MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/04/2012

Teoria e Prática do “ROMANTISMO DA DESILUSÃO’: Lukács e Jacobsen

 

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O ÉPICO LÍRICO

 (artigo publicado em 7 de agosto de 2001)

 

“Sentia-se tão só. Não tinha nenhum parente, nenhum amigo que estivesse perto do seu coração… não pode haver maior abandono que o de quem em todo o imenso mundo não tem um lugarzinho para abençoar, para querer bem, para o qual possa voltar o coração pesado, do qual possa lembrar quando a saudade quiser estender as asas. Mas que brilhem sobre a sua cabeças as claras  e fixas estrelas de um ideal, e a noite não será mais um deserto, e sua solidão não será total. Para Niels Lyhne não havia estrelas. Não sabia o que fazer consigo mesmo ou com suas aptidões. Não tinha dúvidas sobre o seu talento, apenas não podia utilizá-lo, e portanto vagueava à toa, sentia-se como um pintor que tivesse perdido as mãos. Como invejava aqueles que, grandes ou pequenos, por onde quer que abordassem a existência sempre encontravam o que agarrar, pois ele agarrava sempre o vácuo…Às vezes tinha a impressão de haver nascido meio século atrasado, e outras vezes de ter chegado muito cedo.

A passagem acima pode dar ao leitor uma idéia do clima que perpassa Niels Lyhne, célebre romance de Jens Peter Jacobsen (1847-1885), só agora traduzido no Brasil, por Pedro Octávio Carneiro da Cunha.

No momento citado, Niels perdeu a mãe (insatisfeita com o prosaísmo da existência, ela transmitiu esse desassossego ao filho) e o melhor amigo, Erik. Pior ainda: mantivera um caso com Fennimore, a esposa de Erik, a qual passou a odiá-lo (uma reação meio teatralesca, é verdade), devido ao sentimento de culpa por trair o marido com o amigo dileto.

Era a segunda decepção amorosa de Niels: antes amara uma mulher mais velha, Tema Boye, coma qual também houvera uma cena de rompimento altamente teatralizada (hoje, chamaríamos de fake) por parte da personagem feminina.

E o pior ainda está por vir: Niels volta ao seu cantão natal, casa-se e tem um filho, mas tanto este quanto Gerda, a esposa, morrem. É quando o ateísmo de Niels precisa tornar-se heróico: pode-se suportar a vida, só deixando-a “seguir as próprias leis” ou deve-se capitular diante da “necessidade ancestral” de um Deus?

II

Publicado em 1880, Niels Lyhne influenciou muita gente. É o caso de Thomas Mann, que, ao comentar sua formação como escritor, sempre destacou a leitura dos prosadores escandinavos: Jacobsen, Hermann Bang, Jonas Lie, Kielland.

É indisfarçável a presença de Jacobsen no primeiro Mann: o sentimento de estar à parte da vida que domina, por exemplo, Tônio Kröger (sem contar a atmosfera estilística da história). Todavia, mesmo o Mann mais tardio apresenta rastros do autor de Niels Lyhne. Hans Castorp, de A Montanha Mágica, endossaria certamente a seguinte frase: “Aprender é tão belo quanto viver”. E a agonia do filho de Niels repercute na do pequeno Nepomuk de Doutor Fausto:

“… aquelas mãozinhas cerradas e brancas de unhas azuladas, aqueles olhos meio esbugalhados, aquela boca deformada, os dentes rangendo, com um som de ferro e pedra.”

III

É difícil ler Niels Lyhne sem ser pela ótica do grande pensador húngaro Georg Lukács (1885-1971), que, em seu clássico e extraordinário ensaio Teoria do Romance (também só agora lançado numa versão brasileira, tendo circulado por décadas na personalíssima tradução portuguesa de Alfredo Margarido), apresenta um capítulo chamado “Romantismo da Desilusão” que parece ser a descrição mais pertinente da visão de mundo que domina o romance do autor dinamarquês, embora a obra-padrão e ao mesmo tempo ápice dessa tendência seja A Educação Sentimental, de Flaubert.

Lendo inúmeras passagens de Lukács parece que ele está falando diretamente da psicologia de Lyhne:

“… inadequação que nasce do fato de a alma ser mais ampla e mais vasta que os destinos que a vida é capaz de oferecer” / “…a perda do simbolismo épico, a dissolução da forma numa sucessão nebulosa e não-configurada de estados de ânimo e reflexões sobre estados de ânimo, a substituição da fábula configurada sensivelmente, pela análise psicologia” (embora eu creia que se vá um tanto além da psicologia no caso da introspecção de Niels) / “…Resta um belo mas esbatido amálgama de volúpia de amargura, de mágoa e escárnio, mas não uma unidade; imagens e aspectos, mas não uma totalidade de vida…” etc, etc.

A certa altura, Lukács afirma ter Jacobsen exprimido o romantismo da desilusão “em maravilhosas imagens líricas”. Não se deve inferir disso que o romance seja escrito numa mera “prosa poética”. Quando Lukács diz “maravilhosas imagens líricas” quer apontar para o seu poderoso e quase visionário estilo, que o torna um legítimo precursor de autores como Robert Musil e Clarice Lispector, exploradores da mesma senda: a reeducação do leitor para além da narração de um enredo, rumo a territórios desconhecidos ou insuspeitos da linguagem, situados além da poesia lírica propriamente dita e da prosa épico-narrativa. Quem já leu O Jovem Törless (na realidade, As Perplexidades do Aluno Törless, como seria melhor traduzido), de Musil, ou um texto como O Lustre, de Clarice Lispector, percebe bem que os três protagonistas (Niels, Törless, Virgínia) são possuidores de um mesmo atributo inquietante, “um sentido a mais do que as outras pessoas, só que ainda incompleto” (Musil; e o Niels de Jacobsen não acha que nasceu meio século atrasado ou chegou cedo demais?).

Portanto, a leitura conjunta de Niels Lyhne e A Teoria do Romance permite compreender melhor um momento de impasse para o romance enquanto gênero.

A memorável frase de abertura da Teoria do Romance, “Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina”, transforma-se, para Niels (em cujo céu não havia estrelas), na igualmente bela frase do parágrafo final de outra obra do “romantismo da desilusão”, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, do grande Lima Barreto:

 

“… olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos, os acontecimentos.”

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(artigo publicado em 14 de agosto de 2001)

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Na seção anterior, comentei a aguardada tradução do clássico Niels Lyhne (1880), do dinamarquês Jens Peter Jacobsen, no qual se narra como o personagem-título vai ficando isolado (as pessoas queridas morrem ou se afastam dele), a partir de uma inadaptação precoce à vida prosaica.

Aproveitei a oportunidade para festejar outra tardia versão brasileira: a da Teoria do Romance (1920), seminal ensaio sobre os gêneros literários. Nele, há um capítulo, “Romantismo da Desilusão”, no qual Niels Lyhne é expressamente mencionado. Faltou dar ao leitor uma idéia mais geral do livro de Georg Lukács.

Seguindo a trilha de Hegel, do romance como epopéia burguesa, herdeiro da épica antiga, Lukács procura caracterizar a civilização grega que deu origem às epopéias homéricas como uma “cultura fechada”, orgânica e homogênea. O herói da epopéia representava a comunidade e sua ação era sempre necessária e possível, pois não há separação entre interioridade e mundo exterior, entre necessidades internas e externas. Para citar apenas uma das inesquecíveis imagens criadas por Lukács com o intuito de caracterizar esse estágio civilizatório onde o mundo fazia sentido: “toda ação é somente um traje bem talhado da alma”.

