BLOG DO ALFREDO MONTE

28/11/2009

Borges e Sabato

(resenha publicada em 9 de julho de 2005)

    Foi um feito inegável de Orlando Barone reunir Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato (com Julio Cortázar, eles formam a suprema trindade da literatura argentina). Outrora amigos, ou pelo menos pessoas que conviviam no mesmo meio, vários fatores contribuíram para ambos se afastarem, inclusive um mal disfarçado antagonismo literário (que o leitor de Três aproximações à literatura de nosso tempo, de Sabato, acaba por perceber).

    De dezembro de 1974 a março de 1975, os três encontraram-se algumas vezes e divagaram variados tópicos, às vezes com desenvolvimentos surpreendentes, como no momento em que Sabato diz que os Beatles são grandes músicos, com a concordância imediata de Borges: “Acredito que sim. O meu sobrinho me disse uma vez: você vai ouvir um disco. O que é ? perguntei. Não vou te dizer, me respondeu. Pôs o disco, eu o ouvi e fiquei muito enternecido. Eram os Beatles. Se eu tivesse sabido de antemão, teria ficado na defensiva. Que foi o que me aconteceu com os blues, que eu achava que não gostava. Um dia, Ulises Petit de Murat me fez escutar Saint Louis Blues. Quando acabou, eu tinha os olhos cheios de lágrimas. Isso é o que você não queria ouvir, ele me disse.”

    Há frases luminosas, daquelas que dizem tudo. É o caso da caracterização borgiana da eficácia política: “É a grande descoberta dos políticos, que não precisam ser coerentes”. E há aquele momento, tão verdadeiro, em que lembrando de versos de Emerson e Baudelaire (“When me they fly, I am the wings”/”Je suis le soufflet et la joue”), ele não se contém: “Como a literatura é linda!”

  Ainda assim, é preciso reconhecer que a empatia de Diálogos Borges/Sabato está com este último, muito mais lúcido. Às vezes vemos surgir no primeiro, quando acuado intelectualmente, uma certa atitude infantil e casmurra: quando  Sabato discorre sobre o tango, expondo com paixão (como lhe é peculiar) idéias que evidentemente desagradam ou não interessam a Borges, e este parece querer encerrar o assunto com um peremptório: “Não sei, não posso falar de música”. Ou quando parece querer dar a impressão de  desconhecer e ignorar toda a literatura latino-americana que marcou o século, mas  deixa escapar perto do final do livro: “Em outros lugares da América, o que se escreve são romances de costumes ou arrazoados sociais, mas romances de pura imaginação acredito que se dão quase que exclusivamente aqui ou talvez no México.” Como ele sabe se desconhece e ignora o que se escreve ?

    Esses disparates posudos, no entanto, não atrapalham a maravilhosa maneira como ambos desmontam a falácia básica do naturalismo: copiar a “vida real”. Curiosamente, é uma tentação que atinge até os escritores, como se pode depreender num dos ensaios de Mario Vargas Llosa, em A verdade das mentiras: “Quando conheci Dublin, em meados dos anos 60, senti-me traído: essa cidade alegre e simpática, de pessoas exuberantes, que me paravam no meio da rua para me perguntar de onde vinha e me convidavam para tomar cerveja, não se parecia muito com a dos livros de Joyce. Um amigo se resignou a me servir de guia atrás dos passos de Leopold Bloom, nessas 24 horas prolíficas de Ulisses; conservam-se os nomes das ruas, muitos locais e endereços e, entretanto, aquilo não tinha a densidade, a sordidez, nem o acizentado metafísico da Dublin do romance. Alguma vez haviam sido, ambas, a mesma cidade?” Sabato (falando sobre Abadon, o exterminador, onde também é personagem): “E aqui eu gostaria de dizer alguma coisa sobre o eterno problema do naturalismo. Eu misturei episódios estritamente naturalistas ao lado de outros completamente fantásticos, porque essa é a única maneira de tornar críveis os fantásticos. Esses “fatos” naturalistas,  embora fossem fictícios, também devem ter contribuído para que alguns acreditassem na famosa autobiografia. Mas é um risco que corri com plena consciência, pois acredito que o escritor tem o dever de fazer  o que considera autêntico e não condescendem em nada… Os detalhes “naturais”, pois, estão postos para criar  a fé na ficção inteira, sobretudo em suas partes mais delirantes”.

    Se há algo que atrapalhe o prazer de ler Diálogos Borges/Sabato são os apartes e inserções textuais de Orlando Barone, que vão do trivial e obtuso ao constrangedor e revoltante. Ele devia ter entrado mudo e saído calado da empreitada de (se) colocar frente a frente (a) tais comparsas.

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A luz e a sombra de Sartre

(resenha publicada em 18 de junho de 2005)

    Para comentar o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (que ocorrerá no dia 21 deste mês) fica-se na dúvida: que obra escolher ? São tantas, e  tantas são apaixonantes, até as obras de filosofia como O ser e o nada… E Sartre ainda continua a ser publicado, diga-se o que se quiser sobre o declínio de sua influência,  os livros mais inesperados ganham contínuas reedições, como Que é a literatura ?  Para homenageá-lo, seria preciso falar de ambos, do teatro, de  A náusea, dos contos de O muro,  da magnífica trilogia, Os caminhos da liberdade, da qual tantos não gostam, de As palavras, de  Questão de método, de textos das  diversas Situações, do belíssimo roteiro-que-não-foi-filmado, Freud, além da alma, do livro sobre Jean Genet, de A esperança agora

    Caminho mais fácil: comentar um livro a respeito dele e que justamente tem a ambição de fazer frente a todas as vertentes sartreanas: O século de Sartre (Nova Fronteira), publicado por Bernard-Henri Lévy na virada do milênio. Lévy vai tão fundo  que acaba por nos dar a impressão de fazer a Sartre o que este fez a Genet e tantos outros, ao estudar suas biografias e obras, precipitando seu eleito “no buraco negro do seu próprio pensamento. É a desventura de Genet, esmagado pela homenagem que ele lhe presta, canibalizado, reduzido a nada e quase parando de escrever, ou seja, de existir, após a publicação de São Genet, esse livro-mausoléu onde le meio que o enterrou vivo… longe de ser um acidente… esse beijo da morte é um dos modos normais de sua relação com os artistas que admira”.

      O nó da questão:  Sartre escreveu São Genet, canibalizou seu objeto de estudo, mas era Sartre, e um escritor muito mais importante do que seu colega. O que era exatamente Bernard-Henri Lévy antes de O século de Sartre ? O mais famoso e vendido dos chamados “novos filósofos” que apareceram na década de 70. Qual foi sua contribuição como pensador? Segundo Michel Winock, no fabuloso O século dos intelectuais,  mereceria um estudo especial a desproporção evidente entre a importância da sua obra e a freqüência com que aparece na tevê  (deve-se lembrar que o próprio Lévy tem um livrinho, Elogio dos intelectuais). No entanto, até que ele revelou certo talento como romancista em O diabo na cabeça e Os últimos dias de Charles Baudelaire.

    Com nó ou sem nó: O século de Sartre é a mais incrível surpresa dos últimos anos. Todos os pontos importantes são esmiuçados, os textos são percorridos com arrepiante minúcia (ainda que a análise peque, às vezes, por uma certa grandiloqüência). Qualquer leitura é sempre redutora, qualquer tipo de  citação poda, mutila, cria um contorno fácil demais ? Nada disso, a sensação é de que o leque Sartre abre-se cada vez, e nunca se esgota. Ele nos resgata a eminência do mais famoso intelectual do século XX, e como ela é constituída por suas próprias qualidades, pelo clima da época e por equívocos, mostra as influências omitidas, tanto literárias (Gide, por exemplo, enquanto ele proclamava Joyce, Kafka e John dos Passos), quanto filosóficas (Bergson, enquanto ele proclamava Husserl e o nazista Heidegger), como ele  pirateava pensamentos e pastichava estilos (moderno, portanto). Acaba com a velha baboseira da filosofia enfraquecer a força do romance sartreano (e finalmente alguém faz justiça a Caminhos da liberdade enquanto obra-prima da ficção), o que não o impede de ser injusto com o teatro praticado por ele (apesar de fazer uma magnífica leitura de Bariona, a primeira peça, ainda amadora). 

    Esmiuça o anti-totalitarismo radical do primeiro Sartre (cujas balizas principais são A náusea e  O ser e o nada, mas também aproveita de forma magistral vários textos  circunstanciais) para contrapô-lo ao segundo Sartre que se colocou a serviço do stalinismo (numa fase em que os intelectuais  já saltavam fora do barco) e, posteriormente, do maoísmo, e que passará a renegar sua obra até chegar ao ponto de condenar radicalmente o ato de escrever como uma doença adquirida na infância, uma quimera que destruiu sua vida, por influência do avô, em As palavras. Tudo pela causa do povo, de uma humanidade futura, ele, que afirmara que  “a existência precede a essência”  e que, por isso, jamais poderia acreditar numa abstração desse tipo.

    Nesses descaminhos da liberdade, a última surpresa do velho pensador, já cego, meio que desacreditado até por sua  “família”, ou seja, o grupo de amigos-discípulos liderados por Simone de Beauvoir (e Lévy nos faz repensar o até agora insuspeito relato do “declínio” de Sartre em Cerimônia do Adeus): sob a influência de um homônimo do autor de O século de Sartre, o ex-maoísta radical, o judeu-egípcio Benny Lévy (conhecido como Pierre Victor), a inclinação para o pensamento judaico. Mas a morte chegou antes de se verificar a extensão da nova mudança de rota, aquela anunciada de modo tão simples e comovente quando Benny Lévy pergunta: “Recomeça-se tudo? Recomeça-se aos 75 anos?” “É claro”.

 

26/11/2009

BERGMAN: palavras e imagens

 “Embora eu seja um neurótico, minha relação com o exercício da profissão tem sido sempre, surpreendentemente, não-neurótico. Tenho tido a capacidade de atrelar o carro de combate com os demônios à frente, forçando-os a serem úteis, isto ao mesmo tempo em que eles, a sós comigo, se comprazem em torturar e envergonhar. Como se sabe, o diretor de um circo de pulgas deixa que seus artistas lhe chupem o sangue”.   A morte de Ingmar Bergman propiciou a mim um relativo balanço existencial, já que seus filmes estão entranhados na minha alma desde quando comecei a me considerar um “cinéfilo” e vi primeiramente O Ovo da Serpente, Sonata de Outono e o fascinante Da Vida das Marionetes; este último, mais do que os outros dois, me fez ir ao cinema três vezes (início dos anos 80, ainda um tempo sem vídeo ou DVD, tinha-se de guardar dentro de si as imagens de um filme, sua atmosfera, o que certamente explica a “aura” que muitos deles adquiriam, ao contrário de hoje, quando se pode assistir a um Bergman entre o Faustão e o Fantástico) e, embora tenha deixado a crítica da época indiferente, ajudou a revelar para mim o que era “o” cinema, apresentando um descarnamento, uma frieza cirúrgica –mesmo assim não isenta de dramaticidade, muito pelo contrário— extremamente atraente (se é possível utilizar um termo assim para a paulada na cabeça que é essa obra), numa indústria já então dominada por ênfases disciplinadas e direcionadas. Depois vieram as grandes descobertas confirmatórias: O Sétimo Selo, O Rosto, Morangos Silvestres, Sorrisos de Uma Noite de Amor; um pouco mais tarde, A Hora do Lobo, Persona, e o maior de todos, Gritos e Sussurros (sobre os dois últimos trabalhos, ele lucidamente escreve: “Com Persona e, mais tarde, com Gritos e sussurros, fui o mais longe que pude quanto à técnica narrativa. Isto é, com total liberdade toco em segredos para os quais não existem palavras e que só a cinematografia pode patentear”).

