BLOG DO ALFREDO MONTE

24/07/2009

blog nas férias de julho: MILAN KUNDERA- LÚDICO E LÚCIDO

 

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APROVEITANDO UMA NOVA EDIÇÃO (mas vejam a diferença de capa) DE A IDENTIDADE,  em 2009:

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    Além do texto em si, A Identidade causa interesse por confirmar dois movimentos que parecem irreversíveis na obra mais recente de Milan Kundera: em primeiro lugar, ele está se acomodando naquela seleta categoria dos que se servem de uma outra língua para escrever ficção de primeira linha (embora Joseph Conrad fosse polonês e tenha escrito seus livros em inglês, os casos mais parecidos com o de Kundera são os de Beckett e Nabokov, que escreveram textos em sua língua natal e depois adotaram outra língua), sendo A Identidade sua segunda novela em francês; além disso, ele cada vez mais inclina-se a títulos curtos, que tomam como base algum conceito geral (seus trabalhos anteriores intitulavam-se A Imortalidade e A Lentidão). Não se pode esquecer, também, que ele está lançando livros mais curtos. Significaria que está às voltas com outro idioma e isso travaria seu fôlego? Ou então está adotando uma perspectiva mais essencialista, já a partir do título?

    Talvez se possa ter uma visão mais clara a respeito dessa questão num próximo livro. Por enquanto, A Identidade fascina e faz sonhar ao lançar inquietação não exatamente quanto à identidade pessoal, mas as “identidades” por aliança que constituímos ao longo das nossas vidas: os amores, as amizades. O protagonista do livro, Jean-Marc, visita no hospital um antigo amigo e fica incomodado porque ele pede a toda hora que se lembre de eventos antigos. Daí pensa: “eis aí a verdadeira e única razão de ser da amizade: fornecer ao outro um espelho em que ele possa contemplar sua imagem de antigamente”.

    Jean-Marc trata interiormente a amizade com tanto descaso, quase desdém, porque criou uma espécie de “reino em separado”, de aliança contra o mundo, com sua mulher, Chantal. A ironia de A Identidade é que, a partir da pequena viagem de Jean-Marc em visita ao tal amigo, a sua identidade e a de Chantal enquanto casal começará a se deteriorar. Essa deterioração vai operar-se através de procedimentos tipicamente kunderianos: a princípio, Jean-Marc e Chantal tomam consciência dos seus desacertos consigo mesmos e um com o outro por meio de pequenas fórmulas filosóficas, aquelas mesmas que irritam tantos críticos e leitores de Kundera, até mesmo os que gostam muito de sua obra (como é o meu caso); depois, a trama encaminha-se para um qüiproquó vaudevillesco (não fosse ele autor do genial A valsa dos adeuses e dos contos notáveis de Risíveis amores), quando Jean-Marc resolve mostrar à esposa que ela continua atraente (apesar dos temores dela de não o ser mais), escrevendo-lhe cartas anônimas, como se fossem de um outro.

    O problema é que Chantal começa a ver possibilidades romanescas em tipos masculinos das redondezas (até num mendigo). Jean-Marc sente ciúme das suas primeiras cartas e aí o enredo corre o perigo de esborrachar-se na frivolidade ou numa atmosfera sub-Alberto Moravia. Felizmente, a imersão do casal num pesadelo que o desloca até da sua referência espacial (vão para Londres), perdendo-se completamente um do outro, no sentido mais amplo da palavra, projeta o livro numa outra dimensão, que transfigura o clima vaudevillesco anterior numa necessária preparação. Pois Jean-Marc e Chantal começam a viver numa espécie de baile de máscaras, mudando rapidamente de papéis. A questão é: eles já não viviam determinadas (e limitadas) máscaras antes? E por que seriam confortáveis então e não se sentem mais assim nos papéis que surgem, nas novas máscaras, dentro da “pérfida fantasia” que os arrastou,como quer o narrador?  Se, como Jean-Marc pensou diante do amigo, a relação de amizade é apenas um espelho de um momento já perdido, qualquer relação afetiva duradoura, que tenha “existência” e “identidade”, não poderia ter o mesmo objetivo, ancorado no ilusório?

    E, em Londres, solapados os momentos que “identificam” o casal Jean-Marc/Chantal, ela perde a memória do marido, já que ele não pode ser espelho presente de momentos passados: “Nesse momento de angústia extrema, aparece diante de seus olhos a imagem de um homem que luta contra a multidão para chegar até ela. Alguém lhe torce o braço atrás das costas. Ela não vê seu rosto, apenas seu corpo curvado. Meu Deus, gostaria de se lembrar um pouco mais exatamente dele, recordar seus traços, mas não consegue, sabe apenas que é o homem que a ama e isso é a única coisa que importa agora.”