A possibilidade e a necessidade de ação do herói no romance tornam-se problemáticas. Aliás, a própria psicologia do herói, o centro que move a trama romanesca, é problemática, pois ocorre a cisão entre sua interioridade e o mundo circundante, que já não faz mais sentido, transformou-se no mundo das convenções burguesas, inautêntico, “demoníaco”. Daí o hiato entre a interioridade do herói e a aventura, pois a alma se sente inadaptada e cindida:

“Descobrimos em nós a única substância verdadeira: eis porque tivemos de cavar abismos intransponíveis entre conhecer e fazer, entre alma e estrutura, entre eu e mundo, e permitir que, na outra margem do abismo, toda a substancialidade se dissipasse em reflexão; eis porque nossa essência teve de converter-se, para nós, em postulado e cavar um abismo tanto mais profundo e ameaçador entre nós e nós mesmos.”[1]

No início, a alma é menos vasta que o mundo à sua volta, caindo no “idealismo abstrato” (que começa com Cervantes e seu Quixote e culmina com Balzac e os heróis da Comédia Humana). No auge do século XIX, a alma inadaptada se sentirá mais vasta que os destinos que a vida tem para lhe oferecer. Temos, então, o “romantismo da desilusão”, muito bem representado por Niels Lyhne.

Para Lukács existem imperativos épicos no romance e justamente a problemática do “romantismo da desilusão” ameaça a estabilidade da representação da realidade (mimesis): a forma tende a se dissolver, da narração passa-se para a descrição lírica de “estados de espírito” e a fábula se metamorfoseia em análise psicológica.

Um dos aspectos mais interessantes do “romantismo da desilusão” é o fato de o herói geralmente ser intelectualizado, ou, mais freqüentemente, um indivíduo com aspirações artísticas, ao contrário dos guerreiros, cavaleiros e aventureiros da epopéia e até mesmo dos primeiro romances. O “retrato do artista” é sintomático numa era onde se abriu o já citado hiato entre interioridade e aventura; se esta é possível, apenas na imaginação e no sonho, a realidade não é mais capaz de suprir os requisitos para vivenciá-la. Fazer da existência uma “obra de arte” ou dedicar-se a um destino como artista são as soluções possíveis, porque, como sintetizou muito bem Milan Kundera, no seu A Arte do Romance,

“…o horizonte se estreita a tal ponto que parece uma clausura. As aventuras estão do outro lado e a nostalgia é insuportável. No tédio do cotidiano, os sonhos e devaneios adquirem importância. O infinito perdido do mundo exterior é substituído pelo infinito da alma. A grande ilusão da unicidade insubstituível do indivíduo, uma das mais belas ilusões européias, desabrocha.”

É o processo da existência de Bartolina, a mãe de Niels, que adora poesia e não encontra respaldo para ela no cotidiano. No seu estilo lapidar, Jacobsen a caracteriza com precisão:

“No fundo, não havia mais do que o desejo um tanto doentio de tomar consciência de si, a ambição de encontrar a si mesma, que tantas vezes se agita numa jovem de inteligência acima do comum”.

Quando, anos mais tarde, o filho a leva para sonhadas viagens, Bartolina se decepciona:

“Em sonhos e histórias imaginava as paisagens como na margem oposta de um lago, a névoa da distância envolvia sugestivamente os detalhes da realidade, grandes traços reduziam as formas a uma unidade ideal e o silêncio da distância ampliava o efeito do conjunto, tornavam tão fácil surpreender a beleza… Agora que ela estava no centro do quadro, e cada linha se acentuava diante dela, e produzia os múltiplos acentos da realidade, agora que a beleza se dividia como a luz através de um prisma, agora ela não conseguia fundir as suas impressões, não conseguiu transpô-las para o outro lado do lago… se sentia pobre no meio de todas essas riquezas de que não conseguia dispor.”

A fome de beleza de Bartolina contamina Niels: já que a vida não é “poética”, ele sente que só como poeta pode vivê-la e justificá-la. Esse “heroísmo” que restou na burguesia, e que –onde o ensaio de Lukács pára— domina certo tempo a ficção até que cheguem os tempos de Kafka,

“…o sonho sobre o infinito da alma perde sua magia no momento em que a História, ou o que dela restou, força supra-humana de uma sociedade onipotente, se apossa do homem…O infinito da alma, se existe, tornou-se um apêndice quase inútil…” (Kundera)

O tédio do cotidiano já não transforma, então, ninguém em poeta. No máximo, num inseto. E Niels Lyhne passa a se chamar Gregor Samsa.


[1]Henry James, no seu ensaio sobre Flaubert, de 1902, já intuiu isso perfeitamente ao comentar a tragédia de Emma Bovary:

“As aventuras insignificantes de Emma Bovary são uma tragédia exatamente porque, em um mundo sem suspeitas, sem assistência e sem consolo, ela mesma tem que extrair o rico e o raro.”

 

27/04/2012

LINHAS TORTAS E TRÔPEGAS (O MAISTRE DE MACHADO)

“… raramente percorro uma linha reta…”  Ao escrever Viagens no scriptorium (Companhia das Letras, ver o post A austeridado do acaso aqui neste blog), Paul Auster, especialista em literatura francesa, não poderia obliterar a lembrança do clássico  Viagem ao redor do meu quarto (1794), o texto paradigmático na paradoxal junção da aventura e do sedentarismo. Tirando esse aspecto, evidenciado pelo título, Auster parece bem distante do universo de Xavier de Maistre, cujo livro — na tradução de Armindo Trevisan — tem  edição ainda em catálogo pela Mercado Aberto (há uma insuperável versão de Marques Rebelo, saborosamente intitulada Viagem à roda do meu quarto).

Viagem ao redor do meu quarto tem como pretexto o confinamento do narrador,  em Turim, por conta de um duelo, durante 42 dias (o número de capítulos): “Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro: a imensidade e a eternidade estão às minhas ordens”. Essa reclusão acarretada por um episódio passional reflete uma situação existencial mais precária: de origem nobre, ele é um trânsfuga da Revolução Francesa. Restaram-lhe os prazeres de um egotismo caprichoso e errático, que muito influenciará o defunto narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aliás, se Xavier de Maistre imitou o maravilhoso Tristram Shandy, de Laurence Sterne, Machado de Assis o imitaria em indisfarçáveis aspectos: a conversa constante com o leitor, os capítulos curtíssimos, a metalinguagem, as digressões, o uso satírico de teorias filosóficas (depois de anunciar um “sistema do mundo”, ele o apresenta num capítulo de três linhas, dizendo no que se segue: “…devo confessar de boa fé que não compreendo o meu sistema melhor do que todos os outros nascidos até hoje da imaginação dos filósofos, antigos e modernos; mas o meu tem a vantagem preciosa de estar contido em três linhas, por enorme que seja”) a galhofa alternando com a melancolia, a desfaçatez de classe para o julgamento das coisas do mundo (só alguém muito privilegiado poderia escrever: “E haverá, com efeito, algum ente tão infeliz, tão abandonado, que não tenha um reduto para onde possa retirar-se e esconder-se de todo mundo?”); ou seja, nesse clima de volubilidade e misantropia (misturada ao mundanismo: “não quero ser eremita senão de manhã; á noite, gosto de tornar a ver caras humanas. Os inconvenientes da vida social e os da solidão destroem-se assim mutuamente…”), pouco restou do tom essencialmente benigno e equânime, ainda que jocoso, da obra-prima de Sterne, possivelmente a maior narrativa do século XVIII. O texto é mais enxuto, menos prolixo, porém estamos num universo  rarefeito, seco e árido,  já a um passo da “volúpia do nada” pós-schopenhauriana experimentada pelo “herói” machadiano, e a léguas do talento abissal do nosso maior escritor.

