BLOG DO ALFREDO MONTE

06/10/2009

ESPECIAL NOBEL: meus favoritos

Pode ser que nunca ganhem, mas esses são os meus doze favoritos para o Nobel:

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O norte-americano DON DeLILLO, o maior autor do nosso tempo,  a prova de que a pós-modernidade não enfraqueceu em nada a ficção, com pelo menos quatro livros fundamentais: Submundo, Mao II, Cosmópolis & Ruído Branco

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O maior contador de histórias do nosso tempo, o grande fabulador anglo-indiano SALMAN RUSHDIE, mestre do  romance rocambolesco.  Obras-primas: Os filhos da meia-noite; O último suspiro do mouro, Os versos satânicos; chegam bem perto: O chão qae ela pisa, Haroun e o mar de Histórias, Fúria.

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O deslumbrante autor português ANTÓNIO LOBO ANTUNES, desafiador a cada obra que se lê dele. Embora eu tenha demorado a me acostumar com sua genialidade, agora considero-o o único páreo para Don DeLillo em termos de abrangência e originalidade. Obras-primas supremas: Eu hei-de amar uma pedra & Fado Alexandrino. Outros livros essenciais: Conhecimento do Inferno, Os cus de judas, Auto dos Danados. E etc…

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O quase centenário (tem 98 anos) autor argentino ERNESTO SÁBATO. Ao contrário de DeLillo, Rushie & Lobo Antunes, há muito que não escreve nada significativo, mas a trilogia O túnel, Sobre heróis e tumbas & Abadon, o exterminador merecia ser homenageada. Além disso, a Argentina , assim como o Brasil, viu seus maiores autores morrerem (Borges, Cortazar, Bioy Casares, Puig), sem ter um único Nobel.

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O admirável escritor peruano MARIO VARGAS LLOSA também não tem uma produção atual do nível dos três primeiros, mas o que produziu até os anos 90 o torna mais-que-merecedor do Nobel. Obras-primas: Conversa na catedral, A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, Tia Júlia e o escrevinhador,  Pantaleón e as visitadoras, A casa verde, além de vários outros títulos notáveis (História de Mayta, Elogio da Madrasta, A cidade e os cachorros, O falador, etc). Não bastasse isso, ainda tem os ensaios notáveis (os de Sabato não o são) como A orgia perpétua, A verdade das mentiras e alguns textos de Contra vento e maré.

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Intelectual fenomenal, cujas obras teóricas já exercem grande sedução (A obra aberta, As formas do conteúdo, Apocalípticos e integrados, Sobre literatura, Seis passeios pelo bosque da ficção, Viagem à irrealidade cotidiana e um vasto etc), o italiano UMBERTO ECO ainda se deu ao luxo de escrever um dos livros mais carismáticos e apaixonantes das últimas décadas (O nome da rosa) e ainda prosseguir na carreira de romancista com os fascinantes O pêndulo de FoucaultA misteriosa chama da Rainha Loana (A ilha do dia anterior tem um argumento e até certo ponto é genial). 

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Seria um prêmio que correria o risco do mal entendido, dada a situação eterna entre Israel e os países árabes, por causa da Palestina. Mas ninguém pode negar que o israelense AMÓS OZ é um dos grandes escritores do mundo. Bastaria ler A caixa preta e o recente Rimas de vida e morte o confirma.

 

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O maravilhoso escritor espanhol JORGE SEMPRÚN é bom na sua língua (Autobiografia de Federico Sánchez; Vinte anos e um dia), mas também é magistral em francês (A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo, A grande viagem).

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O tcheco (ou boêmio, como ele prefere) MILAN KUNDERA agora escreve diretamente em francês. Mas são as versões francesas dos seus livros tchecos que o tornaram um dos maiores. Obras-primas: A brincadeira, A valsa dos adeuses, Risíveis amores. Chegam bem perto A insustentável leveza do ser, A vida está em outra parte, O livro do riso e do esquecimento, A imortalidade, A ignorância. E tem seus livros de ensaios, notáveis (A arte do romance, A cortina).

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A canadense MARGARET ATWOOD é outro caso de multiplicidade: é ótima contista (Dançarinas), ótima romancista (um dos maiores romances dos últimos anos é Madame Oráculo, mas como esquecer Olho de gato, A vida antes do Homem, O lago sagrado, O assassino cego ou A noiva ladra, entre outros), ótima poeta (embora eu só conheça alguns poemas) e ótima ensaísta (Negociando com os mortos, Buscas curiosas).

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Quem olhar a foto acima e achar muito solene e sério o sérvio MILORAD PAVITCH vai se enganar. Ele é da minha lista o autor mais lúdico, com seus originalíssimos Dicionário Kasar & Paisagem pintada com chá. Pena que quase não tenhamos acesso à sua obra, ela dá tanto prazer a quem gosta de jogos literários como os de Nabokov ou Dürrenmatt, com um toque de Danilo Kis.