    Quantos criadores deram origem a um adjetivo próprio (bergmaniano), o qual agrega toda uma gama específica de sentimentos e uma visão do mundo fundada na angústia?

    Não bastasse isso, Bergman fascinava também pela palavra: seus roteiros foram publicados no Brasil pela Nórdica e tornaram-se tão cruciais para mim quanto qualquer grande autor literário, e às vezes funcionavam mais do que os filmes (caso de Face a Face, Cenas de Um Casamento ou A Hora do Amor). Por isso, nada mais justo do que uma despedida mediada pela palavra, no caso seu livro Imagens, publicado em 1990, no qual comenta sua extensa produção (iniciada em 1945) valendo-se de uma forma muito pessoal, caleidoscópica, recusando o critério da linearidade cronológica, aproximando filmes distantes por obsessões recorrentes.

    As cinco seções (“Sonhos/sonhadores”, “Primeiros filmes”, “Farsas/farsantes”, “Crença/descrença”, “Comédias/divertimentos”, “Outros filmes”) são frutos de longas conversas com Lasse Bergström, o que justifica um pouco a forma descontraída, aparentemente descuidada, da prosa de Bergman, enriquecida e ampliada por anotações de agendas de trabalho e trechos de sua autobiografia, Lanterna Mágica.

 

“Quero que me tomem como pessoa adulta, mas surpreende-me continuamente que as pessoas me levem a sério (…) Não penso, é claro, que toda essa gente são crianças que representam o papel de adultos. A única diferença entre mim e eles é que já esqueceram ou nunca pensaram que, no fundo, continuam sendo crianças.”

 

    E é muito belo esse vai e vem que, apesar de toda a pluralidade da produção bergmaniana (cerca de 50 trabalhos, entre obras-primas, experiências personalíssimas, filmes comerciais e de encomenda, comédias), dá uma tremenda idéia de unidade e ajuda a entender o brado de Peter Egerman, em Da Vida das Marionetes: “O espelho está partido, mas o que refletem os pedaços?” Um ponto alto nessa reunião dos pedaços é a discussão do processo de descrença crescente que culminará com a realização de Luz de Inverno (1963), logo após o desmascaramento do deus que Harriet Andersson encontra no papel de parede, em Através de Um espelho (afinal, esse mesmo homem conseguiu encarnar a morte num ator, em O Sétimo Selo, sem cair no ridículo). Nessa discussão metafísica não se perde o bom senso que lhe permite discutir sua carreira com os pés do chão. Em meio às dúvidas e tormentos do seu pastor sem fé, ele observa: “é um filme sobre o homem sueco em termos da realidade sueca e, meteorologicamente falando, no período mais difícil do ano”. É o mesmo homem que afirma sobre suas comédias: “era imprescindível que elas me dessem dinheiro. E não me envergonho de confessá-lo. A maior parte das coisas que acontecem no mundo do cinema acontecem devido a esse fator.” Ou ainda: “me sentia, com freqüência, envolvido numa prostituição profissional contínua, ainda que bastante divertida. Trata-se, evidentemente, de atrair público. Não era outra coisa senão show business de manhã à noite”. E é o mesmo homem que se recrimina, por ter, em Sonata de outono, realizado um filme “à Bergman”.

    E que bonito esse grande homem nunca chegar a um acordo consigo mesmo. Pois é capaz de afirmar sobre a “magia do teatro da ilusão” propiciada pela Flauta mágica: “Nada é. Tudo está representado. No momento em que o pano sobe, faz-se um acordo entre o palco e o salão: agora vamos soltar a fantasia!”; e em outro passo, “isto de criar uma ilusão, de representar! Os atores representam comédias e eu os incito a isso. Por vias tortuosas tentamos conseguir impulsos emocionais que o público irá toma por sentimentos, até por verdades. Ora, isso começa a ser difícil. Sinto uma aversão crescente perante o próprio milagre da interpretação teatral”. Essa oscilação impregna a tessitura de Imagens: trata-se de uma vida reconstruída com palavras de antes e de agora. O velho e bom Henry James já escrevera: “Trabalhamos no escuro, fazemos o que podemos, damos o que temos. Nossa dúvida é nossa paixão e nossa paixão é nosso dever. O resto é a loucura da arte.” O velho e bom Ingmar Bergman, esse pedaço importante do meu próprio espelho quebrado: “Nós caminhamos passo a passo em direção às trevas. A única verdade existente é esse movimento”. E quem assistiu a uma de suas obras-primas, que em 2007 torna-se cinqüentenária (apesar de ser mais jovem que todo o cinema atual), Morangos Silvestres, sabe como isso é verdadeiro.

 (resenha publicada, de forma ligeiramente condensada, em outubro de 2007)  

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Oncologia, Ecologia, Ontologia

Em Get a Life-De Volta à Vida, Nadine Gordimer relata uma série de eventos dramáticos envolvendo a família de seu protagonista, Paul Bannerman: ele passa por uma “quarentena” obrigatória, após a operação de extração de um tumor maligno na tireóide e a aplicação de iodo radiativo; seu pai, numa viagem ao México, conhece outra mulher, apaixona-se e nunca mais volta para sua mãe, a qual, por sua vez, adota uma menina negra (é a África do Sul pós-apartheid) de três anos, que fora estuprada, contaminada com o vírus HIV e abandonada; sua própria esposa engravida novamente, contra a sua vontade.

    Além disso, há a luta do grupo de ambientalistas do qual Paul faz parte contra projetos governamentais ecologicamente ruinosos: a destruição de dunas e de um delta cuja extensão o faz ser identificável até do espaço. A humanidade, a “civilização” como tumor maligno na natureza, desafiando sua capacidade de recuperação, uma “quarentena” muito além da capacidade imaginativa do indivíduo.

    Não faltam, portanto, elementos para compor mais um vigoroso painel contemporâneo, com a musculatura narrativa que a grande escritora sul-africana alega ter desenvolvido tarde em sua carreira (mais especificamente, a partir de O Falecido Mundo Burguês, de 1966), em reação à sua “sensibilidade aguçada”, mais propensa a envolver a vida num envelope transparente na esteira de uma Virginia Woolf. Numa das famosas entrevistas da “Paris Review” ela declara: “minha luta tem sido para não perder a agudeza de captar nuances de comportamento e casá-las com sucesso a um talento narrativo. Porque a espécie de assuntos que estão ao meu redor, que me atraem, que vejo e me motivam, exige uma forte habilidade narrativa”.

    Os resultados dessa luta não podiam ser melhores: o mosaico de uma sociedade repressiva e dividida, e sua posterior e conflituosa superação (“mas, é claro, num certo sentido você é ‘sortudo’ se tem grandes temas”), em romances já clássicos como The Conservationist- O Amante da Natureza (ganhador do Booker Prize em 74, publicado no Brasil apenas em 82), A Filha de Burger, O Pessoal de July. Neles, e em trabalhos mais recentes, como Ninguém para me acompanhar ou A Arma da Casa, a determinação é quase balzaquiana, mesmo com a apurada sofisticação técnica: é uma realidade social específica que está sendo delineada diante de nossos olhos (evidentemente, daí advém a sua eficácia universal, a velha história de que falando da nossa aldeia…).

    Pois bem, com todos os conflitos que permeiam o livro, com toda essa tarimba, Nadine Gordimer manda tudo às favas em De Volta à Vida, desossando a tal musculatura narrativa desenvolvida por ela, desencarnando-a mesma, e nada ficando a dever a mestres da insubstancialidade contemporânea: Don DeLillo, Bernardo Carvalho, Paul Auster, João Gilberto Nöll. Acompanhando o estado fantasmático que cerca Paul Bannerman desde sua “quarentena”, ela nos apresenta a realidade sul-africana num puro “envelope transparente”, digno de Virginia Woolf, num estilo quase a ponto de se desfazer, de se volatilizar, que eu só tinha visto até hoje, com essa intensidade, nos romances de Joan Didion, Democracia e A Última Coisa que Ele Queria, uma espécie de má vontade com o material que tem de lidar (e que visto do espaço, em escala cósmica…) e frases-refrão que reaparecem e reaparecem, dando ritmo a esse estranho sussurro narrativo, que persiste na reticência intransigente do que poderia ter sido um grande romance tradicional.

    Mas que romance tradicional poderia surgir quando se lida com o inconcebível, quando as pessoas têm de se acomodar ao intolerável (esse “tema” que é tão caro ao compatriota de Gordimer, J.M. Coetzee, e que rendeu uma obra-prima como Disgrace-Desonra): “… O que aconteceu —essa formulação implica o passado, o que existe agora é um presente sem existência no domínio das experiências fornecidas…”?

    Se Doris Lessing, aos 82 anos, impressionou com o fôlego épico de O Sonho Mais Doce (2001), também de certa forma mostrou-se estática (mesmo com toda a sua autoridade) na exploração do mesmo universo das  obras anteriores (é que o universo lessinguiano é rico e vasto), Gordimer (que também chegava aos 82 no ano da publicação original de De Volta à Vida, 2005) surpreende e faz um dos romances mais atrelados, ou entrelaçados, ao que conhecemos pelo nome vago de pós-modernidade. E assim como o corpo de Paul Bannerman irradia invisivelmente seu perigo, e assim como falamos em escombros (da tradição narrativa, da África do Sul do apartheid, do meio ambiente), falemos também de um talento, ainda que inaparente, que irradia perigo (“açula a atenção, isca-a com o risco”, como no poema de João Cabral de Melo Neto): o leitor pode ficar tão fascinado por ele que não aceite mais outro tipo de texto representativo de nosso zeitgeist, do espírito da nossa época. Assim, com uma simplicidade alucinante (que parece ser típica dela), essa senhora octogenária se torna a escritora mais moderna, up to date, do mundo.

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em outubro de 2007)

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25/11/2009

SHERLOCK HOLMES À FRANCESA

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS acesse: www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

ANOTAÇÕES FINAIS (dia 25.11.09, as anteriores encontram-se abaixo):

“Já era tempo de botar para funcionar aquela massa cinzenta de que tanto me orgulhava e de que até então fizera tão pouco uso”.        (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX)

   Holmes e Laura Lafargue, née Marx, iniciam um ardente romance em plena Paris sitiada.  Um dia ela desaparece misteriosamente. Em busca da mulher amada, ele  vai a Bordeaux, na qual  casal Lafargue reside, e descobre que teve em seus braços uma falsa Laura, pois conhece a verdadeira filha de Marx: “Era falsa a carta de Marx à sua filha que eu lera em Paris, falsas as boas novas. mais terrível ainda: falsa, a identidade da mulher que eu adorava e cuja doçura e entega haviam adormecido em mim todas as desconfianças, atenção e vigilãncia. Falso,  o rapto! Falsidade! Falsidade! Falsidade! Era tudo uma mistificação. Mas então quem era aquela mulher? O que ela pretendia? Quais eram seus motivos, seus interesses? “

      Na verdade, a falsa Laura é o verdadeiro X, é ela quem pretende assassinar Marx (não vou revelar os motivos aqui). Para chegar a Londres e impedi-la (o que acontecerá, com Holmes assumindo a identidade do autor de O capital, numa demonstração das suas habilidades no disfarce), Holmes, voltando a Paris, tem de sobreviver (e seus amigos também, e mais o pobre Rupelski, que era inocente) à invasão bárbara que a cidade sofre, e ao massacre dos seus habitantes, narrados de uma forma ao mesmo tempo concisa e eficiente por Lecaye. Na figura de X, a falsa Laura, vemos também uma alusão àquelas formidáveis e atraentes mentes criminosas femininas que tanto obsedaram o Holmes de Conan Doyle, embora nenhuma delas chegasse a ser tão destrutiva.

