Quando, como ontem, me sento no café numa das mesinhas na rua e peço sorvete, no instante seguinte quero um pedaço de bolo. Na verdade, eu só queria mesmo era ficar sentada, ou nem isso, queria apenas ficar um tempinho sem caminhar… Era mais fácil lidar com a falta de sentido do que com a falta de objetivo, então em vez de mentiras eu agora invento objetivos na cidade. Sigo mulheres da minha idade. Passo horas em lojas de roupa experimentando vestidos que lhes agradam. Ontem mesmo vesti um vestido listrado propositadamente com a frente para trás, depois fiquei repuxando, botei as mãos feito gola diante do decote, deixei os dedos parecerem um laço. Comecei a gostar do vestido. Com isso eu não contava, essa sensação de que me afasto de mim mesma. O vestido dava a impressão de que era preciso despedir-me rapidamente dele. Então minha boca ficou amarga, não me ocorria nada que pudesse dizer  no breve tempo que eu ainda tinha… Não quero que alguém balance a cabeça do meu lado porque estou misturando pensamento e fala. Ser ouvida por gente estranha é ainda mais vergonhoso do que ser ignorada ou empurrada…”

    O incidente que motiva a situação de “convocada” da narradora de O COMPROMISSO (uma situação que parece tanto ontológica quanto política, uma vez que a atmosfera do relato transmite uma excruciante claustrofobia existencial, o que nos faz indagar se num regime menos fechado e monolítico as pessoas seriam mais felizes ?) é que ela, quando operária, ela fez o seguinte: “… eu decidira me casar no lado ocidental e em cada um dos dez bolsinhos traseiros [de ternos que iam ser exportados para a Itália] enfiei um bilhetinho. Case comigo, ti aspetto, assinado com meu nome e meu endereço. O primeiro italiano que respondesse seria aceito. Meus bilhetes foram julgados prostituição em local de trabalho… Como eu não era membro do partido, e aquele era meu primeiro erro, decidiram me dar uma oportunidade de me corrigir…” Na verdade, há uma intriga entre ela e um outro funcionário da fábrica, Nelu, que a quer levar para cama e, rejeitado, por despeito procura prejudicá-la (depois ela será demitida).

      É preciso dizer que a espinha dorsal do relato, que permite que o passado venha à tona é um percurso de bonde que ela toma para chegar a tempo à sua convocação: nós ficamos sabendo do seu primeiro casamento (cujo final é melodramático, o marido tenta matá-la por não conseguir bater nela), da sua amiga Lili (que tem caso com homens mais velhos, começando pelo padrasto, e é fuzilada ao tentar escapar pela fronteira), da família (o pai, que transava com uma vendedora da idade da filha no pátio onde estacionava o ônibus que dirigia, depois ele se torna um dos fantasmas entrevistos pela narradora nas frinchas do seu dia a dia; a apagada mãe, que diz à filha que ela só nasceu porque tinha perdido o primeiro filho; o avô), do alcoolismo do segundo marido, Paul, com o qual ela compartilha ambiguamente sua condição de “convocada”.

O SENHOR VAI ENTENDER: Eurídice desmistifica Orfeu

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O SENHOR VAI ENTENDER (Lei dunque capità,  2006) é uma pequena (são  55 páginas na edição da Companhia das Letras, com tradução de Maurício Santana Dias) narração em primeira pessoa na qual Claudio Magris faz uma alegoria irônica baseada no mito de Orfeu e Eurídice.

      É Eurídice quem narra. Seu interlocutor é o Senhor Presidente, ao que parece o administrador de uma clínica na qual ela está recolhida devido ao “morbo”  que a infectou. Começa assim: “Não, não fui embora, Senhor Presidente, como vê, estou aqui…”

       Seu Orfeu (um poeta renomado, assediado pelas mulheres, mas no fundo frágil e dependente, auto-centrado e narcisista) tenta resgatá-la dali (“resolveu enfrentar o desafio de vir até aqui embaixo e não capitulou, como os outros, diante dos severes regulamentos da Casa de Repouso, que proíbe aos hóspedes… receber visitas e pôr em perigo nossa paz e tranquilidade…”), mas ao que parece ela se recusa a acompanhá-lo, preferindo permanecer no “inferno”. Mesmo porque ele parece ter um objeto muito mais egoístico que altruístico ou amoroso: “Não, ele não viera para me salvar, mas para ser salvo. Como posso cantar minhas canções em terra estrangeira?, me dizia. Eu era a sua terra perdida, a linfa de sua floração, de sua vida. Ele veio para retomar a sua terra, da qual fora exilado”.