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Para mim o maior autor brasileiro ainda vivo, o curitibano DALTON TREVISAN tem um universo absolutamente peculiaríssimo e original, diferente de qualquer outro. Que títulos escolher na sua vasta produção, que começou há exatamente 50 anos com o lançamento do paradigmático Novelas Nada Exemplares?  Qualquer lista tem de forçosamente incluir os geniais A polaquinha; Virgem louca, loucos beijos; A guerra conjugal; O vampiro de Curitiba; A trombeta do anjo vingador; Cemitério de elefantes; O rei da terra

GUIA-MAPA DE ALGUNS NOBELIZÁVEIS

Além dos meus favoritos, alguns outros merecedores do prêmio:

SOLITÁRIOS, PINÇADOS AQUI E ALI NO MAPA:

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O holandês Cees Nooteboom- Livros indicados: Dia de finados; A seguinte história:

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O moçambicano Mia Couto. Livros indicados: Terra Sonâmbula,  A varanda do frangipani

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O albanês Ismail Kadaré. Walter Salles Jr. mostrou, com sua adaptação, como Abril despedaçado é universal. Outros títulos índicados: Dossiê H,  O palácio dos sonhos

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Gosto muito do paquistanês Táriq Ali pelos seus romances Sombras da Româzeira e Medo de Espelhos. Mas também acho admirável ele publicar um livro tão provocativo quanto Piratas do Caribe.

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Apesar de Jorge Semprún, acho que  o espanhol Juan Goytisolo  também mereceria o Nobel. Livros indicados: As semanas no jardim, A saga dos Marx

BRASILEIROS

     Vimos tantos escritores maiores nossos morrerem (Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Nélson Rodrigues, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Osman Lins,  Jorge Amado, Jorge de Lima, Érico Veríssimo, Murilo Mendes, só para citar alguns), que é uma tristeza imaginar que nunca tivemos um Nobel. Por isso, além de Dalton Trevisan, um dos nomes abaixo podia ser anunciado:

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Alguém tem dúvida de que Raduan Nassar mereceria por Lavoura Arcaica & Um copo de cólera?

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Sou particularmente fã do mineiro Autran Dourado (minha tese de doutorado foi sobre sua obra). Meus livros prediletos: O risco do bordado, Novelário de Donga Novais, Armas &  Corações, Ópera dos mortos e Matéria de carpintaria: uma poética do romance

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Lygia Fagundes Telles tem quatro romances lindos (especialmente As meninas e As horas nuas), mas sua obra como contista é notável (Antes do baile verde, O jardim selvagem, Seminário dos ratos, Invenção e Memória)

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Adélia Prado tem uma obra poética belíssima (Bagagem, O coração disparado, Terra de Santa Cruz, O pelicano).

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Outra obra poética considerável é a  de Manoel de Barros (O livro da ignorãças, Retrato do artista quando coisa, Tratado geral das grandezas do ínfimo, Livro das pré-coisas).

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Rubem Fonseca merece o prêmio não por seus romances, certamente, porém pela sua extraordínárias obra como contista (Feliz ano novo, A coleira do cão, O buraco na parede).

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Ariano Suassuna tem uma concepção estética muito particular e articulada, seu teatro é popular, inventivo e de grande penetração (Auto da Compdecida, O casamento suspeitoso) e há o grandioso A pedra do Reino

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Nosso grande autor pós-moderno, o gaúcho João Gilberto Noll escreveu uma série de livros notáveis (Bandoleiros, Rastros do verão, Hotel Atlântico, Harmada, O quieto animal da esquina).

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Confesso que não vou com a cara do “buda ditoso” João Ubaldo Ribeiro. Mas ele teve uma fase tão inspirada (Sargento Getúlio, Vila Real, Livro de Histórias), que nunca mais se repetiu, a não ser em alguns lampejos (Diário do Farol), talvez devido à vaidade, que ele não pode ser descartado. Difícil seria aturá-lo depois.

HISPANO-AMERICANOS

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Irregularíssimo o mexicano Carlos Fuentes. Um livro como Terra Nostra é ao mesmo tempo ambicioso, monstruoso, cheio de coisas boas e ruins. Mas quando ele acerta, ele acerta: Aura, A morte de Artemio Cruz, Gringo Velho, o ensaio A geografia do romance

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Alan Pauls escreveu o romance (O passado) que rivaliza com Detetives selvagens, do falecido Roberto Bolaño, como livro supremo da década entre os hispano-americanos. Que estilo!

