BLOG DO ALFREDO MONTE

23/10/2009

VAMPIROS E HIGH SCHOOL, DRÁCULA E ZACH EFRON

Livraria Porto das Letras na Internet, acesse:

www.estantevirtual.com.br/acervo/livrariaportodasletras

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     Ontem assisti ao primeiro episódio de Vampire Diaries (Warner, 5as.feiras, 21 h) e foi o esperado em série capitaneada por Kevin Williamson: na linha de “Dawson´s Creek” e de várias temporadas da não-williamsoniana na produção, porém bem parecida proposta, “Smalville”, temos esses jovens velhos, essas mensagenzinhas caretinhas (a irmã vai atrás do irmão viciado no banheiro dos homens para conferir se ele está “chapado” e lhe passar um sermão).  Tivemos o cemitério de praxe do livro, a floresta onde jovens incautas penetram à noite, a ausência dos adultos, a melhor amiga da heroína branca (agora, sempre uma negra), que são figuras de fundo geralmente chatas e empatadoras…

       Fell´s Church do livro se transformou em Mystic Falls. Achei bem inteligente nos pouparem do ridículo de fazer com que Stefan e Damon fossem oriundos da Florença Renascentistas. Não, dessa vez, eles são da época colonial dos EUA, e talvez a guerra de secessão substitua a Renascença, o que é uma perspectiva muito mais convincente. Eles também não perderam tempo em tentar fazer com que a aparência dos vampiros fosse muito marcada ou marcada: são dois mauricinhos e pronto (Stefan agora mora com um suposto “tio” e não mais numa pensão, como no livro).

      O que estraga é que os dois atores são de lascar: em meio a todos os bonitinhos insípidos, escolheram justamente um ápice de insipidez: Paul Wesley, que é literalmente um “cara de nada”. Triste, preocupado, apaixonado, apavorado, em luta, em repouso, ele mantém impávido a mesma expressão. Chega a ser cômico que as jovens do lugar se digladiem por ele, tanto que nem insistiram muito nesse aspecto (bem acentuado no livro). Quanto a Ian Somerhalder, quando ele apareceu em alguns episódios de “Smalville”, sem se destacar exatamente pelo talento, chamou atenção pela sua beleza, digamos “pura”, irretocável. Depois, ele participou da primeira temporada de “Lost” e de lá para cá o que aconteceu? Acho que não vão cair no ridículo de colocá-lo como jovem de ensino médio (não é a linha de Damon), como aconteceu com o Duda Nagle, em “Caminho das Índias”. Só que ele está com cara de plástico, parece embotocado, ou maquiado demais, comprometendo toda a sua beleza, ou seja, sua maior qualidade, já que no quesito carisma, personalidade ou talento…

      Apesar do escândalo que é a cara sambada do elenco (Paul Wesley interpretar um jovem no ensino médio é uma piada, e não só ele; pelo menos poderiam adaptar a trama para alguma universidade provinciana), gostei da heroína Nina Dobrey, que no meio da insipidez geral, da inexistência de Wesley e da canastrice de Somerhalder, conseguiu o tom exato de sua Elena. Não sei o que vai ser da série, se ela vai vingar,ou o que vai ser da carreira de Nina Dobreý. Só sei que ela é a  melhor coisa de Vampires Diaries até agora. Ou a única coisa.

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           O DESPERTAR, GENÉRICO DE CREPÚSCULO?

    De quando em quando, os vampiros ressurgem dos seus túmulos e assolam a indústria cultural, abocanhando um suculento lucro. O tremendo sucesso dos romances de Stephenie Meyer (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer), agora prolongado no cinema, é certamente o marco da nova aparição daquelas figuras que nunca morrem. E dia 22, quinta-feira, estréia na Warner, o seriado Vampire Diaries, baseado em outra série de sucesso.                           

    Confesso que não consegui encarar a empreitada de ler Meyer (só Crepúsculo tem 416 páginas, na edição brasileira), contentando-me com seu genérico: O Despertar, primeiro volume de Diários do Vampiro, tem apenas 236 páginas. Curiosamente, embora pareça vir na esteira do sucesso da rival, a série de L.J. Smith é muito anterior. Os livros iniciais foram lançados em 1991. Mas ainda que apresentassem alguma inovação impactante (não apresentam), Smith nunca mais vai poder se livrar da sombra de Meyer.

      O único detalhe que diferencia O Despertar das histórias similares é que seus vampiros sobrevivem ao amanhecer e à luz solar, desde que usem um amuleto protetor, de tal forma que um deles pode freqüentar a escola e se tornar um elemento importante no time local.  Os irmãos Stefan e Damon (um, bonzinho; o outro, malvado) foram transformados no século XV, em Florença, pela menina que os dois amavam e que acirrara a rivalidade entre ambos. Reaparecem em Fell´s Church, na Virginia, como pretendentes de outra garota, Elena, a qual se parece com  a primeira amada. Original, não?  E, como já se convencionou, a figura dos vampiros  é sempre a de um dândi, cavalheiresco e meio lânguido (Damon  é perverso, mas charmoso e atraente).

      É claro que com toda a vivência de séculos dos dois vampiros, e ainda mais tendo vivido na Renascença, eles acham o máximo encanto da vida e da existência se enterrar em cidadezinhas provincianas dos EUA, e viver toda a magia única da vida do ensino médio, com sua obsessão pela popularidade, pela identificação dos “perdedores”, pelos bailes de formatura, pela rainha da festa, e toda aquela avalanche de estereótipos e figuras carimbadas que já vimos em milhares de filmes. O curioso é que Smith tenta nos mostrar que os estudantes que estão no topo da popularidade, os belos, os atléticos, são o equivalente da nobreza de outros tempos.

     As jovens do livro acreditam no “amor eterno”, quando encontrarem o “cara certo”, vão ao cemitério (que estão sempre abertos a qualquer hora) para conversar com  os pais mortos (a protagonista inevitavelmente tem um histórico de tragédia familiar, já notaram?), sempre têm pressentimentos certeiros e  conseguem conciliar todas essas emoções avassaladoras e experiências aterrorizantes (presença de vampiros, sepulcros abertos, assassinatos, etc) com trabalhos escolares, futricas e rivalidades comezinhas. Vampiros com séculos de experiências são abalados pela força de personalidade de jovenzinhas provincianas.    

      Por falar em experiência, só alguém muito jovem pode ler um livro desses e levá-lo minimamente a sério, até como fabulação. Não há nenhum momento em que O Despertar não seja absolutamente previsível: Elena vê um corvo meio ameaçador, e, é claro, descobre no final que se tratava de Damon., o irmão mau. Há um baile de Halloween e qualquer um percebe que um antipático professor de história, com o qual Stefan teve um entrevero, e que está fazendo o papel de uma vítima sacrificial druida, será realmente morto –por Damon—e que herói levará a culpa; há até aquele momento em que, ainda não sabendo que Stefan a ama, e sentindo-se desprezada por ele, Elena vai a um lugar ermo com um boçal da escola e  é quase surrada e estuprada e… é salva por Stefan.

     Smith nos dá a era high school da temática vampiresca (não à toa, o criador da série televisiva é Kevin Williamson, de Dawson´s Creek, aquele seriado com jovens que pareciam velhos, jovens com corações,mentes e almas já senis). Enfim, é o mundo reduzido à visão adolescente. Só falta a aparição do Zach Efron e a trilha sonora do Jonas Brothers. Não há nada de errado em alguém se iniciar na leitura através dessa série de L.J. Smith. Mas qualquer pessoa com mais de 16 anos que se encantar com essa história levantará as mais sérias suspeitas…

_________________________

Serviço: Diários do Vampiro: O Despertar, de  L.J. Smith (EUA, 1991) Tradução de  Ryta Vinagre. Ed. Record, Selo Galera. 236 páginas. R$ 24,90.

(resenha publicada em 20 de outubro de 2009)

INTRODUÇÃO (18.10.09)

      Na época da minha adolescência (estou falando aqui do final dos anos 70), após alguns anos de ostracismo, a figura do vampiro voltava: foi a  época dos antípodas Drácula, de John Badham, e Nosferatu, de Werner Herzog. Este, um belo filme; aquele, uma breguice (embora fosse uma produção “A”, que resgatava Drácula das sub-produções da Hammer inglesa, o filme envelheceu bastante) que trazia Frank Langella posando de vampiro-galã, numa composição que parece hoje meio cômica ou, no mínimo, equívoca, apesar de que o objetivo, na época, era deixar explícito o conteúdo erótico das investidas do vampiro e que as donzelas mordíveis e mordidas no fundo ansiavam por aquilo. Já o vampiro de Herzog era mais na linha da figura patética, quase de dar pena, com sua aparência verdadeiramente de morto-vivo (uma genial encarnação de Klaus Kinski), que Murnau imprimira à tradição pós-Bram Stoker.

     A partir daí, volta e meia surgem ondas vampirescas, algumas avassaladoras (como a série de Anne Rice, uma gay fantasy, que fez sucesso também em filme. Gosto muito do livro Entrevista com o Vampiro e o filme é bom, mas o resto da série me deixa impaciente; o Drácula de Coppola, que uniu com rara felicidade, o conteúdo erótico, o patético, e o aterrorizante, com ênfase nos três, o que o torna a mais ampla abordagem do tema; os vampiros de  de John Carpenter), algumas nem deixando marola (como a série (primeiro no cinema e depois na tevê) Blade. Só não posso deixar de dizer que Anjos da Noite, que está nesse sub-patamar, pelo menos tem a mais bela das vampiras: Kate Beckinsale (que teve, aliás, uma overdose  do gênero, pois participou também do péssimo Van Helsing).

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      Hoje novamente estamos em pleno vampirismo. Nos últimos anos, alguns seriados também abraçaram o tema: tivemos, entre outros, Blood Ties (exibido pelos canais AXN e Animax), com um vampiro-dândi, Henry Fitzroy, filho de Henrique VIII, vejam só, e que era companheiro de investigações sobrenaturais da detetive Vickie Nelson. Baseado em livros de Tanya Huff, o seriado tinha como atrativo a deliciosamente sedutora, fugindo de qualquer modismo de sensualidade, Christina Cox, uma das mulheres mais atraentes já vistas em qualquer série, capaz de ser gostosa utilizando comportado coque, cabelo preso e óculos. Tanto que quando vi um episódio pela primeira vez, não botando muita fé, não consegui desgrudar os olhos, não pela trama, pelos personagens (que até não são dos piores), mas pelo incrível magnetismo e pela presença de La Cox.

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      O ousado e afrontoso True Blood talvez seja o mais original, ou pelo menos, o mais alternativo entre as releituras do vampirismo no cenário atual. E tem o correspondente masculino de Christina Cox no sentido de explosão de sensualidade e talento: Ryan Kwanten, o desajustado  irmão de Anna Paquin, a protagonista. Que diferença dos aguados Zach Efron e Robert Pattinson, que são bonitos, mas parecem virtuais, bonequinhos de bolo de noiva.

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Destaque do blog: UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ

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TRECHOS DA PRIMEIRA PARTE:

“– Imbecil! Não estou pedindo a você para me dizer o que é que ele era. Sei muito bem o que era, se é que você viu– O abade Arkos deu várias pancadas na mesa para acentuar o que dizia. — Quero saber se você, você!, tem absoluta certeza de que ele era apenas um homem comum!

