BLOG DO ALFREDO MONTE

26/08/2009

A FICÇÃO MACULADA (pela necessidade de “fazer estilo”)

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immaculada ampliada

AUTORA ESTREANTE ERRA AO TENTAR

                              “FAZER BONITO” NA PROSA

 

     Immaculada, da tradutora e dicionarista Ivone C. Benedetti aparece nas livrarias com uma capa (não bastasse o título inócuo) que certamente não ajuda esse romance de estréia. E quando contei a trama, alguns amigos acharam-na batida e cheia de chavões: após ser traído pela esposa (que comete adultério com o cunhado) e ficar viúvo de forma suspeita, Francisco, instado pelo pai, Evaristo, pede a mão da encantadora Immaculada (que tem apenas 10 anos) aos pais, para dali a cinco anos. Tudo em nome dos negócios, pois há interesse em terras, que aproximam as duas famílias. Apesar de uma paixão adolescente por um imigrante, Paolo (usado num enredo de vingança pela irmã, Annunziata, preceptora de Immaculada), o casamento de conveniência é realizado e atravessa a ditadura getulista, terminando em desastre.

    Porém, eu defendo o livro enquanto folhetim: mesmo não trazendo nenhuma novidade, acho que ela soube não apenas criar um grupo de personagens como também conduzi-lo através da década em que transcorre a história. A narração em geral é competente e os diálogos são bons. Então por que a resolveu seguir por uma rota-titanic, que só poderia dar em naufrágio?

    A questão é que Ivone C. Benedetti não quer apenas contar uma história de forma interessante e bem narrada. Ela quer fazer estilo, quer tirar poesia da prosa, esquecendo-se que há uma poesia da prosa em todos os bons romancistas (afinal, traduziu Balzac). Por causa dessa ambição, temos, então, trechos horrendos e risíveis, em que parece que temos um parnasiano ou um Afrânio Peixoto psicografados, como o seguinte: “Francisco entrou. Deitou-se na cama. As bochechas ainda queimavam incendiadas de vinho. Puxou Immaculada pela cintura, que se deixou carregar com docilidade nunca vista. Francisco puxava para si uma vestal cobiçada por outros homens. Tirou-lhe a combinação, e ela se deixou acariciar, beijar, mas não só. Também amou em arroubos tempestuosos, atirando-se ao coito como se atira à terra a chuvarada de verão, em bátegas incontroláveis. A vestal despiu-se de messalina”; ou jogos de palavras tolos, por exemplo: “Suástica, foice e martelo. Foi-se o martelo” e “As de Dantas não eram chegadas, eram cheganças, sempre prolongadas e agitadas, como danças”!!!??? O que é isso, leitor?

    Benedetti parece seguir, infelizmente, a receita de Nélida Piñon, a nossa Sherazade do Paraguai, autora de romances pretensiosos e ruins, embora habilíssima em marketing pessoal. Há trechos inteiros com toques piñonescos (e, portanto, subliterários): “preferia as horas em que podia fechar os olhos, mas sem dormir. Esses eram os momentos de alinhavar histórias, bordar desfechos”; “Vasculhava gestos e olhares como quem remexe gavetas à meia-noite, sem saber se quer mesmo achar o que procura e, se achando, tira o que achou de baixo dos trastes”.

    Immaculada resulta então um tanto frouxo e amorfo, não convencendo nem como romance histórico ou de confrontos ideológicos, nem como romanção, nem como romance intimista ou experiência de linguagem. Há material para um bom romance tradicional, na minha opinião, e creio que uma soda cáustica no preciosismo ridículo, na afetação, já daria outra cor à sua tela. Pois ela precisa se decidir, se quer fazer bonito no estilo (no pior sentido do termo) ou fazer ficção (que, a meu ver, seria sua salvação). Pois ainda não está fazendo nenhum dos dois. Há um trecho onde se afirma que Immaculada não quer que lhe roubem a “coerência das fabulações”. Ivone C. Benedetti deveria estar vigilante quanto a isso também. Seu casamento de conveniência com a arte de contar histórias pode ser tão desastroso quanto o da sua heroína.

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(resenha publicada em 25 de agosto de 2009)

 

               ANOTAÇÕES DE 18 DE AGOSTO

       A experimentada tradutora e dicionarista Ivone C. Benedetti estréia agora na ficção com IMMACULADA, que mereceu uma caprichada edição da WMF Martins Fontes, quanto ao tratamento do texto, paginação, etc,  que infelizmente não se refletiu na escolha da capa. Sendo romance de autor desconhecido, o título já não ajuda muito, é sem graça e inócuo, e uma capa expressiva seria essencial. Porém, a montagem de imagens feita por Rodrigo Rodrigues dificilmente chamará a atenção do leitor incauto. Esperemos que numa próxima edição, escolham outra.

     Li as cem primeiras páginas e posso garantir: Benedetti é uma narradora hábil, certamente entende do riscado: estou no ponto em que Francisco, o personagem principal, viúvo convicto, instado pelo pai, Evaristo, e pelo sócio Carlinhos, pede a mão de Immaculada (que tem apenas 10 anos e um encanto infantil) aos pais, para dali a cinco anos, quando ela fizer 15 anos. Tudo em nome dos negócios, pois há interesse em terras, que aproximam as duas famílias. No entanto Helena, mãe da menina (belíssima mulher, pela qual Francisco tem forte atração) é contra o compromisso, e quer que a própria Immaculada decida no seu aniversário de 16 anos, que seria em maio de 1933, o que situa o momento em que estou na trama em 1928.

      Isso se passa em São Paulo, onde Francisco é advogado e quer investir em construção civil. O pai é meio contra, insistindo na eternidade da prosperidade do café (que, sabemos, entrará em derrocada no ano seguinte).

          Dois anos antes,  Francisco também se dedicava à vida de fazendeiro. Filho mais novo de Evaristo, puxara a mãe em aparência e comportamento. O filho mais velho, que herdou o nome do pai, é um traste, sempre envolto em problemas de sedução de mulheres.

       Francisco teve de viajar a negócios e quando voltou, surpreendeu o irmão com a esposa (os fatos são mais complicados e cheios de meandros, só estou pincelando os pontos principais da trama). O irmão foi mandado para uns cafundós, a esposa devolvida à família, com a recomendação de que fosse enfiada num convento. Como na sua tentativa de fuga (pois estamos numa época em que o marido poderia matar a adúltera “para lavar a honra”), Lucinha machucou o pé, chamaram uma curandeira local para tratar dela. A curandeira vaticinou que ela deveria se manter longe dos rios. Dito e feito: pouco tempo depois, Francisco recebe a notícia de que está viúvo, a mulher afogou-se. Mas por ser motivo de risota e escárnio, prefere abandonar a fazenda e dedicar-se ao exercício do direito, contrariando o pai. Aliás, contrariando a função meramente familiar do curso que seguira:

“Vinte e sete anos de vida, advogado que não advogava, advogado moldado para as necessidades da casa.

__A família está precisando de alguém entendido em leis. Conhecimento que jauda nos negócios e na política…”

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         Afirmei que Benedetti era habilidosa e entendia do riscado. Basta ver a cena em que Francisco surpreende “um homem” dentro de casa (aquele que depois saberemos ser seu irmão). A seqüência de eventos já proporciona ao leitor a descrição da moradia, afora a mentalidade de um homem como Francisco:

“… viu um vulto cortar a luz da lua que penetrava pelo vitral dos fundos. Era um homem! Francisco, com o coração em sobressalto, pôs a mão na cintura. Estava sem o revólver! A arma estava no escritório, que ele tinha fechado antes de viajar. A chave estava na mesa de cabeceira. Não podia perder tempo… resolveu segui na direção do vulto, mas passando pela porta do quarto do casal, pôs a mão na maçaneta: a porta estava trancada. Quando voltou a olhar para o corredor, o vulto tinha sumido. As portas, simétricas e enfileiradas, corredor afora, estavam todas fechadas. Qual delas abrir? E como abrir sem estar armado? Pensou em descer as escadas correndo e chamar Geraldo ou Bento. Mas enquanto isso o homem fugiria. Por onde? Por alguma janela. Qual? As da frente eram altas demais. e quem pulasse por alguma de trás se esborracharia na telha-vã do puxado da cozinha ou em leno pátio, na frente da casa de Geraldo. Mas por aquela janela da ponta da casa era fácil, a janela do quarto de hóspedes, janela que dava para uma sacada, sacada que dava para um gramado. Desceu as escadas correndo. Quantas vezes tinha imaginado que por lá qualquer um poderia entrar na casa…”

       Há uma visível ambição machadiana no projeto da autora; temos uma epígrafe tirada de Quincas Borba (aliás, bárbara), muitas reflexões sobre a natureza humana e jogos de palavras. Os capítulos são curtos e com titulos irônicos e engraçadinhos. Deixem-me já adiantar que não gostei desses pequenos títulos, soam forçados e não ajudam em nada o texto. E Benedetti precisaria ter ajustado a sintonia fina do seu estilo porque às vezes, em vez de invocar Machado, ela acaba caindo na afetação forçada de uma Nélida Piñon, uma autora que eu particularmente não suporto.

      Momento feliz, sintonia fina ajustada: quando Evaristo se culpa por não ter tomado providências logo, conhecendo o filho mais velho e sabendo da possibilidade do adultério: “agora Francico  falava em sair da fazenda, em ir para São Paulo, advogar. O que seria dele sem o filho? Além d mais, com a dissolução do casamento, perdia-se o dote de Lucinha, ótimas terras na região de São Simão… E não era só isso. Havia títulos. Aquela hesitação fatal tinha sido responsável por um enorme prejuízo. Como um erro de um minuto pode custar a um homem um prejuízo de milhares de contos de réis e a anulação de anos de acertos!”

       Influência clara de Machado: “Temos quinze dia s para pensar, não adianta querer pensar tudo numa noite, vá dividindo o pensamento um pouco por dia”.

      Sintonia fina desajustada, afetação, piñonismo: “homem capaz de atravessar eras e eras políticas com o mesmo prestígio incólume e impoulo, ainda que de suas mãos emanassem cargos e cargos, como universos inteiros emanam do espírito de um demiurgo”, passagens  ‘literárias”, no mau sentido: “Ao lado do bule, o cheiro do resto do café acariciava narinas”; veja-se que trecho insuportável (contrastando com a bela discussão sobre Voltaire e a propriedade de terras): “as pontas dos galhos da árvore em frente. Com a brisa fria batendo, eles ora se estremunhavam ora se retorcia, parecendo braços de afogados a lhe mandarem mensagens cifradas… No mistério das entranhas, os sentimentos já não brotavam como fonte cristalina da argila da razão. Era um borbotão de cloaca”. !!??

         Vamos ver o que prevalece. Parei na pág. 111 e o romance tem 379.

ANOTAÇÕES DE 21 DE AGOSTO

    Nunca vou entender por que as pessoas sabotam seu próprio talento. Terminei IMMACULADA. Quando contei a trama  para alguns amigos, todos acharam que é batida, muito convencional e cheia de chavões. Porém, eu defendo o livro enquanto fabulação: mesmo não trazendo nenhuma novidade, acho que Ivone C. Benedetti criou um grupo de personagens e soube conduzi-los até o fim, através da década em que transcorre a história (o grosso da trama se dá entre 1927 e 1937). A narrativa em geral é competente e os diálogos são bons. Então por que a autora resolveu enveredar por um caminho-titanic, uma rota que só poderia dar em naufrágio?

     Para exemplificar minha perplexidade, vou transcrever um trecho horrendo da página 342 (Immaculada embriagou-se um pouco, viu um homem parecido com o seu amor de adolescente, e de repente ficou mais disposta a transar com o frio e indiferente marido, Francisco, com o qual mantinha um protocolo burocrático de relações sexuais; ele, por sua vez, sustenta uma amante, Natália):

“Francisco entrou. Deitou-se na cama. As bochechas ainda queimavam incendiadas de vinho. Puxou Immaculada pela cintura, que se deixou carregar com docilidade nunca vista. Francisco puxava para si uma vestal cobiçada por outros homens. Tirou-lhe a combinação, e ela se deixou acariciar, beijar, mas não só. Também amou em arroubos tempestuosos, atirando-se ao coito como se atira à terra a chuvarada de verão, em bátegas incontroláveis. A vestal despiu-se de messalina”

    O que é isso? Que vocabulário é esse? Já disse que às vezes Benedetti lembrava o lado mais horroroso (haverá um que não o seja?)  da “preciosa ridícula” da nossa literatura, Nélida Piñon (que resultou em livros ruins e pretensiosos como A república dos sonhos ou A casa da paixão; o que li de melhor dela foi o paródico A força do destino). Só que o trecho acima ultrapassa qualquer fronteira, lembra até os momentos mais bizarros de uma Cassandra Rios (as descrições sexuais do delicioso Macária, por exemplo), e, pior, lembra aqueles escritores que já despertavam risotas e casquinadas em sua época, como Afrânio Peixoto ou Coelho Neto.

    Autran Dourado afirmou que teve de se despir da mania de querer “escrever bem”, ser um artífice do estilo para poder ser um ficcionista de verdade. E em outras ocasiões, eu já tratei de alguns escritores nossos que falseiam seus romances  com um estilo laborioso e artificioso: além de Nélida, tivemos já José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e a ficção sempre forçada de Mário de Andrade. Isso não é uma receita, claro, uma fórmula, que sirva para todo mundo: dois grandes escritores, nada afeitos a “compor romances”, assim o fizeram, através de uma linguagem única. São romances atípicos, peculiares, estranhos, porém são geniais. Refiro-me aos romances de Cornélio Penna e aos de Clarice. Quem pode resistir ao mistério de A menina morta ou A maçã no escuro?

    Voltemos ao caso Benedetti. O tempo todo ela quer caprichar na sua prosa, quer que ela não seja mera narrativa. E vemos trechos como o já citado ou então trocadilhos que, faça-me o favor… Exemplo (na página anterior à do trecho citado acima): “Suástica, foice e martelo. Foi-se o martelo”!!!??? Ou anteriormente (na pág.203): “As de Dantas não eram chegadas, eram cheganças, sempre prolongadas e agitadas, como danças”!!!??? É uma pena.

    Veja-se em contraste, um trecho de um diálogo entre pai e filho (Evaristo e Francisco), antes do aparecimento de Immaculada na história, que mostra as potencialidades da autora:

Evaristo:  “…que bobagem é essa de se preocupar se os empregados riem ou não? Você tem autoridade aqui? Tem ou não? Tua palavra é lei, sim ou não?”

Francisco: “Meu pai, já não estamos no tempo da escravidão.”

Evaristo: “Não é questão de escravidão nem de meia escravidão. De um homem na sua posição ninguém há de rir. Isso não existe! Isso não  pode existir!”

Francisco: “Pois existe, meu pai. Pois existe! Essa gente toda que nos rodeia só esconde as garras enquanto é mais fraca. No dia em que puderem, nos matam… E enquanto não podem matar, riem…Nós estamos rodeados de estrangeiros e de filhos de escravos…” (p.38)

     Ou então um momento de ação narrativa simples e competente (em 1931, quando Francisco incautamente vai a um comício comunista): “…a multidão não estava compacta, mas não era muito fácil abrir caminho. Enquanto rumava para a entrada da XV de Novembro, ouvia gritos esparsos de ´Apoiado`. Chegando lá, tentou enveredar pela rua, mas não conseguiu. Algum pega-pega na esquina, um aglomerado denso impedia a passagem. Não enxergou direito o que acontecia. Percebendo aquela assuada masculina entremeada de gritos femininos, teve a idéia de desviar pela rua Direita. Também ali a multidão se aglomerava. Tinha andado uns trinta metros quando alguém gritou: ´A força pública!´ Começou o corre-corre: uns corriam da praça, outros para a praça. Francisco tentava não correr. Dez passos adiante levou uma trombada brutal e cambaleou para trás. Mas não caiu porque antes levou um tranco nas costas, que o empurrou para o lado e, aí sim, lhe deu um tombo. Ele logo se levantou e, assustado, foi amparar-se na parede da direita. Encostado nela caminhou até a reentrância da primeira porta que apareceu e lá se refugiou…”(p.157). Isso sim é exercício de prosa narrativa, e além disso, é o gancho para que Francisco conheça o fascista Alfonso Molinaro, cuja trajetória (e de outros ex-colonos da fazenda) vai às vezes se entremear ao enredo principal (o casamento de Francisco e Immaculada) nos anos 30, no cadinho político da era getulista.

     E na mesma pág. 203 onde há aquele jogo de palavras infame, que já citei, há um momento folhetinesco interessantíssimo, pois uma das encarregadas de vigiar a virginal Immaculada, a italiana  Annunziata (que está lendo,não por acaso, O Conde de Monte Cristo), ouve, sem querer, um diálogo em que os pais da menina ridicularizam seu próprio pai que havia presenteado a patroa da filha com uns sapatos chinfrins. E aí Annunziata concebe o plano de fazer com que o irmão, Paolo (por quem Immaculada se apaixonou), desonre a pupila, destruindo assim o casamento com Francisco, que salvaria financeiramente a família (uma das cláusulas para a efetuação do casório seria um exame médico que atestasse a virgindade). Nesse passo do romance, Benedetti me lembrou os melhores momentos de uma romancista tradicional muito talentosa, Colleen McCullough (não tenho nada contra, muito pelo contrário, Pássaros Feridos ou Uma obsessão indecente):”Annunziata, ali, impercebida, sentiu uma dor que só conhecem as crianças e os que se lembram da infância: a dor de ouvir falar mal do pai… Para tais dores só há dois remédios: choro ou vingança” (p.204). É a minha parte favorita de IMMACULADA, principalmente porque revela  a índole de proprietária, bem próxima a de Evaristo e de Francisco, de Helena, a mãe. Ao saber da tentativa de sedução, manda um capanga executar o irmão de Annunziata friamente (não contarei aqui o que acontece de fato).