    Portanto, apesar da nova língua, o grande autor tcheco prossegue com esses personagens que sempre alimentam um mal estar diante do mundo, quer seja o mundo totalitário de uma ditadura, quer seja o mundo da democracia, dominado pelo kitsch (quem não se lembra do trio Tomas-Teresa-Sabina, de A insustentável leveza do ser, os quais se sentiam desconfortáveis na ocupada Praga e na livre Zurique?). Ainda bem que o sucesso (pois ele teve sua época de “best seller”) não o privou da sua “identidade” como escritor, isto é, das suas obsessões. Seu texto continua fluindo leve enquanto trata das insustentáveis coisas que sustentam nossa vida diária com o peso da sua irrealidade.

(resenha publicada em primeiro de dezembro de 1998, quando da primeira edição de A Identidade, o primeiro dos livros de Kundera a ser publicado pela Companhia das Letras, e agora, em 2009, reeditado na série “Companhia de Bolso”; anteriormente, seus livros foram editados pela Nova Fronteira)

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                                           A LENTIDÃO

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    É prudente deixar correr algum tempo sobre o lançamento de um livro de Milan Kundera. Como se exaltou o seu A Insustentável Leveza do Ser no momento da publicação no Brasil! Como Kundera foi alçado às alturas! O livro fez sucesso (merecido). E o vento virou. Começou a haver uma atitude de desprezo com relação ao autor tcheco. E depois um quase silêncio…

    O leitor que atravessar essas brumas de avalon da má vontade e dos modismos descobrirá em A Lentidão, seu mais recente texto, uma deliciosa diatribe contra o mundo contemporâneo, a partir da reflexão sobre o valor da velocidade para nós, a partir da ida do casal Kundera a um castelo-hotel: “A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem”.

    O pernoite no castelo contrasta nossos valores e nosso uso do tempo com os do século XVIII. Há um congresso de entomologistas, no qual interferem o exibicionismo político, o culto ao sucesso e o sentimentalismo que servem de pasto, todos eles, para a mídia: “Nossa estada no castelo coincidiu com a época em que, durante semanas, todos os dias, mostravam crianças de um país africano com um nome já esquecido (…como guardar todos esses nomes!), devastado pela guerra civil e pela fome”.

    Fã do aspecto lúdico da literatura, aproximando-se muito, por causa disso, de Salman Rushdie, Kundera cria uma cadeia de qüiproquós sexuais envolvendo entomologistas, políticos, intelectuais e jornalistas, dentro do espírito daquela forma convencionalmente chamada de vaudeville (na verdade, quase sempre uma “comédia de erros”), bastante praticada no século XVIII, a qual já fora exercitada por ele num de seus dois melhores romances, A valsa dos adeuses (o outro, em minha opinião, é A brincadeira, contudo vale a pena ler seus outros trabalhos, são todos muito bons).

    Novidade em A Lentidão é a estrutura, mais despojada do que a dos anteriores, em sua maioria escritos em sete partes e cheios de “leitmotivs” filosóficos. A aparentemente desconjuntada maneira de propor vários fios no começo do livro mostra-se intencional porque todos eles amarram-se no fim, quando um sedutor do século XX encontra um sedutor do século XVIII, encontro que condensa todos os temas.

    Nesse exercício de leveza e maestria desagrada um pouco a inclusão do autor e de sua mulher como personagens, talvez justificada se pensarmos que Kundera não quer se isentar da sua diatribe. Ele quer mostrar o ridículo e o risível com compassividade e envolvimento, porém as passagens em que o casal aparece são as mais apagadas do romance.

    Não importa. A Lentidão tem tantas coisas a mais que, assim como os livros anteriores, os defeitos pertencem a um conjunto poderoso e (por que não?) harmonioso como um texto de Voltaire: “Nada mais? Coisa alguma? Nada?  Numa súbita iluminação todo o seu passado aparece-lhe, não como uma aventura sublime, rica em acontecimentos dramáticos e sublimes, mas como a parte minúscula de uma barafunda de acontecimentos confusos que atravessaram o planeta em tamanha velocidade que é impossível distinguir seus traços, a tal ponto que talvez Berck tenha razão de tomá-lo por um húngaro ou um polonês, porque quem sabe se ele não é mesmo húngaro ou polonês, talvez turco, russo ou até mesmo uma criança agonizante na Somália?”

