MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/12/2011

Onze de dezembro de 2011: o centenário de Naguib Mahfouz

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de março de 2004)

     Está acontecendo com o egípcio Naguib Mahfuz um fenômeno que atinge determinados autores no Brasil: ignorado durante décadas, com poucas obras traduzidas (a trilogia formada por Entre dois palácios, O palácio do desejo e O jardim do passado e o pequeno romance As codornas e o outono), recentemente começou a figurar no catálogo de várias editoras. Por exemplo, a Record vem lançando obras do início da sua carreira, voltadas para o passado do Egito (O jogo do destino, A batalha de Tebas). Já a Berlendis & Vertecchia, por sua vez, colocou em circulação uma obra mais madura, de 1967, MIRAMAR, a qual deve ter pesado consideravelmente na premiação de Mahfuz com o Nobel em 1988. Depois de ler esse romance (na tradução de Safa Abou Chahla Jubran), é impossível não reconhecer que ela foi justíssima.

São quatro os narradores, todos eles pensionistas: da senhora Mariana, num edifício sobre o café Miramar, em Alexandria. O octogenário Amer Wagdi é um jornalista famoso, cujo final de vida é melancólico (“Parecia ter plena consciência do esquecimento e da ingratidão dos homens”): as reviravoltas políticas transformaram-no numa espécie de peça de museu respeitada e no entanto posta de lado, num país onde “não valorizam um homem a não ser que seja um jogador de futebol” (nós, brasileiros, conhecemos bem isso, não?); os outros três (Hosni Allam, Mansur Bahi, Sarhan Al-Biheiri) são jovens que além de tentarem se posicionar no novo tabuleiro social pós-Revolução Nacionalista (no qual a melhor esperança, para aqueles que não são jogadores de futebol, é o cargo público—como também se vê em As codornas e o outono, de 1962—cujos ocupantes despertam inveja e sentimentos ambivalentes) têm em comum a atração pela empregada doméstica da pensão, Zohra, jovem camponesa, assediada por todos (embora de forma mais delicada por Mansur Bahi) e que se apaixona pelo inconstante, mulherengo e arrivista Al-Biheiri, que será assassinado após uma série de incidentes passionais na pensão da ex-cafetina.

Da maneira como Mahfuz estruturou MIRAMAR (Wagdi toma a palavra no início e no fim, com seu olhar compassivo e resignado), os fatos se repetem, mas sempre com lentes diferenciadas: determinada atitude que parece generosa para um pode parecer mesquinha para outro; um acontecimento pode ser trágico ou irrisório conforme passe por um crivo ou por outro; Zohra também muda segundo a visão e a expectativa. Cada narrador se desenha por inteiro através do seu próprio e tendencioso relato e quem leu as memórias de Simone de Beauvoir acaba por lembrar-se da narração do seu aprendizado da técnica da ficção: a manipulação da narrativa feita pelos próprios personagens: [pintando-a]”…tal qual desejava ser e tal qual era, eu conseguia exprimir essa distância de si para si que é a má fé”.

Nesse ponto, o único personagem que escapa dessa armadilha é o jornalista macróbio, e mesmo assim ele é impotente diante do desenrolar dos fatos.

Por outro lado, e principalmente tratando-se do mundo árabe, ainda que ocidentalizado em parte, é muito importante ler um romance que retrata com tanta força a estrutura social, onde os debates políticos atingem a medula da narrativa, de tal forma que nem a convivência íntima numa pensão decadente se aliena da tensão sócio-politica, acabando por se transformar num microcosmo do Egito. Quando se tem da civilização islâmica (há frequentes citações do Alcorão em MIRAMAR) apenas notícias envolvendo terrorismo, fanatismo, modos retrógrados de viver e pensar, é bom reajustar a ótica e ver que ali também há o quotidiano, as discussões e querelas que envolvem qualquer sociedade, os mesmos problemas que homens e mulheres, velhos e jovens, favorecidos e desfavorecidos pela mobilidade social, enfrentam em qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus.

Esse aspecto já tornaria necessária e recomendável a leitura de Naguib Mahfuz. A alta qualidade literária de uma obra como MIRAMAR a torna indispensável.

(resenha publicada originalmente  em  A TRIBUNA  de Santos, em  cinco de agosto de  2006, em função da morte de Mahfuz)

Mesmo depois que Naguib Mahfuz ganhou o prêmio Nobel em 1988 os brasileiros demoraram muito tempo para conhecer mais amplamente a força da obra do grande escritor egípcio, falecido nesta semana.

Os pioneiros, logo após a premiação, foram As codornas e o outono (1962), pequeno e esplêndido romance sobre as agruras de um funcionário público em meio a uma revolução nacionalista, e a Trilogia do Cairo (Entre dois palácios, O palácio do desejo, O jardim do passado), grande painel à moda realista, escrito e publicado nos anos 40/50.

Década e meia depois é que proliferaram os lançamentos que oferecem uma visão incompleta, porém bastante discernível, de uma obra multifacetada: a Record (responsável pela Trilogia do Cairo) vem lançando a série de romances histórico-folhetinescos do início da carreira (final dos anos 30) de Mahfuz, tramas mirabolantes que transcorrem num Egito Antigo com clima de novela das oito: é o caso de O jogo do destino , de A batalha de Tebas e de Akhenaton, o rei-herege . É incrível a fluência e naturalidade das narrativas. E muito antes que a história das mentalidades nos apresentasse o dia-a-dia de civilizações longínquas, Mahfuz já nos trazia personagens do passado monumental do seu país que não parecem meros hieróglifos animados, vivendo de forma retumbante e hierática. Pelo contrário, ele chegava a aburguesar a sociedade do Antigo Egito faraônico.

Outra incursão de Mahfuz no passado glorioso, por assim dizer, são as 17 narrativas de Noites das mil e uma noites  aproveitando o arquétipo supremo da arte de contar histórias.

Mas é preciso dizer que entre o que se publicou no Brasil, o melhor de Mahfuz está nas narrativas contemporâneas. O leitor talvez encontre dificuldade de encontrar os já esgotados As codornas e o outono e Trilogia do Cairo. Duas obras-primas ainda em circulação poderão convencê-lo: O beco do pilão (1947) e Miramar (1967).

O beco do pilão  é uma miscelânea de pequenas vidas na parte antiga do Cairo durante a 2a. Guerra Mundial, lembrando (e superando em delicadeza e destreza de toque) A colméia, do igualmente nobelizado Camilo José Cela.

Miramar (Berlendis & Vertecchia, R$ 44) tem quatro narradores, pensionistas da sra. Mariana: um jornalista octogenário e três jovens tentando posicionar-se no tabuleiro pós-Revolução (a meta ambicionada é o funcionalismo público). A catalisadora da ação é Zohra, jovem camponesa, assediada por todos. Os fatos se repetem, sempre com lentes diferenciadas: determinada atitude que pode parecer generosa para um pode revelar-se mesquinha para outro, um acontecimento pode ser trágico ou irrisório conforme passe por um crivo ou outro. Cada narrador se desenha por inteiro através do seu próprio e tendencioso relato; enfim, a convivência íntima numa pensão decadente se transforma num vívido microcosmo do Egito contemporâneo, onde, na verdade, surgem os mesmos problemas de qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus: homens e mulheres, velhos e jovens, favorecidos e desfavorecidos pela mobilidade ou imobilidade social.

E em qualquer lugar do planeta e sob qualquer deus, a obra de Naguib Mahfuz é indispensável.

09/10/2011

SE O SAL SE TORNAR INSÍPIDO… (Gide e o romance modernista)


“Nada é mais difícil de observar do que os seres em formação. Seria preciso observá-los apenas de viés, de perfil”. (Diário de  Édouard, em OS MOEDEIROS FALSOS)


       É preciso levar em conta o conceito clássico de pederastia (e não homoerotismo como se tem hoje em dia) para se entender boa parte da obra de André Gide, e especialmente sua realização mais ambiciosa, OS MOEDEIROS FALSOS, de 1925 -26 (não sei por que insistem em manter a troca de termos do titulo: por que não Os falsos moedeiros para Les faux-monnayeurs?), o único livro seu que considerava de fato um romance, e no qual ele procurou se alinhar à corrente mais ousada da ficção modernista (nessa década, foram publicados os romances póstumos e inacabados de Kafka, como O processo e O castelo; os derradeiros volumes de Em busca do tempo perdido, de Proust; Ulisses, de Joyce; A montanha mágica, de Mann; alguns dos maiores romances de Virginia Woolf, como Mrs. Dalloway e Ao farol; O lobo da estepe, de Hesse, e por aí vai…).


      A pederastia, apagando ardilosamente os traços de relação sexual, se investe de uma aura de educação sentimental: um jovem é atraído para a esfera de um homem mais velho para realizar mais plenamente suas potencialidades e seu destino. No livro de Gide temos dois adolescentes, Bernard Profitendieu (o qual se descobre bastardo logo no inicio do romance, radicalizando assim sua opção pela disponibilidade, outra palavra-chave no universo gideano) e Olivier, que são atraídos para a órbita de dois escritores, Édouard e Robert de Passavant. Estes últimos representam uma polarização quase maniqueísta: Édouard seria o pederasta benéfico, capaz de fazer um efebo dar (sem trocadilho) o melhor de si, e que conquista para a sua órbita primeiro Bernard (que depois pende mais para o lado heterossexual) e depois Olivier, na verdade o seu grande amor; já Robert de Passavant seria o pederasta mefistotélico, deletério, capaz de envolver Olivier numa teia de enganos e desvios, até que, após uma tentativa de suicídio, o jovem se purgue dessa experiência negativa e esteja pronto para embarcar num relacionamento com o tio (pois Édouard é meio-irmão de sua mãe), depois de vários desencontros (e artifícios romanescos, pois Gide brinca com a fabricação da sua trama)[1].



     Esse aspecto da educação sentimental dos jovens tem ainda a sub-trama dos falsos moedeiros  e a sub-trama dos membros da família Vedel  (na caracterização da qual entram elementos de má fé e auto-engano que logo depois reapareceriam nas obras de Sartre e Simone de Beauvoir, fiéis admiradores de Gide) que mantém um pensionato para jovens estudantes,  pelo qual passaram Édouard e o sobrinho, e no qual está Georges, o amoral e cínico irmão caçula de Olivier, o qual se envolve primeiramente num escândalo onde adolescentes estão ligados a uma rede de prostituição, freqüentando uma casa de encontros, e depois se associam a um falsificador (que é também um terrorista intelectual) que os orienta a “passar” moedas a comerciantes incautos (para realçar o lado charlatenesco, inclusive como literato, de Robert de Passavant, o aliciador e corruptor de jovens é seu amigo e colaborador,  Strouvilhou, cujo nome pela sonoridade lembra os personagens niilistas de Dostoievski como a turma de Os demônios; alias, justo por essa época, Gide, que admirava o autor russo, escreveu muito sobre ele).



     Portanto, a pederastia (que pode ser uma ligação perigosa, no sentido Passavant, convertendo-se numa “ilusão perdida”, ou uma educação sentimental e positiva, no sentido Édouard) e a disponibilidade  ( já trabalhada no engenhoso Os subterrâneos do Vaticano, de 1914), que representa a predisposição para enfrentar uma tradição burguesa hipócrita e esclerosada (embora não no sentido criminoso, como a turma de Georges, e sim mais no sentido “positivo”, ainda que incerto, de Bernard, como vemos no trecho seguinte: “Dentro de um instante, diz a si mesmo, irei de encontro ao meu destino. Que bela palavra: aventura!”).


