Fiquei com vontade de comentar alguns novos seriados, uma vez que nas safras anuais sempre há algo de interesse: já tivemos os grandes que acabaram (Mad men, Law & Order, Voyager, Seinfeld, Weeds, só para citar os mais extraordinários), há aqueles que continuam, e em excelente forma (caso de The closer & The Good Wife, The big bang theory, Dexter, Breaking Bad, entre outros), há os que decaíram (a saída de Charlie Sheen foi um baque para Two and half men, a não ser que você queira ver Ashton Kutcher a toda hora seminu; e o que acontece com House, que não dá nem para assistir mais?; tem também a absoluta irrelevância do personagem de Ted Danson, que não acrescentou nada à CSI—poderiam ter deixado a equipe sem líder, após a participação constrangedora de Laurence Fishburne, em péssima forma como ator, a série já tem público e fôlego para isso),há aqueles pelo qual tenho repelência (Mike & Molly, Fringe, Sobrenatural, por exemplo), ou que são iguais a outros, parecem rescaldo (Body of proof, alguém aguenta outra série desse tipo, assim como Alcatraz ou Unforgettable, apesar de marcar o retorno da ótima Poppy Montgomery).
Então, entre as séries mais recentes, destaco (vou excluir The walking deadporque não consigo ter paciência de ver mais zumbis, no entanto toda vez que assisto a uma cena do seriado acho esplêndido, e que revelação é o inglês Andrew Lincoln):
-American Horror Story- a minha favorita de longe, tanto que me tornei viciado, não gosto de perder episódio no horário original (aliás, o último capítulo da temporada, ontem, foi o que me levou a escrever este texto). Finalmente, terror para adultos, nada de coisa adolescente, de sangue espirrando, cabeças cortadas… e que roteiros! Quando a gente pensa que nunca conseguirão extrair mais nada do mote batidíssimo da casa mal assombrada, aparece essa série notável. Há certas inconsistências (todo mundo fica com a aparência que morreu,mas o personagem da Frances Conroy morreu jovem e envelheceu na casa) e certas bobeiras, além, é claro, dos maneirismos de Jessica Lange (os quais, a meu ver, não chegam a atrapalhar em nada a série), mesmo assim os episódios literalmente hipnotizam a gente, com a história da família toda destruída que vai morar na casa maligna e que acaba morrendo (a filha se suicida, a mulher morre no parto e o marido é enforcado pelos fantasmas) e vira uma família feliz e unida na vida pós-morte (embora com todo o Mal gerado pelo lugar ou pelos moradores do lugar, à volta). Lange se destacou muito nas premiações (levou o Globo de Ouro, o SAG), entretanto fizeram grande injustiça a Connie Britton, uma atriz incrível que pode parecer uma dona-de-casa comum, e de repente esbanjar sensualidade, fúria, ou angústia bergmaniana (ela já mostrara seus poderes como parceira do também ótimo Kyle Chandler em Friday Nigtht lights, série memorável, que acabou no ponto certo), apesar do parceiro discutível (o bonito e sonolento Dylan McDermott) e da filha chatinha (Taissa Farmiga); em compensação, o filho fantasma psicopata de Jessica Lange (e estuprador de Connie Britton, e portanto pai de um filho sobrenatural que causa a morte dela), Evan Peters, tem toda a intensidade e presença em cena que McDermott fica devendo. E os outros “moradores” da casa também são perfeitos.além de Sarah Paulson, como a médium e Christine Estabrook como a corretora.
A temporada foi uma obra-prima. Depois de anos com terror à King & congêneres, é um marco do gênero.
–The Killing- Apesar de ser a versão de uma série dinamarquesa e de lembrar outras coisas (a investigação do assassinato de Laura Palmer, em Twin Peaks), esse é um exemplo de como o “clima” pode sustentar um seriado.O mistério da morte de Rosie Larson é tratado de uma forma tão intensa que transforma cada cena em algo muito forte (e tem gente que diz que os episódios não levavam a nada), até árduo emocionalmente. E independentemente da qualidade da série, a atriz Mireille Enos mereceria todos os prêmios do mundo: ela, com sua cara e roupa de policial proletária, com um casaco maçarocado que a deixa quase sem pescoço, parece a coisa mais comum e apagada, já derrotada de antemão por uma teia de acontecimentos que está muito além do seu alcance, e de repente essa mulher preenche a cena inteira, com uma linguagem corporal e um olhar impressionantes. Depois de uma carreira pra lá de apagada, o rockteer Bill Campbell (de um dos seriados mais xaroposos já vistos, Once and again) finalmente diz a que veio, mas fora Enos (tem também o ótimo e ambíguo parceiro dela, Joel Kinnaman) o destaque vai mesmo para os magníficos pais de Rosie Larson, Brent Sexton & Michelle Forbes
__GRIMM- Apesar do toque banal (o personagem principal ser policial, poderiam ter evitado isso), eu gosto muito dessa série. O episódio em que o porquinho enfrentou os lobos foi bárbaro (na verdade, são pessoas aparentemente comuns, que no entanto pertencem a clãs que remontam aos contos de fada; por exemplo, um lobo mau, vivido por Silas Weir Mitchel, se torna amigo e colaborador do protagonista, vivido pelo belo David Giuntolo, o qual seria um ótimo candidato a Superman, aliás lembra o mais recente e mais bonito, Brandon Routh). Por enquanto, os episódios são bons e bem-amarrados, explorando aspectos modernos que têm a ver com as histórias infantis clássicas. Não é excepcional, como American Horror Story ou The Killing, porém é muito interessante. Se tirassem o aspecto policial, ganharia muito mais, só que parece ser a muleta de 90% das séries.