(resenha publicada em 19 de dezembro de 1995)

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                                 RISÍVEIS AMORES

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                                                           I

    É de um bom gosto louvável o tratamento dado pela Companhia das Letras aos livros de Milan Kundera, não só pela excelente escolha das capas, as quais utilizam xilogravuras e litografias muito belas de Lasar Segall, mas também por não se limitar simplesmente a republicar os textos das edições anteriores (pela Nova Fronteira).

    É o caso da coletânea de sete contos Risíveis Amores (cuja esplêndida capa talvez seja superada apenas pela utilizada em A Identidade) e que está longe de ser apenas uma reedição da tradução que foi presença durante semanas na lista de mais vendidos em 1985-86, quando Kundera virou moda no Brasil.

    Para começar, o texto traduzido pela mesma Tereza Bulhões Carvalho da Fonseca se baseia numa edição francesa de 1986, revista e considerada definitiva pelo próprio autor. Por isso, traz inúmeras pequenas mudanças. Quem leu (para dar um exemplo), em 1985, o final do quarto ato de “O Simpósio” , encontrava ali, no momento em que a amante do chefe se oferece ao subordinado: “Que fez o dr. Havel? Ah! Que pergunta”, e agora encontra: “Que fez o dr. Havel? O que ele poderia fazer!”

    Além disso, a ordem dos textos foi alterada. Antes era “O pomo de ouro do eterno desejo” que iniciava a ronda dos risíveis amores e agora é o melhor deles, “Ninguém vai rir”; o título “O dr. Havel dez anos depois” foi alterado significativamente para “O dr. Havel vinte anos depois”; a idade do protagonista de “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos”, visivelmente errada em 1985, se ficarmos atentos à cronologia da história, foi corrigida na nova versão.

    Por fim, incluiu-se um prefácio brilhante e esclarecedor de François Ricard (“O livro de contos do colecionador”). Portanto, o grande escritor checo (ou boêmio, como ele prefere) teve mais sorte do que Thomas Mann, na sua nova visitação às livrarias brasileiras (as reedições de Mann estão repletas de erros persistentes). Por enquanto, o leitor brasileiro pode ler, além de Risíveis Amores e A Identidade (o único inédito) os já clássicos A brincadeira e A insustentável leveza do ser.

                        

                                                           II

    Risíveis Amores é uma obra-prima. Não há um conto que destoe na fantástica unidade tutelada pelo mágico numero sete. A preferência por um ou outro é questão de gosto pessoal.

    O meu favorito (colocá-lo-ia sem pestanejar numa antologia pessoal dos melhores contos que já li) é “Ninguém vai rir”. Nele encontramos o típico protagonista kunderiano: tentando levar a vida como “brincadeira” (entendida como exercício da liberdade), ele esbarra na armadilha de uma “seriedade” (sempre entre aspas), organizada como encarceramento do indivíduo.

    Procurado por um estudioso medíocre para redigir um parecer sobre um trabalho de escasso valor, o anti-herói da história titubeia e tenta se livrar do encargo fazendo corpo mole. Ao ver que o estudioso não desiste, ele se irrita e inventa uma desculpa maldosa (o estudioso teria tentado seduzir sua namorada, que vive clandestinamente com ele –e aqui é precisa lembrar do clima em que se passam as histórias do livro, todo permeado pela dominação comunista da Tchecoslováquia). O estudioso se revolta, exige reparação, ele e sua esposa passam a perseguir a namorada e a vida se torna um inferno. No final, nosso herói perde a namorada, o emprego e a moradia por causa de uma brincadeira. É a vitória da seriedade entre aspas, no fundo irrisória e pouco séria.

    Igualmente extraordinárias e caras ao autor deste artigo são “Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos” (não por seu título, bem entendido) e “O jogo da carona”, ambos mostrando a perícia com que o autor de A vida está em outra parte (na verdade, A vida está alhures) lida com confrontos amorosos. No primeiro, há o reencontro de um casal (ela, mais velha) quinze anos depois da única experiência sexual que tiveram. Assim como ela (agora com 55) erguera um monumento fúnebre ao marido que é destruído porque o prazo da concessão expirara, o rapa (agora com 35) erguera um monumento ao mistério que dela ficou, e do único encontro entre eles; frustrado com sua existência atual, tenta resgatar na mulher à sua frente a imagem passada, e ela reluta, justamente com medo de destruir o tal monumento solene que ele guardou do que ela foi, na memória. Em “O jogo da carona”, o casal de namorados que viaja e que resolve brincar de desconhecidos (ela, representando o papel de caronista que seduz o motorista), acaba engolfado pela dubiedade das imagens interpostas: o que eram antes do jogo e o que passam a representar, ou ser; e aqui vale lembrar o destino do muito posterior casal de A Identidade).