Por isso, apesar do charme do texto, há uma reserva que persiste na leitura de Viagem ao redor do meu quarto (e da sua continuação, publicada em 1824, em pleno Romantismo, Expedição noturna ao redor do meu quarto).

O que não se pode negar é que de Maistre conseguiu o feito de alargar as fronteiras da literatura, trazendo o mundo da intimidade pessoal e a falta de intriga folhetinesca para o centro da narrativa, na exploração do seu quarto por 42 dias e no decorrer de uma noite (a “nova maneira de viajar que introduzo no mundo”). E há sempre as observações, se não exatamente sábias, certamente lapidares: “Não gosto das pessoas que são tão donas dos seus passos e das suas idéias, que dizem: ‘Hoje eu farei três visitas, escreverei quatro cartas, terminarei esta obra que comecei’. Minha alma é de tal modo aberta a toda sorte de idéias, de gostos e de sentimentos; recebe tão avidamente tudo o que se lhe apresenta!… Não há  gozo mais atraente, no meu entender, do que o de seguir a pista das próprias idéias…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de março de 2007, de forma ligeiramente modificada)

10/04/2012

A Europa e o iceberg

Dedico este post a Cássio Queirós

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 10 de junho de 1997)

A tragédia do Titanic está na moda novamente. Há filmes sobre o assunto a caminho, há um musical premiado na Broadway. Até mesmo a rainha dos best Sellers, Danielle Steel aproveitou o acidente trágico num de seus últimos caça-lágrimas&níqueis semestrais.

Em Cântico para a última viagem (no original, Salme ved Reinsens Lutt, traduzido por Sissel Cardona), de Erik Fosnes Hansen, o naufrágio ocorrido em 1912 é aproveitado de maneira inteiramente diferente. Aliás, a tragédia propriamente dita ocupa vinte das mais de quatrocentas páginas da narrativa. No romance do autor norueguês, o Titanic serve para reunir as trajetóriaa (e transformá-las em destinos) dos personagens principais, membros da orquestra do navio: Jason, o regente; Alex e David, os violinistas; Spot, o pianista, e Petronius, o baixista. Há, ainda, o francês Georges, que resume para os outros os mitos gregos da criação do mundo, e o irlandês James. Fica evidente, portanto, a intenção de Hansen de fazer um painel simbólico da Europa.

Cada uma das histórias dos membros da orquestra do Titanic exemplifica uma das mais fecundas tradições do romance europeu: o romance de formação. E cada um deles, seja em Londres, em São Petersburgo (Leningrado), em Viena, nas cidades italianas, no interior da Alemanha ou em Paris, vai se confrontar com as escolhas individuais e com as fatalidades exteriores, constatando que as escolhas não são tantas assim.

Por meio dessas trajetórias, os grandes temas do romance europeu (a questão da liberdade individual, da procura do sentido da vida, em meio a uma organização social que não tem sentido algum; a solidão; a morte) são articulados para produzir a grande ironia: no final, a Europa pré-Primeira Guerra Mundial naufraga com seus representantes no Titanic. Um pouco como A montanha mágica, a obra-prima de Thomas Mann, Cântico para a última viagem concentra a discussão sobre o fim do mundo europeu anterior à conflagração de 1914 num único espaço simbólico.

Hansen vai preparando o grande tema do naufrágio e da morte coletiva (e ao mesmo tempo tão solitária) com as referências à arca de Noé e às barcas da peste (que aparecem na história de Jason) e a Ícaro, que sonhou com o sol e acabou afogado no mar por sua excessiva ambição (na história de Spot). Isso sem contar o afogamento da garota que fica grávida de Jason, incidente que nos mostra o desamparo individual frente a uma organização social cristalizada e indiferente. O próprio Jason tem uma prefiguração de seu destino, muito tempo antes de embarcar como regente da pequena orquestra do malfadado Titanic:

Não podia negar: vivia num bairro pobre. Talvez ele já fosse um dos muitos sem-rosto, mas não tinha sido essa a intenção. Pensava no pai e na mãe; certamente haviam imaginado algo melhor para ele. Sim, era um dos sem-rosto. Se fosse aquela noite até a ponte de Waterloo e se desaparecesse nas fortes correntes do Tâmisa, o que teria significado? Nada, nem para Deus, em quem não acreditava, nem para as pessoas, nas quais em momento de tristeza ele também não acreditava”.

Essa oscilação entre a aguda percepção de ser uma individualidade e, ao mesmo tempo, a constatação da insignificância da individualidade, do nada que a gente é, também permeia a trajetória de Spot:

Relembrava, e pensava, e sabia que ele próprio não significava nada, que não era ele. Ao fim e ao cabo, não existia”.

Nesse sentido, a história de Alex, o russo, vai configurar a voluntária supressão da liberdade individual em favor de um líder carismático, o deixar-se ir pela vontade de outro (que, na história européia, acarretará as conseqüências terríveis que conhecemos): ele cai sob a influência de um contorcionista, líder de uma quadrilha…


Como se pode ver, há muita coisa em Cântico para a última viagem. Erik Fosnes Hansen escreveu um livro talentoso. Tinha 25 anos, ao publicá-lo em 1990. Por isso, podem ser perdoadas certas falhas. Entre elas, as que mais atrapalham a leitura são as explicações didáticas de temas complexos, míticos ou filosóficos, em particular, a explicação da Teogonia, de Hesíodo, ruim e forçada, numa espécie de “simplificação para jovens” (ou para o leitor mediano) que, se o livro tivesse sido publicado antes de O mundo de Sofia, poder-se-ia imputar a ele uma influência de Jostein Gaarder. Há também partes bem fracas do livro, como os diálogos de Jason com a menina que depois se suicida ou o início da segunda parte, por exemplo; e há um recurso que o autor utiliza, como se estivesse conversando com os personagens (ou eles consigo mesmo), que é decididamente irritante, cafona mesmo 1:

Esta noite você sonha com ela, David. Ela sonha com você? Estão sós. Não são mais vocês. São Você e Você. Vocês dois nasceram na luz. Agora Você e Você serão criados na escuridão”!!!???

Para não falar na nota final do autor, absurdamente pernóstica e desnivelada do tom do livro.

Cântico para a última viagem não é um A motanha mágica nem mesmo um E la nave va, de Fellini, ou um A nau dos insensatos, de Katharine Anne Porter. No final das contas, porém, Hansen conseguiu o feito primordial de qualquer escritor ou diretor cinematográfico: plasmar um mundo que nos envolve. E a possibilidade do fim do mundo em 2000, tão apregoada, um mundo onde alta tecnologia e miséria extrema convivem, uma possibilidade que torna todos os nossos pequenos problemas mesquinhos tão risíveis, faz com que todos nos sintamos num Titanic, onde grande eventos e miúdas preocupações terão o mesmo destino.

