BLOG DO ALFREDO MONTE

29/09/2009

MICROCOSMOS, de Claudio Magris

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na internet: acesse www.estantevirtual.com.br/acervo/portodasletras

claudio-magris-a-parigi_thumbnailmicrocosmos

“Sentados no Café, estamos viajando, como num trem, num hotel ou pela rua, temos conosco bem poucas coisas,não é possível apor a coisar alguma qualquer vaidosa marca pessoal, não somos ninguém. Naquele anonimato familiar podemos nos dissimular,  livrar-nos do eu como de uma casca. O mundo é uma cavidade incerta, na qual a escrita penetra perplexa e obstinada…”

     Em outubro, sai o Nobel. No ano passado ganhou o francês  J.G.M. Le Clézio, mas o favorito nas bolsas de apostas era o italiano Claudio Magris,conhecido sobretudo pelo inclassificável Danúbio. Além deste e do pequeno relato O senhor vai entender, os quais têm edições recentes pela Companhia das Letras, o único outro livro de Magris publicado no Brasil até agora, salvo engano, é MICROCOSMOS (Microcosmi, 1997)que, há alguns anos, saiu pela Rocco (responsável pela  primeira edição brasileira de Danúbio, nos anos 90). É outra obra que não se pode classificar. Dividido em nove partes, é uma tessitura textual em torno de Trieste, a exótica cidade natal de Magris, italiana  só em parte (o grande Italo Svevo também era de lá),e por certo tempo nem italiana foi. Hermann Bahr dizia se sentir bem ali porque “tinha a impressão de não estar em lugar algum”.

     Há um curioso vezo na melhor literatura italiana das últimas décadas: os escritores-ensaístas, aqueles que escrevem coisas lindas,mas que a princípio poderiam ser considerados escritores teóricos ou acadêmicos (no sentido universitário) e que em aparêcia só pertenceriam a um setor secundário da literatura: Carlo Ginzburg (O queijo e os vermes  é um dos livro fundamental e temos, também, entre outros, Mitos, emblemas, sinais), Pietro Citati (autor de fascinantes biografias de Proust e Goethe, biografias mesmo, como não conheço outras, não acúmulo de fatos e informações, porque totalmente calcadas nas obras deles), Roberto Calasso (que pode escrever Ka, fantasia ficcional em torno da mitologia indiana, e K., análise brilhante da obra de Kafka). E,é claro, o grande, o maravilhoso Umberto Eco (que, para mim, entre eles, é quem deveria levar o Nobel, ainda que todos mereçam). O que são eles? Ensaístas apaixonados por literatura e que fazem exercícios literários? Escritores da gema, porém forjados na pós-modernidade onde tudo se embaralha? Classifique-se-os como se quiser, mas eles em princípio são cinco dos maiores autores contemporâneos. O Nobel deixou boa parte da grande ficção italiana morrer sem premiá-la (Svevo, Carlo Emilio Gadda, Dino Buzzati, Alberto Moravia, Leonardo Sciascia,Italo Calvino, Elsa Morante, Cesare Pavese, Primo Levi), a não ser pelo caso de Grazia Deledda e sobretudo de Pirandello. Premiou mais a grande poesia italiana (Carducci, Salvatore Quasímodo, Eugenio Montale). O último premiado foi, na minha opinião, discutível: em 97 ganhou o teatrólogo Dario Fo. Na ficção propriamente dita, sobrou Aldo Busi (Seminário sobre a juventude & Vida padrão de um vendedor provisório de collant, ambos publicados pela Rocco).

Trieste

“O San Marcos é um café de verdade, periferia da História marcada pela fidelidade conservadora e pelo pluralismo libral de seus habitués. Pseudocafés são aqueles em que acampa uma única tribo, pouco importa se de senhoras de bem, de rapazes ambiciosos, de grupos alternativos ou de intelectuais up to date. Toda endogamia é asfixiante: até os colégios, os campi universitário, os clubes exclusivos, as classes dirigentes, as reuniões políticas e os simpósios culturais são a negação da vida, que é feito um porto de mar, passa de tudo.”

TriesteCanal

“O Café  é uma academia platônica… Nessa academia não se ensina nada, mas aprendem-se e apreendem-se a sociabilidade e o desencanto. Pode-se papear, contar casos, mas não é possível pregar, fazer comícios, lecional. Cada qual, à sua mesa, está próximo e distante em relação a quem está ao seu lado. Ama o teu próximo como a ti mesmo, ou seja, suporta a mania que teu vizinho tem de roer as unhas, assim como ele suporta algum tique teu mais desagradável ainda. Entre essas mesas não é possível lançar modelos, criar alinhamentos, mobilizar prosélitos e imitadores, recrutar discípulos. Nesse lugar do desencanto, no qual já sabemos como o espetácul termina, mas nem por isso perdemos o gosto de assistir a ele ou a indulgência para com o lapso dos atores, não há lugar para falsos mestres, que seduzem com falsas promessas de redenção aqueles que tem uma ansiosa e vaga necessidade de fáciel e imediata redenção.

2007_11_trieste

DÖBLINENSES: Berlin Alexanderplatz

LIVRARIA PORTO DAS LETRAS na internet: acesse www.estantevirtual.com.br/acervo/portodasletras

doblin

berlin alexanderplatzcapa da rocco

DUAS VERSÕES DE UMA MESMA RESENHA

“E Franz começa a observar a cidade como um cão que perdeu o rastro. Que cidade é esta, que cidade gigantesca, e que vida, que vida já levou nesta cidade….”

    Apesar das qualidades da pioneira tradução de Lya Luft (lançada em 1995), a nova versão de Berlin Alexanderplatz, feita por Irene Aron, é realmente admirável, vibrante, colocando o leitor brasileiro atual no coração do projeto literário que norteou essa obra-prima de Alfred Döblin publicada em 1929: “escrevei como sempre, sem plano, às cegas, sem diretrizes, construí uma fabula, a linha era: o destino, a movimentação de um homem até então fracassado. Podia confiar na linguagem; a linguagem falada de Berlin, podia criar a partir dela… Dizem que imitei o irlandês Joyce. Não tenho necessidade de imitar quem quer que seja. A linguagem viva que me rodeia é suficiente para mim… O simples operário dos transportes, Franz Biberkopf, falava como berlinense e era um ser humano…”

    Biberkopf nos é apresentado como um indivíduo que pode ser repulsivo ou cativante, é questão de gosto: grandalhão (“forte como uma cobra naja”), glutão e beberrão, espancou até a morte a amante a quem cafetinava. Depois de cumprir sua pena, tenta levar uma vida “decente” na Berlim dos anos 20, assolada pela inflação e ainda amargando a derrota na Primeira Guerra, vendendo jornais. Sempre traído, envolve-se com os membros de uma quadrilha, e após um assalto (do qual participou incautamente) é atirado de um carro em movimento, perdendo um braço.  Nem por isso desiste. Acolhido por antigos amigos, arranja nova amante, Mieze, a qual é assassinada pelo mesmo homem (Reinhold) que fizera dele um aleijado.  Uma vida de lúmpem (aquela camada da sociedade abaixo dos proletários), misturando o naturalismo, na sua panorâmica urbana, e o expressionismo tipicamente alemã, na sua deformação dos dados da realidade, hipertrofiada ao ponto do pesadelo, de uma forma ironicamente “épica” (como será também o teatro poderoso do amigo de Döblin, Bertolt Brech). Veja-se a narração “épica” de uma refeição:

‘tem diante de si um prato fumegante de bife rolê, molho e batatas e está prestes a engolir tudo aos bocados… corta, amassa sua porção e empurra-a na boca, rápido, uma garfada, mais uma, mais uma, mais uma e, enquanto trabalha, para dentro, para fora, para dentro, para fora, enquanto corta, amassa e devora, fareja, saboreia e engole, seus olhos observam, seus olhos examinam a sobra sempre menor no prato, vigiando-o por todos os lados como dois cães raivosos… Pronto, agora terminou, agora se levanta, molenga e gordo, o sujeito limpou o prato, agora só falta pagar… Então o sujeito gordo sai, resfolega, afrouxa o cós da calça para dar mais lugar à barriga. Carrega no estômago um bom quilo e meio só de comida. Agora começa a função em sua barriga, o trabalho, agora a barriga tem o que fazer com tudo o que o sujeito mandou para dentro. Os intestinos se mexem e remexem, giram e rodam como minhocas, as glândulas fazem o que podem, expelem seu suco naquela coisa, esguicham como os bombeiros, de cima escorre a saliva, o sujeito engole, o líquido flui para os intestinos, ocorre a investida sobre os rins, como na semana de liquidações das lojas de departamentos… É assim que caminha o mundo”.

         Mas não é à toa que se fez o paralelo com o autor de Dublinenses e Ulisses (“Quando eu escrevia a primeira parte do livro não conhecia Joyce. Mais tarde, sua obra encantou-me… Uma mesma época pode dar ensejo a coisas parecidas e até mesmo iguais em lugares diferentes, independentemente umas das outras. Não é difícil de compreender”). Afinal, aqui encontramos os mais diversos e criativos recursos estilísticos, não apenas a oralidade, a linguagem das ruas, o desbocamento. Há a inclusão de noticiários, reclames, de montagens cinematográficas, formando um “mosaico” urbano fabuloso, no qual também abunda a paródia, inclusive a de muitos trechos bíblicos, caso do “Eclesiastes”: “Cada coisa qualquer coisa tem seu tempo e todo propósito sob o céu tem sua hora… Cada coisa tem seu tempo. Por isso percebo que não há nada melhor do que ser alegre…”

    O Biberkopf de Döblin pode ser tomado, com sua boçalidade, sua truculência, como  um ainda brando precursor de Moosbrugger, o sociopata que fascinava o protagonista do admirável Homem sem qualidades, de Robert Musil. Só que Biberkopf parece incapaz, na sua mediocridade, de chegar aos extremos, de liberar totalmente sua monstruosidade latente. Ainda chafurda num sentimentalismo tosco que o leva a ficar sob a ambígua influência de traiçoeiro Reinhold, responsável pela perda do seu braço e pela morte brutal de Miese, na intriga que domina a parte final do romance e que levará o anti-herói ao hospício, como acontecerá também com o protagonista de O tambor, a obra-prima profundamente döbleniana de Günter Grass.

      Será preciso a chegada do nazismo para liberar o que está reprimido na massa de lúmpens que povoam o livro, essas pessoas despolitizadas, subempregadas ou francamente excluídas, quando não imersas na criminalidade, que se tornarão uma terrível massa de manobra,aquelas multidões que compõem o espetáculo do fascismo.

(versão completa da resewnha publicada em 29 de setembro de 2009)

______________  

O ANTI-HERÓI DE UM AUTOR DEMOLIDOR

   Péssima e inadequada, a capa escolhida para a tradução de Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin, nos mostra um homem colocado diante de um céu carregado. Temos, então, o estereótipo do ser humano angustiado, como se fôssemos aqueles heróis gregos, prometéicos, lutando contra a fatalidade.

    Nada disso tem a ver com Franz Biberkopf, o anti-herói do livro de Döblin, publicado em 1929. Biberkopf nos é apresentado como um indivíduo quase repulsivo, grandalhão (“forte como uma jibóia”), glutão e beberrão, e que espancou até a morte a amante de quem era quase um cafetão (“pode acontecer com qualquer um dar uns tapas quando está de porre”). Ao sair da prisão, tenta levar uma vida “decente” vendendo jornais. Envolve-se num assalto, é atirado de um carro em movimento, perde um braço e acaba nos mostrando, apesar de “não aprender nada nem discernir nada”, como afirma o narrador, através de sua trajetória, a vida numa grande metrópole no final dos anos 20. Uma vida sem grandeza, valores (a não ser aqueles proclamados de forma sentimental, oca ou hipócrita), nada que nos inspire simpatia, transcorrendo em ambientes sórdidos (“lá pelas nove liberaram seus cotovelos, meteram charutos nas bocas gordurosas e começaram a soltar, com arrotos, o cálido vapor da comida”), entre gente de mentalidade mesquinha, e sempre com um pé na miséria.

    Na quarta parte do romance, em meio a uma panorâmica dos moradores das ruas em volta da Alexanderplatz, há um trecho revelador, no qual o narrador fala diretamente ao leitor: ‘Finalmente, ao lado, um oficial de padeiro com sua mulher, que trabalha numa tipografia e tem inflamação nos ovários. Desejaria saber o que esses dois têm na vida? Bem, primeiro um tem o outro, depois, no domingo passado, tiveram teatro e cinema, uma ou outra reunião da Associação, e visita aos pais dele. Mais nada?  Ora, não exagere, senhor. Ainda há o bom tempo, o mau tempo e assim por diante. E o que mais vocês têm?, você, quem quer que seja? Não se iludam.”

    De vez em quando faz bem à literatura de um país aparecer um autor demolidor, que sacuda o bom-gosto literário, que faça uso da linguagem das ruas, que atole o leitor no desagradável. É o caso de Döblin (e também do seu amigo Brecht, no teatro; ambos, herdeiros do expressionismo e do naturalismo, fazendo cruzamentos inesperados entre essas duas formas de apreender o real) na literatura alemã e, alguns anos depois, de Céline, na francesa.

    É possível que, num certo sentido, o autor de Berlim Alexanderplatz vá ainda mais longe do que o raivoso autor de Viagem ao fim da noite & Morte a crédito porque apresenta maiores e mais criativos recursos estilísticos, não apenas a oralidade, o desbocamento e as pequenas histórias paralelas. Há a inclusão de noticiários, reclames, de pastiches e paródias, de montagens cinematográficas.

    O Biberkopf de Döblin parece, com sua boçalidade, sua truculência, e um certo fundo sociopata, um precursor de Moosbrugger, o assassino que fascinava o protagonista do admirável Homem sem qualidades, de Robert Musil. Só que Biberkopf parece incapaz, na sua mediocridade, de chegar aos extremos, de liberar totalmente sua monstruosidade latente. Ainda chafurda num sentimentalismo tosco que o leva a ficar à mercê do traiçoeiro Reinhold, responsável pela perda do seu braço e que assassinará Miese, uma das amantes de Biberkopf, na intriga que domina a parte final do romance e que levará o anti-herói ao hospício, como acontecerá também com o protagonista de O tambor, a obra-prima profundamente döbleniana de Günter Grass.

    Será preciso a chegada do nazismo para liberar o que está reprimido na massa de lúmpens que compõem Berlim Alexanderplatz, essas pessoas despolitizadas, subempregadas ou francamente excluídas, quando não imersas na criminalidade, que se tornarão uma terrível massa de manobra. Assim como no Brasil de hoje. Quem tiver olhos para ver que fique atento para o que um neofascista pode conseguir com todos os excluídos que estão literalmente nos sitiando. Olhos para ver e ler a terrível advertência que nos chega bem atrasada, mas em hora oportuna.

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em 27 de fevereiro de 1996)

Berlim Alexanderplatz (A História de Franz Biberkopf), de Alfred Döblin. Tradução de Lya Luft. Rocco. 432 págs.

outro doblin

­­­­___________________________

ANOTAÇÕES DA  RELEITURA DE 2009

INTRODUÇÃO

“O ex-presidiário de casaco amarelo de verão, o sujeito grandalhão, andou para trás do sofá, pegou seu chapéu, espanou-o, colocou-o sobre a mesa, tirou seu casaco, tudo em silêncio, desabatoou o coleto: Aqui, olhem, minha calça. Eu era gordo assim e ela ficou larga desse jeito, cabem dois punhos grandes juntos, de tanto passar fome. Foi-se tudo. A pança toda para o diabo. É assim que vem a ruína, porque nem sempre a gente é como deveria ser. NÃO ACREDITO QUE OS OUTROS SEJAM MUITO MELHORES. Nada, não acredito não. Querem é enlouquecer a gente.