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Ricardo Piglia é outro nome que não pode ser esquecido na pós-modernidade: A cidade ausente, Respiração Artificial, Nome Falso, o ensaio Formas Breves

PORTUGUESES

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Conheço pouco a obra de Lídia Jorge (O dia dos prodígios), que muitos consideram notável, mas AGUSTINA BESSA LUÍS é uma precedente admirável. Livros indicados: A sibila, O Mosteiro, A muralha, Fanny Owen, As fúrias, Vale Abraão).

Nunojudice

O poeta Nuno Júdice com sua Poesia Reunida (1967-2000)  e Cartografia de emoções

ITALIANOS

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Pietro Citati também escreveu romanceus, além de ensaios, mas eu o acho genial com suas biografias únicas, admiráveis (Proust, Goethe)

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Carlos Ginzburg mostrou que um bom relato histórico pode ser uma narrativa tão poderosa quanto uma ficção, em O queijo e os vermes. Outros grandes livros: Olhos de madeira, Mitos-Emblemas-Sinais, Nenhuma ilha é uma ilha

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Claudio Magris escreve livros inclassificáveis que misturam anedotas históricas, apreensão geográfica, considerações filosóficas, análise de autores. É o caso de Danúbio e Microcosmos.

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Andrea Camilleri faria honra à grande literatura siciliana com suas obras policiais (O cão de terracota, O ladrão de merendas) e as históricas (Um fio de fumaça, Por uma linha telefônica, A ópera maldita)

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Roberto Calasso tnto pode escrever finas fantasias ficcionais utilizando a mitologia (Ka) quanto ensaios maravilhosos (K., A literatura e os deuses, Os 49 degraus)

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O peculiaríssimo Aldo Busi, sensação nos anos 80, com Seminário sobre a juventude e Vida padrão de um vendedor provisório de collants

ALEMÃES

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O dramaturgo Tankred Dorst de Diante dos muros da cidade, mas principalmente por Merlin, a visão mais original da história

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Assim como Claudio Magris, Christa Wolf escreveu um livro inclassificável, Cassandra. E o belo Em busca de Christa T.

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Por onde anda o outrora tão (merecidamente) badalado Peter Handke de A repetição, O medo do goleiro diante do pênalti, O movimento errado, A mulher canhota?

04/10/2009

Especial Nobel: o caso norte-americano

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1976 foi o último ano em que um grande escritor norte-americano, no caso Saul Bellow, ganhou o Nobel (isso porque não acho que Toni Morrison, premiada em 1993, seja um grande escritor norte-americano). A galeria de fotos acima permite mostrar o quanto isso foi injusto (ao longo dos anos, morreram autores do naipe de Truman Capote, John Cheever, Bernard Malamud, Richard Price, William Styron, Norman Mailer, John Updike) e como a literatura norte-americana tem sido esnobada, apesar do seu impacto mundial, queira-se ou não.

     Na foto 1 temos Philip Roth, que compartilha com Mario Vargas Llosa & Dalton Trevisan a efeméride de completar meio século de carreira em 2009. Sua condição é a de eterno candidato, ficou um pouco como Martin Scorsese com o Oscar (até ganhar com Os infiltrados). O que dizer? Roth é um dos maiores e ainda mantém uma notável e constante produção. Em anos recentes, pelo menos três romances dele atingiram um altíssimo grau de realização, O teatro de Sabbath, Pastoral americana & A marca humana. Além disso, temos os clássicos Complexo de Portnoy & Diário de uma ilusão, entre outros.

    Na foto 2, temos a grande Joyce Carol Oates, outra que é prolífica, sempre produzindo, desde os anos 60, e que tem títulos recentes que não passam vergonha ao lado de realizações mais antigas: A falta que ela me faz, A filha do coveiro. E Eles passou  até pelo crivo até Harold Bloom (que não me parece muito fã dela), embora da safra mais antiga eu prefira Um jardim de delícias.

   Na foto 3, uma lenda viva, um autor que talvez seja o candidato natural ao prêmio: J.D. Salinger, cuja pequena (em termos de títulos) obra se tornou mítica: O apanhador no campo de centeio, Nove estórias, Franny & Zooey, Seymour- uma introdução…

    Na  foto 4, o mais discreto dos autores geniais: Louis Begley, que escreveu o famoso Sobre Schmidt, mas que tem realizações ainda mais impressionantes, desde a sua estréia com Infância de mentira, como o clássico O homem que sempre se atrasava.

    Na foto 5, a autora de Democracia, um dos romances que mais amo, Joan Didion. Ela freqüentou nos últimos tempos a lista dos mais vendidos com o relato do seu luto pelo marido John Gregory Dunne (O ano do pensamento mágico), mas não podemos esquecer que ela é ótima ensaísta (O álbum branco), além da sua ficção (A última coisa que ele queria).

    Na foto 6, o maior fabulador da ficção americana, mestre em criar histórias intrincadas e belas: John Irving, cujo romance mais bonito é As regras da casa de Sidra, mas que escreveu outros clássicos como O mundo segundo Garp, Hotel New Hampshire e Viúva por um ano.