 

 

BREVE ANTOLOGIA DE MOMENTOS PIÑONESCOS, o querer fazer “literatura”, que roubam da autora “a coerência das fabulações”, e em que se misturam o preciosismo, o mau gosto, o ridículo e o chavão:

“preferia as horas em que podia fechar os olhos, mas sem dormir. Esses eram os momentos de alinhavar histórias, bordar desfechos”;

“Francisco tinha medo de Paris porque nunca tinha sonhado”  (p.127)

“do seu ânus [a escolha do termo já é deplorável, se ela queria um trecho escatológico, inclusive para definir certos aspectos da personalidade “anal” de Francisco, deveria perder esses preciosismos, porque “cu” é bem preferível a “ânus”] jorrou um jato pútrido que foi rebentar contra a borda do vaso sanitário, poluindo suas paredes e espalhando um charco abominável por grande parte da casa… enquanto o intestino amotinado saraivava merda sanguinolenta para dentro do vaso, o estômago enfuriado tratava de expelir onde quer que fosse tudo o que ainda restasse dentro de si…” (p.170)

“Immaculada hesitava. Na verdade, não queria buscar os quadros. Mostrar suas obras àquele homem era como mostrar-lhe a alma.” (p.190)

“Marília… Alma viril de frade em forma feminina” (p.294)

“Vasculhava gestos e olhares como quem remexe gavetas à meia-noite, sem saber se quer mesmo achar o que procura e, se achando, tira o que achou de baixo dos trastes” (p.306)

  

    Devo dizer também que a parte em que Immaculada fica meio ao deus-dará na sua casa, após a dissolução do casamento, isolada de todos, sem empregadas, convivendo apenas com a amiga da infância e o filho desta (que é filho de Paolo, o irmão de Annunziata, e que Immaculada toma como protegido, deixando-lhe até a fazenda de herança) me lembrou, para pior (só faltou a criança ser uma menina), aqueles momentos “huis clos” entre mulheres meio enlouquecidas pelo sofrimento que a sociedade patriarcal lhes impingiu do superestimados romances de Toni Morrison (Amada, Paraíso).

    Enfim, comparações à parte, IMMACULADA acaba não convencendo nem como romance histórico (pois fica tudo muito frouxo), nem como romanção (ao qual ela não tem coragem de dar fôlego, apesar de “estar tudo ali” para tanto), nem como romance intimista (já que a linguagem nunca tem a profundidade necessária para isso, congelando-se na afetação e no arremedo de imagens), nem como experiência de linguagem. Há material para um bom romance, na minha opinião, e creio que uma soda cáustica no preciosismo ridículo já daria outra cor à sua tela. Pois ela precisa se decidir, se quer  fazer estilo (no pior sentido do termo) ou fazer ficção (que, a meu ver, seria sua salvação). Pois ainda não está fazendo nenhum dos dois.

 

 

anos 20ParaKiki

18/08/2009

resenhas sobre Vargas Llosa: MEIO SÉCULO GLORIOSO E UM GOSTO PELA TOTALIDADE

RESENHAS SOBRE VARGAS LLOSA

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           Jekyll ou Hyde  ? A propósito de LITUMA NOS ANDES

 

    A literatura não é uma ciência lógica, por isso a figura de Mario Vargas Llosa propõe essa estranha e desconfortável equação: uma personalidade pública que jamais conseguiria meu voto, quanto mais minha admiração, a julgar pela sua plataforma política, afeita à untuosidade do neoliberalismo, e um escritor absolutamente admirável.

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    O  mais recente romance desse dr. Jekyll & mr. Hyde da América Latina, Lituma nos Andes, reaproveita um dos inconquistáveis, o grupo de amigos cujas conversas eram um dos múltiplos planos narrativos do maravilhoso A Casa Verde (1965), ambientado no litoral e na selva. Agora, o cabo Lituma (também presente em Quem matou Palomino Molero?, de 1986) está em Naccos, lugarejo que continua a existir devido à difícil construção de uma estrada. Esses ermos, essas alturas andinas, já haviam derrotado o protagonista de História de Mayta (1984), o último projeto ambicioso de Llosa antes de Lituma, e que aliás causou polêmica e reações negativas, mas mantém intacta sua força dez anos depois.

    Lituma e Tomasito, seu auxiliar, averiguam o sumiço de três sujeitos que poderiam ter sido executados por guerrilheiros do Sendero Luminoso (os “terrucos”) ou, como vai ficando mais provável (ainda que implausível), sacrificados aos “apus”, antigos espíritos dos cerros, numa conspiração orquestrada pelo depravado e sinistro casal de cantineiros, Dionísio e Adriana.

    Aprofundando ainda mais o painel romanesco que vem compondo do Peru (com dimensão universal) desde Batismo de fogo(1962), Llosa mostra ironicamente como Lituma, “autoridade oficial” em Naccos, é um arremedo da lei e da ordem em meio ao caos, andino e cósmico: uma paisagem avassaladora, que pode desmoronar a todo instante (o que de fato ocorre, numa das melhores passagens do romance); uma luta política que vitima até incautos turistas franceses; uma ritualização da violência e da animalidade, que remonta aos mais primevos costumes humanos. Não à toa, Dionísio tem o nome do deus grego da embriaguez e do desregramento cujas festas e carnavais foram a origem da tragédia.

    Em Lituma nos Andes tudo é degradado, há uma paródia do mítico e do aventuresco: até o relato (um dos muitos que compõem o romance) da ação heróica do primeiro marido de Adriana, Timóteo, que liberou o povoado dela de um “pishtaco” (uma modalidade andina de vampiro) e que poderia lembrar as façanhas de um Teseu ou Perseu, fica deformado pela escatalogia, pois ele marca seu caminho no antro do monstrengo não com um fio de ariadne ou qualquer outro dos nobres recursos mitológicos, mas com seus próprios excrementos.

    Está em discussão, na verdade, utilizando o avassalador isolamento andino, é a derrocada da frágil razão ocidental diante do irracionalismo e de uma crescente barbárie, concomitantemente à falência das grandes ideologias universais. Tudo é equacionado pela violência, tão opressiva e atordoante no livro quanto a paisagem. Llosa não nos poupa nem do canibalismo, passando por um terrificante massacre, efetuado pelos “terrucos” de vicunhas, os adoráveis e espertos (e muito malfadados) bichinhos que servem para alguns imbecis espécimes da raça humana ostentarem uma sanguinolenta elegância, e por uma frenética dança na qual o momento triunfal consiste em arrancar cabeças de patos vivos.

    As conversas constituem boa parte da narrativa e evidenciam, claro, a marcante influência de Faulkner, mestre no recurso. Pode-se até argumentar que o grande escritor peruano está repisando esse e outros artifícios narrativos que fizeram de Conversa na Catedral (1969) um dos grandes romances do século. Não importa: Lituma nos Andes vai crescendo na leitura e na memória  deixando no ar a dúvida se é a porção Jekyll ou a porção Hyde que engendra esses romances perturbadores e poderosos.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em treze de setembro de 1994)

 

    O Peru anda em destaque por causa do ressurgimento inesperado da guerrilha Tupac Amaru no episódio da embaixada do Japão. Na década de 70, fizeram muito sucesso no Brasil os livros do peruano Mario Vargas Llosa. Alguns poderão dizer que devido ao fato de estarmos em plena ditadura o leitor brasileiro estava ávido por radiografias de países em que situações similares (ou piores). Ainda mais porque praticamente não tivemos obras literárias comparáveis às dos hispano-americanos nesse período, com as exceções de praxe.

    De todo modo, Vargas Llosa continuou a produzir grandes romances após os anos 70 (basta lembrar de A guerra do fim do mundo, História de Mayta, O Falador,  Elogio da Madrasta, Lituma nos Andes) e pense-se o que se quiser de seus posicionamentos políticos, ainda hoje é um dos maiores ficcionistas do mundo. Por isso, é interessante acompanhar a iniciativa da Companhia das Letras de oferecer ao leitor dos anos 90 novas versões dos seus livros de Llosa lançados por aqui na época da ditadura, começando pelo seu primeiro romance cômico, o implacável Pantaleón e as visitadoras, agora numa versão da mais-que-competente Heloísa Jahn (a anterior, de Remy Gorga, Filho, publicada pela Nova Fronteira, continua em circulação). Assim, podemos verificar se literariamente tais livros sobreviveram ao clima ideológico da época, ou ficaram datados irremediavelmente.

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    No caso de Pantaleón, cuja publicação original se deu em 1973, o leitor fique tranqüilo. É ainda um delicioso exercício de ironia. Nele, mostra-se como o exército peruano resolve criar um serviço de prostitutas, as “visitadoras”, para os soldados em ativa na selva. É uma necessidade imperiosa: os guardiões da pátria acabam passando em armas as moças locais e até as senhoras casadas, estuprando-as e desgraçando-as.

    O escolhido para ser o encarregado das visitadoras é o honesto e competente capitão Pantaleón Pantoja, que tem de se mudar com a família par a selva, contratar as prestadoras desse serviço patriótico, organizar os horários e escalas de visitação, numa missão extremamente detalhada em relatórios burocráticos, mas que não lhe serve em nada em termos de apresentação social, pois tem de tomar a aparência de um cafetão e freqüentar os antros de Iquitos, a cidadezinha amazônica onde transcorre a ação do livro.

    E como levar a sério relatórios conscienciosos nos quais as relatadas têm alcunhas como Peitinhos, Chuchupe ou Peludinha? Paralelamente, cresce a figura do místico exaltado, irmão Francismo, e sua pregação da martirização, como contraponto da carreira do capitão proxeneta, martirizado pelo cumprimento do dever:

“É verdade que o senhor passava pessoalmente pelas armas as candidatas ao Serviço de Visitadoras?”

“Fazia parte do exame de qualificação, meu general. Para verificar aptidões. Eu não podia me apoiar no testemunho dos meus colaboradores. Havia constatado a existência de favoritismos, subornos.”

“Não sei como o senhor não acabou tuberculoso. Ainda não cheguei a uma conclusão se o senhor é um bobalhão angelical ou um cínico de primeira grandeza.”

    Talvez o grande achado do livro seja a figura do capitão Pantaleón Pantoja, com sua impecável folha de serviço e a disposição de fazer tudo do modo mais severo e organizado possível. Pois a degradação social e moral dele e de sua família (a qual sequer tem o direito de morar na Vila Militar), por conta do serviço de atendimento que ele tem de fornecer ao exército, permite a Llosa mostrar como uma instituição pode queimar o que tem de melhor, de mais digno e mais sério, para apaziguar, reprimir e submeter os aspectos rasteiros e baixos do ser humano, e que vêm à tona de uma maneira ou outra.

    Não pense o leitor que vai se deparar com algo tipo Dona Anja e quejandos, onde uma pálida sátira convive com apelações duvidosas. Llosa é um mestre da construção romanesca (e estava no auge da maestria, é só lembrar que Pantaleón e as visitadoras veio logo após o formidável Conversa na Catedral) e mostra os desdobramentos da decisão do exército em criar o serviço urgente de visitação por meio dos mais variados recursos (diálogos simultâneos, cartas, memorandos, relatórios). E, permeando tudo, o humor corrosivo (que até então não era praxe na sua carreira), mas suficientemente humanista para fazer desse capitão, desse bobalhão angelical, ridículo e patético (se não for um cínico de primeira grandeza, embora pareça mais cínica uma instituição que o usa e destrói, uma instituição que cria, como contrapartida do seu arbítrio, místicos e guerrilheiros exaltados, que às vezes podem surpreender até o neoliberalismo triunfante dos nossos dias) um personagem de primeira grandeza.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em sete de janeiro de 1997)

 a festa do bode

    Sem contar seus magistrais romances de outras décadas (muitos dos quais reeditados pela Companhia das Letras em novas versões), Mario Vargas Llosa, o maior ficcionista vivo da América Latina, nesses anos 90 que estão por terminar publicou dois livros magníficos: Lituma nos Andes & Os Cadernos de Don Rigoberto.

    Longe da atividade política, da qual participou numa espécie de surto neoliberal constrangedor, ele ousa agora, em A festa do bode [lançado pela ARX, ex-Mandarim], insistir num filão que parecia já esgotado: o retrato de um ditador latino-americano, no caso o Generalíssimo Trujillo, o Bode, o qual tiranizou durante trinta anos a República Dominicana até ser assassinado em 1961.

    Llosa narra o último dia de vida de Trujillo. Além disso, variando o foco narrativo, narra a vida dos seus assassinos, a maioria dos quais acabou sendo torturada durante meses e depois executada em meio ao processo de transição da ditadura trujillista para a “democracia” (ou algo remotamente parecido), trabalho delicado de ourivesaria realizado por Joaquim Balanguer, que de presidente-fantoche de Trujillo passa a presidente de fato.

    Para costurar a estrutura narrativa, conta-se a volta para a República Dominicana, trinta e cinco anos depois, de Urania, a filha de um ex-colaborador de Trujillo, o senador Cabral, que no momento do assassinato estava “em desgraça” dentro do Regime. Urania odeia o pai porque ele a usou como instrumento para se reabilitar com o Bode: como o “Pai da Nação”, mesmo aos 70 anos, gosta de deflorar mocinhas, Cabral se deixa convencer a enviar a filha de 14 anos para ele, duas semanas antes da sua execução.

    A Festa do Bode é bem-vindo numa época em que se começa a esquecer a horrível desmoralização social que as ditaduras militares trouxeram para a América Latina, e da qual mal se recupera; numa época em alguns já sentem “pena” de Pinochet, como se ele fosse um velhinho comum. O que passou, passou? Não. Nunca. Jamais. Porque não devia ter acontecido.

    Em compensação, o livro deixa a desejar nos seus procedimentos narrativos: Llosa sempre se destacou no “chorus line” dos romancistas latino-americanos que retrataram ditaduras por sua genial capacidade de manipular o tempo na narrativa, de forma a justapor várias situações cronológicas diferentes num mesmo entrecho. Esse virtuosismo se empobrece em A Festa do Bode. Há vários focos narrativos, porém eles não constroem uma visão prismática dos fatos (como os romances anteriores, extremamente complexos). Quando um personagem dá lugar a outro, apenas reitera os mesmos acontecimentos, de forma diferente. Quando se pensa na riqueza que os múltiplos focos e versões davam a livros como A cidade e os cachorros, A casa verde, Conversa na Catedral, Pantaléon e as visitadoras, A guerra do fim do mundo ou Lituma nos Andes…ou então na impactante maneira como Llosa fingia, em História de Mayta, seguir os procedimentos do romance-reportagem, do chamado “jornalismo literário”, para depois informar (ao próprio personagem-título) que inventara e distorcera deliberadamente várias informações e detalhes biográficos, subvertendo a pretensa objetividade jornalística…

    Nem por isso, o novo romance deixa de ter momentos poderosos, entre eles o capítulo que mostra Pedro Livio, um dos executores de Trujillo, no hospital ao qual foi levado em função de ferimentos no tiroteio (numa patetada absurda, foi um de seus companheiros que o feriu), sendo torturado pelo chefe da inteligência de Trujillo, Johnny Abbes, numa situação claustrofóbica, sem saber se o golpe foi bem sucedido ou não.

    Também, por mais que já se tenha lido descrições de tortura, as do livro são, ainda assim, impressionantes (e pensar que há uma parte da população nostálgica com relação à truculência militar). E há a figura ambígua do Presidente Balanguer, a mostrar como as chamadas “transições para a democracia” foram feitas a um custo terrificante. Mais que tudo, porém, o romance é um grande libelo contra os EUA e a sua interferência que, segundo seus interesses do momento, faz com que apóie ou dissolva regimes de exceção.

    E a prova maior que a habilidade de Vargas Llosa não se esgotou, mesmo que ele pareça convicto de que o leitor atual não tem mais paciência ou concentração para complexidades narrativas, está no fato de que nem os mais consagrados best sellers conseguem o ritmo veloz e o suspense que ele imprimiu ao seu romance. O autor deste artigo não gostaria que um dos maiores escritores do mundo competisse com Michael Crichton, Tom Clancy, Jeffrey Archer ou similares. Se, todavia, for esse o rumo dos ventos na carreira do autor de A Festa do Bode, com certeza superará a todos eles.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em três de outubro de 2000)

Cartas_a_um_jovem_escritor

Dois grandes escritores, Milan Kundera e Mario Vargas Llosa, tiveram suas reflexões sobre o ato de escrever publicadas no Brasil em 2006: A cortina e Cartas a um jovem escritor. Ambos acabam de ser preteridos, mais uma vez, pelo comitê que atribui o Nobel. O vencedor foi Orhan Pamuk que, a julgar apenas por um livro,O castelo branco—o qual desanimou o responsável por esta coluna de conhecer outros do autor turco—, comprova  a preferência do prêmio literário mais famoso pelo “quase”, raramente pelo pleno (uma exceção notável foi Harold Pinter, ano passado).