      O castanho cochichou para o ruivo: Pronto, aí está. Está o quê? Ora, um presidiário. E daí? O egresso: Aí dizem: a gente está livre e vai preso de novo  no meio da sujeira e ainda a mesma sujeira de antes. Não há razão alguma para rir. Voltou a abotoar o colete: Estão vendo o que fizeram. .. É, será que não somos nada só porque fizemos algo errado? Todos podem se erguer de novo, todos que cumpriram pena e podem ter feito o que for (Arrepender-se o quê! É preciso desafogar-se! Sair batendo! Depois tudo fica para trás, depois tudo pasa, o medo e o resto)… Meu ome é Biberkopf, Franz. Bonito de sua parte ter me acolhido.Meu passarinho já cantou no pátio. Ora, viva, tudo vai passar. Os dois judeus lhe apertaram a mão, sorriam. O ruivo reteve sua mão por um tempo, radiante: Ora,o cavalheiro está mesmo melhor ? E será um prazer, se o cavalheiro tiver tempo, passe por aqui. Obrigado, farei isso, tempo é fácil de achar, só dinheiro é que não…. Acompanharamo homem até a porta… O ex-presidiário, caminhando ereto, sacudiu a cabeça, balançou os braços no ar (a gente precisa de ar, ar, muito ar, e mais nada)~: Não se preocupem. Podem me deixar seguir adiante, fiquem tranquilos. O senhor falou sobre os pés e os olhos. Esses ainda tenho. Ainda não foram arrancados por ninguém… E lá se foi caminhando sobre o pátio estreito, atulhado, os dois ficaram olhando para ele do alto da escada. Tinha o chapéu-coco enterrado sobre o rosto, resmungou quando meteu o pé numa poça de óleo: Droga de veneno. É hora dum conhaque. Quem se aproximar vai levar um soco na cara. Vamos ver onde se consegue um conhaque…”

alfred doblin

   Como saiu há pouco tempo a versão em DVD do magnífico filme seriado que Rainer Werner Fassbinder extraiu de BERLIN ALEXANDERPLATZ, é bem-vinda uma nova tradução da obra-prima de Alfred Döblin (1878-1957), publicada originalmente em 1929, e que pertence àquele grupo de romances do alto modernismo (dos anos 20 e 30) que redefiniram a ficção (é o caso de Ulisses, de Joyce, 1922; Mrs. Dalloway, de 1925, e os demais romances de Virginia Woolf dessa fase; O processo & O  Castelo, de Kafka, publicados postumamente nos anos 20, assim como a publicação dos últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust; O som e a fúria, de Faulkner, é de 1929; temos também A montanha mágica, de Mann, em 1924; O lobo da estepe, de Hesse, é de 1927; fora esses, o autor maior do Modernismo que mais tem a ver com Döblin, o francês Louis-Ferdinand Céline, publicaria suas duas obras-primas, Viagem ao Fim da NoiteMorte a crédito, respectivamente em 1932 e 1934… A diferença entre os dois é que, enquanto Döblin se mantém ironicamente afastado do seu “herói”, Franz Biberkopf, Céline, de uma forma visceral e ainda praticamente insuperada, quase que anula a distância entre ele, autor, e seu narrador em primeira pessoa, inaugurando uma elaboradíssima forma de “função expressiva ou emotiva” da linguagem).

    Na história do pé-rapado Franz Biberkopf, a partir do momento em que sai do presídio (por homicídio culposo resultante de agressão física) e adentra por uma fervilhante Berlim, Döblin juntou o romance naturalista, esmiuçados dos avessos burgueses, de Zola; a linguagem do expressionismo, uma das grandes contribuições da arte alemã do início do século XX, e que foi um dos fundamentos do que se fez de melhor no cinema mudo, além de influir em toda a estética posterior, por exemplo, nos filmes noir e na obra de Orson Welles, até no tardio A marca da maldade; a poesia da paisagem urbana, que Walter Benjamin identificou como uma das mais duradouras contribuições de Baudelaire ao imaginário ocidental, e que foi incorporada nos maiores romances modernistas, que tem a cidade-labirinto como personagem tão importante quanto o herói da trama; o romance-mosaico, exercitado pelo norte-americano John dos Passos (1919; Manhattan Transfer), que atropela a voz do narrador “culto” com a linguagem das ruas, os anúncios publicitários, o cinema e a linguagem das manchetes de jornal; além de um exercício de solilóquio narrativo, em que uma voz entre parênteses faz o papel de “sombra” de Franz Biberkopf, desfazendo e corroedo seu projeto de levar uma vida decente e acomodada, a partir do momento em que recupera a liberdade.

     O livro também recupera um recurso tanto do folhetim quanto do romance picaresco ao apresentar em cada uma de suas nove partes um resumo das peripécias de Biberkopf  “em liberdade”. E se vale da técnica altamente livre e flexível desse gênero, fazendo os encontros de Biberkopf com outros personagens prescindirem de uma verossimilhança ou causalidade estritas (como os dois judeus do trecho citado).

 Temos, também, um romance arrepiante na sua maneira profética de mostrar que razões e que mentalidade levaram o zé-povinho alemão dos tempos de derrota da 2a. guerra e da inflação monstruosa a aderir ao ideário nacional-socialista e permitir a ascensão de Hitler, como um “salvador da pátria” (o adjetivo “arrepiante” vem das similaridades com certos aspectos da mentalidade brasileira).

     Enfim, um dos grandes romances do século XX. Eu já o li na versão anterior, de Lya Luft, publicada em 1995 pela Rocco. Me parece que essa versão nova, de Irene Aron, é mais arrojada, menos formal… Vamos ver…

ANÁLISE DE UMA DAS PARTES DO LIVRO

“Caminha de braço dado com Lina, olha em volta da rua escura. Bem que poderiam acender mais lâmpadas. O que as pessoas querem da gente, primeiro as bichas com quem não temos nada a ver, agora os vermelhos. Que me importa tudo isso, que limpem a própria porcaria. Deviam deixar a gente ficar sentado onde está;nem deixam a gente beber uma cerveja sossegado. Queria mesmo é voltar e deixar em pedaços o boteco de Henschke. De novo, os olhos de Franz lampejam e pulsa, incham-lhe a testa e o nariz.(…) Franz matou a noiva a pancadas, Ida,o sobrenome dela não vem ao caso, na flor de sua juventude. Isso aconteceu numa discussão entre Franz e Ida, na casa da irmã dela, Minna, durante a qual, em princípio, os seguintes órgãos da mulher sofreram lesões leves: a pele sob o nariz, na ponta e no meio, o osso subjacente com a cartilagem, o que, porém, só foi percebido no hospital, e, mais tarde, teve papel importante nos autos do processo; além disso os ombros direito e esquerdo sofreram leves contusões, com sangramento. Mas depois o palavreado se torna mais vívido… Na mão, nada além de um pequeno batedor de creme chantilly… E foi esse batedor de creme com a espiral de arame que ele, num imulso duplo, arremessou contra o tórax de Ida… o tórax da delicada moça não estava adaptado ao contato com o batedor de creme (…) Franz, como um leão aos urros, teria matado a pancadas a pessoa lesada se a irmã não viesse aos saltos do  quarto ao lado. Diante dos clamores desta mulhere, ele saiu em retirada e à noite foi apanhado por uma patrulha da polícia perto da casa dele.”

      Para quem deseja ter uma boa idéia do que foi a alta ficção do Modernismo,  o que ela trouxe de novo à ficção urbana consagrada por Balzac & Dickens, eu sugiro a leitura da Segunda Parte de BERLIN ALEXANDERPLATZ. cujo resuminho folhetinesco é o seguinte: “Franz Biberkopf entra em Berlim/ sai à procura, é preciso ganhar dinheiro, sem dinheiro o homem não vive/ Sobre a feira de louças de Frankfurt/ Lina dá o recado aos boiolas/ O Hasenheide, Novo Mundo, se não é isto, é aquilo, não se deve tornar a vida mais difícil do que é/  Franz é um homem de envergadura, sabe o que deve a si mesmo/ Dimensões deste Franz Biberkopf. Ele pode competir com antigos heróis” (isso no índice,no intróto já temos as inquietantes afirmações seguintes: “Mas não é um homem qualquer este Franz Biberkopf. Não o chamei aqui para um jogo e sim para viver uma dura, verdadeira e esclarecedora existência… Vocês verão como se manteve decente durante semanas. Mas isso de certa maneira é apenas um adiamento”).

     Essa Segunda Parte começa no Paraíso com Adão e Eva,  depois vemos graficamente caracterizados os diversos setores econômicos e de serviços de uma cidade como Berlim. Na página seguinte, citam-se  decisões legislativas e judiciárias. Depois se fala da meteorologia (antecipando o uso que Robert Musil fará desse recurso em O homem sem qualidades), da tarifa dos bondes elétricos, de logradouros segundo a lista telefônica de 1928,  dos trens que chegam do Mar Báltico e dos turistas (“Onde as pessoas arranjam tanto dinheiro para viajar”); depois, temos vinhetas sobre alguns passageiros que embarcam numa determinada parada na linha 4 do elétrico, e  um deles é um rapazola de quatorze anos, cujo futuro inteiro nos é narrado em  poucas linhas (de uma forma sensacional); depois, temos o diálogo entre um ex-professor viciado em morfina e um rapaz que enfrentou o chefe “em bom alemão” e talvez tenha perdido o emprego (e agora está no boteco com medo de enfrentar a mulher): “Nunca se deve falar em bom alemão em certas situações. Se o senhor tivesse falado francês com o homem, ele não teria compreendido e o senhor ainda estaria dentro”.

       Ainda vemos uma mocinha que se encontra com um senhor mais velho, com os qual tem relações das mais suspeitas. Todo esse caleidoscópico movimento ocupa umas dez páginas e aí então Biberkopf  reaparece na narrativa, tentando se tornar vendedor de qualquer coisa, sendo aconselhado por seu amigo Gottlieb e sempre com o seu mote, a decência, a necessidade de uma existência estável.  Sem nem ao menos ter uma colocação garantida no mercado, ele se encanta com a oratória de um sujeito que faz uma diatribe contra a feira de Frankfurt (uma passagem que me lembrou aquele momento antológico dos comícios agrícolas de Madame Bovary, onde há uma retórica vazia e ao fundo o que realmente interessa na narrativa, no caso, a disposição simplória e franca, sem má fé, do perdedor nato) e se inscreve como membro da associação comercial, embora nem tenha dinheiro para pagar a inscrição.

      Biberkopf arranjou uma namorada, a polonesa Lina. Vemos os dois num passeio, num quiosque onde se vende jornais, onde de passagem ouvimos o seguinte comentário de algum cidadão: “Veja como as pessoas estão embrutecidas: um cara desses ataca uma moça no bonde e quase  a mata de tanto bater por causa de 50 marcos” e a réplica de um outro: “Por esse dinheiro faço a mesma coisa… É um monte de dinheiro para gente como nós, um montão, meu senhor. Pois então, quando souber  o que são 50 marcos, continuamos a nossa conversa”.

       Franz vira homem-propaganda na frente de uma loja anunciando presilhas de gravatas (o seu discurso, ele que é apaixonado pela oratória dos outros, é uma delícia). “Mas isto não basta a Franz Biberkopf”. E ele  conversa com um vendedor de panfletos com histórias eróticas, de “educação sexual”, algumas delas fazendo a apologia do homossexualismo tanto masculino quanto feminino.Para se ter uma idéia do teor desses panfletos: “Um careca sai para passear uma noite e encontra…um jovem bonito que logo lhe dá o braço… e então o careca sente a vontade… de, naquele instante, ser muito meigo com o rapaz. É casado,já percebera algo várias vezes, mas tem de ser agora… Você é meu raio de sol, meu torrão de ouro… Venha, vamos a um hotelzinho. Você me presenteia com cinco marcos ou dez, estou totalmente liso. O que você quiser, meu sol…

   Mas no quarto há orifícios na porta. O senhorio vê algo e chama a patroa, que também vê algo. E mais tarde dizem que não admitem tal coisa em seu hotel, viram aquilo, e ele não pode negar… e ele deveria envergonhar-se de seduzir rapazes, iriam denunciá-lo. O criado e uma arrumadeira aparecem também e sorriem ironicamente…

 … E certo dia… sua esposa tem de assinar uma intimação por ele.Ela abre o envelope e lá está escrito tudo sobre os orifícios e a carteira e o rapaz simpático.E quando o careca retorna… todos estão chorando por causa dele, a patroa, as duas filhas crescidas. Ele lê a intimação, isso não pode ser verdade,é a burocracia atrasada inventada por Carlos Magno, e que chegou até ele agora… SenhorJuiz, o que foi que eu fiz?… Fui para um quarto e lá me fechei. Que culpa tenho eu se lá puseram furos. E não aconteceu nada de condenável. O jovem confirma. Portanto, o que fiz eu? O careca de casaco de pele chora: Será que roubei? Cometi algum assalto? Apenas assaltei o coração de uma pessoa querida.Disse a ele: meu raio de sol. E isso ele era.

É absolvido. Em casa, era um choro só.”

 Apesar de algumas diferenças de idéias com o vendedor (um diálogo particularmente delicioso), ele simpatiza com a causa e é convidado para um “meeting”  onde se depara com vários casais de mulheres e de boiolas (o termo utilizado com grande felicidade pela tradutora Irene Aron): “Por uma hora, Franz não disse uma palavra, por trás de seu chapéu, soltava risadinhas. Após as dez horas, não pôde mais se conter, teve de sair, as pessoas, a coisa toda, eram engraçadas demais, vários homossexuais num monte só, e ele no meio deles, saiu às pressas e gargalhou até chegar à Alexanderplatz”.

    Quem não gosta nada da históra é Lina, que joga todo o material gay em cima do vendedor num acesso de fúria, para admiração e embasbacamento do seu amante: “No botequim, na ponta dos pés, ela se apoia nele, junto a região do corpo que ela supunha ser coração, mas que, sob a camisa de lã, era na verdade o seu esterno e o lóbulo superior do pulmão esquerdo”.

E aí então vem uma narração magnífica de alguns boêmios.E encontramos depois Franz vendendo jornais nacional-socialistas: “Não tem nada contra os judeus, mas é a favor da ordem. Pois é preciso haver ordem no paraíso, isto qualquer um tem de reconhecer” e depois seu confronto com um grupo de comunistas num boteco, cena que nada fica a dever a James Joyce, principalmente pela alusãoirônica às “dimensões deste Franz Biberkopf.Ele pode competir com antigos heróis” (embora um dos rapazes que o provocam o chame de “suástica ambulante”),quando na verdade ele está tomado por um acesso de fúria homicida, berrando e prestes a uma ação desastrosa aos seus planos de decência, ordem, paz e harmonia, um escuro estado de horror que se apossa dele: “algo explodira dentro dele e começa de fato a borbulhar, soltando-lhe as rédeas, uma torrente de sangue perpassa seus olhos… Ele fervilha, cumpriu pena em Tegel, a vida é terrível, que vida é essa… Raiva, paralisia, isso é Franz Biberkopf”.