         Gide admira a “pureza” das soluções artísticas do classicismo francês, especialmente Racine. De fato, a palavra pureza percorre todos os níveis do livro, inclusive os relacionamentos pessoais: é  por ser “impuro” eticamente que se reprova o caso de Olivier com Passavant, e não pela conotação sexual da história (daí a altamente improvável cena em que a mãe de Olivier, em diálogo com Édouard, aprova e dá carta-branca ao relacionamento do filho com o meio-irmão, por ser uma ligação “nobre”, que vai purificar o filho das tentações ruins e dos maus instintos). Por isso, Gide fez a experiência de um romance puro, totalmente artificial, fechado em si mesmo e cujo andamento da trama seria ditado pela própria forma, além de conter seu próprio comentário devido á feição metalingüística (o aspecto pelo qual o romance ficou mais famoso, sendo considerado uma obra paradigmática nesse sentido), já que acompanhando a trama (e talvez circunscrevendo-a) há um Diário de Édouard, no qual ele comenta a escritura de um romance chamado Os moedeiros falsos; não contente com isso, Gide publicou ainda, em 1927, um  Diário dos Moedeiros falsos, em que mostra os bastidores e a carpintaria do seu romance).:


“Purgar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance. Nada se obtém de bom pela mistura. Sempre tive horror daquilo a que se chamou a ´síntese das artes´, que devia, segundo Wagner, se realizar no teatro (…) A tragédia e a comédia, no século XVII, chegaram a uma grande pureza (a pureza, em arte como por toda parte, é isso que importa) –e, aliás, mais ou menos, todos os gêneros, grandes ou pequenos, fábulas, caracteres, máximas, sermões, memórias, cartas. A poesia lírica, puramente lírica – e o romance não? (não; não aumente excessivamente A princesa de Clèves; é principalmente uma maravilha de tato e de gosto…).


      E esse puro romance, ninguém  o produziu, tampouco mais tarde; não, nem mesmo o admirável Stendhal que, de todos os romancistas, é talvez o que mais se aproxima disso. Mas é notável que Balzac, ainda que talvez  o maior de nossos romancistas, seja seguramente o que mesclou ao romance e nele anexou, e nele amalgamou o maior número de elementos heterogêneos, e propriamente inassimiláveis pelo romance, de modo que a massa de um de seus livros permanece ao mesmo tempo uma das coisas mais possantes, mas também das mais turvas, mais imperfeitas e carregada de escórias, de toda nossa literatura”  (Diário dos Moedeiros falsos)[2]


      Talvez eu esteja equivocado e seja vítima de modismos (entre os quais, a superstição de acreditar que o vocabulário envelhece), mas creio que os conceitos com os quais Gide, ainda um homem do século XIX opera, tais como pureza e virtude, desfiguram as análises psicológicas e falseiam principalmente suas personagens femininas (aliás, creio que Gide simplesmente não entendia de mulher, e não apenas no sentido imediato que se pensaria).  Para ele, a mulher que se sacrifica, que se anula, é o supremo modelo de heroína, a mais admirável. Esse é um dos aspectos em que sua obra mais se mostra envelhecida.


      Por outro lado, há uma anotação do Diário dos Moedeiros falsos que me incomoda também: “O que falta a cada um de meus heróis, que talhei em minha própria carne, é aquele pouco de bom senso que me impede de levar tão longe quanto eles as suas loucuras…” Mas: a que loucuras chegam os heróis de OS MOEDEIROS FALSOS? O gesto inicial de Bernard (o qual continua sendo o personagem mais interessante do livro, passadas tantas décadas, junto com o irmão de Olivier, Georges) parece bem radical e transgressor, porém tudo se resolve de modo muito fácil para ele (que logo encontra um protetor em Édouard, e por isso o lastro rimbaudiano nunca é cumprido de forma cabal); o suicídio de Boris, engendrado pelos falsos moedeiros adolescentes, é dramático, decerto, contudo é um lance exigido pela narrativa (além de ser baseado em eventos reais); a tentativa de Olivier é pífia e diz muito do estofo dos heróis gideanos. Pode-se dizer, de um modo geral, que as aventuras são irrisórias. Isso não tira os méritos do livro, mas torna difícil acreditar que a ele, no romance, só interessa o épico (“por que me dissimular isso: o que me tenta é o gênero épico. Só o tom da epopéia me convém e pode satisfazer-me, pode tirar o romance de seu ramerrão realista”[3]). Pois ninguém é menos épico que monsieur Gide.


      No entanto, um dos elementos que não envelheceram no romance é a questão da sinceridade, tal como veiculada pelo Diário de Édouard, que já se inicia com um posicionamento à Fernando Pessoa: “Nada mais diferente de mim do que eu mesmo (…) Se me volto para mim, deixo de compreender o significado da palavra sinceridade. Nunca sou senão aquilo que acredito ser, e isso varia sem cessar, de modo que, frequentemente, se eu não estivesse aqui para aproximá-los,meu ser da manhã não reconheceria o da tarde (…) nunca me sinto viver com mais intensidade do que quando escapo de mim mesmo para me tornar qualquer um”. Mais do que a pureza, a virtude e a disponibilidade, o moderno em Gide é essa noção da descontinuidade do ser,  da agonia em fixá-lo numa forma, e portanto, a tentação que se oferece para o artista de se deixar levar por essa descontinuidade, rumo… a quê?




[1] Diga-se de passagem que é engenhosíssima a maneira de narrar (sem contar o fato de que o que o leitor lê é o que Bernard está lendo, pois se apropriou do Diário) os primeiros encontros com Georges e Olivier. Sem conhecer os sobrinhos, Édouard já conhece Georges numa atitude escusa e ambígua, que será a sua tônica na trama e preparará o clímax (o suicídio de Boris0 e ao mesmo tempo já deixa clara a preferência sexual de Édouard, que se torna manifesta na sua reação a Olivier (pois Laura é a mulher a ser amada  numa atitude de devoçãoe não de outra forma; vamos ser francos: que mulher é realmente amada no sentido de atração sexual em Gide?)


[2] Note-se que Gide se desvincula, desse modo, de uma tendência dominante e crescente, do romantismo (senão em Cervantes mesmo) ao pós-modernismo: a mistura, a heterogeneidade enciclopédica, que fizeram do gênero a mais vital entre as formas literárias pós-clássicas. Ele ratifica essas observações no Diário de Édouard: “Despojar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance (…) Os acontecimentos exteriores, os acidentes, os traumatismos, pertencem ao cinema; convém ao romance deixá-los para ele. Mesmo a descrição das personagens não me parece pertencer propriamente ao gênero. Sim, realmente, não me parece que o romance PURO (e em arte, como por toda parte, só a PUREZA me importa) tenha de ocupar-me com isso (..) O romancista, em geral, não dá crédito suficiente à imaginação do leitor” (OS MOEDEIROS FALSOS). Dentro da linha de raciocínio de Gide, que não me parece muito acertada,  talvez os romances mais “puros” já escritos sejam os admiráveis As asas da pomba, 1902, e A taça de ouro, 1904, de Henry James, que são o mais próximo das tragédias racinianas que a modernidade pôde produzir. Será que Gide os conhecia? Agora: tirando o feitio muito peculiar, e inimitável, de James, como se pode purgar o romance de todos os elementos que não pertencem especificamente ao romance? Que elementos pertencem especificamente ao romance? É a essa discussão que Gide se furta, e da qual faz  Édouard se furtar em seu diário, no romance.


[3] Acho mais pertinente a seguinte observação de Édouard: “A tragédia moral –que, por exemplo, torna tão formidável a frase evangélica: Se o sal se tornar insípido, com que se há de restaurar-lhe o sabor? –É essa tragédia que me importa.”


ANEXO:


    Já tinha lido há muitos anos o romance de André Gide, na tradução de Celina Portocarero (que saiu pela Francisco Alves, pelo Círculo do Livro e pela Abril Cultural). Nos últimos tempos, tanto o romance quanto o seu complemento-espelho saíram pela Estação Liberdade, em tradução de Mário Laranjeira. Abaixo vai a minha resenha da nova versão, em “A Tribuna”:


UM MARCO NA HISTÓRIA DO ROMANCE


     Uma das características marcantes do Alto Modernismo foi a metalinguagem, a reflexão, dentro da própria criação, do fazer artístico.  Uma das obras-primas no que se refere a essa vertente ganhou nova tradução: Os moedeiros falsos, um romance tão imitado que atualmente fica difícil discernir o que contém de transgressor e inovador.


     André Gide conta uma história e também apresenta o diário de um dos personagens, Édouard, refletindo a respeito do romance  escreve com o mesmo título. Não contente, ele desdobrou ainda mais seu texto, lançando um Diário dos Moedeiros falsos, onde escancara os bastidores da sua criação.


    Esse foi decerto o aspecto que mais chamou atenção à época, pois era um momento de vanguarda, de transformação (Ulisses, de Joyce,  A Montanha Mágica, de Mann, os livros de Proust, Kafka, Virginia Woolf..).


     Há um ingrediente que isola Gide de todos os seus parceiros revolucionários: enquanto boa parte deles procurava fundir elementos heterogêneos para a criação de um romance “total”, enciclopédico, o grande escritor francês foi em direção contrária: admirador das formas artísticas do século XVII, especialmente as tragédias de Racine, quis criar um romance “puro” (muitos consideraram artificial e estilizado demais), em que a lógica da narrativa fecha-se sobre si mesma, correspondendo apenas aos entrechoques dos personagens e ao andamento da trama, sem compromissos com qualquer realismo chão.


    Dois escritores rivais, na faixa dos 30 anos, Édouard e  Robert de Passavant, se apaixonam pelo filho da meia-irmã do primeiro,  Olivier, que é muito ligado a outro efebo, Bernard Profitendieu, o qual se descobre bastardo e abandona a família.


     Bernard é o representante de uma linha cara à obra gideana, o ser “disponível” a todas as experiências, que se recusa a se moldar numa forma. Por uma série de incidentes rocambolescos, acaba se tornando “secretário” de Édouard, o que desperta o ciúme de Olivier, que,em razão disso, é facilmente seduzido e corrompido pelo pérfido e cínico Passavant. Boa parte dos meandros da trama de se baseia nos desencontros entre Édouard e Olivier.


     O título, por sua vez, se refere tanto ao charlatanismo na arte, representado por Passavant, quanto a adolescentes (aliciados por um assecla de Passavant, Strouvilhou) que  fazem circular moedas falsas no comércio, entre eles o irmão mais novo de Olivier, Georges, pirralho completamente desajustado, já envolvido anteriormente numa confusão em que moçoilos de “boa família” estavam envolvidos com uma rede de prostituição.


     As tramas se entrecruzam graças à ligação da maior parte dos personagens com um pensionato para estudantes, pelo qual passaram Édouard, Olivier, e no qual Georges estuda nesse momento. Em meio a uma aula, instigado pelos falsos moedeiros, e vítima de um sorteio, um dos alunos estourará os miolos com uma pistola…


     Pois, como deixa bem claro Os moedeiros falsos, na forma e no conteúdo, a transgressão não só pode ser instigada pela necessidade de romper convenções falsas e sufocantes, mas também pelo “demônio”, assuma ele a aparência que for. E sempre tem seu preço.


(resenha publicada em 27 de abril de 2010)


08/10/2011

A(s) existência(s) de Joseph Knecht: o chamado da vida e a sabedoria

PRIMEIRA PARTE

 “O coração

A cada chamado da vida deve estar

Pronto para a partida e um novo início

Para corajosamente e sem tristeza

Entregar-se a outros, novos compromissos.

Em todo começo reside um encanto

Que nos protege e ajuda a viver…”

      O trecho é de um dos poemas de Joseph Knecht (cujo sobrenome significa servidor), protagonista de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO (Das Glasperlenspiel, 1943, traduzido pela dupla Lavínia Abranches Viotti & Flávio Vieira de Souza), de Hermann Hesse (1877-1962), que está saindo numa nova edição pela Record, aparentemente “revisada” (é o que alardeia a editora). Durante anos, eu esperei por esse acontecimento, uma vez que sendo ótima, antológica, essa tradução vinha há anos (desde sua publicação original pela Brasiliense) sendo reimpressa com vários erros, além de apresentar de cara um detalhe problemático: a transcrição dos nomes próprios: basta dizer que abrasileiraram Joseph Knecht para José Servo!

         Entretanto, na nova edição a capa continuou muito feia e poluída, os nomes próprios aparecerem grafados de forma discrepante ao longo do livro (vai ver só se deram ao trabalho de revisar o começo, afinal é um livro muito extenso), e vemos Johann Sebastian Bach virar João Sebastião Bach. Knecht continua Servo. Há omissões evidentes de palavras, trocas (doença por dança, táticas por tácitas, etc) e efetuaram uma divisão de parágrafos no mínimo suspeita. Só aqui e ali se constata uma efetiva e salutar revisão, como a mudança de Livro das Metamorfoses, como antes aparecia, para o título em uso na atualidade, Livro das Mutações, para designar o I-Ching. Só que é muito pouco para um romance dessa importância e para um lançamento caro.