    Também há um jogo fascinante entre representar, ser, brincadeira, leveza, peso, gratuidade e irreversibilidade no último conto, “Eduardo e Deus”. Eduardo finge que crê em Deus para seduzir uma moça e depois se vê enredado em situações que o levam cada vez mais a ser aquilo que utilizava como representação.

    E como esquecer dos contos vaudevillescos e voltados para o paradoxos do donjuanismo, também típicos do autor do magnífico A valsa dos adeuses, que são “O pomo de ouro do eterno desejo” e a parelha (porque neles aparece o mesmo personagem) “O simpósio” e “O dr. Havel vinte anos depois”. Como todos os outros, são espirituosos, engraçados e muito tristes. Lúdicos e lúcidos.

 

                                                           III

    Haveria mil citações a fazer. Qual escolher? Qual delas poderia dar uma dica da exatidão mágica do estilo kunderiano?

    Com o prazer e a admiração renovados agora em sua nova edição, Risíveis Amores, emoldurado por Lasar Segall, é a redescoberta necessária de um dos escritores maiores das últimas décadas.

(resenha publicada em 20 de março de 2001)

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a ignorância 

                                                          A IGNORÂNCIA

 

    Apesar das qualidades de A Lentidão e A Identidade, é com sua terceira novela escrita diretamente em francês, A Ignorância, que Milan Kundera reencontra plenamente o melhor da sua forma, agora que se encontra duplamente exilado, como cidadão e como escritor.

    O exílio e as ambigüidades da nostalgia da pátria natal são temas de A Ignorância, um dos pontos altos da sua obra (e certamente sua maior realização desde A Insustentável leveza do ser, em 1983), onde ele executa com maestria a mágica de sobrepor ao enredo considerações filosóficas e existenciais, sem que o estilo perca o despojamento e a precisão que aperfeiçoou ao longo dos últimos anos, talvez em função da nova língua.

    Mais uma vez, temos um mundo cheio de estranhos, isto é, os personagens experimentam desencontros e equívocos em situações que, para o sentimentalismo comum,  seriam claras e inequívocas: Irena e Josef, exilados tchecos que construíram suas vidas na França e na Dinamarca, são pressionados a “voltar à Pátria” após o fim do regime comunista, e percebem que nada mais têm a ver com as pessoas que reencontram, que suas vidas “verdadeiras” estão em outras partes.  Portanto, é um olhar estrangeiro que lançam sobre o país, assolado pela reconstrução (ou expropriação) capitalista, pela globalização e pela uniformização  crescente de tudo e de todos. Esse desconforto existencial é peculiar ao universo kunderiano e nos remete à emblemática Sabina de A insustentável leveza do ser, a qual entenderia perfeitamente o sentimento que se apossa de Josef ao deixar Irena no quarto de hotel, onde fizeram amor: “…ele nada sabia dela, mas uma coisa parecia clara: ela estava apaixonada por ele, pronta para ficar com ele, para deixar tudo, para recomeçar tudo… Ele tinha uma oportunidade, certamente a última, de ser útil, de ajudar alguém e, no meio daquela multidão de estrangeiros que povoa o planeta, encontrar uma irmã.”

     Mais uma vez, entramos no planeta da inexperiência, onde tudo é fortuito e irrevogável e a soma dos anos acaba despida de consistência e identidade, traída pela memória ou pela nostalgia, ou por ambas. Carrega-se um “peso sem peso” no cômputo das coisas, por assim dizer. É esse o sentido de um belo diálogo de Irena com uma antiga amiga, Milada (ex-namoradinha de Josef; até tentou o suicídio por sua causa).Irena diz que casou para fugir da opressão representada pela mãe: “E, desde então, tudo estava decidido de uma vez por todas. Foi nesse momento que cometi um erro, um erro difícil de definir, imperceptível, mas que foi o ponto de partida de toda a minha vida e que nunca consegui reparar”. Milada acrescenta, explicando em parte o título do livro: “Um erro irreparável cometido na idade da ignorância. É a idade em que casamos, em que temos nosso primeiro filho, em que escolhemos nossa profissão. Um dia saberemos e compreenderemos muitas coisas, mas será tarde demais, pois toda a vida será a vida decidida numa época em que não sabíamos nada.”