 

 

fassbinders-berlin-alexanderplatz

25/09/2009

LA BARCA DOS HOMENS

Calderon_de_la_Barca

Rei (espantado): Pois o Mundo o que fui tão cedo ignora?

Mundo: …volte a si, torne, saia tua pessoa

           nua outra vez da farsa desta vida.

Rei: Tu não me deste adornos tão amados?

       Como me tiras o que já me deste?

Mundo: Pois emprestados foram, mas não dados,

            durante o tempo que o papel fizeste…

Rei: Que tenho de lucrar em meu proveito

       de haver, no mundo, o rei representado?

                       (Calderón de La Barca, O Grande Teatro do Mundo)

 

    Na grande alegoria, escrita por volta de 1633, da qual foram tiradas as falas acima, o Autor chama o Mundo para mandar diversas personagens (Rei, Formosura, Discrição, Lavrador, Rico, Pobre, Criança, Lei) entrar e sair de cena. Quando o papel “acaba”, todos se igualam, para espanto do Rei. Assim, na metáfora do “grande teatro do mundo” o que se depreende é a chamada visão criatural ser humano, descrita por Auerbach, isto é, o rebaixamento da condição humana, onde todos se igualam pelo destino comum: a morte. É o velho tema do Eclesiastes: o caráter vão de todas as coisas.

a vida é sonho

    O leitor brasileiro pode conhecer outra volta do parafuso no tema (talvez superior do ponto de vista da realização artística) escrita cerca de dois ou três anos mais tarde: saiu pela Hedra a tradução de Renata Pallotini de A vida é sonho, a qual, nos seus três atos (ou jornadas), se chegou a ser conhecida por Freud, certamente fez as delícias do criador da psicanálise como demonstração perfeita, quase matemática em sua poesia (alternada com a prosa), do “retorno do reprimido”.

    Na primeira jornada, a moscovita Rosaura (acompanhada por Clarim, o alívio cômico, com sua visão chã e pícara dos acontecimentos) chega à Polônia disfarçada de homem (quer vingar sua honra) e conhece Segismundo, o qual vive numa masmorra desde o seu nascimento, vigiado por Clotaldo (que nomes deliciosos!). Duas inversões: uma, cara à tradição teatral, da moça disfarçada de homem; a outra, mais peculiar, a do moço guardado como uma donzela.

    Qual o crime de Segismundo?

Mas eu nasci, e compreendo

que o crime foi cometido

pois delito maior

do homem é ter nascido.

    Clotaldo, o verdadeiro pai de Rosaura, é obrigado a aprisioná-la e levá-la a Basílio, o Rei, que decidirá sua sorte, pois ninguém poderia saber da existência de Segismundo, a quem o Rei temia, mesmo sendo seu filho, pois lera nas estrelas que seu herdeiro lhe destruiria o reino; aprisionando-o, ele tenta suster os vaticínios celestes. Ao mesmo tempo, chega Astolfo, pretendente ao trono, fazendo a corte a Estrela, a outra herdeira (cuja mãe chamava Clorilene, irmã da “altaneira” Recisunda, mãe de Astolfo; e todos descendem de Eustórgio III). Acontece que foi Astolfo quem desonrou Rosaura…

     Pois bem, Basílio decide libertar o filho e poupa Rosaura (que, instruída por Clotaldo, se disfarça em dama de companhia de Estrela). Como o Rei teme as ações de Segismundo, ele urde um plano: toda a sua estadia na Corte terá um “ar de sonho” e caso a experiência não se mostre bem sucedida, o herdeiro do trono será reconduzido à sua masmorra, acreditando que sonhara tudo.

         A segunda jornada é talvez o ponto alto (altíssimo) de A vida é sonho. Clotaldo cumpre as determinações do Rei (“Deste modo poderemos verificar duas coisas: a primeira é a sua natureza, porque ele, acordado, pode fazer quanto pensa ou imagina; a segunda, é o consolo, pois ainda que agora seja obedecido e depois torne a sua prisão, poderá entender que sonhou, e isto lhe fará bem. De resto, Clotaldo, no mundo, todos os que vivem, sonham”) e Segismundo acorda príncipe após ter vivido como prisioneiro toda a vida. É um id que sempre esteve sob o jugo do superego (e nunca houve um ego formado, já que ele nunca viveu no mundo da experiência) e agora não há freios. Resultado: crueldade, desfaçatez, até um homicídio (um criado o admoesta e ele retruca: “Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”, mais tarde replica ao Rei: “Ainda que não te agrade/hei de prosseguir aqui/ Sei quem sou e o que já vi/ por mais que isso te enfade/…Se estive em prisão, primeiro/ morto de frio e de fome/ foi por não saber quem era/ mas como informado estou/ de quem sou, já que sou/misto de homem e de fera”), além da infame tentativa de estupro da já desonrada Rosaura, que acaba sendo defendida por Astolfo.

    Dessa forma, Segismundo é dominado e reconduzido ao cárcere. No seu solilóquio final é que está a passagem mais famosa da peça, justificando amplamente seu título; antes disso, ele se auto-diagnostica com precisão para seu guardião Clotaldo: “Eu era senhor de todos, e a todos pedia desforra”.

        Apesar da intensidade da 2ª jornada, a terceira mantém a qualidade e o brilho. Há uma revolta popular (o povo é visto como uma força negativa, é “desabrido e cego”) e parte do exército liberta Segismundo. Ele lidera então uma luta armada para derrubar seu pai do trono. Ao sair da prisão, Segismundo tem uma fala maravilhosa (prenúncio de sua mudança, ao final), dessa vez em prosa: “…já que a vida ´tão curta, sonhemos, alma, sonhemos outra vez, mas com a precaução de despertar deste engano na melhor altura, e de ver que ele acaba. Assim, consciente, será menor a desilusão… Atrevamo-nos a tudo, pois todo poder é emprestado e há de tornar ao seu legítimo dono.” Astolfo se une a Basílio, mas o exército de Segismundo os derrota (Clarim morre em combate: “De pouco vale tentar/da morte se defender/ sempre acaba por morrer/aquele que Deus mandar”).  Segismundo, adotando o princípio da realidade, e não apenas guiando-se pelo princípio do prazer, restabelece o equilíbrio (“Porque espero obter outras grandes vitórias, vou alcançar a mais custosa hoje: vencer-me a mim próprio”): reconcilia-se com o pai, casa Astolfo com Rosaura (e Clotaldo revela ser o pai dela) e ele pede a mão de Estrela. Tudo está bem quando acaba bem. E quando funciona tão bem num texto ágil e jovem de quase 400 anos.

(resenha publicada de forma mais condensada em 7 de junho de 2008)

_________________________________

Serviço: A vida é sonho (La  vida es sueño), de Calderón de La Barca (1600-1681). Tradução de Renata Palottini. Hedra. 94 págs.

GABRIELA: CINQÜENTONA E INTEIRONA

Jorge_Amado1

     Gabriela, Cravo e Canela chega aos cinqüenta anos reeditado pela Companhia das Letras. Situado praticamente no meio da produção ficcional de Jorge Amado, adquiriu status mítico e arquetípico, com seus personagens espalhados inclusive pelo imaginário popular, conhecidos por quem nunca sequer abriu um livro na vida, através das suas adaptações e imitações.

     Por isso, uma tentação muito forte numa releitura é a condescendência, uma vez que certos defeitos já eram gritantes até mesmo para uma visão adolescente (como era a minha ao me ocupar com o romance pela primeira vez, instigado pela adaptação para a tevê): o texto repetitivo, repisando as mesmas informações várias e várias vezes; as imagens fáceis e preguiçosas (por exemplo, a visão das solteironas de Ilhéus como “aves noturnas paradas ante o átrio da pequena igreja”). E mais ainda: a seqüência Gabriela-Dona Flor-Teresa Batista-Tieta sempre despertou em certa parcela da crítica mais reserva do que entusiasmo, este último destinado a outros títulos do nosso mais popular escritor, como Terras do Sem-fim ou Tenda dos Milagres. Jorge Amado acabou sendo um tipo de avô querido, mas embaraçoso.

cialetras_gabriela

    Uma revisão sem preconceitos de Gabriela, Cravo e Canela, porém, não deixa dúvidas: trata-se de um belíssimo e bem-realizado romance, principalmente na primeira parte, na superfície concentrada em dois dias da vida de Ilhéus, em 1925: no primeiro deles (que ocupa o grosso da narrativa nas primeiras 150 páginas), o sol ressurge após um preocupante período de chuvas intensas, que ameaçavam destruir a maior colheita de Cacau da história; a cozinheira de Nacib, dono do bar Vesúvio, o abandona; um dos coronéis mais destacados da cidade mata a tiros sua esposa e o amante dela; o navio que traz o exportador “forasteiro” Mundinho Falcão de volta à cidade onde ele está causando um rebuliço modernizador encalha na barra, e a retirante Gabriela, fugindo da miséria da seca, chega a Ilhéus.

    É simplesmente apaixonante e brilhante a maneira como Amado articula todos esses fios da intriga, e ao mesmo tempo nos transporta para o passado violento da região, a época “dos barulhos”, na qual os coronéis se impuseram, tomando a terra e se valendo da jagunçagem. E como no Brasil tudo é muito facilmente esquecido, após vinte anos, já tudo “assentado”, parece que “sempre foi assim”, tanto que certos costumes parecem leis morais e bíblicas: é o que se declara quando Jesuíno Mendonça assassina a mulher, Sinhazinha (detalhes da morta colocam em funcionamento toda uma fábrica de imagens eróticas e fetiches, que correm paralelos ao horror do acontecido) e invoca a lei de que honra se lava com sangue.

    Nessa primeira parte, o autor baiano vai além dos seus painéis anteriores da conquista da terra, como Terras do Sem-fim e São Jorge dos Ilhéus porque justapõe a normalidade do quotidiano ao épico histórico de uma forma mais abrangente e matizada. Todo o discurso sobre o “progresso” que se faz palavra corrente naquele ano de 1925 em Ilhéus, com seus entusiastas e opositores, mostra de forma cabal como essa noção vem sendo utilizada na mentalidade nacional: como moeda de mercado, como uma espécie de jagunçagem ideológica.

    E quanto à falta de polimento da prosa amadiana, as repetições excessivas do texto? Até isso tem seu efeito encantatório, sua eficácia particular: Jorge Amado é mais adepto do prosa barriga de chope do que do prosa tanquinho.

[resenha publicada em 23 de agosto d 2008)

_____________________________

amado e gabriela

Na seção passada, iniciando meu comentário sobre o cinqüentenário de Gabriela, Cravo e Canela enfatizei o virtuosismo da sua primeira parte, na qual os vários fios da trama eram lançados numa excepcionalmente bem urdida concentração temporal.

    Pois bem, cabe agora ressaltar que não há queda alguma de qualidade ou intensidade na 2ª. (e mais extensa) parte, que começa três meses depois e se estende por quase um ano. Sem ser tão espetacular do ponto de vista da técnica romanesca, é uma prova do quanto um contador de histórias inspirado sabe aproveitar todos os dados de um enredo, sem desperdiçar nenhum. Até personagens relativamente pequenos como Jerusa, neta do coronel-mor de Ilhéus, Ramiro Bastos, ou Aristóteles, o poderoso chefão de Itabuna, que rompe com os Bastos e adere ao “forasteiro” Mundinho Falcão, ou o sábio e saboroso João Fulgêncio, o único a compreender a essência de Gabriela, para além do cravo e da canela, ou ainda o surpreendente Amâncio Leal, braço-direito do velho líder, tornam-se em poucas pinceladas inesquecíveis e reais como gente que conhecêssemos. Felizmente, Gabriela não se contenta com caricaturas como as que a tevê consagrou como estereótipos absolutos da paisagem nordestina: beatas, quengas, jagunços, coronéis, todo mundo meio sestroso, que viraram um padrão de preguiça e atraso estéticos.

    Nesta releitura, proclamo Gabriela, Cravo e Canela como uma obra-prima da nossa ficção porque “pode ficar em pé”, não no sentido em que um livro pode ficar pelo volume e tamanho, mas porque (independentemente de todo o resto da obra amadiana, mesmo que não houvesse os outros livros da saga do cacau, ou da mulher do povo arquetípica) constrói um mundo que passa a existir em nossa percepção e consciência, no conjunto e no detalhe. Reiterando o óbvio: qualquer um que leia o texto carregará Ilhéus e a região cacaueira e toda a sua gente, nos diversos estratos sociais, para toda a vida.

    Outro feito de Jorge Amado é a depuração do panfletarismo e do populismo. Mesmo tendo feito Gabriela uma representante do povo (o que fica claro no episódio em que ela subverte uma festa formal e “chique” de reveillon da modernizada Ilhéus, levando todos para a rua), o grande romancista baiano não escorrega em proselitismos ideológicos. Tanto que não limita o embate Ramiro Bastos-Mundinho Falcão (e, paralelamente, Nacib-Gabriela) ao palco da luta Direita x Esquerda, e sim do reacionarismo autoritário e do progressismo, do arcaico que persiste nos seus aspectos bons e ruins e do moderno às vezes apressado demais e inautêntico.

    Enfim essa mulata é luxo só!

(resenha publicada em 30 de agosto de 2008)

Serviço: Gabriela, Cravo e Canela (Brasil, 1958), de Jorge Amado.(1912-1921). Companhia das letras. 424 págs.

23/09/2009

SIMONE DE BEAUVOIR

SIMONE DE BEAUVOIR (1908-1986)

 simone-de-beauvoir

    Num dos seus belíssimos livros autobiográficos, A força das coisas (1963), Simone de Beauvoir esclarece o que pede a uma obra literária: “a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, e que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

    Janeiro quase vai indo embora e não é possível deixar em branco o centenário do nascimento (dia 9) de uma autora cujos textos me proporcionaram exatamente o que as palavras citadas descrevem. Infelizmente, quando ela não é reduzida a um satélite girando em torno do planeta Sartre, parece que só escreveu de importante O segundo sexo (1949), ou, quando muito, Os mandarins (1954). No entanto, sua obra é multifacetada, apaixonante e complexa, para além desses dois grandes títulos.

    Exigente, ela mesma afirmou que “rabiscou” muito papel na década de 30, sem produzir nada satisfatório, tendo como óbice o espiritualismo católico que marcou sua infância e adolescência (antes de conhecer Sartre e seus camaradas), e principiando um processo em que a força das coisas destronaria o amor pelo absoluto e a busca obsessiva pela felicidade, núcleos do seu projeto pessoal (como ela narraria mais tarde em Memórias de uma moça bem comportada, de 1958, e A força da idade, de 1960; este último, o qual, caso interesse a alguém, é um dos meus livros prediletos, seria mais fielmente traduzido como “Na força da idade”).

a força das coisas

    Curiosamente, no final da vida, ela permitiu a publicação de algumas dessas primeiras tentativas, novelas ligadas entre si, sob o título de Quando o Espiritual domina, e elas não se revelaram nem um pouco canhestras. Se aparecessem na época, contudo, não causariam o impacto do seu primeiro trabalho publicado, em 1943, A convidada, o meu outro favorito pessoal dentro da obra de Simone de Beauvoir. Escrito durante a ocupação de Paris pelos nazistas, com uma epígrafe inquietante de Hegel (“Toda consciência tem por objetivo a morte de outra”), mostra a rivalidade entre duas mulheres, num insólito triângulo amoroso (muito inspirado pelas experiências de Sartre e Simone como professores provincianos nos anos 30, antes da moda existencialista, embora a trama transcorra em Paris), que aos poucos se transforma num terrível confronto de consciências. A protagonista, Françoise, é uma daquelas personagens que se tornam quase nossas amigas pessoais, mas há a impressionante e exasperante Xavière, a “convidada” que se revela indesejável (e assassinável). Nunca esqueci uma passagem de A força das coisas em que o vanguardista Adamov fica chocado por Simone estar escrevendo um romance, com “começo, meio e fim”. Após a publicação de A convidada, ao reencontrá-lo, e esperando que a vitupere por tal atividade necrófila (já que o gênero morreu, segundo as vanguardas, aquela baboseira toda que escutamos vez em quando…), ele a surpreende com o seguinte elogio: “Ah, tem a Xavière, tem a Xavière!”