–The Glades- Este é uma delícia, um seriado policial jocoso e leve, que não tem grandes pretensões (acho que está ficando um pouco sério demais na segunda temporada), funcionando muito bem. Assim como outros seriados até frívolos, mas que eram muito divertidos e competentes (penso, por exemplo, em Burn Notice & Castle; o primeiro me conquistou de cara, o segundo foi conquistando aos poucos), boa parte da aura carismática que The Glades transmite vem do charme do protagonista (o ator Matt Passmore), estamos a léguas daqueles tipos canastrônicos representados pelos medalhões David Caruso (CSI Miami) ou Gary Sinise (CSI Nova York), ou os especialmente insuportáveis Simon Baker (O mentalista) e Tim Roth (péssimo em Lie to me) é um pouco como Scott Caan (Hawai 5 0), Jeffrey Donovan (Burn Notice) ou Nathan Fillion (Castle). Não é o caso de grandes interpretações, de grandes atores, mas de uma leveza inspirada, de um ajuste perfeito ao papel. A parceira, também bonita e competente, Kiele Sanchez, ajuda muito. Eu curto muito.
–Revenge, essa é a série ruim que se adora. Como é péssima, como tem cara de novela mexicana, mas nem por isso dá para perder. Os figurinos (supostamente gente muito rica que passa férias em Hamptons) são atrozes, e há os detalhes que eu acho o máximo: a heroína, vingando-se do grupo que destruiu seu pai, vai a cada episódio colocando um X na cara de cada um (estão reunidos numa foto, é claro). O impressionante é que a linda e ótima atriz canadense Emily van Camp, que já sobrevivera a coisas horríveis como Everwood e Brother & Sisters consegue convencer e emocionar até mesmo com os roteiros chinfrins que tem de enfrentar. Ela é como Laura Linney mais jovem (eu adoro Laura Linney), despontando como um dos grandes talentos da sua geração. Espero que ela algum dia faça alguma coisa realmente boa, que não valha apenas por sua presença. Quanto à Madeleine Stowe, sempre suspeitei de sua canastrice, mas como ela se diverte explorando-a (e sem exageros) nos mínimos detalhes da sua vilã. Foi um absurdo a sua indicação (e não a de van Camp) para o Globo de Ouro, mas não há dúvida que ela sintetiza o espírito de Revenge.
Apesar de ser um seriado bem mais antigo, não posso deixar de saudar o sopro de renovação que atingiu Law & Order- SVU, o qual patinava na ruindade há umas quatro temporadas (já não dava para aguentar a hipertrofia de gente no elenco, sem nada a fazer, já que se focava basicamente as neuroses exageradas da dupla Hargitay & Meloni). Os roteiros melhoraram bastante, a equipe como um todo está sendo bem explorada, há uma harmonia maior entre todos, tiraram (a não ser em pequenas participações) os inúteis B.D. Wong & Tamara Tunie, os dramas pessoais ocupam um espaço mais discreto, e estão dando chance para os convidados brilharem, não em shows de histrionismos (como em casos lamentáveis, como os de Ellen Burstyn) e sim de verdadeiras interpretações, como o episódio de Treat Williams e o da maravilhosa jovem atriz Sofia Vassieleva (a filha de Patricia Arquette, em Medium, onde ela já era ótima)1.
1Também destaco a versão britânica de Law & Order. Com o cancelamento da original (para mim, a serie mais importante de todas), de Law & Order-Criminal Intent (cujas primeiras temporadas foram excelentes) e a flopada total de Law & Order- Los Angeles, é bom que a franquia de Dick Wolf se mantenha viva de alguma forma, Tirando as constrangedoras cenas de tribunal, onde há choradeira e um tom over que me lembra aquele filme apelativo de Jim Sheridan, Em nome do pai, a série adapta episódios do original para a realidade da Inglaterra de uma forma bastante eficaz. O maravilhoso Bradlley Walsh foi um achado, ele é o correspondente perfeito para Jerry Orbach, e secundado pelo belo Jamie Bamber (lembram dele como o Apollo de Battlestar Galactica, o notável remake, não a versão primitva—em todos os sentidos do termo, como era brega!). Houve uma mudança de promotores, Ben Daniels era ótimo, mas Dominic Rowan não fica atrás. Apesar de ter ficado na zona de conforto, é um seriado envolvente.