      Ao narrar o insucesso de Orfeu, o que essa Eurídice de Magris faz na verdade é desconstruir o relacionamento, desmistificar o poeta (“Se o mimaram com todos aqueles louros e prêmios literários, é mérito meu, que limpei suas páginas de tanta gordura e de tanta  papa sentimental…”). Musa e ao mesmo tempo dona-de-casa, ela nos oferece um retrato impiedoso do grande artista ocidental tipicamente narcísico, embora seu discurso também seja auto-glorificador até na martirização (“Eu tinha orgulho e queria que todos o admirassem e não me importava que não soubessem que o mérito era meu, que o fazia andar na linha”). Enquanto se dá essa desconstrução impiedosa, ficamos atentos às pequenas pinceladas que delineiam uma kafkiana instituição que se confunde com o mundo, mas um mundo obscurecido, crepuscular, onde mal se enxerga o contorno das coisas e das pessoas, em que tudo é atenuado, abafado, distante e ignoto (“Desde que estou aqui, nesta grande Casa–nem sequer a conheço por inteiro; inteiro? não conheço nem uma pequena parte…”). É quase um A Montanha Mágica em ponto pequeno.

       É curioso ler O SENHOR VAI ENTENDER e perceber nesse texto límpido, que me lembrou um pouco uma certa parcela da produção de Marguerite Yourcenar, algo imemorial e remoto, até nesse reaproveitamento do mítico e na alegorização das relações humanas e do espaço, um  movimento totalmente contrário ao que norteia os projetos de Danúbio & Microcosmos, totalmente ancorados num espaço específico que se abre caleidoscopicamente no tempo, movimentando-se por muitas épocas, mas sempre atrelada a uma lógica local, específica, muito geográfica.

“Lá fora, senhor Presidente, há uma agonia por saber; até quem finge desinteressar-se daria nem sei o que para saber. Ele, então, se angustia mais que todos, porque é um poeta e a poesia, diz, deve descobrir o segredo da vida, arrancar o véu (…) Talvez, pensei, ele tivesse vindo me buscar sobretudo –ou apenas– por isso, para saber, para interrogar-me, para que eu lhe contasse o que está atrás destas portas (…) O senhor já entendeu, Senhor Presidente. Como dizer a ele que aqui dentro, afora a luz tão mais tênue, é como lá fora? Que estamos atrás do espelho, mas que esse reverso é também um espelho igual ao outro? Aqui também os objetos mentem, se dissimulam e mudam de cor como medusas (…) Estamos do outro lado do espelho, que também é um espelho, e vemos somente um pálido vulto, sem estarmos certos de quem seja (…) Dizer-lhe que eu, mesmo estando aqui dentro não sei mais do que ele? Seria um tremendo choque para o meu vate. Imaginava suas lamúrias, um homem acabado, um poeta a quem roubaram seu tema (…) pior do que tudo: que papelão ter vindo até aqui dentro, aqui embaixo, para depois descobrir que não valia a pena, que atrás da porta não há nada de novo.

       Já o imaginava arrasado, perdido… aborrecidíssimo comigo, que lhe estraguei toda a festa –e depois os dias e as noites juntos, eu ao seu lado e ele me olhando atravessado (…) De repente me senti cansada, abatida; recomeçar, cozinhar, lavar, fazer amor… se desentender como sempre, dormir, acordar, se vestir…

        Não; impossível, eu não suportaria (…) mas sobretudo a idéia de ter que calar, mudar de assunto quando ele perguntasse, quando quisesse saber (…)

        Eis então o porquê, Senhor Presidente…”

OUTRO MEIO SÉCULO GLORIOSO (Philip Roth e ADEUS, COLUMBUS)

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       Além de Vargas Llosa (nossa LEITURA DA SEMANA), outro romancista notável (76 anos) completa meio século de carreira em 2009, e sua estréia também foi com um atípico livro de contos, o qual, aliás, tornou-se paradigmático no tratamento crítico dos costumes judaicos e causou um furor que se acirraria no final dos anos 60, com o afrontoso  O Complexo de Portnoy (1969), que está para sua obra como Hamlet para a de Shakespeare (e o mais tardio e esplêndido O Teatro de Sabbath, de 1995, é o seu Rei Lear, calcado numa sexualidade politicamente incorreta e numa retórica majestosa). O livro de estréia de Llosa, Os chefes, certamente não teve o mesmo impacto, e é um dos seus trabalhos menos citados.

       A coletânea de Roth (contendo a novela-título e cinco contos) foi publicada no Brasil diretamente na Companhia de Bolso (não há edição anterior), traduzida pelo ótimo Paulo Henriques Britto.

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        ”Adeus, Columbus” é uma espécie de Trabalhos de Amor Perdidos. Tornou-se um clássico, muito imitado (e que até hoje vemos na ficção e no cinema norte-americanos; aqui no Brasil, nós tivemos algo similar em O encontro marcado , de Fernando Sabino), ao narrar um verão em que o jovem protagonista parece ter descoberto o amor, num rito de passagem entre a disponibilidade pós-adolescente e os compromissos irrevogáveis que vão aparecendo. Para mim, entretanto, os que roubam a cena são os coadjuvantes: a tia do rapaz, o pai da garota. Personagens que se tornaram emblemáticos da narrativa de costumes judaicos, para o bem e para o mal.

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     No entanto, os pontos altos de ADEUS, COLUMBUS são três contos absolutamente extraordinários e que eclipsam  os outros textos:  dois contos em que Roth satiriza e ajusta contas com aspectos do judaísmo, “O defensor da fé” (o meu favorito pessoal) e “”Eli, o fanático”, e um maravilhosa história, um pouco na linha da novela-título porque o tempo lhe deu ares de comédia de costumes, “Epstein”.