    Enfim, exilado na língua francesa, após alguns tateios e vacilos, com A Ignorância, Kundera reencontra seu tom, seu universo, seu laço secreto com a beleza, como Irena reencontra a “sua” Praga, que não é a Praga-clichê dos turistas e dos leitores e curiosos de Kafka: “É a essa Praga  que ela é afeiçoada, não aquela suntuosa, do centro… Sonhadora, ela caminha;  durante alguns segundos entrevê Paris,  que, pela primeira vez, lhe parece hostil: geometria fria das avenidas… e em nenhum lugar um único toque dessa intimidade amável, um só sopro desse idílio que ela respira aqui; aliás, durante todo seu exílio foi esta imagem que ela guardou como emblema do país perdido… ela se sentia feliz em Paris, mais do que aqui, um laço secreto de beleza a ligava só a Praga”.

(resenha publicada em  21 de maio de 2002)

 

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 a cortina

                                                           A CORTINA

 

    Além de Cartas a um jovem escritor, de Mario Vargas Llosa, outro passeio pelo bosque da ficção foi publicado em 2006: A Cortina, no qual Milan Kundera depura e amplifica as idéias sobre a função do romance no mundo moderno que já expusera no indispensável A Arte do Romance (1986). Neste, o romance era uma herança vinda de Cervantes; em A Cortina, recua-se até Rabelais, mas é ainda o autor do Quixote quem inaugura a inquietude básica e provocativa do gênero: desvendar a prosa do mundo, destruir a ilusão lírica e instaurar o ser humano na maturidade existencial:

“Uma cortina mágica, tecida de lendas, estava suspensa diante do mundo. Cervantes mandou Dom Quixote viajar e rasgou essa cortina. O mundo se abriu diante do cavaleiro andante  em toda a nudez cômica de sua prosa. Assim como a mulher se maquia antes de sair apressada para o primeiro encontro, o mundo, quando corre em nossa direção no momento em que nascemos, já está maquiado, mascarado, pré-interpretado.  E os conformistas não serão os únicos a ser enganados; os seres rebeldes, ávidos de se opor a tudo e a todos, não se dão conta de quanto também estão sendo obedientes, não se revoltarão a não ser contra o que é pré-interpretado como digno de revolta. Pois foi rasgando essa cortina da pré-interpretação que Cervantes colocou em movimento essa arte nova; seu gesto destruidor se reflete e prolonga em cada romance digno desse nome, é a marca de identidade da arte do romance.”

    Como se vê, em Kundera a estética não se aparta da existência. Não é à toa que ele já afirmou que “o romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral”. Também não é à toa que ele se aproxime da Filosofia. E assim como Vargas Llosa ele utiliza ampla e generosamente o método da exemplificação, valendo-se de seus mestres (Hermann Broch, Robert Musil, os quais eu li por causa dele, na esteira da leitura dos seus livros, Kafka, Cervantes, Sterne, Diderot, Flaubert, Tolstói) e de seus contemporâneos (entre outros, Ernesto Sabato, Carlos Fuentes, Salman Rushdie), sempre de forma admirativa e lúcida, duas coisas que às vezes são excludentes, mas não quando entra em jogo uma inteligência como a do grande escritor tcheco.

    Temos, mais uma vez, um livro em sete partes, como acontecia tanto em A Arte do Romance quanto na maioria das obras de Kundera. Ele mesmo já esclareceu o assunto, ao contar para Christian Salmon, da Paris-Review que o sete e o cinco são seus números “arquitetônicos”. O sete para os textos com digressões e discussões filosóficas; o cinco para textos que brincam com a estrutura ligeira do vaudeville. Salmon assim sintetizou: “Existem duas formas-arquétipos em seus romances: 1) a composição polifônica que une elementos heterogêneos em uma arquitetura fundada sobre o número sete; 2) a composição vaudevillesca, homogênea, teatral, que roça o inverossímil,e que se funda sobre o cinco”. Kundera: “Sonho sempre com uma grande infidelidade inesperada. Mas até o momento não consegui escapar dessas duas formas” .