         O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO é a obra máxima de Hesse e sintetiza sua filosofia de vida (principalmente pós-Demian): trata-se de uma apologia do que ele chama “despertar”, no sentido dos versos que abrem este artigo. No romance, por causa das guerras do século XX (chamado de era do folhetim) houve uma mudança global. Criou-se uma província pedagógica, aparentemente utópica, a Castália, para preservar os valores culturais verdadeiros! Lá são cultuadas a Matemática, a Música, a Astronomia, e também o Latim. A ciência e a arte são manipuladas através de uma prática esotérica e misteriosa, o Jogo de Avelórios.

         O narrador se resolve a contar a vida de Knecht a partir de sua indicação como um dos eleitos para viver na Castália, quando menino e órfão, de origem obscura. Ele se tornará, malgrado uma certa atitude outsider (vive um tempo com um sábio especialista na língua chinesa e no I-Ching), o Magister Ludi (Mestre do Jogo), porém romperá com o mundo da Castália e preferirá tornar-se um mero preceptor no mundo secular (há, porém, um final abrupto e estranho, logo no início da sua nova vida, perto dos 50 anos): “o seu caminho tinha seguido um círculo, uma elipse ou espiral, ou uma trajetória qualquer, menos uma linha reta, pois é evidente que a linha reta pertence apenas à geometria e não à natureza ou à vida”.

         Por que Knecht abandona Castália? Porque, antes de ser eleito Magister Ludi, viveu alguns anos como emissário da província num mosteiro beneditino e enfronhou-se no estudo da História (uma disciplina desprezada pelos seus confrades) com o Padre Jacobus, grande personagem que homenageia o historiador Jacob Burckhardt, assim como Thomas van der Trave, o Magister Ludi anterior à Knecht, nos reporta a Thomas Mann (nos anos em que escreveu o livro, Hesse acompanha também o desenvolvimento de José e seus irmãos, conforme podemos ver pela correspondência trocada entre os dois amigos, e por isso nada nos impede de ver no próprio nome Joseph/José, e na sua trajetória, que combina momentos de obscuridade e momentos de glória, descenso e ascensão, uma alusão ao herói bíblico da tetralogia, que foi completada com José, o provedor, publicado no mesmo ano de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, embora as associações na obra de Mann sejam mais procuradas noutra obra dessa fase tardia, Doutor Fausto, de 1947).

        Conhecendo melhor História (“estudar História significa entregar-se ao caos, conservando a crença na ordem e no sentido”), Knecht se dá conta de que Castália está encastelada numa existência alienada. Apesar de sustentada pelo mundo secular, procura se manter longe das lutas quotidianas e das grandes questões mundiais. Hesse faz, assim, uma contundente acusação à cultura humanística do seu tempo que não soube incorporar a práxis histórica, e se transformou numa cultura de especialistas. E que, no caso alemão, deu espaço para o nazismo e foi derrotada por ele.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 29 de abril  de 2003)

 

SEGUNDA PARTE

        Na seção anterior comentei os pontos discutíveis da nova edição  “revisada” de O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, e também o plano geral da obra e seu “corpo” principal, a biografia do protagonista, Joseph Knecht, o qual, após tornar-se o Magister Ludi, abandona a província pedagógica onde o jogo do título é praticado.

       Em Sidarta (1922), o narrador nos diz que o herói do livro teve a percepção do que, na verdade, significa a sabedoria: “Nada era a não ser a predisposição da alma, a faculdade, a arte secreta de conhecer a cada instante em plena vida a idéia de unidade, de sentir a unidade, de encher dela os pulmões”.

     Essa é a tônica das três belíssimas histórias que complementam O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO, além da história principal (que termina de um modo estranho, como se Hesse não tivesse a energia para inventar uma vida para Knecht pós-Castália) e de um conjunto de poemas.

    São três possibilidades de reencarnação de Joseph Knecht, uma no período pré-civilizatório (O conjurador da chuva), outra nos primeiros tempos do Cristianismo (O confessor) e outra numa Índia atemporal (A encarnação hindu). Não é à toa que o livro se fecha com esta última, uma vez que é no pensamento oriental, com sua consciência da impermanência e transitoriedade de tudo (e mesmo assim uma noção de unidade, e não de fragmentação), que Hesse encontra saída para o impasse da razão ocidental, para sua tendência à petrificação e perpetuação.

     Mais ainda, todos os caminhos para o despertar individual só podem ser experimentados, jamais ensinados ou doutrinados. Sabedoria que encontra eco num dos filmes mais importantes do nosso tempo, Matrix, no qual Morfeus diz a Neo, o Escolhido, “cedo ou tarde você vai perceber, como eu, que há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrê-lo”.

      Em O conjurador da chuva, Knecht é uma espécie de feiticeiro de uma tribo (cuja linha de poder é matriarcal). Sua função: dominar fenômenos da natureza para propiciar a colheita e a prosperidade da aldeia; caso contrário, seu destino é a imolação. É magistral a maneira como Hesse nos mostra Knecht-conjurador (apesar de guiado “mais pelos sentidos do que pelo intelecto”) como ancestral da pesquisa científica, embora algo tenha se perdido pelo caminho: “…aspiravam à mesma meta da ciência e da técnica dos milênios posteriores, ao domínio da natureza e ao manejo de suas leis”, entretanto “não se separavam da natureza nem tentavam descobrir seus segredos à força, nunca se contrapondo a ela ou lutando com ela. Continuavam parte integrante da natureza, com inteira e devota entrega de si próprios”. É assim que se pode fazer jus à condição de conjurador do tempo: “Em períodos de puríssima concordância e harmonia anímica, ele trazia no seu íntimo o tempo dos próximos dias, com exatidão e sem perigo de erro, prevendo-o como se trouxesse no sangue a partitura a ser tocada lá fora”.

         O confessor, por sua vez, ao discutir o problema da alteridade, quase nos coloca no universo de Borges (assim como um os poemas de Knecht, Um sonho, no qual um bibliotecário vai desfazendo o que se lê nos livros catalogados). Dos três, é o meu favorito pessoal, e um dos supremos momentos de Hesse. Mostra como um latinizado Knecht (Joseph Flamulus), anacoreta do deserto que ouve sem julgar os pecados dos penitentes, cansa-se da sua condição e resolve procurar Dion, outro confessor, o qual age de forma oposta, anatematizando os penitentes. E é o suposto confessor rabugento que dirá para Flamulus as seguintes e inesquecíveis palavras, das quais Dostoievski teria orgulho: “Nós é que somos pecadores propriamente, nós que sabemos e pensamos, que comemos da árvore do conhecimento (…) não somos nunca inocentes, somos pecadores perpétuos, morando no pecado e no incêndio de nossa consciência (…) Nós não estamos nos ocupando deste ou daquele desvio ou prevaricação, mas continuamente com a própria culpa original. Por isso é que um de nós só pode assegurar ao outro que está a par do que se passa e que o ama como irmão”. Hesse já criara, em 1930, uma elegante e bela coincidentia oppositorum, em Narciso e Goldmund, um dos seus melhores livros. De qualquer forma, quem ler a narrativa, verá que solução genial é encontrada para o dilema de Flamulus.

       A encarnação hindu distingue-se de Sidarta porque o personagem não é um buscador da Verdade, dedicado à procura do sagrado e do divino. Pelo contrário, é nas fímbrias do sagrado que o personagem principal, Dasa, vai vivenciar o Maia, a vida ilusória que tomamos como realidade, antes de se tornar servidor de um sábio iogue, cuja presença permeia sua vida, a qual oscila entre a glória e a desgraça: “de súbito todos os longos anos que vivera, os tesouros que guardara, as alegrias que gozara, as dores sofridas, o medo que sentira, o desespero que atingira as raias da morte, eram-lhe tirados, apagados, transformados em nada—e no entanto não se extinguiam! Pois a recordação permanecera, as imagens haviam ficado dentro dele….”Moral: mesmo perseguindo a transcendência, não se pode desembaraçar-se da experiência.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de maio de 2003)

     

07/10/2011

MÚLTIPLA DORIS LESSING

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    Na semana passada, num artigo em que fazia “apostas” para o Nobel (ver abaixo), declarei que o primeiro nome a vir à minha mente era o de Doris Lessing. Era, na verdade mais uma indicação do gosto pessoal persistente, revelando uma paixão que dura há um quarto de século (a primeira vez que a li foi em 82, e comecei já com um dos melhores, Roteiro para um passeio ao inferno) do que uma aposta: aquela que é o maior nome vivo da ficção (agora com 87 anos) fora preterida nas duas oportunidades em que deram o prêmio a escritoras de língua inglesa: em 91, para Nadine Gordimer (fina estilista, autora de romances excelentes, e por quem eu tenho o maior respeito, só que seria o mesmo que premiar Lygia Fagundes Telles no lugar de Clarice Lispector); e em 93, para Toni Morrison, em minha opinião uma escritora decepcionante e menor, embora a unanimidade da crítica em torno de obras (Amada, A canção de Solomon, Jazz, Paraíso) que eu considero recheada de partes ridículas e constrangedoras, me leve a crer que o erro de percepção é meu, e se trata de uma incompatibilidade fundamental mais do que um juízo crítico.

memórias

    Parecia pouco provável que a essa altura do campeonato lhe atribuíssem o prêmio. E que surpresa: 50 anos após o anúncio de Albert Camus como ganhador, sai da caixinha o nome de um autor que me influenciou tanto quanto ele. Considero a premiação mais relevante desde 1969 (o ano de Samuel Beckett). Não que, de lá para cá, não fossem anunciados grandes nomes (Neruda, Soljenítisin, Bellow, Singer, Montale, Canetti, William Golding, Claude Simon, Pinter, Saramago, Naguib Mafhouz, Octavio Paz, Coetzee, Günter Grass), porém nenhum deles foi, é ou será o que Doris Lessing representa: um mundo, a recuperação épica de toda as fraturas individuais e desmoronamentos coletivos das últimas décadas, uma romancista de quem vários títulos parecem conter toda a vida, e que ainda por cima, numa chave mais miniaturista, a do conto, consegue igual maestria.

    Quando ela estreou na literatura, em 1950, chegando a Londres, aos 30 anos, vinda da África (nasceu no Irã, em 1919, que então era a romanesca Pérsia), com The Grass is singing-A canção da relva, no qual conta a história de uma fazendeira branca assassinada por um criado negro, com quem tivera relações, parecia uma estilista tão fina quanto sua colega Nadine Gordimer, na tradição flaubertiana, capaz de tratar um tema explosivo com grande elegância. Volta e meia, aliás, ela publica um livro “perfeito” e bem acabado, talvez para nos mostrar: olha o que eu poderia ter sido, como eu faria bem isso…

    Mas assim com a parede do apartamento da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente insiste em se abrir para outros tempos e outras possibilidades da realidade, os romances de Doris Lessing começaram a romper os diques da mera ficção (enquanto isso ela estabelecia um sólido nome como contista, com suas histórias africanas, reunidas em dois volumes obrigatórios a qualquer um que ame a arte da narrativa, no Brasil intitulados A terra do velho chefe e Sabores do exílio).