1 Vargas Llosa também é useiro e vezeiro desse recurso, mas o dilui na narrativa com tal habilidade que não chega a atrapalhar.

06/04/2012

Que falta fazem os camelos voadores!

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de abril de 1998)

     A história de Jesus Cristo já passou por várias revisões e interpretações. Frei  Betto resolveu recontá-la num romance, Entre todos os homens, visando extrair dos evangelhos um Jesus mais humano, anti-sectário, feminista e amigo das minorias, de forma a tornar sua mensagem válida para quem precisa de fé neste final de milênio.

    Para quem não tem fé, e não faz questão nenhuma de tê-la, Entre todos os homens torna a história de Cristo mais absurda do que já é, com um Deus que manda um filho encarnado como sinal de seu “pacto” com a humanidade e que faz esse filho ser martirizado e crucificado. Não havia um jeito menos mórbido e masoquista? Era preciso uma trama tão novelesca, com traições, negações e sinais divinos aleatórios?

     Se a história é estapafúrdia, pode-se aceitá-la de dois modos: pela crença mística ou admirando a beleza do texto bíblico. Os evangelhos, como outras passagens da Bíblia, são uma poderosa máquina fabulatória e geradora de interpretações.

    O grande pecado literário de Entre todos os homens é justamente o de anular a narrativa e impor a interpretação, empobrecendo terrivelmente a força do que tem para contar. Receoso, talvez, de deixar muitas lacunas e soar inconvincente, Frei Betto nos descreve os hábitos alimentares, as paisagens da Palestina, os meandros da lei judaica praticada pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém, aos quais Jesus desafia. Ótimo, ele nos proporciona a verossimilhança histórica. Mas, por que cargas d´água ele coloca na boca de Jesud um tom de missa católica, que faz com que várias passagens soem involuntariamente cômicas?  Não é um Jesus verdadeiro, mesmo sendo um personagem, não é um homem de ação e palavras que vemos diante de nós, se se pode dizer assim, mas um Jesus domesticado pela doutrina católica, só um pouquinho  “modernizado” por um discurso politicamente correto, um Jesus pós-Leonardo Boff, que talvez assuste os católicos mais tradicionais (porque os há ainda), contudo parece tímido e débil depois do atormentado Jesus de A última tentação de Cristo (1956), de Kazantzakis, com seus dilemas dostoieviskianos, ou então, do hiper-humanizado Jesus de O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991), de Saramago, obras que conseguiram o milagre de questionar o Novo Testamento, mantendo-se num tom de linguagem tão elevado quanto o dele.

      Por causa da chocante ruindade do texto de Frei Betto, o que emerge de Entre todos os homens é um Cristo medíocre e acadêmico. Imaginem que ele chega até a explicar suas parábolas e analogias, como se o autor duvidasse da inteligência do leitor. Após ter dito (a respeito dos sacerdotes do Templo e seu apego mais à letra da Lei do que ao seu espírito): “Não se deve pôr remendo novo em roupa velha, porque o remendo repuxa a roupa e o rasgão torna-se maior. Nem se coloca vinho novo em odres velhos, caso contrário, estouram os odres e o vinho entorna. Vinho novo se guarda em odres novos; assim, ambos se conservam”… apesar do uso das aliterações, esse “Jesus de papel”  conclui, como se fora um professor universitário dos nossos tempos: “Minha proposta não cabe no estreito gargalo do judaísmo tradicional”!!?? Que Cristo é esse? ! Que saudade do  texto bíblico e suas arestas!

      Essa banalização interpretativa atinge todos os estratos da narrativa. Basta ver a explicação para o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Frei Betto resolveu explicar o milagre. Não deveria, pois o leitor não seria obrigado a ler a seguinte passagem: “Falaram em multiplicação? Essa gente enxerga camelos voadores onde só vejo pardais.  Não te deste conta de que multiplicar é prestidigitação e que o Mestre não faz mágicas? Havia ali muitos pães e peixes, trazidos pelos comerciantes dos povoados vizinhos ao verem se juntar tantas pessoas. Jesus não pronunciou nenhuma palavra cabalística sobre uns poucos pães e peixes fazendo aparecer, ao lado, uma casa de pão e uma banca de peixe. Operou, sim, um milagre.  Não o da multiplicação, mas o da divisão., raiz de toda justiça.  Levou aquela gente a repartir os pães e  os peixes que trazia consigo“!!??

    Teria sido melhor que Frei Betto tivesse, ao escrever Entre todos os homens, enxergado camelos voadores e não os pardais nesse seu vôo raso pela ficção. Não teríamos essa mixórdia que mistura a doutrina católica com a aspiração socialista e acaba endossando, da forma mais implausível, uma ideologia do sofrimento, do martírio e da negação de si mesmo.

25/03/2012

A coroa sem louros da vida de Antonio Tabucchi

Os três últimos dias de Fernando Pessoa, de Antonio Tabucchi, é caracterizado como um “delírio”, pois narra as aparições que os heterônimos (as personalidades poéticas que Pessoa criou: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares) fazem ao poeta português que está para morrer num hospital em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, devido a uma crise hepática (causada pelos excessos com a bebida).

        Há uma  linha de narrativas que se concentram nos derradeiros momentos de um criador: Hermann Broch escreveu o romance fundamental sobre a agonia do artista diante do fim: A morte de Virgílio (1945). Outras variações que não fizeram feio perto da obra-prima do autor austríaco  são O ano da morte de Ricardo Reis (1984), de José Saramago, Memorial do fim  (1991), de Haroldo Maranhão, e até podemos mencionar Os últimos dias de Charles Baudelaire (1988), de Bernard-Hénri Lévy.

        Como fica Os três últimos dias de Fernando Pessoa nessa linhagem? Fica mal, leitor. O livro de Tabucchi só é perdoável se imaginarmos que ele quis fazer uma apresentação didática de Pessoa, adotando a forma de narrativa, para leitores não-conhecedores da língua portuguesa. Se o que ele pretendeu fazer foi uma narrativa original o negócio muda de figura e o texto se torna um desastre de mediocridade.

        Nos seus Cadernos de Lanzarote, entre um e outro auto-elogio, José Saramago ataca o autor italiano (que ainda não publicara Os três últimos dias): “Tabucchi não me perdoará nunca ter escrito O ano da morte de Ricardo Reis. Herdeiro, ele, como faz questão de se mostrar, de Pessoa, tanto no físico quanto no mental, viu aparecer nas mãos de outrem aquilo que teria sido a coroa  de sua vida, e se tivesse lembrado a horas e tivesse a vontade necessária”.

         Pois bem, Tabucchi resolveu ter “a vontade necessária” e encarar ficcionalmente pessoa. O resultado, porém, dificilmente poderá ser considerado “a coroa da sua vida”. Enquanto O ano da morte de Ricardo Reis é um  livro inventivo e original, que faz o heterônimo Ricardo Reis sobreviver ao seu criador (que lhe aparece como fantasma, numa maravilhosa inversão), Gli ultimi tre giorni di Fernando Pessoa (traduzido por Roberta Barni) , de 1994, parece colocar Pessoa como o Nóbrega de A praça é nossa recebendo convidados que já têm os seus cacoetes cômicos estereotipados e previsíveis ad nauseam.Álvaro de Campos aparece para o seu criador e diz “todas as cartas de amor são ridículas” e aí somos obrigados a dar a mão à palmatória para Saramago. Suas afirmações não eram maledicência competitiva. Existe coisa mais óbvia, clichê e chinfrim em se tratando de Álvaro de Campos? Dá para imaginar qualquer um com cultura de almanaque reconhecendo esse verso e dizendo : ah, isso aí eu conheço.

