MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/03/2010

O SENHOR DA FICÇÃO

I     

(resenha publicada em 26 de março de 2002)            

   Cultuado há quase meio-século, O Senhor dos Anéis não depende de nenhum modismo e nem dos Oscars ganhos por Peter Jackson, embora sua trilogia cinematográfica seja uma empolgante síntese da literária, evitando tanto o ritmo frenético de videoclipe que governa produções como Armagedon quanto as lutas coreográficas com piruetas voadoras (a coqueluche do momento, uma espécie de redução da ação cinematográfica ao Cirque du Soleil), do tipo O tigre e o dragão, e dando surpreendente espaço aos intérpretes: quem poderá dissociar agora Gandalf de Ian McKellen, Bilbo de Ian Holm, Galadriel de Cate Blanchett ou Sam do estupendo Sean Astin, só para citar os mais admiráveis?

    Ainda assim, o grande público, que se contentar com o filme, não terá a chance de se deliciar com as idiossincrasias de cada região do Condado (onde vivem os Hobbits), de forma que cada um acha o vizinho esquisito e suspeito (e isso é tão inglês!). Os fãs do livro lamentam também a ausência das intrigas e fofocas que envolvem a herança de Bilbo, os Sacola-Bolseiros e sua matriarca, Lobélia, que ficam muito felizes quando Frodo (o herdeiro oficial) tem de “cair no mundo” alguns anos após tornar-se o “portador do anel”, procurado por Sauron, o Senhor do Escuro.

    O anel contém o Mal e é preciso destruí-lo. Frodo tem de atravessar a Terra Média, na qual convivem (conflituosamente) elfos, anões, magos, homens (e também criaturas malévolas como os orcs, os espectros do anel, os trolls, os balrogs), formando com um representante de cada “raça” a Comitiva do Anel (ou fraternidade, ou Confraria, mas nunca o chocho “Sociedade” do título nacional), fadada a se desfazer pelo que vem do exterior (há vários ataques inimigos, num dos quais, nas minas de Moria, sucumbe – aparentemente—o mago Gandalf, aquele que alertou Frodo do perigo do anel e era o líder espiritual do grupo) e pelo que vem do interior (a forma maléfica como o anel age sobre Boromir, por exemplo).

    No final, apenas Frodo e seu inseparável Sancho Pança, o maravilhoso Sam (na verdade, evocativos também da dupla clássica de Charles Dickens, o sr. Pickwick e seu criado “cockney” Sam Weller), prosseguem a jornada para a destruição do símbolo do poder de Sauron. Diga-se de passagem, o filme não aclarou muito bem a relação senhor-serviçal, a diferença social (e de idade) que existe entre os dois, e como ela é eliminada pela dedicação e companheirismo de Sam.

    O Senhor dos Anéis é uma aventura geográfica: saindo do seu mundo tranqüilo, os hobbits (além de Frodo e Sam, os arrumadores-de-confusão Merry e Pippin, que parecem ter fugido do mundo das comédias de Shakespeare, e que terão suas próprias aventuras no resto da trilogia) conhecem novas terras, povos das quais tinham uma noção errada ou imprecisa, costumes e valores diferentes. Tolkien não nos poupa de abundantes descrições. Felizmente. Elas são essenciais para penetrar no espírito de alteridade, de estar em outro lugar e penetrar em outra forma de vida e de ver a vida (uma concepção que será utilizada em larga escala por Star Trek e todos os seus “filhotes”).

    Também é uma aventura lingüística: a salvação da Terra Média depende da memória (ou da união de vários fragmentos de memórias), dos conhecimentos acumulados por gerações e transmitidos por canções (a sobrevivência de povos inteiros muitas vezes acontece através delas). Gandalf consegue abrir o portal de Moria por lembrar-se de uma palavra antiga e informações preciosas acham seu lugar no momento presente através das canções e lendas comentadas pelos personagens.

    Nos dois planos (o geográfico e o lingüístico), assim como a Rainha Galadriel com a Comitiva do Anel, Tolkien nos prende numa teia de encanto e inquietação, colocando-nos num ritmo diferente do quotidiano. Ele deve ter escrito O Senhor dos Anéis seguindo a filosofia dos elfos: “colocamos o pensamento de tudo que amamos nas coisas que fazemos”.

                            II

(resenha publicada, de forma ligeiramente mais condensada,  em 02 de abril de 2002)

   As Duas Torres, segundo volume de O Senhor dos Anéis, consegue ser mais fascinante ainda que o primeiro, chegando a um ponto de tensão, nos seus últimos capítulos, que não permite mais ao leitor parar a leitura, sem contar que o final nos arremessa para a leitura do terceiro, sem fôlego.

    Como os outros, é dividido em duas partes. Na primeira, Gandalf reaparece e se reúne a Legolas, Gimli e Aragorn (sobre o qual insinuações sutis vão delineando uma posição-chave na resolução da trama), três membros que sobraram da dissolução da Comitiva do Anel, envolvendo-se na guerra dos Cavaleiros de Rohan contra  Saruman; por outro lado, os hobbits Merry e Pippin, que haviam sido capturados pelos orcs, escapam e conhecem o singularíssimo povo dos ents, seres meio-árvores (alguns dos momentos mais inesquecíveis do romance de Tolkien pertencem a eles), também engajados contra o mago traidor, e que o deixam aprisionado na torre de Orthanc. Como esquecer a batalha do Abismo de Helm?