ANOTAÇÕES DO DIA 24.11.09

“A diferença entre criminosos e inocntos não está na concepção, mas no poder e na força de transformação de um pensamento em ato. Se tivesse respeitado essa verdade eterna, infelizmente inacessível a um espírito de 23 anos, inexperiente, ainda imbuído de princípios rígidos, incapaz de imaginar uma passagem, uma passarela entre o mundo do Bem e o do Mal, a seqüência de minhas aventuras teria, uma vez mais, sido outra” (Alexis Lecaye, SHERLOCK HOLMES & MARX, mas aí na esteira dessas reflexões, precisaria ter uma pitada de Freud na perspicácia sherloquiana).

(para o leitor se orientar: estou comentando o livro SHERLOCK HOLMES & MARX, de Alexis Lecaye, mas utilizando como apoio dois textos de Marx da época da comuna de Paris de 1871: A guerra civil na França & Cartas a Kugelmann; veja as anotações do dia anterior logo abaixo)

“É um fato estranho. Apesar de tudo o que se falou e se escreveu, com tamanha profusão, durante os últimos 60 anos, a respeito da emancipação do trabalho, mal os operários, não importa onde, tomam o problema em suas mãos, logo recomeça a ressoar toda a fraseologia apologética dos porta-vozes da sociedade atual, com os seus dois pólos, o capital e a escravidão assalariada… como se a sociedade capitalista se achasse ainda em seu mais puro estado de inocência virginal, com seus antagonismos ainda em germe, com suas ilusões ainda encobertas, com suas prostituídas realidades ainda não desnudadas. A comuna, exclamam, pretende abolir a propriedade, base de toda civilização! Sim, cavalheiros, a comuna pretendia abolir essa propriedade de classe que converte o trabalho de muitos na dos expropriadores.  Queria fazr da propriedade individual e o capital, que hoje são fundamentalmente meios de escravização e exploração do trabalho, em simples instrumentos de trabalho livre e associado. Mas isso é comunismo, o irrealizável comunismo! … Se a produção cooperativa for algo mais que uma impostura e um ardil, se há de substituir o sistema capitalista; se as sociedades cooperativas unidas regularem a produção nacional segundo um plano comum, tomando-a sob seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas,  conseqüências inevitáveis da produçao capitalista, que será isso, cavalheiros, senão counismo, comunismo realizável?

      A classe operário não esperava da comuna nenhum milagre. Os operários não têm nenhuma utopia já pronta para introduzir, por vontade popular… Eles não têm que realizar nenhum ideal, mas simplesmente libertar os elementos da nova sociedade que a velha sociedade burguesa agonizante traz em seu bojo…”

                      (Karl Marx, A guerra civil na França)

     Ontem, contei que no romance de Lecaye, Marx marca um encontro com o jovem Sherlock Holmes em 13 de abril de 1871. Querendo contratar os seus serviços, o informa de que, sob as ordens de Bismarck, um anarquista russo, “com status de desertor, um homem estranho, aristocrata arruinado, anti-semita e xenófobo” se prepara para assassiná-lo. Seu nome: Rupelski: “O que eu quero lhe pedir… procurar o assassino, desmascará-lo sem que ele suspeite de nada e fazê-lo desaparecer… Quando digo ´desaparecer´, entendo com isso esconder, dissimular, raptar se quiser, subtrair  à atenção e colocá-lo fora de circulação… O senhor o guardará durante algumas semanas, o tempo necessário para eu concluir um trabalho que me é caríssimo. Depois poderia soltá-lo…o importante é ele não me matar agora, o que representaria um golpe fatal para o movimento.” Que movimento? A Internacional dos trabalhadores. Marx fica espantado com o desinteresse e ignorância políticos de Holmes:  “Vocês, britânicos, são incríveis! Concedem asilo, quase irrefletidamene, ao cérebro de uma organização que, com ou sem razão, faz tremerem todos os burgueses e governos do continente, e não sabem sequer da sua existência…O senhor, jovem burguês briânico, inteligente e culto, não apenas não têm medo, o que concebo perfeitamente, como sequer tem conhecimento da nossa existência!” Numa carta de 27 de julho do mesmo ano a Kugelmann, Marx diz: “O trabalho da Internacional é imenso, e além disso Londres está abarrotada de refugiados, pelos quais tenho de olhar. Mas estou sobrecarregado por outras pessoas, jornalistas e gente de toda espécie, que querem ver o monstro com os próprios olhos. Acreditou-se até agora que o crescimento dos mitos cristãos durante o Império romano foí possível apenas porque a imprensa ainda não fora inventada. É precisamene o contrário. A imprensa diária e o telégrafo, que em um instante difundem invenções por todo o mundo fabricam mais mitos (o gado burguês acredita neles e aumenta com base neles) em um dia do que antes se fazia em um século.”. Numa preciosíssima  carta anterior (de 18 de junho), ele escreve: “Você sabe que durante o período da última revolução de Paris fui denunciado continuamente como o grand chef da Internacional, pelos jornais de Versalhes, e por extensão, pela imprensa aqui da Inglaterra… tenho a honra nesse momento de ser o mais bem caluniado e ameaçado homem de Londres. Isso faz um sujeito sentir-se bem, depois de um idílio entediante de 20 anos em seu antro…”

      Voltando ao romance, após algumas peripécias londrinas (inclusive, um atentado contra sua vida), Holmes aceita a proposta de Marx, que é a de viajar para Paris, onde Rupelski, ou X (porque não há certeza firme da sua identidade) está camuflado, nos meios anarquistas, “em pleno coração da Paris revolucionária. Hoje em dia é o melhor lugar para se esconder e se urdir complôs, no meio da desordem e da efervescência populares”. Holmes vai para o continente com um colaborador francês da Internacional,  Philibert Longuet, e depois de algumas aventuras pelo interior da França (há até um duelo, mas deixo os detalhes para o leitor do romance), entra disfarçado em Paris, através de túneis subterrâneos antiquíssimos. acompanhado pelo desdenhoso e intrigante Vigot. Entre os comparsas da viagem de Holmes está a família Gottlieb, e madame Gottlieb, contrariando o marido, diz a seguinte frase, que vem a propósito, quando pensamos na missão do detetive e nas palavras que Marx escreveu em suas missivas a Kugelmann: “Se perguntar aos operários parisienses, não encontrará muitos que sequer conheçam o nome do senhor Karl Marx”.

       Em Paris, Holmes refugia-se no apartamento de Vigot, conhecendo a irmã dele, Isabelle, uma pintora passional (e aqui podia-se temer que houvesse uma convencionalíssima aproximação amorosa, mas Lecaye se mostrou muito mais hábil do que se podia esperar, fazendo com que haja uma fixação por parte dele, enquanto os interesses dele irão por outros caminhos; ele a deixa indignado com sua “inocência” inglesa, não “entendendo” o que ela quer dele, e mantendo-se fleumático e racional: “Aquela desordem dos sentimentos, que nada seria capaz de explicar, bem diferente da apaixonante desordem de uma investigação criminal que esconde de fato elos secretos e encadeamentos rigorosos… O que há de mais fascinante que isolar o fio vermelho do crime da meada incolor da vida?”; mais adiante, numa daquelas considerações que são típicas das narrativas retrospectivas, ele se auto-congratula pelas decisões que moldaram sua existência: “felicito-me a cada instante por ter sido capaz, à minha revelia talvez, mas é o resultado que conta, de evitar os escolhos da paixão para me ater ao conforto de uma sólida e viril amizade“, referindo-se aqui, é claro, à sua relação com o doutor Watson).

       Enquanto conhece melhor os irmãos (chega a posar para quadros de Isabelle, entre um e outro arrufo), ele perambula por Paris, tentando estabelecer contatos (que Marx forneceu) e localizar X/Rupelski. E ele consegue se introduzir num círculo de niilistas (“o senhor viu a cidade que se diverte, vai descobrir a cidade que pensa”), que se reúnem nas catacumbas da Igreja Santo Eustáquio,  e ouvir o discurso inflamado, visando diretamente a figura de Marx, do tal Rupelski, um exemplo cabal dos eternos derrotistas, daqueles que teorizam para não agir e para impedir os outros de agir: “Entre esses homens, há um particularmente cuja ação e palavra devem ser imperativamente refreadas, tal é a astúcia diabólica que mostra na apresentação de seu programa e de suas idéias: trata-se de Karl Marx, gênio mau de todos os que aspiram ao movimento livre e espontâneo da revolta… Seguia-se então uma longa enumeração dos vícios imperdoáveis do pensamento e da ação de Karl Marx, um catálogo em que se misturava confusamente tudo o que Rupelski podia recriminar ao revolucionário alemão, inclusive sua origem judaica e seua pretensa lascívia (…) Apesar do tom virulento de Rupelski, a despeito do silêncio religioso que acolhia cada palavra sua, tive a estranha impressão de ter assistido a um sermão dominical, em que o fato de estar presente e escutar bastava para garantir a consciência limpa e sustentar a fé de todos os participantes. Decerto não era ali que se elaboravam os complôs e as decisões irrevogáveis.”

      E Holmes consegue capturar Rupelski e mantê-lo preso num porão abandonado do edifício em que moram os irmãos (Isabelle até se torna uma amiga do niilista russo). A missão estava completa? Holmes tem a sensaçao que não, sua intuição lhe diz que não aprisionou um tigre, mas um reles chacalzinho, astuto e escorregadio, porém inofensivo. Por isso, decide esperar instruções do próprio Marx…

      Holmes recebe, então, uma carta de Laura, a filha de Marx casada com o jornalista e colaborador da Internacional Paul Lafargue, dizendo que está em Paris e deseja encontrá-lo no Hotel de Bordeaux. Lá, ele sofre um “coup de foudre”: é amor à primeira vista, fica idiotizado, desajeitado, completamente tomado por aquela mulher (e a coisa pelo visto é recíproca): “sou incapaz de achar as palavras adequadas para explicar as razões daquela súbita e vergonhosa perda de autocontrole”). Mesmo embasbacado, há assuntos urgentes:  ela traz uma carta do pai, escrita no seu estilo característico (pitoresco e misturando palavras de vários línguas, uma das várias coisas que me fazem aproximar na minha cabeça, às vezes, as figuras de Marx e James Joyce). Nessa carta, ele diz que a missão realmente pode ser encerrada, pois ele não corre mais riscos. Holmes informa à Laura que capturou Rupelski (ela até chega a vê-lo no porão onde está trancafiado, embora tenha ficado desconfiada e mesmo em pânico quando Holmes a encaminhou até ali). De qualquer forma, Holmes está apaixonado, citando Werther e completamente indeciso quanto a voltar para a Inglaterra…

ANOTAÇÕES DO DIA 23.11.09

“O que há de mais mortal, mais destruidor que a ordem para o espírito curioso, para o olhar esquadrinhador, que encadeia elos aparentemente disparatados, mas na realidade profundamente complexos?” (Alexis Decaye, SHERLOCK HOLMES & MARX).

       Em 1974, Nicholas Meyer engenhosamente imaginou um encontro entre Sherlock Holmes e Freud, em razão do vício do primeiro em cocaína, em Uma solução sete por cento (A seven per-cent solution, um dos três livros em que ele reinventou o detetive de Conan Doyle) , que depois seria, infelizmente,  adaptado por Herbert Ross, com sua habitual preguiça de criar qualquer coisa de pessoal ou marcante, num desperdício da inteligência do texto e também do maravilhoso elenco (Nicol Williamson, Robert Duvall, Alan Arkin, Laurence  Olivier, etc). O  filme virou por aqui Visões de Sherlock Holmes e lhe faz falta a  mistura da pena da galhofa & da tinta da melancolia que o mestre Billy Wilder imprimiu a um filme contemporâneo: A vida íntima de Sherlock Holmes.

        Em 1981, fo a vez de Marx. O autor francês Alexis Lecaye escreveu o imaginativo SHERLOCK HOLMES & MARX, traduzido há alguns anos por André Telles e publicado numa interessante série da Zahar,  “Creme do Crime” (há outra aventura lecayana de Homes, Sherlock Holmes & Einstein).