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    Isso aconteceu com duas obras-primas: 1º.) o ciclo de cinco romances que acompanha a protagonista Martha Quest da infância na África até a Terceira Guerra Mundial, Os filhos da violência, iniciado em 1952 e só concluído em 1969, com A cidade de quatro portas. Para mim, é a única realização romanesca do século XX a rivalizar com Guerra e Paz, em abrangência e ímpeto épico, e que lhe valeu o epíteto (dado por Irving Howe) de “arqueóloga das relações humanas”. Não é que a ficção lessinguiana seja epigonal ao realismo do século XIX, não, ela é tomada pelo mesmo furor arcaico e homérico do velho Tolstoi, um talento que parece natural, nem parece “literatura”. É claro que isso é mentira, sua fabulação é tão construída como a de qualquer outro, mas o efeito é poderoso e único; 2º.) o seu romance mais famoso, The golden notebook- O carnê dourado, onde a heroína, Anna Wulf, enfrenta a loucura e a fragmentação, o caos do mundo à sua volta, subdividindo-os em diferentes cadernos que procuram conter a realidade, até que essas frágeis molduras também explodem. Embora O carnê dourado tenha sido encampado como bíblia do feminismo, a sua incomparável arquitetura narrativa e seu visionarismo sempre o resgatarão de ficar datado e reduzido a um manifesto.

shikasta

    Se Doris Lessing tivesse ficado por aí, já seria um dos maiores nomes da literatura. A partir da sua adesão ao sufismo, ela parece ter ficado cada vez mais ousada literariamente. Além de dois contos longos antológicos, O quarto 19 (homenageado em As horas) e A tentação de Jack Orkney (onde o protagonista, comunista, é contagiado pela idéia da existência de Deus), em 1971 aparecia Roteiro para um passeio ao inferno, que começa em pleno delírio do protagonista, um professor de literatura que “pira” e mistura medos pessoais, arquétipos e mitos civilizatórios. Aos poucos, ficamos sabendo que ele foi enviando por instâncias intergalácticas (ou deuses) para cumprir uma missão, mas a esqueceu e se perdeu na condição humana (daí, o sentido literal do título, “instruções para uma descida aos infernos”); em 1973, apareceu o livro que a tornou famosa no Brasil, O verão antes da queda (que está na linha daqueles livros que citei mais atrás, no comentário a The Grass is singing); em 1974, um ponto alto da sua produção, Memórias de um sobrevivente, que prenunciava um pouco o que estava para vir: no final da década de 70, Lessing se lançou na criação de uma série cosmológica, que contava os embates entre dois impérios, o de Canopus, e o de Sirius (um contra-império maléfico, Shammat, representava o desequilíbrio entre ambos). Os agentes de Sirius não conseguiam compreender os métodos e intenções dos agentes de Canopus porque acreditavam na tecnologia, no progresso material, na racionalização do mundo.

    O primeiro resultado dessa confrontação (resumida aqui de forma tão simplória) foi Shikasta, o meu favorito pessoal entre todos os livros de Doris Lessing, numa preferência absolutamente aliterária. É uma lindíssima reescritura da história da Terra, e ainda que esnobado por críticos do naipe de George Steiner e Harold Bloom, acho que é um dos livros necessários na bagagem de qualquer existência. Por isso, considero-o além do literário.

    O outro grande livro da saga, e complementar, é As experiências de Sirius, que tem algumas das cenas mais lindas já escritas pela grande escritora britânica.  Mas há dois outros volumes onde se pode dizer que ela atingiu a perfeição absoluta do relato literário, duas jóias de ourivesaria narrativa: Os casamentos entre as zonas 3,4 e 5 e Planeta 8-Operação Salvamento.

    Quando a série termina, com Os agentes sentimentais, parece que é mais por desinteresse do que por outra coisa. O livro não é ruim, mas parece uma dramatização literária das suas idéias sintetizadas num livro emblemático: Prisão que escolhemos para viver:

 

Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para minha vida, que agora conta 60 anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro; pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela. E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo, violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convém, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada que, para mim, é a única maneira de chegarmos à verdade (…) Todo avanço do mundo, todo o seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo.”

    Por essa época, ela criou um alter ego e enganou as editoras e meios de comunicação na Inglaterra, com Jane Somers, uma escritora “menor” e bem acomodada à tradição da narrativa britânica. Da brincadeira resultaram Diário de uma boa vizinha e Se os velhos pudessem. A “verdadeira” Doris Lessing produzia, por sua vez, mais um grande e provocativo livro (que veio divulgar no Brasil), The good Terrorist- A terrorista. Já parecia, contudo, estar perdendo o fôlego.

      Alguns anos depois, porém, reaparecia em plenos anos 90, com um romance maravilhoso e inusitado: Amor, de novo. E lançava pouco depois dois volumes autobiográficos: o primeiro, Debaixo da minha pele, é excepcional; já o segundo, Andando na sombra, deixou um pouco a desejar no seu acerto de contas com o comunismo, talvez porque ela já o tivesse feito em várias ocasiões, na sua ficção, e porque ela minimiza muito sua carreira literária, cujo desabrochar deveria ser o contraponto do livro.

   E agora, na década que estamos vivendo, mais um romance ciclópico, O sonho mais doce (2001), sua chegada ao século XXI. E se alguém acha que ela virou uma doce e boa velhinha, basta ler o malicioso, incisivo e lapidar prefácio que escreveu (em 2003) para textos recuperados de Virginia Woolf (homenageando o único outro nome comparável a ela na literatura inglesa), A casa de Carlyle e outros contos. O prefácio é tão ela, e isso representa uma força tão grande, que até deixa a autora prefaciada em segundo plano.

 (texto publicado em duas partes, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de outubro e 20 de outubro de 2007)

APOSTAS PARA O NOBEL

    Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

    Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

    Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

    Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

    A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

    É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

    Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

    Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

     E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

    Apostas feitas.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, de forma mais condensada,  em 6 de outubro de 2007)

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04/10/2011

Rumo ao Oscar e ao Tony, passando pelo Nobel

(o texto abaixo foi publicado como resenha—de forma bem mais condensada—em A TRIBUNA de Santos, em 04 de outubro de 2011, a partir das considerações feitas numa mesa-redonda gravada para a Semana de Letras da UNIMES VIRTUAL onde explorei o tema “A desonra como exclusão”)


“Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vaias, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, à fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana…”

(Graham Greene, A virtude da deslealdade, em Reflexões)

“Ésa era la palabra que mejor describía lo que se había sentido siempre, en Escocia, en Inglaterra, en el África, en el Brasil, en Iquitos, en el Putumayo: un desterrado. Buena parte de su vida se había jactado de esa condición de ciudadano del mundo que, según Alice, Yeats admiraba en el: alguien que no es de ninguna parte porque lo es de todas. Mucho tiempo se había dicho que ese privilegio le deparaba una libertad que desconecían quienes vivían anclados en un solo lugar. Pero Tomás de Kempis tenía razón. No se había sentido nunca de ninguna parte porque ésa era la condición humana: el destierro en este valle de lágrimas, destino transitorio hasta que con la muerte y el más allá hombres y mujeres volverían al redil, a su fuente nutrícia, a donde vivían toda la eternidad.”

    (Mario Vargas Llosa, O sonho do celta [1])

Em 1981, pode-se dizer que Mario Vargas Llosa alcançou um auge da sua popularidade e prestígio como romancista, com a publicação de A guerra do fim do mundo, que talvez não se tenha repetido depois (apesar de ele ainda ter escrito muitos romances formidáveis, penso especialmente em Lituma nos Andes e nos surpreendentes História de Mayta e O falador, para não falar no requintado Cadernos de Don Rigoberto, uma obra de mestre), pelo menos não com tanta intensidade.

Em 1981, foi justamente um ponto de inflexão na minha vida como leitor, quando eu “saltei” da inconsciência da leitura voraz e apaixonada para o tipo de leitura que até hoje me ocupa a maior parte da minha existência (e com a experiência de O sonho do celta de certa forma me confrontei com 30 anos ‘começou a estrada, a viagem terminou”, na formulação lukácsiana).

Portanto, meu início com Vargas Llosa se deu justamente com esse romance-auge, A guerra do fim do mundo e a idéia vargasllosiana de “romance total”, “romance-mundo”, que muito me marcaram. Por outro lado, também acompanhando os debates ideológicos, já de saída um instinto de  desconfiança com relação às posturas do autor de Contra vento e maré, que foi se ampliando de tal maneira que só após a leitura muito apaixonada de Lituma nos Andes,  resolvi  mandar às favas a questão do Vargas Llosa que aqui no nosso país seria um político do PSDB, o partido que mais desprezo e abomino entre todos.

Pois bem, curiosamente tenho percebido um refluxo por parte do escritor peruano do seu entusiasmo com o ideário neoliberal, antídoto contra a esquerda fanática e sectária, a confiança no mundo globalizado pós-industrial cuja causa ele abraçara tão apaixonada e constrangedoramente ao ponto de ser citado pela VEJA (vejam só!) como o “perfeito intelectual latino-americano”, o que soa mais como um anátema e um epitáfio do que um elogio. Sutilmente, nos últimos livros, Llosa tem mostrado que a receita neoliberal também não funcionou, nem poderia. Lamentavelmente, esses últimos livros (penso especificamente em A festa do bode e Travessuras da menina má, pois gosto de O paraíso na outra esquina, sem considerá-lo um grande romance) representam igualmente um declínio, uma aproximação muito perigosa das receitas e técnicas dos best sellers.

Por isso, a expectativa com O sonho do celta, que foi lançado após o Nobel, mas  escrito antes. De cara, devo dizer que ele confirma o desencanto ao qual aludi mais acima. Nesse sentido, a trajetória de Roger Casement, o celta, é emblemática.

Casement é o irlandês que, no final do século XIX, vai para a África (servindo à Coroa britânica)  imbuído da ideologia em tripé que sustentou e justificou  a colonização e o posterior imperialismo das potências ocidentais: civilização, cristianismo e comércio.

No Congo, ele testemunha horrores (o domínio belga, capitaneado pelo sinistro rei Leopoldo foi um dos mais brutais da história, tanto que originou O coração das trevas, de Joseph Conrad) contra os negros nativos, de tal monta que o levam a redigir um relatório que o torna célebre no mundo todo (e é preciso lembrar que, à época, não havia os meios de comunicação à disposição, embora fosse já época de uma opinião pública forte), “o irlandês mais famoso” de sua época.

A desilusão de Casement com a empreitada colonial ficará completa quando, ao viajar pelo Putumayo, a porção peruana da Amazônia, constatar ali horrores similares e novamente a desfaçatez do homem branco.

A conseqüência mais importante no destino de Sir Roger (sim, ele ganha o título honorífico) é que ele resolve cuspir no prato que comeu e aderir ao que Greene (no texto do qual eu tirei a epígrafe desta minha resenha) chama de forma tão feliz de “a virtude da deslealdade”, ou seja, abraça a causa do nacionalismo irlandês contra a Inglaterra e procurará firmar uma aliança com os alemães, ao eclodir a Primeira Guerra, para acelerar a independência da Irlanda[2] . Por essa razão, é preso como traidor (justamente naquela época, foi publicado Os 39 degraus, de John Buchan, que instaura o jogo de espionagem e a vilania da Alemanha no imaginário ficcional) e condenado à forca. Para fomentar o clima de antipatia contra ele, seu linchamento moral, divulgam-se trechos de diários onde sua “vida secreta”, como homossexual cujas experiências fundamentais foram com negros, nativos, enfim, outras raças, é exposta escandalosamente (poucos anos antes, houvera o caso Oscar Wilde, de triste memória). É a forma de exclusão punitiva daqueles que estão dentro do sistema hegemônico e que ousam sair dos trilhos ou questionar a rota: a desonra, a perda de posição, muito mais radical do que a evasão, tema de O paraíso na outra esquina, que foi outra maneira de se colocar à margem dos descarrilhados do trem do progresso.

O eixo narrativo de O sonho do celta é a vida na prisão de Casement, à espera para ver se a petição de indulto da pena de morte seria concedida.

Infelizmente, quem procurar a riqueza caleidoscópica das grandes ficções llosianos vai se decepcionar. Escrevendo um romance sobre Casement, ele não o “inventa”. Claro, pode ter se permitido mil liberdades a respeito dos fatos, contudo o livro nunca deixa de ter o ar de uma biografia, daquelas bem certinhas, caretas e chatinhas.

O pior é que o romancista que nos fez entrar na cabeça de tantos personagens, inclusive os mais repulsivos, como a eminência parda da ditadura odriísta, Cayo Bermúdez  (em Conversa na Catedral), ou o fanático republicano Moreira César (em A guerra do fim do mundo), nunca consegue nos fazer entrar na cabeça de Roger Casement. Parece que ele o vê à distância, sem nunca se aproximar de fato do seu “sonho”, a não ser com  recursos do best seller: a exposição didática e chapada, sem a menor profundidade, o bom-mocismo—quem em sã consciência, a não ser o mais empedernido e boçal reacionário, iria discordar da indignação do intrépido e corajoso irlandês, com as suas causas? Correndo nas águas tranqüilas da facilidade narrativa, Llosa não nos poupa nem dos clichês mais banais, como o do carcereiro que é duro e hostil a princípio e depois vai se tornando amigo do suposto traidor degenerado.