    Na segunda, reaparecem Frodo e Sam Gamgi, que conseguem penetrar em Mordor (a terra do Mal), tendo como guia o antigo possuidor do anel (perdeu-o para Bilbo), o patético e repulsivo Gollum. Este os atrai para uma armadilha (pois é obcecado em tomar de volta o anel, que o consumiu e colocou-o na condição miserável na qual se encontra, mas que o mantém sob uma espécie de “quebranto” esquizofrênico) e os deixa à mercê de Laracna, a senhora de um túnel que seria a única passagem viável dentro de Mordor para que se efetivasse a missão de destruir o malfadado anel.

    Só para o leitor ter uma idéia da enrascada: Sam Gamgi torna-se o portador do anel! Mais ainda: torna-se um personagem cada vez mais maravilhoso (e isso é um feito num romance onde não faltam personagens fortes), que por si só mereceria uma resenha.

    As imagens do livro também vão ficando mais demoníacas (no sentido de Northrop Frye, em que a realidade contraria os desejos humanos e a paisagem se torna ameaçadora) e inquietantes, com seres primordiais emergindo das sombras, como os ents e Laracna (que são simétricos, assim como vários outros elementos de O Senhor dos Anéis. Aliás, o estilo vai ficando mais e mais sombrio e é inimaginável que alguém possa confundi-lo, como tantos fazem, com uma história juvenil. Veja-se a caracterização de Laracna: “só desejava a morte para todos os outros, mentes e corpos, e para si uma fartação de vida, solitária, inchada até que as montanhas não mais conseguissem abrigá-la, até que a escuridão não a pudesse conter”.

    Como resgate majestoso das “estórias romanescas” (o equivalente profano—por exemplo, o ciclo dos cavaleiros da távola redonda—do  mito, o qual é basicamente religioso, como nos ensinou Frye, que curiosamente não era muito apreciador da obra de Tolkien), O Senhor dos Anéis utiliza uma de suas táticas básicas: os heróis vão descendo a um “inframundo”, ao lado negro da realidade, a única forma de realcançar a unidade perdida, a estabilidade cíclica do mundo (regida pela mudança das estações), quebrada pela intervenção do Mal, que também condena os seres à extinção (é o que sentem os elfos e os ents) ou à diminuição de estatura (como sente Faramir, representante do legendário povo de Gondor: “Nós nos tornamos homens médios, do crepúsculo, mas com a memória de outra realidade, parece que estamos escutando o discurso de um Riobaldo). Os burgueses e até então acomodados hobbits surgem como a grande novidade (tanto que na lista de povo dos ents eles nem aparecem) e por isso sua intervenção é decisiva.

    O próprio corpo do herói deve sofrer nessa travessia. Já vimos o ferimento que o rei dos Nâzgul infligiu a Frodo em A Sociedade do Anel. Agora ele é envenenado por Laracna de uma forma que se assemelha à morte. O herói, neste momento, é como o mundo: está envenenado, conspurcado, e precisa restaurar-se. Mas ainda temos um volume inteiro pela frente.

                                                       III

(resenha publicada em 09 de abril de 2002)

    Terceiro e último volume de O Senhor dos Anéis, com quase oitocentas páginas atrás de si, O Retorno do Rei corria o risco do anticlímax, após o fôlego épico inaugurado pelo primeiro (A Sociedade do Anel) e a intensidade alcançada pelo segundo (As Duas Torres), principalmente porque os dois fatos centrais do enredo, a destruição do anel por Frodo e o reconhecimento de Aragorn como legítimo rei da Terra Média, acontecem bem antes do verdadeiro final.

     Mas é aí que J.R.R. Tolkien se mostra O Senhor da Ficção, demonstrando controle total sobre o universo que criou e centralizando a narrativa em duas situações desesperadoras:

    1) As forças que se opõem a Sauron, o Senhor de Mordor, acabam sitiadas em Gondor. Nesse sítio, perecem Théoden, rei de Rohan (um personagem portentosamente shakesperiano), e ficam gravemente feridos Faramir (irmão de Boromir), Éowyn, a sobrinha de Théoden, que é apaixonada por Aragorn e que se disfarçou de homem para lutar (um recurso bastante comum no gênero épico, a figura da “donzela guerreira”, resgatada também por Guimarães Rosa em Grande Sertão : Veredas, aliás contemporâneo de O Senhor dos Anéis ), alem de Merry, um dos quatro hobbits que se “lançaram no mundo”.

    Confirmando a impressionante unidade do enredo (que em nenhum momento se dispersa no episódico), a espada que o hobbit trouxe da sua experiência de ser enterrado vivo na Colina dos Túmulos (um capítulo de O Senhor dos Anéis que não aparece na versão de Peter Jackson) é justamente aquela que tem o poder de ferir o líder dos Espectros do Anel, o mais ameaçador dos subordinados de Sauron;

    2) Frodo e Sam juntam-se novamente e tentam alcançar a Montanha da Perdição, apesar do desgaste físico, mental e espiritual de Frodo, causado pelo anel. Não somos poupados de nenhum quilômetro, quase que do mínimo passo nessa árdua jornada, para a dupla e para os leitores, e seria difícil imaginar que fosse reproduzida pelo filme (mas é; é bom que se diga que no cinema atual só uma obra-prima como o primeiro Matrix pode se comparar ao empreendimento de materializar em imagens o mundo de Tolkien).

    E, de repente, o desenlace dos acontecimentos parece levar o livro a um tom triunfalista, no mesmo estilo que estragou as últimas cenas da bela fantasia O feitiço de Áquila, onde a vitória dos “bons” é tão apoteótica e ruidosa que acaba irritando. Só que isso é só um alívio passageiro. E precário. As últimas páginas de O Senhor dos Anéis (após a deliciosa mistura de aventura e comédia, bem cervantina, que marca a volta dos quatro hobbits à sua terra natal, o Condado, atando as pontas da narrativa) são a culminação de um tom que já se pressentia nos outros volumes e que já rendera um dos casais românticos mais melancólicos da literatura (Faramir e Éowyn): o de profunda tristeza.