      Na foto 7, o ilusionista Paul Auster, capaz de criar intrincados labirintos borgianos em molduras narrativas acessíveis e populares. Por obra do acaso (!?) também foi aquele que eu acompanhei mais pormenorizadamente nas minhas resenhas, nas quais já comentei desde Trilogia de Nova Iork, o grande clássico austeriano, até realizações mais recentes e belas como O livro das ilusões, Noite do oráculo & Homem no escuro, passando pelas suas obras-primas A musica do acaso & Leviatã.

     Na foto 8, outro autor misterioso e paradigmático com relação à pós-modernidade, e talvez o mais radical dos autores norte-americanos: Thomas Pynchon. É engraçado que eu tenha lido suas  ciclópicas, gigantescas realizações paranóicas, V e O arco-íris da gravidade e um livro mais curto O leilão do lote 39 sempre esteja fugindo de mim ao longo da minha vida de leitor.

  Na foto 9, outro autor original, mais antigo, mas fundamental para se entender a pós modernidade: John Barth, o menos conhecido no Brasil, porque aqui só foram traduzidos poucos títulos da sua obra, como o excepcional A Ópera Flutuante e as experiências radicais de Quimera.

     Na foto 10, um daqueles autores que criam em torno de um espaço peculiar, de uma gente específica, no caso o pessoal de ascendência irlandesa de Albany: William Kennedy, o qual lentamente (com Legs & A grande jogada de Billy Phelan) foi desenhando seu mundo até chegar às culminâncias de Ironweed e O ramalhete em chamas.

    Na foto 11, um arqueólogo das mentalidades, E.L. Doctorow, sempre relendo o passado americano com uma inteligência suprema até chegar recentemente à guerra de Secessão em A Marcha. Mas tivemos Ragtime, Loon Lake- O lago da solidão, Billy Bathgate e os maravilhosos A grande feira & O livro de Daniel.

    Na foto 12, com cara de cowboy curtido e sem ilusões, Cormac McCarthy, cujo Meridiano de Sangue ganhou nova tradução no Brasil agora, e que na sua obra parece ter materializado a crepuscularidade que o faroeste alcançara no cinema e nunca conseguira na ficção, mesmo que sua narrativa se passe num futuro apocalíptico (A estrada), num presente apocalíptico (Onde os velhos não têm vez) ou num passado apocalíptico (a “trilogia da fronteira”: Todos os belos cavalos, Cidades da planície, A travessia).

     Qualquer um deles merece o Nobel.

     Ainda poderia incluir outros (Anne Tyler, Richard Ford, David Mamet, Sam Shepard, Raymond Carver), mas seria eagero…

02/10/2009

MÚLTIPLA DORIS LESSING

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    Na semana passada, num artigo em que fazia “apostas” para o Nobel (ver abaixo), declarei que o primeiro nome a vir à minha mente era o de Doris Lessing. Era, na verdade mais uma indicação do gosto pessoal persistente, revelando uma paixão que dura há um quarto de século (a primeira vez que a li foi em 82, e comecei já com um dos melhores, Roteiro para um passeio ao inferno) do que uma aposta: aquela que é o maior nome vivo da ficção (agora com 87 anos) fora preterida nas duas oportunidades em que deram o prêmio a escritoras de língua inglesa: em 91, para Nadine Gordimer (fina estilista, autora de romances excelentes, e por quem eu tenho o maior respeito, só que seria o mesmo que premiar Lygia Fagundes Telles no lugar de Clarice Lispector); e em 93, para Toni Morrison, em minha opinião uma escritora decepcionante e menor, embora a unanimidade da crítica em torno de obras (Amada, A canção de Solomon, Jazz, Paraíso) que eu considero recheada de partes ridículas e constrangedoras, me leve a crer que o erro de percepção é meu, e se trata de uma incompatibilidade fundamental mais do que um juízo crítico.

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    Parecia pouco provável que a essa altura do campeonato lhe atribuíssem o prêmio. E que surpresa: 50 anos após o anúncio de Albert Camus como ganhador, sai da caixinha o nome de um autor que me influenciou tanto quanto ele. Considero a premiação mais relevante desde 1969 (o ano de Samuel Beckett). Não que, de lá para cá, não fossem anunciados grandes nomes (Neruda, Soljenítisin, Bellow, Singer, Montale, Canetti, William Golding, Claude Simon, Pinter, Saramago, Naguib Mafhouz, Octavio Paz, Coetzee, Günter Grass), porém nenhum deles foi, é ou será o que Doris Lessing representa: um mundo, a recuperação épica de toda as fraturas individuais e desmoronamentos coletivos das últimas décadas, uma romancista de quem vários títulos parecem conter toda a vida, e que ainda por cima, numa chave mais miniaturista, a do conto, consegue igual maestria.