     “O defensor da fé” apresenta um narrador (e a narração em primeira pessoa é o reino de Roth), um oficial condecorado, que vai trabalhar com recrutas na etapa derradeira  da segunda grande guerra (“Em maio de 1946, poucas semanas após o fim do conflito na Europa, fui transferido para os EUA, onde fiquei até o final da guerra com ujma companhia de treinamento no Camp Crowder, Missouri“), quando os americanos iam lutar no Pacífico. 

      Nathan Marx  tem de se defrontar com a má fé com que um dos recrutas, também judeu, Sheldon Grossbart, se aproveita da sua fé para ter vantagens pessoais. Primeiramente, Sheldon exercita uma certa familiaridade com Marx, devido ao fato de ambos serem judeus. Aproveita para reclamar do dia da faxina geral, “logo na sexta“, alegando que contraria seus princípios religiosos (e de alguns outros recrutas, que sempre servem de esteio para suas reivindicações, e são dois patetas totalmente manipuláveis). “Só quero os meus direitos“. Quando apresenta o problema ao capitão, o sargento percebe que parece estar tomando partido, defendendo a posição do recruta.E fica furioso (interessante também é o discurso do capitão, altamente preconceituoso, mas querendo mostrar que tem a mente aberta, desde que um homem se comporte como tal, como o próprio Marx mostrou na guerra, e por isso é respeitado). Sheldon consegue o seu objetivo e durante o culto, Marx o ouve dizer aos companheiros, rindo: “Lavar o chão é pros góis”. Não será decerto a última reivindicação de Sheldon. A mais problemática é o pedido de licença de alguns dias (nenhum recruta tem permissão de licença durante o treinamento) para o Pessach, na casa de uma tia. Com seus resquícios de judaísmo, Marx lhe diz que a data já passou e no entanto é engabelado pela exasperante renitência do recruta em se deixar vencer e convencer por argumentos de autoridade, igualdade, etc (“Eu podia sair e ninguém ia ficar sabendo”. “Eu ficaria sabendo. Você também”. ”Só nós. Nós dois”.) Vencido (“Quem era Nathan Marx para ser tão sovina com a bondade?”), numa cena maravilhosa de comédia humana,  o sargento lhe concede a licença e também aos outros dois recrutas judeus: “Só quero que me deixem viver como judeu… Eui não quero criar caso nenhum. Essa é a primeira acusação que eles sempre fazem à gente” (paralelamente às investidas pessoais em Marx, Sheldon, utilizando o nome  do pai, escreve cartas a deputados, para conseguir tratamento privilegiado devido às suas “convicções religiosas”). 

      Quando eles retornam do Pessach fora da hora, trazem de presente ao “protetor” não a comida judaica feita nessas ocasiões, mas um rolinho primavera, porque a tia nem estava em casa e foram farrear num restaurante chinês (“Ele era totalmente estratégico. Mas eu –percebi-o com a força de uma condenação– também era!”). Apesar da bronca de Marx, a próxima campanha de Sheldon é não ser enviado ao Pacífico. Quando o sargento percebe que ele conseguiu seu objetivo, faz uma pequena maldade (embora, em se tratando da guerra, pode significar uma maldade letal): mexe os pauzinhos e é outra recruta que fica liberado do embarque: “O que é que o senhor tem contra mim?… Maldito o dia em que o conheci. .. O seu anti-semitismo não tem limites”

      Essa obra-prima termina com esse diálogo em que Sheldon vai pedir explicações e reparações a Marx.A última palavra do sargento ao recruta folgado é: “Você vai se sair bem, disse eu, à porta”. Mas as últimas palavras do relato são: “Nos alojamentos, pelas janelas iluminadas, vi os rapazes de camisetas sentados nos beliches… Com um nervosismo discreto, eles engraxavam sapatos, lustravam fivelas de cintos, dobravam cuecas, tentavam da melhor maneira possível  aceitar seu destino. Atrás de mim, Grossbart engolia em seco, aceitando o dele. E então, resistindo com toda a minha força de vontade ao impulso de me virar para trás e pedir perdão pelo meu ato de vingança, aceitei o meu.

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     É uma das melhores variações que eu já li do tipo de narrativa em que o narrador tem de se defrontar com um Outro exasperante, que o leva a limites insuspeitados de caráter e a tomar decisões turbulentas e sérias (baseadas em reações que não se aplicariam a um estranho que nos é indiferente), e se torna um fardo da sua existência, e cujo modelo é o  extraordinário Bartleby, de Hermann Melville. Como eu mesmo já me vi nessa situação, de “aturar” uma pessoa exasperante, e que despertava o pior em mim, e que por mais que eu quisesse distância se mantinha próxima, eu fiquei apaixonado pela maneira como o texto consegue captar todas as nuances de irritação, pena, automistificação, má consciência…

       Já “Eli, o fanático” pega o judaísmo pela outra ponta, satirizando a assimilação dos judeus à cultura americana dos subúrbios e da prosperidade tida como uma fortaleza cercada de inimigos por todos os lados (que é o aspecto mais interessante de A vila, aquele curioso filme de M. Night Shyamalan). Uma comunidade judaica “assimilada” fica horrorizada com uma escola que abriga refugiados da guerra e pura ortodoxia. Um dos membros se veste de maneira radical, como um ser vindo do fundo dos tempos. O advogado Eli serve de intermediário entre a comunidade assimilada e os intrusos “pitorescos”. Eli presenteia o rapaz com suas próprias e modernas roupas… e encontra na porta da sua casa o traje anatematizado. Enquanto sua mulher dá à luz no hospital, o traje o atrai como uma cobra ao passarinho… e ele o veste e anda pela cidade vestido assim.