    Cartas a um jovem escritor nos remete, a partir do título, ao clássico Cartas a um jovem poeta, de Rilke, o grande poeta do século 20 ao lado de T.S. Eliot e Fernando Pessoa. Não é a primeira vez que Vargas Llosa escreve sobre  ficção. Um dos seus mais belos livros, A orgia perpétua, é um estudo sobre Madame Bovary, e ninguém escreveu nada melhor sobre Flaubert. Em Contra vento e maré há análises brilhantes sobre Camus, Sartre e Simone de Beauvoir. No recente A verdade das mentiras ele aplica o método que preconiza no seu livro epistolar: usar exemplos concretos, mostrar que uma teoria da ficção só vale mesmo no exercício da exemplificação.

    E é nesse exercício que comprovamos a generosidade do escritor peruano.  Ele se revela um grande leitor dos seus próprios pares latino-americanos: Cortazar, Garcia Márquez, Juan Carlos Onetti, Guimarães Rosa, Juan Rulfo, Alejo Carpentier, entre outros, dos quais utiliza exemplos não só com destreza, mas também com um respeito e interesse pelo universo autoral alheio que por si só já vale como lição para qualquer jovem escritor ou leitor.

    Os bons romances, os de peso, não parecem contar uma história, mas nos fazer vivê-la, compartilhá-la, graças à persuasão de que se acham dotados”.

    A modéstia impediu Vargas Llosa de incluir entre os exemplos do poder de persuasão dos “romances de peso” os de sua própria autoria, uma lista impressionante, a partir de A cidade e os cachorros (também conhecido no Brasil por um título melhor: Batismo de fogo): A casa verde, Os filhotes, Conversa na catedral (provavelmente sua obra-prima), Pantaléon e as visitadoras, Tia Júlia e o escrevinhador, A guerra do fim do mundo, História de Mayta, Elogio à madrasta, Quem matou Palomino Molero?, O falador, Lituma nos Andes, Os cadernos de don Rigoberto).

    Mesmo um livro mais fraco como A festa do bode ainda assim dá ao leitor a impressão de um fôlego narrativo dificilmente igualável por qualquer outro escritor contemporâneo. Ou seja, ele preenche completamente seus próprios requisitos para a arte da ficção, essa verdade da mentira, conforme escreve na sétima das 11 cartas: “Em todo romance existe um ponto de vista espacial, um ponto de vista temporal e um ponto de vista de nível de realidade e ainda que não seja muito aparente os três são essencialmente autônomos, distintos entre si, e da maneira como se harmonizam e combinam resulta aquela ocorrência interna que é o poder de persuasão de um romance. Essa capacidade de nos persuadir da sua ‘verdade’, ‘autenticidade’ e ‘sinceridade’ nunca decorre da semelhança ou identificação do romance com o mundo real em que nós, leitores, vivemos. Decorre exclusivamente da sua própria existência, feita de palavras e da organização do espaço, tempo e nível de realidade que ele abriga. Se as palavras  e a estrutura de um romance forem eficazes e apropriadas à história que o autor pretende tornar persuasiva, isso significa que seu texto possui um ajuste tão perfeito, uma fusão tão cabal do tema, estilo e pontos de vista, que o leitor, ao lê-lo, ficará de tal forma sugestionado e absorvido pela história que se esquecerá completamente da maneira como ela é contada, envolvido pela sensação de que aquele romance carece de técnica e de forma, de que se trata da própria vida se manifestando através de personagens, cenários e acontecimentos que nada menos são do que a realidade encarnada, a vida lida. Este é o grande triunfo da técnica do romancista: conquistar a invisibilidade, ser tão eficaz na construção da história que dotou de colorido, dramaticidade, sutileza, beleza e poder de sugestão, que nenhum leitor se aperceba sequer de sua existência, pois sob o feitiço de tamanha perícia, ele não tem a sensação de estar lendo, mas vivendo uma ficção…”

(resenha publicada com ligeiras modificações em 14 de outubro de 2006)

tia julia

Dramalhão e vocação literária

 Escritos entre dois projetos ciclópicos e avassaladores (Conversa na Catedral, 1969, e A Guerra do Fim do Mundo, 1981), Pantaleão e as visitadoras (1973) e Tia Julia e o escrevinhador (1977) correram o risco de ser vistos como “tempos fracos” da obra de Mario Vargas Llosa,  meros exercícios farsescos. O tempo provou que não eram, e o leitor brasileiro pode confirmar o virtuosismo de ambos nas novas traduções lançadas pela Alfaguara.

    Tia Julia e o escrevinhador transcorre em meados dos anos 50 e alterna o relato do romance surgido entre Varguitas, 18 anos, e a irmã de uma de suas tias, Julia, boliviana divorciada de 32 anos (fato inspirado na vida do próprio Llosa e seu primeiro casamento), com os enredos  criados pelo compatriota de Julia, Pedro Camacho, o qual escreve várias novelas de rádio ao mesmo tempo e se torna uma celebridade em Lima. As duas tramas se complicam: a família de Varguitas descobre o que se passa entre ele e Julia e arma-se um complô no seio do numeroso clã para separá-los (o que os obriga a tentar o casamento em povoados provincianos, burlando o fato de Varguitas ser ainda “menor”); Pedro Camacho começa a misturar personagens de novelas diferentes, ressuscitar mortos, trocar profissões, até que, armada a mais completa barafunda, seja obrigado a matar a todos por meio de cataclismos divertidos (num dos melhores episódios, que a princípio é uma final de campeonato de futebol e depois se metamorfoseia em tourada, há lançamento de gás lacrimogêneo, multidões pisoteadas, policiais suicidando-se, amantes que só na agonia se enlaçam finalmente)…

    Esse foi o aspecto mais destacado com relação ao livro: seu mergulho no coração do dramalhão, esse fascínio pelos enredos mirabolantes e exaltados, um vôo pelo exagero do folhetim, que o torna irmão do García Márquez de O amor nos tempos do cólera, do melhor Manuel Puig (o de Boquinhas Pintadas, A traição de Rita Hayworth, O beijo da mulher aranha) e o cinema de Pedro Almodóvar.

    Só é necessário fazer a ressalva de que os supostos enredos de Pedro Camacho são escritos com o tom e a atmosfera do dramalhão, mas na verdade rompem com as convenções dos argumentos, com o decoro sexual que se esperava na época. Llosa hipertrofia as características do gênero de forma a tornar evidentes as fantasias e fetiches dos espectadores, um pouco como o Nélson Rodrigues de A vida como ela é, ou o Dalton Trevisan das seus perversos folhetins curitibanos (Virgem louca, loucos beijos, por exemplo), fazendo um bem armado contraponto à crônica de costumes da burguesia limenha representada pela família de Varguitas e o escândalo criado por Julia.

    Além disso, Tia Julia e o escrevinhador é, como A escolha de Sofia, de William Styron, uma belíssima reflexão sobre o desenvolvimento da vocação literária, que está na base do enleamento de Varguitas, candidato a escritor (e ambiciosíssimo), com a situação de Pedro Camacho, demiurgo do rádio, criador de mundos, artista medíocre e no entanto atado à mesma rotina estafante de criar, criar, criar, como um Balzac ou um Flaubert: “todas as suas horas estavam tomadas com a produção de novos roteiros: __ Se eu paro, o mundo vem abaixo —murmurou.”

(resenha publicada em cinco de janeiro de 2008)

17/08/2009

RESENHAS ROTHarianas

(acesse: www.paponaestante.com.br)

19Philip-Roth

O LEITE DERRAMADO (nada é desperdiçado em O TEATRO DE SABBATH)

 livro de roth

    Um dos aspectos fabulosos de O TEATRO DE SABBATH (EUA, 1995),de Philip Roth, é o fato de o romance ter 497 páginas (na edição da Companhia das Letras, em inspirada tradução de Rubens Figueiredo) e toda a história praticamente ser contada nas primeiras cinqüenta. O leitor fica a se perguntar o tempo todo: como Roth vai dar conta do recado (preencher e rechear as páginas que faltam)e, quando dá por si, leu o texto inteiro deliciado e maravilhado com o virtuosismo do genial escritor norte-americano.

    O TEATRO DE SABBATH mostra um artrítico ex-titereiro (isto é, manipulador de fantoches) judeu que é a chaga da cidadezinha chamada Madamaska Falls, na Nova Inglaterra. Aos 64 anos, tem uma esposa alcoólatra e uma voluptuosa, opulenta amante, a qual descobre estar com câncer. E principalmente uma reputação de obscenidade: já fora preso, nos anos 50, em Nova Iorque, por desnudar o seio de uma moça num espetáculo de rua, e é execrado por assediar uma universitária, tendo idade para ser seu avô.

    Quando Drenka (a amante) morre, Sabbath passa a ir diariamente até o seu túmulo masturbar-se (e descobre que outros amantes de Drenka fazem o mesmo). Nesse ínterim, recebe a notícia da morte de um ex-conhecido do mundo teatral (do qual Sabbath desertara há muito tempo, após o desaparecimento da primeira esposa), em Nova Iorque. Ele hesita em ir ou não prestar suas homenagens, até que, após um confronto com a atual esposa, a cerimônia fúnebre torna-se uma perspectiva atraente. E é a partir daí que Roth, como romancista, mostra que tinha todos os trunfos na manga, e pode jogar à vontade com as informações que já fornecera ao leitor, sobre o passado do seu protagonista.

     Nada, absolutamente nada, é desperdiçado no livro. Tudo oferece chance para cenas brilhantes e impagáveis, na qual Sabbath destila sua sexualidade politicamente incorreta e afrontosa. Perto dele, Larry Flint é um rapaz bem-comportado. Nunca convide Sabbath para passar a noite em sua casa, leitor. Ele pode ocupar seu tempo vasculhando a roupa íntima das suas filhas, masturbando-se com as calcinhas delas ou fazendo propostas indecentes à sua esposa.

    Demolindo a caretice e o conformismo triunfantes nos tempos modernos (e que se acreditava terem sido deixados para trás), a obra-prima de Roth faz com que Sabbath sempre fique no limite do intolerável, do inconveniente, do inapropriado. Herói de uma incipiente contracultura, nos anos 50), ele é um desconforto ambulante na década de 90, uma espécie de Rei Lear da sexualidade (não faltam alusões shakesperianas em TEATRO DE SABBATH), despojado de tudo a não ser do seu pênis. Que continua dando trabalho a todos, ao dono e as pessoas que lidam com ele.

    O maravilhoso em Philip Roth é que ele nunca cai na auto-indulgência com a sexualidade masculina (tal como um Charles Bukowski). Seu talento corrosivo não poupa o próprio discurso libertário e abusado do sexômano sexagenário, que, mesmo assim, vem trazer uma lufada de ar fresco e um tempero picante, com sua degradação e sua inconveniência, a nossos tempos de “sexo seguro” (e tudo o mais totalmente inseguro e líquido): “Sem esposa, sem amante, sem tostão, sem profissão, sem casa… e agora, para coroar tudo isso, em fuga. Se não fosse velho demais para voltar para o mar, se seus dedos não estivessem aleijados, se Morty tivesse sobrevivido e Nikki não fosse louca, ou se ele mesmo não fosse louco também, se não houvesse guerra, loucura, perversidade, doença, estupidez, suicídio e morte, existiria alguma chance de Sabbath estar em uma situação bem melhor”.

    Philip Roth é um autor na tradição salutar de um Céline, do tipo que, sendo um rei na prosa como é, ainda assim investe boa parte do seu talento em jogar tudo aquilo que tem de ser jogado na ventilador.

    Desde O legado de Humboldt (1975), de outro grande judeu, Saul Bellow, não havia um herói tão enredado em trapalhadas e tão envolvente nos escombros da sua vida afetiva e estrepolias sexuais. Como o narrador mesmo nos diz, “os 64 anos de vida de Sabbath o haviam, muito tempo antes, liberado da falsidade do bom senso”. Sabbath possui “o talento que um homem arruinado tem para cometer imprudências.. o poder de ser alguém que nada mais tinha a perder”.  Tanto é, que perto do final, quando desistiu de cometer suicídio (para o qual estava se preparando boa parte da narrativa), por motivos que só uma leitura desse romance obrigatório (como tantos outros de Philip Roth) pode esclarecer, ao provocar o filho de Drenka, um policial, para que ele o execute, ele se resume da seguinte forma: ‘Sou um cara imprudente. Para mim, também é uma coisa inexplicável. Isso substituiu praticamente tudo o mais na minha vida. Parece constituir o único objetivo do meu ser”. Melhor para nós, leitores.

(resenha publicada  em 28 de outubro de 1997)

ENQUANTO AGONIZO

animal agonizanre

    O filme Fatal é baseado na novela que Philip Roth publicou logo depois da virada do milênio, O Animal Agonizante, título extraído de versos de Yeats (“Consome meu coração; febril de desejo / E acorrentado a um animal agonizante / Já não sabe o que é”).

    Alguns anos antes, em O Teatro de Sabbath, ele nos dera seu “Rei Lear” (se tomarmos O Complexo de Portnoy como seu “Hamlet”), a história de um sessentão politicamente incorreto, acorrentado ao desejo sexual e escandalizando os padrões puritanos. Um livro esplêndido, majestoso, de quatrocentas páginas, em que o veneno retórico de Roth atingia o seu auge. Uma das maneiras, portanto, de se abordar O Animal Agonizante é como uma espécie de reedição das endiabradas obsessões de Sabbath em ponto pequeno, em pouco mais de cem páginas. David Kepesh é (a essa altura da vida) um septuagenário que narra a uma interlocutora a avassaladora paixão sexual, oito anos antes, por uma de suas alunas num curso de literatura, a descendente de cubanos Consuela Castillo, de 24 anos, dona de um corpo opulento e grandioso. Aliás, é hábito de Kepesh (que já aparecera em O Professor de Desejo) aventuras com suas alunas, o que causa mal estar principalmente no filho, que não perdoa no pai essa sexualidade tão evidenciada e voraz (alguns diriam predatória): “Todos os anos dou um curso de catorze semanas, e durante todo esse tempo não tenho caso com nenhuma aluna.  Então aplico um truque. É um truque honesto, às claras, lícito, mas é um truque assim mesmo. Terminado o exame final, lançadas as notas, dou uma festa no meu apartamento para os alunos (…) sempre há uma ou duas que, movidas pela curiosidade, resolvem transar com um homem da minha idade, mesmo que seja só uma vez, doidas para no dia seguinte contar tudo às amigas, que vão franzir a testa e perguntar: Mas e a pele dele? Ele não tinha um cheiro esquisito? E aquele cabelo branco comprido? E aquela papada? E a barriga dele? Você não ficou com nojo?”. E assim temos uma reafirmação do potencial utópico e revolucionário (embora sob a égide individualista) dos anos 60 contrastando com a caretice e conservadorismo da vida contemporânea, onde até quem é alternativo quer ser à la mode, não quer parecer dançado ou esquisito, como na diatribe do narrador contra o casamento gay: “Se bem que agora até mesmo os gays querem se casar. Casar na igreja. Diante de duzentas, trezentas testemunhas. Espere só para ver o que vai acontecer com o Desejo que os levou a se tornarem gays. Eu esperava mais dessa gente, mas pelo visto também eles não têm senso de realidade (…) Os gays militantes querem se casar e querem ser aceitos abertamente pelo Exército. As duas instituições que eu odiava. E pelo mesmo motivo: a arregimentação”.  Um dos melhores momentos do livro é quando Kepesh relembra um grupo de moças daquela década de transformações, as Escrachadas, e seu comportamento explosivamente libertário e sem culpa, que ele atrela a uma maravilhosa digressão sobre a época colonial, em que um posto comercial, Merry Mount, escandalizava os puritanos dos arredores, “um antro de paganismo em plena Massachusets puritana, onde a Bíblia era lei”, cuja figura mais ilustre era um certo Thomas Morton, uma força da natureza, vitalista e transgressor, anatematizado pelo governador da próxima Plymouth, William Bradford, poderoso teólogo: “Tivemos que esperar  trezentos anos para voltar a ouvir a voz de Thomas Morton, nos Estados Unidos… em Henry Miller. O choque entre Plymouth e Merry Mount, entre Bradford e Morton, entre ordem e desordem, o prenúncio colonial da convulsão nacional que viria a explodir trezentos e trinta anos depois, quando finalmente nasceu a América de Morton, com miscigenação e tudo… No conflito que vem se desenrolando desde o início, os puritanos eram os agentes da ordem e da virtude piedosa e da razão certa, e o outro lado era a desordem. Mas por que ordem e desordem? Por que Morton não é o grande teólogo da ausência de regras? Por que ele não é visto corretamente como o fundador da liberdade pessoal? Na teocracia puritana, todos tinham liberdade de fazer o bem; na Merry Mount de Morton, todos tinham liberdade, e ponto final”.