    Quando ela estreou na literatura, em 1950, chegando a Londres, aos 30 anos, vinda da África (nasceu no Irã, em 1919, que então era a romanesca Pérsia), com The Grass is singing-A canção da relva, no qual conta a história de uma fazendeira branca assassinada por um criado negro, com quem tivera relações, parecia uma estilista tão fina quanto sua colega Nadine Gordimer, na tradição flaubertiana, capaz de tratar um tema explosivo com grande elegância. Volta e meia, aliás, ela publica um livro “perfeito” e bem acabado, talvez para nos mostrar: olha o que eu poderia ter sido, como eu faria bem isso…

    Mas assim com a parede do apartamento da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente insiste em se abrir para outros tempos e outras possibilidades da realidade, os romances de Doris Lessing começaram a romper os diques da mera ficção (enquanto isso ela estabelecia um sólido nome como contista, com suas histórias africanas, reunidas em dois volumes obrigatórios a qualquer um que ame a arte da narrativa, no Brasil intitulados A terra do velho chefe e Sabores do exílio).

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    Isso aconteceu com duas obras-primas: 1º.) o ciclo de cinco romances que acompanha a protagonista Martha Quest da infância na África até a Terceira Guerra Mundial, Os filhos da violência, iniciado em 1952 e só concluído em 1969, com A cidade de quatro portas. Para mim, é a única realização romanesca do século XX a rivalizar com Guerra e Paz, em abrangência e ímpeto épico, e que lhe valeu o epíteto (dado por Irving Howe) de “arqueóloga das relações humanas”. Não é que a ficção lessinguiana seja epigonal ao realismo do século XIX, não, ela é tomada pelo mesmo furor arcaico e homérico do velho Tolstoi, um talento que parece natural, nem parece “literatura”. É claro que isso é mentira, sua fabulação é tão construída como a de qualquer outro, mas o efeito é poderoso e único; 2º.) o seu romance mais famoso, The golden notebook- O carnê dourado, onde a heroína, Anna Wulf, enfrenta a loucura e a fragmentação, o caos do mundo à sua volta, subdividindo-os em diferentes cadernos que procuram conter a realidade, até que essas frágeis molduras também explodem. Embora O carnê dourado tenha sido encampado como bíblia do feminismo, a sua incomparável arquitetura narrativa e seu visionarismo sempre o resgatarão de ficar datado e reduzido a um manifesto.

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    Se Doris Lessing tivesse ficado por aí, já seria um dos maiores nomes da literatura. A partir da sua adesão ao sufismo, ela parece ter ficado cada vez mais ousada literariamente. Além de dois contos longos antológicos, O quarto 19 (homenageado em As horas) e A tentação de Jack Orkney (onde o protagonista, comunista, é contagiado pela idéia da existência de Deus), em 1971 aparecia Roteiro para um passeio ao inferno, que começa em pleno delírio do protagonista, um professor de literatura que “pira” e mistura medos pessoais, arquétipos e mitos civilizatórios. Aos poucos, ficamos sabendo que ele foi enviando por instâncias intergalácticas (ou deuses) para cumprir uma missão, mas a esqueceu e se perdeu na condição humana (daí, o sentido literal do título, “instruções para uma descida aos infernos”); em 1973, apareceu o livro que a tornou famosa no Brasil, O verão antes da queda (que está na linha daqueles livros que citei mais atrás, no comentário a The Grass is singing); em 1974, um ponto alto da sua produção, Memórias de um sobrevivente, que prenunciava um pouco o que estava para vir: no final da década de 70, Lessing se lançou na criação de uma série cosmológica, que contava os embates entre dois impérios, o de Canopus, e o de Sirius (um contra-império maléfico, Shammat, representava o desequilíbrio entre ambos). Os agentes de Sirius não conseguiam compreender os métodos e intenções dos agentes de Canopus porque acreditavam na tecnologia, no progresso material, na racionalização do mundo.

    O primeiro resultado dessa confrontação (resumida aqui de forma tão simplória) foi Shikasta, o meu favorito pessoal entre todos os livros de Doris Lessing, numa preferência absolutamente aliterária. É uma lindíssima reescritura da história da Terra, e ainda que esnobado por críticos do naipe de George Steiner e Harold Bloom, acho que é um dos livros necessários na bagagem de qualquer existência. Por isso, considero-o além do literário.

    O outro grande livro da saga, e complementar, é As experiências de Sirius, que tem algumas das cenas mais lindas já escritas pela grande escritora britânica.  Mas há dois outros volumes onde se pode dizer que ela atingiu a perfeição absoluta do relato literário, duas jóias de ourivesaria narrativa: Os casamentos entre as zonas 3,4 e 5 e Planeta 8-Operação Salvamento.