        Lecaye imagina Marx (que morou em Londres boa parte da sua vida) contratando os serviços de um muito jovem Holmes (aliás, ele comete uma ousadia: faz do detetive o próprio narrador das suas aventuras: “É a primeira vez, e muito provavelmente a última, que pego da pena, pelo menos no que se refere à redação de um capítulo das minhas Memórias. Outros se encarregaram disso por mim. Por que, então, esse súbito prurido de escrever, esta necessidade irreprimível de traçar eu próprio os contornos esmaecidos de um passado irrevogavelmente morto?… O caso que vou recordar aqui… exerceu, mais que qualquer outro, grande influência em minha mocidade. Essa influência chegou inclusive a se estender para além da minha pessoa. O episódio talvez tenha alterado toda a história européia deste fim de se´culo. Será que o próximo também sentirá o seu peso?”), na época da eclosão da comuna de Paris (em 1871), quando a capital francesa ficou sitiada por meses, após a derrota francesa na guerra com a Alemanha. Um assassino, a soldo de uma potência estrangeira, pretende eliminar Marx, e este envia Holmes à França durante esses meses revolucionários que o autor de O Capital descreverá com uma retórica majestosa (às  vezes muito exagerada, porém como foi escrito no calor do momento) nos seus panfletos que consituirão A GUERRA CIVIL NA FRANÇA. Dessa mesma época temos as cartas que ele escreveu para seu admirador , o ginecologista L. Kugelmann, “que tomou parte em sua juventude no movimento revolucionário de 1848 e por toda a sua vida se considerou um ardente seguidor de Marx” (trecho do prefácio de Lênin a essa correspondência).

       Antes de mais nada: o romance de Lecaye é ótimo. Eu teria o maior prazer de indicá-lo (sem que isso represente uma diminuição ou visão paternalista) para jovens leitores: é uma aula de como abordar uma aventura histórica sem pedantismos e sem explicações inúteis, confiando apenas na narrativa e na curiosidade e inteligência do leitor.  Em 170 páginas consegue nos transmitir uma imagem perfeita da Londres vitoriana, dos dias da comuna, da paisagem francesa (que Holmes atravessa para poder chegar a Paris e cumprir sua missão), das querelas ideológicas daquele momento, e, sobretudo, da transformação de Holmes em.. Sherlock Holmes, com as características que o consagrara, através de um relato retrospectivo que é um pouco também um balanço de vida, uma espécie de “ilusões perdidas” ou “educação sentimental” do detetive inglês. Gostei muito e recomendo (depois teríamos um “jovem Sherlock Holmes” muito interessante, também, na visão de Chris Columbus que resultou no filme, para mim e para vários amigos, memorável, porém pouco apreciado pela crítica: O enigma da pirâmide, talvez por ter sido realizado por outro diretor tão bisonho e nulo quanto Herber Ross: Barry Levinson).

      E, por falar em “jovem” Sherlock Holmes, abaixo temos uma foto do “jovem” Marx, longe do estereótipo de velho barbudão, meio Jeová, consagrado pela posteridade:

      A GUERRA CIVIL NA FRANÇA, fixando definitivamente o conceito de “luta de classes” vai tentar interpretar, mesmo no calor da hora, como afirmou Engels (num texto escrito vinte anos mais tarde), a “significação histórica da Comuna de Paris”: “A 28 de maio os últimos combatentes da comuna sucumbiam ante a superioridade de forças do inimigo… O desarmamento dos operários era considerado o primeiro dever para os burgueses que se achavam na frente do Estado… Era a primeira vez que a burguesia mostrava a que extremo de crueldade e vingança é capaz de chegar sempre o que o proletariado se atreve a defrontar-se com ela como uma classe independente, que tem seus próprios interesses e reivindicações… O Segundo Império fora o apelo do chauvinismo francês: a reivindicação das fronteiras do Primeiro Império, perdidas em 1814… isso implicava a necessidade de guerras periódicas e de ampliação de fronteiras… não havia extensão territorial que tanto deslumbrasse a fantasia dos chauvinistas franceses como as terras alemãs da margem esquerda do Reno… Defraudado em suas esperanças de  ´compensações territoriais´ por Bismarck e por sua própria política demasiado astuta e vacilante, não restava a Napoleão [não o original, bem entendido, e sim o seu desprezível arremedo] outra saída a não ser a guerra, que se deflagrou em 1870… A consequência inevitável foi a revolução de Paris de 4 de setembro de 1870. O Império desmoronou-se como um castelo de cartas e foi novamente proclamada a República…. A 25 de março foi eleita, e a 28, proclamada, a comuna de Paris… Como os membros da comuna eram todos, quase sem exceção, operários, ou representantes reconhecidos, as suas resoluções se distinguiam por um caráter marcadamente proletário. Uma parte de seus decretos eram reformas que a burguesia republicana não se atrevera a implantar por vil covardia e que lançavam os fundamentos indispensáveis para a livre atuação da classe operária, como por exemplo, a implantação do princípio de que, com relação ao Estado, a religião não é senão um problema de foro íntimo; outros tinham o objetivo de salvaguardar diretamente os interesses da classe operária, algumas vezes mesmo abrindo profundas brechas na velha ordem social. Mas tudo isso, numa cidade sitiada, não podia ir além de um início de realização… Paris estava submetida a incessante bombardeio e pelas mesmas pessoas que haviam estigmatizado como um sacrilégio o bombardeio da capital pelos prussianos… E então atingiu o seu ponto culminante aquela matança de homens desarmados, mulheres e crianças… Logo quando se viu que era impossível matar a todos, vieram as detenções em massa, iniciaram-se os fuzilamentos de vítimas arbitrariamente escolhidas entre as fileiras de prisioneiros e a transferência dos demais para grandes campos de concentração, onde aguardavam o comparecimento diante dos conselhos de guerra.” (utilizo aqui o texto constante nas Obras Escolhidas, volume 2, de Karl Marx & Friedrich Engels, publicadas pela Alfa-Õmega; nã há indicação de tradutor).

         No primeiro dos onze capítulos de SHERLOCK HOLMES & MARX, o detetive novato recebe uma carta de alguém que ele ignora completamente quem seja: Marx, marcando uma reunião no dia 13 de abril de 1871. O indivíduo que se apresenta, com cerca de 55 anos,  tinha “estatura ligeiramente inferior à média, vestido com um casacão escuro, um pouco puído, e levemente folgado nos ombros, como se seu proprietário o tivesse pego emprestado de um amigo mais gordo, ou então subitamente emagrecido. Sua tez amarelada, doentia, e as olheiras roxas me fizeram inclinar pela segunda hipótese. Colarinho branco e botinas reluzentes, o restante do seu traje era irrepreensível. Uma grande barba precocemente grisalha, muito na moda em alguns círculos do continente, nele bastante crespa e encimada por um bigode basto e negro, engolia-lhe a parte inferior do rosto, sem conseguir dissimular uma grande boca, de expressão irônica”. Holmes fica admirado diante das “incrível vitalidade de sua expressão… Acima de espessas sobrancelhas, erguia-se uma testa imensa e ossuda, com pequenas entradas. O enorme cérebro escondido por trás daquela fronte devia encerrar uma inteligência prodigiosa. O que quer que tivesse vindo me propor, certamente eu não estaria perdendo meu tempo em escutar”.

     Em 12 de abril de 1871, Marx escrevia a seu amigo Kugelmann, a respeito da sua saúde: “atualmente estou submetido ao tratamento do Dr. Matheson, o qual diz que meus pulmões estão em excelente estado e que a tosse é relacionada com bronquite, e pode afetar o fígado.” Ele informa seu correspondente também que, embora  genro (Lafargue) esteja em Paris, sua filha, Laura (guardem esse nome, terá grande importância neste post) não o acompanhou. Nesta carta lemos ainda: “Que elasticidade, que iniciativa histórica, que capacidade de sacrifício desses parisienses! Depois de seis meses de fome e ruína, causada mais pela traição que pelo inimigo externo, eles levantam-se por sobre as baionetas prussianas, como se nunca houvera uma guerra entre a França e a Alemanha  e o inimigo não estivesse às portas de Paris. A história não tem exemplo semelhante de tamanha grandeza…” (utilizo a edição conjunta, publicada pela Paz & Terra de O 18 Brumário & Cartas a Kugelmann, estas últimas traduzidas por Renato Guimarães).

24/11/2009

MISÉRIAS MINIMALISTAS: 50 anos de Dalton Trevisan

      A primeira coletânea “’oficial” (parece que havia uns volantes anteriores, uma espécie de literatura-mimeógrafo avant la lettre, que se tornaram famosos na Curitiba da época) de Dalton Trevisan, Novelas nada exemplares, foi lançada em 1959. Neste meio século, ele publicou uma seqüência extraordinária de títulos (Cemitério de elefantes; O vampiro de Curitiba; A guerra conjugal; O rei da Terra; O pássaro de cinco asas; A trombeta do anjo vingador; Virgem louca, loucos beijos, para citar alguns), fazendo jus, após a morte de Guimarães Rosa e Clarice Lispector, ao posto de nosso maior prosador vivo, pelo menos para mim, que o adorei de cara, assim que comecei a ler seus textos. Em meados dos anos 80, estava no apogeu quando publicou o inusitado romance A polaquinha, que nasceu com vocação de obra-prima.

    Já na época em que minha coluna em “A Tribuna” se iniciou (1993), depois de livros como Dinorá e Ah, é?, eu me perguntava se o grande escritor curitibano não ficara em “ponto morto”. De fato, colocando no mercado praticamente uma obra por ano, a impressão que, ligado o piloto automático, cada uma delas era a mesma com novo título. Por esse motivo, fazia alguns anos que nem me dava ao trabalho de ler seus últimos textos, como Macho não ganha flor ou O maníaco do olho verde.

    Violetas e pavões  (não confundir com o belo Violetas e caracóis, de Autran Dourado) se tornou assim, uma bela surpresa. Como já confessei, não li a produção mais recente de Dalton Trevisan e não posso avaliar se as qualidades dessa coletânea estavam presentes nas anteriores; baseando-me apenas nela, no entanto, afirmo que nosso maior contista está dando conta da realidade do século 21. É lógico que parte dos 22 textos ainda se voltam para suas obsessões recorrentes com os fetiches sexuais da pequena burguesia, o que nos proporciona deliciosas, porém manjadas (para o leitor habitual de Trevisan) brincadeiras como, por exemplo, “Lábios vermelhos de paixão”: “Minha putinha é o encontro místico das ondas do céu e das nuvens do mar. Já lambida do licor de abelha rainha –os pentelhos emaranhados, os grandes lábios trêmulos, o vale das sombras no portal das coxas fosforescentes”).

     O surpreendente em Violetas e pavões é a substituição dos filhinhos de boa família que se pervertem em fantasias sexuais delirantes, nos bas-fonds de Curitiba, ou dos egressos de um mundo ainda rural insistindo nos seus direitos de macho e vivendo em perpétua e sórdida guerra conjugal, pela terrível realidade que inunda o noticiário atual. Temos agora vidas regidas pelo tráfico onipresente, pela necessidade incessante de drogas como o crack, pelas passagens na polícia, pelas prisões inúteis, pelo flerte com a bandidagem e a contravenção, mesmo de empregadinhos “honestos”. Nesses contos ou nos micro-textos (que ironicamente imitam a diagramação da poesia) é que Trevisan renova sua obra, de uma forma aterradora.

     Ainda temos a modernização das temáticas mais antigas: a velha professora que mergulha num inferno dantesco ao ser internada num hospital público (/’Misericórdia”), a filha obrigada pelo pai a substituir a mãe (que se mandou com o amante) como parceira de cama, o que evoca o mundo constitucionalmente patriarcal da obra daltontrevisiniana (“Ele”), a sordidez miserável da guerra conjugal no caso do marido que joga álcool na mulher e a deixa toda queimada, e que, saído da cadeia, a obriga a aturar sua presença sempre por perto e ameaçadora (“Cachaça e pamonha”).