Aliás, eu não me surpreenderia em ver O sonho do celta comprado por Hollywood e ganhando o Oscar. Ele tem todos os ingredientes para se transformar num daqueles filmes amorfos e acadêmicos (tipo Gandhi, Entre dois amores, Dança com lobos, O paciente inglês, Uma mente brilhante), bem produzidos, com um ótimo protagonista (um grande ator daria um show como Casement), ótimos e fotogênicos cenários, ótimos figurinos, tema politicamente correto e um destino tão certo e implacável quanto a forca para Sir Roger Casement: a irrelevância das Sessões da Tarde. E talvez um musical da Broadway.

Quando comentei A guerra do fim do mundo, equacionei sua sabedoria épica com o retrocesso ideológico que representava. Parece que, como sou um chato de galocha mesmo, e nunca estou satisfeito, com O sonho do celta, terei de fazer a equação contrária: de uma saudável recuperação ideológica e um retrocesso épico.

Para finalizar, devo dizer que no Putumayo, no âmago peruano da trajetória de Casement há um relato em miniatura sobre a desonra do juiz que o governo do país manda para apurar os fatos, momento mise en abyme  que espelha  a narrativa principal (e lembra as tramas de Leonardo Sciascia) e  que daria um romance tremendamente mais interessante do que o que Vargas Llosa escreveu:

“En efecto, la historia de esse probo y temerário doctor Carlos A. Valcárcel que vino a Iquitos a investigar los ´horrores del Putumayo´ no podia ser más triste. Roger la fue reconstruyendo en el curso de estas semanas como un rompecabezas…

    Pablo Zumaeta [poderoso representante local da empresa Peruvian Amazon Company responsável pelos “horrores de Putumayo”], desde su supuesto escondite, orquestro la ofensiva judicial contra el juez Carlos A. Valcárcel, iniciándole, a través de testaferros, múltiples denuncias por prevaricación, desfalco, falso testimonio y otros vários delitos. Una mañana se presentaron en la comisaría de Iquitos una índia bora y su hija de pocos años, acompañadas de un intérprete, para acusar al juez Carlos A. Valcárcel de ´atentado contra el honor de una menor´.  El juez tuvo que emplear gran parte de su tiempo en defenderse de esas fabricaciones calumniosas, declarando, correteando y escribiendo ofícios en vez de ocuparse de la investigación que lo trajo a la selva. El mundo entero se le fue cayendo encima. El hotelito donde estaba alojado… lo despidío. No encontro albergue ni pensión en la ciudad que se atreviera a cobijarlo. Tuvo que alquilar una pequeña habitación en Nunay, una barriada llena de basurales y estanques de aguas pútridas, donde, en las noches, sentía bajo su hamaca las carreritas de las ratas y pisaba cucarachas (…)

Qué había sido de el? Lo único que pudo saber con certeza, aunque la palabra ´certeza´ no parecia tener arraigo firme en el suelo de Iquitos, era que, cuando llegó la orden de Lima destituyéndolo, Carlos A.  Varcárcel ya había desaparecido. Desde entonces nadie en la ciudade podia dar cuenta de su paradero. Lo habían matado? (…) el director de EL ORIENTE, Rómulo Paredes, le dijo:

__ Yo mismo le aconsejé al juez Valcárcel que se mandara mudar antes de que lo mataran, sir Roger. Ya le habían llegado bastantes avisos.

    Que clase de avisos? Provocaciones en los restaurantes y bares donde el juez Valcárcel entraba a comer un bocado o tomar uma cerveza. Súbitamente, un borracho lo insultaba y lo desafiaba a pelear mostrándole una chaveta. Si el juez iba a presentar uma denuncia a la policía o a la Prefectura, le hacían rellenar interminables formularios, pormenorizando los hechos, y asegurándole que ´investigarian su queja´.

   Roger Casement se sentió muy pronto como debía haberse sentido el juez Valcárcel antes de escapar de Iquitos o de ser liquidado por alguno de los asesinos a sueldo de Arana [o presidente da Companhia]: engañado por doquier, convertido en el hazmerreír de una comunidad de títeres cuyos hilos movia la Peruvian Amazon Company, a la que todo Iquitos obedecia con obsecuencia vil.”[3]

Desafortunadamente,  há muito pouco de rompecabezas na narrativa de O sonho do celta. Ao que parece, Vargas Llosa quis facilitar tudo para o comprador do seu livro.

Graham Greene abriu este texto. Nada mais justo do que fechá-lo, aplicando a Vargas Llosa o veredicto que ele tascou em cima do grandíssimo escritor inglês, ao analisar Fim de Caso no seu A verdade das mentiras. É um veredicto que se aplica como uma luva às últimas realizações do Nobel de 2010:

“Por que Graham Greene nunca chegou a escrever uma obra-prima, já que manejava o ofício com excelência, e com a cultura e a paixão pela literatura que tinha? Que lhe faltou? Dois ingredientes, difíceis de definir, que aparecem detrás de todos os grandes romances, porém nunca nos seus: uma ambição desmedida e certa dose de insensatez—podemos até chamá-la de loucura.  Greene, viajante incansável, aventureiro  cuja curiosidade o levou a viver guerras, revoluções, pragas e a freqüentar, por todos os rincões do planeta, os tipos humanos mais pitorescos e diferenciados, na hora de se sentar para escrever perdia seu ímpeto, aquela vocação para o risco que o levou—quando adolescente—a praticar a roleta russa, e tornava-se um escritor eficiente, tímido e funcional, que se sentia satisfeito contando uma história com acerto, uma que fizesse toda tipo de leitor passar um tempo feliz e distraído. Claro que conseguiu o que se propôs como escritor, porém o que se propôs foi sempre pouco e aquém do seu talento…”

Desde A festa do bode ele está enveredando pelo caminho eficiente, tímido e funcional, e realizando pouco e aquém do seu talento.


[1] Em tradução (de Paulina Wacht e Ari Roitman): “Esta era a palavra que melhor descrevia como ele sempre se sentira, na Irlanda, na Inglaterra, na África, no Brasil, em Iquitos, no Putumayo: um banido. Durante boa parte da vida, Roger se gabou dessa condição de cidadão do mundo que, segundo Alice, Yeats admirava nele: alguém que não é de lugar nenhum porque é de todos os lugares. Por muito tempo pensou que esse privilégio lhe dava uma liberdade que aqueles que viviam ancorados no mesmo lugar desconheciam. Mas Tomás de Kempis tinha razão. Ele nunca sentiu que pertencia a um lugar porque a condição humana era isto: um desterro neste vale de lágrimas, um destino transitório até que, com a morte e o além, homens e mulheres voltariam para o ninho, para a sua fonte nutriz, onde viveriam por toda a eternidade”.

[2] De passagem, devo dizer que um dos temas fascinantes que O sonho do celta desperdiça é essa ambivalência da Alemanha na nossa bagagem cultural formada por Hollywood. Nem é preciso dizer nada a respeito do horror nazista, mas mesmo antes, por que a Alemanha nunca foi como a França, a Itália ou a Inglaterra para a percepção ocidental?

[3] Na tradução já citada, lançada pela Alfaguara: “ De fato, a história desse integro e temerário doutor Carlos A. Valcárcel que foi a Iquitos para investigar os ´horrores do Putumayo´ não podia ser mais triste. No decorrer daquelas semanas Roger a foi reconstruindo como um quebra-cabeça (…)

 Pablo Zumaeta, em seu suposto esconderijo, orquestrou a ofensiva judicial contra o juiz Valcárcel, iniciando, por intermédio de testas de ferro, inúmeras ações contra ele, por prevaricação, desfalque, falso testemunho e outros delitos vários. Certa manhã se dirigiram à delegacia de polícia de Iquitos uma índia borá e sua filha de poucos anos, na companhia de um intérprete, para acusar o juiz de ´atentado contra a honra de uma menor´. O juiz teve de empregar grande parte de seu tempo se defendendo dessas fabulações caluniosas, depondo, correndo e escrevendo ofícios em vez de se dedicar à investigação que o trouxera para a selva. O seu mundo foi desabando. O hotelzinho onde estava hospedado o expulsou. Não encontrou nenhum albergue ou pensão na cidade que tivesse coragem de aceitá-lo. Teve que alugar um quartinho em Nunay, bairro cheio de depósitos de lixo e tanques de águas pútridas onde, à noite, ouvia as corridinhas dos ratos debaixo da sua rede e pisava em baratas… O que acontecera a ele? Roger só conseguiu apurar com certeza, embora certeza não combinasse muito bem com Iquitos, que o juiz Valcárcel já havia desaparecido quando chegou a ordem de Lima com sua exoneração. A partir de então, ninguém na cidade fazia idéia do seu paradeiro. Teria sido assassinado? (…) O diretor de El Oriente, Romulo Paredes, contou a Roger:

__ Eu mesmo aconselhei o juiz a ir embora antes que o matassem, sir Roger. Já tinha recebido muitos avisos.

    Que tipo de avisos? Provocações nos restaurantes e bares onde o juiz ia comer alguma coisa ou tomar uma cerveja. De repente, um bêbado o insultava e desafiava para a briga mostrando a navalha. Quando o juiz ia dar queixa na polícia ou na prefeitura, mandavam-no preencher intermináveis formulários detalhando os fatos e garantiam que ´investigariam a denúncia´.

   Em pouco tempo, Roger Casement já se sentia como imaginava que o juiz Valcárcel devia se sentir antes de sair de Iquitos ou de ser liquidado por um assassino… enganado por toda a parte, transformado em bobo da corte de uma comunidade de marionetes cujos fios eram puxados pela Peruvian Amazon Company, à qual toda Iquitos obedecia de forma infame…”

VARGAS LLOSA ENTRE A VERDADE DA MENTIRA E A MENTIRA DA VERDADE

TRAVESSURAS DOS MENINOS MAUS

Como admirador de longa data de Mario Vargas Llosa, não só o maior romancista vivo da América Latina como também um dos maiores escritores do mundo, é claro que fiquei contente com o anúncio do Nobel.

Menos contente me deixou saber que essa esperada premiação vem sendo saudada, inescrupulosamente, mais como uma homenagem ao seu pensamento político, às suas posturas ideológicas [1], do que ao seu gênio narrativo, um triunfo da arte da ficção, que conseguiu tantas vezes satisfazer o  “apetite pela totalidade” que ele identificou como vocação maior do romance.

Paradoxalmente, porém, comentarei aqui o mais recente dos relançamentos que a Alfaguara vem promovendo da sua obra ,  e não se trata de nenhum dos apaixonantes romances de fôlego a que ele nos acostumou (A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na catedral, Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto, O paraíso na outra esquina), com a exceção de três pequenos romances  (Quem matou Palomino Molero? e Elogio da madrasta são dois deles): a junção no mesmo volume de seu primeiro livro publicado, a coletânea Os chefes, de 1959, e o primeiro daqueles três romancitos, Os filhotes, de 1967, talvez sua experiência mais virtuosística e sensacional como escritor[2].

A Academia Sueca justificou a escolha de Llosa por “sua cartografia das estruturas do poder e mordazes imagens da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo”. A leitura do conto-título de Os chefes confirmará isso de imediato: ao narrar a insubordinação dos estudantes de um colégio contra o novo regime de provas a que serão submetidos, enfrentando um diretor tirânico e truculento, o jovem escritor de 23 anos mostrava mais a incipiente luta de poder e supremacia entre os próprios rebelados adolescentes, que não recuam diante da violência, da criação de facções e da opressão para serem líderes.