    Quando a série termina, com Os agentes sentimentais, parece que é mais por desinteresse do que por outra coisa. O livro não é ruim, mas parece uma dramatização literária das suas idéias sintetizadas num livro emblemático: Prisão que escolhemos para viver:

 

Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para minha vida, que agora conta 60 anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro; pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela. E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo, violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convém, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada que, para mim, é a única maneira de chegarmos à verdade (…) Todo avanço do mundo, todo o seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo.”

 

    Por essa época, ela criou um alter ego e enganou as editoras e meios de comunicação na Inglaterra, com Jane Somers, uma escritora “menor” e bem acomodada à tradição da narrativa britânica. Da brincadeira resultaram Diário de uma boa vizinha e Se os velhos pudessem. A “verdadeira” Doris Lessing produzia, por sua vez, mais um grande e provocativo livro (que veio divulgar no Brasil), The good Terrorist- A terrorista. Já parecia, contudo, estar perdendo o fôlego.

      Alguns anos depois, porém, reaparecia em plenos anos 90, com um romance maravilhoso e inusitado: Amor, de novo. E lançava pouco depois dois volumes autobiográficos: o primeiro, Debaixo da minha pele, é excepcional; já o segundo, Andando na sombra, deixou um pouco a desejar no seu acerto de contas com o comunismo, talvez porque ela já o tivesse feito em várias ocasiões, na sua ficção, e porque ela minimiza muito sua carreira literária, cujo desabrochar deveria ser o contraponto do livro.

   E agora, na década que estamos vivendo, mais um romance ciclópico, O sonho mais doce (2001), sua chegada ao século XXI. E se alguém acha que ela virou uma doce e boa velhinha, basta ler o malicioso, incisivo e lapidar prefácio que escreveu (em 2003) para textos recuperados de Virginia Woolf (homenageando o único outro nome comparável a ela na literatura inglesa), A casa de Carlyle e outros contos. O prefácio é tão ela, e isso representa uma força tão grande, que até deixa a autora prefaciada em segundo plano.

 (texto publicado em duas partes, em 13 de outubro e 20 de outubro de 2007)

APOSTAS PARA O NOBEL

    Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

    Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

    Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

    Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

    A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

    É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

    Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

    Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

     E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

    Apostas feitas.

(resenha publicada em 6 de outubro de 2007)

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O NOBEL DO NÔMADE

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   Parece que de meio século para cá a literatura francesa só entra nos cálculos para o Nobel de vinte em vinte anos. Pelo menos quando escolhem um francês, acertam em cheio. Em 1964, Jean-Paul Sartre teve a chance de esnobar sua premiação e utilizá-la como plataforma para declarações políticas bombásticas (e isso no ano em que escrevia um de seus textos supremos, As Palavras, na qual tentava exorcizar e liquidar sua “neurose da literatura”). Em 1985 (portanto, vinte e um anos depois), o mundo descobria maravilhado um autor original, desconcertante, detentor do segredo de uma maneira de narrar extremamente pessoal: o genial Claude Simon, que tem pelo menos dois “romances” extraordinários publicados no Brasil: A Estrada de Flandres e As Geórgicas (infelizmente, não traduziram o fascinante Histoire).

    Agora, vinte e três anos passados (se não se contar a premiação, em 2000, do chinês naturalizado Gao Xingjian), chega a vez de Jean-Marie Gustave Le Clézio. Nome chiquíssimo, que podia ser de grife de alta-costura. Não é. J.M.G. Le Clézio, como eu já afirmei na semana passada  (VER ABAIXO) com relação a ele e a Patrick Modiano (o qual, tenho quase certeza, utilizou o colega como modelo para um dos personagens de Rue des Boutiques Obscures; os dados familiares são muito parecidos), é um dos poucos sobreviventes da irrelevância que faz da França atualmente uma “waste land” em termos literários. Tanto que durante muitos anos um autor cotadíssimo para o prêmio, considerado algo assim como o “maior autor francês da atualidade”, era o medíocre Michel Tournier, que em obras mais recentes revelou a sua verdadeira ambição oculta (e alcance de vôo estético): ser Paulo Coelho versão Astérix.

    No meu artigo da semana passada também chamei Le Clézio de “intrigante”.  É lógico que desde que soube do prêmio não tive chance de reler nenhuma de suas obras (devo informar que só conheço três: Deserto, À Procura do Ouro e A Quarentena; se a vida fosse ideal, teríamos tempo de acompanhar integralmente a carreira dos escritores que admiramos, contudo, como é tudo que ela não é, nunca dá para ler tudo o que queremos; há anos tento reservar tempo para conhecer o primeiro e consagrado romance dele, Le Procès-Verbal, e não consigo sequer ler as duas últimas traduções que fizeram aqui no Brasil: Peixe Dourado e O Africano!), mas andei pensando nesse termo que escolhi. Intrigante. Acho que deveria dizer “sortudo”.