    Mas os contos verdadeiramente renovadores são aqueles que, como “A desgraça de Zeno”, “Aprendiz de traficante”, “Não sou o Buba”, “Tenha uma boa noite!” ou “Elas cantam só pra mim”, nos proporcionam numa impressionante miniatura, verdadeiros short cuts os contornos da nossa atualidade. Nesses contos, Trevisan consegue o milagre de chegar quase ao “grau zero de escritura”: geralmente são em primeira pessoa, mas em certo ponto parece que essa voz se torna anônima, e estamos ouvindo conhecidos, gente que escutamos de passagem, jornalistas relatando fatos que adquirem contorno de  “lendas urbanas”. Parece que chegamos a um estado de mito, em que tudo é ritualizado e reatualizado: a mulher que resolve ir à Bolívia e traficar, e que é roubada por falsos (falsos?) policiais, o rapaz que recebeu seu salário e que, após uns chopes, tem de voltar para casa (e para as reclamações da mulher grávida) através de uma área “barra pesada”, o rapaz que tem de reconhecer o corpo do irmão abatido por traficantes a quem devia, o fotógrafo que gosta de fumar seu baseadinho e que é pego num excesso de zelo por guardas municipais e que se complica porque tem fotos comprometedoras de menores em seu laptop…

     Vejamos um exemplo:

“A polícia sabia da casa 749 do tráfico ali perto. Foram até lá. Direto pelo caminho de sangue e os sinais de luta.

     No quarteirão escuro a única de luz acesa.

      A equipe rodeou quietinha. Daí um grito lá dentro: A polícia, turma. Sujou, é a polícia!

     Um deles quis pular a janela e quando viu o cerco, voltou. A casa foi invadida. Tinha ali dois tipos de olho vidrado, três mulheres e uma ou duas crianças. A tevê ligada, um monte de latas de cerveja pelo chão. Até salgadinho e pipoca.

    No canto uma calça jeans –epa! A barra ainda molhada de sangue. Numa gaveta um revólver 38, outro 22, bastante munição.Armas e calça foram apreendidas.  Isso pelas duas e meia da manhã.” (Esse trecho faz parte do relato em primeira pessoa do irmão do assassinado personagem título de “A desgraça de Zeno”; note-se o relato impessoal, em tom de noticiário, que poderia ser feito por qualquer um).

    É quase um trabalho de linguagem invisível porque tão parecido com o que se conta e reconta por aí, nas ruas, nos jornais, nos botecos. Dalton Trevisan, o Homero minimalista das pequenas guerras de Tróias compostas por corrupção policial, balas perdidas, dívidas de tráfico e salários curtos.

    Aos 50 anos de carreira, o mestre renova sua fórmula.

(resenha publicada de forma um pouco mais condensada, em “A Tribuna”, em 24 de novembro de 2009)

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17/11/2009

O FIO VERMELHO DO CRIME NA MEADA CINZENTA DA VIDA

Livraria PORTO DAS LETRAS: acesse www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

    Dedico este “post” à minha amiga Maria Valéria Rezende, pelas nossas conversas sobre Marx

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“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de fio condutor aos meus estudos, pode ser formulado em poucas palavras: na produção social da própria vida, os homens contraem relações determinadas, necessárias e independentes de sua vontade, relações de produção estas que correspondem a uma etapa determinada de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se levanta uma superestrutura jurídica e política, e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciênia. O modo de produção da vida material condiciona o processo em geral da vida social, político e espiritual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência. Em uma certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que nada mais é do que a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade dentro das quais aquelas até então se tinham movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas essas relações se transformam em seus grilhões. Sõbrevém então uma época de revolução social…”

      Em 1859, Karl Marx conseguiu publicar alguns capítulos mais ou menos em estado legível das suas primeiras investigações sobre o capital, que ele começara a esboçar dois anos antes: Contribuição para a crítica da economia política (cuja tradução pode ser encontrada no volume dedicado a ele em “Os Pensadores”, organizado por José Arthur Gianotti, responsável também pela tradução, com a colaboraçãode Edgard Malagodi). Como acontecia muito comumente em Marx, quando ele publicou, já estava “alhures”, o texto já se tornara algo superado (no sentido pessoal, claro), e ele estava pronto para se dedicar ao Capital.

     O trecho que transcrevi é do prefácio que escreveu, sintetizando sua trajetória até os limites da grande obra da sua vida (cujo primeiro volume só apareceu em 1867, como desenvolvimento extremo das idéias da Contribuição).

      Esse texto de Marx é da maior importãncia: temos a base das suas principais idéias sobre o capitalismo e além disso, ele estava no centro do Império. Como narra o doutor Watson, voltando do Afeganistão, muito doente e combalido: “… senti-me naturalmente atraído por Londres, essa grande cloaca para a qual todos os vagabundos e ociosos do Império são irresistivelmente drenados.” ( UM ESTUDO EM VERMELHO). Marx, o homem do “tudo que é sólido desmancha no ar”, esperando que as contradições do capitalismo, tal como as diagnotiscava no seu centro, a capital-cloaca do império Britânico. Se pensarmos que, no mesmo ano Darwin publicou A origem das espécies temos uma espécie de ano-chave, cabalístico. E foi justamente em 1859 que nasceu Arthur Conan Doyle.

    Ao contrário de Agatha Christie, o criador de Sherlock Holmes não foi generoso na quantidade de histórias do seu herói (que foi um peso na sua vida e ele estava sempre disposto a matá-lo): seis coletâneas de contos e quatro romances; porém, a quantidade de material que um dos mais famosos personagens da cultura ocidental (e certamente o mais conhecido detetive), ao lado de Ulisses, Quixote, Hamlet e poucos mais, gerou é  incontável.

       A coleção Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada, que agora chega ao sexto volume, pela Zahar, ajuda a compreender o mito Holmes, que ultrapassou o seu criador e os textos originais: nela, o gênio da dedução da Baker Street 221-B e seu parceiro Watson são tomados como seres reais, e todo o aparato de notas e informações é baseado nessa premissa lúdica e muito atraente para quem vive da bênção da leitura segundo Harold Bloom: “mais vida em tempo ilimitado”.

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     Foi com os filmes estrelados pelo magnífico Jeremy Brett (ver foto acima; onde vemos que na sua composição de Holmes ele deixou qualquer clichê para trás e deu-lhe um toque “Hannibal Lecter”;  outro talentoso Holmes moderno foi James D´Arcy, porém logo o substituíram por Rupert Everett que deu um show de canastrice), numa série de televisão memorável, e também devido a essa coleção que fiz as pazes com Sherlock Holmes. Quando era garoto, tive a maior decepção com As aventuras de Sherlock Holmes (como explico na resenha abaixo). Mais tarde, lendo os romances, considerei Doyle um escritor medíocre, muito inferior à criadora de Poirot e Miss Marple. No cômputo geral, seu personagem valia mais como paradigma incessantemente reinventado.

      O sexto volume proporciona a oportunidade de reler justamente o “nascimento” de Holmes & Watson, UM ESTUDO EM VERMELHO  (1887), e constato que minha paixão pelo tipo de mistério arquitetado por Agatha Christie atrapalhou na avaliação dos talentos de Doyle. É certo que a história é fraca, o mistério incolor, as deduções cabotinas e nada convincentes. Holmes informa aos policiais da Scotland Yard, após a descoberta de um corpo numa casa deserta: “… o assassino foi um homem. Ele tinha mais de um metro e oitenta de altura, estava na flor da idade, usava botinas grosseiras de bico quadrado e fumava um charuto Trichinopolo. Veio para cá com sua vítima num fiacre de quatro rodas, puxado por um cavalo com três ferraduras velhas e uma nova na parte dianteira direita.  Com toda probabilidade, o assassino tinha um rosto avermelhado e unhas notavelmente compridas na mão direita. Estas são apenas algumas indicações, mas podem ajudá-los.” A não ser para impressionar o leitor, em que essas informações minuciosas, mas realmente inúteis, poderiam ajudar a polícia? Esse lado CSI oitocentista de Sherlock Holmes permanece o aspecto que mais me desaponta e irrita.

     Por outro lado, como é talentosa, colorida e bem-humorada a narração do Dr. Watson! Como resistiu ao tempo! Vemos de forma sintética o primeiro encontro dos dois, como começam a dividir os aposentos na Baker Street, as diferenças de temperamento, a fixação dos hábitos e manias do detetive, sua gangue de menores de rua, que se espalham por uma Londres-Babel. Há, ademais, todo o flash back ambientado em Utah, entre os mórmons, que explica o porquê dos assassinatos cometidos pelo vingativo Jefferson Hope (eu não dava grande valor a essa parte, porém agora a acho excelente e cheia de suspense). Levando isso em conta, até as vaidades de Holmes, ciosamente contabilizadas pelo seu parceiro (ou “discípulo”), que importância tem se os crimes (dois americanos são assassinados) são pouco interessantes e se os métodos para desvendá-los pareçam truques? São truques de um bom prestidigitador literário, é preciso que se faça a devida justiça a esse autor que foi um dos responsáveis por manter a era vitoriana como um fetiche absoluto na imaginação popular e na indústria cultural.

     Antípoda a Marx,  Holmes é o homem da ordem, da manutenção da lógica do capitalismo: “O fio vermelho do assassinato corre através da meada incolor da vida, e nosso dever é desemaranhá-lo, isolá-lo, e expor cada centímetro dele.”

     Temos, também, na fixação do Cânone Sherloquiano, as deliciosas notas em que, além das muitas informações da época, fanáticos pelo detetive analisam exaustivamente cada momento do livro, propondo interpretações e soluções para os desacertos e contradições (pois eles abundam, e os fanáticos pela obra são os primeiros a apontá-los), que são quase  um segundo livro para se ler.

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 (resenha sobre os dois primeiros volumes da coleção da Zahar, publicada em “A Tribuna”, em 05 de agosto de 2006)

  Após a “Obra Completa” de Arthur Conan Doyle (1859-1930) envolvendo Sherlock Holmes, em três compactos volumes, pela Ediouro (nota de 2009: a editora Agir fundiu os três volumes num só), a Jorge Zahar lança agora uma iniciativa bem mais ousada: a tradução dos cinco volumes de uma enciclopédia sherloquiana, sob a responsabilidade de Leslie S. Klinger: Sherlock Holmes- Edição Definitiva – Comentada e Ilustrada. Por enquanto, há dois volumes no mercado e eles são uma verdadeira delícia para o amante da ficção, ainda que não exatamente pela qualidade da ficção de Conan Doyle.

    Pois, ao reler –no primeiro volume—As Aventuras de Sherlock Holmes (1892), senti a mesma e frustrante decepção que tive aos 12 anos diante da mesma coletânea inaugural de casos do mais cultuado detetive do mundo: histórias medíocres, mistérios pífios, demonstrações ocas da pretensa acuidade de Holmes, embora –então, como agora— o dr. Watson escapasse milagrosamente ileso do desastre. Isso sempre determinou uma antipatia invencível pelo personagem até que ele foi admiravelmente encarnado por Jeremy Brett (secundado por um igualmente mais-que-perfeito Edward Hardwicke como Watson). A magistral caracterização de Brett (similar à perfeição com que David Suchet encarnou Poirot) operou uma necessidade de reavaliar o fascínio e o carisma de uma das personagens fictícias mais célebres, imitadas, pastichadas, verdadeiro ícone cultural.

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    E a essa expectativa a edição de Klinger atende fartamente: vastamente documentada, com anotações à margem do texto (é preciso que se faça justiça ao trabalho editorial, de primeira qualidade), ela se fundamenta num pressuposto fascinante: a crença na existência efetiva de Holmes & Watson, crença compartilhada há mais de um século por muita gente.