    Sem terem a contundência de A convidada nem a amplitude e riqueza de Os mandarins, creio que é um erro subestimar (como a própria autora o fez) os dois romances intermediários entre ambos, O sangue dos outros (1945) e Todos os homens são mortais (1946). Gosto particularmente do segundo, um devaneio envolvendo o desejo de imortalidade, e já o reli com grande prazer, o que ainda não aconteceu com o outro, mais um ajuste de contas (cheio de altos e baixos) com as suas ilusões juvenis. Na mesma época, ela se lançou em outras direções: o teatro e o ensaio, culminando com a polêmica que cercou o brilhante Segundo sexo, que se tornou uma bíblia feminista, o que obliterou sua qualidade como estudo fundamental sobre processos de socialização e formação de mentalidades que se confundiram com fatores biológicos e atávicos, e que acabaram conduzindo a mulher a uma situação de cidadã de segunda classe. Não faz mal nenhum lê-lo; entre outros motivos, por ser incrivelmente bem escrito. A única coisa contra o livro, como já disse, é ter confinado Simone como a eterna “autora de O segundo sexo”.

o segundo sexo

    Ainda bem que poucos anos depois ela triunfaria definitivamente na ficção com Os mandarins (inclusive ganhando o Goncourt, na época um prêmio que só perdia em prestígio para o Nobel, quando existia uma literatura francesa). É uma obra-prima, perfeitamente arquitetada, ao intercalar a história de Henri (a quem muitos associaram a Camus), dilacerado entre a literatura e os compromissos políticos, em 3ª pessoa, com a narrativa em 1ª. pessoa de Anne, a esposa de um intelectual importante, um “mandarim”, a qual, à margem das grandes questões francesas e mundiais após a Libertação, enfrenta seus próprios dilemas, igualmente dilacerantes. Parece que todos os grandes assuntos do século estão nas suas páginas. Há duas traduções muito boas do livro, uma de Maria de Lourdes Teixeira (um pouco rebuscada, é verdade), e a de Hélio de Souza, ainda em circulação (duas edições diferentes pela Nova Fronteira, ambas caras: 90 e 60 reais).

    Os mandarins também marca um momento em que o casal Sartre-Simone, admirado ou combatido, dá as cartas na intelectualidade francesa, com repercussão mundial, o que vai se estender pela década seguinte.

(resenha publicada de forma condensada em 26 de janeiro de 2008)

_____________________________

 simone e sartre

O centenário do nascimento de Simone de Beauvoir- balanço final

 

“Seríamos caçadores de sentido, diríamos a verdade sobre o mundo e sobre as nossas vidas. Merleau achava-me otimista: estaria eu assim tão seguro de encontrar em tudo sentido? Ao que eu teria podido responder que o sentido do sem sentido existe e que nos competia descobri-lo. E sei o que ele teria respondido por sua vez: ilumina quanto tu queiras a barbárie, nunca conseguirás dissipar nela a obscuridade. A discussão nunca chegou a dar-se; eu era mais dogmático, ele era mais matizado, mas era uma questão de humor, ou como se costuma dizer, de caráter. Tínhamos ambos um mesmo desejo: sair do túnel, ver a claridade.” (Sartre, Merleau-Ponty, 1961)

 

“A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que eu e Sartre teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morar sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear circunstâncias entre nós que nunca nos poderiam separar? Um só projeto nos animava: tudo abarcar e testemunhar tudo; ele mandava-nos seguir, em certas condições, caminhos diferentes sem roubarmos um ao outro o mais ínfimo dos nossos achados; juntos, nos dobrávamos às suas exigências, a tal ponto que no próprio momento em que nos dividíamos, nossas vontades confundiam-se. Era o que nos ligava e nos desligava; e, com esse desligamento, nós nos achávamos de novo ligados profundamente.” (Simone de Beauvoir, A força da idade, 1960)

 os mandarins

    As citações acima, de textos praticamente coevos, ajudam a esclarecer o projeto pessoal de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre até mais ou menos a época de Os mandarins (1954), romance que marca o auge da carreira da grande escritora francesa, nascida há 100 anos: um sentido de disponibilidade total, de aventura, desejo de “sair do túnel, ver a claridade”, “tudo abarcar e testemunhar tudo”. Um projeto otimista, quase se pode dizer (e é bom lembrar que se trata em ambos os casos de olhares retrospectivos, o que sempre significa uma releitura estudada, quando não tendenciosa, do passado).

    Algum tempo depois de Os mandarins, ela iniciou seu ciclo de memórias, primeiro liquidando o espiritualismo católico que marcou sua formação em Memórias de uma moça bem comportada (1958). Aos poucos, com a Guerra Fria, no plano global; no plano nacional, a Guerra da Argélia e a ditadura de Charles de Gaulle; e, mais especificamente no plano da sua obra, com A força das coisas (1963), a nota de desencanto, de se encontrar “exilada em seu próprio país”, e à margem da voraz sociedade de consumo, é que prevalecerá na escrita de Simone de Beauvoir.

    Se, no final de Os Mandarins, lemos: “Estou aqui. Eles vivem, falam comigo, estou viva. De novo saltei de pés juntos na vida… Ou se soçobra na indiferença, ou a terra se repovoa: não soçobrei. Já que meu coração continua batendo, será preciso que ele bata por alguma coisa, por alguém. Já que não sou surda, ouvirei chamarem-me de novo. Quem sabe? Talvez um dia eu seja feliz outra vez. Quem sabe?”, em A força das coisas, predomina o ódio por seus compatriotas, o sentimento de desolação em meio a uma sociedade que compactua com a tortura, o massacre, a injustiça. Há também a percepção angustiada do envelhecimento: “Bruscamente esbarro na minha idade. Esta mulher ultra-madura é minha contemporânea. Um senhor idoso, que se parece com um dos meus tios-avós, diz-me sorrindo que brincamos juntos no jardim do Luxemburgo. Em todas as esquinas, a verdade me assalta, e custo a entender por que astúcia ela me atinge de fora, quando é dentro de mim que ela mora… Muitas vezes, paro espantada diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontram vejam simplesmente uma qüinquagenária que não está bem nem mal: tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei”.

    Mesmo assim, ela vive, escreve, sente, participa. E tudo isso é mostrado de uma forma quase milagrosa, ainda que no discurso ultra-organizado, cartesiano. Esse rigor discursivo, essa austeridade e transparência, não conseguem neutralizar a contradição (instigante, aliás, e que fornece a chave do livro) entre viver o horror de se sentir sitiada numa ditadura e dar o devido valor a instante, a uma paisagem, a um encontro, a um sentimento individual.

    Em todo caso, ainda sobrou fôlego para alguns vôos ficcionais curtos, porém nada rasantes, como o pequeno romance As belas imagens (1966) ou as três narrativas que compõem La femme rompue- A mulher desiludida (1968).

    O texto tardio de maior repercussão e impacto de Simone de Beauvoir acabou sendo o assombroso relato do declínio físico e mental de Sartre e sua morte, nas 150 páginas de A cerimônia do Adeus (o volume parece bem maior, mas é recheado com as caudalosas entrevistas que ela realizou, num autocentramento característico, com… Sartre!). Já havia o precedente do relato sobre a morte da mãe, Morte serena (ou, numa outra tradução, Uma morte muito suave); nada, porém, antecipava o tom cortante e quase cruel na sua secura dessa despedida literária, que parece colocar o fantasma do malogro daquela disponibilidade toda que as citações do início revelam até no fim, todas as contas feitas (título original do livro batizado por aqui como Balanço final). O próprio Sartre já havia indicado esse caminho sombrio ao descrever sua formação como leitor e escritor, ou seja, como praticante da literatura, como fruto da neurose, em As palavras. Uma coisa seja dita: ambos foram fiéis até o derradeiro instante a essa neurose. Ou ainda se trata do “tudo abarcar e testemunhar tudo”?

___________________

Serviço: as trajetórias de Sartre e Simone de Beauvoir são a matéria de Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Editora Objetiva. 462 págs.

(resenha publicada de forma condensada em dois de fevereiro de 2008)

Esplendores e Misérias de REPARAÇÃO

 

mcewan450

O LIVRO QUE INSPIROU DESEJO E REPARAÇÃO-

     Há exatamente uma década, Ian McEwan publicou o extraordinário Amsterdam, romance curto, seco, eivado de humor ácido, no qual os dois protagonistas alcançavam tal ponto de ódio mútuo que ambos “encomendavam” eutanásia no mercado negro médico da cidade-título como forma de eliminar o outro. Um deles, aliás, estava comprometido com a criação de uma sinfonia da virada do milênio, que seria uma “elegia do século morto”: “… finalmente chegar, através de uma mudança expansiva, a um tom remoto e –com fragmentos de som caindo como um nevoeiro que se dissipa— a uma melodia de conclusão, a uma despedida, a uma melodia reconhecível e de beleza penetrante que transcendesse sua falta de modernidade e parecesse tanto chorar o século findo e sua crueldade sem sentido quanto comemorar sua inventividade brilhante.”

    O responsável por esta coluna acredita que foi justamente essa a intenção de McEwan ao escrever Reparação (2001), que agora entra novamente em evidência com a adaptação cinematográfica (Desejo e Reparação), indicada a vários Globos de Ouro, e que acabou por transformar-se em seu livro mais famoso, rompendo de certa forma com seu estilo anterior, que chegara ao ápice em Amsterdam.

    Reparação é quase anacrônico (“que transcendesse sua falta de modernidade”…), lembrando muito a prosa da primeira Virginia Woolf (Noite e dia, de 1919, por exemplo) ou o E.M. Forster de A mais longa jornada. Tem uma tessitura virtuosística que assombra e ao mesmo tempo irrita porque parece a cada instante um tour-de-force, inegavelmente inventivo e brilhante, e inegavelmente capaz de evocar a crueldade do século XX.

    Como se sabe, a trama começa nos anos 30 quando Briony, que quer ser escritora, surpreende uma cena entre sua irmã Cecile e um agregado da casa, Robbie. A imaginação ficcional da menina dá significados sombrios ao que ela não compreende e, mais tarde, ela acusará Robbie do estupro de uma prima. Robbie será preso e ainda haverá um longo interlúdio de sofrimento (ele como soldado na 2ª. guerra, que ocupa tanto, demais, do livro) e de expiação (Briony como enfermeira), até que ela realmente possa oferecer a reparação ao mal feito…

    Há escritores que são notáveis pela materialidade com que seu universo emerge para o leitor (é o caso de Maria Valéria Rezende, por exemplo); e há outros em que o fascínio se dá pela insubstancialidade com que revestem o mundo (é o caso de Bernardo Carvalho).  O frustrante na leitura de Reparação é que o livro é cheio de “fatos, fatos, fatos” (como queria Virginia Woolf nos seus surtos de “romance tradicional”), todavia tudo cheira a virtuosismo verbal, a uma experiência cerebral. Nós lemos duzentas páginas de horrores da guerra e temos a impressão de que o autor se compraz a cada momento em imagens da mais consumada ourivesaria narrativa. McEwan homenageia uma tradição literária do século XX com grande arte. Será que ele consegue algo mais? 

(resenha publicada em 10 de janeiro de 2008)

reparacao_ian_mcewan_atonement

_________________________________________________

Na seção passada, iniciei comentário sobre Reparação, cuja adaptação cinematográfica ganhou o Globo de Ouro de melhor filme.

    O foco do artigo anterior era o ar de literatura “velha”, de evocação nostálgica que o estilo de Ian McEwan transmitia, o que parecia confirmar algo que já reiterei muitas vezes nesta coluna: a obsessão dos ingleses com o passado. Basta ver as tramas dos Booker Prize (e McEwan, vencedor com Amsterdam, fora uma das saudáveis exceções) ou dos filmes indicados a prêmios e que fizeram sucesso ao longo dos últimos anos, para constatar que há uma fuga do contemporâneo, um desejo arqueológico e preciosista de recuperar o que foi. Sintoma dos estertores do Império. Foram-se os dedos, ficam os anéis… Se alguém objetar que é perfeitamente legítimo um “luxo” excessivo de linguagem nos dias que correm, basta lembrar o estilo de Alan Pauls, no seu O Passado, cheio de imagens, vazado numa linguagem anti-cinematográfica, radical em sua estranheza e quase hostilidade à velocidade narrativa em uso atualmente. Nem por isso ocorre a qualquer leitor que se trate de um estilo afetado e “faisandé”.

    Ademais, embora fosse um romance de “fatos, fatos, fatos” (como é o caso da longuíssima narração de uma retirada durante a 2a. Guerra), o livro padecia de uma curiosa irrealidade, com sua atmosfera de exercício virtuosístico. Fiz, então, alusão a dois dos melhores escritores brasileiros em atividade, que podem ser tomados como antípodas do interesse ficcional: quando se lê Maria Valéria Rezende se sente frontalmente a materialidade do seu universo, independentemente da época ou lugar em que transcorra a trama; já em Bernardo Carvalho, o charme é o da insegurança ontológica básica que movimenta as jornadas insubstanciais dos seus protagonistas. Não sinto no McEwan de Reparação vontade de passar esse sentimento de irrealidade, e por isso acho estranha e insatisfatória a carência de materialidade de sua 2a. Guerra.

   atonement-soirseronan

     Em contrapartida, há todo um lado esplendoroso (até mesmo comovente) em Reparação.

    Mais do que Virginia Woolf ou E.M. Forster, a aproximação em que mais se insistiu a respeito do livro foi com o Henry James do magnífico What Maisie Knew – Pelos Olhos de Maisie (ao qual McEwan, porventura irritado com as comparações, se refere maliciosamente no seu romance seguinte, Sábado), de 1897, porque em ambos tudo se organiza a partir do olhar de uma menininha.

    James, como Machado de Assis e Joseph Conrad, é um mestre do relativismo, do ponto de vista restrito que não permite que tenhamos acesso a todos os fatos. Como na primeira parte de Reparação, temos não somente o ponto de vista equívoco e equivocado de Brionny sobre os fatos, mas também das outras partes envolvidas, Robbie e Cecile, a princípio concluí que havia uma diluição, um empobrecimento do que foi conquistado por narrativas como Maisie (que me parecia mais moderno em termos de linguagem que o romance de McEwan), A volta do parafuso, Dom Casmurro ou Coração das Trevas.