       Essas perguntas estavam confundfindo o irmão Francis. Para ele não havia uma nítida linha divisória entre a ordem natural e a sobrenatural, mas antes uma zona intermediária mais ou menos obscura…uma região confusa, o preternatural, onde coisas deitas de simples terra, ar, fogo ou água tinham uma tendência a se comportar estranhamente, como coisas que não eram deste mundo… Ele nunca tinha ´certeza absoluta´ de nada, como o abade queria que tivesse…”

“Emily tinha um dente de ouro. Emily tinha ujm dente de ouro. Emily tinha um dente de ouro. Era, na verdade, perfeitamente certo. Tratava-se de uma dessas trivialidades históricas que, de algum modo, conseguem ficar na memória dos vivos, em lugar dos fatos importantes que deveriam ser lembrados, mas que nunca foram registrados, obrigando algum historiador monástico do futuro a escrever: Nada do que contém a Memorabilia ou qualquer fonte arqueológica até agora descoberta revela o nome do chefe que ocupava o Palácio Branco durante a sexta década do século XX… E, no entanto, estava claramente registrado na Memorabilia que Emily tinha um dente de ouro…”

“A Simplificação cessara de obedecer a qualquer plano ou propósito logo depois de ter começado, e tornou-se um frenesi insano de assassinato e destruição das massas, como só ocorre quando já não há mais vestígio de ordem social. A loucura foi transmitida às crianças que tinham aprendido não só a esquecer, mas a odiar, e vagas de fúria reapareceram esporadicamente até na quarta geração após o Dilúvio. Então, não mais se destruíam os sábios, que já não existiam, mas os simples alfabetizados.”

ATRECHO DA SEGUNDA PARTE

“O abade inclinou-se: …Seja bem-vindo em nome de São Leibowitz, Mestre Taddeo. Bem vindo em nome de sua abadia, em nome de quarenta gerações que esperaram pela sua vinda. Esteja em casa. Aqui estamos para servi-lo. –Ass palavras eram sinceras, tinham sido reservadas por muitos anos para esse momento…

      Por um momento seu olhar encotrou o do escolástico. Sentiu esfriar rapidamente seu ardor. Aqueles olhos de gelo –frios, investigadores e cor de cinza. Caóticos, famintos e orgulhosos. Sentia-se estudado por eles, como se fosse uma curiosidade sem vida.

      Fervorosamente, Paulo rezara para que esse momento fosse como uma ponte sobre o abismo de doze séculos– e para que, através dele, o último cientista martirizado de uma era remota pudesse dar a mão ao porvir. Havia, na verdade, um abismo. Isso era claro. O abade sentiu de repente que não pertencia à era presente, que ficara encalhado num banco de areia ao longo do rio do Tempo, e que nunca houvera uma ponte.”

TRECHOS DA TERCEIRA PARTE (“Fiat voluntas tua”)

“Velha de séculos mas recentemente alargada, a estrada era a mesma que fora percorrida por exércitos pagãos, peregrinos, camponeses, carroças de burro, nômades, selvagens cavaleiros do leste, artilharia, tanques e caminhões de dez toneladas. Seu tráfego fora intenso, médio ou quase nulo, de acordo com a época ou a estação. Uma vez, há muito tempo, houvera seis pistas e tráfego de robôs. Depois, o movimento cessara, a pavimentação rachara, e uma relva rala chegara a aparecer depois de chuvas ocasionais, através das fendas. A poeira terminara por cobri-la. Os habitante do deserto picaram o concreto quebrado para construir choupanas e barricadas. A erosão a transformou em simples caminho através do deserto. Mas agora havia seis pintas e tráfego de robôs, como antigamente.”

Fogo, o mais belo dos quatro elementos do mundo e, todavia, um elemento do Inferno. Ao mesmo tempo que ardia em adoração no centro do Templo, exterminara a vida de uma cidade, naquela mesma noite, e lançara o seu veneno sobre a Terra. Como é estranho que Deus tenha falado do interior de uma sarça ardente, e que o Homem tenha feito de um símbolo do Céu um símbolo do Inferno. Olhou outra vez as estrelas nevoentas da madrugada. Bem, não haveria Paraíso ali em cima, diziam. Entretanto, pra lá tinham ido homens que olhavam para estranhos sóis em ainda mais estranhos céus… em mundos de geladas tundras equatoriais e de escaldantes florestas árticas, suficientemente parecidas com a Terra para que, de algum modo, o Homem pudesse viver com o mesmo suor do seu rosto (…) Os homens quanto mais se aproximavam de um paraíso por eles mesmos construído, mais impacientes pareciam ficar com a sua obra e consigo próprios… Quando o mundo jazia na escuridão e na tristeza, era fácil crer na perfeição e desejá-la ansiosamente. Mas quando tornou-se brilhante com a inteligência e as riquezas,começou a pressentir a estreiteza do fundo da agulha e a exasperar-se, pois nada mais havia a esperar. E agora iam destruí-lo outra vez, este jardim do Paraíso, civilizado e sábio, iam outra vez dilacerá-lo, para que o Homem pudesse voltar a esperar no meio da escuridão angustiosa.”

 

 

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                        capa de leibowitz                                                           Anotações de 16 de outubro

       Quando eu passei a comprar livros sistematicamente, no começo dos anos 80, além das livrarias e dos sebos, havia o Círculo do Livro.  Foi através dele que tive minha primeira experiência com UM CÃNTICO PARA LEIBOWITZ, de Walter M. Miller Jr (1923-1996). A capa da edição do Círculo  é a imediatamente acima, breguinha de doer. A obra, porém, foi um impacto e um  deslumbramento que se repetem agora que estou me ocupando dela  devido ao cinqüentenário do seu lançamento em livro (a publicação original ocorreu num magazine de ficção científica, uns quatro anos antes, em forma de três novelas; creio que a última publicação no Brasil foi pela Melhoramentos, na mesma ótima tradução de Maria da Glória de Souza Reis, embora também com uma capa horrível).

      UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ  é tão bom quanto Fundação, de Isaac Asimov (com o qual tem pontos de contato, embora seja melhor escrito; não melhor romance ou realização ficcional, apenas melhor escrito; outro livro com o qual ele apresenta afinidades temáticas é O jogo das contas de vidro, de Hermann Hesse) ou Solaris, de Stanislaw Lem.

       Apesar do título elegíaco e do próprio tema apocalíptico, o livro é extremamente bem-humorado: Miller se vale, de forma muito inspirada, do imaginário católico (e da terminologia católica) para nos apresentar um futuro pós-devastação pela guerra nuclear, no qualo Ordens monásticas  procuram preservar os fragmentos da cultura e de conhecimento, pois as gerações que sobreviveram ao desastre optaram por uma drástica Simplificação, ou seja, a martirização de todos os sábios, intelectuais, eruditos e letrados que, de forma ativa ou não, colaboraramm para que a civilização chegasse àquele estágio. Quase todo o nosso arsenal cultural  foi destruído, e só a pertinácia de alguns monges permitiu que sobrasse algum vestígio.

      Esse é o quadro geral, e não é de forma alguma original com relação ao Zeitgeist, o espírito da época dos anos pós-Segunda Guerra (dominados pela Guerra Fria), uma vez que a ameaça nuclear penetrava fundo na indústria cultural e na cultura popular, e havia a paranóia da destruição global (hoje, ainda há essa paranóia só que adquiriu outros contornos).

        Miller (que escreveu as três partes que compõem o livro mais ou menos quando tinha 32 anos) era católico, tinha sido da Força Aérea norte-americana na Segunda Grande Guerra e evoca-se bastante uma imagem que o impressionou fortemente: o bombardeio de um mosteiro beneditino em  Monte Cassino.

      A primeira parte, “Fiat Homo” (um latim meio estropiado, assim como aconteceu na Idade Média, é o meio de comunicação entre os personagens de várias ordens) mostra uma abadia em meio a uma das paisagens desérticas que surgiram a partir da destruição nuclear, seiscentos anos antes (essa parte terminará no ano 3174). O personagem principal é um noviço,  irmão Francis (de Utah), que não sabe se tem a vocação monástica, contudo não há outro caminho intelectual. A abadia é dedicada ao Beato Leibowitz, o qual foi um dos principais mártires da época da Simplificação, e que ao perder contato com a esposa, fez-se religioso. A narrativa se inicia quando está ocorrendo o processo de canonização do Beato (o sobrenome judeu parece não causar espécie alguma nesse nada admirável mundo novo, embora para nós evoque o genocídio dos judeus durante a guerra, a qual, lembrem-se, ainda estava muito próxima na época da publicação original). Como toda a Memorabilia manuseada pelos monges (ou seja, textos, imagens, diagramas, etc), a vida desse santo homem é mal conhecida, a documentação é fragmentária e todos repetem e copiam os conhecimentos sem os entender muito bem. Cultuadores incuiltos, assim como somos da Grécia ou de pretensas civilizações mais antigas (Atlântida, por exemplo), o passa-tocha é mais importante que a compreensão. O que importa é a idéia civilizatória. É o caso  de Roma: o Papa já não está mais na cidade original, destruída, ou em ruínas, tanto faz,  mas em algum lugar que sempre está mudando, porém ainda é o centro religioso: a Nova Roma, onde quer que esteja. Os viajantes utilizam burros, ainda se come pão e queijo e se bebe vinho, mas os caminhos são perigosos porque um bando de monstrengos, seres mal formados, podem atacar, roubar e até devorar suas vítimas. As aves de rapina sobrevoam as paisagens, mais soberanas que o papa.

      Pois bem, o irmão Francis está fazendo jejum no deserto durante a Quaresma e encontra um velho peregrino, uma espécie de Judeu Errante, nada simpático, ainda mais para alguém que vive a tortura da fome e da sede e que teme o ataque das aves de rapina e dos lobos e, para isso, tenta construir uma frágil toca para a noite. Só que falta uma pedra para rematar esse abrigo tosco e o velho peregrino é quem acaba indicando a mais adequada. Como está desconfiado dele, Francis não se aproxima muito e o velho coloca uns sinais para que ele a reconheça. 

       Ao remexer nessa pedra, após a partida do intruso, Francis descobre um antiquíssimo abrigo nuclear, com documentos e restos mortais (que podem pertencer à esposa do Beato Leibowitz; conseguir a data exata da morte dela seria uma ajuda inestimável ao seu processo de canonização, pois dúvidas pairam sobre se, ao tomar o hábito, ele continuava ou não casado, já que não a encontrara em meio ao desastre).

       Ao levar uma caixa com achados para a abadia, inicia-se uma deliciosa comédia humana. O abade fica alarmado diante da celeridade com que a boataria e a imaginação romanesca aumentam o acontecido com Francis (há quem diga que ele esbarrou com o próprio Leibowitz), interroga Francis diversas vezes, em diálogos engraçadíssimos e memoráveis. Como o noviço estava em estado de jejum e por isso propenso aos delírios e às alucinações (mesmo que tenha realmente descoberto algo concreto, pois tem a caixa para provar), ele quer um desmentido cabal para encerrar o diz-que-diz. O sadio senso de realidade do noviço poderia ajudar, mas não ajuda (ele diz que pensa ser altamente improvável que tivesse encontrado o Beato Leibowitz, morto há tantos séculos, não diz que é impossível, o que faz toda a diferença do mundo). Como castigo, por sete anos ele é impedido de pertencer à Ordem, tornando-se um noviço veterano, ajudando na cozinha.