    Há escritores que além do talento e do fôlego narrativo, além da finura e virtuosismo estilísticos, ainda por cima têm sorte. Le Clézio é um grande escritor, disso não há dúvida, só que ainda teve atrás de si uma família romanesca, que emigrou da Bretanha para a Ilha Maurício (e depois refez o caminho inverso, processo reconstruído e desconstruído pelo autor de Deserto). E não só isso: ao começar a escrever, no início dos anos 60, ele pegou toda a onda final do colonialismo francês (e da Europa em geral) e aplicou a esse cenário seu temperamento muito peculiar de nômade introspectivo, fazendo da viagem um mote narrativo e das “paradas obrigatórias” (como no maravilhoso capítulo de À Procura do Ouro em que “prisioneiro do mar”, retido na enseada dos Anglais, o narrador revê a configuração da sua vida e jornada) mergulhos em profundidade na condição humana (vista sob uma lente mais ampla e minuciosa do que o tradicional ponto de vista eurocêntrico). Ainda que eu considere Deserto e A Quarentena dois dos melhores e mais requintados romances das últimas décadas, e literariamente superiores, confesso que minha preferência recai sobre À Procura do Ouro por duas razões principais, embora nem um pouco racionais. Em primeiro lugar, assim como uma parte da obra de Robert Louis Stevenson (A Ilha do Tesouro e as aventuras de David Balfour, como Raptado), o livro me faz voltar à infância, quando eu não queria literatura, queria aventura, e agora que a aventura se foi (pelo menos da maneira como eu a idealizava), ficou a literatura; então, que elas pelo menos coincidam uma vez ou outra, que um livro mostre uma caça ao tesouro em cenários variados e “exóticos”, enquanto o narrador se auto-esclarece tanto quanto o Marcel de Em Busca do Tempo Perdido ou o Jim de Lord Jim ou o Riobaldo de Grande Sertão: Veredas. Em segundo lugar, é isso aí: por alguma razão do destino, o francês Le Clézio realizou a mais estranha (e aí sim posso recolocar o adjetivo “intrigante”) simbiose concebível: entre Conrad e Proust, a aventura se tornando uma constituição da subjetividade, da memória e da ressignificação dos seres e das coisas, Não me lembro de nenhum caso parecido, ou no qual isso se dê de modo tão natural.

    Outro grande escritor contemporâneo, o espanhol Juan Goytisolo, disse: “A intimidade e a distância criam uma situação privilegiada. Ambas são necessárias”. Jacques Derrida convidava os leitores a “pensar em viagem”. Devo essas duas citações a Zygmunt Bauman que, no final de Modernidade Líquida afirmava que o exílio (não necessariamente político) faz bem ao escritor. Intimidade com a língua, distância dos modos usuais e automáticos. E as seguintes palavras servem como uma luva a J.M.G. Le Clézio, esse escritor do nomadismo e da viagem incessante: “Em vez de ser sem pátria, o segredo é estar à vontade em muitas pátrias, porém estar em cada uma ao mesmo tempo dentro e fora, combinar a intimidade com a visão crítica de um estranho, envolvimento com distância, o que as pessoas sedentárias  dificilmente aprendem… A liberdade que vem dessa condição (que é essa condição) revela que as verdades caseiras são feitas e desfeitas pelo homem e que a língua materna é um fluxo infindável de comunicação entre as gerações e um tesouro de mensagens sempre mais ricas que quaisquer de suas leituras e sempre à espera de serem novamente reveladas”.

    Em tempo: me parece que o Nobel está se revelando um prêmio mais vivo do que se podia esperar.

resenha publicada de forma mais condensada em 11 de outubro de 2008

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E O NOBEL VAI PARA…

Com o tardio e justíssimo prêmio para Doris Lessing no ano passado, e mais três autores de língua inglesa laureados nesta última década (V. S. Naipaul, J. M. Coetzee e Harold Pinter), é melhor esquecê-la nas apostas para o Nobel de 2008 (a não ser que haja uma surpresa), o que significa excluir uma série de grandes escritores, inclusive os dois autores vivos que, a meu ver, são os que mais merecem o prêmio: o norte-americano Don DeLillo (o que existe de melhor que Mao II, Submundo e Cosmópolis?) e o anglo-indiano Salman Rushdie (é difícil dizer qual a sua grande obra: Os Filhos da Meia-Noite, O Último Suspiro do Mouro, Os Versos Satânicos, Fúria).