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Em “Epstein”, o personagem central hospeda o sobrinho (está brigado há muitos anos com o pai dele, uma das várias frustrações da sua existência; para se medir a extensão desse sentimento de logro, basta dizer que o relato transcorre em 1957 e ele pensa: “em 1927, ele e a mulher eram pessoas bonitas”—o que houve nesses 30 anos?) e o flagra (sem ser visto) transando com a filha da vizinha no tapete da sala. Instigado pela cena,  inicia um caso com Ida Kauffman. Surpreendendo-o nu, a esposa  percebe que ele tem uma ferida no pênis e começa a gritar “Sífilis”. O escândalo doméstico que se segue é de uma graça inenarrável.

Jovialidade e irreverência na literatura francesa: ZAZIE aos 50

 

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ANOTAÇÕES DE 30.06.09

      Li uma tradução (saiu pela Rocco) de Zazie no metrô, de Raymond Queneau (1903-1976) em meados dos anos 80. Gostei, gostei bastante, mas meu gosto então era mais pelo “sério” e logo etiquetei o livro como mais “ameno” e meio que o esqueci.

     Agora sai uma edição pela CosacNaify e o livro, publicado em 1959, chega ao cinqüentenário. E se me dissessem que é um livro recém-publicado, escrito neste ano de 2009, eu acreditaria piamente. É um impacto, meu caro leitor,  a vitalidade, a irreverência, o tom absolutamente moderno dessa obra-prima de Queneau. É o livro em que a adolescência realmente ganha foros de cidadania na literatura. Pois até então não existia o adolescente, tal como o entendemos: tínhamos aqueles personagens “sensíveis” e inadaptados, quase projeções do adulto angustiado (não que isso diminua o mérito de um texto como O apanhador no campo de centeio). Na literatura francesa, então, dominada ainda pelo estilo elegante e clássico, tínhamos a revolta e a sordidez da adolescência e juventude do narrador de Morte a crédito, de Céline, tínhamos os adolescentes “malditos”, enfant terribles, e ainda a pós-adolescência imediata e anemicamente existencialista e lânguida Bom dia, tristeza. Não, o livro de Queneau é de uma imperiosa novidade, é o que a vanguarda pode ter de mais alegre e debochado. E só para arremetar este intróito (nem falei do livro ainda), é preciso lembrar que quando o publicou Queneau já estava com 55 ou 56 anos!

     Zazie é uma pirralha (como é chamada, na narrativa) que, enquanto a mãe passa duas noites com um amante em Paris, vai ficar aos cuidados do tio, Gabriel. Ela já chega contrariada: não vai poder conhecer o metrô parisiense, que está em greve. Portanto, o título já é uma brincadeira do autor com o leitor: nunca veremos Zazie no metrô. E tantas outras certezas serão dinamitadas ao longo das aventuras parisienses de Zazie: o tio Gabriel faz show numa boate gay como “Gabrielle”, mas é um baita homão, bate em todo mundo, é casado com Marceline… será que ele é gay? Será que é uma tia (o epíteto que os personagens dão aos gays  no livro?) e, sendo como é, o tio  (tia?) de Zazie, não teremos aí outra brincadeira? Mesmo porque quem entrega a pirralha à nada maternal mãe não é o tio (tia?) Gabriel(le) e sim a que nunca foi chamada de tia na narrativa inteira, Marceline, no entanto transformada em Marcel, que está fugindo de casa porque um policial (que provavelmente não é um policial), mas que foi um guarda de trânsito e um tarado pedófilo ao longo da narrativa, a assedia sexualmente enquanto o marido está entretendo turistas que ficaram encantados com ele ao longo do dia com seu show na boate (no qual é incluída, improvavelmente para os padrões da censura e da proteção a menor, a pirralha). O falso (ou não?) policial assediou quem: Marceline ou Marcel? E  não foi só ele: a garçonete do restaurantezinho sobre o qual se localiza o apartamento de Gabriel(le)/Marcel(ine), Mado Ptits-Pieds (durante a semana falarei do que Queneu faz com a ortografia das palavras, utilizando a fonética de forma maravilhosa, que deveria ter ensinado muita coisa a Antônio Houaiss quando traduziu Ulisses, e que foi magicamente preservada pelo tradutor Paulo Werneck), que aceita casar-se com um amigo de Gabriel(le), Charles, ao subir ao apartamento para dar um recado e comunicar sua decisão, também aproveita para “dar uma cantada” na companheira do tio que nunca é chamada de tia. E nem de fato sabemos, apesar do uso da palavra “tio” que parentesco liga Gabriel à mãe de Zazie ou a ela.