Códigos machistas brutais (ou sutis) e ritos de passagem perversos dominam as seis histórias de Os chefes (e também Os filhotes, publicado oito anos depois). E  o leitor vargallosiano perceberá o embrião de várias experiências futuras: o mundo do areal, de Piúra, de A casa verde (infelizmente, ainda um seus dos livros menos populares, e um dos mais brilhantes) aparece em “Um visitante, no qual nasce para a literatura um personagem constante na sua produção posterior, o cabo Lituma (de A casa verde, Quem matou Palomino Molero? e Lituma nos Andes), que vagará pela diversidade do Peru e suas fraturas sociais; no melhor desses textos iniciais, Domingo, vemos nascer a evocação do bairro de Miraflores, em Lima, com sua rapaziada tornando-se adolescente e depois alcançando a idade adulta, que fará parte de A cidade e os cachorros, Conversa na catedral, Tia Júlia e o escrevinhador e até mesmo do tardio (é de 2006) e a meu ver muito fraco e diluído com relação aos demais As travessuras da menina má (embora não tão fraco e diluído quanto A festa do bode).

O conto Domingo é excelente, contudo Llosa desenvolve o assunto vertiginosamente, e com uma crueldade inaudita em Os filhotes, no qual usa  uma forma insólita (é preciso ler para crer) de narração, uma espécie de voz coral, que passa da terceira para a primeira pessoa do plural, e em que parece que o bairro está tomando a palavra: um garotinho tem o pênis mutilado por um cachorro, e como ao longo de sua formação esse fato o tornará um excluído: sendo o mais forte, o mais atlético, o mais rico da rapaziada que anda junto em Miraflores, falta-lhe no entanto o atributo que a nossa sociedade convencionou como o símbolo da presença masculina (tanto que seu apelido será Piroquinha), e todos os seus esforços revelam uma caricatura do machão, do “chefe”: “Quando Lalo se casou com Chabuca, no mesmo ano em que Mañuco e Chingolo se formavam em engenharia, Cuéllar [o Piroquinha] já sofrera vários acidentes e seu Volvo vivia amassado, arranhado, com os faróis rachados. Você vai acabar morrendo, meu coração, não faça loucuras e o velho já era o cúmulo, rapaz, até quando ia continuar assim, outra gracinha dessas e nunca mais lhe daria um centavo, que repensasse e se corrigisse, se não for por você faça isso por sua mãe, ele falava pelo seu próprio bem. E nós: você já está grandinho para andar por aí com essa molecada, Piroquinha. Porque agora dava para isso. Passava as noites jogando com os notívagos do El Chasqui ou do D´Onofrio, ou conversando e bebendo com os viados ou os mafiosos do Haiti (quando será que trabalha, dizíamos, ou será mentira que trabalha?), mas de dia vagabundeava de um canto de Miraflores para o outro, e era visto nas esquinas, vestido como James Dean (jeans justos, camisa colorida aberta do pescoço até  umbigo, uma correntinha de ouro dançando no peito e se enredando entre os pelinhos, mocassins brancos), jogando pião com os moleques, batendo bola numa garagem, tocando gaita. Seu carro andava sempre cheio de roqueiros de treze, catorze, quinze anos e, aos domingos aparecia no Waikiki… com bandos de guris, olhem, olhem, está ali, que  bonitinho, e que bem acompanhado, que jovial: subia um por um na sua prancha havaiana e ia com eles para lá da arrebentação. Ensinava-os a dirigir o Volvo e se exibia para eles fazendo curvas em duas rodas no Malecón e os levava ao estádio, ao catch, aos touros, às corridas, ao boliche, ao boxe. Pronto, dizíamos, era fatal: viado. E também: mas o que mais lhe restava, era compreensível, desculpável só que, irmão, está cada dia mais difícil andar com ele, na rua todos o olhavam, assobiavam e apontavam…”

     Enfim, uma imagem pra lá de mordaz, uma cartografia definitiva da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo numa estrutura de poder que chega à mais recôndita intimidade.


 

[1]  Não consigo ter simpatia ou admiração pelo lado “pensador político” de Vargas Llosa (embora o considere um formidável crítico literário), e a sua campanha para presidente do Peru já foi um episódio lamentável, pelas bandeiras neoliberais que defendia. Talvez ele tenha passado muito tempo da sua vida em seminários, em congressos, em palestras, cursos em Princeton e quejandos, num meio desodorizado e desidratado das convulsões sociais, e perdeu a noção da realidade que só reaparece quando ele escreve ficção, a verdade da mentira (apesar de que, pelo andar da carruagem, pelo que constatamos nos seus últimos livros, até esse dom está meio bruxuleante).

O que mais me impressiona em Vargas Llosa é sua aceitação pacífica da mentira da verdade, tal como aparece num hilariante texto que escreveu aqui no Brasil. Será cinismo ou necessidade de acreditar? Será que ele acha mesmo que há algo como uma “imprensa livre”, desinteressada e objetiva? Que nós vivemos num “mundo livre” , em que as notícias são veiculadas de forma realmente democrática, como se não vivêssemos numa civilização dominada pelo hegemonia do mercado. Vejamos:

“ A impressão que me fica de uma semana intensa passada nesse país, entre o Rio de Janeiro e São Paulo (com direito a uma rápida escapada até o pequeno paraíso de Búzios), durante a qual,
fiel à minha vocação de leitor inveterado de jornais, tomei café da manhã todos os dias mergulhado nas abundantes páginas de “O Globo”, “O Estado de S.Paulo” e “Folha de S.Paulo”, os três principais jornais do país. Excelentes, os três. Bem escritos e otimamente diagramados, com rica informação local e internacional, bons colunistas, pouco sensacionalismo e quase nenhuma fofocagem
”. Uau, Deus é brasileiro mesmo, só aqui encontramos tais jornais desinteressados, pouco sensacionalistas, preocupados unicamente em dar notícias da forma mais imparcial possível (este trecho, assim como os próximos,  foi tirado de um artigo que ele escreveu em 14 de  junho de 2007). E aqui nem estou discutindo a qualidade dos três jornais citados (que, dentro do panorama disponível, ainda são o que melhor temos).

Mas o aspecto mais hilário e grotesco ainda está por vir:

“O último número da revista “Veja” — com uma tiragem de um milhão e duzentos mil exemplares por semana — contém uma excelente reportagem investigativa sobre esse “socialismo do século XXI” inventado pelo comandante Hugo Chávez e que ele, a golpe de petrodólares, empenha-se em disseminar por toda a região. O texto, assinado pelo jornalista Duda Teixeira, que averiguou os dados in loco, é preciso. Alguns exemplos ali expostos demonstram a velocidade e a obscenidade com que os colaboradores políticos mais próximos do caudilho-paraquedista enriqueceram no poder

Vejam só, há uma pessoa que acredita na VEJA, que não a toma pelo que é: uma revista desavergonhada e afrontosamente tendenciosa, parcial, e sobretudo desonesta, sob o  ponto de vista intelectual,  nos meios que emprega para subliminarmente passar essa tendenciosidade e essa parcialidade (basta lembrar do desprezível necrológio, mínimo em termos de espaço–e qualquer leitor de outro veículo da imprensa lembrará do espaço considerável que foi ocupado por essa morte– e preocupado em diminui-lo como homem militante sem nem a contrapartida de uma visão mais acurada da sua obra,  de José Saramago). Como um escritor de romances que desvendaram mecanismos de poder e de manipulação da verdade pode aceitar assim sem mais nem menos o teor de uma “reportagem investigativa” da VEJA?  Por puro masoquismo, só mais um trecho:

“Apesar da pavorosa realidade de corrupção, favorecimentos pessoais, demagogia e autoritarismo que relata, a reportagem da “Veja” não é totalmente pessimista. Por outro lado, confirma algo de que eu já suspeitava depois de ver a maneira corajosa com que a oposição venezuelana se mobilizou contra o fechamento da Radio Caracas Televisión: que, dessa vez, o
caudilho venezuelano deu um passo em falso e o povo venezuelano começou a abrir os olhos para o monstro que criou ao depositar sua confiança e seus votos em um demagogo que pode levar o país à ruína e a uma ditadura totalitária. As pesquisas feitas pelo Instituto Hinterlaces, de Caracas, e publicadas pela “Veja”, falam por si: 78% dos venezuelanos desaprovam o antiamericanismo de Chávez; 85% condenam o financiamento político a outros países; 86% não querem um socialismo à cubana; e 86% são contra o confisco de propriedades privadas. Mais: 40% dos venezuelanos que votaram em Chávez nas eleições de dezembro passado declaram que hoje votariam contra ele.”

    Chego a desgostar da premiação de Llosa após ler um texto como este. Aliás, a própria VEJA  não perdeu tempo e na sua paupérrima matéria (em que se enfatiza mais a “lucidez” do conservadorismo adotado por ele do que a grandeza de sua obra) sobre o Nobel do nada lúcido peruano, proclamou: Llosa lê a VEJA!

[2] Os dois já haviam sido lançados num mesmo volume pela Nova Fronteira, anteriormente, e acho que isso atrapalha um pouco a reputação literária de Os filhotes. Prefiro a solução da Companhia das Letras que publicou o texto sozinho, em ótima tradução de Sérgio Molina, e marcando sua relevância no conjunto da obra, mesmo tendo sido publicado entre dois monstros, A casa verde & Conversa na Catedral.

resenha publicada — sem as notas de rodapé e a longa citação de “Os filhotes”– em “A Tribuna” de Santos, em 12 de outubro de 2010

03/10/2011

O NOBEL DO NÔMADE

le clezio

Parece que de meio século para cá a literatura francesa só entra nos cálculos para o Nobel de vinte em vinte anos. Pelo menos quando escolhem um francês, acertam em cheio. Em 1964, Jean-Paul Sartre teve a chance de esnobar sua premiação e utilizá-la como plataforma para declarações políticas bombásticas (e isso no ano em que escrevia um de seus textos supremos, As Palavras, na qual tentava exorcizar e liquidar sua “neurose da literatura”). Em 1985 (portanto, vinte e um anos depois), o mundo descobria maravilhado um autor original, desconcertante, detentor do segredo de uma maneira de narrar extremamente pessoal: o genial Claude Simon, que tem pelo menos dois “romances” extraordinários publicados no Brasil: A Estrada de Flandres e As Geórgicas (infelizmente, não traduziram o fascinante Histoire).

Agora, vinte e três anos passados (se não se contar a premiação, em 2000, do chinês naturalizado Gao Xingjian), chega a vez de Jean-Marie Gustave Le Clézio. Nome chiquíssimo, que podia ser de grife de alta-costura. Não é. J.M.G. Le Clézio, como eu já afirmei na semana passada  (VER ABAIXO) com relação a ele e a Patrick Modiano (o qual, tenho quase certeza, utilizou o colega como modelo para um dos personagens de Rue des Boutiques Obscures; os dados familiares são muito parecidos), é um dos poucos sobreviventes da irrelevância que faz da França atualmente uma “waste land” em termos literários. Tanto que durante muitos anos um autor cotadíssimo para o prêmio, considerado algo assim como o “maior autor francês da atualidade”, era o medíocre Michel Tournier, que em obras mais recentes revelou a sua verdadeira ambição oculta (e alcance de vôo estético): ser Paulo Coelho versão Astérix.

No meu artigo da semana passada também chamei Le Clézio de “intrigante”.  É lógico que desde que soube do prêmio não tive chance de reler nenhuma de suas obras (devo informar que só conheço três: Deserto, À Procura do Ouro e A Quarentena; se a vida fosse ideal, teríamos tempo de acompanhar integralmente a carreira dos escritores que admiramos, contudo, como é tudo que ela não é, nunca dá para ler tudo o que queremos; há anos tento reservar tempo para conhecer o primeiro e consagrado romance dele, Le Procès-Verbal, e não consigo sequer ler as duas últimas traduções que fizeram aqui no Brasil: Peixe Dourado e O Africano!), mas andei pensando nesse termo que escolhi. Intrigante. Acho que deveria dizer “sortudo”.