    A verdade é que, agora obrigado a escrever em francês, se não conseguiu a grande infidelidade inesperada, ele pelo menos tornou sua prosa mais maleável, mais despojada, menos “arquitetônica” (em aparência) nos seus três curtíssimos romances mais recentes (A Lentidão, A Identidade, A Ignorância). No entanto, a essa obsessão devemos além de A valsa dos adeuses e a fascinante coletânea de (sete,é claro) contos Risíveis Amores, alguns dos melhores romances da segunda metade do século XX: A Brincadeira; A vida está em outra parte; A Imortalidade, sem falar no inusitado O Livro do Riso e do Esquecimento e do famoso e às vezes tão injustiçado A insustentável leveza do ser, o qual, entre outros méritos, tem uma das personagens mais inesquecíveis e emocionantes da ficção contemporânea: Sabina (tão bem traduzida no cinema por Lena Olin), aquela que se recusa a aceitar o kitsch que assola o mundo. Todos eles ajudando o leitor a rasgar a cortina pré-fabricada do mundo maquiado, quer no totalitarismo soviético quer na totalitária liberdade capitalista de se comprar o que se pode.

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(resenha publicada em 21 de outubro de 2006)                                                                                                                            

17/07/2009

blog nas férias de julho: HARRY POTTER

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   MAIS UM PROFESSOR DE DEFESA CONTRA A ARTE

                                 DAS TREVAS PERDIDO

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   Finalmente, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe (mais precisamente, Harry Potter e O Príncipe Mestiço), o antipático (embora descubramos mais tarde que ele é uma figura mais para trágica) professor Snape consegue o que almejava desde que apareceu pela primeira vez na história: ser o professor de Defesa contra as Artes das Trevas. O leitor da série sabe, porém, que esse é um cargo azarado: nenhum dos ocupantes voltou para o ano seguinte; também sabe que cada um desses malfadados mestres (Quirrell, que carregava Voldemort como parasita no seu corpo; Gilderoy Lockhart, que era um embusteiro; Remus Lupin, vítima de preconceito por ser um lobisomem; Olho-Tonto Moody, que era um disfarce, proporcionado pela poção polissuco, para um seguidor do grande inimigo de Potter; a repelente e totalitária Dolores Umbridge) estava diretamente ligado à trama principal do volume de que participavam. E desta vez não é diferente: Snape assassina o diretor de Hogwarts e protetor de Harry, Dumbledore, o qual depositava nele uma confiança não compartilhada por mais ninguém, uma vez que o temido professor de Poções (nos anos anteriores) já fora um Comensal da Morte, assecla de Lord Voldemort. Só no volume seguinte saberemos que esse crime foi arquitetado pelo próprio Dumbledore, para proteger Draco Malfoy, encarregado pelo grande vilão, de executar  essa terrível tarefa (e nós conheceremos o desamparo do rapaz, em seus colóquios com a patética Murta-que-geme, o fantasma dos banheiros de Hogwarts).

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    O andamento da trama também explica por que tanta atenção se dá ao professor que troca de lugar com Snape, Horace Slughorn, que vem dar à  escola de magia um toque de mundanidade e sede de prestígio social, com sua escolha de “favoritos” que lhe podem ser úteis no futuro (“Ocorreu a Harry a nítida imagem de uma grande aranha inchada, tecendo a teia em torno dele, torcendo um fio aqui e outro ali para trazer mais perto suas moscas gordas e sumarentas”). Potter, agora com 16 anos, se destaca nas suas aulas ao usar um velho livro paradidático cheio de anotações criativas (e potencialmente perigosas) de um ex-aluno, um “Príncipe mestiço” (que descobriremos tratar-se do próprio Snape), apesar dos avisos de sua amiga Hermione (parece que ele se esqueceu do que acontecera em Harry Potter e A Câmara Secreta).

    Enquanto isso, ele e Dumbledore se ocupam em vasculhar o passado de Lord Voldemort quando era o jovem Tom Riddle e vivera, muito à Dickens, num orfanato (ficamos conhecendo também a sua mãe, que era bruxa, e seu pai, trouxa, que fugira com ela e a abandonara, grávida), e em localizar os objetos nos quais ele concentrou parte de seu ser, as horcruxes (ter tentado destruir uma delas parece ser a causa da ampla mutilação de uma das mãos do grande bruxo). Harry participará, inclusive, de uma incursão em busca de um medalhão antigo numa caverna, cujo clímax será o crime de Snapes.