fatal

         Outra maneira, ainda positiva, de encarar O Animal Agonizante é como um estudo sobre o envelhecimento e a finitude que honra a longa linhagem de donjuanismo que atravessa a literatura ocidental na Idade Moderna: “Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender isso só tem o efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não compreende nada. Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Até não muito tempo atrás, existia uma maneira pré-fabricada de ser velho, tal como havia uma maneira pré-fabricada de ser jovem. Hoje em dia nenhuma das duas funciona mais… Não obstante, será que um homem de setenta anos de idade ainda deve continuar a envolver-se com o aspecto carnal da comédia humana? Ser desavergonhadamente um velho nada monástico, ainda suscetível às excitações humanas?… Talvez ainda seja uma afronta para muita gente você não se pautar pelo antigo relógio da vida. Tenho consciência de que não posso contar com o respeito virtuoso dos outros adultos. Mas o que é que eu posso fazer quando constato que, pelo menos no meu caso, nada, nada se aquieta?” E dessa forma, Consuela, que era a princípio apenas mais uma conquista, um item de colecionador, acorrenta um agonizante e agônico Kepesh a um Desejo obsessivo, permeado de ciúme infernal, até que ele comete um erro e oferece a chance a ela de escapulir… para reaparecer oito anos depois com uma notícia-bomba…

    Entretanto, embora admire profundamente Roth e sua obra, há uma maneira menos entusiasmada, e até negativa, de encarar O Animal Agonizante. Já não é a primeira vez que eu constato que conforme vão envelhecendo, os escritores começam a perder o contato com a vida à sua volta, e sua obra passa a ser, digamos, toda escrita na defensiva, rarefazendo-se. Kepesh se apresenta como representante dos mais altos valores culturais (música erudita, literatura, ópera, pintura), e isso faz parte da sua aura donjuanesca. Ele jamais deixa de se ver como Professor (“o didatismo é o meu destino”) e isso parece empobrecer a sua visão do mundo e a sua narrativa. É incrível como uma história onde a obsessão pelo Outro (Consuela) é tão importante, que esse Outro apareça de forma tão caricata e puramente étnica (no caso, a ascendência cubana), que nunca tenhamos acesso ao seu mundo, às pessoas que o compõem, e isso aliás, se reflete em todos os níveis (com o filho, com as outras mulheres, com os conhecidos, com a cultura do final do milênio). E pior ainda: que essa incapacidade nunca seja problematizada ou venha à tona. Atilado e arguto aos desvendar as polaridades morais que se digladiam no imaginário ético-teológico da América, Kepesh/Roth não é capaz de engendrar um mínimo vislumbre (a não ser sob o prisma caricatural) que seja da América de “trezentos e tantos anos” após Morton. E por isso não é à toa que Roth reedite a atmosfera de O Teatro de Sabbath, talvez a sua maior e mais significativa obra: talvez ele seja incapaz de fazer outra coisa, a essa altura do campeonato (o que é a possível razão de que seus livros recentes se contentem em imaginar uma América em que o nazismo tenha vencido e outros temas já velhos, já gastos, já digeridos pela imaginação ocidental). Eros agoniza, e o escritor também.

(resenha publicada de forma mais abreviada em oito de novembro de 2008, com o título “O desejo e a morte”)

fatal II

ENQUANTO AGONIZO -final

 “Tenho a sensação habitual de que minha vida verdadeira já terminou e que estou vivendo uma existência póstuma”.

                              (Keats)

“Isso que o senhor está fazendo não é uma descrição, é uma caricatura, senhor Zuckerman (…) O senhor é um pessoa mais velha que andou afastada de tudo, e o senhor não sabe o que é ser jovem agora. O senhor é dos anos 50 e ele é de agora. O senhor é Nathan Zuckerman. Imagino que há muito tempo o senhor não tem contato com pessoas que ainda não se estabeleceram na vida profissional”.

fantasma sai de cena

    Não deixa de ser engraçado eu ter comentado na semana passada meu mal estar diante de uma certa desconexão de Philip Roth com a atualidade e a rarefação da sua ficção decorrente disso, e logo na seqüência da leitura de O Animal Agonizante, que motivou meu comentário (que espero não ser entendido como uma depreciação total dessa novela), dar de cara com   Fantasma Sai de Cena, romance no qual outro personagem constante na obra de Roth (já aparecera, por exemplo, nos maravilhosos The Ghost Writer-Diário de uma Ilusão & O Avesso da Vida), Nathan Zuckerman, tematiza essa desconexão e rarefação. Escritor famoso e polêmico, ele isolou por onze anos no interior, devido a ameaças de morte e à impotência sexual causada pelo tratamento de câncer na próstata (e, levando-se em conta o imaginário rothiano, imagine-se o efeito dessa condição).

    Na semana em que Bush obtém sua reeleição (em 2004), ele retorna a Nova Iorque para tentar uma intervenção cirúrgica que minimizaria a incontinência urinária que o obriga a usar cuecas de plástico e absorventes. Entra em contato com três jovens candidatos a escritor: um casal, Billy e Jamie, e um amigo (só isto?) deles, Richard Kliman, o qual pretende escrever a biografia do ídolo literário da juventude de Zuckerman, E. I. Lonoff, meio esquecido atualmente e que supostamente seria resgatado pelo trabalho de Kliman. O que revolta o narrador é que parece interessar mais a Kliman construir uma carreira literária através de revelações escandalosas (um suposto incesto cometido por Lonoff) do que resgatar uma obra de valor (além disso, apesar de ser um “fantasma” de si mesmo, Zuckerman deseja Jamie e tem ciúme de Kliman, seu possível amante). O que revolta o leitor é que os “jovens” de Fantasmas Sai de Cena não saem do nível da caricatura, e é bem justa a censura de Jamie que serve de epígrafe a este artigo.

    Outra personagem importante do romance é Amy Bellette, judia sobrevivente da Segunda Guerra (poderia faltar?), um “fantasma” que se recusa a sair de cena: amante de Lonoff, enquanto ele escrevia seu último livro (nunca publicado), ela é assediada por Kliman, que extorquiu (ou roubou) os originais, e nunca tem certeza do que acontece ou não devido a um tumor no cérebro. Para ela, sua vida se resume aos anos que viveu com o escritor-guru. Zuckerman pergunta a ela: “Como é que uma pessoa vive tanto tempo só de lembranças?” Mas, segundo a própria Amy, Lonoff fala com ela o tempo todo: “Nós conseguimos resolver muito bem o problema dele ter morrido. Agora somos diferentes de todo mundo e muito parecidos um com o outro”.

    Fica claro então nessas “sobrevidas” patéticas e erráticas, o que Fantasma Sai de Cena está colocando em cena mais uma vez: o animal agonizante: “O fato de eu haver permitido que esse encontro ocorresse me fazia sentir tão desprotegido quanto Amy, poroso, diluído, mentalmente enfraquecido a um ponto que me parecia inimaginável (…) Eu não estava à altura das exigências daquele conflito, não queria vivenciar a perplexidade que ele causava…”

     Assim como os setores mais avançados e liberais foram incapazes de deter Bush (derrota ainda mais amarga dessa segunda vez), a impotência derivativa da condição clínica estendeu-se a todos os aspectos da vida de Zuckerman: nessa semana de retorno, se vê incapaz de transformar o rumo dos acontecimentos, nem que seja em escala ínfima e pessoal. Sua própria memória começa a apresentar falhas e lacunas, ameaçando seu único vínculo forte aos 71 anos: com sua própria escrita. E soma-se a isso o sentimento de alienação geral quanto ao mundo que reencontra: “No momento em que levantei a vista, todos estavam falando em seus celulares. Por que motivo aqueles telefones eram para mim a encarnação de tudo de que eu precisava fugir? Eles representavam um progresso tecnológico inevitável, e no entanto, em sua abundância, eu via o quanto eu me afastara da comunidade de meus contemporâneos. Isto aqui não é mais o meu lugar, pensei. Minha carteira de sócio havia expirado. Vá embora (…) Toda aquela confusão em Nova Iorque havia tomado pouco mais de uma semana. Não há lugar mais mundano, mais aqui e agora, do que Nova Iorque, cheia de gente falando ao celular e indo a restaurantes, tendo casos amorosos, procurando emprego, lendo as notícias, sendo consumida por emoções políticas, e eu havia pensado em voltar do lugar onde me refugiara para retornar a vida urbana reencarnado, reassumindo todas as coisas de que havia decidido abrir mão —amor, desejo, brigas, conflitos profissionais, todo o confuso legado do passado— e, em vez disso, como num filme mudo em ritmo acelerado, passei pela cidade por um rápido momento e mais que depressa voltei para casa. Tudo que acontecera fora que algumas coisas quase haviam acontecido, e no entanto retornei como se coisas imensas tivessem acontecido. Na verdade, eu não havia tentado fazer nada, apenas permaneci imobilizado por alguns dias, cheio de frustração, como um joguete num conflito implacável entre os já-era e os ainda-não [isto é, entre os velhos e os novos].

    Aniquilado em seu “papel de macho”, assombrado pela ameaça de perder o último reduto (já seu último romance fora uma luta contra a deterioração mental), Zuckerman opta por uma estratégia pungente: reduz sua escrita a cenas esquemáticas, um diálogo entre um Ele e uma Ela (Jamie, mas também a Mulher em geral), em que diz tudo o que está interdito nos compromissos sociais. Um verdadeiro grito de agonia que deixa o leitor perplexo diante da ruindade das cenas, em contraste com o cuidado e apuro com que o resto do texto é construído (sempre um dos encantos da leitura de Roth). Antes, ele discutira a guinada de Lonoff de contos exatos e burilados para o romance que acabara com sua existência: “Ele começou a escrever de uma maneira totalmente diferente da habitual. Antes ele tentava omitir o máximo possível. Agora ele queria incluir o máximo. Achava que o estilo lacônico era uma barreira e no entanto odiava a nova maneira de escrever que adotara. Dizia: é chato, não acaba mais, não tem forma, não tem plano”. O triste recurso do diálogo esquemático e interminável, chato, não acabando nunca, sem forma e sem plano, é como se Zuckerman/Roth estivesse nos dizendo que está amarrado à roda de suplício da literatura. Assim como os últimos filmes de Scorsese se retiraram da vida real e se reduziram ao culto do cinema, a literatura se tornou o único referencial em Roth. A carne é triste, e li todos os livros, já se disse. A carne é triste na impotência, nos diz Zuckerman, e só tenho os livros para escrever, mesmo que se tenha perdido “mala de truques de escritor” (roubei esta expressão de outro grande judeu americano, E. L. Doctorow), mesmo que as palavras que se reduzam a um monólogo disfarçado em diálogo, a um balbucio, a um estertor.

(resenha publicada de forma abreviada em 15 de novembro de 2008 com o título “O escritor agonizante?”)

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13/08/2009

Vários romances num só: CONVERSA NA CATEDRAL

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      Não tem jeito, mesmo, é preciso mais que 24 horas para ser leitor e viver os compromissos do dia a dia, por isso prorroguei o LEITURA DA SEMANA de CONVERSA NA CATEDRAL. Já reli 3/4 do romance, no entanto hoje acrescentarei apenas uma resenha-homenagem publicada em “A Tribuna” em 11 de agosto:

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       O MEIO SÉCULO DA CARREIRA DE VARGAS LLOSA

                                    E SEU PONTO ALTO

Este ano, o peruano Mario Vargas Llosa (aos 73 anos) comemora meio século de carreira (iniciada com a publicação da coletânea Os Chefes; o primeiro romance apareceria em 1962: A cidade e os cachorros), ocupando o topo entre os romancistas hispano-americanos. Não há quem se lhe compare em virtuosismo, recursos técnicos e amplidão. Mesmo que seus últimos romances (A festa do bode; Travessuras da menina má) não estejam entre suas maiores realizações, são indiscutivelmente hábeis e envolventes e O paraíso na outra esquina ainda guarda o sopro do melhor Llosa.

    A Alfaguara, felizmente, vem publicando novas traduções de seus livros, inclusive do formidável A guerra do fim do mundo (1981), e a ARX acaba de lançar nova edição da versão de Wladir Dupont para sua obra máxima, Conversa na Catedral (1969). A capa é um espanto de feiúra e erro: apresenta dois jovens conversando numa mesa, como se o romance tratasse de um bate-papo entre mauricinhos. Mas ela não é tão esdrúxula quanto a orelha da lavra do próprio tradutor (o qual cometeu vários deslizes e erros de interpretação ao longo do texto; por exemplo, na pág. 268, Amália está admirando o dormitório da amante de Cayo Bermúdez, chefe de segurança da ditadura do General Odría nos anos 50, Hortênsia, e não de sua antiga patroa, Dona Zoila, como ali aparece; o erro é endossado poucas linhas depois): ele simplesmente resume de forma errônea a história do livro que traduziu! É difícil, certamente, verter um texto para outra língua e ao mesmo tempo prestar atenção no seu enredo.

    Disparates à parte, Conversa na Catedral é muito complexo: Llosa usou e abusou dos seus recursos como narrador, fazendo com que o seu painel da corrupção e desmoralização geral do período odriísta seja acompanhado por meio de diálogos intercalados (misturando várias situações), solilóquios, discursos indiretos livres (quando se confundem o discurso do narrador e do personagem) diálogos estratégicos. O principal deles, que dá título ao livro, é na espelunca Catedral, após o reencontro inesperado entre o protagonista, Santiago Zavala e o antigo chofer da sua família (o pai dele, don Fermín, ocupava uma posição importante no regime de Odría, até cair em desgraça), Ambrósio (amante da já referida Amália e que compartilha com Fermín um segredo estrategicamente enovelado pela narrativa). Quando se reencontram, os dois estão “ferrados” na vida: Zavalita  afundou-se numa medíocre carreira de jornalista e Ambrósio, que chegou a ser chofer e capanga de Cayo Bermúdez, mata cachorros a pauladas no canil municipal. Seu bate-papo agiganta-se até se tornar um afresco do Peru (“não era um saco de gatos este país, menino, não era um quebra-cabeças formidável o Peru? Não era incrível que odriístas e os apristas que tanto se odiavam agora fossem unha e carne, menino? Que é que seu pai diria disso, menino?… Um redemoinho interior, uma efervescência no fundo do coração, uma sensação de tempo suspenso e pestilento”), envolvendo uma gama balzaquiana de personagens. Entre eles, destaca-se Cayo Bermúdez, o homem forte do regime, com sua cara inexpressiva, sua figura apagada e miúda, e sua capacidade de corromper e vigiar a todos. Vargas Llosa já contou como surgiu essa figura fascinante, inspirada na impressão que teve numa audiência, quando estudante, de Alejandro Esparza Zañartu: “era o homem mais odiado do regime… conseguiu um eficiente sistema de delações e informantes que acabou permitindo que a ditadura durasse oito anos —provavelmente não duraria tanto sem ele. Eu me impressionou muito quando o vi: era um homem insignificante, que mal sabia se expressar e que transmitia a impressão de uma grande mediocridade. E pensar que esse homem concentrava semelhante poder!” A banalidade do Mal.

    Quando Vargas Llosa ganhará o Nobel?

 

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“Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas idéias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história”.

         Essas palavras  podem ser encontradas no livro de Ricardo A. Setti, Conversas com Vargas Llosa (Brasiliense, 1986). Embora haja uma verdade profunda nelas, creio que também é possível declarar que Llosa é um típico representante do romance no sentido modernista: enciclopédico, labiríntico e total, no sentido joyceano, e no caso dele muito especificamente, no sentido faulkneriano. Não foram poucas as vezes em que ele se declarou um admirador de Faulkner, tendo usado com muito proveito suas técnicas, inclusive a técnica de fazer a história surgir de conversas, de colóquios nos quais muitas vezes os fatos se refratam em diversas versões, que se opõem e se complementam.

         Três autores, aliás, sempre apareceram muito nas entrevistas e ensaios de Vargas Llosa: duas admirações constantes, Faulkner e Flaubert, e uma relação de amor e ódio: Sartre (aliás, ele publicou um livro inteiro para se purgar do fantasma sartreano, Contra vento e maré), com o qual acabou sendo injusto, tachando seus romances de muito ruins, o que está longe de ser a verdade.

         Um dos aspectos mais relevantes de CONVERSA NA CATEDRAL tem uma feição tipicamente sartreana: além das conversas (de Zavalita com Ambrosio, que é matriz do romance; com o jornalista desiludido, literato falhado, Carlitos; também tem um diálogo entre Ambrosio e Don Fermín, entre Ambrosio e Queta), dos diálogos interpostos, da discreta narrativa em 3ª. pessoa, dos discursos indiretos livres, enfim, de toda a pletora de recursos explorados no romance, um procedimento narrativo (que Llosa praticará com muito proveito inclusive no recente O paraíso na outra esquina) é o do solilóquio que Zavalita mantém consigo mesmo e que espelha sua perplexidade, sua frustração e sua má consciência (que origina situações em que ele age de má fé, no sentido sartreano do termo, de descompasso entre sua ação e sua consciência). Solilóquio + dúvidas= Hamlet.