    O desfecho permite perceber que é um grande equívoco, digno da Brionny-menina, e como a narrativa de Reparação é requintada (aqui, no bom sentido), e não requentada: desde o começo, Brionny era enfocada sob o ângulo da escritora cujo impulso imaginativo não apenas floresce, como vai se enraizar numa quase maníaca ânsia de ordem, de organização do mundo, de rearrumar a bagunça, por assim dizer, à sua volta (o que também é uma aptidão para a literatura, claro). Nós sabemos que ela acusou Robbie injustamente de estupro e no final nos é revelado que ela escreveu várias versões de uma narrativa reparatória, na qual desse a palavra a ele e a Cecile, sua irmã (o que acaba sendo a primeira parte do romance, tão eqüitativa nos seus pontos de vista, causando tanta insatisfação aos adeptos das narrativas não confiáveis, como é o meu caso). Só que Brionny nunca conseguiu uma versão satisfatória (porque seria preciso corrigir a vida), e o fato de ter criado tantas versões, de ter levado a sua reparação a tais extremos,  dificulta saber: quais foram os fatos mesmos? A própria simpatia que injeta em Robbie (um dos personagens mais cativantes dos últimos anos) já fica sob suspeita, pois também parece fazer parte da estratégia expiatória. Relemos, então, a primeira parte, e descobrimos que desde o princípio, tudo era literatura. Como diz Cecile, num confronto que não ocorreu (mas que ocorreu, pois o lemos): “Não há fatos novos e você não é uma testemunha confiável”. Não é, pois ela faz o que sempre fará o escritor e o que já fazia aos 13 anos, quando Maisie sabia de fato muito pouco: reordenar o acontecido.

    Nesse ponto, Reparação dá um salto para afirmar-se como o grande romance do triunfo do que é ficcional, literariamente fabricado,  e se torna mais real como obra, pelo menos para mim. A verdade da mentira.

 

    Brionny, avatar do fazer literário, ama as simetrias. Há uma especialmente forte e eficaz em Reparação, que resgata dois “palavrões” do uso trivial e vazio. Há uma “boceta” essencial para a primeira parte, e um “caralho” na terceira.

     A boceta está no rascunho de carta que Robbie escreveu para Cecile e mandou por engano, e o qual, interceptado por Brionny, vai estendendo seus efeitos escandalosos sobre ela e os outros, de forma a se transformar em peça-chave no processo contra ele. A palavra, crescendo no vácuo do horror imaginativo da menina ignorante (estamos nos anos 30, é preciso lembrar), mostra-se um símbolo do que permanecia então interdito, no lusco fusco da hipocrisia, e nas dobras das relações entre classes (as quais determinam a desgraça, irreparável, de Robbie).

    Quando Brionny, anos mais tarde, trabalha como aprendiz de enfermeira como meio de expiação do seu “crime”, um soldado solta o interjetivo caralho enquanto ela retira estilhaços da sua perna. No clima de sofrimento absoluto e miséria humana do hospital para feridos da guerra, ele pode até ser repreendido severa e vitorianamente pela Enfermeira-Chefe, só que o poder do caralho como “palavra feia” e impronunciável se esvai, se perde,  cada vez mais, diante da morte a granel e inglória. A impressionável Brionny sequer pensa nele alguma vez, após ouvi-lo proferido. Ele se mostra o símbolo da realidade solapadora de todas as distinções anteriores.

    Dois palavrões dispostos estrategicamente no livro para marcar o deslizamento histórico que também é um deslizamento de consciências. A nossa vida como uma vida entre palavras. A materialidade do insusbstancial.

serviço: Reparação (Atonement), de Ian McEwan. Tradução de Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras. 444 págs

(resenha publicada de forma condensada em 17 de janeiro de 2008)

atonement

17/09/2009

CORMAC McCARTHY: duas resenhas

Cormac_1_DW_Kultur__217948g

O LUGAR QUE RESTOU AOS VELHOS HOMENS

capa de onde os velhos não têm vez

 “Ficou ali olhando para o deserto. Tão silencioso. O zumbido baixo dos ventos na fiação. O mato alto sobre a estrada. Capim duro. Adiante nos arroios de pedra os rastros dos lagartos. As áridas montanhas rochosas cobertas de sombras ao sol do final da tarde e a leste a abscissa tremeluzente das planícies desérticas sob um céu em que cortinas de chuva pendiam escuras como fuligem por todo o quadrante. Vive em silêncio o deus que lavou aquela terra com sal e cinzas.”

 

    No country for old men virou por aqui Onde os fracos não têm vez e é, em quase todos os aspectos, uma primorosa (e muito fiel) adaptação de um romance de Cormac McCarthy, por sua vez intitulado Onde os velhos não têm vez.

 

    Pena que o destaque, para a mídia e a crítica em geral, nessa versão dos irmãos Coen seja a caracterização de Javier Barden como o peculiar assassino Anton Chigurh. Já no livro os métodos de matar utilizados por ele me pareceram exagerados. Ele é uma figura suficientemente sinistra para precisar de tais detalhes sensacionalistas. Além disso, em que pese o talento de Barden, sua composição é tão artificiosa que resvala para o cômico: seu Chigurh me lembrou amiúde um genérico emperucado do detetive Adrian Monk interpretado por Tony Shalhoub, na série Monk. Se o universo dos irmãos Coen sempre me incomodou por se basear mais em caricaturas do que personagens verdadeiros, e se esse é o filme em que eles parecem se livrar da sua inconseqüência tanto ética quanto estética, o tratamento dispensado à figura de Barden/Chigurh é o cacoete residual desse ranço frívolo.  

 

“Já tinha lhe ocorrido que ele provavelmente nunca mais estaria a salvo outra vez na vida e se perguntou se isso era algo com que você se acostumava. E se por acaso se acostumasse?”

 

     Ambos, livro e filme, têm uma crepuscularidade que eu só tinha visto nas obras-primas de Sam Peckinpah (Meu ódio será tua herança, Pistoleiros do entardecer) ou em alguns dos melhores trabalhos de Clint Eastwood (Os imperdoáveis, Um mundo perfeito, por exemplo).

 

    McCarthy conseguiu reunir numa mesma história o remanescente do heroísmo (e da brutalidade) do faroeste clássico, o mítico xerife americano; o anti-herói que surgiu da derrota no Vietnã; o psicopata que assombra o imaginário dos EUA, capaz de matar por nada; e ainda o tipo de crime, violência e assassinato, que surgiu a partir do narcotráfico. Um feito e tanto.

 

    Na região fronteiriça com o México, Llewelyn Moss se depara com um massacre: dois grupos de traficantes se mataram uns aos outros. Rouba 2 milhões e 400 mil dólares. É caçado por Chigurh, por mexicanos, sabe-se lá mais por quem (na maleta da grana há um transmissor; mesmo que não houvesse, um princípio guia a perseguição e é enunciado pelo próprio Moss, “Há sempre alguém que sabe onde você está”). Várias agências de investigação ocupam-se do caso, e lá embaixo, na curva descendente de importância, encontramos a “alma” da narrativa: o xerife local, Ed Tom Bell (que nos valeu uma arrasadora interpretação de Tommy Lee Jones, este sim genuinamente marcante), o “old man”, o único que toma a palavra (no início de cada capítulo e no segmento final), com sua experiência acumulada, seu discernimento e sua compassividade, além de uma escala de valores, de visão do certo e do errado, de Deus, enfim, de uma vida moral, que não encontram lugar na espécie de crime que lhe coube investigar, munido de uma bagagem ineficiente para a gratuidade da ação de um Chigurh ou a impiedade impessoal dos narcotraficantes. Ele tenta agir pelo menos em benefício de um membro de sua comunidade, Moss, entrando em contato com sua esposa, Carla Jean, e tentando descobrir o paradeiro dele antes de todos os outros.

 ondevelhosnaotemvez

    Enquanto isso, desdobra-se para nós a América dos trailers, das rodovias, dos motéis. Como Russell Banks em seus romances Affliction- Temporada de caça e The sweet hereafter- O doce amanhã, nós temos aquelas pequenas comunidades em meio a paisagens desoladas, lugares de passagem, quase um nenhures, nos quais convivem destroços dos anos 60 e 70 com o tradicional puritanismo conformista ou estranhamente radical dos norte-americanos, que faz com que autores como Banks ou McCarthy, ou cineastas como Eastwood, nos apresentem os personagens mais solitários que já existiram, mesmo cercados por famílias, vizinhos, amores.

 

    Desse modo, McCarthy atinge um patamar que ele não conseguira em Todos os belos cavalos (1992) e nem mesmo no seu aclamado Meridiano sangrento (1985), que eu achei bom, porém sem a grandeza que lhe atribui Harold Bloom. Por quê? Porque ao fazer uma viagem pelo território da violência irracional (no mesmo universo de fronteira, só que na década de 40 do século XIX), fazia-lhe falta um personagem para o qual toda a barbárie vivenciada fizesse sentido até na sua falta de sentido, como acontece, por exemplo, para o Riobaldo de Guimarães Rosa (que se movimenta num mundo nem um pouco menos cruel e bárbaro). E, como se sabe, até nos seus momentos crepusculares e mais sombrios, o que faz a grandeza do gênero faroeste é justamente a discussão que levanta entre barbárie e civilização. O preço da civilização, melhor dizendo. É o que faz de Rastros de ódio e O homem que matou o facínora, de John Ford, os maiores filmes de todos os tempos.

 

    Com seus resquícios de faroeste, e com a figura do xerife Bell, No country for old men atinge uma grandeza quase apocalíptica, na acepção que Harold Bloom dá ao “desespero visionário” de uma linhagem de autores cujos patronos são Melville e Faulkner: “Os EUA, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer”. Derrotado pelos fatos, pela insignificância da sua ação (que fracassa até no restrito raio que lhe é permitido), pela própria falta de sintonia entre suas perspectivas morais e o mundo, obcecado por Deus e tendo como última palavra o uso das armas, ao qual lhe cabe “impor” a lei, ainda assim ele é um personagem grandioso. A verdade é triste (para a vida, não para a leitura): the country for old men desse calibre, da velha cepa, já não se encontra no reino deste mundo, mas na literatura.

_______________________________________________________

Onde os velhos não têm vez (“No country for old men”, 2005), de Cormac McCarthy. Tradução de Adriana Lisboa. Editora Alfaguara. 252 páginas.

(resenha publicada de forma mais condensada em 9 de fevereiro de 2008)

mc carthycapa_a_estrada

COMO ERA CINZA O MEU VALE

 

    A obra de Cormac McCarthy, se é que se pode julgá-la por apenas três títulos lidos (Meridiano Sangrento, Todos os belos cavalos, Onde os velhos não têm vez), demonstra nítida tendência ao apocalíptico, com suas histórias ambientadas numa espécie de limiar do universo, mais próximas do caos e da barbárie primordial do que de pálidos esforços civilizatórios. Como bom descendente de William Faulkner, porém, ainda assim nos deparamos com toda uma escala de valores morais permeando esse território de desolação.

   A estrada, que ganhou o Pulitzer como a melhor ficção de 2006 nos EUA, se passa num futuro em que a civilização como a conhecemos acabou: um homem e seu filho vagam em direção a um incerto Sul, mais quente, numa waste land invernal em que tudo virou ruínas, os sobreviventes que se encontra são perigosos, até canibais (uma mulher dá à luz e o cadáver do seu bebê é encontrado pela dupla de viajantes assado num espeto), os animais morreram em sua quase totalidade, o silêncio e a escuridão são aterradores, e o tom é cinza; aliás, as cinzas se espalham e cobrem o mundo, até o mar parece ter virado uma espessura de cinzas (e de qualquer forma evoca mais o desespero do que a sentimento de amplidão que todos conhecem):

“Vasculhavam as ruínas carbonizadas de casas em que não teriam entrado antes. Um cadáver flutuando na água preta de um porão entre lixo e canos enferrujados. Estava numa sala de estar parcialmente queimada e aberta para o céu. As tábuas empenadas por causa da água inclinadas sobre o quintal. Livros ensopados numa estante. Apanhou um e abriu-o e colocou-o de volta. Tudo úmido. Apodrecendo. Numa gaveta encontrou uma vela. Não havia como acendê-la. Colocou-a no bolso. Caminhou para luz cinzenta lá fora, ficou parado de pé e viu por um breve momento a verdade absoluta do mundo. As voltas frias e incansáveis da terra morta e abandonada. Escuridão implacável. O vácuo preto e esmagador do universo. E em algum lugar dois animais caçados tremendo como marmotas em seu abrigo. Tempo usurpado e mundo usurpado e olhos usurpados com os quais lamentá-lo.”

    Mais adiante:

“O transbordar sedoso das cinzas sobre a calçada. Ficou parado apoiando-se no parapeito arenoso de concreto. Talvez na destruição do mundo fosse finalmente possível ver como ele fora feito. Oceanos, montanhas. O grave antiespetáculo das coisas deixando de existir. A desolação extensa, hidrópica e secularmente fria. O silêncio.”

    O protagonista mantém uma bala no revólver que carrega para, em último caso, dar cabo do filho (a própria esposa optou pela morte, e o diálogo que a antecede seu “desaparecimento”, rememorado pelo marido, é um dos grandes momentos de A estrada). Não dá para deixar de evocar a dupla Abraão-Isaac (ressonâncias bíblicas não faltam, há até uma passagem extraordinária num irônico “éden” onde eles descobrem maçãs comestíveis), inclusive ao resgatar o nomadismo e errância que norteia os descaminhos dos heróis do Velho Testamento.

    Já citei em outros artigos o que diz um personagem do maravilhoso Crimes e Pecados, de Woody Allen: “o universo é basicamente inóspito e o povoamos com nossos afetos”. Em A estrada lemos:

“Ele não tinha como construir para o prazer da criança o mundo que perdera sem construir também a perda e achava que talvez o menino soubesse disso melhor do que ele… não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio.”

   O que poderia ser o encontro do que restou do faroeste na visão mccarthyana com Samuel Beckett (em cujo Molloy encontramos uma dupla pai-filho também, mas estava pensando mesmo era no pós-apocalíptico Fim de jogo) reverte seu potencial niilismo, quando constatamos que o pai ensina ao filho códigos morais do antigo mundo. Isso vai preparando o final que, contra todas as expectativas, é até esperançoso e positivo. Na verdade, é um final para o menino, não para o seu pai. Ao longo de toda as suas peripécias, este contrariava todos os valores que queria ver sobrevivendo naquele: não se solidariza nem socializa com ninguém, mata, pilha, é indiferente aos destinos de um outro menininho e de um cachorro fortuito, e de todas as pessoas desamparadas que encontram pela estrada. Todos os apelos e gestos civilizatórios e, em última instância, humanos, são do filho, que já nasceu no após, no mundo cinzento. Eram realmente cinzas no coração do pai, mas algo se acendeu no coração do filho. E A estrada envereda pelo mesmo caminho de resgate, ainda que indizivelmente melancólico, do humano (embora o narrador afirme que não se pode resgatar nem endireitar), das melhores parábolas de José Saramago (como o esplêndido Ensaio sobre a cegueira ou os momentos mais belos de A caverna). Tanto que, sem revelar os acontecimentos finais, sinto-me obrigado a transcrever as emocionantes últimas palavras do romance:

“Antes havia trutas nos riachos das montanhas. Você podia vê-las paradas na correnteza cor de âmbar…Em suas costas havia padrões sinuosos que eram mapas do mundo em seu princípio. Mapas e labirintos. De algo que não podia ser resgatado. Não podia ser endireitado. Nos vales profundos e estreitos em que eles viviam todas as coisas eram mais antigas do que o homem e num murmúrio contínuo falavam de mistério.”