     E essa menina desbocada, interesseira (é capaz de acompanhar um pedófilo pelas ruas de Paris, para onde escapuliu da casa do tio, só porque há a possibilidade de ele comprar-lhe uma calça jeans, djins). E sua resposta contumaz: é o caralho? E a maneira como trata o tio, de uma forma que uma transeunte (que se tornará uma das personagens mais deliciosas do texto) a repreende, invertendo tudo o que esperamos de uma situação dessas, por “maltratar um adulto”?

     Paris é uma festa nesse dia de greve de metrô. A festa da linguagem de Queneau.

    Ele pertenceu ao famoso grupo experimental OuLiPo, na época em que as vanguardas ainda tinham peso (lembrem-se que foi também a época do “noveau roman” e da “nouvelle vague”). OuLiPo- oficina de literatura potencial  (não, não, não se trata de um desses grupelhos chatos, não que não os houvesse, claro, mas dessa turma participaram grandes autores como Italo Calvino, do qual certas obras têm algum parentesco com Zazie, como o delicioso Se um viajante numa noite de inverno, e também Georges Perec, do sensacional A vida: modo de usar).

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Em 1960, Zazie foi filmado por Louis Malle, cuja carreira tem mais altos do que baixos (desses, eu só lembro de três filmes de que eu não gostei: Lua negra; A baía do ódio; o horroroso Perdas & Danos, apreciado por muita gente): filmes ótimos como Ascensor para o cadafalso, Trinta anos esta noite, Lacombe Lucien, Pretty baby, o particularmente esplêndido Atlantic City, Au revoir les enfants, Milou en mai (tem dois que eu nem gosto nem desgosto, não me dizem nada: A vida privada & Viva Maria). Nessa carreira gloriosa nada foi tão inspirado quanto O sopro no coração, justamente sobre um menino que chega à adolescência e um dos melhores filmes da história do cinema na minha opinião. Mas eu nunca consegui ver a adaptação de Malle para Zazie. Deve ser legal porque a menina tem uma cara ótima.

 zazie

                                   ANOTAÇÕES DO DIA 02.07.09

    Zazie tem 19 capítulos. O primeiro capítulo já é divertidíssimo, pois começa com o tio Gabriel, ao ir de encontro a Jeanne Lalochère e sua filha Zazie, queixando-se do fedor da multidão parisiense:”Disseram no jornal que nem onze por certo dos apartamentos de Paris têm banheiro, grande novidade, mas mesmo assim dá pra tomar banho. Esse pessoal aqui em volta não deve se esforçar muito. E esses aí nem são os mais fedorentos de país.” Numa inversão típica da narrativa, é no entanto o cheiro dele que vai incomodar os outros e dar origem a uma confusão que caracteriza completamente o seu tipo físico (o narigão, a corpulência). É que Gabriel usa um perfume (que se fará presente o romance inteiro) chamado “Barbouze”, “um perfume da Fior”. E quase todos garantem que é uma fragrância horrível: “Devia ser proibido empestear o mundo desse jeito, continuou a dondoca, convencida de que tinha razão”.. A única que gosta do cheiro é Zazie, a quem ele não conhecia e que surge da multidão.

    Eles combinam de se encontrar “depois de amanhã para o trem das seis e sessenta” para Gabriel devolver a menina: “Natürlich, disse Jeanne Lalochère, que tinha sido ocupada”. Esse é um exemplo do virtuosismo do estilo de Queneau. Note-se as implicações desse “tinha sido ocupada”, que remonta à guerra e a uma aura de promiscuidade sexual.

    Ao saber que não vai poder andar de metrô, devido à greve, Zazie grita:

“—Mas que canalhas! Safados. Fazer isso comigo.

–Não foi só com você que eles fizeram isso, disse Gabriel, perfeitamente objetivo.

–Não to nem aí. Mesmo assim, é comigo que isso tá acontecendo, eu, que tava tão feliz, tão contente e tudo de ir vagãobundear no metrô. Com mil diabos, puta merda!”

     Um pouco adiante, Gabriel diz:

“–E depois temos que chispar: o Charles tão…

–Oh!Essa dança aí eu conheço, rexclama Zazie, furiosa…”

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     No táxi de Charles, amigo de Gabriel, começa outro dos jogos favoritos do texto: inexatizar os lugares célebres de Paris. Um diz que é o Panthéon, o outro nega, o outro replica, e assim por diante… E Zazie sempre espicaçando. Aliás, na relação entre ela e os adultos do texto, constatei um tipo de duelozinho, de espicaçamento contínuo, que conheço bem, por causa dos meus alunos dessa faixa de idade: por mais que gostem de você, estão sempre espicaçando-o e tentando deixá-lo na defensiva. E haja presença de espírito e jogos de linguagem para deter a ofensiva (e ao mesmo tempo isso é muito estimulante e energético).