Há escritores que além do talento e do fôlego narrativo, além da finura e virtuosismo estilísticos, ainda por cima têm sorte. Le Clézio é um grande escritor, disso não há dúvida, só que ainda teve atrás de si uma família romanesca, que emigrou da Bretanha para a Ilha Maurício (e depois refez o caminho inverso, processo reconstruído e desconstruído pelo autor de Deserto). E não só isso: ao começar a escrever, no início dos anos 60, ele pegou toda a onda final do colonialismo francês (e da Europa em geral) e aplicou a esse cenário seu temperamento muito peculiar de nômade introspectivo, fazendo da viagem um mote narrativo e das “paradas obrigatórias” (como no maravilhoso capítulo de À Procura do Ouro em que “prisioneiro do mar”, retido na enseada dos Anglais, o narrador revê a configuração da sua vida e jornada) mergulhos em profundidade na condição humana (vista sob uma lente mais ampla e minuciosa do que o tradicional ponto de vista eurocêntrico). Ainda que eu considere Deserto e A Quarentena dois dos melhores e mais requintados romances das últimas décadas, e literariamente superiores, confesso que minha preferência recai sobre À Procura do Ouro por duas razões principais, embora nem um pouco racionais. Em primeiro lugar, assim como uma parte da obra de Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro e as aventuras de David Balfour, como Raptado), o livro me faz voltar à infância, quando eu não queria literatura, queria aventura, e agora que a aventura se foi (pelo menos da maneira como eu a idealizava), ficou a literatura; então, que elas pelo menos coincidam uma vez ou outra, que um livro mostre uma caça ao tesouro em cenários variados e “exóticos”, enquanto o narrador se auto-esclarece tanto quanto o Marcel de Em Busca do Tempo Perdido ou o Jim de Lord Jim ou o Riobaldo de Grande Sertão: Veredas. Em segundo lugar, é isso aí: por alguma razão do destino, o francês Le Clézio realizou a mais estranha (e aí sim posso recolocar o adjetivo “intrigante”) simbiose concebível: entre Conrad e Proust, a aventura se tornando uma constituição da subjetividade, da memória e da ressignificação dos seres e das coisas, Não me lembro de nenhum caso parecido, ou no qual isso se dê de modo tão natural.

Outro grande escritor contemporâneo, o espanhol Juan Goytisolo, disse: A intimidade e a distância criam uma situação privilegiada. Ambas são necessárias”. Jacques Derrida convidava os leitores a “pensar em viagem. Devo essas duas citações a Zygmunt Bauman que, no final de Modernidade Líquida afirmava que o exílio (não necessariamente político) faz bem ao escritor. Intimidade com a língua, distância dos modos usuais e automáticos. E as seguintes palavras servem como uma luva a J.M.G. Le Clézio, esse escritor do nomadismo e da viagem incessante: “Em vez de ser sem pátria, o segredo é estar à vontade em muitas pátrias, porém estar em cada uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a visão crítica de um estranho, envolvimento com distância, o que as pessoas sedentárias  dificilmente aprendem… A liberdade que vem dessa condição (que é essa condição) revela que as verdades caseiras são feitas e desfeitas pelo homem e que a língua materna é um fluxo infindável de comunicação entre as gerações e um tesouro de mensagens sempre mais ricas que quaisquer de suas leituras e sempre à espera de serem novamente reveladas”.

Em tempo: me parece que o Nobel está se revelando um prêmio mais vivo do que se podia esperar.

resenha publicada de forma mais condensada em 11 de outubro de 2008, em A TRIBUNA de Santos

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E O NOBEL VAI PARA…

Com o tardio e justíssimo prêmio para Doris Lessing no ano passado, e mais três autores de língua inglesa laureados nesta última década (V. S. Naipaul, J. M. Coetzee e Harold Pinter), é melhor esquecê-la nas apostas para o Nobel de 2008 (a não ser que haja uma surpresa), o que significa excluir uma série de grandes escritores, inclusive os dois autores vivos que, a meu ver, são os que mais merecem o prêmio: o norte-americano Don DeLillo (o que existe de melhor que Mao II, Submundo e Cosmópolis?) e o anglo-indiano Salman Rushdie (é difícil dizer qual a sua grande obra: Os Filhos da Meia-Noite, O Último Suspiro do Mouro, Os Versos Satânicos, Fúria).

Então, nada mais natural do que ele ir para o italiano Umberto Eco, não só um prodigioso intelectual, como ainda autor de uma já considerável obra ficcional, entre eles o clássico O Nome da Rosa. Nessa linha, aliás, a Itália é imbatível em candidatos, basta lembrar de Carlo Ginzburg (O Queijo e Os Vermes), Pietro Citati (autor de fascinantes biografias, entre elas as de Proust e Goethe) e Roberto Calasso (Ka e K.), os quais conciliam o talento narrativo com o rigor como pensadores.

Além de Eco, outro vencedor natural deveria ser o peruano Mario Vargas Llosa (Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo, Lituma nos Andes, só para citar uns poucos títulos de uma produção com poucos escorregões, o que não se pode dizer da carreira política de Llosa), mas a Argentina conta com o venerável, grandioso e quase centenário (daqui a três anos) Ernesto Sabato (e como esquecer Sobre Heróis e Tumbas, O Túnel e Abadón, O Exterminador ?); e o Uruguai e o México têm os octogenários Mario Benedetti (A Trégua, A Borra do Café) e Carlos Fuentes (Aura, A Morte de Artemio Cruz, Cristóvão Nonato, Gringo Velho). Na Argentina, dois dos melhores autores contemporâneos pertencem a gerações mais recentes, Ricardo Piglia (A Cidade Ausente, Respiração Artificial) e Alan Pauls (fiquei apaixonado por O Passado e agora estou apaixonado por Wasabi e História do Pranto).

Aqui também temos os nossos veneráveis e ótimos candidatos: Dalton Trevisan (que título escolher do nosso gênio maior: Cemitério de Elefantes, A Trombeta do Anjo Vingador, O Vampiro de Curitiba, A Polaquinha?); Autran Dourado (O Risco do Bordado, Ópera dos Mortos, Novelário de Donga Novais, Armas & Corações), Adélia Prado (Bagagem, O Coração Disparado, O Pelicano). Em português também, como esquecer o moçambicano Mia Couto e suas obras-primas Terra Sonâmbula e A Varanda do Frangipani?

Voltando à Europa, o espanhol Jorge Semprún seria outro excelente candidato ao prêmio (ele ainda teve o requinte de escrever em outra língua, o francês), por livros como A Grande Viagem, A Segunda Morte de Ramón Mercader, Um Belo Domingo. Seu maior “rival”, por assim dizer, é o mestre da ironia Juan Goytisolo, autor de A Saga dos Marx.

Na França, o maior dos candidatos é um expatriado, o tcheco Milan Kundera, que passou a escrever na língua do seu país de adoção (A Identidade, A Ignorância), mas já era mais conhecido pelas traduções francesas das sua extraordinária obra anterior (A Brincadeira, A Valsa dos Adeuses, O Livro do Riso e do Esquecimento, Risíveis Amores, A Insustentável Leveza do Ser). É um dos que eu ficaria particularmente feliz se ganhasse. Entre os “nativos” (palavra cada vez mais problemática), por que não Patrick Modiano (A Rua das Lojinhas Mal Iluminadas, Ronda da Noite) ou o intrigante J. M. G. Le Clézio (Deserto, À Procura do Ouro, A Quarentena), ambos sobreviventes honrosos do apocalipse de insignificância e irrelevância daquela que foi a pátria oficial da literatura?

Na Alemanha, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Christa Wolf (Kassandra, Em Busca de Christa T.), embora o desafiador Tankred Dorst (Merlim) e Peter Handke (O Medo do Goleiro Diante do Pênalti) não possam ser esquecidos. Como não se pode esquecer o  holandês Cees Nooteboom (Rituais, A Seguinte História:)

Três nomes fortes (e que estão entre os meus preferidos) se encontram mais à margem do Ocidente: o albanês Ismail Kadaré (Dossiê H, Abril Despedaçado, O Palácio dos Sonhos); o israelense Amós Oz (do soberbo A Caixa Preta e do recém-lançado Rimas de Vida e Morte), ambos fantásticos romancistas; e o genial servo-croata Milorad Pávitch (O Dicionário Kazar, Paisagem Pintada com Chá).

Na verdade, na verdade, NA VERDADE, o que eu gostaria mesmo é que o Nobel abrisse uma exceção e se fizesse póstumo para homenagear a vida breve, mas a longa arte do chileno Roberto Bolaño, que morreu em 2003, com 50 anos apenas, e cuja obra (especialmente Detetives Selvagens, só que temos também A Pista do Gelo, Putas Assassinas e a sua poesia, a sua poesia…) está mais do que viva, e agora é que estamos sentindo seu impacto. O mesmo se poderia dizer de outro morto precoce (2001), dono de uma obra seminal e cada vez mais importante: o alemão W.G. Sebald (Os Anéis de Saturno, Austerlitz).

(resenha publicada originalmente em 4 de outubro de 2008, em A TRIBUNA de Santos)

 

07/10/2010

ESPECIAL NOBEL- versão 2010: meus favoritos

Pode ser que nunca ganhem, mas esses são favoritos pessoais para o Nobel:

O norte-americano DON DeLILLO, o maior autor de ficção do nosso tempo,  a prova de que a pós-modernidade não enfraqueceu em nada a ficção, com pelo menos quatro livros fundamentais: Submundo, Mao II, Cosmópolis & Ruído Branco.  O primeiro deles, então, é o grande romance da virada do milênio, junto com Detetives Selvagens, do falecido Roberto Bolaño.

O maior contador de histórias do nosso tempo,  junto com o norte-americano John Irving, o grande fabulador anglo-indiano SALMAN RUSHDIE, mestre do  romance rocambolesco e carnavalesco.  Obras-primas: Os filhos da meia-noite e O último suspiro do mouro. Chegam bem perto: Os versos satânicos; O chão qae ela pisa, Haroun e o mar de Histórias, Fúria.

O deslumbrante autor português ANTÓNIO LOBO ANTUNES, desafiador a cada obra que se lê dele. Embora eu tenha demorado a me acostumar com sua genialidade, agora considero-o o único páreo para Don DeLillo em termos de abrangência e originalidade. Obras-primas supremas, entre os que eu li: Eu hei-de amar uma pedra & Fado Alexandrino. & O arquipélao d insónia. Outros livros essenciais: Conhecimento do Inferno, Os cus de judas, Auto dos Danados. E etc…

sabato

 Sim, leitores, pasmem, ele está vivo ainda! O quase centenário (tem 99 anos) autor argentino ERNESTO SÁBATO, parece ser um dos fortes candidatos ao prêmio de 2010, pois seu nome foi propugnado oficialmente.  Ao contrário de DeLillo, Rushie & Lobo Antunes, há muito que não escreve nada significativo, mas a trilogia O túnel, Sobre heróis e tumbas & Abadon, o exterminador merecia ser homenageada. Além disso, a Argentina , assim como o Brasil, viu a realeza dos seus  autores morrer (Borges, Cortazar, Bioy Casares, Puig, para ficar nos mais conhecidos mundialmente), sem ter um único Nobel, ao contrário do Chile (com dois prêmios), a Guatemala, a Colômbia e o México…

vargas llosa

O admirável escritor peruano MARIO VARGAS LLOSA também não tem uma produção atual ao nível dos três primeiros, mas o que produziu até os anos 90 o torna mais-que-merecedor do Nobel. Obras-primas: Conversa na catedral, A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, Tia Júlia e o escrevinhador,  Pantaleón e as visitadoras, A casa verde, além de vários outros títulos notáveis (História de Mayta, Elogio da Madrasta, A cidade e os cachorros, O falador, etc). Não bastasse isso, ainda tem os ensaios notáveis (os de Sabato não o são, na minha opinião) como A orgia perpétua, A verdade das mentiras e Contra vento e maré.

umbertoeco

Intelectual fenomenal, cujas obras teóricas já exercem grande sedução (A obra aberta, As formas do conteúdo, Apocalípticos e integrados, Sobre literatura, Seis passeios pelo bosque da ficção, Viagem à irrealidade cotidiana e um vasto etc), o italiano UMBERTO ECO ainda se deu ao luxo de escrever um dos livros mais carismáticos e apaixonantes das últimas décadas (O nome da rosa) e ainda prosseguir na carreira de romancista com os fascinantes O pêndulo de FoucaultA misteriosa chama da Rainha Loana (A ilha do dia anterior tem um argumento  genial e funciona até certo ponto). Neste ano me decepcionei muito com Eco devido ao péssimo e frívolo Não contem com o fim do livro, colóquios dele com Jean-Claude Carrière, porém isso não diminui em nada o quilate da sua obra.

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Seria um prêmio que correria o risco do mal entendido, dada a situação eterna entre Israel e os países árabes, por causa da Palestina. Mas ninguém pode negar que o israelense AMÓS OZ é um dos grandes escritores do mundo. Bastaria ler A caixa preta e o recente Rimas de vida e morte o confirma.