    Uma nova era começou no mundo, algo acabou, a  aventura foi apenas o lado colorido da grande melancolia que envolve quem sobreviveu ou ficou (como a rainha Arwen, amada de Aragorn) e os que partem desse admirável mundo novo, como os elfos, Gandalf, e até a dupla dos portadores do anel, Bilbo e Frodo, que, num momento pungente de despedida, explica a necessidade de partir da seguinte forma para o seu fiel (e inesquecível) Sam Gamgi: “Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las”. Felizmente, há  o seu fiel Sancho Pança (não é à toa que ele é chamado de “hobbit gorducho”), Samwise Gamgi, aquele que no final da saga será o sal da terra e herdará como presente o futuro.

    Entretanto, ao cabo de mil e tantas páginas, mesmo com toda a tristeza (“que apesar disso era abençoada e sem amargura), cumpriu-se à risca o que é prometido pelo título completo do livro: “Aqui está contada a história da guerra do anel e do retorno do rei, conforme visto pelos hobbits. A sorte é que após diversas edições anódinas, quando não decepcionantes, em brochura, a Martins Fontes lançou uma incrivelmente bonita edição dos três tomos (mais O Hobbit) em capa flexível, na qual todo o projeto gráfico faz enfim justiça à criatividade do grande autor inglês. Pode parecer frivolidade, mas também em livro a parte visual de O Senhor dos Anéis é muito importante.

30/03/2010

O MÁGICO OZ

(resenha publicada em 10 de janeiro de 2009)

“Quando tinha dezesseis, dezessete anos, o escritor costumava se sentar sozinho numa despensa abandonada e despejar no papel confusos trechos de histórias. Ele os escrevia mais ou menos da mesma maneira que sonhava e da mesma maneira que se masturbava: num torvelinho de coerção e de entusiasmo, e desespero e náusea e infelicidade. E também uma infatigável curiosidade de tentar entender por que as pessoas o tempo todo infligem umas às outras, e a si mesmas, coisas que nunca tiveram intenção de infligir.

    Ele agora também gostaria de entender, mas com os anos nele se acumulara uma espécie de pavor corporal de contato físico com estranhos… E no entanto ele continua a olhar para eles e a escrever sobre eles para assim tocar neles sem tocá-los, e para que eles toquem nele sem tocar de verdade.

    Talvez seja assim: você escreve sobre eles como um fotógrafo dos tempos das fotografias sépia, um fotógrafo de reuniões familiares. Anda de um lado para outro entre os figurantes, bate um papo com todos, faz amizades, graceja, pede que finalmente se arrumem em seus lugares, vai e planta seus personagens em semicírculo, como um anfiteatro… passa duas-três vezes entre as fileiras e com um leve toque endireita aqui e ali um colarinho, a fralda de uma camisa, dobras de mangas, fitas de tranças, e volta para trás de sua câmera apoiada num tripé, enfia sua cabeça embaixo do pano preto, fecha um olho, conta em voz alta até três, finalmente aperta o disparador e com isso faz todos virarem assombrações…

    Mas por que escrever sobre o que existe também sem você? Para quê descrever com palavras o que não são palavras?… Ele se enche de vergonha e de constrangimento por olhar para todos de longe, de lado, como se todos só existissem para que deles fizesse uso em suas histórias. E com essa vergonha vem também uma angustiante aflição por sua estranheza constante, por sua incapacidade de tocar e ser tocado, por estar sua cabeça, durante todos os dias de sua vida, enfiada no pano preto da velha máquina fotográfica. Como a mulher de Lot: para escrever você tem de olhar para trás. E com isso o seu olhar transforma você e eles em blocos de sal.”

   Tenho tanta antipatia pelo estado de Israel (não compensada por nenhuma preferência pelo lado palestino) que demorei a dar atenção a Amós Oz. Estupidamente, só fui conhecer a obra-prima A Caixa Preta (que coloco sem hesitar entre os dez maiores romances dos últimos 25 anos) porque fazia parte de uma série de banca que eu colecionava. Aproveitando a forma epistolar, a partir do pedido de uma mais-que-dúbia mãe ao pai biológico de um adolescente para que se interessasse pelo futuro do filho problemático, Oz nos envolvia numa teia de manipulações, mentiras, dogmatismos e insanidades, que faria qualquer pessoa ter mais cuidado com seus auto-enganos, dogmatismos e insanidades. Porém, nem um livro desse porte me tirou a cisma com Israel (e a ladainha conveniente do Holocausto, que fez com que se considerasse “grande” até o medíocre A Lista de Schindler, filme aliás tão mediano quanto o próprio livro que o originou e que me parece uma visão Frank Capra do evento) e, por isso, ao contrário da minha inclinação natural nesses casos, após descobrir um belo texto de um autor, fiquei anos sem adquirir ou me interessar em ler outro título do israelense. Não fui seduzido nem por sua autobiografia ficcional, De Amor e Trevas.

    Pois a leitura de Rimas da Vida e da Morte me livrou dessa burrice persistente. É impossível não ler Amós Oz. Ele é um fabulista consumado, um narrador admirável e tem o toque de Midas que nos faz fruir na ficção a suprema bênção da leitura: mais vida em um tempo ilimitado.

