MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/02/2012

Um poema de Wislawa Szymborska para cada dia da semana


Abaixo vão trechos de poemas de Wislawa Szymborska,  minha companheira numa viagem em outubro para o Nordeste, na tradução de Regina Przybycien. Selecionei  passagens de que gostei muito, uma para cada dia da semana.

PARA O DOMINGO:  “Museu”

“Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezento anos.

Há um leque –onde os rubores?

Há espada– onde a ira?

E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias (…)

A coroa sobreviveu à cabeça.

A mão perdeu para a uva.

A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

Minha competição com o vestido continua.

E que teimosia a dele!

Como ele adoraria sobreviver!”

 

PARA A SEGUNDA “A alegria da escrita”

“Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?

Vou beber da água escrita

que lhe copie o focinho como papel-carbono?

Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?

Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade

sob meus dedos apura o ouvido.

Silêncio–também essa palavra ressoa pelo papel

e afasta

os ramos que a palavra bosque originou (…)

as frases acossantes,

perante as quais não haverá saída (…)

Outras leis, preto no branco aqui vigoram.

Um pestanejar vai durar quanto eu quiser (…)

Existe então um mundo assim

sobre o qual exerço um destino independente?

Um tempo que enlaço com correntes de signos?

Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.

O poder de preservar.

A vingança da mão mortal.”

PARA A TERÇA:  “A vida na hora”

“(…) Despreparada para a honra de viver,

mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humihante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,

inacabada a contagem das estrelas,

o caráter como o casaco às pressas abotoado–

eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo–pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores) (…)

E o que quer que eu faça,

vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”

 

PARA A QUARTA:  “Utopia”

“(…)Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Nao há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa

de galhos desenredados desde antanho.

A Árovre do Entendimento, fascinantemente simples

junto a fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista

do Vale da Evidência (…)

Domina o vale a Inabalável Certeza.

Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a  Ilha é deserta

e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias

se voltam sem exceção para o mar (…)”

PARA A QUINTA: “Torturas”

“Nada mudou.

O corpo sente dor,

necessita comer, respirar e dormir,

tem a pele tenra e logo abaixo sangue,

tem uma boa reserva de unhas e dentes,

ossos frágeis, juntas alongáveis.

Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.

Treme  o corpo como tremia

antes de se fundar Roma e depois de fundada,

no século XX antes e depois de Cristo,

as torturas sao como eram, só a terra encolheu

e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .

Nada mudou.

Só chegou mais gente,

e às velhas culpas se juntaram novas,

reais, impostas, momentâneas, inexistentes,

mas o grito com que o corpo responde por elas

foi, é e será o grito da inocência

seguundo a escala e registro sempiternos(…)”

 

PARA A SEXTA: “Opinião sobre a pornografia”

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

a perseguião selvagem e debochada dos fatos nus,

o tatear ndecente de temas delicados,

a desova das idéias–é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite

se juntam aos pares, triangulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos

da árvore proibida do conhecimento

do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,

com que escandalosa simplicidade

um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”

PARA O SÁBADO:  “As três palavras mais estranhas”

“Quando pronuncio a palavra FUTURO

a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra SILÊNCIO

suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra NADA

crio algo que não cabe em nenhum ser”.

E  PARA ALGUM DIA QUE NÃO HÁ: “Gato num apartamento vazio”

“Morrer–isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no  entanto algo mudou.

Nada parece meido

e  no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho

também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve,

e de repent desapareceu

e teima em não aparecer (…)

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos (…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas (…)”

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17 Comentários »

  1. muito lindo, que belo presente aos seus leitores, alfredo, obrigada!

    Comentário por dbottmann — 22/10/2011 @ 11:57 | Resposta

    • Você já nos deu tantos presentes, a nós leitores, no seu blog, Denise. Agora: madame Szymborska é demais, não?
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 24/10/2011 @ 0:17 | Resposta

  2. [...] sobre o enigmático Bartleby, o Escriturário, do escritor Herman Melville. No seu blog, Alfredo Monte publicou e comentou poemas da polonesa Wislawa Szymborska. Aliás, o trabalho da poeta chega ao [...]