    No caso de Klinger, pouco importa se essa crença é simulada, produto de uma brincadeira intelectual, um auto-ilusionismo. O que importa é que ela funciona e faz da sua coleção um empreendimento importantíssimo para a literatura e a ficção, num momento em que a obsessão por histórias baseadas em fatos reais, reality shows e outras fórmulas acabam encenando pelo mundo afora uma espécie de morte da imaginação. Klinger vem reinstaurar o prazer de descobrir o “amigo imaginário”, aquele que nos dá acesso ao nosso próprio código pessoal. E o leitor de 40 anos, mesmo não se convencendo muito com relação a Arthur Conan Doyle, lembra-se de outras portas de acesso a esse mundo: Júlio Verne, Mark Twain, Agatha Christie, Robert Louis Stevenson.

    Pena que as aventuras de Sherlock Holmes ficam a dever, mesmo com o poder de persuasão do genial Jeremy Brett ou com o aparato de Leslie S. Klinger: por exemplo, na famosa e paradigmática Um escândalo na Boêmia, há uma ridícula aparição do cliente (o rei da Boêmia), que faz o leitor cair na gargalhada, não há mistério algum e ainda Holmes é derrotado, depois de encenar uma tola farsa; em A liga dos Cabeças Vermelhas há até um certo clima na narrativa do cliente, mas todas as ações de Holmes para solucionar o problema tiram o charme do conto, que fica como um protótipo distante dos seriados televisivos (Holmes seria um CSI hoje em dia); e, só para dar mais um exemplo, que raio de mistério seria Um Caso de Identidade?: no próprio ato de se contar o problema, qualquer leitor percebe a solução.

    Mesmo assim, e que se perdoe o paradoxo, vale a pena mergulhar nos volumes de Sherlock Holmes- Edição Definitiva, um presente para a memória afetiva de quem norteou sua formação pela leitura de livros.

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serviço: Sherlock Holmes- Edição Definitiva- Comentada e Ilustrada. Organizador: Leslie S. Klinger. Primeiro volume: As Aventuras de Sherlock Holmes.495 págs. Segundo volume: As Memórias de Sherlock Holmes (1893). 427 págs. Tradução de  Maria Luiza X. de A. Borges. Editora Jorge Zahar.

14/11/2009

O último ato de uma possível “trilogia do exílio”

Bernardo Carvalhoosolsepoe  

  Nos dois últimos romances de Bernardo Carvalho, Nove noites (2002) e Mongólia (2003), os narradores se viam, em sua obsessão investigativa, às voltas com fiapos de informação, fatos mínimos, desencontrados, prenhes de pistas falsas, e relato adquiria uma conotação incômoda, uma vez que se esboroava, se esgarçava, fazia-se fantasmático. Que havia o desejo de contar histórias (Carvalho é um pouco irmão de armas de Paul Auster), isso havia, todavia elas furtavam-se, desrealizavam-se nas “convenções da realidade”.

    Até certa altura de O sol se põe em São Paulo, tem-se a impressão de que finalmente haverá um encontro entre o desejo do narrador e o relato, que este não será mais uma ilha do dia anterior. É inegável que se trata de um desencontrado: descendente de japoneses, não se sente em casa no Brasil (mais adiante, sentirá o mesmo no Japão, que não conhecia ainda), frustrado em sua ambição como escritor; desempregado, sem mulher, nunca escreveu nada. Um dia, a macróbia dona de um restaurante na Liberdade pergunta se é escritor, ele diz que sim, ela se dispõe a lhe contar uma história. O leitor habitual de Bernardo Carvalho espanta-se com sua  linearidade e coesão, ainda que narrada em meio aos ataques promovidos pelo crime organizado e tendo como palco a caricatura de um jardim japonês escondido pela fachada de um sobrado.

    Mas é uma trama (no após-guerra japonês) que envolve um gênero teatral, o kyogen (farsa, artimanha, simulação). Setsuko, a dona do restaurante (ela mesma, uma simuladora), desaparecerá e encontraremos, então, uma afirmação que poderia estar nos livros anteriores: “Não conseguia juntar as peças, embora tudo estivesse diante de mim”.

    A partir daí, querer saber o seu final e relatá-la se confundem na mente do narrador e também com esqueletos escondidos no armário da imigração, e mais o paradeiro de um criminoso de guerra e de um herdeiro afastado do front pelo pai, que mandou outro em seu lugar, um burakumin, pária na sociedade japonesa (o próprio narrador se vê como um burakumin existencial)… Em algum ponto de O sol se põe em São Paulo alguém diz: “Leia isto, essa coisa urgente que é a leitura de algo empolgante, e quanto mais o relato inicial, tão certinho, se esfacela, mais a evidência de que Bernardo Carvalho é um dos melhores escritores atuais vai se impondo. Não é mais possível parar de ler. Um momento culminante é o reencontro entre o narrador e sua irmã (que foi para o Japão como operária, nessa inversão sarcástica da imigração que estamos vivendo), em Osaka, por apenas uma árida noite, num monstruoso (em todos os sentidos) cybercafé, onde se pode navegar, comer, tomar banho e dormir.

    Carvalho só erra a mão no capítulo no qual se revela o teor da carta da falsa Setsuko que o narrador carregava. Veja-se um trecho, onde se comenta a recepção de Yukio Mishima, em visita ao Brasil, por um grupo de compatriotas: “Da parte de Mishima, só a loucura podia explicar a convivência pacífica de um escritor homossexual de talento extraordinário com um grupo de fascistas iletrados a justificar uma pretensa coesão de classe”. Isso não é Setsuko, falsa ou não, escrevendo, e sim o Bernardo Carvalho das suas colunas na “Folha de São Paulo”. A não ser que já seja o romance que o narrador por fim escreve… Vamos dar o benefício da dúvida.

 Resenha publicada em dois de junho de 2007

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13/11/2009

O NORMAN que não era BATES

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                             Norman Mailer (1923-2007)

 (resenha publicada em 17 de novembro de 2007, de forma ligeiramente condensada)

    Nos últimos dias morreram Ira Levin e Norman Mailer. O primeiro era representante da excelência que o best seller podia alcançar, com as tramas engenhosas de livros como O Bebê de Rosemary ou Os Meninos do Brasil; já o segundo é um dos escritores fundamentais da ficção do século XX.

    Quando Os nus e os mortos apareceu em 1948, logo afirmou Mailer como um dos principais nomes de uma geração ímpar (Truman Capote, Saul Bellow, J.D. Salinger, William Styron, Paul Bowles, Gore Vidal, entre outros). É um livro de ímpeto caudaloso, polifônico, feroz, com uma cena que nunca me saiu da cabeça: dois soldados carregando um companheiro, que já está morto, entretanto eles nem mais ligam para isso, já perderam a noção de objetivo e da sua própria humanidade.

    Há uma grave lacuna no meu conhecimento da obra de Mailer, principalmente os títulos dos anos 50: não li, por exemplo, os famosos The Deer Park (O Parque dos Cervos) ou Advertsiments for myself (George Steiner já afirmou que ele merecia o Nobel por este último).

     Em compensação, considero sua obra-prima Um Sonho Americano (1965) um dos romances-chaves das últimas décadas, com sua mistura de paranóia, excesso e a possível poesia da prosa, que só os melhores artesões conseguem. Ele acaba de ser relançado no Brasil, em nova tradução.

    Mailer gostava de literatura e de jornalismo. Neste último filão, temos diversos livros, como Miami e O cerco de Chicago ou o recente O Super-homem vai ao supermercado.

    Mas ele era bom mesmo em fazer os dois juntos, o que resultou no impressionante Os Exércitos da Noite (1969), relato de uma marcha de protesto cujo clímax é a tentativa de uma multidão, embalada pela contracultura, no que ela tinha de mais generosamente, de mais intrinsecamente utópico, de fazer o edifício do Pentágono “levitar”.

    Apesar de ter construído uma obra por muitas décadas, e multifacetada ainda por cima, creio que esses dois títulos, Um Sonho Americano e Os Exércitos da Noite, se beneficiem da conjunção de uma época, de um vigor, de uma mirada renovadora, basicamente irrepetível.

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     Nem por isso deixam de ser poderosos outros casamentos felizes com a vida “real”: nunca me interessei por boxe, só quando mediado pela magia das imagens do Scorsese de O Touro Indomável ou pelas palavras de Mailer em A Luta; e quem diria que, após A Sangue Frio, de Truman Capote, haveria o que se tirar da minuciosa narrativa de crimes verdadeiros, como provam as mil páginas (na verdade, não precisavam ser tantas) de A Canção do Carrasco (1979), sobre a vida e a execução de Gary Gilmore. “A gente era criado sabendo o que estava certo e livre para fazer o que estava errado”. Eis uma frase desse romance cuja ação se passa em Utah. De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim, e que também não têm problemas com armas e com a exclusão social (aquele mito americano do “fracasso”), sabendo o que estava certo; e do outro lado, os perdedores, vidas fraturadas e errantes, gente dançada, meio algoz de si mesmo, meio vítima, livre para fazer o que estava errado, e que até viraram símbolo de uma boa parte da produção artística norte-americana

    Ainda sob o signo do excesso, Mailer produziu o exuberante, quase delirante, Noites Antigas (1983), sobre a reencarnação de um mesmo personagem no Egito dos faraós, um dos romances mais originais do fim de século; e uma história da CIA, um pouco cansativa, O Fantasma da Prostituta (1991). Com mais equilíbrio, tivemos o romance “policial”, se se pode caracterizá-lo assim, Os machões não dançam (1984), que segue um pouco a linha de Um sonho americano e foi adaptado pelo cinema pelo próprio autor, num filme estranho, não completamente bem resolvido, mas no mínimo interessante (sim, eu sei que esse termo pode significar qualquer coisa, mas não me ocorre outro); e também O Evangelho segundo o filho (1997). Temia-se que o imprevisível Mailer criasse uma história de Jesus irreverente, até mesmo caricata, com seu ímpeto celiniano. Nada disso aconteceu. Fundindo os diversos evangelhos, ele nos deu o romance mais sóbrio e elegante já escrito sobre o tema. Quase se poderia utilizar a palavra “puro” para descrever o texto, que flui com uma naturalidade assombrosa. Nem parecia o autor que gostava de romances “impuros” e cheios de virtuosismos extravagantes, dos quais Noites Antigas é, com certeza, o ápice.

     Mailer também gostava de biografias, daí ter escrito uma, memorável, sobre Marilyn Monroe, e uma outra, enorme, fruto de suas obsessões (e nós necessariamente não somos obrigados a participar delas), sobre Lee Harvey Oswald.

    Ainda não se traduziu no Brasil sua “biografia” de Hitler, cujo ponto-de-vista parece que é o do Inferno, e que vem sendo ridicularizada. De fato, o projeto é difícil de engolir. No entanto, com um escritor que conseguiu transformar num momento sublime a tentativa de fazer o Pentágono levitar, tudo é possível.

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                           Mailer: a estrada perdida

(resenha publicada, de forma ligeiramente condensada, em 24 de novembro de 2007)

    A geração à qual pertencia Norman Mailer parece ter chegado ao auge do seu talento em meados dos anos 60: Saul Bellow com Herzog, em 1964; Truman Capote, com A sangue frio, em 1966; William Styron e Gore Vidal respectivamente com As confissões de Nat Turner e Washington D.C., em 1967. E Norman Mailer publicou em 1965 a obra-prima suprema do “grupo” (competitivos, eles detestariam ser arrolados assim), com a possível exceção de A sangue frio:  Um sonho americano, já competentemente traduzido no Brasil (por Waltensir Dutra), e que agora ganhou nova versão, dentro da série Pocket da L&PM, realizada pela responsável pelo Harry Potter brasileiro, Lya Wiler.