         Entre outras, a leitura de CONVERSA NA CATEDRAL me fez sonhar (um dos muitos projetos que já acalentei) em perseguir num estudo o arquétipo de Hamlet na ficção da modernidade, encarnado especialmente em intelectuais e artistas. O próprio Mathieu de Os caminhos da liberdade (a trilogia de Sartre formada por A idade da razão, Sursis & Com a morte na alma, que eu acho sensacional, malgré o que Llosa possa dizer contra seu antigo mestre),  e também os heróis e heroínas de Os mandarins (Simone de Beauvoir), Sem olhos em Gaza (Huxley), O jogo da amarelinha (Cortazar), O carnê dourado (Doris Lessing), O lobo da estepe (Hesse), só para ficar em alguns poucos exemplos notáveis. Mas voltemos ao nosso amigo Zavalita, que começa a participar nem sabe bem por que nas reuniões clandestinas do Partido Comunista peruano (ainda que como “simpatizante”) quando se torna amigo de Aída e  Jacobo (o caso é que ambos são apaixonados por Aída e Jacobo utiliza as reuniões clandestinas para separar Aída e Zavalita e se aproximar dela). Vejamos algumas passagens:

“Tinha sido nesse segundo ano [na universidade San Marcos], Zavalita, ao ver que não bastava aprender marxismo, que também fazia falta acreditar? Provavelmente o tinha fodido a falta de fé, Zavalita. Falta de fé para crer em Deus, menino ? Para crer em qualquer coisa, Ambrosio… O pior era ter dúvidas, Ambrosio, e o maravilhoso poder fechar os olhos e dizer Deus existe, ou Deus não existe, e acreditar… Então a vida se organizaria sozinha e a gente já não se sentiria vazio, Ambrosio.”

“… e isso o preocupava tanto, Zavalita? dizia Aída. E Jacobo, se de todas as maneiras ele tinha que começar acreditando em algo era preferível crer que Deus não existe a crer que existe. Santiago também o preferia, Aída, ele queria se convencer que Politzer tinha razão, Jacobo. O que o angustiava era ter dúvidas, Aída, não poder estar seguro, Jacobo… As dúvidas eram fatais, dizia Aída, paralisam-no e você não pode fazer nada, e Jacobo: passar a vida esmiuçando será verdade? torturando-se será mentira? em vez de agir… Para agir, era preciso acreditar em algo, dizia Aída…”

“Sempre mentindo, a vida toda fingindo… No colégio, em casa, no bairro, no Círculo, na Facção, em La Crónica. Toda a vida fazendo coisas em que não acreditava, toda a vida dissimulando… E toda a vida querendo acreditar em algo. E toda a vida mentira, não acreditando.”

“Tinha se dedicado furiosamente a ler, a trabalhar no Círculo, a acreditar no marxismo, a emagrecer.”

“Eu já invejava as pessoas que acreditavam cegamente em alguma coisa, Carlitos”

“E se você tivesse se inscrito naquele dia, Zavalita, pensa. A militância o teria arrastado, comprometido cada vez mais, teria dissipado as dúvidas e em alguns meses ou alguns anos teria se tornado um homem de fé, um otimista, um obscuro e puro herói a mais? Teria vivido mal, Zavalita, como Jacobino e Aída, pensa, entrado e saído da cadeia algumas vezes, sendo admitido e despedido de sórdidos empregos e, em vez de editoriais em La Crónica contra os cachorros raivosos, escreveria nas páginas mal impressas de Unidad, quando tivesse dinheiro e não fosse impedido pela polícia, pensa, sobre os avanços científicos da pátria do socialismo e a vitória no sindicato dos  panificadores de Lurín… ou teria sido mais generoso e entrado para um grupo insurrecional e sonhado e atuado e fracassado nas guerrilhas e estaria na prisão, como Héctor, pensa, ou morto e decomposto na selva, como o cholo Martinez, pensa, e feito viagens semiclandestinas a Congressos da Juventude, pensa, Moscou, levando saudações fraternais a Encontros de Jornalistas, pensa, Budapeste, ou recebido  treinamento militar, pensa, Havana ou Pequim. Você teria se formado em Direito, teria caso, teria sido assessor de um sindicato, deputado, mais desgraçado, a mesma coisa ou mais feliz? Pensa: ai, Zavalita.”  

(04-05 de agosto)  

 Um dos fatos literários a se comemorar em 2009 são os 50 anos de carreira de Mario Vargas Llosa, que estreou em 1959 com os contos de Os chefes (que, confesso, não li ainda).    E nos últimos meses saiu  nova edição (pela ARX) da tradução de Wladir Dupont para CONVERSA NA CATEDRAL (é a segunda no Brasil, a primeira foi feita por Olga Savary). É incrível como nunca acertam nas capas: tenho uma edição da Francisco Alves, uma do Círculo do Livro e agora esta pela ARX, e todas são feíssimas e pouco inspiradas (é só ver a foto acima). A melhor ainda é a da edição anterior (de alguns anos atrás) da mesma tradução que comentarei esta semana.

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      No entanto, creio que se trata da obra-prima de Vargas Llosa, a meu ver o grande romancista da América Hispânica de todos os tempos, com uma quantidade de títulos impressionantes. Basta lembrar de A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, A casa verde, Tia Júlia e o escrevinhador, A cidade e os cachorros, Cadernos de Don Rigoberto,  livros que ficam pouco atrás de CONVERSA NA CATEDRAL; tem também os deliciosos Pantaléon e as visitadoras, Elogio da Madrasta, O paraíso na outra esquina, Quem matou Palomino Molero? , e até A festa do bode e Travessuras da menina má têm seu interesse (apesar de mais fracos). E como esquecer dos surpreendentes e inusitados História de MaytaO falador?

os chefes

     Tenho lido muito durante esses anos todos a ficção de Vargas Llosa (que também é admirável ensaísta) e creio que posso afirmar: CONVERSA NA CATEDRAL é um romance total, um daqueles livros absolutos. É uma visão caleidoscópica e assombrosa da ditadura do general Odría, que deu o golpe no Peru no finalzinho dos anos 40 e impôs um regime ditatorial por boa parte da década de 50. E Vargas Llosa o publicou em 1969 (portanto, trata-se de uma obra quarentona), quando tinha apenas 33 anos. É claro que já tinha dado uma idéia mais do que precisa da dimensão do seu talento porque os seus dois primeiros romances, A cidade e os cachorros (durante anos, conhecido no Brasil, e foi assim que eu o li, como Batismo de fogo), em 1962, e A casa verde, de 1965,  eram empreendimentos ciclópicos e singulares (A casa verde ainda se desdobraria em outros devido ao personagem Lituma). Mesmo assim, há algo de incomparável no fôlego e na impressão de totalidade que nos dá o romance que estou relendo, após muitos anos (ainda que na descuidada –em vários pontos–versão de Dupont). O único caso similar das últimas décadas que eu conheço é Fado Alexandrino (1983), um dos grandes romances de António Lobo Antunes.

    O título vem do reencontro entre Santiago Zavala, o Zavalita, com o antigo chofer da família, Ambrosio. Santiago vai ao canil municipal  porque homens da carrocinha pegaram seu cão, Batuque (como eles ganham uma miséria e por número de apreensões, às vezes não se furtam de roubar animais, ou mesmo de tirá-los à força dos donos, como aconteceu com a mulher de Santiago). A ironia é que ele, editorialista, vem escrevendo uma série a respeito da raiva e pedindo medidas das autoridades para conter o número de cães na capital. No canil, ele testemunha uma espantosa e bárbara execução de um cachorro (mas consegue resgatar o seu): dois funcionários enfiam-no num saco e o matam a pauladas. Um deles é Ambrosio. No começo do capítulo, saindo do serviço, Santiago (que acabou de fazer 30 anos) se pergunta “em que ponto se fodeu”, “em que ponto o Peru se fodeu”. E verá em Ambrosio um espelho, mais velho, numa escala social diferente, um outro tipo de derrota, de embotamento, de sensação de ter sido vencido pela vida. Aquela sensação de logro existencial que se abate sobre os personagens de Educação Sentimental (do autor predileto de Vargas Llosa, Flaubert, a respeito do qual ele escreveu o magistral ensaio A orgia perpétua), no final de suas trajetórias pelas aventuras da sua geração. A má consciência de Santiago Zavala como homem de imprensa, como marido, como peruano (depois conheceremos os sonhos de sua geração) já aparece logo no princípio de CONVERSA NA CATEDRAL.

    E “Catedral” é o nome do boteco, uma espelunca, em que ele e Ambrosio bebem durante horas, numa conversa que permeará as quase 800 páginas (na edição ARX) do romance. Um nome significativo, uma vez que o começo da revolta de Santiago contra sua classe social e sua família foi o anti-clericalismo, a repulsa pelos padres e pelo catolicismo.

    Como eu já disse, a conversa entre Santiago e Ambrosio (em torno da qual ronda um segredo bombástico sobre o pai de Santiago, que está no cerne da trama do romance), ambivalente e exasperante, permeia o romance inteiro. Mas, como é seu hábito, e uma das marcas do seu virtuosismo técnico, Llosa faz com que duas ou várias situações fiquem sobrepostas em cada passagem da narrativa. Um exemplo: no capítulo VII da primeira parte (são quatro ao todo), Ambrosio conta a Santiago como conheceu seu pai, Trifulcio; ao mesmo tempo, vemos Trifulcio no seu longo tempo de prisão (há uma cena em que ele e seus companheiros, atirando pedras, conseguem matar uma ave de rapina e toscamente assá-la, havendo uma disputa feroz pelos pedaços; também vemos como sua força é lendária, tanto que Dom Melquíades, possivelmente o diretor da prisão, traz um dos pilares do governo Odría , Emilio Arévalo, cujo filho, Popeye, será muito amigo de Santiago e casará com sua irmã, para uma demonstração), depois a libertação (ele trabalhará para Arévalo), em diálogos que se intercalam com as diligências do homem forte do governo Odría, Cayo Bermúdez para dominar os serviços de inteligência do regime e esmagar os “subversivos”; vemo-lo primeiro com militares, depois num diálogo com o homem que o chamou para fazer parte do governo (e o qual ele está visivelmente solapando e colocando em posição subalterna) e depois com civis poderosos (entre eles, Arévalo e Don Fermín, o pai de Santiago); também vemos torturadores em ação (e um dos torturados, ficamos sabendo, é Trinidad, o companheiro de Amália, a empregada da casa dos Zavala, a quem Santiago e Popeye, como autênticos playbozinhos,  tentaram seduzir numa noite em que a família estaria ausente, causando a demissão dela; ela será o grande amor da vida de Ambrosio; parte da trajetória de Amália, a mais ligada a Trinidad, tínhamos acompanhado num capítulo anterior, contudo parecia que era mitomania de Trinidad a perseguição política e sua morte misteriosa parecia indicar mais que ele era “ruim da cabeça” do que maus-tratos nos chamados “porões da ditadura”); vemos como é o encontro entre Ambrosio e Trifulcio (em que o pai tenta roubar dinheiro do filho, ameaçando-o com uma faca), vemos como Ambrosio saiu de sua cidade natal, e tendo ajudado o jovem Cayo Bermúdez a raptar sua futura esposa (que se tornou uma virago), ir à capital pedir um emprego ao poderoso Robespierre do regime Odría, como ele se transforma no chofer de Bermúdez e como se envolve com os profissionais de repressão e tortura. Tudo isso sem grandes necessidades de explicações e de narrativas muito longas e descritivas. Não, tudo através do intercalamento magistral de diálogos… Tudo puxado (neste capítulo) pelas reminiscências de Ambrosio com relação à sua mãe… O romance como exercício de virtuosismo e como cosmovisão…

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05/08/2009

Chandler após 50 anos: mestre da pulp fiction, do noir ou da boa e velha ficção em geral?

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“Havia uma porção de bugigangas orientais nas vitrines. Eu não sabia se tinham valor ou não, as únicas antiguidades que eu colecionava eram contas atrasadas”; “A casa em si não era grande coisa. Menor que o palácio de Buckingham e com menos janelas que muito arranha-céu de Nova Iorque”.

    Frases de efeito como essas são típicas de Philip Marlowe, o detetive particular canônico do noir, a feição mais consagrada que a ficção policial norte-americana adquiriu. Há 50 anos morria Raymond Chandler, que o havia criado exatamente 20 antes, em The Big Sleep-O Sono Eterno (também um clássico do cinema, na versão de Howard Hawks, conhecida no Brasil como À Beira do Abismo, a qual tornou lendária a união de Humphrey Bogart e Lauren Bacall). Das aventuras de Marlowe, as mais famosas, além da sua estréia, são Adeus, Minha Adorada (1940), A Dama do Lago (1943) e O Longo Adeus (1953), apesar dos fãs mais ardorosos nunca esquecerem de A Irmãzinha (1949)  e Playback (1958).

    Muito superior a seu rival (com o qual decerto compartilha muitas características), Dashiell Hammett, Chandler fez da região em torno de Los Angeles um espaço definido e singular, quase mítico, da literatura, com seus tiras corruptos, suas milionárias “da pá virada”, velhos ricaços com esposas bem mais jovens e de passado duvidoso (além de um apetite sexual indiscreto), traficantes, charlatães, ex-condenados. E no meio dessa desmoralização toda, o detetive sempre pobretão, perdedor, desiludido, sarcástico, sempre em apuros com a polícia e os clientes (porque nunca desiste de investigar um caso, apesar de todas as advertências), no fundo honesto e sentimental. Ele deu o tom do noir clássico: é sempre o narrador de suas próprias desventuras, catalogador suas ilusões perdidas, uma a uma.

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    Não há dúvidas de que Chandler era um grande escritor. Não conheço muito bem sua produção como contista, porém ele tinha evidentes dificuldades ao escrever romances, como mostrou de saída em O Sono Eterno, onde faz uma brincadeira: “… fiquei pensando em Harry Jones e sua história. Parecia muito certinha demais. Tinha a simplicidade austera da ficção ao invés da das tramas emaranhadas da realidade”. Acontece que não há trama mais emaranhada do que a desse romance (o roteiro do filme de Hawks, então, é sem pé nem cabeça). O meu palpite é que o criador de Marlowe não tinha fôlego de romancista (o que não tira o charme de nenhum deles), e contista experimentado, se sentia mais à vontade no episódico. Até na sua obra-prima absoluta, Adeus, Minha Adorada (que teve a sorte de ter duas belas versões: a primeira, dos anos 40, Até a vista, querida, com William Powell muito melhor do que Bogart na pele de Marlowe, para mim é o melhor noir calcado na figura do detetive particular; a segunda, dos anos 70, tem o grande Robert Mitchum envolvido numa atmosfera crepuscular), nós vemos a trama geral se estilhaçar em episódios isolados. O grande problema é que, na hora da explicação final, as pontas soltas e o material excedente ficam óbvios.

     Em O Sono Eterno, Marlowe é contratado para investigar uma chantagem que ameaça uma das duas belas e doidivanas filhas de um ricaço inválido. Há uma trilha de mortos na seqüência dessa investigação (pelo menos três), contudo o crime principal, o cerne da questão, permanece recôndito a maior parte do tempo, só assumindo sua importância na parte final. Defeito técnico (em outros esse traço se tornou um maneirismo, um artifício) ou intuição certeira? Em nossa época de fragmentação e evanescência, essas pistas que dão em nada, esses fios que permanecem soltos, esses romances que sempre têm um ar de incompletude e confusão, esses arremedos de esclarecimentos que nunca configuram uma verdade final e unívoca, e mostram que não há Sherlock que dê conta de todos os fatos, são afinal, muito modernos. Ou pós-modernos, como se queira.

(resenha publicada em quatro de agosto de 2009)

william powelladeus,minha adorada

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A SIMPLICIDADE AUSTERA DA FICÇÃO OU AS TRAMAS EMARANHADAS DA REALIDADE?

      “Toda essa história é da minha conta. Estou sendo pago pra descobrir” (Philip Marlowe)

raymond chandler & gato

“___Quanto você está recebendo por essa história toda?

___Vinte e cinco dólares por dia, mais o reembolso pelas despesas…

___E por essa quantia você está disposto a criar caso com metade da polícia dessa cidade?

___ Querer isso, eu não quero –respondi– mas o que você quer que eu faça, porra? Estou trabalhando. Estou vendendo o que eu tenho pra vender pra ganhar a vida. A pouca coragem e inteligência que Deus me deu e mais disposição pra aguentar todo tipo de pressão pra proteger meu cliente… Os tiras ficam todos irritados e rigorosos quando um cara de fora tenta esconder alguma coisa, mas eles fazem exatamente a mesma coisa todo dia, pra favorecer um amigo ou alguém que tem influência. E ainda não terminei. Continuo trabalhando no caso. Se fosse preciso, eu faria tudo de novo”.

    Esse é um diálogo do capítulo 18 de O SONO ETERNO (The Big Sleep), de 1939, o primeiro romance em que Philip Marlowe aparece. Vinte anos depois, falecia seu criador, Raymond Chandler (nascido em 1888), criado na Inglaterra, mas que fixou Los Angeles como cenário do policial noir, da pulp fiction de alta qualidade, muito antes de James Ellroy.

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     O noir tem um peso canônico na nossa cultura, em grande parte devido ao cinema dos anos 40 (e um pouco dos anos 50, sem falar nas constantes releituras), preto e branco, expressionista. Em termos da figura do detetive particular, os dois filmes paradigmáticos que sempre vêm à memória são aqueles em que Humphrey Bogart personificou o Sam Spade de Dashiell Hammett (O falcão maltês, dirigido por John Huston, em 1941, e que aqui no Brasil foi intitulado Relíquia Macabra) e o Marlowe de Chandler (a adaptação de O SONO ETERNO, dirigida por Howard Hawks em 1946, e cujo título brasileiro é À beira do abismo; foi aqui que se consolidou o casal Bogart-Lauren Bacall).