      Quando Roma mostra interesse pelos documentos encontrados (inclusive, num detalhe muito divertido, pois Miller era engenheiro elétrico, há um diagrama  de uma turbina elétrica que é um dos objetos de devoção e cópia, pois há uma indústria de cópias da Memorabilia do Beato Leibowitz e eles não têm a menor idéia da serventia daqueles artefatos ou conceitos, pois houve um total retrocesso tecnológico, e a narrativa parece antes ambientada no remoto passado do que no futuro por vir), o Abade se torna mais afável e condescendente com Francis e permite que ele tome o hábito, passando a trabalhar na seção de copistas e fazedores de iluminuras. Por quinze anos ele vai trabalhar numa iluminura que recria um diagrama elétrico que ele achou no abrigo nuclear e é ele quem vai levar o original e a cópia (muito mais bonita) para o Papa, durante um faustoso jubileu (como se vê, as cerimônias religiosas sobreviveram ao colapso da civilização, a Roma papal  sobreviveu à Roma de César), no qual, entre outras comemorações, dar-se-á a tão aguardada canonização de Leibowitz.

      Na jornada para Roma (que pelo visto agora fica no território dos antigos EUA), Francis, já bem mais velho, é assaltado: roubam-lhe a mula, vários objetos e ainda por cima a cópia na qual trabalhou por 15 anos, pois o ladrão acreditava que era o original. Só fica com ele a sagrada relíquia, que chega sã e salva até o Papa, o qual, após saber das aventuras e desventuras do monge leibowitziano, dá a ele um presente: as duas moedas de ouro que permitiriam pagar o resgate da iluminura (exigência do salteador). Assim, Francis fagueiramente retorna à abadia e leva uma flechada bem entre os olhos, caindo morto no mesmo local onde fora assaltado e sendo enterrado pelo velho peregrino que aparecera a ele quando noviço e que iniciara toda a sua trajetória.

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A segunda parte, “Fiat Lux” (19/10/09) 

   A segunda parte de UM CÂNTICO PARA LEIBOWITZ se encerra em 3781, já vários séculos depois da descoberta do irmão Francis. O único personagem que se mantém da narrativa anterior é o estranho peregrino, responsável pela descoberta do abrigo nuclear e dos novos documentos para a Memorabilia. Será o mesmo?  O abade Paulo se irrita porque todos o consideram o próprio Judeu Errante (e que está aguardando a vinda do Messias), vivendo há séculos.

    Houve progresso e vemos cenas mundanas, na corte de Hannegan, governante que quer criar um Império, unificando todo o antigo território norte-americano e submetendo as tribos nômades. A Memorabilia ainda é guardada, copiada e estudada na erma abadia da Ordem de São Leibowitz, mas há também o Collegium, uma espécie incipiente de Universidade, em que sábios leigos procuram reavivar a ciência. O mais brilhante deles é Mestre Taddeo, um tanto quanto descrente da autenticidade e utilidade da Memorabilia, mas que é recebido na abadia para estudar os documentos… Recebido com desconfiança, mesmo porque vem escoltado por uma guarnição militar de Hannegan, com o propósito expresso de protegê-lo na travessia de regiões perigosas, mas com o propósito oculto de estudar a arquitetura do santuário, que  o torna uma verdadeira fortaleza, de forma a que, numa guerra, ele sirva como fortificação militar, defendendo as fronteiras de um nascente império.

        Boa parte da narrativa (tão brilhante quanto a primeira parte, e talvez mais colorida e diversificada) se funda nos debates entre os pontos de vista de Paulo e de Taddeos. Quando este chega, um dos monges (Irmão Kornhoer), que gosta de fazer experiências, acabou de aperfeiçoar um dínamo que permite a iluminação elétrica da sala dos copistas (não é à toa que essa parte chama-se “Fiat Lux”), e para que o dínamo funcione ali, retiram um grande crucifixo que ali estava há séculos (o simbolismo da cena fala por si). No final, quando as posições ideológicas se tornaram bem polarizadas, o abade ordena que recoloquem o crucifixo e, pasmem leitores modernos e esclarecidos, somos quase tentados a ficar do lado dele, mais simpático do que Taddeos. Mas Walter M. Miller Jr. aparentemente não toma partido,  deixa que seus personagens exponham suas idéias e visões do mundo, e todos têm razão em parte, o que significa que nenhum ponto de vista é absoluto.

      Taddeos descobre que a Memorabilia não era tão inútil assim e mesmo assim fica um pouco despeitado porque suas “descobertas” científicas e “criações” de conceito são, de fato, redescobertas tardias e recriações do já feito e já pensado em épocas mais evoluídas. E fica espantado como um simplório humilde como Kornhoer chegou a uma invenção sensacional, apenas pelo bom senso prático e pela intuição no uso dos antigos conhecimentos fragmentários e não pelo raciocínio, pela dedução e pela lógica.

      As páginas finais dessa parte expõe um cenário de guerra, que também é evolução e mobilidade, após séculos de estagnação e paralisia. Porém, sobranceiras, no deserto e nas regiões ainda inóspitas, as aves de rapina sobrevoam e aguardam.    

terceira parte, “FIAT VOLUNTAS TUA” (23.10.09)

“Nenhum mal no nundo, exceto o que é  introduzido pelo Homem (…) O único mal no mundo, agora, é o fato de que o mundó já não é….”

      Na terceira parte, confirmando a estrutura cíclica a que a visão de Miller se atém, nós vemos a civilização humana novamente atingir um novo auge tecnológico, as potências novamente se ameçarem mutuamente com armas nucleares e, enfim, a destruição do planeta. Mais uma vez, um abade da Ordem de Leibowitz (Zerchi) é o centro da trama. Ele instrui o irmão Joshua a se preparar para ser o líder espiritual de um grupo que embarcará numa nave, levando os tesouros espirituais da abadia para outra galáxia, para iniciar uma nova etapa da existência da humanidade (quando a nave parte: “Viram a face de Lúcifer,qual um horrível cogumelo sobre a nuvem tempestuosa, subindo vagarosamente como um titã erguendo-se depois de séculos de aprisionamente na Terra“), seguindo ordens da Nova Roma, quando se constata que o fim é iminente e inevitável.

       Sempre surpreeendendo com suas soluções narrativas, Miller coloca o abade Zerchi em situações insólitas e contestatórias (ele chega a ser quase agredido por policiais quando tenta impedir uma vítima da radiação e sua filha sejam encaminhadas a um eufemístico “Campo de Misericórdia”, organiza piquetes, etc). No clímax da narrativa, quando realmente se dá o desastre nuclear final (pelo menos, neste ciclo da história), ele está ouvindo a confissão de uma mutante, a sra. Grales, que é bicéfala, e sempre está arengando porque sua outra cabeça, que ela chama Raquel, e da qual nunca ninguém viu o menor sinal de vida (a não ser o irmão Joshua) não é batizada.

       O desastre acontece, o padre fica entalado num buraco,  moribundo (“Quando voltou a si não havia senão pó. Estava preso no chão até a cintura… Começou a recolher as hóstias, desajeitadamente, com a mão que ficara livre. Cuidadosamente, foi apanhando cada uma do meio da areia. O vento ameaçava fazer voar, os pequenos flocos de Cristo…. Um fio de sangue, de vez em quando, entrava-lhe nos olhos. Enxugava-o com o braço para evitar manchar o Pão Sagrado com os dedos sujos. Esse não é o sangue certo, Senhor, é o meu e não o vosso….), vendo as aves de rapinas mais uma vez reaparecendo (…quando acordou já não estava só… Era um pássaro escuro e feio, mas não como aquela Outra Escuridão. Esse só lhe cobiçava o corpo: O jantar ainda não está pronto, irmão pássaro –disse, irritado.– Você vai ter de esperar. Não haveria mais muitos jantares, notou o abade, antes que o próprio pássaro se tornasse jantar para outro, pois tinhas as penas chamuscadas pelo clarão e um dos olhos, fechado. Estava encharcado com a chuva, e Zerchi imaginava que esta trouxesse consigo a morte”).

Aí sobrevem o ponto mais discutível do livro, pois a sra. Grales morreu e Raquel nasceu, é o ser que surge da destruição, a última visão do abade, na sua inocência e candura. Eu até compreendo a necessidade de Miller de inserir essa cena na sua saga religiosa, mas ela se abeira perigosamente do piegas (ela é quem batiza o padre moribundo, embora esteja aprendendo a falar, como ser recém-nascido): “A imagem daqueles olhos verdes e cheios de frscor ficou com ele até o fim. Não indagou por que Deus quisera fazer surgir uma criatura com a inocência primitiva (sic) do ombro da Sra. Grales, ou por que lhe dera os dons preternaturais do Paraíso, aqueles mesmos dons que o Homem tentara arrancar o Céu a viva força, desde que os perdera. Vira a inocência primitiva naqueles olhos e uma promessa de ressurreição. Um só vislumbre tinha sido uma magnanimidade e ele chorou de gratidão…”

21/10/2009

EM TORNO DE UM CORPO

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DESPEDIDA EM SANGUE

    Em 1958, a mãe de James Ellroy (que tinha dez anos à época), Gineva, foi estrangulada com uma meia de nylon, um assassinato nunca esclarecido.  Vinte e nove anos depois, a obsessão do filho com o crime gerou Dália Negra, romance que explora ficcionalmente uma investigação-fetiche nos EUA e é dedicado à mãe do grande escritor norte-americano, uma “despedida em sangue”.

    O mesmo crime deu origem (dez anos antes de Dália Negra) à outra excelente engrenagem ficcional que remontava aos anos 40: Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne, que faz tudo o que Agosto de Rubem Fonseca não fez pelos nossos anos 50. Dunne e sua esposa, e ainda melhor romancista, Joan Didion (cujo recente O ano do pensamento mágico é uma  homenagem ao marido que acabara de morrer), adaptaram Confissões Verdadeiras para um ótimo filme de Ulu Grosbard, onde Robert de Niro e Robert Duvall estão magníficos como irmãos. E, como se sabe, Dália Negra foi adaptado por Brian de Palma, revelando-se uma desalentadora surpresa: não se sabe o que aconteceu, como o bolo desandou, porém o velho mestre realizou um trabalho que poderia ser assinado (ou assassinado) por qualquer um, burocrático e distante, a anos-luz de um Intocáveis ou, mais recentemente, de um Olho de Serpente, e principalmente das suas obras com um pé na paródia e na molecagem criativa, que pilha o terreno alheio e cria novos territórios, como Dublê de Corpo.

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    E por falar em corpo, o de Elizabeth Short é encontrado na rua 39 esquina com a Norton em janeiro de 47 e vira obsessão para os parceiros Lee Blanchard e Bucky Bleichert (narrador e protagonista), conhecidos como Mr. Fire (Fogo) e Mr. Ice (Gelo), pois como pugilistas adversários conseguiram uma verba importante para o departamento de polícia de Los Angeles; eles fazem parte (depois de maquinações fraudulentas de Lee, mr. Fire, pois ambos são da Divisão de Capturas, e esse é um dado importante no esquema geral) da imensa força-tarefa que investiga o crime. Completando o trio, há Kay, ex-prostituta “amigada” com o fogo (que não arde) e que se apaixona pelo gelo (e é correspondida, mas ele mantém sua lealdade ao parceiro até seu desaparecimento abrupto…).