    Então, nada mais natural do que ele ir para o italiano Umberto Eco, não só um prodigioso intelectual, como ainda autor de uma já considerável obra ficcional, entre eles o clássico O Nome da Rosa. Nessa linha, aliás, a Itália é imbatível em candidatos, basta lembrar de Carlo Ginzburg (O Queijo e Os Vermes), Pietro Citati (autor de fascinantes biografias, entre elas as de Proust e Goethe) e Roberto Calasso (Ka e K.), os quais conciliam o talento narrativo com o rigor como pensadores.

    Além de Eco, outro vencedor natural deveria ser o peruano Mario Vargas Llosa (Conversa na Catedral, A Guerra do Fim do Mundo, Lituma nos Andes, só para citar uns poucos títulos de uma produção com poucos escorregões, o que não se pode dizer da carreira política de Llosa), mas a Argentina conta com o venerável, grandioso e quase centenário (daqui a três anos) Ernesto Sabato (e como esquecer Sobre Heróis e Tumbas, O Túnel e Abadón, O Exterminador ?); e o Uruguai e o México têm os octogenários Mario Benedetti (A Trégua, A Borra do Café) e Carlos Fuentes (Aura, A Morte de Artemio Cruz, Cristóvão Nonato, Gringo Velho). Na Argentina, dois dos melhores autores contemporâneos pertencem a gerações mais recentes, Ricardo Piglia (A Cidade Ausente, Respiração Artificial) e Alan Pauls (fiquei apaixonado por O Passado e agora estou apaixonado por Wasabi e História do Pranto).

    Aqui também temos os nossos veneráveis e ótimos candidatos: Dalton Trevisan (que título escolher do nosso gênio maior: Cemitério de Elefantes, A Trombeta do Anjo Vingador, O Vampiro de Curitiba, A Polaquinha?); Autran Dourado (O Risco do Bordado, Ópera dos Mortos, Novelário de Donga Novais, Armas & Corações), Adélia Prado (Bagagem, O Coração Disparado, O Pelicano). Em português também, como esquecer o moçambicano Mia Couto e suas obras-primas Terra Sonâmbula e A Varanda do Frangipani?

    Voltando à Europa, o espanhol Jorge Semprún seria outro excelente candidato ao prêmio (ele ainda teve o requinte de escrever em outra língua, o francês), por livros como A Grande Viagem, A Segunda Morte de Ramón Mercader, Um Belo Domingo. Seu maior “rival”, por assim dizer, é o mestre da ironia Juan Goytisolo, autor de A Saga dos Marx.

    Na França, o maior dos candidatos é um expatriado, o tcheco Milan Kundera, que passou a escrever na língua do seu país de adoção (A Identidade, A Ignorância), mas já era mais conhecido pelas traduções francesas das sua extraordinária obra anterior (A Brincadeira, A Valsa dos Adeuses, O Livro do Riso e do Esquecimento, Risíveis Amores, A Insustentável Leveza do Ser). É um dos que eu ficaria particularmente feliz se ganhasse. Entre os “nativos” (palavra cada vez mais problemática), por que não Patrick Modiano (A Rua das Lojinhas Mal Iluminadas, Ronda da Noite) ou o intrigante J. M. G. Le Clézio (Deserto, À Procura do Ouro, A Quarentena), ambos sobreviventes honrosos do apocalipse de insignificância e irrelevância daquela que foi a pátria oficial da literatura?

    Na Alemanha, o primeiro nome que vem à cabeça é o de Christa Wolf (Kassandra, Em Busca de Christa T.), embora o desafiador Tankred Dorst (Merlim) e Peter Handke (O Medo do Goleiro Diante do Pênalti) não possam ser esquecidos. Como não se pode esquecer o  holandês Cees Nooteboom (Rituais, A Seguinte História:)

    Três nomes fortes (e que estão entre os meus preferidos) se encontram mais à margem do Ocidente: o albanês Ismail Kadaré (Dossiê H, Abril Despedaçado, O Palácio dos Sonhos); o israelense Amós Oz (do soberbo A Caixa Preta e do recém-lançado Rimas de Vida e Morte), ambos fantásticos romancistas; e o genial servo-croata Milorad Pávitch (O Dicionário Kazar, Paisagem Pintada com Chá).

     Na verdade, na verdade, NA VERDADE, o que eu gostaria mesmo é que o Nobel abrisse uma exceção e se fizesse póstumo para homenagear a vida breve, mas a longa arte do chileno Roberto Bolaño, que morreu em 2003, com 50 anos apenas, e cuja obra (especialmente Detetives Selvagens, só que temos também A Pista do Gelo, Putas Assassinas e a sua poesia, a sua poesia…) está mais do que viva, e agora é que estamos sentindo seu impacto. O mesmo se poderia dizer de outro morto precoce (2001), dono de uma obra seminal e cada vez mais importante: o alemão W.G. Sebald (Os Anéis de Saturno, Austerlitz).

 (RESENHA PUBLICADA DE FORMA MAIS CONDENSADA em 4 de outubro de 2008)

 

 

 

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