     Já assisti aos dois várias vezes e esta semana mesmo tive a oportunidade de rever o filme de Hawks, e há uma inversão quanto ao que acontece com os livros: eu não aprecio muito o romance de Hammett e acho o filme de Huston sensacional (apesar de alguns detalhes, como a improvável Mary Astor como femme fatale), embora não seja o melhor noir de detetive particular (creio que esse posto deveria ser ocupado por Murder, my sweet ou Até à vista querida, de Edward Dmitryk, com William Powell como Marlowe); acho fundamental o livro de Chandler, mas creio que o filme de Hawks se perde no caminho, apesar de sua atmosfera realmente marcante. O problema é o roteiro: ele segue fielmente até quase o final o romance, eliminando algumas coisas importantes, decerto, só que derrapa mesmo porque há a necessidade de dar a Lauren Bacall mais espaço, o que atropela a compreensão da história. Eu não sei se alguém que não tenha lido o livro algum dia pode entender a explicação para a complicada trama de À beira do abismo. Eu mesmo o vi algumas vezes e nunca entendi. Até ler o livro, que foi lançado pela Brasiliense nos anos 80 (e depois pela L&PM, ao que parece), traduzido por Paulo Henriques Britto. Toda a parte final da trama fica comprometida pelas cenas finais, após Bogart matar o famigerado Canino. A cena em que ele conversa com Bacall é sem pé nem cabeça, a não ser para registrar a tensão sexual entre os dois no filme inteiro (diga-se de passagem, não considero que Bogart esteja particularmente feliz no personagem; ele funcionou bem como Spade, mas eu não entendo que tanto sex appeal vêem nele… O que é essencial numa história em que logo nas primeiras cenas uma das personagens femininas se joga em cima dele e ele diz: “ela tentou sentar no meu colo quando eu estava em pé”; contudo, é lógico que isso é uma questão de gosto pessoal).

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    Narrado em primeira pessoa, O SONO ETERNO contraria, como todos os livros de Chandler (mas sem o quase nonsense da sua adaptação cinematográfica), uma reflexão do narrador e protagonista Marlowe no capítulo 25: “Voltei para o escritório, sentei e fiquei pensando em Harry Jones e sua história. Parecia muito certinha demais. Tinha a simplicidade austera da ficção ao invés da das tramas  emaranhadas da realidade”.

    Marlowe é contratado por um milionário (o dinheiro veio do petróleo), o inválido general Sternwood, por causa de chantagem. Acontece que as duas filhas muito jovens do velho general são da “pá virada”, principalmente a mais nova, Carmen. O dono de uma loja de livros raros, Geiger, parece tê-la fotografado como veio ao mundo, quando estava drogada e bêbada. Geiger é assassinado (por um dos amantes de Carmen, Owen, chofer da família, que depois aparece morto também); a funcionária da loja de fachada (pois na verdade é um comércio pornográfico disfarçado), Agnes, prepara um esquema com outro ex-amante de Carmen, Joe Brody, para assumir os negócios de Geiger, porém Brody é assassinado por Carol Lundgreen, o michê que vivia com Geiger (pois ele pensa que Brody é quem matou seu, digamos, protetor). A incansável Agnes se associa a outro cara, Harry Jones, que conquista a simpatia de Marlowe, mesmo carregando todo um lado patético (essa reação de Marlowe me lembrou a do narrador de Fim de Caso, de Graham Greene, com relação ao apatetado detetive que investiga as supostas traições de sua amada Sarah). E Harry Jones também é assassinado (por um tipo chamado Canino, do qual já falarei, e é preciso dizer que esse assassinato é uma das motivações para Marlowe insistir em prosseguir investigando o caso, apesar de todos os conselhos em contrário). Mesmo com essa lista nada modesta de mortos (Geiger, Owen, Brody,Jones) ainda nem estamos no veio principal da mina.

    O que toda a sucessão de mortes e perambulações de Marlowe por cinco dias (“Toquei a campainha. Eu a havia tocado pela primeira vez há cinco dias. Parecia um ano”, afirma Marlowe no capítulo 30, quando se inicia o clímax do romance, que não consta do filme de Hawks) prepara para o leitor, além de um retrato verticalizado do perfil urbano e das complicadas (e muitas vezes desmoralizadas e corruptas) relações sociais que a transformação dos pequenos povoados numa região metropolitana, em volta de uma das cidades míticas do nosso tempo, é que na verdade tudo aponta para o assassinato principal: o do marido de Vivian, a outra filha do general Sternwood (e a personagem de Lauren Bacall, que no filme açambarca ações de uma outra personagem do romance,resultando numa mixórdia incompreensível:  a Peruca Platinada, da qual também já falarei). Rusty Regan, apesar de um passado meio nebuloso e gangsteresco, é um cara simpático (conquista até o general), mas está desaparecido. A versão da polícia é que ele se envolveu com a mulher de um dos grandes nomes do crime de Los Angeles (com o qual Vivian tem relações porque joga e perde muito no seu clube), Eddie Mars  (que morre no filme, como uma espécie de vilão-mor). Duas hipóteses: ou Regan e Mona escapuliram juntos e caíram no mundo ou Mars deu cabo deles.

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     O curioso é que o general Sternwood pede a Marlowe (no início) para investigar apenas o caso de chantagem, e depois todos ficam perguntando a ele se está investigando o sumiço de Regan e meio que o desaconselhando a prosseguir nessa investigação. Quando toda aquela cadeia de mortes já citada se conclui, parece que não há razão para continuar no caso, mesmo porque recebeu 500 dólares do general e pode se dar por satisfeito. Mas… ele não engole a história toda e acontece a morte de Jones e o aparecimento do sinistro Canino, que é o principal assecla de Eddie Mars.

      Para Marlowe, Mars tem a polícia e a promotoria no bolso e Canino deu fim a Regan & Mona. Só que Agnes, a vulgaríssima e interesseira parceira de dois dos presuntos da trama vende a Marlowe a seguinte informação: que Mona está vivíssima e o paradeiro do seu esconderijo. É claro que nosso herói (numa climática atmosfera de chuva incessante) vai até o lugar, nos arredores ermos de uma fábrica que produz veneno contra rato, numa oficina onde carros roubados ganham nova aparência, e Canino o domina e o soca com um saco de moedas. E então a conhecemos, Mona, a grande figura feminina da história, a Peruca Platinada (ela a usa porque cortou o cabelo bem curtinho, para se disfarçar). É ela quem mais atiça a libido de Marlowe e o ajuda a escapar (essas ações foram atribuídas de forma absurda, se alguém se der ao trabalho de prestar atenção na história, a Vivian Sternwood, na adaptação de Hawks). Graças a ela, Marlowe acaba com Canino (em retribuição ao que fez com Harry Jones).

       Mas quem matou Regan (se Mona está viva, decerto ele estará morto)? Eddie Mars. Claro que não. Foi a doidivanas da Carmen, que além de ter ataques epilépticos, se é que o são, não suporta que nenhum cara a rejeite. Marlowe faz isso quando chega a sua casa e a encontra nua na sua cama (ele não ia comer a filha de um cliente, isso não entra na ética do detetive durão, sucessor remoto mas legítimo dos cavaleiros andantes: “Escuta aqui, disse eu, apontando o cigarro para ela. Não vá me obrigar a vestir você outra vez. Estou cansado. Agradeço a oferta. Mas é demais para mim… Sou seu amigo. Não vou fazer issso, apesar de você mesma querer que eu faça. Eu e você temos que continuar amigos, e não vai ser desse jeito que vamos continuar amigos. Agora seja boazinha e se vista, está bem?… Não é por causa dos vizinhos, eles não ligam nem um pouco. Tem muita mulher dando sopa em qualquer prédio de apartamentos, e não vai ser por causa de uma a mais que esse edifício vai cair. É uma questão de orgulho profissional. Eu estou trabalhando pro teu pai. Ele é um homem doente, muito frágil, totalmente indefeso. Ele tem uma certa confiança em mim. Você quer fazer o favor de se vestir, Carmen?).

     Quando é chamado, no final do livro, à mansão Sternwood, para se explicar ao general porque investiga o sumiço de Regan (e afinal era isso mesmo que o general queria, vá se gostar de um genro assim… e sem beijo no asfalto), Carmen o leva até as proximidades de um campo petrolífero e atira várias vezes em Marlowe (só que ele colocou balas de festim no revólver que devolveu a ela, um dos muitos detalhes de um enredo enovelado) é a repetição do que fez com Regan, só que no caso deste último os resultados foram fatais. Vivian teve de procurar ajuda e se comprometeu com Eddie Mars, que assim começou a chantageá-la e dominar sua vida. Como se vê, toca-se aqui num dos pontos do noir: a proximidade das classes privilegiadas com o submundo do crime.

     Marlowe, que no fundo tem um coração de ouro, faz um acordo com Vivian: ele não aceitará os mil dólares que o general lhe propôs para descobrir o paradeiro de Regan desde que ela interne a irmã em algum lugar, onde fique vigiada e segura, para não causar mais desgraças. Portanto, toda a cadeia de crimes e sordidez maciça que acompanhamos foi acionada pelas leviandades de uma mocinha mimada e que acha que pode tudo (um pouco como a Daisy de O grande Gatsby, guardadas as devidas diferenças, é claro), a mítica “little sister”, a irmãzinha mala sem alça, dos livros de Chandler.

     No final, sobra a pobreza honesta, a desilusão e a nostalgia erótica do único contato físico com a Peruca Platinada, Mona:

“Encostei-me nela e apertei-a contra a parede. Encostei a boca em seu rosto. Falei nessa posição:

__ Não tem pressa nenhuma. Me dá um beijo, Peruca Platinada.

      Seu rosto parecia gelo encostando nos meus lábios. Ela pegou minha cabeça e me deu um beijo forte na boca. Os lábios delas também eram como gelo.

     Saí e fechei a porta, silenciosamente, e a chuva me pegou na varanda, não tão fria como os lábios dela.”

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“O triste hábito de ser alguém”: a poesia do último (ou penúltimo) Borges

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INTRÓITO (30.06.09)

        Num dos poemas do espólio de Joseph Knecht (knecht= servo, em contraposição ao Wilhelm Meister, de Goethe; meister= patrão), protagonista de O jogo das contas de vidro (1943), “Um sonho”, vemos um visitante de um convento nas montanhas, o qual, enquanto todos estão rezando, vai à biblioteca, que possui “livros aos milhares”, pergaminhos “com inscrições maravilhosas”:

“Tomei de um livro e li:

Último passo para se encontar

A quadratura do círculo.

Este livro, pensei. levo comigo!

num outro livro, um in-quarto de couro dourado,

Em letras minúsculas se lia:

De como Adão também comeu da outra árvore…

Da outra árvore? De qual: da vida?

Nesse caso, imortal seria Adão?

Não era em vão, eu percebi, que eu me encontava ali…”

     E assim ele vai de maravilha em maravilha:

“… E comecei a pressentir,

O que cada livro que eu pegava

Vinha comprovar:

Nessa sala se achava a biblioteca

Do Paraíso; todas as perguntas

Que jamais me atormentaram,

Toda a sede de conhecimento

Que me havia queimado,

Encontrava ali sua resposta,

E toda a fome o pão do espírito.

Porque por onde quer que eu lançasse

Um rápido olhar a um volume,

Encontrava nele um título

Cheio de promessas; havia ali resposta

Para todas as necessidades, e podia-se

Partir toda a espécie de frutos

Que um discípulo jamais imaginou e desejou a medo,

A que jamais um mestre estendeu ousado a mão.

O sentido mais oculto e mais puro das coisas,

Toda espécie de sabedoria,

Poesia, ciência, a força mágica

De toda espécie de investigação,

Com sua chave e seu vocabulário,

A mais fina essência do espírito,

Conservavam-se ali em obras magistrais,

Misteriosas, inauditas,

Havia ali respostas a todas as questões

E todos os mistérios, cuja posse era o dom

Que o favores da hora de magia ofereciam…

 

Nas revelações sonhadas pelos povos,

Heranças de milênios de experiência cósmica,

Unia-se em novos laços, harmoniosamente,

Em que jogo mútuo de correlações;

Surgia em revoada toda espécie

De conhecimento de outras eras,

De símbolos, e descobertas sempre novas

De questões sublimes.

E assim, ao ler, em minutos ou horas,

Eu percorri de novo

O caminho de toda humanidade.

Apreendendeo o sentido comum interior

Das mais antigas e modernas descobertas;

Eu lia e via os vultos simbólicos da escrita

Se aparelharem, se afastarem,

Circularem, separarem-se a fluir,

Derramando-se em novas formações,

Simbólicas figuras de um caleidoscópio,

Que recebiam um sentido novo, inesgotável…”

 Ele percebe que não é o único visitante desse espetáculo deslumbrante. Ou não será um outro visitante, mas o arquivista: trata-se de um ancião, fervorosamente dedicado a uma ocupação. É preciso chegar mais próximo a ele para ver do que se trata:

“E vi o ancião, com engelhada e branda mão,

Tomou de um livro leu

O que estava escrito na lombada,

Sussurrou com lábios pálidos o título

–Um título de entusiasmar, prometedor

De horas preciosas de leitura!–

Borrou-o com os dedos, levemente,

Escreveu sorrindo um novo título,

Completamente diferente, e em seguida

Continuou a andar, tomando aqui um livro,

E um outro acolá, o título apagando,

E escrevendo outro em seu lugar.

 

Confuso, observei-o longamente,

E então , já que minha razão

Negava-se a entender, voltei ao livro

Onde há pouco havia lido algumas linhas;

Mas a seqüência de imagens

Que me encantara não mais encontrei,

E o mundo simbólico

Apagou-se e se afastou,

Esse mundo em que eu mal penetrara

E cujo conteúdo era tão rico de sentidos cósmicos;

Vacilou, correu em círculo,

Pareceu nublar-se,

E ao se esvair, nada mais deixou de si

do que o vislumbre pardacento

De pergaminhos vazios.

 

Sobre meu ombro eu senti u´a mão,

Ergui aos olhos e vi ao meu lado

O aplicado macróbio; ergui-me. A sorrir,

Ele  pegou meu livro, enquanto um calafrio

Percorria-me, e qual esponja, seu dedo

Foi borrando o título; sobre o couro limpo

Escreveu novo título, questões e promessas,

E desenhando cuidadosamente as letras

Uma a uma, sua pena deu

A velhas questões as mais modernas refrações.

Em seguida levou em silêncio livro e pena.”

      Num poema intitulado “Junho, 1968″, Jorge Luis Borges escreveu:

“…Ordenar bibliotecas é exercer,

de modo silencioso e modesto,

a arte da crítica…”

        Em outro poema do mesmo livro (Elogio da sombra), chamado “O guardião dos livros”, no qual  lemos:

“Ali estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,

A música precisa, as precisas palavras,

Os sessenta e quatro hexagramas,

Os ritos que são a única sabedoria

Que o Firmamento concede aos homens…

As secrretas leis eternas,

O concerto do orbe;

Essas coisas ou sua memória estão nos livros

Que eu guardo na torre.

 

Os tártaros vieram do Norte

em crinudos potros pequenos;

Aniquilaram os exércitos…

Mataram o perverso e o justo,

Mataram o escravo acorrentado que vigia a porta,

Usaram e esqueceram as mulheres…

O pai de meu pai salvou os livros.

Aqui estão na torre em que, jazendo,

Recordo os dias que foram de outros,

Os alheios e os antigos.

 

Em meus olhos não há dias. As prateleiras

são muito altas e meus anos não podem alcançá-las.

Léguas de pó e sono circundam a torre.

Para que me enganar?

A verdade é que eu nunca soube ler,

mas me consolo pensando

que o imaginado e o passado já são o mesmo

para um home que foi

e que contempla o que foi a cidade

e agora volta a ser o deserto.

O que me impede de sonhar que um dia

eu decifrei a sabedoria

e desenhei com aplicada mãos os símbolos?

Meu nome é Hsiang.  Sou o que guarda os livros,

que talvez sejam os últimos

porque nada sabemos do Império…

Ali estão nas altas prateleiras,

ao mesmo tempo perto e distantes,

secretos e visíveis como os astros.

Ali estão os jardins, os templos.”

ANOTAÇÕES DE LEITURA (30.06.09)

      A Companhia das Letras reuniu num único volume (singelamente intitulado Poesia)  os sete livros da maturidade poética de Borges, num período que vai de 69 a 85 (ele morreu em 86): Elogio da sombra, O ouro dos tigres, A rosa profunda,  A moeda de ferro,  História da noite, A cifra, Os conjurados.

     O volume começa em esplendor, já que Elogio da sombra (69) é um dos melhores livros de Borges. Foi um dos primeiros que li (numa edição do Círculo do Livro, que o reunia a três coletâneas de ficções, no sentido borgeano da palavra), quando adolescente: uma colega de colegial, Lúcia,  me emprestou dois livros do irmão mais velho (o outro era O eu profundo e outros eus, a conhecida seleção de poemas de Fernando Pessoa editada pela Nova Fronteira; devido a esse contato precoce, ambos, Borges e Pessoa, me ficaram desde essa época, embora não tenha entendido muita coisa, quase como “pessoas da família”, e por isso logo me acostumei com as estranhezas muitas vezes irritantes das suas obras.  Aliás, só aquilo ou aquele de que se gosta muito consegue irritar). 

     Reli-o há alguns anos quando a Globo lançou uma nova edição (ver resenha acima), e agora mais uma vez me ocupo de suas imagens quase lapidares, de suas construções paradigmáticas do que Borges tem de mágico e ao mesmo tempo de exasperante. 