    Ao seguir sozinho uma pista em bares de lésbicas, Bleichert conhece Madeleine, com a qual a “dália negra” se assemelhava um pouco, e assim se envolve com sua bizarra e criminosa família, cuja fortuna remonta a negociatas nos tempos do cinema mudo, quando o conhecido letreiro, idealizado por Mack Sennet, ainda era Hollywoodland, (as últimas letras são retiradas durante o espaço de tempo da trama, 1946-1950). Além disso, há um “amigo” da família, desfigurado, o que evoca o romance de Victor Hugo, O Homem que Ri (que eu só conheço através da sua adaptação, com Jean Sorel. O enredo é fascinante).

    Elizabeth Short, a dália negra, além de “substituta simbiótica” à mãe de Ellroy, é também uma concentração de ícones norte-americanos: o fetiche pelo cinema, que fazia (e faz) mocinhas inquietas se deslocarem do país inteiro para acabar muitas vezes como prostitutas, a idealização dos G.I. Joes, os que lutaram na 2ª. Guerra (e eram objeto de desejo por parte da morta); e também a mulher-anjo, “perdida no lodo”, ou a femme fatale, no qual os homens projetam suas fantasias, quaisquer que sejam. Não é à toa que seu fantasma persegue Bleichert ao ponto de ele pagar uma prostituta anônima para reencarná-la ou gostar de Madeleine pela semelhança, principalmente na hora da transa. Quando ele consuma sua relação com Kay, uma das formas que Madeleine utiliza para voltar a atraí-lo é sair para noitadas fantasiada de “dália negra”. Eu acho incrível que alguém com a obsessão de Brian de Palma por Hitchcock, demonstrada tantas vezes, não tenha aproveitado esse gancho para relembrar a obsessão de James Stewart em recriar a supostamente morta Kim Novak em Um corpo que cai, de forma tal que ele atormenta a “substituta simbiótica”, vestindo-a e penteando-a para que fique igual à falecida. Possivelmente faltou isso à Dália Negra, o filme: obsessão. Ele é apenas uma sessão de cinema, fácil de ver e esquecer.  E é engraçado notar que um diretor que nunca se destacou por sequer uma mínima marca pessoal como Curtis Hanson conseguiu extrair a essência de Ellroy em Los Angeles- Cidade Proibida, como se tivesse visto ali a grande chance da sua vida.

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    O painel de Dália Negra enfatiza igualmente a canibalização do crime pela mídia, a qual praticamente comanda a investigação policial, com a opinião pública exacerbada pelo volume de exposição do caso, e o promotor (Ellis Loew, personagem também de Los Angeles, Cidade Proibida) tentando impedir que vazem notícias sobre a promiscuidade da vítima para não perder a simpatia do público (e futuros eleitores). O caso Isabela é a ilustração mais recente do fenômeno.

   É pena que um escritor tão brilhante seja também tão prolixo. O livro é sensacional até a elucidação do paradeiro de Lee Blanchard, quando mr. Ice o procura no México; depois começa a ficar saturado e quase informe até chegar a um clímax um tanto exagerado e irreal, mesmo amarrando todas as pontas (o que a certa altura parecia quase impossível). A “despedida em sangue” talvez tenha viciado por demais Ellroy: em sua obsessão ele extrapolou ao soltar todos os esqueletos do armário.

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“No meio da grande ruína”: Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

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“… escrevemos doravante, alegres, sobre ruína…f ragmentos esparsos, colunas rompidas, sistemas falidos,  cacos de linguagem…” (Alain Robbe-Grillet)

   Alain Robbe-Grillet foi vítima da letal mania de reduzir uma pessoa a um repisado rótulo. “Um dos principais representantes do noveau roman”! Embora tenha escrito um ensaio polêmico, Por um novo romance (1963), e feito parte de um grupo de escritores da editora Minuit que se celebrizou com seus experimentos na renovação do gênero (repudiando o psicologismo que teria chegado ao limite com Marcel Proust, e também aquele estilo lapidar e cinzelado, consagrado por André Gide), o fato é que ter sido “um dos principais representantes do noveau roman pouco tem a nos dizer. Há todo um fascínio próprio da época (uma das mais contestatórias de que se tem notícia), entretanto é provável que Robbe-Grillet, como outros autores em cuja permanência aposto (é o caso dos geniais Marguerite Duras e Claude Simon, e como esquecer dos dois belos romances de Michel Butor, L´emploi du temps- Inventário do tempo e A modificação, ou de A encenação, de Claude Ollier, ou ainda da misteriosa Nathalie Sarraute ?), fique melhor apartado do rótulo “consagrador”, que só incita mal entendidos ou simplesmente má vontade.

    A princípio, fiquei fascinado com o Robbe-Grillet que escreveu o texto de O ano passado em Marienbad (1961), uma das obras-primas de Alain Resnais (talvez o cineasta mais apaixonante do cinema europeu, tirando Bergman), bem mais do que com o autor de La jalousie- O ciúme (1957) e La maison de rendez-vous-Encontro em Hong Kong (1965), embora tivesse achado esses dois romances extremamente bem engendrados:

 

“O parque desse hotel era uma espécie de jardim à francesa, sem árvores, sem flores, sem nenhuma vegetação… O cascalho, a pedra, o mármore, a linha reta, marcavam nele espaços rígidos, superfícies sem mistério. Parecia, à primeira vista, impossível alguém se perder nele… à primeira vista… ao longo das alamedas retilíneas, entre as estátuas de gestos estáticos e as lajes de granito, onde você já estava quase perdida, para sempre, na noite tranqüila, sozinho comigo.”

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    No universo francês cartesiano, tão certinho e límpido, de repente era possível perder-se. Aliás, na obra de Robbe-Grillet (que, seja dita a verdade, conheço relativamente pouco, apenas cinco livros), sempre houve um gosto pelo trompe-l´oeil (aquele tipo de pintura que procura, a um só tempo nos convencer de que é real, e fazer saber que não passa de um efeito ilusório), como a quinta Triste-le-Roy, palco do clímax de A morte e a bússola, de Jorge Luis Borges:

 

“Lönrot explorou a casa. Por antesalas e galerias saiu a pátios iguais e repetidas vezes ao mesmo pátio. Subiu por escadas poeirentas e antecâmaras circulares; infinitamente multiplicou-se em espelhos opostos; cansou-se de abrir ou entreabrir janelas que lhe revelavam, fora, o mesmo jardim desolado de várias alturas e vários ângulos… a casa lhe pareceu infinita e crescente…”[1]

 

    Os dois únicos textos do autor francês que, salvo engano, foram publicados no Brasil na última década, Os últimos dias de Corinto (Sulina) e A retomada (Record), reafirmam esse aspecto de forma insistente. São excêntricos e brilhantes, apesar da irritante auto-referencialidade que parece ser um mal francês já que a obra de Marguerite Duras é toda assim também.

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    A retomada é o livro de virada do milênio de Robbe-Grillet. Apareceu em 2001 e representa, tal como Atonement- Reparação, de Ian McEwan (publicado na mesma época), um elogio da ficção, essa “loucura fabulatória ativa. O título nacional é muito mal escolhido, aclimata muito mal o La reprise original, com seu sentido de reapresentação de espetáculo, de “vale a pena ver de novo”:

 

“Henri Robin tem agora, em todo caso, uma certeza: está de volta ao seu quarto de hotel, e foi lá que passou o final de uma noite agitada. Entretanto, embora tenha consciência de haver regressado muito tarde, não lembra de ter pedido para ser acordado a nenhuma hora… Aliás, pode-se dizer que a noção de tempo, exata ou mesmo aproximada, perdeu toda importância para ele, talvez porque sua missão especial tenha sido suspensa, ou então depois de ter submergido na contemplação do quadro de guerra pendurado naquele quarto infantil… De fato, a partir da espécie de deriva mental causada por aquela abertura duplamente cega, murada com um trompe-l´oeil, pleno de uma significação ausente,  os acontecimentos dessa noite lhe produzem uma desagradável impressão de incoerência, ao mesmo tempo causal e cronológica, uma sucessão de episódios que parecem não ter outros laços senão os da contigüidade (o que não permite dar a eles uma posição definitiva)…”

    Hoje que escrevo esse artigo-preito lamento (e olha que eu o possuo há vinte anos) não ter lido Les gommes- Entre dois tiros, seu primeiro romance publicado, em 1953, porque A retomada parece ser a “reprise” da trama daquele livro, inclusive repetindo sua estrutura (prólogo, cinco capítulos correspondentes a cinco dias, epílogo) e sua trama edipiana. Portanto, há toda uma dimensão que eu perdi, ainda que isso não impeça a fruição de uma ótima narrativa a se desfiar, se destecer, se esboroar, progressivamente. Ao fim e ao cabo (exatamente de quê?),  Henri Robin, que já lançara mão de vários nomes, adota a identidade e condição social do seu duplo? irmão?, o qual tentara matá-lo, por achar que os dois eram demais para a mesma história, e cujas notas à sua própria narrativa tentavam destruir sua credibilidade já precária.

    A certa altura, dois policiais da dividida Berlim pós-guerra (e no início de um milênio, onde há ainda uma parte toda fracionada e ocupada da Europa, é muito pertinente esse fantasma de uma situação que definiu boa parte do século XX para a consciência ocidental), confrontam Robin com objetos encontrados na revista feita (sem que ele soubesse) em seu quarto de hotel: um sapato feminino de festa com a gáspea de escamas azuis cujo forro em couro de cabrito branco estava manchado de sangue; uma pistola automática Beretta nove mm; quatro cápsulas disparadas; uma bonequinha nua de celulóide cor de carne; uma calcinha de cetim com babados de renda, igualmente manchada de sangue; um frasquinho de vidro branco contendo um resto de líquido; um fragmento de uma taça de champanhe cuja ponta aguda apresentava marcas de sangue. Robin, então, pondera a respeito do frasquinho de vidro: “Este, na verdade, é o único elemento no heteróclito conteúdo da maleta que não me recorda nada”. Porque todos os outros aparecem e reaparecem, saindo do baralho de forma protéica, fazendo parte de situações diferentes que se anulam, se contradizem, ou se complementam de maneira a sempre deixar arestas: “Como era de se esperar, após o longo percurso naquele túnel profundo semi-alagado, estou agora na outra margem do canal sem saída, em frente à suntuosa mansão de múltiplas armadilhas, loja de bonecas, ninho de agentes duplos, comércio de carne fresca, prisão, clínica…” Mais adiante: “Eu me preparava para responder com franqueza, hesitando porém quanto ao que tinha direito de revelar à polícia berlinense sobre a suposta missão, cada vez mais obscura, da qual progressivamente eu me tornava a vítima.”

    Tênue trama (claro que pode ser trompe-l`oeil) amarra essa sucessão obscura de episódios mirabolantes: dois irmãos separados pela guerra e pela fuga da mãe da Alemanha (por ser judia, e não ter o apoio do marido, oficial em ascensão na Gestapo), se odeiam entre si e ao pai, a quem ambos assassinam (essa é a suposta missão de Henri Robin, ele chega a acreditar que a executou, mas quem a executa é o irmão); há ainda uma madrasta sedutora para apimentar a quizila e, comprovando sua vocação de romancista perverso (como nos diz em Os últimos dias de Corinto), uma ninfeta, Gigi; aos 14 anos amante de ambos, apesar de ser possivelmente filha do “duplo” de Robin, ou Ascher, homem das cinzas e das sombras.