    Na condição de penúltimo volume, e postado entre dois livros monstruosamente prolixos e vibrantes (A Ordem da Fênix e As Relíquias da Morte), O Enigma do Príncipe parece o mais sem graça de toda a série. O primeiro (A Pedra Filosofal) a apresentava de forma muito bem sucedida, os dois seguintes eram brilhantes (A Câmara Secreta & O Prisioneiro de Azkaban) em termos de fabulação e esgotavam todas as possibilidades de Hogwarts como cenário principal (e na minha opinião ainda constituem seu ponto alto), depois o quarto (O Cálice de Fogo) abria-se para uma visão mais ampla do mundo bruxo (com o torneio internacional, além da copa mundial de quadribol), além de marcar a restauração física de Voldemort, o quinto (A Ordem da Fênix) é o ciclope que conhecemos, e o sétimo (As Relíquias da Morte) um “grand finale”. Apesar de conter o fato mais dramático até então ocorrido, a morte de Dumbledore (além disso, traído ignominiosamente), o que a sexta aventura de Harry Potter oferece?

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    Para começar, tem o início mais inteligente e divertido, entre todos, com o encontro entre o ministro da magia e o ministro trouxa. Além disso, é o único em que há realmente uma excursão aventuresca clássica, ou seja, para um lugar desconhecido (quando Dumbledore e Harry penetram na caverna onde Voldemort escondeu uma das horcruxes), que não seja as dependências ou imediações de Hogwarts ou do Ministério da Magia, talvez o grande momento narrativo do romance. Aliás, o desaparecimento de Dumbledore, que era uma figura perpassada por um sopro poético  (não é à toa que, quando busca Potter na casa dos tios, ele diz a seu protegido de forma shakesperiana: “E agora, Harry, vamos sair para a noite em busca dessa sedutora volúvel, a aventura”) mostra o grande vazio que se abate sobre os heróis: a sucessora é a sempre firme, leal, mas inabalavelmente prosaica Minerva McGonagall (e caberá a Harry preencher o vazio).

    Para os adolescentes (será que só para eles ?), há decerto um charme a mais: pode parecer estranho (e no entanto é totalmente verossímil) que Harry e seus amigos se preocupem com exames, matérias e paixonites e rusgas e picuinhas, com tal ameaça pairando sobre eles. Ou seja, o cotidiano equilibra a sombria atmosfera geral. Esse é o momento das descobertas amorosas (inclusive da paixão de Harry pela, a meu ver, chatinha Ginny Weasley, que substitui em definitivo a anódina Cho Chang), dos beijos, dos amassos, dos ficares e demais rituais da idade. Esse deve ser, aliás, o grande apelo do filme de David Yates (incrementado pela crescente beleza de Daniel Radcliffe e Emma Watson desde o primeiro filmeJ.K. Rowling os captura com precisão. Parece não estar acontecendo nada, e está acontecendo tudo.

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HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE

(resenhas publicadas em 10 e 17 de novembro de 2007)

    Como milhões de pessoas, eu aguardava fervorosamente Harry Potter e As Relíquias da Morte, sete e último volume da série,  oficialmente lançado hoje no Brasil. Não tanto para saber se o Harry viveria ou morreria (e J.K. Rowling maliciosamente brinca com tal expectativa, fazendo o bruxo descobrir que a aparente intenção de seu mentor, Dumbledore, era que ele morresse no confronto com Lord Voldemort; e, em pleno clímax, colocando um capítulo que se passa numa espécie de Além, com Harry debatendo seu destino com o falecido diretor de Hogwarts, o qual fora supostamente assassinado à traição pelo professor Snape, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe), mas para saber se a autora conseguiria amarrar todos os fios de uma trama geral que a cada volume ficava mais intrincada e politizada.

    Saldo de uma leitura febril: tirando os persistentes pequenos defeitos (muita gente acha que a prolixidade é um deles, só que as páginas de Rowling são devoráveis, e ela criou um mundo completo, então…; não, o que mais incomoda é certa obtusidade do protagonista, que insiste em uma atitude burra e às vezes nos aliena do seu ponto-de-vista, que, afinal, domina a narrativa, pois Harry está presente em 99% do texto, à exceção do primeiro capítulo, e muitas vezes isolado do mundo dos bruxos), tudo se cumpre à perfeição e com absoluta habilidade. Só é dispensável inapelavelmente o apêndice onde se dá um salto de 19 anos e que contraria de forma inconvincente o clima mais para pessimista desse livro semeado de perdas: a coruja Edwiges, Olho-Tonto Moody, Professor Lupin e sua esposa, um dos gêmeos Weasley, o elfo Dobby…

    Um dos aspectos mais fortes de Harry Potter e As Relíquias da Morte é a denúncia do totalitarismo que ameaça o mundo na esteira dos acontecimentos do 11 de setembro: a limitação das liberdades, principalmente àqueles que são os Outros. Aliás, já  comentei em outras ocasiões como Rowling entrelaçou de forma magistral o antigo sistema de classes da Inglaterra com o seu mundo de famílias bruxas “sangue puro” as quais têm de engolir a convivência com mestiços e “sangues ruins”, sem falar de outras espécies (elfos, duendes, gigantes).