    Nesse pequeno texto, cujo título nos remete à obra de um escritor popular, naif, Tsefania Beit-Halachmi, que trabalha basicamente o proverbial (portanto, o fatalístico), ele nos apresenta um escritor que participará de um evento num obscuro centro cultural, no qual será discutida uma de suas obras, da qual farão, inclusive, algumas leituras (o organizador é que dá o mote para o título, citando um provérbio de Beit-Halachmi). Já no café onde faz um lanche antes do evento, esse escritor permite ao moinho de sua imaginação funcionar incessantemente, apropriando-se da figura da garçonete e de dois frequentadores, dando-lhes nomes e moldando-lhes trajetórias biográficas a seu bel prazer (e para o nosso deleite).

    Essa gatunagem da vida alheia continua em pleno evento e depois, proporcionando-nos páginas deliciosas, sobretudo na vinheta mais desenvolvida, em torno da figura que ele cria a partir da leitora dos textos, Ruchale Reznik. Pois o que se passa entre ela e o escritor poderia ter acontecido na realidade (mas como, se estamos lendo uma narrativa?), pode ser um prolongamento da fantasia do escritor, e ainda comporta variantes.

    Parece já a desgastada metalinguagem? Experimente ler Rimas da Vida e da Morte, leitor, para ver que até as variantes transmitem um imponderável elemento vital, como se reproduzissem as hesitações das ações na vida real. O livro é um triunfo da ficção, da verdade das mentiras. E se torna mais importante ainda quando acabou recentemente, após meses, outro exemplar de um dos maiores representantes do apocalipse da imaginação da nossa era atual, o Big Brother Brasil (BBB). Tem gente que não gosta pela apelação, pela baixaria, pelo nível dos participantes; tem gente que não gosta por achar tudo armado e arranjado. Minha bronca é mais primitiva e primária (e é similar a que tenho contra filmes e livros “baseados em fatos reais”, como se isso os legitimasse): é contra a idéia de que a “vida real” é interessante. Ora, meus amigos (e não estou afirmando nada de novo), é tudo que ela não é, por um simples motivo: a vida não tem forma, não tem como agarrá-la com qualificativos e predicados, e mesmo que a coloquemos num certo ritmo (horário de trabalho, etc), apenas lhe impomos rotinas, e por mais entusiasmo que tenhamos e momentos bons, é aí nessas pseudo-formas que vemos o que ela tem de empatação e lastro de tédio. A vida só é interessante sob a forma de narrativa, e aí ela já não é mais vida, é relato, é o terreno de Amós Oz, apropriação indébita por um lado, ganho para nós por outro. Questionado sobre a “identidade real” de Emma Bovary, Flaubert colocou as cartas na mesa, mas até agora parece que poucos se aperceberam: Madame Bovary sou eu.

    Em tempo: o narrador afirma na citação que abre este artigo que o escritor, emulando o fotógrafo de reuniões familiares, faz todos virarem assombrações. Pura modéstia. Não há ninguém mais vivo do que as “assombrações” de Rimas da Vida e da Morte.

11/03/2010

O LADO B DE BOSTON

OS RESTOS DO HERÓI NORTE-AMERICANO

(resenha publicada em 05 de janeiro de 2004) 

  Entrar em automóveis alheios não dá  muito certo para Dave Boyle, em Mystic River (Sobre Meninos e Lobos  na tradução de  Luciano Vieira Machado, publicada pela Companhia das Letras): na primeira vez,  aos onze anos,  é enganado por dois homens que se passam por policiais e violentado durante quatro dias num porão; vinte e cinco anos mais tarde, é levado como o mais provável suspeito do assassinato de Katie Marcus, filha de um velho amigo, Jimmy (que estava com ele no momento em que foi raptado pelos dois pedófilos);por fim, entra no carro de Val Savage, cunhado de Jimmy, que o leva para uma espelunca à beira do Mystic River do título original, onde ele e Jimmy vão confrontar seus destinos.

     Dave é o bode expiatorio do romance de Dennis Lehane (publicado em 2001): o tempo todoele lembra aos outroa realidades recalcadas que incomodam e fazem com que ele seja sempre prejudicado ou machucado. O título nacional pretensiosíssimo (já o original, que tem a ver com o clímax da narrativa,evoca ironicamente todos aqueles faroestes com rio no título, Rio Vermelho, Rio Lobo, Rio Bravo, por exemplo, que exaltavam a lealdade e camaradagem masculinas) também parece fazer dele o personagem mais importante da trama, quando na verdade o centro é Jimmy Marcus.

      A própria eliminação de Dave Boyle e a impotência do terceiro vértice do livro, o policial Sean Devine (o qual também estava presente ao rapto na infância), em impediruma tragédia anunciada desde que eles tinham onze anos, configuram o grande objetivo de Mystic River: revelar Jimmy como um gângster, uma espécie de chefão implícito no seu bairro (na periferia de Boston), que está sendo avassalado pela especulação imobiliária.

      Desde que Katie é morta insinuam-se elementos esquisitos na vida do pacato cidadão Jimmy Marcus, dono de uma loja de conveniência: sua atual esposa, Annabeth (madrasta de Katie) tem vários irmãos que são criminosos conhecidíssimos no bairro, a própria filha assassinada tinha sido namorada de um gangsterzinho, que não se conforma com o fim do relacionamento, mas que sendo considerado perigoso, curiosamente não toma nenhuma atitude mais radical, além de pressioná-la (saberemos por que depois).

         Avançando na trama, sabemos que Jimmy foi chefe de uma quadrilha até ser preso e só resolveu assumir a máscara de cidadão honesto ao sair da prisão e se deparar com uma filha de cinco anos, órfã de mãe; ainda sabemos que ele matou (sem que ninguém descobrisse) o pai de Brandon, o rapaz com quem a filha pretendia fugir para viver em Las Vegas (o que tornará mais contundente o desfecho; aliás, a solução do crime é arrepiante).