______________________________________________

Serviço: A estrada (“The road”), de Cormac McCarthy. Tradução de Adriana Lisboa. Alfaguara. 234 págs 

(resenha publicada de forma condensada em 16 de fevereiro de 2008)

BIOY CASARES E A MULTIPLICAÇÃO DA SOLIDÃO

Blogbioycasares2

A SOLIDÃO POVOADA POR FANTASMAGORIAS 

   Apesar de um hotel-museu, de uma piscina, de uma capela, o relato de A invenção de Morel segue o modelo básico do náufrago à Robinson Crusoé: o homem solitário que passa por dificuldades para sobreviver numa ilha longínqua (o narrador chegou a ela como fugitivo). Ali podia viver anos, sossegado, “escoltado pelo bando solícito dos ecos, multiplicadamente só”.  Mal sabe ele como é bendita essa solidão. Como advertiu Bakhtin, “na solidão é impossível estar morto”. O mundo existe diante de nós, pois estamos vivos, e nada testemunhará a nossa morte, se ela vier, dando-lhe forma e realidade. O mundo apenas se apagará.

    Mesmo que Adolfo Bioy Casares (1914-1999) seguisse esse caminho já pisaríamos num terreno perigo. O leitor brasileiro pode acompanhá-lo por rumos ainda mais perturbadores, pois a Cosac & Naify iniciou uma série chamada Prosa de Observatório justamente com nova tradução desse grande clássico de 1940 (publicado antes como A máquina fantástica; só numa outra edição, nos anos 80, é que o título original foi finalmente respeitado).

ainvencao_morel_gdea invenção de morel da rocco

    O narrador descobre que há um grupo de 15 pessoas, fora os criados, visitando a ilha. Há uma mulher fascinante, Faustine. Ele admira esses “heróis do esnobismo” que não se importam de manter seus prazeres com mau tempo: “sentados em bancos ou na grama, conversavam, ouviam música e dançavam em meio a uma tempestade de água e vento que ameaçava arrancar todas as árvores”. Tenta chamar a atenção de Faustine. E, ignorado, sentindo-se invisível (alguém quer melhor imagem do pária ?), indaga-se, como Freud já se indagou: “Mas que será que ela quer?”. A extrema solidão: uma ilha povoada e nenhum contato. O isolamento completo em meio às “lânguidas conversas” das aparições.

    Sim, porque em determinado momento, ele percebe que não são reais essas pessoas, que repetem os mesmos gestos, as mesmas falas (o que não seria nada estranho no mundo de Alain  Resnais e seus colaboradores Alain Robbe-Grillet e Marguerite Duras, grandes nomes da nouvelle vague e do noveau roman, os quais nunca deixaram de ser gratos a Bioy Casares).

    “Ocorreu-me que talvez se tratasse de seres de outra natureza, de outro planeta… Lembrei-me de que falavam em correto francês. Ampliei a monstruosidade anterior: a de que esse idioma fosse um atributo paralelo entre os nossos mundos, dedicado a diferentes fins” (o francês como idioma de mundos paralelos é uma impagável ironia e é uma expressão de ruína, no sentido dado a essa palavra por Walter Benjamim, por ser o idioma da civilização, em determinada época, que se congela e se mantém inerte na ilha; além disso, o idioma “dedicado a diferentes fins” denuncia a luta de classes, essa sim nunca inerte e congelada).

    As aparições se transformam no pior dos pesadelos porque são artificiais: foram criadas por Morel, que preservou numa máquina os momentos vividos pelo grupo na ilha. Mundo-simulacro, reduzindo o viver a uma insustentável leveza: “Acostumado a ver uma vida que se repete, acho a minha irreparavelmente casual”. Assim, Morel, que não possuiu Faustine, a vampirizou e matou ao torná-la imortal: “de Faustine não há senão esta imagem, para a qual eu não existo”. Só resta a loucura final: fingir-se de aparição, unir-se às imagens como se fizesse parte delas, de forma a enganar um eventual “espectador desprevenido”.

    E se o autor deste artigo lembrar que colocou A invenção de Morel na sua lista dos 100 maiores livros do século XX, alguém porventura estranhará?

____________________________________

serviço: A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares. Tradução de Samuel Titan Jr. Cosac & Naify (col. Prosa de Observatório). 136 págs.

É curioso que José Geraldo Couto, um grande conhecedor da obra do norte-americano Henry James, tenha traduzido Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares, e nos seus comentários não faça nenhuma referência à similaridade gritante entre os dois escritores: o discreto uso do fantástico, a necrofilia das imagens amorosas, e uma visão das relações de amizade bastante inquietante, em que às preocupações mais transcendentes (a possibilidade de vida após a morte, a criação literária) se agregam  a rivalidade, o despeito, a mesquinharia, a maledicência e o fuxico. Algumas das melhores narrativas de James (A lição do mestre; O desenho do tapete; A vida privada; A coisa autêntica) exemplificam bem essas características.

    Já nos quatorze relatos selecionados de Histórias Fantásticas, podemos destacar Os entusiasmos, no qual o narrador é apaixonado pela mulher do amigo, um cientista que procura a maneira de fixar a alma, obtendo sucesso ao transmitir a do seu amado cachorro (motivo de discórdia com a esposa) para um bastidor. Cansado da vida doméstica, faz o mesmo com a própria alma, mantendo-se escondido dentro de um busto, e influenciando sua casa, até que Milena descobre tudo (ao pressentir a paixão do cunhado, confidente das intenções do marido): “Perguntou-me se eu compreendia o abismo de miserável resignação, de cegueira a todas as belezas da vida, que tal ato revelava. Afirmou que Eladio pertencia a uma horrível classe de homens que pensa muito, entende tudo, não se irrita, não sente; a uma classe de homens incapazes de perceber que uma coisa tão insólita como alguém que esteja sobrevivendo num bastidor de níquel, de vinte centímetros de altura, é abominável.” O narrador (Bioy Casares prefere as narrativas em primeira  pessoa)  mostra-se ambivalente o tempo todo, ora tendendo para o lado de Milena ora para o de Eladio, o que incorpora uma nota conspiratória (extremamente jamesiana) ao texto.

    Os personagens do grande escritor argentino gostam de congelar imagens, de paralisar o fluxo do tempo. Não bastasse a máquina criada por Morel, o bastidor de Eladio, temos, no texto mais antigo da coletânea, Em memória de Paulina, o fantasma da mulher evocado por dois rivais: Paulina, que o narrador considerava sua “alma gêmea”, o abandona por um escritor que seu enamorado considera medíocre. Ele viaja para a Inglaterra. Ao voltar, recebe a visita de Paulina. Mais ainda, visionariamente percebe que a imagem de Paulina persiste frente a seu espelho. Descobre adiante que ela está morta, assassinada no dia da sua partida pelo aparente vencedor da disputa e que a imagem que o visita é a projeção do ciúme do seu rival.

    Noutro conto magnífico, O perjúrio da neve, um dinamarquês perdido com sua família nos confins da Patagônia, ao saber que a filha está condenada (o médico lhe dá três meses de vida), impõe um regime ditatorial de “eterno retorno”: todos na fazenda repetirão a mesma rotina e assim a morte não chegará: “O homem desceu da carroça e, quando o vi caminhar até a porteira, ínfimo e diligente, tive a estranha impressão de que naquele ato único via sobrepostas repetições passadas e futuras e que a imagem que o binóculo me ampliava estava na eternidade”. Dois literatos destruirão essa eternidade. Qual deles desvirginou a filha moribunda do fazendeiro e acarretou sua morte? A interpenetração de duas narrativas e de duas interpretações diferentes transformam esse enigma numa questão tão insolúvel quanto a culpa de Capitu ou as intenções do Mestre de Henry James ao dar a sua lição ao discípulo literário.

    Nesse mundo assombrado pela ambigüidade mais do que pelo sobrenatural, é deliciosa a aparição de um ET, em O calamar opta por sua tinta: ele vem trazer a salvação a um mundo que pode ser destruído pela bomba atômica (estamos nos anos 50), mas é frágil e necessita ser regado constantemente. Os moradores de uma cidadezinha argentina o acolhem com boa vontade, mas precisam do regador e querem manter sua rotina diária, e acabam deixando que morra. O charme desse texto está na maneira como é construído, todo em cima da curiosidade dos habitantes da cidade em saber por que o regador não está sendo utilizado de sua forma usual e o que está acontecendo no depósito do homem mais rico da região. Diante dessas absorventes questões, o destino da humanidade é coisa secundária.

_______________________________

Serviço: Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares (1914-1999). Tradução de José Geraldo Couto. Cosac & Naify. 301 páginas.

historias_fantasticas

O HENRY JAMES ARGENTINO 

É curioso que José Geraldo Couto, um grande conhecedor da obra do norte-americano Henry James, tenha traduzido Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares, e nos seus comentários não faça nenhuma referência à similaridade gritante entre os dois escritores: o discreto uso do fantástico, a necrofilia das imagens amorosas, e uma visão das relações de amizade bastante inquietante, em que às preocupações mais transcendentes (a possibilidade de vida após a morte, a criação literária) se agregam  a rivalidade, o despeito, a mesquinharia, a maledicência e o fuxico. Algumas das melhores narrativas de James (A lição do mestre; O desenho do tapete; A vida privada; A coisa autêntica) exemplificam bem essas características.

    Já nos quatorze relatos selecionados de Histórias Fantásticas, podemos destacar Os entusiasmos, no qual o narrador é apaixonado pela mulher do amigo, um cientista que procura a maneira de fixar a alma, obtendo sucesso ao transmitir a do seu amado cachorro (motivo de discórdia com a esposa) para um bastidor. Cansado da vida doméstica, faz o mesmo com a própria alma, mantendo-se escondido dentro de um busto, e influenciando sua casa, até que Milena descobre tudo (ao pressentir a paixão do cunhado, confidente das intenções do marido): “Perguntou-me se eu compreendia o abismo de miserável resignação, de cegueira a todas as belezas da vida, que tal ato revelava. Afirmou que Eladio pertencia a uma horrível classe de homens que pensa muito, entende tudo, não se irrita, não sente; a uma classe de homens incapazes de perceber que uma coisa tão insólita como alguém que esteja sobrevivendo num bastidor de níquel, de vinte centímetros de altura, é abominável.” O narrador (Bioy Casares prefere as narrativas em primeira  pessoa)  mostra-se ambivalente o tempo todo, ora tendendo para o lado de Milena ora para o de Eladio, o que incorpora uma nota conspiratória (extremamente jamesiana) ao texto.

    Os personagens do grande escritor argentino gostam de congelar imagens, de paralisar o fluxo do tempo. Não bastasse a máquina criada por Morel, o bastidor de Eladio, temos, no texto mais antigo da coletânea, Em memória de Paulina, o fantasma da mulher evocado por dois rivais: Paulina, que o narrador considerava sua “alma gêmea”, o abandona por um escritor que seu enamorado considera medíocre. Ele viaja para a Inglaterra. Ao voltar, recebe a visita de Paulina. Mais ainda, visionariamente percebe que a imagem de Paulina persiste frente a seu espelho. Descobre adiante que ela está morta, assassinada no dia da sua partida pelo aparente vencedor da disputa e que a imagem que o visita é a projeção do ciúme do seu rival.

    Noutro conto magnífico, O perjúrio da neve, um dinamarquês perdido com sua família nos confins da Patagônia, ao saber que a filha está condenada (o médico lhe dá três meses de vida), impõe um regime ditatorial de “eterno retorno”: todos na fazenda repetirão a mesma rotina e assim a morte não chegará: “O homem desceu da carroça e, quando o vi caminhar até a porteira, ínfimo e diligente, tive a estranha impressão de que naquele ato único via sobrepostas repetições passadas e futuras e que a imagem que o binóculo me ampliava estava na eternidade”. Dois literatos destruirão essa eternidade. Qual deles desvirginou a filha moribunda do fazendeiro e acarretou sua morte? A interpenetração de duas narrativas e de duas interpretações diferentes transformam esse enigma numa questão tão insolúvel quanto a culpa de Capitu ou as intenções do Mestre de Henry James ao dar a sua lição ao discípulo literário.

    Nesse mundo assombrado pela ambigüidade mais do que pelo sobrenatural, é deliciosa a aparição de um ET, em O calamar opta por sua tinta: ele vem trazer a salvação a um mundo que pode ser destruído pela bomba atômica (estamos nos anos 50), mas é frágil e necessita ser regado constantemente. Os moradores de uma cidadezinha argentina o acolhem com boa vontade, mas precisam do regador e querem manter sua rotina diária, e acabam deixando que morra. O charme desse texto está na maneira como é construído, todo em cima da curiosidade dos habitantes da cidade em saber por que o regador não está sendo utilizado de sua forma usual e o que está acontecendo no depósito do homem mais rico da região. Diante dessas absorventes questões, o destino da humanidade é coisa secundária.

_______________________________

Serviço: Histórias Fantásticas, de Adolfo Bioy Casares (1914-1999). Tradução de José Geraldo Couto. Cosac & Naify. 301 páginas.

(resenha publicada em 27 de janeiro de 2007)

15/09/2009

A velha disputa entre a prima rica e o primo pobre: Dona Paródia e Seu Pastiche

tabajara ruaso detetive sentimental

O DETETIVE SENTIMENTAL PERDE-SE NO BESTEIROL

   O herói de O Detetive Sentimental é Cid Espigão, investigador particular desempregado, em Porto Alegre, e que sobrevive como segurança de boate.  Logo nos primeiros capítulos (são 43 ao todo), ele ajuda um playboy bêbado a entrar no seu carro e ambos são seqüestrados por uma dupla estonteante de loiras (na verdade, usam perucas e são carecas) que os levam para os esgotos da cidade, diante do trono de sua líder: o playboy, um mexicano chamado Cisco Maioranos Júnior, será julgado pelos crimes do pai (embora ele seja filho daquele de quem herdou o nome, elas afirmam que seu pai é um tal Terry Lennox). Quanto a Cid Espigão, ainda que tenha entrado incautamente na situação, será devorado ou pelos ratos ou pelos jacarés que infestam as galerias subterrâneas.

    É um começo divertido, porém perigoso, dependendo do rumo que a trama seguirá. E logo constatamos o quão perigoso era: Cisco e Cid conseguem escapar dessa primeira situação de perigo, o detetive é contratado pelo mauricinho, e somos levados ao Pantanal (o pai do cliente tem uma fazenda no Mato Grosso) e depois aos EUA e ao México. Antes disso tudo, aparece um assassino chinês chamado Chung Ching Chim, falando como o Cebolinha da Turma da Mônica, e aí já sabemos que estamos no reino do besteirol. Entre os disparates que O Detetive Sentimental oferece temos: o bunker de um ditador, El Generalíssimo, em pleno Pantanal; uma tribo de cortadores de cabeças, cuja princesa perde a virgindade para Cid Espigão; uma caçadora de nazistas; uma cobra que engole um piloto de avião; um lobisomem; a aparição na trama de Philip Marlowe, o supremo detetive do noir; a transformação dos braços do herói em cobras em pleno deserto mexicano, quando então ele encontra um curandeiro centenário que o leva a uma pirâmide e… ufa, e ainda há a seita satânica que domina a mente de todos os vizinhos de Espigão e um gato maligno… ah, e também seres criados em laboratório…

    Tabajara Ruas não nos poupa nem do ridículo de fazer aparecer aquelas irritantes piruetas voadoras tipo O tigre e o dragão ou Cirque du Soleil: “E então você, detetive Cid Espigão, assistiu algo inacreditável: a bela Irmã Um deu dois passos e tomou impulso, dando um salto. Mas o salto foi mais do que um salto, foi um vôo de quatro metros de altura, passando sobre a cabeça de Chung Ching Chim e caindo atrás dele. Chung voltou-se para a Irmã Um, com a Magnum apontada” (pág. 408).