    O próprio artífice não se furta de aparecer para reiterar o caráter de ilusão fabricada:

 

   “À esquerda e à direita deste vasto escritório de carvalho, cuja pomposa ornamentação napoleônica já descrevi em outros textos, cada vez mais invadido por todos os lados pelas insidiosas pilhas de papelório existencial que se acumula em estratos, ficam agora fechadas o dia inteiro as três janelas que dão para o parque, ao sul, ao norte e a oeste, a fim de não me dar conta do descalabro em que vivo após o furacão que devastou a Normandia logo depois do natal, marcando de maneira certamente inesquecível o final do século e a mítica passagem para o ano dois mil. A bela harmonia de folhagens, vales e relvados cede lugar a um pesadelo de que não se pode escapar, perto do qual parecem ridículos os estragos homéricos do tornado de 1987, já relatado por mim… Muitas vezes falei da alegre energia criadora que o homem precisa desenvolver para transformar em construções novas o mundo em ruínas. E eis que volto a este manuscrito após um ano poucos dias depois da destruição de uma parte considerável da minha vida, encontrando-me então em Berlim, após outro cataclismo, mais uma vez com outro nome, outros nomes, cumprindo um ofício de encomenda munido de diversos passaportes e de uma missão enigmática, sempre prestes a se dissolver, continuando porém a me debater com obstinação em meio a duplicações, aparições intangíveis e imagens recorrentes em espelhos que retornam.”

 

    “Já relatado por mim”. É verdade, ele o relatou (“…o parque de Mesnil foi devastado por um furacão nunca visto, conforme a memória humana, em toda a Normandia e a Bretanha, desfiguradas desta vez em poucas horas) em Os últimos dias de Corinto, o final de uma trilogia iniciada com O espelho que retorna e continuada por Angélique ou O encantamento, uma forma de autobiografia invadida pela ficção, e também pela memória (“consciente de sua própria impossibilidade constitutiva) do próprio fazer literário, isto é, da fabricação dessa ficção. Temos mais um estrangeiro viajante e pedófilo, Henri de Corinto, mais meninas quase impúberes, e novamente um sapato de baile feminino aparecendo por toda parte (até na costa uruguaia; o Brasil também é cenário), mais duplos, mais bonecas que parecem vivas (ninfetas e bonecas…):

 

“… um relâmpago da memória, inapreensível, e talvez imaginário, Corinto tem a impressão muito viva de já ter visto em outro lugar esses sapatos de baile…” etc

.

    Já ao iniciar-se (“A carne das frases sempre ocupou, sem dúvida, um grande espaço no meu trabalho), brinca-se com a produção anterior do autor, parodiando o célebre início de La maison de rendez-vous, “A carne das mulheres sempre ocupou lugar de relevo em meus sonhos”. E o livro todo vai nessa toada. É claro que eu não consegui “pegar” todas as referências, já que, como disse, conheço só algumas poucas obras. Porém, eu me diverti muito. E saí da leitura convicto de que, qualquer que seja o seu destino literário, o autor de Os últimos dias de Corinto não merece ser somente “um dos principais representantes do noveau roman.

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[1] “Lönrot exploró la casa. Por antecomedores y galerías salió a patios iguales y repetidas veces al mismo patio. Subió por escaleras polvorientas e antecámaras circulares; infinitamente se multiplicó en espejos opuestos; se cansó de abrir o entreabrir ventanas que le revelaban, afuera, el mismo desolado jardín desde varias alturas y varios  ángulos… la casa le pareció infinita y creciente…”

FUMO E FASCISMO: quando sancionarão uma lei anti-borboletas da alma?

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21 de outubro de 2009

    A pequena obra-prima de Paul Auster O CONTO DE NATAL DE AUGIE WREN (ver minha resenha abaixo) foi relançada pela Companhia das Letras. Como segue a tradição, consagrada no universo anglo-saxão, dos contos de Natal, cujo maior expoente foi Charles Dickens, não deixa de ser uma  leitura importante: um mestre da “modernidade líquida”, da pós-modernidade, reavivando uma tradição da “modernidade sólida”, da Era Industrial.

10 de agosto de 2009

       Não sou fumante e no entanto considero autoritária, quase fascista, a lei anti-fumo (também, o que esperar de um José Serra?, um político que JAMAIS teria o meu voto nem para síndico). Meus amigos não poderão mais fumar em bares e restaurantes (e, na prática, em quase em todos os lugares),mas podemos aturar gente se esgoelando nos videokês da vida, gente que pára o carro e nos despeja a música do seu (mau) gosto em altos decibéis, e que,  curiosamente, nunca é a música que a humanidade sensata gostaria de ouvir, sem contar as onipresentes tevês em todos os lugares despejando Faustão ou qualquer outro horror enquanto jantamos ou jogamos conversa fora. Ninguém acha isso invasivo ou abusivo, e longe de mim querer censurar qualquer manifestação. Mas pensando na perseguição aos fumantes, lembrei de uma antiga resenha. 

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UM DETERMINADO CANTO DO MUNDO 

   O ponto alto das mais de 300 páginas que reúnem os roteiros Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in the face), lançamento da Best Seller na onda do sucesso que o filme Smoke vem fazendo há meses em São Paulo, é um texto de apenas 8 páginas escrito pelo autor do roteiro do filme, o romancista Paul Auster: O conto de natal de Auggie Wren.

    Nele, Auster narra como Auggie, gerente de tabacaria, fotografa a esquina onde trabalha todos os dias, exatamente à mesma hora. Ao ver as fotos, o narrador, após acostumar-se à estranheza de tal projeto de vida, percebe a atitude zen desse homem aparentemente comum (e presença fortuita em sua vida), que lhe dará de presente um conto de natal, daqueles que Dickens consagrou (não convém contá-lo aqui): “Percebi que Auggie fotografava  o tempo, o tempo natural, assim como o humano, e o fazia plantando-se numa pequena esquina no mundo e desejando que fosse sua, montando guarda no espaço que escolhera para si mesmo”. No filme, a palavra é do próprio Auggie (uma maravilhosa interpretação de Harvey Keitel, em belo duo com William Hurt): “É a minha esquina afinal. É apenas uma pequena parte do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho”. Infelizmente, o roteiro e o filme estão longe de ter o encanto diáfano do conto, a síntese densa que esse texto tão simples faz dos encontros na cidade grande, das doações insólitas e dos pequenos logros que aproximam estranhos. Sente-se, no filme, que faltou diretor para o material, que o redimensionasse cinematograficamente, aproveitando as infinitas possibilidades poéticas do texto durante as duas (longas) horas de projeção. Também, o que se poderia esperar de Wayne Wang, diretor daquela chorumela chamada O Clube da Felicidade e da Sorte? A colaboração Wang/Auster quase tira a credibilidade do autor de alguns livros simplesmente brilhantes. Mesmo assim, milagres acontecem (e não apenas natalinos ou na rua 34) e Cortina de Fumaça, no geral, ficando no limite da pieguice, apesar dos grandes atores, apresenta dois ou três momentos de genuínos de cinema, o que já é muito, não? Curiosamente, esses dois ou três momentos estão umbilicalmente ligados ao clima do pequeno texto já referido.

    No geral, excetuando-se o lindo conto, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego interessa a quem quiser conhecer melhor o “cantinho de mundo” de Paul Auster. Não faltam momentos saborosos, basta ler algumas das rápidas vinhetas que constituem as cenas do roteiro de Sem Fôlego, outro projeto em parceria com Wang (e que se ressente das pontinhas excessivas de gente famosa, quando o melhor são os mais desconhecidos, como Giancarlo Espósito). Dessa vez, apenas Auggie aparece, sem o escritor que o grande Hurt encarnava e que era o ponto de ligação das histórias. É como um “A Praça é Nossa” em versão “The New Yorker”.

    O volume traz, entretanto, uma importante entrevista com Auster, realizada por Annete Insforf, na qual (entre outras mil coisas), em poucas palavras o autor de A Música do Acaso (um dos romances-chaves da nossa época) trata lucidamente da histeria fascista que virou a perseguição aos fumantes (e o texto-filme tem muito do seu sabor calcado na politicamente incorreta e deliciosa exaltação ao ato de fumar):

“O fato é que as pessoas fumam. Se não me engano, mais de um bilhão de pessoas fuma diariamente. Sei que o lobby antifumo se fortaleceu muito nos últimos anos… Não estou dizendo que fumar seja bom, mas comparado aos ultrajes políticos, sociais e ecológicos cometidos todos os dias, o tabaco é questão menor. As pessoas fumam —é um fato. As pessoas fumam e gostam disso, mesmo que não lhes faça bem”.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em 14 de novembro de 1995)

16/10/2009

O INCOMENSURÁVEL

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     O Fausto quinhentista, o qual se lamentava por ser apenas “ainda um homem”, era tentado a pactuar com o Diabo para obter poderes mágicos: “Oh, dai-me algumas provas de magia/Que eu possa conjurar num bosque espesso/E plena posse tenha de tais bens”, podemos ler na História Trágica do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe. 240 anos depois, no ápice da lenda em sua feição literária, no quinto ato da Segunda Parte do Fausto de Goethe, o herói, pouco antes da sua conversa com a Apreensão (Sorge), num solilóquio que marca o começo do fim do seu pacto, diz: “Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria/Desaprender os termos de magia/ Só homem ver-me, homem só, perante a Criação/ Ser homem valeria a pena, então. // Era-o antes que as trevas explorasse/ Blasfemo, o mundo e o próprio ser amaldiçoasse/ Hoje o ar está de espíritos tão cheio/ Que não há como opor-se a seu enleio”. Um longo percurso. Da lenda e da sua elaboração literária. Da peça de Goethe, que ele começou a elaborar na juventude e concluiu no ano da sua morte, já octogenário (a primeira parte apareceu na íntegra em 1808). Da tradução de Jenny Klabin Segall, que (numa sincronia apreciável com o lançamento da obra de Marlowe pela Hedra) reaparece agora em grande estilo, numa cuidadíssima edição bilíngüe de mil páginas, trabalho que lhe consumiu décadas, sendo terminado também só no seu derradeiro ano de vida e publicado (como o original alemão) postumamente. E é um longo, longo percurso que se exige do leitor. Se ele conhece apenas a Primeira Parte pode esquecê-la, a Segunda pouco tem a ver com ela. Trata-se de uma daquelas obras exuberantes e idiossincráticas, cuja leitura representa um desafio cognitivo até para admiradores, como é o caso também da Tentação de Santo Antão, de Flaubert, ou do Finnegans Wake, de Joyce (e, para citar um exemplo da fusão música e texto, da Flauta Mágica, de Mozart, com seu simbolismo igualmente extravagante). Um efeito perseguido, uma vez que Goethe afirmou ao seu fiel Eckermann, pouco antes de conclui-la: “Estou persuadido de que quanto mais incomensurável e difícil de ser compreendida é uma obra, tanto melhor ela é”! Incomensurável. Nenhuma palavra caracterizaria mais precisamente o desenvolvimento da história para além do pacto (na verdade, uma aposta entre o Diabo e o Criador, na visão goethiana). Saímos da sedução que envolve e destrói Gretchen e que representa o fulcro dramático da Primeira Parte, e vemos Fausto no “grand monde”, dotado de poderes incríveis, sempre acompanhado por Mefistófeles, embora cercado de uma atmosfera de charlatanismo. No primeiro ato, eles aparecem como cortesãos do Imperador, num ritmo de mascarada. Fausto é capaz de ir aos confins do universo para satisfazer o soberano, fazendo com que retornem ao nosso plano, como espetáculo para a Corte, os espíritos de Páris e Helena, e apaixonando-se por esta. Temos dois atos em que entidades greco-romanas se misturam à cultura judaico-cristã, e sejamos francos: já era árdua essa parte quando a li numa tradução mais prosaica de Flávio M. Quintiliano; em versos, torna-se quase uma travessia do Liso do Sussuarão (o lugar mortífero de Grande Sertão: Veredas). Não desista, leitor, há vários momentos belíssimos nesse festim peculiar e exasperante do velho Goethe. Contudo, apenas nos dois atos finais é que retornamos à Corte e ao cerne da tragédia, a luta de Deus e o Diabo pela alma do pactário. 