        Alberto Caeiro, por sua vez, diz que só falou “do tempo que passa, das estações, dos rebanhos”, enquanto Ricardo Reis afirma que “em todas as minhas poesias entrelacei coroas de flores para Neera e Lydia”, como uma Catifunda bucólica. Bernardo Soares, o autor do extraordinário Livro do Desassossego, por sua vez, serve uma dobradinha à moda do Porto ao moribundo porque, é claro, há um poema em que Pessoa diz que ela certa vez “lhe foi servida fria, como um amor frio”. Só faltou “o poeta é um fingidor”.

      A única coisa insólita e inesperada do “delírio” parcamente imaginativo de Pessoa/Tabucchi aparece no detalhe engraçado do papagaio a quem ensinam a falar os versos belíssimos (mas também já tão citados que nos parecem até convencionais) de Tabacaria. “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer nada”.

          Fernando Pessoa sobreviveu a tanta coisa, sobreviveu ao monte de bobagens que desencavaram no seu baú, que ele mesmo diz, no texto “estar cheio de gente, os personagens mal cabem lá dentro”. Como se sabe, ele só publicou um livro em vida, o esotérico Mensagem (que eu acho particularmente chato e pomposo), e boa parte da sua produção veio à luz devido aos responsáveis pelo (e estudiosos do) seu espólio, que quase espoliaram sua imensa estatura artístico-intelectual, publicando coisas inomináveis, das quais ele decerto teria vergonha, como aquelas “quadrinhas” ao gosto popular:

 

O manjerico comprado

Não é melhor que o que dão

Põe o manjerico de lado

E dá-me o teu coração.

        Pessoa sobreviveu até mesmo à provação de ser declamado por Maria Bethânia (e olhe que isso já um feito de sobrevivência homérico). Certamente sobreviverá a Tabucchi.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 24 de junho de 1997)

21/03/2012

O que o diabinho sussurrou em meus ouvidos sobre O SOL TAMBÉM SE LEVANTA ou O romance broxante de Hemingway

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de maio de 2001)

“Há em nós um diabinho a sussurrar sempre em nossos ouvidos:  ´gosto´, ´detesto´, e não podemos silenciá-lo”.

As palavras de Virginia Woolf servem para justificar um pouco este artigo que se dedicará a mostrar como seu autor passou a detestar um romance do qual já gostara muito, O sol também se levanta (The Sun also rises, EUA, 1926, em tradução de Berenice Xavier), que está completando 75 anos e ganhou  reedição pela Bertrand Brasil.

Quando eu era bem novo, algumas obras-primas foram norteadoras de um gosto para a alta literatura: o já referido O sol também se levanta; A morte em Veneza (Thomas Mann); Gargalhada na escuridão (Vladimir Nabokov, atualmente mais conhecido como Riso no escuro); O estrangeiro (Albert Camus); A metamorfose (Franz Kafka). Com exceção do romance de Ernest Hemingway, todos permaneceram como objeto de admiração cada vez mais intensa.

Como se sabe, com esse romance e com seus contos, Hemingway “renovou” a literatura: estilo despojado, diálogos diretos, narração calcada em sensações e ações dos personagens. Renovação que, a meu ver, ficou irremediavelmente datada: tudo parece velho e desbotado. Causa espanto um crítico da perspicácia de Harold Bloom, no seu Como e Por que Ler afirmar que é o seu “único romance que permanece atual” !!!!??? Hoje em dia, quando se constata a vitalidade e força da ficção de Faulkner e Fitzgerald, como Hemingway parece defasado. E até na área do conto, sua praça-forte, por assim dizer, como perde longe para uma Dorothy Parker ou um John Cheever, por exemplo.

O sol também se levanta é narrado por Jake Barnes, um americano da “geração perdida”, isto é, aquela que participou da Primeira Guerra Mundial, e que se tornou um expatriado boêmio em Paris. Ele ama Brett, ela o ama, mas tem que traí-lo com vários homens, incluindo um judeu candidato a escritor e um jovem toureiro, porque Barnes ficou impotente em função de um ferimento de guerra. O leitor não pode imaginar como é chata, banal e piegas a lengalenga sentimental que envolve Barnes & Brett, sem contar a constrangedora comicidade que decorre da relação entre o “problema” do narrador e um título onde se coloca a expressão “também se levanta”!!!??? Do jeito que as coisas se passam, é apenas o sol que o consegue.

Mas Hemingway é assim mesmo: cafona, com uma inclinação para o sentimentalismo patético e um pé no ridículo. Eu já deveria ter percebido isso na época em que li o romance pela primeira vez, numa edição da Abril Cultural, que apresentava Jake Barnes com uma pérola kitsch: “touro ferido, incapaz de viver a sua própria fiesta.

E por falar em fiesta, Barnes e um grupo de amigos vão para Pamplona para assistir a touradas. E O sol também se levanta deixa de ser apenas um livro vazio e meio piegas, apoiado num estilo que já cumpriu o seu papel histórico. Torna-se detestável e desprezível.

Tirando o fato de que só pessoas estúpidas podem se interessar (e ainda mais, serem aficionadas), como Barnes,  por eventos como touradas ou farras-do-boi, ou rodeios, enfim, qualquer espetáculo onde se maltrata gratuitamente um animal, o repugnante no livro de Hemingway é que elas e Pedro Romero (o toureiro) são descritos como os únicos momentos de autenticisade e força vitl que a inútil “geração perdida” é capaz de experimentar. Tanto que  o forçado relacionamento amoroso entre Brett e o judeu Cohn é logo desmascarado em sua artificialidade; a amada debiloide do narrador logo, logo se aproxima do belo e jovem toureiro e inicia outra ligação que nos obriga a aturar  parvoíces do tipo: “Pedro Romero, porém, possuía grandeza. Gostava de tourear e creio que amava os touros e que também amava Brett”!!!??? (que bom pra ela, não?); ou ainda (depois que o galã mata o seu touro): “Romero recebeu do irmão a orelha do animal e ergueu-a para o presidente. Este se inclinou e o toureiro… aproximou-se de nós, inclinou-se sobre a barreira e entregou a orelha a Brett. Sorria. A multidão o rodeava e Brett deu a sua capa. Gostou, perguntou-lhe Romero. Brett não disse nada. Olhavam um para o outro e sorriam. Brett conservava na mão a orelha do touro”!!!!!????

O sol também se levanta está saindo mais ou menos em conjunto com Verdade ao amanhecer, um manuscrito inédito de Hemingway (que morreu, deixando em suas gavetas, inomináveis baboseiras do tipo As ilhas da  Corrente, que quase veio a ser a causa do óbito de quem aqui escreve, vitimado por um tédio mortal) que foi “trabalhado” pelo seu filho!

Além das muitas razões para se repudiar esse “trabalho” póstumo, eu não lerei o  livro por tudo o que se escreveu acima. Se um trabalho no auge da juventude e da força literária revela-se intragável, quase ilegível, imagine-se um produto da decrepitude e da esterilidade criativa. A cruel verdade ao amanhecer: o sol já não mais se levantava para um touro ferido, incapaz de viver sua fiesta como escritor.