    Um sonho americano é narrado por Stephen Rojack, cujas raízes, “raízes de erva daninha” remontam a um “pai judeu, descendente de imigrantes” e a uma “mãe protestante, família de banqueiros da Nova Inglaterra, segunda geração” (em algum lugar ele falará da “velha cepa protestante de uma nação enlouquecida”). Ele mata a esposa, durante uma luta, encena um suicídio (atirando-a no meio do trânsito de Nova Iorque) e apesar da suspeita da polícia consegue se safar. A narrativa se concentra na noite do crime e no dia seguinte, quando ele se confronta com o sogro, um magnata, no seu andar privativo no Hotel Waldorf.

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    É-nos servido o grande coquetel americano: luxúria, poder, dinheiro, violência. Desse mesmo material são produzidos best sellers às pencas. Desse mesmo material, Scott Fitzgerald construiu sua magnífica obra elevando a mito a obsessão dos EUA com sucesso e fracasso: nomes de família antigos, referências prestigiosas (Harvard, Princeton), a vulgaridade tolerada (Hollywood; no romance de Mailer, a televisão), o esporte como heroísmo, e arrivistas que vencem com a força do dinheiro, mas que, como Gatsby, serão sempre mantidos do lado de fora. Mailer adicionou a aura heróica da Segunda Grande Guerra (Rojack é um ex-combatente condecorado) e o carisma e status aristocrático do clã Kennedy. Daí o primeiro e emblemático parágrafo do livro:

Conheci Jack Kennedy em novembro de 1946. Éramos ambos heróis de guerra e havíamos sido eleitos recentemente para o Congresso. Saímos, certa noite, para um encontro duplo, que acabou sendo uma noite e tanto para mim. Possuí uma moça que se teria entediado com um diamante do tamanho do Ritz.

    A moça que se teria entediado com um diamante do tamanho do Ritz é justamente a esposa (católica) que ele assassina. E assim se inicia um relato sulfúrico, em que analogias se sucedem vertiginosamente, como acontece em nossos dias com o argentino Alan Pauls e seu O passado, romance que também cerca cada momento com uma imagem ou um símile. Só que Pauls parece “fechar” tudo harmoniosamente, numa formulação lapidar, enquanto Mailer sempre parece a um passo de desagregar sua narrativa, de destruí-la sem apelo, tal o revolutear dos seus leitmotivs, próximos da incoerência, tal o namoro com a frivolidade, a volubilidade e o exibicionismo.  Portanto, no sobrecarregado e abusivo texto de Um sonho americano, nem tudo é feliz, e às vezes pode ser detectado algo de inconseqüente. E daí? O acúmulo desgastante acaba se justificando pela imposição da desordem da existência sobre o sonho americano de organizar a vida em trajetórias, bem ou mal sucedidas. Poucas vezes, também, uma obra de ficção mostrou como a consciência pode ser afetada por sons, luzes, cheiros: quando Rojack está embriagado, sentimos isso no próprio âmago do relato, é quase como um bafo que nos entorpecesse.

    E além do rastro fitzgeraldiano deixado pelo fabuloso início acima citado, Mailer amarrou o seu genial romance com a lição aprendida em Hemingway: diálogos precisos e maravilhosos fazem a narrativa avançar sem que percebamos, e a conduzem com vigor, da claustrofóbica jaula urbana da insanidade da nação, para a grande tentação (e esta palavra  não poderia ser mais adequada ao mundo de um escritor) do imaginário americano: on the road.

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Dois aniversários na obra de Marguerite Duras: os 50 anos de HIROSHIMA, MEU AMOR e os 25 anos de O AMANTE

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 10.11.09-     O  título deste “post”  é auto-explicativo: dentro da prolífica, irregular e muitas vezes deslumbrante obra de Marguerite Duras (1914-1996), podemos destacar, neste ano de 2009, duas datas comemorativas: 1) há 50 anos, o cinema era sacudido pela invenção, densidade e  fusão indissolúvel entre texto e imagem que resultou da parceria entre Duras e o genial Alain Resnais: HIROSHIMA, MEU AMOR, que eu eu colocaria sem hesitar entre os dez maiores filmes já feitos (o problema é que pelo menos três outros filmes de Resnais poderiam aspirar a pertencer essa lista, e ora estou mais apaixonado por um, ora mais apaixonado por outro: O ano passado em Marienbad, Providence,  Meu tio da América), absolutamente original na época em que foi lançado, em 1959, e até hoje uma experiência moderna, não “datada”; 2) há 25 anos, ela realizava o sonho dos sonhos: escrever um livro personalíssimo, com o léxico particular que todo escritor tem, mergulhar fundo nas suas obsessões (no seu narcisimo e auto-centramento, também)… e ser um grande sucesso, ter uma obra popular, que esgota edições e mais edições. E isso aos 70 anos, após décadas tachada como “difícil’, “impenetrável”, “hermética”. O AMANTE tem muitas dimensões, mas sobretudo é um livro “carismático”, que destoa de boa parte do que Duras escreveu e publicou (e como ela escreveu e publicou!) porque não necessita de “seguidores”, de fánáticos leitores apaixonados (um culto muito similar ao que ronda aqui no Brasil Clarice Lispector e que pouco tem a ver com o ato literário: são pessoas que querem ídolos, gurus, guias de vida, o qu eé um direito delas, claro, mas também é nosso direito ver os textos clariceanso e durasianos como “meros textos”, entendendo-se o mero num sentido irõnico, já que são grandes escritoras, únicas, assim como são únicos  Guimarães Rosa  e Claude Simon, sem que haja um culto fanático em torno deles).

Hiroshima, meu amor”: O AMOR ENQUANTO EXPERIÊNCIA DA MEMÓRIA

         Hiroshima e Nevers, as referências espaciais do filme, são abstrações. São palcos para encontrar, perder e sobretudo rememorar o amor, pois em Duras os amantes mergulham numa intimidade palpavelmente física, de uma maneira como raras viu se viu em cinema ou literatura (sem um clichê erótico, sem especificações de posições, quem fez o quê, sem terminologia de lugares, o que sempre resvala para  cômico), porém o ‘amor’  passa longe deles, é inagarrável: quando se fala de amor, sempre é outra coisa: os amantes de Moderato Cantabile (1958) falam do amor de outro casal, os amantes que se conhecem e trepam na Hiroshima de 1959 vão falar do amor perdido da protagonista, durante a Segunda Guerra, um alemão (o que acarretou que lhe raspassem os cabelos por ser uma “colaboracionista”, quando na verdade ela é uma ‘durasiana”, uma autista devido ao arrebatamento da paixão, que é bem diferente e mais abissal do que simplesmente estar apaixonada, ela fica é “folle”).

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      Após vários minutos em que nós vemos suas peles, tão aproximadas, que se tornam territórios, ou ainda com um tom que parece o de vítimas da radiação nuclear, num máximo de intimidade física a que uma câmera já tinha se permitido com dois personagens, e ao mesmo tempo a protagonista (interpretada por Emmanuelle Rivas)  conta suas idas ao museu de Hiroshima, e nos dá variadas informações sobre a recuperação coletiva da cidade enquanto cidade e ao mesmo tempo a recuperação coletiva, através de um gigantesco esforço, da tragédia, o amante japonês diz: você não viu nada de Hiroshima, quer dizer, você não conhece nada de Hiroshima. E é a pura verdade. Hiroshima é uma abstração, no máximo será o corpo desse homem com quem ela passa algumas horas, e do qual se aproxima  e se afasta, reconstituindo o antigo amor (em Nevers, no interior da França, enquanto outra destruição era levada a cabo), ressurgindo de um sono de quatorze anos (as mulheres de Duras, a não ser que estejam no estado de ‘ravissement”, arrebatamento ou êxtase, costumam ser meio mortas-vivas).

  Se ele diz que ela nada viu de Hiroshima, o final do filme fornecerá a confirmação: ela é ‘Nevers”, ele é “Hiroshima”, ambos são os palcos de seus arrebatamento passionais. Quando ela repete e repete a palavra “Nevers” e depois ele quer saber tudo o que a palavra evoca, explica-se: “de todos os milhares de dados sobre a sua vida escolhi essa palavra”, pois na verdade é um fio da meada, um instantâneo. uma imagem (em O AMANTE lemos, na bela tradução de Denise Bottmann: “A história da minha vida não existe. Ela não existe. Nunca há um centro. Nem caminho, nem linha. Há vastos lugares em que é de se crer que houvesse alguém, não é possível que não houvesse ninguém”). Em Nevers encontramos alguém, que pode ser ninguém e que se torna alguém novamente por um curto tempo num curto-circuito passional em Hiroshima, onde é estrangeira, como era estrangeira na própria cidade natal, mas aí não há disfarces, não há família, não há nenhum modo de não encarar a verdade. Só não há juventude, que é simplesmente a senha para se deixar levar…

   Devo dizer que, embora o texto de Duras seja belíssimo (não conheço outro igual no cinema), o filme praticamente impecável e a interpretação de Rivas excepcional (um tour-de-force incomparável, como será  de John Gielgud, duas décadas mais tarde, em Providence), há alguns (poucos) momentos em que acho que Resnais deveria ter confiado mais na força da imagem e do silêncio. É o caso da cena em que Nevers fica fugindo de Hiroshima e vão parar num terminal, sentendo-se cada um ao lado de uma velhinha que os observa (e depois puxa papo com Hiroshima, possibilitando que Nevers fuja dele, que a quer reter na cidade, e transformar sua memória da paixão numa nova experiência da paixão, e não há mais juventude, disponibilidade… e será que alguma vida aguentaria?). Pois bem, nessa hora, Resnais podia ter se limitado a filmar os seus maravilhosos atores, e até intercalar imagens do passado em Nevers… mas as elocubrações mentais da protagonista parecem excessivas nessa hora . Isso, aliás, ocorre com mais frequência (embora seja o momento mais grave) nessa altura do filme… Na época também se tornou um certo clichê a mulher apaixonada caminhando pela rua e elocubrando (é o caso de Jeanne Moureau, em Ascensor para o cadafalso, de Louis Malle). Repito: nada tira a beleza do texto ou a força do filme, mas às vezes a imagem é sobrecarregada por ele, em dois ou três momentos próximos ao final, e especialmente nessa cena do terminal.

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11.11.09- “O Amante” e o tudo-nada da experiência v ivida (primeira parte):

“Nas histórias dos meus livros que se referem à minha infância, não sei mais o que evitei dizer, o que disse, acho que falei sobre o amor que dedicamos à nossa mãe, mas não sei se falei do ódio também e do amor que havia entre todos nós, e do ódio também, terrível, nessa história comum de ruína e de morte que era a história daquela família, a história do amor como a história do ódio e que foge ainda à minha compreensão, é ainda inacessível para mim, escondida nas profundezas da minha carne, cega como um recém-nascido de um dia. É o limiar onde começa o silêncio. O que acontece é justamente o silêncio, esse lento trabalho de toda a minha vida. Ainda estou lá, na frente daquelas crianças possessas, à mesma distância do mistério. Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.”

        Assim, como o nome da cidade natal da amante, Nevers, desperta o apetite de “saber” do homem em HIROSHIMA, MEU AMOR, também uma palavra me despertou o apetite de ler Marguerite Duras. Na capa da edição brasileira (da Francisco Alves, que no começo dos anos 80, publicava uma série magnífica e inesquecível chamada “A prosa do mundo”) de O vice-cônsul  (uma obra-prima) aparecia o nome da autora e, embaixo dele, seu país de origem: Conchinchina (o Vietnã atual). Que palavra pode ser mais poeticamente evocadora do longínquo, do confim do mundo do que Conchinchina? E volto a repisar uma afirmação que já fiz quanto a J.M.G. Le Clézio: há escritores que não só são bons, mas também tiveram sorte. Nascer na Conchinchina já torna M. Duras algo de único. E ela explorou bem isso: pode-se dizer que há um núcleo forte de experiências ligadas às condições do seu nascimento, da sua infância e da sua família. Essas são concretas, vividamente recordadas, mesmo que alteradas, deformadas… O resto é abstração, é prolongamento desse despertar para o mundo, o resto é como Nevers e Hiroshima no filme de Resnais: o que há de concreto é a intimidade do casal, e seus percursos passionais e memorialísticos, o resto é contorno, é o sombreado que realça o desenho principal. É o que acontece com o mundo das embaixadas e com a própria Índia em O vice-cônsul, meu primeiro contato (feliz primeiro contato, já que se trata de uma de suas melhores obras) com a obra durasiana, mas ainda longe da Conchinchina, que eu experimentaria apenas com a leitura de O AMANTE. Porém, antes, ainda li um outro texto belíssimo, traduzido então por Jorge Bastos, para uma pequena editora, Taurus,numa publicação bilíngüe: A doença da morte.