     No restaurante embaixo do apartamento de Gabriel e de propriedade do seu locador, Turandot, Zazie insiste em tomar uma “cacocalo” (mas não tem no estabelecimento), enquanto Charles vai de bojolé. E assistimos a uma cena de teatro do absurdo (como também há toques do futuro besteirol, de desenho animado, de cinema, enfim de tudo que há de aproveitável na cultura verbal):

“—E você?, ele pergunta a Zazie.

–Já falei: uma cacocalo.

–Ela disse que não tem.

–É uma cacocalo o que eu quero.

–Você pode até querer, você ta vendo que não tem.

–O que eu quero é uma cacocalo e não outra coisa.”

      Gabriel mostra sua moradia. É aqui, diz ele, que pergunta a ela o que acha: “Zazie fez um gesto que parecia indicar que ela preferia não declarar sua opinião”. Nesse momento, conhecemos boa parte da fauna que irá povoar o resto do livro: Turandot, o dono, Mado Ptits-Pieds, que vai aceitar o pedido de casamento de Charles e o maravilhoso papagaio Laverdure, que repetirá o mesmo refrão (com uma exceção) até o fim da história: “Falar, falar, você só sabe fazer isso”.

 “Seu Charles, é o que Mado Ptits-Pieds diz, você é um melancólico.

–Melancólico o caralho, responde Charles.

–Isso lá é verdade, hoje o senhor não está nada educado.

–É engraçado, é assim que ela fala, a fedelha.

–Não entendi, disse Turandot, nem um pouco à vontade.

–É fácil, disse Charles, essa criança não consegue dizer uma palavra sem acrescentar  um o caralho logo depois.

–E ela acrescenta o gesto às palavras, perguntou Turandot.

–Ainda não, respondeu gravemente Charles, mas não vai demorar para isso acontecer…

–Pultaquilparil, gemeu Turandot, não quero na minha casa uma vadiazinha que diz essas porcarias. Já consigo até ver, ela vai perverter a vizinhança inteira. Daqui uns oito dias…

–Ela só vai ficar dois ou três dias, disse Charles.

–Já é demais, em dois ou três dias ela vai ter tempo de enfiar a mão na braguilha de todos os velhos gagás que me dão a honra de fazer parte da minha clientela.

–Falar, falar, disse Laverdure, você só sabe fazer isso.”

cena de Zazie

   E então aparece a suave, sutil e enigmática Marceline e um problema logo surge: Gabriel trabalha à noite (diz para Zazie que é vigia) e não quer que a menina barulhenta atrapalhe seu sono matinal.

“—A gente, disse Gabriel, podia dar um sonífero para ela dormir pelo menos até meio-dia, ou milhor, até as quatro. Parece que tem uns supositórios que permitem atingir exatamente esse resultado”.   

Na manhã seguinte (estamos no terceiro capítulo), Zazie acorda e se entedia no apartamento do tio e sai para a rua: “É  uma rua tranqüila. Os carros passam tão raramente que daria para brincar de amarelinha. Tem algumas lojas de bairro e cara provinciana. Pessoas vão e vêm a um passo razoável. Quando atravessam, olham primeiro para a esquerda, depois à direita, unindo o civismo ao essesso de prudência. Zazie não está totalmente decepcionada, ela sabe que está em Paris mesmo, que Paris é uma grande aldeia e que Paris inteira não parece com aquela rua. Só para se dar conta e ter total certeza, é preciso ir mais longe. É o que ela começa a fazer, com ar despreocupado”. É Tom Sawyer reaparecendo na ficção após um século de gente adulta e séria, e adolescentes como pano de fundo e coadjuvantes.

    Turandot tenta impedi-la, mas ela faz com que uma multidão se junte à volta deles, chamando-o de tarado.

“Diante desse público seleto, Zazie passa das considerações gerais às acusações particulares, precisas e circunstanciadas… A senhora insiste; ela se inclina para Zazie.

–Vamos, menina, não tenha medo, me diz o que esse homem ruim te falou?

–É sujo demais.

–Ele te pediu para fazer alguma coisa?

–Isso mesmo, dona.

    Zazie deixa escapar em voz baixa alguns detalhes na orelha da boa senhora… Um tipo indaga:

–Quê que ele pediu pra ela fazer?

     A boa senhora deixa escapar os detalhes zazílicos na orelha do tipo:

–Oh, nunca tinha pensado nisso.

     E reformula assim, mais para pensativo:

–Não, nunca.

     Ele se volta para outro cidadão:

–Pois então, ouve só isso aqui (detalhes). Inacreditável.

–Tem gente que é safado mesmo, disse o outro cidadão.

    Enquanto isso, os detalhes se espalham pela multidão.

    Uma mulher diz:

–Não entendi.

    Um homem esplica pra ela. Puxa do bolso um pedaço de papel e faz um desenho com caneta bique.

–Muito bem, diz a mulher, sonhadora.

    Ela acrescenta:

– E é prático?

    Está falando da caneta…”

     Turandot consegue escapulir dali e no seu estabelecimento:

“–Deusdossel, deusdossel, gaguejou ele.

– Falar, falar, diz Laverdure, você só sabe fazer isso.”