MAR MORTO

(resenha publicada em primeiro de agosto de 2000, em A TRIBUNA de Santos)

O velho e o mar (The old man and the sea) está de novo nas livrarias. A Bertrand comprou os direitos dos livros de Ernest Hemingwaye abrasileirou um pouco mais a tradução de Fernando de Castro Ferro que há anos circula por aqui. Ela já fora revista em edições anteriores (por José Baptista da Luz),mas desta vez procedeu-se a um sutil trabalho de pequenas e decisivas mudanças, de forma a tirar o ranço excessivamente formal e lusitano, que pouco tinha a ver com o famoso estilo Hemingway. Quem ler a nova edição terá a sensação de estar diante de um novo texto em português, mais ágil e moderno, apesar de terem permanecido ainda algumas soluções forçadas e infelizes.

A história é aquela já bem conhecida: Santiago é o velho pescador cubano que se tornou azarado, não conseguindo apanhar um peixe há 84 dias e que sobrevive graças à devoção de Manolin, guri que a princípio o ajudava na pesca e que foi obrigado a trabalhar em outro barco, por ordem paterna.

No 85º dia, Santiago afasta-se muito da costas e acaba pescando um peixe enorme (cinco metros e meio), maior até que seu barco. O peixe demora para morrer, arrastando-o, e ele se afasta mais e mais no alto mar. Quando consegue matá-lo, é obrigado a rebocá-lo, pois ele não cabe na embarcação. Na longa volta, os tubarões começam a devorar o peixe e, ao atracar, só resta a carcaça…

Muito antes disso, porém, é antecipada a moral da história: “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado”. Apesar de saber vã a luta com os tubarões, Santiago não deixa de lutar, segundo a sua filosofia:

Vou mostrar-lhe o que um homem pode fazer e o que é capaz de agüentar… As milhares de vezes que já o demonstrara não significavam nada. Agora ia prová-lo de novo. Cada vez era uma nova vez e, quando o estava fazendo, o velho nunca pensava no passado”.

Hemingway chega ao mau gosto, quase ao kitsch (que, aliás, ameaça o livro inteiro, se é que não o afoga), de associar a figura de Santiago à figura de Cristo, fazendo a caminhada do velho à sua cabana, carregando seu mastro, lembrar as estações da via crucis:

Recomeçou a andar e, no topo da rampa, caiu no chão e ficou deitado durante alguns momentos com o mastro ainda nos ombros. Tentou levantar-se. Mas era esforço excessivo e ficou sentado com o mastro nos ombros… finalmente pôs o mastro no chão e levantou-se. Tornou a pegar no mastro, pô-lo aos ombros, e começou de novo a caminhar. Teve de sentar-se cinco vezes antes de de chegar à cabana”.

Toda essa crucificação simbólica fica ainda mais incômoda se lermos O VELHO E O MAR numa chave mais biográfica, como um registro cifrado da carreira literária de Hemingway. Quem achar que tal aproximação biografia-obras é um exagero, basta atentar para a reiteradíssima referência aos sonhos de Santiago com os leões (a última frase do texto é: “O velho sonhava com leões”). Quando nos damos conta de como o nome e a lenda de Hemingway são ligados às caçadas, aos safáris na África, fica mais fácil decodificar essa presença onírica na vida de um pescador cubano que, fora isso, permaneceria um tanto deslocada.

Quando publicou O VELHO E O MAR em 1952, Hemingway era um escritor praticamente acabado, que vivia de glórias passadas. O seu azar literário durou bem mais do que os 84 dias do velho Santiago. Seu último sucesso fora o romance Por quem os sinos dobram, em 1940, e é muito difícil afirmar que seja um grande livro, principalmente comparado à sua obra-prima, Adeus às armas (1929). Em 1950, lançara um romance ridículo e constrangedor, Do outro lado do rio, entre as árvores. Portanto, Hemingway literalmente vivia de fama.

Conheço todos os truques”. Esta afirmação do velho Santiago pode muito bem definir a empreitada que é o texto. Um velho escritor que já foi um mestre (Hemingway é um dos mais influentes autores do século XX, isso ninguém pode negar), e que tem um estilo e uma temática inconfundíveis. Um personagem numa situação-limite, enfrentando obstáculos primevos e insuperáveis, vencendo espiritualmente, fazendo prevalecer a dignidade humana. Alguém pode imaginar um quadro mais irresistível? Qual a impressão que se podia ter? Não só o personagem triunfa, apesar de tudo, como também o velho escritor, Santiago Cristo Hemingway, apesar dos tubarões vorazes da crítica tentarem acabar com o peixão que ele pescou no mar (já meio raso) da sua criatividade combalida; e apesar de só restar, no fundo, a carcaça de uma grande obra artística, ele pelo menos teria a dignidade e o heroísmo da luta inglória.

Pois não é que essa estratégia piegas funcionou? Para muitos, Hemingway ressuscitou como escritor, e ele chegou a ganhar o Nobel em 1954 (em boa parte por causa de O VELHO E O MAR). Só que o passar foi evidenciando a lengalenga aborrecida que é a história do velho Santiago (que não difere muito da de um Rocky, um lutador, por exemplo). Mais que isso, foi evidenciando cruelmente como o texto, apesar de bem escrito, sem dúvida, não passa de uma pálida sombra da força com que o autor de Ter e não ter escrevia antes. Ele conhecia todos os truques, é certo, mas o leitor atento percebe logo que não passam disso, de truques, que a austera emoção, ou a comovente simplicidade, da narrativa não passam de pura apelação.

A prova de que O VELHO E O MAR não era uma ressurreição literária (apesar de todas as analogias narcisistas com a história de Cristo) e sim um último lampejo de esperança antes da agonia final está no fato de que Hemingway praticamente não publicou mais nada em vida que tivesse alguma repercussão: anos mais tarde, segundo o lamentável costume de remexer nas gavetas de escritores já mortos, publicaram uma maçaroca intragável chamada As ilhas da corrente, um projeto do qual, ao que consta, a remelenta história do velho Santiago fazia parte. Sob essa nova luz, O VELHO E O MAR ficou ainda mais com ar de carcaça, de algo que foi resgatado de um desastre geral, do mar morto.

15/03/2012

Entre a implicância e a admiração

 

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A NECESSIDADE DA RELEITURA

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 29 de dezembro de 2007)

    Na resenha da semana passada sobre  as obras-primas que chegam ao cinqüentenário em 2007, poderia ter  incluído  Ninguém escreve ao coronel. Muito mais destaque, porém, se deu na mídia ao longo dos últimos meses aos 40 anos de Cem anos de solidão, obra bem mais famosa de Gabriel García Márquez. E agora o centro das atenções é O amor nos tempos do cólera(“El amor en los tiempos del colera” ,em tradução de Antonio Callado) publicado originalmente em 1985, por causa da adaptação cinematográfica que me parece uma daquelas saladas internacionais, propiciando misturas que dificilmente ficarão digeríveis.

    O saldo de uma primeira leitura à época e que persistiu como impressão durante 20 anos era que se tratava de uma ladainha interminável, uma lengalenga narrativa redimida aqui e ali por micro-histórias notáveis. O clima de novelão e a cafonice de antemão estabelecida nas relações do trio central (Florentino Ariza que alimenta por 50 anos seu amor por Fermina Daza, esposa e depois viúva do médico Juvenal Urbino) estragavam o conjunto. Nessa visão negativa, também entrava certa implicância renitente com relação ao autor colombiano.