 Fausto- Segunda Parte, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832). Tradução de Jenny Klabin Segall (1899-1967). Edição bilíngüe organizada por Marcus Vinícius Mazzari. Editora 34. 1085 páginas.

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OUTRA CAPITAL, MAS NÃO TÃO DIFERENTE

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eça à beça

a capital 

    A Capital!, romance engavetado por Eça de Queirós, após ter nele investido bons anos, quando então se deixou absorver por Os Maias (produção que o fez abandonar vários projetos, publicados apenas postumamente), ganhou uma edição brasileira que incorpora as modificações introduzidas pela edição crítica portuguesa (1992).

    Ele aparecera inicialmente em 1925, um quarto de século após a morte de Eça, numa versão realizada pelo filho. Comparando agora as duas, vemos que as maiores diferenças ocorrem nos dois primeiros capítulos, a parte provinciana da trama (quando Artur Corvelo, o protagonista, após a morte do pai, tem de abandonar os estudos em Coimbra para “enterrar-se” com as tias em Oliveira de Azeméis). A grande novidade é a inclusão da prima Cristina, eliminada sem dó nem piedade na versão anterior (e o filho de Eça se refere explicitamente a ela, e aos seus motivos para fazê-lo, no prefácio que escreveu às obras então inéditas do pai), a qual enriquece extraordinariamente a história nesse ponto. Foi um grande achado de Eça e o maior mérito da nova versão foi resgatá-la.

    Afora isso, nenhuma outra modificação ou acréscimo é substancial e, se  me é permitida  uma heresia, a tão condenada –por especialistas-  versão de José Maria (acusado de “ seleções e ordenações sem apoio em critérios adequados e justificáveis ou na consumação de alterações de grande envergadura”, escreve Elza Miné) acaba sendo a mais coerente e coesa, porque prima Cristina desaparece do resto do manuscrito (toda a imensa parte não-revista e não-retrabalhada por Eça). Para o leitor comum, talvez fosse preferível continuar-se publicando a versão mais coesa (e infinitamente menos mutiladora e censurada do que nos faziam pensar) e, num posfácio, à parte, essa outra demão, com a inclusão da memorável Cristina, nos capítulos iniciais.

    Tais intervenções editoriais poderiam parecer muletas de um texto fraco e cujo interesse seria apenas adstrito ao conjunto da obra daquele que é, com toda certeza, o maior romancista da nossa língua. Não é o caso de A Capital! O livro não faz feio nem sequer colocado ao lado de Os Maias ou A ilustre Casa de Ramires, as obras-primas de Eça (ou melhor, um pouco mais obras-primas, uma cabeça a mais, digamos assim, do que os maravilhosos A Cidade e as Serras, O Primo Basílio ou O Mandarim). Não obstante a história ser bem previsível no seu feitio Ilusões Perdidas, de Balzac (moço provinciano ganha herança e vai para a capital, achando que ganhará celebridade, será amado,  só encontrando barreiras sociais, exploração e traições, voltando à província desenganado), mesmo nesse estado de primeiro esboço que boa parte do romance conservou, nota-se a assombrosa genialidade estilística de Eça, que o faz ser lido hoje com uma naturalidade que parece impensável associar a escritores contemporâneos  portugueses, e que não encontramos, por exemplo, nas traduções feitas em Portugal. No primeiro caso (dos escritores) parece estarmos diante de outra língua); no segundo, e sempre mencionando as exceções de praxe, de um incompreensível desejo de destruir qualquer prazer de leitura. O “rascunho” de Eça parece escarnecer desse afastamento que foi se formando entre as duas “línguas” com sua petulância, vivacidade e brilho Seria tarefa temerária começar a citá-lo, porque não teria fim.

    Alguns podem argumentar que, se a história é previsível, o herói também é irritantemente ingênuo em demasia. Pois talvez esteja em Artur Corvelo o toque de gênio de Eça em A Capital!. E a nova versão veio contribuir decisivamente para essa impressão ao mostrar a sua complexa relação com prima Cristina, que o humaniza e o torna um legítimo predecessor do inesquecível Gonçalo Mendes Ramires.

    Machado de Assis escreveu (no conto Miss Dollar, a respeito do seu “herói”): “Aceitemo-lo com seus ridículos; quem não os tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”. Ao descrever impiedosamente tanto o mundo da província quanto o da “deslumbrante” capital (deslumbramento que justifica a exclamação no título do romance), a mediocridade dos interesses, o horizonte plano que ela oferece ao protagonista e às suas ilusões, o malicioso Eça também nunca deixa esquecer o quanto essas ilusões tão grandiosas trazem de bêtise, o matiz flaubertiano da aventura balzaquiana, de estupidez. Afinal, trata-se de um cabeça de vento! Fica meses contemplando embevecido uma fachada de casa e lançando olhares de adoração porque crê que, ali, mora a eleita do seu coração, até descobrir que o vulto que via era de outra (“uma carinha pequena, de feições amarfanhadas, torcidas, os olhinhos, que tinham caspa nas pestanas, pareciam apenas dois buraquinhos negros”): “Oh! E fora aquele bicho que ele mandara o seu livro de versos! Fora para as janelas dela que ele mandara toda a sua alma, na adoração dos seus olhos!… Caiu-lhe na alma o vexame da sua existência:achou-se grotesco…” Aceitemo-lo com seus ridículos… Felizmente, para ele e para nós, que passamos a gostar tanto dele, ele possui outro tipo de lastro. Mas o mar da vida que nos é mostrado em A Capital!  permite só a visão da navegação por meio do lastro do ridículo. Seria em A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e As Serras que veríamos outros ventos em ação. Mas aí são outros quinhentos, aqui são favas contadas.

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A Capital!, de Eça de Queirós (1845-1900).  Escrito entre 1877-1884. Editado originalmente em 1925. Edição de Luiz Fagundes Duarte & Carlos Reis. Editora Globo. 426 págs.

15/10/2009

O COMPROMISSO: A classe operária não vai ao Paraíso

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    Um trajeto de bonde constitui a espinha dorsal de O Compromisso: a narradora, que vive sob o regime comunista de Ceausesco, tem de comparecer, nesse dia, a mais um interrogatório (e pode ser presa ou torturada, quem sabe?), pois vive em “estado de convocação” desde que, operária de uma fábrica, tentou contrabandear bilhetes em ternos de linho que seriam exportados: “… eu decidira me casar no lado ocidental, e em cada um dos bolsinhos traseiros enfiei um bilhetinho: Case comigo, ti aspetto, assinado com meu nome e meu endereço. O primeiro italiano que respondesse seria aceito. Meus bilhetes foram julgados prostituição em local de trabalho…”

    No trajeto do bonde, além de incidentes, impressões e apreensões (ela leva até pasta de dente e escova para o caso de não voltar para casa), além de uma surpresa final, temos acesso às suas lembranças: o primeiro casamento, o sogro que fora responsável pela deportação dos avós dela para um campo de concentração, a tentativa do marido de matá-la (por não conseguir bater nela), o fuzilamento da melhor amiga, quando tentava escapar do país clandestinamente com o amante, o segundo casamento com um alcoólatra, a sensação de estar sendo vigiada por estranhos e pelos vizinhos…

      Esse “estado de convocação” em que vive a personagem de Herta Müller, mobilizando toda a sua energia, fez com que muita gente a comparasse aos personagens de Kafka (por exemplo, o herói de O Processo), apesar das lentes da escritora romena naturalizada alemã que conquistou o Nobel de literatura de 2009 (exatamente cem anos depois da primeira mulher conquistar o prêmio, a sueca Selma Lagerlof) estarem voltadas para a classe operária e o malogro da promessa de paraíso do comunismo. Porém, nem era preciso sair da Romênia para encontrar um ilustre antecessor: mais forte ainda do que a denúncia de um regime opressor e aterrorizante, O Compromisso faz jus à obra do grande Ionesco (cujo centenário de nascimento também é comemorado este ano), que com seu teatro do absurdo (A Cantora Careca, Os Rinocerontes) desconstruiu o automatismo do dia-a-dia, desmascarando os falsos sentimentalismos e a incomunicabilidade básica em torno da qual nos movimentamos e fabricamos nossas identidades ou máscaras.

    Impregnado, além disso, da linguagem dos sonhos e da poesia, com um quê do surrealismo (a amiga da narradora, Lili, é chamada de “Cereja” pelo amante; quando ela morre, dilacerada por cães, as cerejas vêm à mente da narradora, que depois,no bonde, vê uma sacola que parece ensanguentada e da qual a passageira tira… cerejas para comer no percurso), o concentrado e espiralado texto de Herta Müller nos proporciona uma experiência inquietante: as várias associações de imagens com que a narradora repassa sua experiência, a sua relação com os objetos e com os fenômenos da natureza, transmitem um dos aspectos mais impenetráveis da experiência individual, mesmo com todas as referências específicas de lugar, de época, de geração, passando em revista relações de amizade,de parentesco, de trabalho, de vizinhança e conjugais: uma espécie de linguagem cifrada e intransferível, que permanece “estranha” e alheia. Nós acompanhamos o trajeto de bonde da narradora, compartilhamos seus incidentes, suas impressões, suas apreensões e lembranças enoveladas, mas sempre temos a sensação de uma barreira, de que estamos diante de um Outro. Herta Müller não nos oferece a fácil identificação, a empatia epidérmica por uma vítima de uma ditadura. Por isso, seu romance é curto, porém árduo e intenso, já que nos transmite uma sensação de enclausuramento que vai além do circunstancial político e do ideológico (que mal comparece aqui de forma explícita), e vem de um mal estar essencial, da claustrofobia existencial que já assolava Madame Bovary.

    Uma passagem reveladora: quando revela ao sogro (que, de resto, é um salafrário, e que, entre outras coisas, não se furta de se oferecer como substituto do marido quando este vai cumprir serviço militar) que não gosta de dançar, este lhe diz: “… faz parte de sua cultura. Nos Cárpatos há danças diferentes das que há no campo, e as do mar são diferentes das do Danúbio, e nas cidades se dança de um jeito diferente de como se dança no campo. A gente aprende a dançar  quando é pequeno, com os pais e os parentes. Nisso sua família foi negligente… você perdeu algo importante”. Ela replica: “… minha família era mais melancólica do que negligente; depois do campo de concentração, ninguém era muito alegre na minha casa”. E ele: “Acredite, sem campo de concentração eles também não seriam felizes”.