       Além de Annabeth, outra personagem feminina marca o romance: Celeste Boyle, a esposa de Dave, que tem um comportamento bizarro e impressionante. Primeiro, ela ajuda destemidamente o marido a se livrar de todos os vestígios de um crime (ele chega ensanguentado em casa na mesma noite em que assassinam Katie); ao começar a desconfiar que ele é o assassino, Celeste muda radicalmente e sua participação é decisiva no desenlace, ao trair o marido (e sua delação ganha um cunho quase sexual, como se fosse um adultério), de uma forma impensável para uma mulher como Annabeth.

     Mystic River demora a deslanchar: o início é bem arratado. Dennis Lehane satura seu texto com um preciosismo excessivo para aqueles personagens e aquelas situações e até escorrega no estilo: “Celeste leu em seu olhar a dor mais sincera, mais terna. Pareceu-lhe que um fragmento em forma de lágrima se desprendia do coração de Jimmy e lhe caía dentro do peito”!!!??

     Quando deslancha, porém, e começa a mexer a fundo na má consciência norte-americana, que envolve coisas como pedofilia, violência ffamiliar e o problema do fracasso,vamos mergulhando num romance cada vez mais poderoso, um investigação forte do que restou do herói norte-americano, ou simplesmente do Homem americano. Não é à toa que, perto do momento decisivo do romance, Dave comenta a dificuldade de se sentir adulto: “Eu sempre achei que iria ser diferente… na maior parte do tempo não me sinto diferente do que era aos 18 anos. Muitas vezes acordo pensando. Eu tenho um filho? Eu tenho uma mulher? Como aconteceu isso? (…) Ele sentia necessidade de explicar-se. Para que Val entendesse quem ele era e gostasse dele.”

      Lembrando heróis de seriado, ele diz: “Eles eram homens. O tempo todo… homens que nunca questionavam a justeza de suas próprias ações, que não  se deixavam perturbar pelo munndo nem pelo papel que esperavam deles. Era o medo, pensou ele… O medo se instalara em Dave e nunca mais se fora, por isso ele tinha medo de se enganar, de se embananar, de não ser inteligente, de não ser um bom marido, nem um bom pai e de não ser um homem de verdade”.

   A ironia é que o homem ue consegue tudo o que o fraco Dave não conseguiu acaba por ser um monstro moral e o patriarca de uma família criminosa.

06/03/2010

A PERSPECTIVA DOS ESPELHOS

acesse LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na intenet: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

O PÁSSARO DA JUVENTUDE (doce?!)

“Uma mulher como eu não teria coragem de terminar? Vamos, vamos, já tivemos o suficiente, minha bela, para nossa casta. Contemplava a magnífica Léa de pé, mãos nas cadeiras, que lhe sorria.

        Uma mulher assim não termina nos braços de um velho. Uma mulher assim, que teve a sorte de nunca sujar as mãos nem a boca com uma criatura decrépita! Sim, aí está ela, a vampira que só quer carne fresca.

      Chamou em sua memória os namorados e amantes de sua juventude preservada de velhos, e viu-se pura, altiva, devotada havia 30 anos a moçoilos radiosos ou adolescentes frágeis (….)

     Bolas! Adeus a tudo, é o mais apropriado. Vamos comprar um barlho, um bom vinho, fichas de bridge, agulhas de tricô, todos os bibelôs necessários para vedar uma grande caverna, tudo que é necessário para disfarçar o monstro: a mulher velha…”

“Sinto em mim a perspectiva dos espelhos” (Chérie, de Colette)

      Não sou muito fã da primeira reunião entre o diretor Stephen Frears e Michelle Pfeiffer, Ligações Perigosas. Acho que ela é o grande destaque do filme, a figura que mais se destaca do elenco. A adaptação de Christopher Hampton é dinâmica, mas superficial, “ligeira” demais, acentuando o aspecto vaudevillesco presente no livro de Laclos, o que é acentuado pela direção de Frears (cuja produção é muito irregular). E a dupla centra, Glenn Close & John Malkovitch deixa muito a desejar. Ele, na minha opinião (ainda mais comparando com a interpretação de Colin Firth do mesmo personagem, Valmont, dirigido por Milos Forman),é um desastre, com suas caras e bocas, seu andar afetado, sua ridícula “aura” de sedutor consumado. A grande Glenn Close, por sua vez, está em certos momentos ótima como megera ou como mulher vingativa, perversa e ressentida (e, no final, há um grande close dela),  porém muitas vezes ela está também na base da interpretação burlesca e careteira, e é ainda mais difícil de engolir como “femme fatale”, grande sedutora.

      Frears & Pfeiiffer se reúnem em outra adaptação literária, outro filme de época: CHÉRI, um romance da hoje em dia meio esquecida Colette  (1873-1954), que teve muita influência na primeira metade do século passado, com seu ciclo sobre a heroína Claudine e o romance A vagabunda. Assim como Gide e Proust (guardadas as devidas proporçoes entre este, um visionário , tirante seu apego ao mundanismo, e todos os outros que eu pssa citar), ela herdou aquela perspectiva balzaquiana da sociedade, mas numa clave mais intimista. Ela pertence àquele grupo de autores (o próprio Proust, Oscar Wilde,  certo Tolstói, certo Thomas Mann, o Eça final,  Henry James, Edith Wharton, para lembrar alguns) tão encharcados de mundanismo que muita gente hoje em dia acha muito recôndito, muito elitista, ”ultra-civilizado” em demasia,  para que eles tenham algum interesse para o leitor atual (o que é uma pena, pois se trata de uma leitura superficial).  