    Pois uma segunda leitura, e um pouco mais de experiência de vida, fizeram com que esse juízo crítico sofresse uma revisão. Ainda há coisas que me incomodam, desacertos entre este leitor em particular e o universo de García Márquez, ainda há um lado cansativo na empreitada de ir até o fim do livro. O que não se pode negar, a essa altura, é que O amor nos tempos do cólera é um livro admirável, na maior parte do tempo.

    Trata-se também de um excelente romance histórico no sentido mais legítimo, porque García Márquez não se propôs meramente a escrever sobre a passagem do século 19 para o 20 no Caribe: ele nos deu a mentalidade, a percepção, a linguagem da época, inclusive nos anacronismos de suas personagens, defasadas às vezes no quesito vestuário ou comportamento.

    É fascinante a maneira como a “flor” da civilização humana, o amor, no sentido de depuração, de sublimação, até mesmo de cosa mentale (Florentino cultivando sua devoção a Fermina, por exemplo, e bordando e rebordando o tema nas inúmeras correspondências que leva a cabo na trama), e todo o comportamento romântico, são contrastados o tempo todo com a materialidade quase nauseante do mundo, que se presentifica em epidemias e endemias, em falta de higiene, charcos, mangues, esgotos, cloacas, cheiros corporais, monturos, doenças venéreas (sem contar a decadência, o arrivismo, as hierarquias e hipocrisias), até chegar à grande sensação de “waste land” por conta da degradação ambiental que a mesma civilização que cultiva o amor deixou como rastro apocalíptico na natureza outrora exuberante, como se vê na grande viagem fluvial que fecha de forma brilhante a narrativa: É o pouco que nos vai restando do rio, disse o comandante. Florentino Ariza…percebeu que o rio pai, o Madalena, um dos maiores do mundo, não passava de uma ilusão da memória…em vez do emaranhado de árvores colossais que o assombrara na primeira viagem, havia planícies calcinadas, destroços de selvas inteiras devoradas pelas caldeiras dos navios, escombros de povoados abandonados de Deus… Em lugar da algaravia dos louros e do escândalo dos micos invisíveis que em outros tempos aumentavam o bochorno do meio-dia, só restava o vasto silêncio da terra arrasada.”

A má hora de García Márquez

    Confesso que nunca gostei muito de Gabriel García Márquez e já detestei Do amor e outros demônios. Não esperava, contudo, que Memória  de minhas putas tristes (“Memoria de mis putas tristes”, tradução de Eric Nepomuceno) fosse tão chatinho e que nele sobressaíssem as piores características do estilo do autor colombiano: a renitente cafonice das imagens e analogias e a insuportável maneira de caracterizar as personagens. Por exemplo, a mãe do nonagenário narrador, “a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade”. A noiva frustrada: “Tinha uns olhos de gata fujona, um corpo tão provocador com roupa ou sem, e uma cabeleira frondosa de ouro alvoroçado e cuja emanação de mulher me fazia chorar de raiva no travesseiro”. A empregada, jorgeamadianamente, tem “coxas suculentas”. A puta (nada triste) que o desvirginou: “ se chamava Castorina e era a rainha da casa… me apresentou  ao seu mundo de maldição e pecado”.

    Apesar de sua tendência monocórdica, cada vez mais acentuada, García Márquez tem a chamada “carpintaria”. É o elogio que se pode fazer quando um escritor é ruim ou comercial, mas funciona de alguma forma e não se tem nada melhor para dizer dele. É por isso que Memória de minhas putas tristes passa uma falsa impressão de texto perfeitinho e límpido, de “mestre”, quando na verdade é um produto kitsch, no qual se tem de agüentar trechos como aquele dos conselhos da ex-puta (nada triste) Casilda Armenta, para o nonagenário apaixonado pela menina virgem (será?) de 14 anos: “Vá correndo procurar essa pobre criatura mesmo que seja verdade o que dizem  os seus ciúmes, não importa, o que você viveu ninguém rouba…Acorde a menina, fode ela até pelas orelhas com essa pica de burro com que o diabo premiou você pela sua covardia e mesquinhez. De verdade, terminou ela com a alma:  não vá morrer sem experimentar a maravilha de trepar com amor.”

    A suposta virgem adolescente não tem voz na narrativa. O que importa é a fantasia pessoal do narrador, o vento de Eros que sopra na sua velhice murcha e apagada, um vento que pode também ser presságio da morte. Isso fica claro no seguinte trecho: “na penumbra do quarto imaginando Delgadina em sua vida irreal de acordar os irmãos,  vesti-los para a escola, servir o café da manhã, se houvesse o que pôr na mesa,  e atravessar a cidade de bicicleta para cumprir a pena de pregar botões” (pois a menina é uma operária).    Poderia ser um remexer emocionante da solidão e das suas emoções, mesmo descontada a repelente situação inicial, poderia ser um grande exercício de “embriaguez metódica”, como no fundo é toda descrição de paixão. Infelizmente, todo o pathos da narrativa é absorvido pelo clima de bolero, como confessa o narrador, melômano e crítico de música clássica: “Havia mudado o  velho rádio por um de ondas curtas  que mantinha sintonizado num programa de música culta, para que Delgadina aprendesse a dormir com os quartetos de Mozart, mas uma noite encontrei-o numa estação especializada em boleros da moda. Era o gosto dela, sem dúvida, e o assumi sem dor, pois em meus melhores dias eu também havia  cultivado os boleros com o  coração.  Antes de voltar para casa no dia seguinte, escrevi no espelho com o baton: Minha menina, estamos sozinhos no mundo.” García Márquez nos faz ficar com raiva de palavras como Amor, Coração, Alma, Ardor e afins. Nonagenário por nonagenário, é preferível a aridez implacável do narrador de Malone morre, obra-prima de Samuel Beckett.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA, de Santos,  em 10 de setembro de 2005)

19/02/2012

John Le Carré em meados da primeira década do nosso século

 

    Se fossem necessárias provas da sobrevida de John Le Carré com relação à Guerra Fria, que ele retratou tão bem, temos agora em 2005 uma adaptação cinematográfica importante de um de seus livros recentes, O jardineiro fiel (não seria melhor O jardineiro dedicado?)e um novo romance, AMIGOS ABSOLUTOS (Absolute friends, em tradução de Roberto Muggiati para a Record), no qual ele mostra seu dom de localizar os temas mais candentes no momento certo, no caso o clima de paranóia anti-terrorista semeado pelos EUA após os atentados do 11 de setembro.

    Qual o problema, então? Após escrever clássicos como O espião que saiu do frio & A garota do tambor, sem falar na série Smiley (Sempre um colegial & A vingança de Smiley, por exemplo), Le Carré patinou um pouco por pistas escorregadias, caso de A casa da Rússia & O gerente noturno, no processo de adaptação de sua ficção aos novos tempos. Aí veio o brilhante NOSSO JOGO (abordando o problema da Chechênia) e tudo indicava que ele atingira um patamar mais alto como escritor. O romance seguinte, O alfaiate do Panamá, foi aguardado (pelo menos por mim) com muita expectativa, revelando-se frustrante e marcando o “tom” dos seguintes (três, até agora): o acerto da temática, a narrativa pesada, arrastada, convencional, laboriosa. Nunca ruim, jamais! Lê-se com respeito, porém sem admiração ou surpresas, mesmo com as tradicionais reviravoltas nas tramas.