     Decerto, o autor gaúcho pretendia que seu livro fosse uma paródia, e toda paródia deveria por definição conter uma crítica. Confesso que não penetrei nos arcanos da mente tabajarana e não consigo ver o propósito de O Detetive Sentimental, a não ser o mesmo de besteiróis do tipo Todo mundo em pânico: despejar de cambulhada todo um entulho de referências, todo o lixo tóxico da indústria cultural. É exatamente o que fazem tantos filmes B e blockbusters e também tantos autores jovens que vinculam ficção ao sobrenatural e ao fantástico: todos eles misturam de forma estapafúrdia tantas coisas diferentes que elas perdem identidade, sabor, e se tornam irreversivelmente auto-paródicas, frívolas e risíveis. É um universo estético sem leis, e portanto sem consistência ou valor.

    No final, o cliente de Cid Espigão, Cisco Maioranos Júnior vira mulher (Dolores) e foge com Chung Ching Chim da maldade familiar. Ximena, sua irmã, revela-se a líder da seita secreta das mulheres carecas (“o rosto dela começou a partir-se em dois, pois a longa unha do seu dedo indicador descia por ele como se fosse um faca. Debaixo dos pedaços de pele que caíram até o chão havia outra carne e outro rosto”). E o pai deles, Cisco Maioranos, é Terry Lennox… e o Diabo. Quando o enfrenta no último capítulo, Cid Espigão o vê como realmente é (“o homem sentado na poltrona diante de mim tinha a cabeça de um touro negro com dois cornos afiados”).

    Meu Deus, fui um desmancha-prazer, revelei o final da história.  Ah, é verdade, não há prazer algum a desmanchar, só o aborrecimento de ler 440 páginas inúteis.

____________________________

Serviço: O Detetive Sentimental, de Tabajara Ruas. Coleção Negra. Record. 446 páginas. R$52,90.

(RESENHA PUBLICADA EM  “A TRIBUNA” EM 15/09/09)

ANOTAÇÕES DE LEITURA

INTRODUÇÃO (09.09.09)

        Volta e meia me ocupo de  algum título de uma das duas séries policiais que mantém uma constância já de anos: a da Companhia das Letras e a “Coleção Negra” da Record. A essa última pertence O DETETIVE SENTIMENTAL, do gaúcho Tabajara Ruas, que tem 440 páginas. Já li uma boa parte delas e estou na maior perplexidade. A princípio, achei que era uma pilhéria com os clichês do tipo de romance cujo herói é o detetive durão ( no fundo, todos os durões do noir são sentimentais), o que seria muito batido não fosse a ambientação em Porto Alegre e a inegável qualidade da prosa do autor (que é o motivo pelo qual ainda estou lendo o texto, por mais que ele me desagrade o tempo todo). Mas agora parece que Tabajara Ruas, sem perder o vezo de besteirol (antes pelo contrário, acentuando-o), parece que embarcou numa linha Carlos Ruiz Zafón, o autor de O jogo do Anjo & A sombra do vento, devido à presença cada vez maior de elementos fantásticos, os quais me parecem, francamente, ridículos.

       Ao que parece, Ruas retoma, trinta anos depois, o “herói” (o detetive particular Cid Espigão)  do seu romance de estréia, A região submersa (belo título), também publicado na mesma série. De lá (1978) para cá, ele publicou romances que tiveram certa repercussão (Os varões assinalados, Netto perde sua alma) e dirigiu alguns filmes.

       Há muito charme no seu estilo, tanto que mesmo sem estar gostando especialmente da história, estou totalmente envolvido por O DETETIVE SENTIMENTAL.

         Bem, além de pequenas discrepâncias na ortografia de nomes e palavras e até da época do ano (o narrador diz que tudo começou em agosto de 1987, depois afirma que é junho), que podem ser propositais, ainda que eu não atine na sua razão de ser; além de mudanças no foco narrativo (ora em primeira pessoa, ora numa segunda pessoa, como se o narrador estivesse se dirigindo a si mesmo, ora na terceira pessoa), procedimento que também parece gratuito; bem, além disso tudo, o andamento da história, que começava divertidamente exagerada, já chegou a um ponto em que se aparecer extraterrestre, vampiro ou templários, não vou me surpreender. O sexagenário Tabajara Ruas (nasceu em 1942) parece aqueles (infelizmente numerosos) autores jovens que praticam uma literatura fantástica meio chinfrim porque tentam misturar nossa realidade brasileira às fórmulas americanas e européias, e o resultado é sempre meio constrangedor.

continuação (10.09.09)

       Quando o livro começa, Cid Espigão (que ama a obra do uruguaio “suavemente perverso” Juan Carlos Onetti, num cruzamento de referências que não ajuda em nada a narrativa) está desempregado como detetive, com a arma no penhor (a única coisa de que não lança mão para penhorar é a cadeira do cliente, sagrada para ele), trabalhando como segurança de boate,  e recebendo a visita do folclórico Tio Chinão, o qual personifica o gaúcho proverbial, nas vestes e nas falas (após 40 anos trabalhando numa estância foi “aposentado” sumariamente, com uma mão na frente outra atrás, como ele mesmo diz, e veio cavar algum trabalho na capital). Na tal noite de agosto (ou será junho?), Espigão ajuda o playbozinho bêbado Cisco Maioranos Junior a entrar no seu rolls royce prateado (o livro começa assim: “Curvado sobre a porta do Rolls Royce, segurando as chaves, o bêbado ergueu um olhar interrogativo, onde poderia haver um anúncio de súplica”) e duas loiras estonteantes (uma delas, que lembra Jane Fonda, é chamada pelo narrador de “a mais bela mulher do mundo”) rendem a dupla (não antes de os dois descobrirem que as fartas cabeleiras louras são perucas e que as duas são carecas; a princípio eu achei que seriam travestis) com hilárias  pistolinhas com cabos de madrepérola. Os dois são levados para as entranhas dos esgotos de Porto Alegre, onde há uma mulher num trono, que diz a Maioranos que ele será réu em um julgamento. Espigão, por sua vez, que entrou na situação de gaiato, é trancafiado numa cela na qual milhares de ratos o atacam. Ele só não é devorado porque arrebenta uma tubulação e consegue escapar por uma abertura, após a água encher o recinto. Ao invés de encontrar libertação, se depara com jacarés (é isso aí, mesmo, leitor, nos esgotos de Porto Alegre) que o atacam, mas ele é salvo no último momento por Cisco Maioranos, que parece ter um”cinto de utilidades” (e que foi deixado “livre, leve e solto”,por assim dizer, pelas mulheres de peruca).  Correndo dos jacarés, os dois caem num abismo e são levados pela corrente, numa espécie de pesadelo sub-Sobre heróis e tumbas, a obra-prima de Ernesto Sábato onde há uma sequência similar envolvendo um dos protagonistas, Fernando Vidal Olmos (mas que diferença!!!!). Peripécia vai, peripécia vem,  eles conseguem sair do mundo dos esgotos e chegam à superfície numa lixeira, onde são perseguidos por pivetes que tentam incendiá-los. E esses foram os quatro primeiros capítulos.

tn_311_600_tabajara_ruasa região submersa

       No seu apartamento, assistido pelo recém-chegado Tio Chinão, Cid Espigão jaz adoecido (também foram milhares de mordidas de ratos) por tr~es dias. Recuperado, ele pensa (pois quando o texto se inicia, acabou de fumar um baseado) se não sofreu um baita pesadelo, uma bad trip  (“Sentei-me na cama, o coração pensando. As louras de peruca! Os ratos. O subterrâneo da Borges! Os jacarés! Santo Deus, teria sido tudo um pesadelo? O baseado estaria batizado com alguma droga pesada?”), mas recebe um bilhete de Cisco Maioranos, que deseja contratá-lo profissionalmente. porque, além da aventura que viveram, suspeita que está sendo seguido e mulheres misteriosas telefonam-lhe com ameaças, mencionando uma “dívida de sangue” e um tal Terry.  Os dois se encontram numa churrascaria e Cisco revela ser mexicano, filho de um latifundiário(para cúmulo do ridículo, ele é estudante de filosofia e está preparando uma tese sobre Spinoza, dá para acreditar, claro): “Meu pai tem fazendas no Mato Grosso do Sul e propriedades na Bolívia e no Paraguai… Mas acho que o negócio principal são os cassinos, em Las Vegas… Ele centraliza tudo, não deixa ninguém tomar parte nas decisões de negócios importantes. E tem outros negócios: petróleo, indústrias… Mas eu sei muito pouco sobre isso”

     Nisso, eles vêem uma das mulheres que os levaram ao subterrâneo e correm no seu encalço, no rolls royce de Cisco. Mas uma kombi investe contra eles e explode. Escapando ilesos, eles se deparam, na luxuosa suíte do hotel de Cisco, com um portentoso assassino chinês, Chung Ching Chim (a essa altura, eu já não levava mais o livro a sério),o qual fala como o Cebolinha (parece que estamos lendo uma tradução ruim de algum autor B), e que com uma espada decepa uma das mãos do Tio Chinão (que agora já não poderia sair da estância “com uma mão na frente e a outra atrás”, com certeza), além de dar golpes que quebram móveis, destroem o telefone e abrem um buraco na parede. Só não dá cabo do trio porque Tio Chinão mesmo maneta consegue prender seus pés com uma boleadeira.

      Cisco recebe outro telefonema, e a mulher o chama de “irmãozinho”, diz que ambos são filhos de Terry Lennox e que ele deve ir a Las Vegas, a um cassino chamado Terrapin Club, falar com um tal de Randy Starr. Porém, Cisco envia o seu detetive contratado, Cid Espigão, primeiro para o Mato Grosso, para a fazenda do pai: “Quero que você fale com minha irmã”, que não é a do telefonema, mas a real, Ximena. Antes de viajar, Cid descobre que a Seita das tais mulheres marcou seu apartamento com uma cruz de sangue (é mole?).

     O avião, um jato de oito lugares, rota Porto Alegre-Cuiabá, leva além de Cid uma mulher loura, magra, alta, usando óculos de lentes grossas e um homem que parece morto. E cai no meio do Pantanal. Sobrevivem os três passageiros e um piloto, que está em choque e regrediu ao estado infantil, chamando Cid de “Papai” !!!!! Eles enfrentam o ataque de jacarés (não iguais àqueles do subterrâneo, os quais, segundo Maioranos, foram treinados pela CIA) e são resgatados  por uma piroga na qual vem sentado o Reverendíssimo Cardeal Acevedo e que é conduzida pelo Capitão Marvel (um índio de braços raquíticos, com apenas um dente na boca e usando um “macacão amarelo, puído, colado ao corpo, e que lhe ficava pelo meio das canelas. No peito, meio descosido, um raio de veludo vermelho. Nas costas, presa ao pescoço por uma corda desfiada, esvoaçante capa de seda azul. Estava descalço, os pequenos pés escuros embarrados”), que os declara prisioneiros de Sua Excelência, El Generalíssimo. Nesse passo, entramos numa espécie de versão tupiniquim e pândega do bunker do enlouquecido Kurtz de Coração das Trevas.  Pois bem, El Generalíssimo é um sujeito que pesa 180 kilos e que age como imperador do lugar, tendo os nativos sob seu comando, e negócios com contrabandistas e ate com o pai de Cisco Maioranos. Quem tem negócios com este último também é a outra passageira do jato caído, a loira, Golda, que caça nazistas para o latiundiário (o homem que está com ela e que realmente está morto é uma presa, era um deles). Como se vê, estamos num  samba-enredo sem pé nem cabeça. Há também uma escrava de El Generalíssimo, que é na verdade a princesa de uma tribo que coleciona cabeças dos seus inimigo.  Antes de a tribo atacar (comandada pelo irmão da princesa, que não pode governar sua tribo por ser homem, já que sua sociedade é matriarcal, e por isso aderiu ao marxismo para libertar as massas da sua alienação), o piloto que sofria de crises de tatibitate é devorado por uma imensa jibóia chamada Fraternidad, cena narrada com pormenores gráficos e que deve ter se inspirado no filme Anaconda. E de onde saiu essa tribo de colecionadores de cabeças? Apesar de todo o nonsense estapafúrdio, numa saraivada de disparates como ainda estou para ver igual, dois detalhes me divertiram muito: em primeiro lugar, El Generalíssimo, que sempre invoca a proteção que oferece aos “direitos humanos” e depois manda torturar, matar ou cometer horrores decretando que os direitos humanos estão suspensos por duas horas,ou até o amanhecer, etc (isso sem contar o Cardeal que tem um manual da Inquisição para inspirá-lo nos interrogatórios aos prisioneiros do Generalíssimo); e em segundo ludar,  o esdrúxulo monarca chama os jacarés de “ingleses”, descrevendo suas características psicológicas. Prova de que, apesar da gratuidade irritante do seu romance, Tabajara Ruas não é nada bobo.

      Após muitas páginas e peripécias indianajonescas (El Generalíssimo acaba comido por piranhas, só sobrando a cabeça), Cid Espigão transa com a princesa da tribo selvagem, restituída à sua dignidade. E dorme… acordando sozinho em pleno pantanal. O Capitão Marvel lhe explica (será o seu guia para que ele alcance a terra firme e depois a fazenda dos Maioranos): ela só podia ofertar sua virgindade a um estrangeiro, desde que depois ele partisse, é o costume!

     Ufa, ele agora é hóspede dos Maioranos. E descobre que Cisco pai nada tem de mexicano, com seus olhos azuis muito norte-americanos! Além de ser um gangster ameaçador, que causa medo na própria filha. E pode ser outra coisa, pois um lobisomem (é isso aí, leitor) aparece no quarto de hóspedes de Cid Espigão em plena lua cheia. Não satisfeito com essa bobajada, na volta de Espigão para Porto Alegre (o cliente e Tio Chinão já foram para os EUA), o autor faz com que todos os vizinhos do detetive estejam possuídos pela seita satânica e o cercam. Até o gato que fica na escada do segundo andar se transforma sobrenaturalmente. E Porto Alegre parece a Barcelona de Zafón, transfigurada por um imaginário para lá de discutivel: “… eu estou com medo. A cidade de Porto Alegre está contaminada: doença maligna a corrói”,  lemos na pág. 241, capítulo 22.

      Amanhã vamos para os EUA…

11.09.09- continuação da leitura de ontem:

       Nos EUA, eles procuram Randy Starr um mumificado macróbio, que os informa que Tenny Lennox era um “herói” (“Um herói não é o mais valente ou o mais nobre. É aquele que, depois de três dias numa trincheira cheia de água, sem comer nem dormir, ainda tem forças para apanhar  uma granada dos alemães e mandá-la de volta“),mas que tivera uma história trágica: “Dizem que ele tinha matado a mulher. Fugiu para o México.O México é um bom lugar para uma pessoa fugir, mas alguma coisa deu errado. Meteu uma bala na cabeça.”  E evoca os tempos de guerra, uma evocação chatíssima, aliás, mas que fornece o gancho para reforçar a idéia de Maioranos Pai é na verdade Terry Lennox, já que este fora prisioneiro dos nazistas e o latifundiário financia caçadas aos nazistas.