       A atmosfera dessa novela (é uma pequena narrativa, com cerca de 170 páginas na edição brasileira, publicada pela Record e traduzida por André Telles) é toda huis clos, com  poucos ambientes e poucos personagens, uma sociedade muito restrita, composta basicamente de cortesãs aposentadas ou a ponto de, sua criadagem, seus agregados e amantes. Trata-se de um mundo em que o vestuário, os objetos, as jóias, são tão importantes para os personagens quanto seus sentimentos. Léa usa uma roupa marrom e, dolorosamente, evoca o amante perdido: “ele, que nunca foi  capaz de  suportar o marrom”; ele, por sua vez, elogiando a antiga mentora: “Essa mulher, meu velho, quando está com o chapéu apropriado (…) pode colocar qualquer outra mulher de lado, ninguém lhe chega aos pés”.  Ou ainda, para reforçar essa materialidade mundana e ultra-civilizada, ainda que não necessariamente sofisticada: “Tenaz, incisivo, mistura de flores intensas e madeiras exóticas, o perfume de Chéri circulava”.

    É uma linguagem bem “francesa”, com muita auto-inspeção dos personagens, examinando os próprios sentimentos, muitas formulações que parecem silogismos filosóficos e muitas réplicas, que mostram o universo “venenoso” e dúbio em que as personagens se movem. Afinal, as duas personagens femininas centrais mantêm uma “amizade rancorosa de rivais à espreita da primeira ruga e do primeiro fio de cabelo branco”. Eis algumas réplicas:

“Mme. Peloux- Você sabe, quando um Peloux volta a sua casa depois da devassidão, não sai mais de novo.

Léa- É uma tradição de família?”

 

“Mme. Peloux- Você sabe como lido com fofocas!

Léa- Ninguém sabe melhor do que eu”

 

“Mme. Peloux- Anda a tricotar?

Léa- Ainda não, mas vai acontecer”

     Hoje em dia podemos ler superficialmente Chéri (publicado em 1920) como algo recôndito, quase exótico, com suas cortesãs ricas, que moram em mansões e vivem à larga, com motoristas e criadagem. Léa de Lonval, a protagonista, é uma lenda entre elas. Aos 49 anos “encerrava uma bem-sucedida carreira”, poupada pela vida “das catástrofes lisonjeiras e das mágoas nobres”. Seus deuses são “o amor e o dinheiro”.

     Chéri, ou Fred, é o filho de uma ex-rival, a venenosa Charlotte Peloux (no filme, a grande Kathy Bates; no texto é descrita com uma megera com voz trombeteante  e cujos olhos “não exprimiam senão a suspeita, a atenção indiscreta e implacável“), e fez sua educação sentimental com Léa: dos 19 aos 25 anos foi seu amante, ele que é um ai-jesus da mulherada, cobiçado por todas : “ser belo a esse ponto é uma nobreza”, diz Léa a respeito dele, mesmo achando-o muitas vezes bruto, burro, e sobretudo vendo os aspectos vulgares herdados da mãe (além da avareza): “Aqueles langores da tarde davam-lhe asco. Nunca seu jovem amante a surpreendera desarrumada, nem com o espartilho aberto, nem de chinelos durante o dia. Numa, se quiserem, dizia ela, mas nunca desmazelada. Pegou de volta seu jornal ilustrado e não o leu. Ponha essa mãe Peloux e seu filho, pensava, diante de uma mesa farta ou leve-os para o campo e pronto, a mãe tira o sutiã e o filho o colete. Naturezas de donos de botequim em férias. Ergueu os olhos rancorosos para o dono de botequim incriminado e viu que ele dormia, os cílios pousados sobre suas faces brancas, a boca fechada. O arco delicioso do lábio superior, iluminado por baixo, retinha em seu topo dois pontos de luz prateada, e Léa admitiu que ele se parecia mais com um Deus do que com um vinhateiro.”

    Chéri não é nenhum Julien Sorel. Ele é rico (todo mundo é rico, no texto), mas tem alma de gigolô: “alguém é gigolô quando possui 300 mil francos de enda. Isso não depende da cifra, depende da mentalidade. Existem indivíduos a quem se poderia dar meio milhão e que nem por isso seriam gigolôs… Mas Chéri? E no entanto nunca lhe dei dinheiro… Mesmo assim…”

     Quando a narrativa começa, mme. Peloux está planejando o casamento do filho. A partir daí, começa a imperar a “perspectiva dos espelhos” para Léa 9curiosamente, tanto no começo quanto no fim, são os espelhos que marcam a situação dos personagens; no início é Chéri quem se contempla: “Achava-se em frente a um espelho comprido… e contemplava sua bela imagem de adolescente, nem alto nem baixo, cabelo azulado como a penugem de um melro. Abriu o pijama e exibia um peito fosco e duro, abaulado como um escudo…” etc, etc; no final, é a própria Léa, mas não antecipemos).

       Ao se consumar a sua separação de Chéri,  percebe que o amava bem mais do que pretendia e até supusera, e o mimado rapaz se transforma numa espécie de anjo da morte, um pouco como o Tadzio de Morte em Veneza, de Thomas Mann, ou seja, o apelo final de Eros,  a apoteose de uma vida, após a qual virá o inevitável declínio.