      Marceline é obrigada então a acordar Gabriel e lhe dizer que a guria “deu no pé” e que não pode sair atrás dela porque está “com roupa fervendo no fogo”. Turandot  (que foi levar a notícia) recomenda uma lavanderia automática e Gabriel: “Por quê que você tem que se meter? Falar, falar, você só sabe fazer isso”.

     Quando Gabriel sai para procurar a sobrinha, passa por uma sapataria e conhecemos então outro personagem importante, o sapateiro Gridoux.

ZAZie o filme

     E então Zazie perambula por Paris. Lógico que vai até o metrô, que está fechado.  Um sujeito a aborda: “Ela não conseguia acreditar no que os olhos viam. Ele estava emperiquitado com uma bigodeira negra, chapéu-coco, guarda-chuva e uns sapatos enormes. Não é possível, Zazie dizia para si mesma com sua vozinha interna, não é possível, é um ator perdido, dos velhos tempos.”

     Dissimulada, ela permite que o tipo (que ela crê ser um pedófilo) a leve a um mercado de pulgas:

“—Ah, o mercado de pulgas, disse Zazie, com ar de quem não quer se deixar surpreender, é aqui que dá pra encontrar uns rambrãs baratinhos, depois é só vender prum ianquense e a viagem está ganha… Tem calça djins, nos uniformes americanos?

–Mas sem a menor dúvida. E bússolas que funcionam no escuro.

–Tô cagando pras bússolas…

–Podemos ir lá ver, disse o sujeito.

–E depois?, disse Zazie, não tenho nem um tostão pra poder comprar, só afanando mesmo.”

       E no mercado de pulgas o sujeito compra o djins: “Djins. Assim. No primeiro passeio em Paris. Bacanérrimo.” Mais adiante: “Tá pensando o kê? Keke ele ker/ Com certeza é um timo imundo, não um nojento indefeso, mas um tipo imundo de verdade. Dizconfia, dizconfia, dizconfia. Mas e aí se, a calça djins…”

zazie comics

Eu não vou revelar tudo o que acontece no livro. Só quero dar uma idéia da sua graça. Por isso, pulo um pouco e mostro Zazie no apartamento do tio, acompanhada pelo sujeito que se apresenta como Pedro-Surplus, “um comerciante”, embora Zazie desconfie de que ele possa ser um tira. Pedro Sur-plus acusa Gabriel de prostituir garotinhas:

“– Essa menina estava rodando bolsinha no mercado das pulgas. Espero que pelo menos o senhor não vá vender ela para os árabes.

–Isso nunca, senhor.

–Nem aos poloneses?

–Também não.

–Somente aos franceses e turistas abonados?

–Somente coisa nenhuma.

–Então o senhor nega?

–E como.

–E me diga, meu rapaz, qual é o seu ofício ou sua profissão atrás do qual ou da qual o senhor esconde as suas atividades delituosas?

–Artista.

–O senhor? Um artista? A menina me disse que o senhor era vigia noturno.

–Ela não sabe de nada…

–Então, artista de que tipo?

–Dançarina de cabaré.”

         E assim Zazie ouve uma palavra sobre a qual fará várias inquirições mao longo do texto: “hormossecsual”:

“—Pois não está vendo tudo o que está bem no seu nariz? Disse o sujeito, com um ar cada vez mais sacanamente mefistofélico: proxenetismo, rapinagem, hormossecsualidade, eonismo, hipospadia balânica, com tudo isso você vai puxar uns dez anos de trabalhos forçados.

     Depois ele se vira para Marceline:

–E a senhora? Gostaríamos de ter algumas informações sobre a senhora também.

–Quais?, perguntou Marceline suavemente.

–Você só deve falar na presença do seu advogado, disse Zazie…

–Dá pra calar a boca?, disse o sujeito para Zazie. Pois então, a senhora poderia dizer que profissão exerce?

–Dona-de-casa, responde Gabriel, com ferocidade.

–Em que consiste?, pergunta ironicamente o sujeito.

      Gabriel se vira para Zazie e pisca o olho, para a menina se preparar para saborear o que vem por aí.

–No que consiste?, diz ele, anaforicamente. Por exemplo, pôr o lixo para fora.

     Ele pega o sujeito pela gola do paletó, arrasta pelo assoalho e o projeta rumo a direções inferiores.

     Faz barulho: um barulho abafado.

     O chapéu segue o mesmo caminho. Faz menos barulho, embora seja coco.”

       O sujeito (Pedro-Surplus, será?, comerciante?, polícia? ator? tarado?) puxa prosa com o sapateiro Gridoux (eu saltei vários episódios,esse diálogo está no capítulo 7):

“—O titio é uma titia.

–Não é verdade, berrou Gridoux… O Gabriel ele é um cidadão honesto, honesto e honrado. Além do mais, todo mundo gosta dele aqui no bairro.

–Uma sedutora.

–O senhor está me enchendo o saco, afinal de contas, com esses seus ares superiores. Estou repetindo que o Gabriel não é uma tia, está claro, sim ou não?… O Gabriel dança numa boate de bichas-loucas disfarçado de sevilhana, oquei. Mas quê que isso prova, hein?… Isso não prova nada, só diverte os trouxas. Um colosso vestido de toureiro faz sorrir, mas um colosso vestido de sevilhana é bem o tipo da coisa que as pessoas acham engraçado. Sem falar que além disso ele dança A Morte do Cisme que nem na Ópera. Com saiote e tudo… afinal de contas é um trabalho como qualquer outro, né não?