     Acho que o poema de Hermann Hesse, do qual eu transcrevi a maior parte, fornece uma boa idéia da atmosfera desses 31 poemas onde o que se leu é tão importante quanto o que se viveu, e no final tudo é irrisório porque transitório, mas também é recorrente a idéia de continuidade : continuidade dos antepassados no sangue, do Israel bíblico e da tradição apátrida no país que se desenvolveu no século XX, do labirinto clássico na cidade contemporânea, da memória no esquecimento, da natal Buenos Aires nas outras cidades que o poeta percorre (“New England” termina assim: “Buenos Aires eu continuo caminhando/ por tuas esquinas, sem por que nem quando”):

“Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;

eu me orgulho das que li…

ao longo de meus anos professei

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão repletas de Virgílio;

ter conhecido e esquecido o latim

é uma posse, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu porão difuso,

a outra face secreta da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram

as vãs aparências estimadas,

os rostos e a página,

dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro

empregada por meus antepassados para cantar

espadas e solidões…”

Ou ainda num dos poemas a Israel:

“Quem me dirá se estás nos perdidos

Labirintos de rios seculares

Do meu sangue, Israel? Quem, os lugares

Por meu sangue o teu sangue percorridos?

Não importa. Sei que estás no sagrado

Livro que abarca o tempo e que a história

do rubro Adão resgata na memória

E agonia do Crucificado.

Nesse livro estás, que é o reflexo

De cada rosto que sobre ele se inclina

E do rosto de Deus, que, em seu complexo

E árduo cristal, terrível se adivinha…”

        No seu prólogo (Borges era afeito a eles, e era uma das suas estratégias favoritas para ir retocando sua imagem) desse livro que publicou aos 70 anos, o grande escritor argentino afirma que se trata do seu quinto livro de poemas. Nas obras completas pela Emecé ,(e se não contarmos também o inclassificável e fabuloso O fazedor) encontramos Fervor de Buenos Aires; Lua defronte; Caderno San Martín; O outro, o mesmo; Para seis cordas (será que estes dois últimos foram publicados juntos?). O “quinto” (ou o sexto) livro e, como já se disse (Jorge Schwartz), sua “summa” poética:

“Somos nossa memória,

somos esse quimérico museu de formas inconstantes,

essa pilha de espelhos quebrados” (“Cambridge”)

       Nessa edição que estou lendo e comentando, foram retirados três poemas (que constavam nas edições da Globo):  “Elsa” (que ficava entre os poemas “Cambridge” e “New England 1967″); “Milonga de Manuel Flores” & “Milonga de Calandria” (que ficavam entre “Acevedo” e “Invocação a Joyce”).

“Elsa”:

“Noites de longa insônia e de castigo

Que ansiavam a alba e a temiam,

Dias daquele ontem que repetiam

Outro inútil ontem. Hoje os bendigo.

Como pressentiria nesses anos

De solidão de amor, que as atrozes

Fábulas da febre e as ferozes

Auroras não eram mais que degraus

Intrincados e errantes galerias

Que me conduziriam à pura

Culminância de azul que no azul perdura

Desta tarde de um dia e de meus dias?

Elsa, em minhamão eu prendo a tua. Vemos

No ar a neve e a queremos”. (Cambridge, 67).

     Acho que o motivo da exclusão é óbvio. Nada que melindre madame Kodama.

     Já as duas milongas fazem parte agora (nas Obras Completas) de Para seis cordas.

      O primeiro dos 31  poemas restantes, “João I, 14″ (que evoca o famoso “o verbo se fez carne”) mostra um Cristo nostálgico da sua encarnação:

“Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

as noites e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva,

o odor da chuva da Galiléia”

    E a idéia de CONTINUIDADE nos avatares transitórios já dá o tom, dentro do jogo de imagens típico da obra borgeana:

“Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria”.

      A impossibilidade ou o provável também são também faces da eternidade com sua promessa:

“Um pintor prometeu-nos um quadro.

Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos  como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.

(Só os deuses podem prometer, porque são imortais).

Pensei depois se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.

Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.

(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal).

 

                     jorge_luis_borges_hotel

 (02.07.09):                                    O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu  levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim  “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

      A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

 

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

 WaltWhitman

    E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos  “Tankas”  (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

 

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

 

    “…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

      E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada  no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

 

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

 

     No poema anterior:

 

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam  de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

    Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

      Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

 

    Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

 

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

 

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

 

                              “… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

 

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu  pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

 

      Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

     Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

 

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

 

    E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

 

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

         os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

 caricatura (borges)

     Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

    Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

 

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

         que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

         esperando.”

 

      Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

 

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

 

    Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

 

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

 

     Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

 

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem  Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

 

     Não posso me furtar a transcrever parte de  “A um gato”:

 

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

 borges cugato

    E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

 

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

     A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

 

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

el oro de los tigres

                                         ,elogio_da_sombra_borges

               O PARADOXO DE BORGES: sobre “Elogio da sombra”

 

“Ninguém pode escrever um livro. Para

Que um livro seja verdadeiramente

Requerem-se a aurora e o poente

Séculos, armas e o mar que une e separa…”

 

         Assim se inicia um dos poemas do maravilhoso O fazedor (1960). Seu autor, Jorge Luis Borges (1899-1986), tinha horror da subjetividade que parece essencial ao homem do pós-Romantismo (note-se que a própria idéia de “autoria”, isto é, o que há de mais pessoal numa obra, encontra-se problematizada). Por isso, procurou instituir um clima poético que vai justamente na vertente contrária: toda a história e até a eternidade são o mesmo que um único dia (“Em um dia  do homem estão os dias/do tempo, desde o inconcebível/ dia inicial do tempo, em que um terrível/ Deus prefigurou os dias e agonias”; “Dá-me, Senhor, coragem e alegria/ para escalar o cume deste dia”), um indivíduo é toda a humanidade, e a alteridade, o eterno jogo do Mesmo e do Outro se dissipa nessa visão de mundo: “Somos esse quimérico museu de formas inconstantes/ uma pilha de espelhos rotos”, passando enquanto ficam a aurora, o poente, os séculos, as armas e o mar que une e separa, símbolo do imemorial, que foram requeridos para que Borges desse forma a outro grande livro da maturidade, ELOGIO DA SOMBRA (1969), com a mesma mistura de O fazedor de poemas  com pequenos textos em prosa.

         Não é na novidade e no surpreendente que vamos encontramos a grandeza da poesia que permeia ELOGIO DA SOMBRA. É na formulação lapidar de verdades que, justamente da maneira como são trabalhadas por Borges, parecem realmente eternas, vindas do fundo dos tempos, com um potente sopro de sabedoria. Não é à toa que ele foi co-autor de um notável e esclarecedor livro sobre Buda.

         Veja-se o lindíssimo “Heráclito”:

 

“O segundo crepúsculo.

A noite que mergulha no sono.

A purificação e o esquecimento.

O primeiro crepúsculo.

A manhã que foi a aurora.

O dia que foi a manhã.

O dia numeroso que será a tarde desgastada.

O segundo crepúsculo.

Esse outro hábito do tempo, a noite.

A purificação e o esquecimento.

O primeiro crepúsculo…

A aurora sigilosa e na aurora

a inquietude do grego.

Que trama é esta

do será, do é  e do foi.

Que rio é este

pelo qual flui o Ganges?

Que rio é este cuja fonte é inconcebível?

Que rio é este

que arrasta mitologias e espadas?

É inútil que durma.

Corre no sonho, no deserto, num porão.

O rio me arrebata e sou esse rio.

De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.

Talvez o manancial esteja em mim.

Talvez de minha sombra,

fatais e ilusórios,  surjam os dias”.

    

         Diante de um texto como esse temos de reconhecer que existe a perfeição. E que pouca coisa mudou na humanidade, em termos de especulação ontológica, desde os pré-socráticos. Não há uma única idéia nele, a respeito desse “senhor tão bonito” (como diz a música de Caetano Veloso), o tempo, que já não tenha sido expressa milhões de vezes, mas parece que todos esses milhões condensaram-se numa cifra mágica, numa formulação inexcedível.

         Leitor voraz até ficar cego (“Que outros se jactem das páginas que escreveram/ a mim me orgulha o que li”), Borges sempre concebe o contrário, o “outro lado da moeda”: “…o esquecimento/ é uma das formas da memória, seu impreciso porão…”. Outro grande poeta latino-americano, o mexicano Octavio Paz, pensando em termos de ideologia (essa coisa que tanto horrorizava seu colega argentino), exprimiu esse jogo de contrários exemplarmente ao dizer que “a  idéia fixa embebeda-se do oposto”.

         Na trama do “será, é, foi”, tudo volta a se reciclar e tudo leva de novo às fontes, pelo menos o que conseguimos conceber ou o que carregamos no sangue, como mostra o poema que eleva o sobrenome dos avós, Acevedos, ao mítico, que forma o mundo da memória:

 

“Campos dos meus avós e que guardam

Ainda o nome de Acevedo, o nosso.

Indefinidos campos que não posso

Imaginar por inteiro. Meus anos tardam

E não contemplei ainda essas cansadas

Léguas de pó e pátria que meus mortos

Viram cavalgando, esses abertos

Caminhos, seus ocasos e alvoradas.

A planície é ubíqua. Tenho-os visto

Em Iowa, no Sul, em terra hebréia,

Naquele salgueiral da Galiléia

Que palmilharam os humanos pés de Cristo.

Não os perdi. São meus. Eu os detenho

No esquecimento, num casual empenho”.

 

         Borges, o escritor que amava os paradoxos, não poderia ter inventado um melhor do que escrever um livro luminoso chamado ELOGIO DA SOMBRA.

(resenha publicada em 18 de dezembro de 2001, a respeito de uma edição da Globo com tradução dos poemas por Carlos Nejar & Alfredo Jacques). 

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     (05.07.09)

   Nos últimos três dias me ocupei dos livros de poemas que Borges publicou em meados dos anos 70 (em 75, 76 e 77): A rosa profunda; A moeda de ferro; História da noite. Fiquei encantado, contrariando a expectativa (sempre tive um pé atrás com essa fase tardia da poesia borgiana). E na verdade, acredito que História da noite é um dos seus grandes livros e os dois outros livros estão a ele (e à Macro-Narrativa borgiana) tão intimamente ligados, que mesmo o que ficou de repetitivo, de exasperante, faz parte de um conjunto “de ferro” (para utilizar uma locução adjetiva cara ao autor). Em A rosa profunda & A moeda de ferro não há nada particularmente genial ou excepcional nos poemas, mas quase todos têm uma distinção, uma dignidade que nada tem a ver com o acadêmico… E História da noite é um livro de mestre. Neles, perpassa o sopro das quatro metáforas que ele localiza nas Mil e uma noites:  a do rio (no sentido de Heráclito); a da trama do tapete;  a do sonho; a do mapa do Tempo:

 

                        “…um orbe fluido

De formas que variam como nuvens,

Sujeitas ao arbítrio do destino

Ou do acaso, que são a mesma coisa (…)

                        … a trama

De um tapete, que oferece ao olhar

Um caos de várias cores e de linhas

Irresponsáveis, acaso e vertigem.

Mas uma ordem secreta o governa.

Como aquele outro sonho, o Universo,

Esse Livro das Noites está feito

De cifras tutelares e de hábitos:

Os sete irmãos e as sete viagens.

O trio de cádis e os três desejos (…)

Como no paradoxo do eleata,

O sonho se desfaz em outro sonho

E este, em outro e em outros, que entretecem

Ociosos um ocioso labirinto.

No livro está o Livro (…)

                        … um mapa

Daquela região indefinida, o Tempo,

De quanto medem as graduais sombras

E o perpétuo desgaste de alguns mármores

E os passos de diversas gerações.

Tudo. A voz e o eco, o que miram

As duas opostas faces do Bifronte (…)

Dizem os árabes que ninguém consegue

Ler até o fim esse Livro das Noites.

As Noites são o Tempo, o que não dorme…” (“Metáforas das Mil e Uma Noites”, de História da  Noite)

 

                                                                 A ROSA PROFUNDA

                                  “No dialeto de hoje

                                  Direi, por minha vez, coisas eternas…”

 

                                  “Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

                                  Erigir este monumento…”

 

                                  “Que arco terá lançado esta seta

                                  que sou ? Que cume pode ser a meta?”

 

    Em A rosa profunda, talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos  26 poemas) é “1972”:

 

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias. 

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em  nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

 

    Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

 “Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa  e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

     Na coletânea,  há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

    E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

 “O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

 

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

 

                        “…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

 

                        …”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

    Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há  o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

    As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

 “Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

    O tigreiro Simón Carbajal:

 “Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

    A cegueira:

 “Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)  

 

    A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

     Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

 “Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”) 

    Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

                        “…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.”  (“Meus Livros”)

    Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

    E, por fim, a visão da “cerva branca”:

 “Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

 

             A MOEDA DE FERRO: “As perpétuas águas de Heráclito”

                                  “…o intrincado jogo

                                  Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”

 

                                 “Hoje somos noite e nada”

 

                                  “Eu cometi o pior dos pecados

                                  Possíveis a um homem. Não ter sido

                                  Feliz…”

 

                                  ‘A firme trama é de incessante ferro”

     São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:

 “Que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com muros baixos,

De um alto cavaleiro invadindo a alvorada

(Longo e surrado o poncho)

Em um dia qualquer sobre a planura,

Em um dia sem data.

Que não daria eu pela memória

De minha mãe contemplando a manhã

Na estância de Santa Irene,

Sem saber que seu nome ia ser Borges.

Que não daria eu pela memória

De haver combatido em Cepeda

E de ter visto Estanilao del Campo

Cumprimentando a primeira bala

Com a alegria da coragem (…)

Que não daria eu pela memória

(Que já tive e perdi)

De uma tela de ouro de Turner,

Extensa como a música.

Que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte de Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões (…)

Que não daria eu pela memória

De que tivesses dito que me amavas

E de não adormecer até a aurora,

Perdido e feliz.”  (“Elegia da lembrança impossível”).

     Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi:  “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.

    Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:

 “Pompas do mármore, árduos monumentos,

E pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas a cinza, a menor flama

Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)

 

“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,

Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia

E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia

–Minha própria versão –de facas ignorantes

E de velha coragem.) Já estremece o Canto,

Já, a custo contidas pela prisão do verso,

Surgem as multidões do futuro e diverso

Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.

Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos

Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.”  (“A Manuel Mujica Lainez”)

     Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.:  “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordandoos fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.

    Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.

     Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.

    Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.

    Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.

     Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms: 

 “Quem te honre há de ser nobre e valente.

Sou um covarde. Sou um triste. Nada

Poderá justificar esta ousadia

De cantar a magnífica alegria

–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)

    Se ainda fosse Shakespeare:

                        “… alguns séculos

E o rei volta a morrer na Dinamarca

E ao mesmo tempo, curiosa magia,

Em um tablado em meio aos arrabaldes

De Londres…” (“Os ecos”)

      Ou Espinosa:

                      “…O assíduo manuscrito

Aguarda, já repleto de infinito (…)

O feiticeiro insiste e lavra

Deus com geometria delicada…”  (“Baruch Espinosa”)

      Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:

                       “… E então sente

Com o assombro de um horror sagrado

Que também ele é um rio e uma fuga.

Deseja recobrar essa manhã

E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)

      Mas resta o consolo dos espantos singelos:

                      “não há no orbe

Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.

A mim só inquietam os espantos singelos.

Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;

Assombra-me que minha mão seja um fato certo;

Assombra-me que do grego a eleática seta

Instantânea não alcance a inalcançável meta;

Assombra-me que a espada cruel seja formosa,

E que a rosa tenha o perfume da rosa.”  (“O ingênuo”)

    Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:

 

 “Nós te vimos morrer risonho e cego.

Nada esperavas ver do outro lado,

Mas tua sombra talvez tenha avistado

Os arquétipos que Platão, o Grego,

Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe

De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)

 

    Assim como o poema a Melville:

 

“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,

Os saxões, que ao mar deram o nome

De rota da baleia, em que se juntam

As duas enormes coisas (…)

Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos

Viram em alto-mar as grandes águas,

Já o havia desejado e possuído

Naquele outro mar, que é da Escritura (…)

…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)

Melville cruza nas tardes New England.

Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)

 

    Ou o sonho com Kafka:

 

“Ela era a companheira de Kafka.

Kafka a sonhara…

Ele era o amigo de Kafka.

Kafka o sonhara…

A mulher disse ao amigo:

Quero que esta noite me queiras…

O homem lhe respondeu: Se pecarmos,

Kafka deixará de sonhar-nos…

Kafka disse a si mesmo:

Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.

Deixarei de sonhar-me”.  (“Ein Traum”)

 

    Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.

    Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.

    De “Para uma versão do I-Ching”:

 “A firme trama é de incessante ferro.

Porém em algum canto de teu encerro

Pode haver um descuido, a rachadura.

O caminho é fatal como a seta,

Mas Deus está à espreita entre a greta”.

 

     E do poema-título:

“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos

As duas contrárias faces que serão a resposta

Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:

Por que um  homem precisa que uma mulher o queira?”

    Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.

                             HISTÓRIA DA NOITE: O QUE A MEMÓRIA CONCEDE

 

                                       “…A memória

                             Me concede esta estampa de um livro

                             Cuja cor e cujo idioma ignoro…

                             Às vezes sinto medo da memória.”