     O próprio Chéri, sem saber, faz um diagnóstico perfeito do destino da amante, mesmo antes da separação: não ligo a mínima para o fato de não ter sido seu primeiro amante! O que eu gostaria, ou melhor, o que teria sido… conveniente…limpo…seria ter sido o último”. Aliás, essa fala está em um passo magnífico do texto, em que se misturam o tom ferino que rege as relações entre as personagens, a dor escamoteada da separação (mas ainda muito exangue e pálida perto do que virá depois) e  a confirmação da percepção de Léa, de que ela e Chéri têm uma ligação em que “não falam a mesma língua”. Ela joga na cara o dinheiro que gastou com ele, e que ele economizou do próprio dinheiro (“Então não valho isso?”,o vaidoso moçoilo replica), e ele diz que ela devia cumprir seu papel na comédia: “Você, a vítima. Você, o personagem simpático da coisa, uma vez que eu a estou dispensando”. Ao que ela retruca ironicamente: “Ora, meu querido, não tenho a intenção de mudar nada em minha vida. Durante uma semana, continuarei a encontrar em minhas gavetas um par de meias, uma gravata, um lenço… E quando digo uma semana… são muito bem-arrumadas, você sabe, minhas gavetas. Ah! Vou mandar reformar o banheiro.” Vendo a expressão dele, de desgosto, por ela não demonstrar o sentimento de vítima de um cataclismo (o que ela será de fato, mas as aparências…, o jogo de poder que existe em cada relação): “Não ficou satisfeito? Queria o quê? Que eu voltasse para a Normandia para esconder meu sofrimento? Que eu emagrecesse? Que não tingisse mais os cabelos? Que mme. Peloux acorresse à minha cabeceira?

      Imitou a trombeta de mme. Peloux abanando os antebraços: A sombra de si mesma!A sombra de si mesma! A infeliz envelheceu 100 anos! 100 anos! Era isso que você queria?

     Ele a escutara com um sorriso abrupto e um frêmito das narinas que talvez fosse emoção: Sim.”

    É interessante experiência de ler essa lapidar autópsia de sentimentos  num momento em que o sucesso de um filme “alto astral” como Simplesmente complicado (dirigido por Nancy Meyers, que também utilizou a mesma fórmula em Alguém tem que ceder) representa um auge na valorização da mulher madura, reflexo da emancipação feminina de vários tabus e preconceitos, pelo menos em certa faixa social.  Chéri é um registro definitivo daquela mentalidade patriarcal em que o destino da mulher mais velha é a solidão e o recolhimento, por mais sombrios que sejam, ou o ridículo e o escândalo. Seu relacionamento era, na verdade, de amante-mãe, todo em estufa, visando protelar o momento em que o amado-filho cairá no mundo, e só restará o vazio, o tricô, as fofocas e a troca de farpas em meio a uma mulherada que só tem passado, e nenhum futuro. Por isso mesmo, poucas cenas são mais patéticas do que aquela em que, após um idílio fugaz com Chéri, Léa se vê abandonada definitivamente por ele, que desce a escada da mansão dela e pára “no meio do pátio. Ele está voltando! Ele está voltando!, ela gritou, erguendo os braços. Uma velha ofegante repetiu, no espelho oblongo, seu gesto, e Léa perguntou-se o que ela podia ter em comum com aquela louca”.

    Seria uma inverdade afirmar que essa “perspectiva dos espelhos” não assombra mais as mulheres. Ela só adquiriu novas formas de pressão e tortura.

04/03/2010

PRECIOSA

“Ela conhecia ligeiramente a estação da estrada de ferro. Era um lugar que ela gostava de visitar, pois lembrava-lhe a velha África,  os dias de desconforto nos trens apinhados, as viagens vagarosas de travessia das grandes planícies, ou a cana-de-açúcar que se costumava chupar para o tempo passar mais rápido, ou o bagaço da cana que se costumava cuspir para fora das amplas janelas. Aqui ainda era possível ver essa velha África, ou uma parte dela, aqui, onde os trens que vinham do Cabo passavam devagar diante da plataforma em sua viagem via Botsuana para Bulawayo; aqui, onde as lojas indians ao lado dos prédios da estação continuavam a vender cobertores baratos e chapéus para homens com uma pena espalhafatosa enfiada na fita.

     Mma. Ramotswe não queria que a África mudasse. Não queria que seu povo se tornasse igual a qualquer outro, desalmado, egoísta, esquecido do que significa ser africano, ou, pior ainda, envergonhado da África…”

“Tudo aquilo era útil, da primeira à última linha, quer tratasse dos previsíveis discursos dos políticos, quer das notícias da igreja. Nunca se podia saber quando algum conhecimento local se tornaria útil.”

     Além das suas qualidades como tramas policiais e como ficção pura e simplesmente, os livros de Agatha Christie enfocando Miss Marple têm, sobretudo, charme (os de Poirot também, evidentemente). Esse foi um dos fatores que me irritaram na leitura de O clube filosófico dominical: tudo era prosaico, sem graça, não havia charme. No entanto, que diferença encontramos em outro livro de Alexander McCall Smith, Agência número 1 de mulheres detetives (1998). Não sei como qualificá-lo dentro da ficção ou do gênero policial, não sei se ele é um ótimo livro, porém ele tem charme, assim como sua heroína, a deliciosa Preciosa Ramotswe, uma africana da gema que, aos 34 anos, resolve ser a primeira mulher-detetive de Botsuana, após cuidar do pai durante 14 anos, até sua morte (ela havia sido abandonada pelo marido, que a espancava, e seu filho só vivera por alguns dias). A descrição dos detalhes concretos, de como ela usa sua herança para montar a agência e a casa onde mora, a contratação da secretária, as reflexões de Mma. Ramotswe, os casos que ela investiga, tudo é muito revelador de uma curiosa característica de McCall Smith que é muito presente também no livro de Edimburgo (ver post abaixo), mas que ali desandava: ele tem uma visão muito prosaica da vida, da sociedade e das relações. Sua detetive chega a ser simplória e singela. E isso cai como uma luva. Mesmo porque o livro é muito discreto com relação ao que poderíamos chamar de “investigações”. Já notara (embora ele seja posterior) a falta de fôlego evidente em O clube filosófico dominical. Não se tinha um romance ali, de jeito nenhum. E também não temos um romance, no sentido convencional, em Agênica número 1 de mulheres detetives. O que temos é um livro de contos disfarçado numa narrativa mais geral, uma série de anedotas meio que frouxamente reunidas, porém tão saborosas em si mesma, e com o mesmo denominador comum, que é Mma. Preciosa Ramotswe, que não consigo ver a falta de fôlego como uma falha, e sim um elemento da visão de mundo de McCall, que não sei porque se perdeu na passagem de Botsuana para Edimburgo.