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O maravilhoso escritor espanhol JORGE SEMPRÚN é bom na sua língua (Autobiografia de Federico Sánchez; Vinte anos e um dia), mas também é magistral em francês (A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo, A grande viagem).

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O tcheco (ou boêmio, como ele prefere) MILAN KUNDERA agora escreve diretamente em francês. Mas são as versões francesas dos seus livros tchecos que o tornaram um dos maiores. Obras-primas: A brincadeira, A valsa dos adeuses, Risíveis amores. Chegam bem perto A insustentável leveza do ser, A vida está em outra parte, O livro do riso e do esquecimento, A imortalidade, A ignorância. E tem seus livros de ensaios, notáveis (A arte do romance, A cortina).

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A canadense MARGARET ATWOOD é outro caso de multiplicidade: é ótima contista (Dançarinas), ótima romancista (um dos maiores romances dos últimos anos é Madame Oráculo, mas como esquecer Olho de gato, A vida antes do Homem, O lago sagrado, O assassino cego ou A noiva ladra, entre outros), ótima poeta (embora eu só conheça alguns poemas) e ótima ensaísta (Negociando com os mortos, Buscas curiosas).

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Quem olhar a foto acima e achar muito solene e sério o sérvio MILORAD PAVITCH vai se enganar. Ele é da minha lista o autor mais lúdico, com seus originalíssimos Dicionário Kasar & Paisagem pintada com chá. Pena que quase não tenhamos acesso à sua obra, ela dá tanto prazer a quem gosta de jogos literários como os de Nabokov ou Dürrenmatt, com um toque de Danilo Kis.

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Para mim o maior autor brasileiro ainda vivo, o curitibano DALTON TREVISAN tem um universo absolutamente peculiaríssimo e original, diferente de qualquer outro. Que títulos escolher na sua vasta produção, que começou há exatamente 50 anos com o lançamento do paradigmático Novelas Nada Exemplares?  Qualquer lista tem de forçosamente incluir os geniais A polaquinha; Virgem louca, loucos beijos; A guerra conjugal; O vampiro de Curitiba; A trombeta do anjo vingador; Cemitério de elefantes; O rei da terra

HORS CONCOURS

   Este ano descobri tardiamente o magnífico escritor nigeriano Chinua Achebe, com seu romance fundamental Things Fall Apart (1958), que ganhou o título nacional de O mundo se despedaça. Como a obra de Achebe não se limita a esse livro, e ele é um dos escritores mais importantes do continente africano, que até agora só tem dois prêmios (o de 86, para Wole Soyinka e o de 88 para Naguib Mahfouz, salvo engano), é um nome a se considerar, embora provavelmente 2010 não seja um ano de premiação para a ficção e a prosa, e sim para a poesia.

06/10/2010

Especial Nobel: Os quatro grandes

     Ao que parece, já que nas mais recentes premiações os escritores  foram todos da área da prosa (Herta Müller, Le Clézio, Doris Lessing, Orhan Pamuk, nos últimos quatro anos), em 201o Nobel deve ir para um poeta. Quatro grandes e canônicos poetas brasileiros poderiam ser considerados: o matogrossense de Cuiabá Manoel de Barros, a mineira de Divinópolis Adélia Prado, o alagoano de Maceió Lêdo Ivo e o gaúcho de Porto Alegre Carlos Nejar,

       Foi lançado há alguns meses um impressionante volume da Poesia completa, de Manoel de Barros, reunindo sua produção de 1937 a  2010, em 21 livros. E eu que só conhecia três ou quatro!

“Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.

Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.

No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de

sol, de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo

mais do que os padres lhes ensinavam no internato.

Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.

Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor

o azul.

E descobriu que uma casca vazia de cigarra esquecida

no tronco das árvores só presta para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as

árvores sao vaidosas.

Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se

transformara, envaidecia-se quando era nomeada para

o entardecer dos pássaros…”

   E essa “dona doida” Adélia Prado, que apareceu nos anos 70 (com o extraordinário Bagagem) na poesia brasileira, dando um novo significafo-requinte à poesia do quotidiano?


Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha, 

com sombrinha infantil e coxas à mostra. 

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

  Considero ao mesmo tempo irregular e poderosa a poesia de Lêdo Ivo, fato decorrente de ele ter uma obra que vem de longo tempo, desde os anos 40 do século passado; curiosamente só vim a conhecer sua produção lírica neste último ano com mais vagar (ao comprar o calhamaço com dua poesia completa), após considerá-lo mais um romancista e ensaísta (admirável), durante muito tempo.

Os Pobres na Estação Rodoviária

Os pobres viajam, Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que
tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem
portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês, sussurram
palavras misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê que doem
na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

 

 

    

    Há uma certa resistência da Universidade em reconhecer o talento maior de Carlos Nejar, mas o poema abaixo deixará claro que se trata de puro preconceito e limitação acadêmica com relação ao poeta de A árvore do mundo & O chapéu das estações:
 
A CHUVA DO VELHO TESTAMENTO (trechos)
      
 
Quis possuir a alma,
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.
 
Quis possuir a alma,
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.
 
Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.
 
Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.
 
Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento”
 
 
“Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?
 
Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?
 
Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.
 
Se o corpo não é seu,
a alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.
 
Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
 
Fui elevado ao corpo”
********************
Trecho de A árvore do mundo  (do mesmo autor)
“O humano é custo,
empresa que se apresta
no deter
e detendo, cobra,.
E sobrando,
se gasta.
 
Mais preciso:
a parede do tempo
de estar vivo.
A parede sem nível
do possível.
 
Salvar? Mas estou salvo,
sou matéria.
 
Nenhum impedimento de subir,
exceto a condição de ser humano.
Mas esta é de romper.
 
Um osso, um plasma, uma epiderme,
o susto.
 
Quanto nos apanha, nos encerra
a popa de uma nau
que é apenas alma.”
 
      Qualquer um deles seria ótima escolha para finalmente o Brasil ganhar um Nobel de literatura, não?

GUIA-MAPA DE ALGUNS NOBELIZÁVEIS

Além dos meus favoritos, alguns outros merecedores do prêmio:

SOLITÁRIOS, PINÇADOS AQUI E ALI NO MAPA:

cees_nooteboom_208

O holandês Cees Nooteboom- Livros indicados: Dia de finados; A seguinte história:

mia_couto_leo_aversa

O moçambicano Mia Couto. Livros indicados: Terra Sonâmbula,  A varanda do frangipani

Ismail+Kadar%C3%A9

O albanês Ismail Kadaré. Walter Salles Jr. mostrou, com sua adaptação, como Abril despedaçado é universal. Outros títulos índicados: Dossiê H,  O palácio dos sonhos

Tariq_Ali

Gosto muito do paquistanês Táriq Ali pelos seus romances Sombras da Româzeira e Medo de Espelhos. Mas também acho admirável ele publicar um livro tão provocativo quanto Piratas do Caribe.

goytisolo

Apesar de Jorge Semprún, acho que  o espanhol Juan Goytisolo  também mereceria o Nobel. Livros indicados: As semanas no jardim, A saga dos Marx

BRASILEIROS

     Vimos tantos escritores maiores nossos morrerem (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Osman Lins,  Jorge Amado, Jorge de Lima, Érico Veríssimo, Murilo Mendes, só para citar alguns), que é uma tristeza imaginar que nunca tivemos um Nobel. Por isso, além de Dalton Trevisan, um dos nomes abaixo podia ser anunciado:

RaduanNassar

Alguém tem dúvida de que Raduan Nassar mereceria por Lavoura Arcaica & Um copo de cólera?

autran

Sou particularmente fã do mineiro Autran Dourado (minha tese de doutorado foi sobre sua obra). Meus livros prediletos: O risco do bordado, Novelário de Donga Novais, Armas &  Corações, Ópera dos mortos e Matéria de carpintaria: uma poética do romance

012lygiafagundes

Lygia Fagundes Telles tem quatro romances lindos (especialmente As meninas e As horas nuas), mas sua obra como contista é notável (Antes do baile verde, O jardim selvagem, Seminário dos ratos, Invenção e Memória)

Rubem Fonseca merece o prêmio não por seus romances, certamente, porém pela sua extraordínárias obra como contista (Feliz ano novo, A coleira do cão, O buraco na parede).

ariano-suassuna

Ariano Suassuna tem uma concepção estética muito particular e articulada, seu teatro é popular, inventivo e de grande penetração (Auto da Compdecida, O casamento suspeitoso) e há o grandioso A pedra do Reino

noll

Nosso grande autor pós-moderno, o gaúcho João Gilberto Noll escreveu uma série de livros notáveis (Bandoleiros, Rastros do verão, Hotel Atlântico, Harmada, O quieto animal da esquina).

ubaldo, o baldo

Confesso que não vou com a cara do “buda ditoso” João Ubaldo Ribeiro. Mas ele teve uma fase tão inspirada (Sargento Getúlio, Vila Real, Livro de Histórias), que nunca mais se repetiu, a não ser em alguns lampejos (Diário do Farol), talvez devido à vaidade, que ele não pode ser descartado. Difícil seria aturá-lo depois.

HISPANO-AMERICANOS

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Irregularíssimo o mexicano Carlos Fuentes. Um livro como Terra Nostra é ao mesmo tempo ambicioso, monstruoso, cheio de coisas boas e ruins. Mas quando ele acerta, ele acerta: Aura, A morte de Artemio Cruz, Gringo Velho, o ensaio A geografia do romance

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Alan Pauls escreveu o romance (O passado) que rivaliza com Detetives selvagens, do falecido Roberto Bolaño, como livro supremo da década entre os hispano-americanos. Que estilo!

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Ricardo Piglia é outro nome que não pode ser esquecido na pós-modernidade: A cidade ausente, Respiração Artificial, Nome Falso, o ensaio Formas Breves

PORTUGUESES

AgustinaBessaL

Este ano pude conhecer melhor a obra de Lídia Jorge através do admirável  Combateremos a sombra  mas AGUSTINA BESSA LUÍS é uma precedente admirável. Livros indicados: A sibila, O Mosteiro, A muralha, Fanny Owen, As fúrias, Vale Abraão).

Nunojudice

O poeta Nuno Júdice com sua Poesia Reunida (1967-2000)  e Cartografia de emoções

ITALIANOS

pietro

Pietro Citati também escreveu romanceus, além de ensaios, mas eu o acho genial com suas biografias únicas, admiráveis (Proust, Goethe)

ginzburg

Carlos Ginzburg mostrou que um bom relato histórico pode ser uma narrativa tão poderosa quanto uma ficção, em O queijo e os vermes. Outros grandes livros: Olhos de madeira, Mitos-Emblemas-Sinais, Nenhuma ilha é uma ilha

magris

Claudio Magris escreve livros inclassificáveis que misturam anedotas históricas, apreensão geográfica, considerações filosóficas, análise de autores. É o caso de Danúbio e Microcosmos. Mas também é autor de uma ficção tão fina (em todos os sentidos da palavra) como O senhor vai entender.

camilleri

Andrea Camilleri faria honra à grande literatura siciliana com suas obras policiais (O cão de terracota, O ladrão de merendas) e as históricas (Um fio de fumaça, Por uma linha telefônica, A ópera maldita)

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Roberto Calasso tnto pode escrever finas fantasias ficcionais utilizando a mitologia (Ka) quanto ensaios maravilhosos (K., A literatura e os deuses, Os 49 degraus)

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O peculiaríssimo Aldo Busi, sensação nos anos 80, com Seminário sobre a juventude e Vida padrão de um vendedor provisório de collants

ALEMÃES

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O dramaturgo Tankred Dorst de Diante dos muros da cidade, mas principalmente por Merlin, a visão mais original da história

christa wolf

Assim como Claudio Magris, Christa Wolf escreveu um livro inclassificável, Cassandra. E o belo Em busca de Christa T.

handke_p_01

Por onde anda o outrora tão (merecidamente) badalado austríaco  Peter Handke de A repetição, O medo do goleiro diante do pênalti, O movimento errado, A mulher canhota? Será que Elfried Jelinek (vencedora em 2004) acabou com todas as suas chances?

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