   AMIGOS ABSOLUTOS funcionará mais para quem não leu os romances da Guerra Fria de Le Carré: seu protagonista, Ted Mundy, é o inglês nascido no Paquistão e que nunca chega a adaptar-se à Inglaterra, preferindo estudar alemão e aventurar-se na Berlim ocidental no auge da contracultura e da contestação, no final dos anos 60, onde conhece Sasha, o responsável pelo título, dizendo (na página 119): “Você é meu amigo absoluto”, sabe-se lá por que, já que essa amizade nunca nos convence totalmente (na ficção recente, há histórias mais fortes de duplas de amigos, em que um leva o outro a conhecer aspectos digamos mais “radicais” da existência, basta lembrar de Leviatã, de Paul Auster, e O filho de deus vai à guerra, de John Irving).

   Ted e Sasha perdem contato até que ambos são cooptados como agentes do Serviço Secreto britânico, Sasha traindo a Alemanha oriental comunista.Mundy executará várias missões arriscadas do lado de lá do muro, passando-se por traidor também. E o leitor bocejará inúmeras vezes durante essa parte, excessivamente longa, que repisa algo já visto e revisto. E com o dilema típico do heróilecarresiano: ser e representar se confundem na mesma impostura (“não sabe mais que partes de si estão fingindo”).

    Perdem novamente contato, o muro cai, a globalização avança, um Mundy decadente tenta “se tornar real depois de muitos anos de fingimento” e agora é guia de museu, vivendo com uma turca e o filho dela. E Sasha reaparece, com uma nova proposta de trabalho mútuo e o leitor pensa, que bom, chegamos ao fundo da questão, o mercado armamentista que necessita de novos conflitos e guerras, como a  invasão do Iraque (apesar da retórica mentirosa que encobre os motivos reais), para expandir-se. Enfim, um novo colonialismo (devolvendo Mundy ao mundo que conheceu na sua infância). Só que sobrou pouco tempo, o livro está para acabarn e tudo fica muito rápido, confuso, insatisfatório, até inconvincente (Mundy e Sasha são tomados como terroristas fundamentalistas).

   O que mais irrita em AMIGOS ABSOLUTOS, afora seus personagens anódinos, é o aspecto “pesquisadinho” e cênico de cada local escolhido para a trama: seja o Paquistão ou cidades alemãs parece que saíram de um caderno de notas, nunca adquirindo a vida que sentimos nos maravilhosos romances de Graham Greene, independente do “exotismo” peculiar ao cenário.

  Le Carré parece ter sido acometido “pelo cansaço dos seus fantasmas da Guerra Fria: “Por favor, pensa. Já estivemos aqui. Já fizemos esse tipo de coisa. Na nossa idade não existem mais novos jogos a jogar”. Talvez, ao fim e ao cabo, só o cinema consiga salvá-lo, se não com a medíocre versão de John Boorman, outro cansado de guerra, para O alfaiate do Panamá, pelo menos com a vitalidade e juventude de Fernando Meirelles.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  22 de outubro de 2005)

14/01/2012

Mais Spielberg que Conan Doyle

   Em seu romance de estréia,  Mark Frost (entre outras atividades, colaborador de David Lynch no seriado Twin Peaks) confirma o imenso fascínio exercido pela era vitoriana: A lista dos 7  (The list of Seven,1993, em tradução de Raquel Mendes para a Record) transforma Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, em personagem (aliás, quando olhamos as fotos dele vemos que ele daria um ótimo Watson), reunindo-o a um agente da rainha Vitória, Jack Sparks (o qual apresenta vários traços de Holmes: o gênio dedutivo, o gosto pelo violino, o pendor para os disfarces, a dependência de drogas), a madame Blavatsky (a maior autora esotérica de todos os tempos) e a Bram Stoker (autor de Drácula, outro ícone vitoriano).

   Em 1884, Doyle—ainda jovem e obscuro—presencia vários assassinatos numa sessão espírita, conseguindo escapar graças a Sparks. Descobre, então, que era o verdadeiro alvo dos homicidas porque escrevera uma obra chamada “A Irmandade da Sombra”, na qual, além de plagiar um livro de Blavastsky, ainda por cima involuntária e casualmente denunciava as atividades conspiratórias de um grupo de respeitáveis pilares da sociedade britânica, com o fito de trazer ao plano físico (e dominar a Terra, claro) uma Entidade maligna, o Habitante do Umbral.

    Para tanto, os 7 utilizam mortos-vivos, frutos de experiências laboratoriais (claro) e muitos outros recursos poderosos. O grande vilão, entre eles, é Alexander, irmão de Sparks, que o persegue e a Holmes Reino Unido afora…

   A lista dos 7 lembra, a todo momento, outras obras literárias e filmes: a confraria conspiratória e as características da Entidade, sem falar nas analogias explícitas com o nazismo (Hitler chega a aparecer no final), lembram bastante os romances de F.Paul Wilson, como Renascido & Represália. Frost, portanto, reúne dois imaginários ainda muito atrativos: o vitoriano e o nazista, que mexem com coisas profundas e mal resolvidas da humanidade.

    Há, também, um caixão misterioso que é trazido numa embarcação, como em Drácula. E mais: quando Sparks & Doyle estão fugindo de Alexander passam por uma aniga estrada romana e o diálogo que entabulam lembra bastante a Trilogia de Merlin, de Mary Stewart. Sem falar nas tais implosões ectoplasmáticas que parecem ter saído direto de Os caça-fantasmas.

  Nada disso constitui problema, pois Umberto eco fez praticamente a mesma coisa com O nome da rosa. Sob esse ponto-de-vista “pós-moderno” A lista dos 7 funcionaria perfeitamente. A chave do sucesso do livro de Frost está no slogan da medonha capa: suspense e ocultismo na Inglaterra Vitoriana. Porém, mais do que um livro de terror ou um thriller (embora apresente doses maciças dos dois gêneros), ele lembra os filmes seriados de antigamente e aí surgem os problemas. Tudo é exagerado e aparece em profusão cansativa. Temeroso, talvez, dos momentos de vazio em sua narrativa de 400 páginas, Frost tornou o romance episódico, com pequenos momentos de suspense e expectativa em meio à narrativa geral. Isso tem o mesmo efeito amortecedor e monotonizante dos filmes de Indiana Jones, nos quais todo o “ritmo” era muito calculado, excessivo, espasmódico. Não se trata mais de rapidez narrativa, e sim de histeria.

   Apesar de incômodo, o exagero narrativo não chega a comprometer uma leitura descompromissada da homenagem de Mark Frost a Conan Doyle, mas ele fica aquém da realizada por um filme lindo e infelizmente pouco apreciado, O enigma da pirâmide, que também era atravancado pelos cacoetes spielberguianos. E não há nada mais diferente do mundo de Sherlock Holmes do que o do diretor da série Indiana Jones, cuja puerilidade contaminou tantos talentos.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de agosto de 1994)

Nota de 2012- Eu já não faria essa afirmação final de forma tão categórica. Quer dizer, penso ainda o mesmo de Spielberg, de quem nunca fui fã, mas eu não diria que o mundo de Conan Doyle é tão diferente assim.

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