      Então eu tive a sorte de que, devido ao sucesso do livro na França, lançassem logo O AMANTE por aqui (na tradução de Aulyde Soares Rodrigues, que usei na citação acima), num momento em que a Nova Fronteira vivia uma grande fase, com vários livros notáveis que encabeçaram a lista dos mais vendidos (sim, houve esse momento): Memórias de Adriano, A insustentável leveza do ser, O nome da rosa., até mesmo Doutor Fausto. E assim vieram ao mesmo tempo os livros mais recentes de Duras, como A dor, Emily L., como também suas obras-primas dos anos 50 e 60 (Moderato Cantabile, Dez e meia numa noite de verão  e o seu livro supremo, Le ravissement de Lol V. Stein,  que deveria ser “O arrebatamento de Lol V. Stein” e virou por aqui O deslumbramento) e seus livros de uma outra fase, diferentes e no entanto fascinantes (O marinheiro de Gibraltar, Os pequenos cavalos da Tarquínia)…

       Uma das coisas mais deslumbrantes de O AMANTE é a lição que Duras dá de como tratar o sexo literariamente. Nada de descrições “eróticas”. A cena em que ela, aos 15 anos e meio, acompanha pela primeira vez seu amante chinês à garçonnière dele, em Saigon, e perde a virgindade, é um primor, um dos momentos mais bem escritos da literatura do século XX: “O ruído da cidade é intenso, na lembrança é o som de um filme alto demais, ensurdecedor. Lembro-me bem, o quarto está escuro, não falamos., ele está cercado pelo rumor contínuo da cidade, está situado na cidade,  numa rua movimentada da cidade. As janelas não têm vidros, só cortinas e persianas.  Nas cortinas  as sombras das pessoas que passam ao sol na calçada.Multidões sempre enormes.  As sombras regularmente estriadas pelas frestas das persianas. Os tamancos de madeira na calçada martelam minha cabeça, as vozes são estridentes, o chinês é uma língua gritada como sempre imagino serem as línguas dos desertos, é uma língua incrivelmente estrangeira.

      Lá fora o dia chega ao fim, percebe-se pelo ruído das vozes e o aumento das sombras que passam, cada vez mais misturados.  É um bairro de prazer que vive seu auge à noite. E a noite começa agora, com o pôr-do-sol.

     A cama está separada da cidade pelas persianas de treliça, pela cortina de algodão. Nenhum material resistente nos separa das outras pessoas.  Quanto a elas, ignoram nossa existência. Percebemos alguma coisa das suas vidas, o conjunto das suas vozes, dos seus movimentos,  como uma sirene que lançasse um grito entrecortado, triste, sem eco.”

     Chegam até o quarto cheiros de caramelo, de amendoim torrado, sopa chinesa, carne assada, ervas,  jasmim, poeira,  incenso, carvão vegetal, o carvão aqui é transportado em cestos, vendido nas ruas, o cheiro do bairro é o das aldeias do interior, da floresta (…)

    (…) O ruído da cidade está muito próximo, tão perto que o ouvimos ressoar na madeira das persianas. É como se as pessoas atravessassem o quarto.  Acaricio o corpo dele em meio a esse ruído, a essa movimentação. O mar, a imensidão que reflui, se afasta, volta. Eu lhe pedira que fizesse mais uma vez e mais outra. Que me fizesse aquilo. E ele o fizera.  Fizera-o em meio à untuosidade do sangue. E foi mesmo como morrer. Foi como morrer disso (…)

    (…)  Ficamos assim abraçados, gemendo por entre o clamor da cidade lá fora. Ainda o ouvíamos. E depois não o ouvíamos mais (…)

    (…) Pelas persianas a noite chegou. O barulho é maior. Mais estridente, menos surdo. Lampiões avermelhados se acendem.

           Saímos da garçonnière (…)  Na rua a multidão segue em todas as direções, lenta ou rápida, abre passagem, sarnenta como os cães abandonados, cega como os mendigos, uma multidão da China, vejo-a ainda nas imagens de prosperidade de hoje,  no modo como caminham todos juntos sem jamais demonstrar impaciência, aquele modo de estar só no meio da multidão, sem alegria, sem tristeza, sem curiosidade,  andando sem parecer ir a lugar algum , sem intenção de ir, mas apenas avançando,  por aqui e não por ali, isolados e no meio do povo, jamais sozinhos de verdade, sempre sozinhos no meio da multidão…”

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13.11.09- ‘O amante” e o tudo-nada da experiência vivida  (segunda parte):

“… todas as coisas confundidas numa única por essência inqualificável…” (M. Duras, O AMANTE)

      Pensando no sucesso que O AMANTE fez ao ser lançado, em 1984, me pergunto: as pessoas acharam que estavam lendo um “relato baseado numa historia verídica” ?  Seria delicioso saber que sim porque não há nada mais falso do que ler o livro por essa perspectiva. Não que Duras tenha inventado nada (embora também possa haver uma boa dose de invenção, ou pelo menos de ressignificação), é que, apesar do exotismo da situação (moça francesa de quinze anos e meio, pobretona, em 1929 inicia relacionamento de teúda e mantéuda com um chinês doze anos mais velho e rico,no que era então a Conchinchina antes de ser o atual Vietnã), esse aspecto é menos importante do que o desfile de obsessões da autora na sua Macro-Narrativa (isto é, na linha-mestra que percorre várias obras). O ser-escritora, frisado em diversos pontos do relato, é o que conta, e essa constelação de imagens primordiais (dos parentes próximos paradigmáticos, como a mãe e os irmãos; a travessia iniciática da balsa; a mulher fatal da embaixada; o carrão preto; o amante exótico) são as que povoam, mais do que um universo biográfico, um universo autoral (e por isso é totalmente pertinente, apesar de velha, essa discussão entre romancedepoimento biográfico): “Na balsa, ao lado do ônibus, está uma grande limusine preta, o motorista de libré de algodão branco. Sim, é o grande carro fúnebre dos meus livros. Éo Morris Léon-Bollée. O Lancia preto da embaixada da França em Calcutá ainda não estreou na literatura”.  Isso interessaria a um leitor do ”relato biográfico”? Para ele, uma passagem acidental; para um iniciado nos textos de Duras, a revelação de que o aparentemente simples é uma armadilha. Na edição recente da CosacNaify há um ensaio de Leyla Perrone-Moisés, “A imagem absoluta” , no qual se faz referência ao trabalho imenso de escrita do texto aparentemente muito ”legível” e “acessível” (em se tratando de Duras, é claro)  de O AMANTE (que, nesse ponto, lembra o sucesso de um outro texto igualmente complexo e desafiante, e no entanto “fácil”: A hora da estrela); “Quero escrever. Já disse a minha mãe: o que eu quero é escrever”… “Respondi que meu maior desejo era escrever, nada mais do que isso, nada”. E é isso que determina o belo jogo de linguagem, em que uma primeira pessoa (“eu”, a velha escritora, o rosto destruído) relata-se em terceira pessoa (‘ela”, a menina cujas experiências de prazer e dor já estavam inscritas na sina do seu corpo antes de ela vivê-las), de um modo muito mais complexo e caleidoscopico do que simplesmente passar de primeira para terceira pessoa, do que estar na Conchinchina, e depois na França.  “Eu” tenho um filho e desse filho tenho uma fotografia, onde ele aparece com determinada expressão e postura (“Encontrei uma fotografia de meu filho quando ele tinha vinte anos. Está na Califórnia, com suas amigas Erika e Elisabeth Lennard. É tão magro, magro demais, parece também um ugandense branco. Acho seu sorriso arrogante, um pouco zombeteiro. Quis parecer um jovem vagabundo. Agrada-lhe ser assim, pobre, com jeito de pobre, a magreza desajeitada da juventude”). “Ela” está na balsa do rio Mekong, aos 15 anos e meio, e está para atravessar um rito de passagem, é o último momento antes de “entrar” na obra durasiana. Só que a vida não forneceu uma fotografia dessa imagem da moça na balsa (a fotografia do filho é o que há de mais próximo, com as mil associações que podem ser feitas: “Essa fotografia é a que mais se parece com a que não foi tirada da moça da balsa”): “Durante essa travessia, a imagem poderia definir-se, destacar-se do conjunto. Ela poderia ter existido, uma fotografia poderia ter sido tirada… Mas não foi… A fotografia só seria tirada se fosse possível prever a importância desse acontecimento em minha vida, aquela travessia do rio… Por isso essa imagem, e nem podia ser de outro modo, não existe. Foi omitida. Foi esquecida. Não foi destacada, não foi registrada. A esse fato de não ter existido ela deve sua virtude, a de representar um absoluto, de ser seu próprio autor”. Ora, O AMANTE  se propõe a ser a fotografia em palavras que substitui a imagem que não foi fixada. Mas é uma travessia de rio, lembrem-se, e essas palavras formarão uma imagem fluida, auto-transformadoras, metamorfoseantes: o ódio-amor pela mãe, os irmãos oprimidos e desesperados, mas crianças risonhas, numa ótica que se corrige a todo instante, e que nos instila a cautela com a exatidão desses fatos contados (“Eu me esqueço de tudo, me esqueci de dizer isso, que éramos crianças risonhas, meu irmão mais novo e eu, que ríamos até perder o fôlego, a vida”); o amante que não é amado (no entanto, por que essa dor com o afastamento definitivo?, a viagem de navio, ao mesmo tempo libertadora, para a França): “Não havia vento e a música espalhou-se por todo o navio escuro, como uma injução do céu, vinda não se sabia de onde, como uma ordem de Deus de teor ignorado. E a jovem levantou-se como se fosse também se matar, jogar-se por sua vez ao mar, e depois ela chorou porque se lembrou daquele homem de Cholen e subitamente não tinha certeza de não tê-lo amado com um amor que não havia percebido porque se perdera na história como a água na areia e que só agora encontrava, no momento em que a música era lançada através do mar.” Ou só agora, quando o relato está sendo escrito, criando aquela música no mar que ressignifica todo o amor. Pois já não lêramos antes: “Durante a viagem, na travessia desse oceano (portanto, temos duas travessias iniciáticas pelas águas), tarde da noite, alguém morreu. Ela não sabe muito bem se foi essa viagem ou em outra qualquer. Algumas pessoas jogavam cartas no bar da primeira clsse, entre os jogadores estava um jovem e, num dado momento, esse jovem, sem uma palavra, colocou as cartas na mesa, saiu do bar, atravessou correndo o convés e jogou-se ao mar (…) Não, agora escrevendo, ela não vê o navio mas outro lugar, onde ouviu essa história. Foi em Sadec. O filho do administrador de Sadec. Ela o conhecia, ele estudava também no liceu de Saigon. Ela se lembra,muito alto, rosto suave, moreno, óculos com aros de tartaruga. Nada foi encontrado na cabine, nem uma carta. A idade ficou na memória, apavorante, a mesma, dezessete anos. O navio tinha partido afinal ao nascer do sol. Isso era o mais terrível. O nascer do sol, o mar vazio,e a decisão de abandonar a busca…”

o amante (nova fronteira)o amante (cosacnaify)

     hiroshima

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