    Nos EUA, o trio (o cliente, o detetive e o tio folclórico) recebem nova visita de Chung Ching Chim, que passou para o lado deles. Aí então vão para um clube noturno, o Gipsi´s, onde iipera a música punk (“foram envolvidos violentamente na teia urdida pela música alucinada dos Sex Pistols”) e é nas redondezas do Gipsi´s que Cid Espigão reencontra a perigosa mulher mais bela do mundo, a Irmã Zero, e ambos vivem uma dos capítulos amoroso-sexuais mais horrendos de que já se teve notícia na ficção (eles sentem que estão numa “trégua” e fazem amor num parquinho de diversões, no barco do amor, na roda gigante, etc) e ela tira a peuca: “Era o lado verdadeiro ou que poderia ser o lado verdadeirodela, que se revelava, e era u lado extremo, desafiador, acima das leis e convenções a que estava acostumado, e que considerava  plenas e aceitas por todos”. Não se pode deixar de notar que apesar de sentimental e fodido na vida,nosso herói mesmo assim é um fodão com as mulheres, sendo objeto de desejo da Irmã Zero,da Princesa do Pantanal e até de Ximena, a irmã do cliente: “Caminharam de mãos dadas, gozando o doce prestígio de desafiar o destino, incomodados pela proximidade da manhã, escondida atrás do azul cada vez mais claro do céu. Ele comprou um sorvete de morango e uma rosa de uma menina mexicana… Tinham se amado no alto da roda-gigante, apertados na barquinha, as pernas dela apoiadas em seu ombro. Amaram-se depois, vestidos, em pé contra o muro do estacionamento, ouvindo o som do sax atravessá-los de nostalgia. Amaram-se na areia que se tornava rosa, quando no horizonte do mar apontou a primeira fímbria da manhã, dourada e vitoriosa”.

      Para arrematar essa abobrice toda, ela dá uma dica a Cid: ele tem de falar com um homem chamado Philip Marlowe. E aí  O DETETIVE SENTIMENTAL despenca ladeira abaixo. Nem vou me dar ao trabalho de resumir a participação de um envelhecido e chatinho Marlowe nessa sequência americana.  Ele surge na pág. 274 (num asilo) e só nos livramos dele na pág. 329 (nesse ínterim, Randy Starr foi eliminado e Cisco Maioranos Júnior sequestrado).

    Tio Chinão volta para o Brasil  e Cid Espigão vai para o México de ônibus, a partir do capítulo 32 (e eu já achando o livro interminável, enfadado ao extremo). Vem então o pior: durante a viagem todos os passageiro se tornam gordos imensos, as mãos do detetive sentimental começam a esverdear e seus braços viram cobras (justificando a capa da edição da Record, aliás). Ele é expulso do ônibus suspeito de rir (já que todos são gordos), e vaga pelo deserto, até ser levado para uma povoação onde um curandeiro centenário, emprestado talvez de Castañeda, lhe propõe uma jornada existencial rumo a uma pirâmide, para se livrar da “maldição”. Apesar de achar tudo um porre, fui lendo achando que as bizarrices prosseguiriam de uma forma ou outra e eis que, para minha estupefação, Tabajara Ruas utiliza o manjadíssimo recurso de fazer toda essa parte mexicana ser um pesadelo ocorrido durante a viagem (um pesadelo de leitura que vai da  pág.330 até a 387). No México, conversando com um corcunda, ele apura mais fatos sobre o passado de Cisco Maioranos Pai, que agora temos quase certeza ser Terry Lennox, como se isso tivesse o menor interesse.

     E agora voltamos para Porto Alegre… Estou na pág. 400 e o vizinho hippie de Cid Espigão aponta uma arma para ele, levando-o para um carro dirigido pela parceira da Irmã Zero, a Irmã Um…

11/09/2009

O “Outro” de Roth: JOHN UPDIKE

COELHO CONTINUARÁ (1932-2009)

 

 john-updike1

    Nas últimas décadas, John Updike e Philip Roth foram os dois grandes rivais ao título de maior escritor norte-americano vivo, em carreiras paralelas, ambos prolíficos e brilhantes. Guardadas as devidas proporções, um pouco como Tolstói e Dostoiévski na Rússia do século XIX. Agora, com a morte de Updike esta semana, com certeza o judeu Roth deve estar se sentindo mais sozinho no mundo, sem a sua “sombra”, seu Outro protestante.

    Updike publicou em diversas áreas, entretanto não há dúvidas de que se destacou como um mestre do romance. Quando eu o li pela primeira vez (O Golpe), achei-o tão ruim que me chocou a afirmação de alguém (já não lembro quem) de que era um escritor tão bom quanto Flaubert. Por isso, demorei um pouco para reconhecer que a afirmação não estava tão longe assim da verdade, mas aí tive a sorte de me ocupar com uma série de belíssimos romances (Coelho corre, Roger´s Version, O sabá das feiticeiras).

    Sua grande realização foi a tetralogia a respeito de Harry Angstrom (da qual boa parte da crítica não gosta), na qual faz um retrato definitivo da 2ª. metade do século nos EUA: Coelho corre (1960), Coelho em crise (1971), o sensacional Coelho cresce (1981) e Coelho cai (1990). Há um epílogo em forma mais breve, numa coletânea de histórias, Coelho se cala (2000), que eu não li ainda. Não quero ficar órfão do Coelho tão cedo…

       Nessa linha, há os admiráveis Casais trocados (este, de 1968, apresenta certa irregularidade, que é preciso relativizar para o leitor brasileiro, já que foi mal e porcamente traduzido e editado) e Na beleza dos lírios (1996), este talvez seu romance mais bonito (talvez seja o meu favorito), ao acompanhar uma família durante um século, da perda de fé de um pastor até a estranha conexão entre fundamentalismo e armas que sustenta uma parcela do triunfalismo da ideologia norte-americana. Essa perda da transcendência e o vácuo espiritual em que nos movimentamos também geraram romances como Um mês só de domingos (1971), Roger´s Version (1987; Pai Nosso Computador, aqui no Brasil!!!??), S. (1988) e o recentíssimo Terrorista (2006). Não se pode esquecer também do seu “quase romance”, seu momento “quase Roth”, Bech no beco, cuja última versão é de 1998, e que eu também não terminei, não querendo ficar órfão de Bech tão cedo…

    De vez em quando, Updike fazia experimentações: escreveu o incompreensível O centauro (1963), criou um país africano em O golpe (1978), fez uma atualização da história de Tristão e Isolda ambientada no nosso país (Brazil, 1994), recriou as vidas de personagens de Hamlet, em Gertrudes e Cláudio (2000). Honestamente, algo desandou nesses textos (porém, o livro mais chato que li dele foi mesmo Memórias em branco- Memories of the Ford administration, de 1992), apesar do capricho da prosa; o bom era ver que ele não sossegava, sempre procurava novas estratégias, como se tentasse fugir do mundo sufocante do seu Coelho que corria, entrava em crise, crescia, caía e depois se calava. Em 1984, essa fuga do realismo e ao mesmo tempo as obsessões updikianas se uniram num livro maravilhoso e original, O sabá das feiticeiras, do qual extraíram o filme As bruxas de Eastwick, só que estamos num território totalmente diferente daquele em que Jack Nicholson pode exibir seu histrionismo repetitivo em meio a efeitos especiais um tanto gratuitos. Humor, densidade, a vida nas cidadezinhas americanas, o vazio espiritual, experimentação ficcional, tudo transforma esse sabá num superior exercício de literatura.

    E agora, Philip Roth? Dostoiévski fica sem Tolstói (invertendo o que aconteceu com a dupla russa). Bech num beco sem saída?

(resenha publicada em 31 de janeiro de 2009)

 John-Updike-in-1966-001

A LIÇÃO DO MESTRE

Pouco antes da morte de John Updike (na semana passada), a Companhia das Letras lançou um dos seus derradeiros romances, Cidadezinhas (2004), ótima introdução ao seu universo. Na verdade, parece que estamos vendo a já clássica tetralogia do Coelho em “ponto pequeno”, condensada, eivada de um tom menos ácido e cáustico, mais voltado para o elegíaco, para reiterar sua obsessão com o materialismo e a prosperidade (que se traduz em consumismo exacerbado e crise de valores) de certa parcela provinciana ou suburbana da classe média, ligando-os a uma perda de inocência da civilização norte-americana (ele acreditava realmente nisso, e quem não aceitar essa noção de inocência embasando o sonho americano nunca apreciará as obras desse escritor-ícone dos EUA).

138_bi_cidadezinha_g

    Cidadezinhas percorre um espectro temporal muito similar ao da vida de seu autor (nascido em 1932) e alterna dois tempos narrativos: num deles, na atualidade, Owen Mackenzie é um septuagenário que vive na cidadezinha de Haskells Crossing com sua segunda esposa; despertares, sonhos, a relação do casal vista através dos sinais de declínio físico, fazem com que o relato escorre para o outro tempo e então acompanhamos Owen desde a sua infância numa cidadezinha decadente da Pensilvânia, seu envolvimento com a incipiente informática nos anos 50 (sua próspera carreira será atrelada ao desenvolvimento do mundo virtual), suas primeiras experiências sexuais numa sociedade basicamente puritana, seu primeiro casamento, sua instalação na cidadezinha de Middle Falls (“não era nenhum lugar em particular, o que a tornava triunfantemente americana”.), onde transcorre a maior parte da ação, seu primeiro adultério e daí adiante seu mergulho no carnal knowledge (o título original do famoso filme de Mike Nichols, Ânsia de Amar), através das mais diversas mulheres.

    Updike use vale da fórmula clássica do romance de formação (que Goethe consagrou com seu Wilhelm Meister), dotando seu protagonista de uma “ingenuidade”, às vezes exasperante, mas que permite encarar cada contato e experiência como uma iniciação (no amplo sentido da palavra). No final, ficamos conhecendo Owen Mackenzie (e a sociedade à sua volta) de uma forma mais real e completa do que qualquer pessoa que possamos encontrar na vida. É preciso dizer também que o amor pelos detalhes do autor de Casais Trocados faz com que certas páginas (felizmente, poucas) sejam cansativas (ainda mais porque ele quer fixar cada ato sexual de Owen como o maravilhamento de alguém expandindo seu imaginário, como ritos verdadeiramente iniciáticos, pormenorizando-os à exaustão), ainda que não haja uma sequer em que não encontremos uma formulação luminosa, um exemplo da melhor prosa de ficção que se pode escrever, pelo menos no meu entender.

    Assim, mesmo para o apreciador da obra de Updike e para o qual não apresenta surpresas (a não ser as estilísticas), Cidadezinhas funciona como uma síntese desse eterno ir e vir entre graça, tentação e queda. Sexo, sexo, sexo: “algo tão arriscado, com tamanho potencial de vergonha e humilhação. A humilhação fazia parte do êxtase, talvez: era ser abaixado como um balde dentro do poço negro da biologia, sabendo o tempo todo que a corda continuava no lugar, o dia claro da sociedade aguardando lá no alto”.

__________________________

[resenha publicada em 7 de fevereiro de 2009]

Terrorista+(vers%C3%A3o+brasileira)

Updike: Flaubert Up to date

O MESTRE DA MESMICE FOSCA DO CODIANO

     Em 1960, uma obra-prima, Coelho corre, deu largada à famosa série de romances que a princípio interrompeu-se em 1990, com Coelho cai, ganhando há pouco tempo seu epílogo definitivo: Coelho se cala. Paralelamente a essa monumental realização, a cada década, John Updike apresentava uma memorável reflexão ficcional sobre a perda de transcendência (seu grande tema) no contexto da sociedade norte-americana: nos anos 70 foi Um mês só de domingos; nos 80, Roger´s version (aqui no Brasil, Pai-Nosso Computador, dá para acreditar?); nos 90, Na beleza dos lírios. Parece que na década em curso o lugar será preenchido por Terrorista.

    Nele, aos 74 anos, um dos mais sérios candidatos ao disputadíssimo título de maior escritor em atividade nos EUA, ousa entrar na pele de um rapaz de 18 anos, com ascendência árabe por parte do pai (e irlandesa, pela mãe) e ver sua pátria pelos olhos dele, ao contrário dos vovôs que descreve no livro, os quais “tendo renunciado a qualquer pretensão à dignidade, se expõem ao ridículo com roupas justas de muitas cores e estampados diferentes… Já próximos da morte, esses idosos americanos abrem mão do decoro e se vestem como crianças de colo”. É uma paisagem espiritual desoladora aquela na qual se movimenta Ahmad Ashmawy, em New Prospect, arredores do Coração de Satã, a metrópole que perdeu suas torres. E é uma pena que Updike tenha escolhido um título tão infeliz, já que o predestinou ao reducionismo temático (e por certo à desconfiança: quem esse wasp pensa que é, propondo-se a discutir e, pior, representar em palavras, a fé islâmica, pensarão alguns) que o termo “terrorista” suscita. De fato, Terrorista conta como Ahmad, possuído pelo conceito de jihad, aceita conduzir um caminhão cheio de explosivos a serem detonados no Lincoln Tunnel. Não obstante, é muito mais o vácuo da vida contemporânea, a falta de perspectiva, o materialismo grosseiro que parece ter se tornado o ar que respiramos, a onipresença da televisão, da propaganda, do consumo, a solidão e indiferença mútuas até de membros da mesma família (vivendo como “ovos que se tocam de leve, mas cada um contendo sua própria vida”; aliás, esse último aspecto permite a Updike uma das cenas mais lindas do romance: a última conversa entre o mártir voluntário e sua mãe), o que escancaramos ao acompanhar Ahmad: a civilização ocidental que perdeu o decoro.

    Em 2007, o paradigma dos romances modernos, Madame Bovary, completa 150 anos. Não poderia haver melhor homenagem a ele do que comentar o mais legítimo seguidor de Flaubert na atualidade, tanto da sua capacidade de criar com pormenores extremos o mundo chapado da mediocridade quotidiana, quanto do impulso (e talento genial), paradoxalmente inverso, de atingir o poético com esse material tão desprovido de Graça (no amplo sentido da palavra). E é por isso que um romance que coloca o dedo na ferida da hora, a ameaça terrorista e a severidade fundamentalista como resposta ao capitalismo, deserto versus mercado, atinge seu ponto alto numa cena de amor, quem diria, entre adolescentes contemporâneos, e quem diria que eles poderiam ainda gerar lirismo e mesmo assim parecer tão reais para o leitor, inclusive na sua linguagem limitada? Charlie Chehab, o homem que aproxima Ahmad do seu destino, quer que ele perca a virgindade antes da missão que lhe cabe, e o presenteia com os serviços de uma jovem puta, que é ninguém mais ninguém menos do que Joryleen, paixão do candidato a terrorista durante a high school. O que se passa entre eles (“Você pode acabar sendo a coisa mais próxima de uma noiva que eu vou ter na vida”), o desalento que nos dá quanto ao futuro de ambos e dos jovens em geral, porém a intensidade da beleza do encontro deles, já faz valer a leitura de Terrorista.

___________________________________________

[resenha publicada em 28 de julho de 2007)

updike

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.