     Há um caso que atravessa uma boa parte do livro (o menino que é sequestrado,  e que parecia ter sido vítima de feiticeiros–há até a descoberta de um dedo que poderia ser dele, porém ele não foi sacrificado em nenhum ritual:era utilizado como um escravo, sendo resgatado por Preciosa Ramotswe). De resto, temos a história de como a agência foi criada, a história do pai dela, do seu casamento com o marido que não vale nada (que a tornará refratária às propostas de casamento, até o final inesperado), e a investigação de 7 casos prosaicos (é preciso dizer que são deliciosas as referências ao manual de detetive que nossa heroína estuda atentamente): há o caso do impostor que se passa por pai de uma sub-contadora bem-sucedida; há um marido que mergulhara num culto religioso e desaparece (na verdade, ele foi devorado por um crocodilo); há o caso da filha adolescente do retrógrado senhor Patel, que é um momento muito movimentado e divertido do livro, pois mma. Ramotswe tem de segui-la pela cidade, e comete muitos erros que não constam do manual; há o caso da mulher que se preocupa porque o marido roubou um carro . há o caso impagável do marido mulherengo, com quem a própria Preciosa sai para provar sua infidelidade (quando mostra as fotos que tirou com ele para a esposa, é destratada e xingada), há o caso do empregado que forja um acidente, alegando ter perdido um dedo, para conseguir uma indenização, e, finalmente, temos o caso do médico que uma hora é competente, na outra é inepto, outro que faz com que a detetive se desloque para cá e para lá com sua pequena van branca.

ONDE FICA ESSA EDIMBURGO?

 

                     Um título desperdiçado

    Um título irresistível; uma ambientação diferente (Edimburgo); uma protagonista que é especialista em filosofia moral, editora de uma “Revista de Ética Aplicada”; um autor nascido no Zimbábue e que já escrevera uma série policial cujo cenário era Botsuana. Era presumível que O Clube Filosófico Dominical (“The Sunday Philosophy Club”, 2004; tradução de Alexandre  Hubner, Companhia das Letras) , de Alexander McCall Smith, transcendesse o mero entretenimento de mistério e tivesse o fôlego necessário para ingressar no ainda seleto cânone dos que realmente sobreviveram num gênero ingrato, às vezes subestimado, às vezes supervalorizado.

    Isabel Dalhousie vai a um concerto e assiste à queda mortal de um desconhecido, Mark Fraser, das galerias superiores. Investigando por conta própria (e pela absoluta falta do que fazer na vida) o incidente, que aos poucos vai se configurando em sua mente como assassinato, ela descobre transações financeiras desonestas e um triângulo amoroso envolvendo os parceiros de moradia de Mark e seu chefe e a noiva deste.

    A sensaborona síntese acima é proposital: não existe nada mais sem graça do que O Clube Filosófico Dominical. Que entretenimento, que nada! Que candidato a cânone! E, o que é pior, que desperdício de um título e suas possibilidades! Entre as muitas queixas que se pode fazer contra o livro, está o fato de que o tal clube só é citado e nunca aparece em cena. Que saudade das sessões (de mah jong ou bridge) das senhoras de St. Mary Mead, o vilarejo de Mrs. Marple, com seus mexericos e revelações involuntárias! Não nos deparamos, apesar das constantes caminhadas de Isabel, com um personagem ou situação interessante: nem sua sobrinha, Cat, em cuja vida sentimental a tia se intromete, porque prefere (até demais da conta…) o antigo namorado, que a ajuda na investigação, ao atual; nem a empregada, Grace, com julgamentos morais inflexíveis; nem os prováveis suspeitos. Até mesmo o momento de maior “suspense” (ela liga para o celular de um homem que lhe deu informações e o aparelho começa a tocar dentro da sua casa, praticamente no seu quarto) se perde na mornidão geral.

    O pior de tudo é a chatice da heroína. Que ela seja uma filósofa é risível. Seus pensamentos são pífios (para se ter uma idéia, ela lembra de Hannah Arendt e pensa: “A banalidade do mal”!!?? Faça-me o favor, Mr. McCall Smith!), suas conclusões morais, banais (“Os relacionamentos entre as pessoas não podiam ser usados como base de comparação por outros”) e sua rotina é uma mistura de ociosidade e privilégios que chega a causar espanto, senão repulsa. Há até um momento cômico, quando ela reflete: “Havia ocasiões em que ser a editora da Revista de Ética Aplicada era um peso, parecia tão difícil relaxar…”

   A tal Isabel é de uma caretice sem par: ela candidamente fica transtornada ao saber que existem casos extraconjugais e falcatruas no mercado financeiro, o que nos leva a pensar que a Edimburgo de O Clube Filosófico Dominical não fica na Escócia, e sim em outra galáxia, a muitos anos-luz daqui.

(resenha publicada em 22 de março de 2008)

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