 

                             “…no tempo repetem  uma trama

                             Eterna e frágil, misteriosa e clara”

 

                             “As coisas são seu porvir de pó.

                             É óxido o ferro. A voz, o eco”

 

    Contrariando seu apego por prólogos, essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

     De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

 

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.”  (“Buenos Aires, 1899)

 

    A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

    “Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

     Em “Leões”:

 

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

 

    Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote  (“Eu nem mesmo sou pó”):

 

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

 

    Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

 

 

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.”  (“Um livro”)

 

    E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

     No  poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

 

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

 

    Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

    Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

     Para terminar, o poema-título  (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

 

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

 

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(o6.07.09)

“…se a memória me devolve um verso,

repito o ritual inumeráveis

vezes em meu assinalado rumo.

Não posso executar um ato novo,

teço e torno a tecer a mesma fábula,

repito um repetido decassílabo,

torno a dizer o que outros me disseram,

as mesmas coisas sinto, sempre à mesma

hora do dia ou da abstrata noite…

Sou o cansaço de um espelho imóvel…”

 ****

                                       “… certo homem

feito de solidão, de amor, de tempo,

acaba de chorar em Buenos Aires

todas as coisas.”

                      NA “DELICADA PENUMBRA DA CEGUEIRA”

 

“Oh, dias consagrados ao inútil

empenho de esquecer a biografia

de um poeta menor do hemisfério

austral, a quem o fado ou os astros

deram um corpo que não deixa um filho

e a cegueira, que é penumbra e cárcere,

e a velhice, alvorecer da morte,

e o renome, que ninguém merece,

e o hábito de tecer decassílabos

e o velho amor pelas enciclopédias

e pelos finos mapas caligráficos

e pelo marfim tênue e a nostlagia

eterna do latim…

e esse mau costume, Buenos Aires…

e que na tarde, igual a tantas outras,

resigna-se a estes versos.”

 

    Passaram-se alguns anos após aquela sucessão de livros e em 1981 o agora octogenário Borges reaparece com um livro surpreendentemente ágil e intenso, A cifra, com 45 poemas. Novamente há uma “Inscrição” para María Kodama e um prólogo importante:

“Minha sina é o que se costuma chamar de poesia intelectual… Admirável exemplo de uma poesia puramente verbal é a seguinte estrofe de  Jaimes Freyre: Peregrina paloma imaginária/que avivas os últimos amores / alma de luz, de música e de flores/ peregrina paloma imaginária. Não quer dizer nada e, à maneira da música, diz tudo; exemplo de poesia intelectual é aquela silva de Luis de Leon, que Poe sabia de cor: Viver comigo quero / gozar do bem que devo ao Céu anseio / sem testemunha, austero / de amor e ciúme, alheio / de ódio, de esperança, de receio. Não há uma única imagem. Não há uma única palavra bonita, com a duvidosa exceção de testemunha, que não seja uma abstração.

     Estas páginas procuram, não sem alguma incerteza, uma via intermediária”. 

    O primeiro poema, “Ronda”, não poderia ser mais típico:

 

“O Islã, que foi espadas

que desolaram o poente e a aurora

e um fragor de exércitos na terra

e uma revelação e uma disciplina

e a aniquilação dos ídolos

e a conversão de todas as coisas

em um terrível Deus, que está só…”

 

    Na minha leitura das outras cinco coletâneas, não tive dificuldade de extrair pequenas citações de cada poema. A cifra, no entanto, me deu trabalho: é difícil não transcrever cada poema inteiro.

    “O ato do livro” entrelaça Cervantes e sua criação ao Islã: “Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

    “Descartes” inaugura um tipo de poema comum no volume: aquele que repete em uma seqüência de versos a palavra inicial, dando uma cadência diferente ao livro com relação aos anteriores.

 

“Talvez um deus tenha me condenado ao tempo, essa

         longa ilusão.

Sonho a lua e sonho meus olhos, que percebem a lua.

Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.

Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago…

Sonhei a geometria.

Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.

Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.

Sonhei minha enfermiça infância.

Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo ao alvorecer.

Sonhei a inconcebível cor…

Quem sabe eu sonho ter sonhado.

Sinto um pouco de frio, um pouco de medo…

Continuarei sonhando Descartes e a fé de seus pais.”

 

     Dois poemas seguidos, “As duas catedrais” e “Beppo” aludem aos Arquétipos platônicos.

    Transcrevo algo de “Beppo”:

 

“O gato branco e casto se contempla

no luzidio vidro do espelho

e não pode saber que essa brancura

e esses olhos de ouro nunca vistos

antes na casa são sua própria imagem.

Quem lhe dirá que o outro que o observa

é somente um sonho do espelho?

Digo-me que esses gatos harmoniosos,

o de cristal e o de sangue quente,

são simulacros que concede ao tempo

um arquétipo eterno…”

 

     “Ao adquirir uma enciclopédia”, após falar da “dilatada miscelânea que sabe mais que qualquer homem”, ele alude a um  

 

                             “…novo hábito

deste antigo hábito, a casa,

uma gravitação e uma presença,

o amor misterioso pelas coisas

que nos ignoram e se ignoram”.

    Em “Duas formas da insônia”, ficamos sabendo que a insônia é “ensaiar com inútil magia uma respiração regular, é o peso de um corpo que bruscamente muda de lado, é apertar as pálpebras, é um estado parecido com a febre e que certamente não é a vigília…é querer mergulhar no sono e não conseguir mergulhar no sono, é o horror de ser e de continuar sendo…”; mas há a insônia pior, a da longevidade, “o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se me mede por décadas e não com ponteiros de aço… é não ignorar que estou condenado à minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e continuar sendo”.

     “Buenos Aires”, onipresente desde o seu primeiro livro de versos, Fervor de Buenos Aires, publicado nos anos 20:

 

“Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.

Recordo o ruído dos ferros do portão gradeado.

Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia…

Recordo o que vi e o que me contaram meus pais…

Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.

Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os

         paraísos perdidos.

Alguém quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta

         página,

lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.”

 

    Em “Hino”:

 

“Esta manhã

há no ar o incrível aroma

das rosas do Paraíso.

Às margens do Eufrates

Adão descobre o frescor da água,

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus….

Pitágoras revela a seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo…

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela captura agora

o unicórnio branco.

Todo o passado volta feito onda

e essas antigas coisas reaparecem

porque uma mulher te deu um beijo.”

 

(o8.07.09)

 

ESPELHO E ECO

 

“Não passo de imagens que o acaso

Vai embaralhando e que nomeia o tédio.

Com elas, mesmo cego e alquebrado,

Hei de lavrar o verso incorruptível

E (é meu dever) salvar-me”.

 

    Como já disse, A cifra é um livro muito “citável”. Por isso, quem ler e achar coisas lindas não fique achando que as desprezei, é que dá vontade de colocar poemas inteiros aqui (como, por exemplo, “Blake” ou “A trama”).

 

              “… Minha verdadeira estirpe

é a voz, que ainda ouço, de meu pai,

comemorando música de Swinburne,

e os grandes volumes que folheei,

folheei e não li, e que me bastam…”  (“Yesterdays”)

 

“Tem o hábito da mate, que de algum modo

povoa a solidão…

…costuma contar, sempre com as mesmas palavras, aquela longa marcha de tantas léguas de Junín a San Carlos. Talvez ele a conte com as mesmas palavras porque as saiba de cor e já tenha esquecido os fatos.” (“Andrés Armoa”.

 

“Realizei um ato irreparável,

estabeleci um vínculo.

Neste mundo cotidiano,

que se parece tanto

ao livro das Mil e Uma Noites,

não há um único ato que não corra o risco

de ser uma operação de magia,

não há um único fato que não possa ser o primeiro

de uma série infinita.

Pergunto-me que sombras não irão lançar

estas ociosas linhas.”  (“O terceiro homem”)

 

“Naquele exato momento, disse o homem a si mesmo:

Que  não daria eu pela ventura

de estar a seu lado na Islândia

sob o grande dia imóvel

e de compartilhar o agora

como se compartilha uma música

ou o gosto de uma fruta.

Naquele exato momento,

o homem estava junto dela na Islândia.” (“NOSTALGIA DO PRESENTE”)

 

    Ele se permite inclusive repetir versos de poemas anteriores (veja-se “O ápice”); em contrapartida oferece-nos alguns dos seus melhores momentos, como o “Reverso”  do “Poema”:

 

“Acordar aquele que dorme

é impor a outro o interminável

cárcere do universo….

É revelar-lhe que é alguém ou algo

Que está sujeito a um nome que o divulga

E a um cúmulo de ontens…

É saturá-lo de séculos e estrelas.

É restituir ao tempo outro Lázaro

saturado de memória.

É infamar a água do Letes.” (belíssimo, não?)

 

“A noite nos impõe sua tarefa

mágica. Destecer o universo,

as infinitas ramificações

de efeitos e de causas, que se perdem

na vertigem sem fundo que é o tempo.

A noite quer que esta noite esqueças

teu nome, teus ancestrais e teu sangue;

cada palavra humana e cada lágrima,

o que a vigília pôde te ensinar,

o ponto ilusório dos geômetras,

a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,

o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,

tua face sobre a fronha, o frescor

do lençol estreado, os jardins,

os impérios, os Césares e Shakespeare

e o que é mais difícil, o que amas.

Curiosamente, uma pílula pode

riscar o cosmos e erigir o caos. (“O SONHO”)

 

    Já “Um sonho” me trouxe à memória as histórias da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, todo construído nessa atmosfera:

 

“Em um deserto lugar do Irã há uma não muito alta torre de pedra, sem porta nem janela. No único quarto… há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem que se parece comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que em outra cela circular escreve um poema sobre um homem que em outra cela circular…” 

“Do outro lado da morte talvez saiba

se fui uma palavra ou fui alguém”. (“Correr ou ser”, um título que tem o seu quê de cômico.)

 

    Algumas razões que embasam “A fama”, ou seja, a figura construída publicamente:

 

“Professar o amor ao alemão e a nostalgia do latim…

Agradecer o xadrez e o jasmim, os tigres e o hexâmetro…

Ter honrado espadas e sensatamente desejar a paz…

Ser Alonso Quijano sem me atrever a ser Dom Quixote…

Ter urdido um ou outro decassílabo.

Ter voltado a contar velhas histórias.

Ter disposto no dialeto de nosso tempo cinco ou seis metáforas…

SER DEVOTO DE CONRAD.

Ser essa coisa que ninguém pode definir: argentino.

Ser cego.

Nenhuma dessas coisas é estranha e seu conjunto me depara

uma fama que não consigo compreender.”

 

    Um dos “Justos” é “o que agradece que na terra exista Stevenson”

    Em “O cúmplice”: “devo justificar aquilo que me fere”.

 

“Antes de adentrarem o deserto

os soldados beberam longamente da água do poço.

Hérocles entornou sobre a terra

a água do seu cântaro e disse:

Se havemos de entrar no deserto,

 já estou no deserto.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Um homem foi deixado pela mulher.

Resolveram fingir um último encontro.

O homem disse:

Se devo entrar na solidão,

já estou só.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Ninguém na terra

 tem a coragem de ser aquele homem. (“O DESERTO”)

 

    “O bastão de laca” repete o mote de “O terceiro homem” (e de “A trama”), do vínculo secreto entre todas as coisas:

 

“Não é impossível que Alguém tenha premeditado

este vínculo.

Não é impossível que o universo precise deste

vínculo.”

 

    “A certa ilha” é uma homenagem-idealização da Inglaterra: “Não falarei de teus mares, que são o Mar/ nem do império que te impôs, ilha íntima/ o desafio dos outros”.

    Há uma série de poemas “orientais”, como “Shinto”: “…por instantes nos salvam/ as aventuras ínfimas/ da atenção ou da memória…” Entre eles, dezessete haikus, dos quais transcrevo quatro:

 

“É ou não é

o sonho que esqueci

antes da aurora?

 

Calam as cordas.

A música sabia

tudo o que sinto.

 

A ociosa espada

 sonha com suas batalhas.

Outro é meu sonho.

 

A lua nova.

Ela também a olha

de uma outra porta.”

 

    Esse haiku prepara o poema-título, uma homenagem à lua, esse “hábito da noite”, que vivemos  “descobrindo e esquecendo”.

 

    Como me surpreendeu esse velho Borges. Muito mais vivo e vivaz do que eu esperava, apesar dos seus cacoetes.

O NÚMERO DA AREIA

 

“… triste

hábito de ser alguém…”

 

“Somos a água, não o diamante duro…”

 

“esse fato tão notório de que ninguém pode morrer… A morte é mais inverossímil que a vida…”

 

    Não posso dizer que Os conjurados (1985) seja um livro tão bom quanto História da Noite  ou A Cifra. Mesmo assim, não é uma despedida da vida (ele morreu um ano depois) que se possa desprezar. O próprio autor, mencionando os quatro elementos, no seu prólogo, diz: “costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, entretanto, escrevendo…Seria muito improvável que esse livro, que compreende quarenta composições, não entesourasse uma única linha secreta, digna de acompanhar-se até o fim”.

    Muitos poemas são repetecos (há novamente uma “Trama”, por exemplo), cansados e corretos: “Já somos o passado que seremos”. Ele chega ao cúmulo, em “A soma”, de copiar (piorar) um de seus mais famosos textos, o epílogo de O fazedor. Mas prefiro descobrir as linhas dignas de se acompanhar até o fim.

 

“O hemisfério austral. Sob sua álgebra

de estrelas ignoradas por Ulisses,

um homem busca e seguirá buscando

as relíquias daquela epifania

a ele concedida, há tantos anos,

de outro lado de uma numerada

porta de hotel, junto ao eterno Tamisa,

que flui como flui esse outro rio,

o tênue tempo elementar. A carne

esquece seus pesares e venturas.

O homem espera e sonha. Vagamente

resgata circunstâncias triviais.

Um nome de mulher, uma brancura,

um corpo já sem rosto, a penumbra

de uma tarde sem data, o chuvisco,

umas flores de cera sobre um mármore

e as paredes, cor-de-rosa pálido.”  (“Relíquias”)

 

“As lustrais águas dessa noite já me absolvem

das cores variadas, das variadas formas.

As aves e os astros no jardim já exaltam

o regresso almejado das antigas normas

do sonho e da sombra. A sombra já selou

os espelhos que imitam a ficção das coisas.

Melhor o disse Goethe: O próximo se afasta.

Essas quatro palavras cifram todo o crepúsculo…” (“A jovem noite”)

 

    “Alguém sonha”:

 

“… esses dois curiosos

irmãos, o eco e o espelho…

… o livro, esse espelho

que sempre nos revela outra face…

… a enumeração que os

tratadistas chamam de caótica e que,

de fato, é cósmica, porque todas as

coisas estão unidas por vínculos secretos…”

 

    “Alguém sonhará”:

 

“O que sonhará o indecifrável futuro?… Sonhará que poderemos fazer milagres e que não o faremos, porque será mais real imaginá-los.”.

 

     E o genial verso de “Sherlock Holmes”: “Vive de modo cômodo: em terceira pessoa”. Só esse já valeria o livro, além do belo título da coletânea (pena que o poema, no qual os membros de uma confraria atemporal ,, no que ele lembra mais uma vez Hesse e seu  Viagem ao Oriente, segue a “estranha decisão de ser razoáveis”, “no centro da Europa, nas terras altas da Europa, cresce uma torre de razão e de firme fé”, nao seja grande coisa).

 

“Furtivo e cinza na penumbra última,

vai deixando suas pegadas na margem…

Mil anos adiante um homem velho

vai sonhar-te na América. De nada

pode servir-te esse futuro sonho.

Estás cercado de homens que seguiram

pela floresta os rastros que deixaste,

furtivo e cinza na penumbra última..” (“Um lobo”)

 

“Aos outros todos resta o universo;

a minha penumbra, o hábito do verso…” (“On his blindness”)

 

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas, agora, são o que é meu… só e nosso o que perdemos… Todo poema, com o tempo, é uma elegia”. (“Posse do ontem”)

 

“A cinza é tudo que me resta. Nada.

Das máscaras que fui já absolvido,

serei na morte meu total olvido.” (“Pedras e Chile”)

 

“Deus permite que os homens

sonhem com coisas reais…

 

Entregaram-lhes a um só tempo

o rifle e o crucifixo….

 

Ele só queria saber

se era ou não era valente…

 

Ninguém fique admirado

de que eu sinta inveja e dó

desse homem e de seu fado.” (“Milonga do morto”)

 

    Talvez o grande poema do livro seja “Juan López & John Ward”, alusivo à guerra das Malvinas.

 

“Coube-lhes por sorte uma época estranha.

    O planeta tinha sido dividido em diversos países, cada um provido de lealdades, de queridas memórias, de  um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos,de uma mitologia peculiar…

     López nascera na cidade junto do rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade pela qual caminhou Father Brown. Estudara castelhano para ler o Quixote.

      O outro professava o amor a Conrad…

    Talvez tivessem sido amigos, mas viram-se uma única  vez frente a frente, em umas ilhas muitíssimos famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.

    Foram enterrados juntos. A neve e a decomposição conhecem-nos.

     O fato que narro se passou em um tempo que não podemos entender;”

 

    E para terminar essa minha travessia dos poemas maduros de Borges:

 

“Nosso belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos para perdê-lo em um ato de fé, em uma cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na pura e simples felicidade.” (“O fio da fábula”)

 

borges carão

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