(resenha publicada em 13 de outubro de 2009,de forma ligeiramente condensada,  com o título “Nobel 2009 revela autora de talento”)

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (08.10.09)

“Também conheço os bondes pelo lado de dentro.Quem embarca a essa hora usa mangas curtas, carrega sua bolsa de couro gasta e  tem a pele arrepiada de frio nos braços. Cada um que entra é analisado com olhares lentos. Estamos entre nós, a classe operária. Gente melhor de via vai de carro até o trabalho. E, entre nós, comparamos: esse tem vida um pouco melhor; aquele, pior. Temos pouco tempo, logo chegam as fábricas, e os embarcados vão descendo. Sapatos lustrados ou poeirentos, saltos retos ou gastos, colarinho bem passado ou enrugado, unhas, pulseiras de relógio, fivelas de cinto, repartição de cabelo, tudo provoca inveja ou desdém. Nada pode se ocultar de olhares sonolentos, nem mesmo na multidão. A classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã…”

“Olhe para nós, diz Paul, e pare de falar em felicidade.”

“Há muito que dizer sobre a vida, mas essencialmente nada sobre a felicdade, porque assim que a gente abe a boca, ela some. Nem mesmo a felicidade perdida suporta ser falada. As coisas a queme habituei têm a ver com a passagem de um dia a outro, não com felicidade.”

       A Romênia nos deu o mito de Drácula, essa escuridão da não-vida sugando ao longo dos séculos a vida, essa sombra de imortalidade. Também nos deu o teatro do absurdo de Ionesco, essa paciente desconstrução do que é lógico, racional através do que o lógico e racional têm de ilógico e irracional. Pelo trechos que escolhi acima, de O COMPROMISSO (o título em alemão  é  Heute wär ich mich lieber nicht begegnet), cuja publicação original é de 1997, parece que estamos longe dessas paisagens desconstrutivas, o foco seria mais epidermicamente social, mais envolvido com a temática de classe, ainda mais porque estamos dentro do regime comunista (alguém ainda lembra do famigerado Ceausescu? quando eu era garoto, estava sempre no noticiário, como Idi Amin ou Franco era uma espécie de bicho-papão da política), ainda que insidiosamente  insinue-se o veneno da não-igualdade essencial entre os homens, mesmo os da mesma classe: “tudo provoca inveja ou desdém”, “a classe operária procura diferenças, não há igualdade pela manhã”…

      O relato em primeira pessoa é mobilizado pela informação que o inicia: “Eu fui convocada. Quinta-feira, dez em ponto.” Esse estado de convocação situa todos os elementos da narrativa, é o seu ponto de fuga: aquele momento em que a narradora é interrogada, aquela insistência de comprometê-la com o Serviço Secreto, que é o canto paralelo dos seus atos quotidianos.  No entanto, assim como a figura de Drácula e a des-razão instituída pelo absurdo no palco, o registro do quotidiano é contaminado pela presença do sonho. Não a fantasia e os devaneios de uma Emma Bovary, como elemento compensatório de uma vida insuficiente. Mas o sonho em sua linguagem cifrada, inquietante, quase monstruosa, porque por mais interpretável que seja, deve ser lido em seus próprios termos: “Quando me deitei no sofá, meu primeiro marido botou a mala sobre a ponte do rio, agarrou meu pescoço e deu risadas estentóreas. Depois olhou a água e assobiou a canção em que o amor se quebra e a água do rio fica preta como tinta. Não parecia tinta, eu vi, e dentro da água vi o rosto dele, de cabeça para baixo e me olhando do fundo de cascalho. Então um cavalo branco comia abricós debaixo de árvores densas. A cada abricó, erguia a cabeça e cuspia a semente como uma pessoa. E quando me deitei na cama sozinha, alguém me pegou por trás, pelos ombros, e disse: Não olhe para trás, eu não estou aqui. Não virei a cabeça, espiei só pelos cantos dos olhos. Eram os dedos de Lili que me seguravam, sua voz era a voz de um homem, portanto não era ela… Eu vi os dedos, eram os dela, só que outra pessoa os estava usando. E essa pessoa eu não vi.  E no sonho seguinte meu avô podava um arbusto de hortênsias coberto de neve e me chamava para junto de si. Venha cá, eu tenho um cordeirinho. A neve caía sobre a calça dele e a tesoura cortava flores manchadas de marrom por conta do gelo. Eu disse: Mas isso não é um cordeirinho. Tampouco é uma pessoa, ele disse. Os dedos dele estavam rígidos e só lentamente conseguiam abrir e fechar a tesoura.  Eu não sabia direito se o que rangia era a tesoura ou a mão dele. Joguei a tesoura na neve. Ela afundou e não se via onde tinha caído. Ele procurou por todo o pátio, o nariz bem perto da neve.  Quando chegou ao portão do jardim, pisei nas mãos dele para que ele olhasse para cima e não saísse pelo portão, para procurar por toda a rua branca. Ele disse: Pare co m isso, o cordeirinho congelou e a lã queimou de frio. Havia ainda uma hortênsia junto da cerca do jardim, toda pelada. Eu apontei para lá: O que aconteceu com ela. Essa é a pior de todas, ele disse, vai ter filhotes na primavera. Isso é impossível.”

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       Ao contrário da polonesa Wislawa Szymborska (Nobel de 1996) e da austríaca Elfriede Jelinek (Nobel de 2004),  e com a exceção das mulheres premiadas em língua inglesa dos últimos 18 anos (Nadine Gordimer, em 91; Toni Morrison, em 93; Doris Lessing, em 2007), a premiada deste ano, a romena que vive na Alemanha (na verdade, já na Romênia sua família pertencia à minoria de origem alemâ)  Herta Müller, 56 anos, tem um livro publicado no Brasil (traduzido por Lya Luft, editado em 2004 pela Globo). Sua premiação foi, para mim, como para quase todo mundo, uma surpresa, mas pelo menos, já que tenho o livro, posso dar uma idéia mínima do seu universo, se um romance apenas permitir tal coisa.

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“Ando pela cidade sem destino. Quando ia à fábrica, não via sentido nisso. Difícil de acreditar, mas era mais fácil esconder a falta de sentido naquela época. Quando, como ontem, me sento no café numa das mesinhas na rua e peço sorvete, no instante seguinte quero um pedaço de bolo. Na verdade, eu só queria mesmo era ficar sentada, ou nem isso, queria apenas ficar um tempinho sem caminhar… Era mais fácil lidar com a falta de sentido do que com a falta de objetivo, então em vez de mentiras eu agora invento objetivos na cidade. Sigo mulheres da minha idade. Passo horas em lojas de roupa experimentando vestidos que lhes agradam. Ontem mesmo vesti um vestido listrado propositadamente com a frente para trás, depois fiquei repuxando, botei as mãos feito gola diante do decote, deixei os dedos parecerem um laço. Comecei a gostar do vestido. Com isso eu não contava, essa sensação de que me afasto de mim mesma. O vestido dava a impressão de que era preciso despedir-me rapidamente dele. Então minha boca ficou amarga, não me ocorria nada que pudesse dizer  no breve tempo que eu ainda tinha… Não quero que alguém balance a cabeça do meu lado porque estou misturando pensamento e fala. Ser ouvida por gente estranha é ainda mais vergonhoso do que ser ignorada ou empurrada…”

    O incidente que motiva a situação de “convocada” da narradora de O COMPROMISSO (uma situação que parece tanto ontológica quanto política, uma vez que a atmosfera do relato transmite uma excruciante claustrofobia existencial, o que nos faz indagar se num regime menos fechado e monolítico as pessoas seriam mais felizes ?) é que ela, quando operária, ela fez o seguinte: “… eu decidira me casar no lado ocidental e em cada um dos dez bolsinhos traseiros [de ternos que iam ser exportados para a Itália] enfiei um bilhetinho. Case comigo, ti aspetto, assinado com meu nome e meu endereço. O primeiro italiano que respondesse seria aceito. Meus bilhetes foram julgados prostituição em local de trabalho… Como eu não era membro do partido, e aquele era meu primeiro erro, decidiram me dar uma oportunidade de me corrigir…” Na verdade, há uma intriga entre ela e um outro funcionário da fábrica, Nelu, que a quer levar para cama e, rejeitado, por despeito procura prejudicá-la (depois ela será demitida).

      É preciso dizer que a espinha dorsal do relato, que permite que o passado venha à tona é um percurso de bonde que ela toma para chegar a tempo à sua convocação: nós ficamos sabendo do seu primeiro casamento (cujo final é melodramático, o marido tenta matá-la por não conseguir bater nela), da sua amiga Lili (que tem caso com homens mais velhos, começando pelo padrasto, e é fuzilada ao tentar escapar pela fronteira), da família (o pai, que transava com uma vendedora da idade da filha no pátio onde estacionava o ônibus que dirigia, depois ele se torna um dos fantasmas entrevistos pela narradora nas frinchas do seu dia a dia; a apagada mãe, que diz à filha que ela só nasceu porque tinha perdido o primeiro filho; o avô), do alcoolismo do segundo marido, Paul, com o qual ela compartilha ambiguamente sua condição de “convocada”.

O SENHOR VAI ENTENDER: Eurídice desmistifica Orfeu

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O SENHOR VAI ENTENDER (Lei dunque capità,  2006) é uma pequena (são  55 páginas na edição da Companhia das Letras, com tradução de Maurício Santana Dias) narração em primeira pessoa na qual Claudio Magris faz uma alegoria irônica baseada no mito de Orfeu e Eurídice.

      É Eurídice quem narra. Seu interlocutor é o Senhor Presidente, ao que parece o administrador de uma clínica na qual ela está recolhida devido ao “morbo”  que a infectou. Começa assim: “Não, não fui embora, Senhor Presidente, como vê, estou aqui…”

       Seu Orfeu (um poeta renomado, assediado pelas mulheres, mas no fundo frágil e dependente, auto-centrado e narcisista) tenta resgatá-la dali (“resolveu enfrentar o desafio de vir até aqui embaixo e não capitulou, como os outros, diante dos severes regulamentos da Casa de Repouso, que proíbe aos hóspedes… receber visitas e pôr em perigo nossa paz e tranquilidade…”), mas ao que parece ela se recusa a acompanhá-lo, preferindo permanecer no “inferno”. Mesmo porque ele parece ter um objeto muito mais egoístico que altruístico ou amoroso: “Não, ele não viera para me salvar, mas para ser salvo. Como posso cantar minhas canções em terra estrangeira?, me dizia. Eu era a sua terra perdida, a linfa de sua floração, de sua vida. Ele veio para retomar a sua terra, da qual fora exilado”.

      Ao narrar o insucesso de Orfeu, o que essa Eurídice de Magris faz na verdade é desconstruir o relacionamento, desmistificar o poeta (“Se o mimaram com todos aqueles louros e prêmios literários, é mérito meu, que limpei suas páginas de tanta gordura e de tanta  papa sentimental…”). Musa e ao mesmo tempo dona-de-casa, ela nos oferece um retrato impiedoso do grande artista ocidental tipicamente narcísico, embora seu discurso também seja auto-glorificador até na martirização (“Eu tinha orgulho e queria que todos o admirassem e não me importava que não soubessem que o mérito era meu, que o fazia andar na linha”). Enquanto se dá essa desconstrução impiedosa, ficamos atentos às pequenas pinceladas que delineiam uma kafkiana instituição que se confunde com o mundo, mas um mundo obscurecido, crepuscular, onde mal se enxerga o contorno das coisas e das pessoas, em que tudo é atenuado, abafado, distante e ignoto (“Desde que estou aqui, nesta grande Casa–nem sequer a conheço por inteiro; inteiro? não conheço nem uma pequena parte…”). É quase um A Montanha Mágica em ponto pequeno.