– E que trabalho, o sujeito contentou-se em dizer.

–Que trabalho, que trabalho, replicou Gridoux, macaqueando o outro. E do seu trabalho, o senhor tem orgulho?

     O sujeito não respondeu.”

     No capítulo 8, novamente passeiam por Paris Gabriel e Zazie no táxi de Charles. Zazie pergunta ao taxista o que quer dizer hormossecsual:

“—Mas o quê que isso quer dizer? Que ele usa perfume?

–Isso aí. Você entendeu.

– Não é motivo pra ir pra cadeira.

–Claro que não.

–E o senhor? O senhor é? Hormossecsual?

– Por acaso eu tenho cara de quem queima a rosca?

–Não, porque o senhor é motorista.

– Então. Ta vendo.

–Tô vendo nada.

–Eu também não vou fazer um desenho pra você.”

queneau                    

             .

DEUS-UM DELÍRIO, de Richard Dawkins

(acesse: www.paponaestante.com.br)

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    Num ano em que o Evolucionismo comemora os 150 anos de publicação de A Origem das Espécies, Richard Dawkins veio ao Brasil como a grande estrela da Flip.

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     Em Deus- Um Delírio, um dos livros da década, o agressivo Dawkins tem como objetivo mostrar que é possível e necessário maravilhar-se com o mundo e as leis da natureza sem recorrer ao “assombro transcendente monopolizado pela religião, atacando, assim, o fundamentalismo e o obscurantismo galopantes da nossa época, na qual há ainda a contínua interferência da religião em assuntos que não lhe competem. Aliás, qual assunto compete à religião? Por que determinadas pessoas têm de se guiar (e querem guiar os outros) por regras morais fixadas de forma arbitrária a partir de uma confusa visão mitológica e não apenas pelo contrato social, ainda o mais sensato e racional liame entre o individual e o coletivo? Por que os ateus ainda têm de se sentirem embaraçados e intimidados  por marcarem sua posição?

    Numa escala de 1 a 7 entre a crença absoluta e confiante e a descrença, Dawkins se coloca na faixa 6: “Não tenho como saber com certeza, mas acho que Deus é muito improvável e levo minha vida na pressuposição de que ele não está lá”.

    Certamente o capítulo que mais tem causado controvérsia é “Por que quase com certeza Deus não existe” que se ocupa com as argumentações sobre o fundamento da nossa existência: “a probabilidade de a vida ter surgido na Terra não é maior que a chance de um furacão, ao passar por um ferro-velho, ter a sorte de construir um Boeing 747” (o que contraria frontalmente a teoria creacionista do “design inteligente”). O problema que qualquer teoria do surgimento da vida tem de solucionar é como escapar do acaso como explicação, sem cair na solução fácil de um designer: “a seleção natural é um processo cumulativo, que divide o problema da improbabilidade em partículas pequenas. Cada uma das partículas é ligeiramente improvável, mas não definitivamente…O próprio Darwin disse: Se fosse demonstrado que qualquer órgão complexo existisse e que ele não pudesse ter sido formado por numerosas, sucessivas e pequenas modificações, minha teoria absolutamente ruiria. Mas não consigo encontrar nenhum caso assim”.

    É uma discussão que sempre apaixona, porém acho ainda mais essencial o capítulo “Infância, abuso e a fuga da religião” porque mostra que os estragos ocasionados pela religião vão além da interferência nas leis, na vida cotidiana: ela é um abuso psicológico (e enfatiza-se tanto hoje somente o abuso sexual), uma criadora de monstros quando a razão adormece; programa as crianças (que não deviam ser expostas a isso, a essa rotulação como cristãs, ou muçulmanas, ou judias, como se elas “fossem isso”) para a presunção de “que a fé em que nasceram (!!! a fé a que foram submetidas)é a única fé verdadeira, e que todas as outras são aberrações ou simplesmente mentiras”, com os resultados que conhecemos: “Se depois de ter sido expostas de forma justa e adequada a todas as evidências científicas, elas crescerem e decidirem que a Bíblia diz a verdade literal ou que o movimento dos planetas governa sua vida, é direito delas. O essencial é que é direito delas decidir o que pensarão…E isso tem uma importância especial quando lembramos que as crianças serão os pais da geração seguinte, em posição de passar para a frente a doutrinação que as possa ter moldado”. Pena que essa proteção moral seja, creio eu, uma improbabilidade, algo totalmente inviável em nossos modelos de educação.

    Para ilustrar seu argumento, Dawkins (como é seu costume) recorre a uma anedota deliciosa: “Dizem que Alfred Hitchcock, o grande especialista na arte de assustar as pessoas, estava dirigindo na Suíça quando de repente apontou pela janela do carro e disse: Essa é a cena mais aterrorizante que já vi. Era um padre conversando com um menininho… Hitchcock pôs a cabeça para fora e gritou: Fuja, menininho! Salve sua vida!”

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(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em 04.07.09)

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