    Pingback por Links e Notícias da Semana #60 — 28/10/2011 @ 13:01 | Resposta

  3. Que surpresa linda os poemas desta escritora! Obrigado por nos proporcionar a sua leitura! Posso fazer duas perguntas?
    Por que, no poema ‘Elogio dos sonhos’, você usou a palavra ‘performance’, e não ‘desempenho’? Acho que ajudaria mais o ritmo, porque a palavra que vem depois também começa com vogal. 2 – ‘Eu lírico’ é a mesma coisa que ‘sujeito da enunciação’?

    Obrigado por sua atenção! Viva a poesia!

    Comentário por Rogério Carvalhais — 14/04/2012 @ 17:27 | Resposta

    • Caro Rogério, obrigado pelo seu comentário. Quanto às suas perguntas, eu não sei a que “elogio do sonho” você se refere exatamente, e qualquer escolha de palavras deve ser atribuído à tradutora, e não a mim; com relação ao sujeito da enunciação, no poema ele é o eu lírico. Em outras situações textuais, ele é o narrador, o falante etc.
      Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 15/04/2012 @ 11:04 | Resposta

  4. Alfredo, estava à cata de um poema da Wislawa para o aniversário de um poeta, quando descobri o seu blog, e nele o poema da terça feira. foi simplesmente maravilhoso!! Aposto que sua viagem também foi, tendo escolhido assim, a dedo, sua companheira! Um abraço!

    Comentário por Flora Vezzá — 28/09/2012 @ 17:41 | Resposta

    • Flora, obrigado pelo seu comentário. Sim, Wislawa foi uma companheira tão genial de viagem, que até escrevi um diário de viagem que intitulei “Com Wislawa em João Pessoa”.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 29/09/2012 @ 13:43 | Resposta

  5. Meu Deus Alfredo que coisa linda!!!!!!!!!!!!!!!!!
    MUITO OBRIGADO
    Francisco

    Comentário por Francisco Nogueira — 16/10/2012 @ 0:11 | Resposta

    • Não é?
      Fico feliz de você ter apreciado. Eu acho o máximo essa polaquinha.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 16/10/2012 @ 11:44 | Resposta

  6. Dizem que Wislawa morreu, sei não, sei não, sua poesia esta cada vez mais viva…… que mente brilhante, Meu Deus……

    Comentário por Eliseu S.Pereira — 09/12/2012 @ 10:34 | Resposta

    • Você tem toda a razão, Eliseu. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 09/12/2012 @ 12:42 | Resposta

  7. Ácida, por vezes de uma dura crueldade, por vezes de uma simpática realidade… Mas antes de tudo talentosa e digna!

    Comentário por Val Navarro — 18/12/2012 @ 1:39 | Resposta

    • Pode crer.
      Abração, Alfredo.

      Comentário por alfredomonte — 18/12/2012 @ 1:44 | Resposta

  8. Belíssima seleção. E ótima ideia. Vou botar nas minhas resoluções de 2013: assim que tiver um tempo fazer semanas poéticas à la Monte com meus poetas preferidos. Vou inaugurar com Eugênio de Andrade e com Alexandre O’Neil. Vai que a moda pega …

    Comentário por Rosa Amanda Strausz — 18/12/2012 @ 3:23 | Resposta

    • Bela resolução. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 18/12/2012 @ 8:35 | Resposta

  9. Viajei nesses poemas, sem dúvidas uma poetisa nata,

    Comentário por Matheus Henrique — 24/08/2013 @ 0:45 | Resposta

    • Verdade pura

      Comentário por alfredomonte — 24/08/2013 @ 0:46 | Resposta


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