       É curioso ler O SENHOR VAI ENTENDER e perceber nesse texto límpido, que me lembrou um pouco uma certa parcela da produção de Marguerite Yourcenar, algo imemorial e remoto, até nesse reaproveitamento do mítico e na alegorização das relações humanas e do espaço, um  movimento totalmente contrário ao que norteia os projetos de Danúbio & Microcosmos, totalmente ancorados num espaço específico que se abre caleidoscopicamente no tempo, movimentando-se por muitas épocas, mas sempre atrelada a uma lógica local, específica, muito geográfica.

“Lá fora, senhor Presidente, há uma agonia por saber; até quem finge desinteressar-se daria nem sei o que para saber. Ele, então, se angustia mais que todos, porque é um poeta e a poesia, diz, deve descobrir o segredo da vida, arrancar o véu (…) Talvez, pensei, ele tivesse vindo me buscar sobretudo –ou apenas– por isso, para saber, para interrogar-me, para que eu lhe contasse o que está atrás destas portas (…) O senhor já entendeu, Senhor Presidente. Como dizer a ele que aqui dentro, afora a luz tão mais tênue, é como lá fora? Que estamos atrás do espelho, mas que esse reverso é também um espelho igual ao outro? Aqui também os objetos mentem, se dissimulam e mudam de cor como medusas (…) Estamos do outro lado do espelho, que também é um espelho, e vemos somente um pálido vulto, sem estarmos certos de quem seja (…) Dizer-lhe que eu, mesmo estando aqui dentro não sei mais do que ele? Seria um tremendo choque para o meu vate. Imaginava suas lamúrias, um homem acabado, um poeta a quem roubaram seu tema (…) pior do que tudo: que papelão ter vindo até aqui dentro, aqui embaixo, para depois descobrir que não valia a pena, que atrás da porta não há nada de novo.

       Já o imaginava arrasado, perdido… aborrecidíssimo comigo, que lhe estraguei toda a festa –e depois os dias e as noites juntos, eu ao seu lado e ele me olhando atravessado (…) De repente me senti cansada, abatida; recomeçar, cozinhar, lavar, fazer amor… se desentender como sempre, dormir, acordar, se vestir…

        Não; impossível, eu não suportaria (…) mas sobretudo a idéia de ter que calar, mudar de assunto quando ele perguntasse, quando quisesse saber (…)

        Eis então o porquê, Senhor Presidente…”

OUTRO MEIO SÉCULO GLORIOSO (Philip Roth e ADEUS, COLUMBUS)

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       Além de Vargas Llosa (nossa LEITURA DA SEMANA), outro romancista notável (76 anos) completa meio século de carreira em 2009, e sua estréia também foi com um atípico livro de contos, o qual, aliás, tornou-se paradigmático no tratamento crítico dos costumes judaicos e causou um furor que se acirraria no final dos anos 60, com o afrontoso  O Complexo de Portnoy (1969), que está para sua obra como Hamlet para a de Shakespeare (e o mais tardio e esplêndido O Teatro de Sabbath, de 1995, é o seu Rei Lear, calcado numa sexualidade politicamente incorreta e numa retórica majestosa). O livro de estréia de Llosa, Os chefes, certamente não teve o mesmo impacto, e é um dos seus trabalhos menos citados.

       A coletânea de Roth (contendo a novela-título e cinco contos) foi publicada no Brasil diretamente na Companhia de Bolso (não há edição anterior), traduzida pelo ótimo Paulo Henriques Britto.

   adeus, columbus

        ”Adeus, Columbus” é uma espécie de Trabalhos de Amor Perdidos. Tornou-se um clássico, muito imitado (e que até hoje vemos na ficção e no cinema norte-americanos; aqui no Brasil, nós tivemos algo similar em O encontro marcado , de Fernando Sabino), ao narrar um verão em que o jovem protagonista parece ter descoberto o amor, num rito de passagem entre a disponibilidade pós-adolescente e os compromissos irrevogáveis que vão aparecendo. Para mim, entretanto, os que roubam a cena são os coadjuvantes: a tia do rapaz, o pai da garota. Personagens que se tornaram emblemáticos da narrativa de costumes judaicos, para o bem e para o mal.

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     No entanto, os pontos altos de ADEUS, COLUMBUS são três contos absolutamente extraordinários e que eclipsam  os outros textos:  dois contos em que Roth satiriza e ajusta contas com aspectos do judaísmo, “O defensor da fé” (o meu favorito pessoal) e “”Eli, o fanático”, e um maravilhosa história, um pouco na linha da novela-título porque o tempo lhe deu ares de comédia de costumes, “Epstein”.

     “O defensor da fé” apresenta um narrador (e a narração em primeira pessoa é o reino de Roth), um oficial condecorado, que vai trabalhar com recrutas na etapa derradeira  da segunda grande guerra (“Em maio de 1946, poucas semanas após o fim do conflito na Europa, fui transferido para os EUA, onde fiquei até o final da guerra com ujma companhia de treinamento no Camp Crowder, Missouri“), quando os americanos iam lutar no Pacífico. 

      Nathan Marx  tem de se defrontar com a má fé com que um dos recrutas, também judeu, Sheldon Grossbart, se aproveita da sua fé para ter vantagens pessoais. Primeiramente, Sheldon exercita uma certa familiaridade com Marx, devido ao fato de ambos serem judeus. Aproveita para reclamar do dia da faxina geral, “logo na sexta“, alegando que contraria seus princípios religiosos (e de alguns outros recrutas, que sempre servem de esteio para suas reivindicações, e são dois patetas totalmente manipuláveis). “Só quero os meus direitos“. Quando apresenta o problema ao capitão, o sargento percebe que parece estar tomando partido, defendendo a posição do recruta.E fica furioso (interessante também é o discurso do capitão, altamente preconceituoso, mas querendo mostrar que tem a mente aberta, desde que um homem se comporte como tal, como o próprio Marx mostrou na guerra, e por isso é respeitado). Sheldon consegue o seu objetivo e durante o culto, Marx o ouve dizer aos companheiros, rindo: “Lavar o chão é pros góis”. Não será decerto a última reivindicação de Sheldon. A mais problemática é o pedido de licença de alguns dias (nenhum recruta tem permissão de licença durante o treinamento) para o Pessach, na casa de uma tia. Com seus resquícios de judaísmo, Marx lhe diz que a data já passou e no entanto é engabelado pela exasperante renitência do recruta em se deixar vencer e convencer por argumentos de autoridade, igualdade, etc (“Eu podia sair e ninguém ia ficar sabendo”. “Eu ficaria sabendo. Você também”. ”Só nós. Nós dois”.) Vencido (“Quem era Nathan Marx para ser tão sovina com a bondade?”), numa cena maravilhosa de comédia humana,  o sargento lhe concede a licença e também aos outros dois recrutas judeus: “Só quero que me deixem viver como judeu… Eui não quero criar caso nenhum. Essa é a primeira acusação que eles sempre fazem à gente” (paralelamente às investidas pessoais em Marx, Sheldon, utilizando o nome  do pai, escreve cartas a deputados, para conseguir tratamento privilegiado devido às suas “convicções religiosas”). 

      Quando eles retornam do Pessach fora da hora, trazem de presente ao “protetor” não a comida judaica feita nessas ocasiões, mas um rolinho primavera, porque a tia nem estava em casa e foram farrear num restaurante chinês (“Ele era totalmente estratégico. Mas eu –percebi-o com a força de uma condenação– também era!”). Apesar da bronca de Marx, a próxima campanha de Sheldon é não ser enviado ao Pacífico. Quando o sargento percebe que ele conseguiu seu objetivo, faz uma pequena maldade (embora, em se tratando da guerra, pode significar uma maldade letal): mexe os pauzinhos e é outra recruta que fica liberado do embarque: “O que é que o senhor tem contra mim?… Maldito o dia em que o conheci. .. O seu anti-semitismo não tem limites”

      Essa obra-prima termina com esse diálogo em que Sheldon vai pedir explicações e reparações a Marx.A última palavra do sargento ao recruta folgado é: “Você vai se sair bem, disse eu, à porta”. Mas as últimas palavras do relato são: “Nos alojamentos, pelas janelas iluminadas, vi os rapazes de camisetas sentados nos beliches… Com um nervosismo discreto, eles engraxavam sapatos, lustravam fivelas de cintos, dobravam cuecas, tentavam da melhor maneira possível  aceitar seu destino. Atrás de mim, Grossbart engolia em seco, aceitando o dele. E então, resistindo com toda a minha força de vontade ao impulso de me virar para trás e pedir perdão pelo meu ato de vingança, aceitei o meu.

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     É uma das melhores variações que eu já li do tipo de narrativa em que o narrador tem de se defrontar com um Outro exasperante, que o leva a limites insuspeitados de caráter e a tomar decisões turbulentas e sérias (baseadas em reações que não se aplicariam a um estranho que nos é indiferente), e se torna um fardo da sua existência, e cujo modelo é o  extraordinário Bartleby, de Hermann Melville. Como eu mesmo já me vi nessa situação, de “aturar” uma pessoa exasperante, e que despertava o pior em mim, e que por mais que eu quisesse distância se mantinha próxima, eu fiquei apaixonado pela maneira como o texto consegue captar todas as nuances de irritação, pena, automistificação, má consciência…

       Já “Eli, o fanático” pega o judaísmo pela outra ponta, satirizando a assimilação dos judeus à cultura americana dos subúrbios e da prosperidade tida como uma fortaleza cercada de inimigos por todos os lados (que é o aspecto mais interessante de A vila, aquele curioso filme de M. Night Shyamalan). Uma comunidade judaica “assimilada” fica horrorizada com uma escola que abriga refugiados da guerra e pura ortodoxia. Um dos membros se veste de maneira radical, como um ser vindo do fundo dos tempos. O advogado Eli serve de intermediário entre a comunidade assimilada e os intrusos “pitorescos”. Eli presenteia o rapaz com suas próprias e modernas roupas… e encontra na porta da sua casa o traje anatematizado. Enquanto sua mulher dá à luz no hospital, o traje o atrai como uma cobra ao passarinho… e ele o veste e anda pela cidade vestido assim.

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Em “Epstein”, o personagem central hospeda o sobrinho (está brigado há muitos anos com o pai dele, uma das várias frustrações da sua existência; para se medir a extensão desse sentimento de logro, basta dizer que o relato transcorre em 1957 e ele pensa: “em 1927, ele e a mulher eram pessoas bonitas”—o que houve nesses 30 anos?) e o flagra (sem ser visto) transando com a filha da vizinha no tapete da sala. Instigado pela cena,  inicia um caso com Ida Kauffman. Surpreendendo-o nu, a esposa  percebe que ele tem uma ferida no pênis e começa a gritar “Sífilis”. O escândalo doméstico que se segue é de uma graça inenarrável.

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