    Por outro lado, a escolha da moldura da série (os anos escolares da escola de magia de Hogwarts) não podia ter sido mais feliz, pois permitiu que se acompanhasse o desenvolvimento do personagem desde seus 11 anos, com as rivalidades, anseios e rebeldias da passagem pela adolescência. Por isso, embora a maior parte da narrativa transcorra longe de Hogwarts (Harry, Hermione e Rony saem pela Inglaterra numa peregrinação em busca das Horscruxes que contêm, cada uma, uma parcela da alma de Voldemort, para destruí-las, com escassas pistas; ao mesmo tempo, são proscritos da “nova ordem mundial” dos bruxos, e ainda ficam sabendo da existência de três “relíquias da morte”: uma varinha invencível, uma pedra ressuscitadora e a já famosa capa de invisibilidade, que Harry herdou do pai no primeiro volume da série), é mais do que justo que seja  ali, o lugar que o portador d cicatriz tem como seu verdadeiro lar, o palco do embate final entre Lord Voldemort e seus Comensais da Morte e Harry e a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore, após a história começar como de praxe, com o aniversário de Harry, quando ele completa 17 anos e perde o feitiço de proteção que o resguarda e portanto se torna suscetível de ser morto com sucesso pelo Bruxo das Trevas.

potter e amigos

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O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, número 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.”

    Desde a publicação, há 10 anos, do livro (Harry Potter e A Pedra Filosofal, 1997) que se abria com a frase acima, os sete volumes da série não só encantaram milhões de pessoas, entre elas o autor deste artigo, mas também foram progressivamente configurando um universo completo, “mobiliado” (para utilizar uma expressão de Umberto Eco), auto-suficiente em termos ficcionais.

    J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e adolescentes: a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (principalmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso. Foi ótimo que os jovens gostassem de uma coisa tão boa, tão inventiva. Só que os leitores adultos tiveram também um quinhão apreciável desse prazer inesperado. Quando surgiu o Harry da pedra filosofal foi preenchido um vácuo no mundo da fabulação: entre o infantil e o adulto nada havia, a não ser os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais/meio-visão debilóide da vida, pós Spielberg & Lucas.

    Podia ser um feliz acaso. Veio o segundo (talvez o mais impressionante de todos), Harry Potter e A Câmara Secreta, reafirmando as qualidades do anterior e permeado por um suspense incrível, até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

    Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do próximo, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho, que se disfarçava no rato Perebas), o leque se abre, os finais tornam-se inconclusos, exigindo continuação, o que fica mais claro ainda em Harry Potter e O Cálice de Fogo, no qual a macro-narrativa (a guerra entre o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio) que percorre a série delineia-se nitidamente, o que exigirá volumes de fôlego de forma a sustentar convincentemente o clímax, Harry Potter e As Relíquias da Morte.

    Na seção anterior, salientei seu lado mais politizado, a denúncia da limitação das liberdades civis, devido a uma ameaça latente ou efetiva. O que é preciso enfatizar realmente é que o dado mais preocupante reside no fato de que Lord Voldemort, com toda a sua maldade e megalomania, apenas serve como elemento catalisador de preconceitos, intolerâncias e desigualdades subjacentes à sociedade dos bruxos. Ele não perverte essa sociedade, e sim expõe o seu lado mais feio e desagradável, tão revoltante como a indiferença e estupidez do casal “trouxa” Dursley no início da história (aliás, Rowling redime o filho deles, Duda, da sua excessiva sanha caricatural neste seu adeus à série). E com que rapidez o Ministério da Magia reage, limitando ou anulando direitos civis, e transformando indivíduos em “indesejáveis” ao regime, não tanto num passe de mágica, mas através de decretos arbitrários e expurgos! Provavelmente esse fator, mais do que a extensão, é que propiciou o clima opressivo dos três últimos volumes, além da habilidosa redução do ponto-de-vista narrativo, que faz com que tudo fique ainda mais aflitivo.

    Por outro lado, entre as muitas qualidades de Harry Potter e As Relíquias Sagradas, não se poderia deixar de destacar a justiça que o livro faz a dois personagens essenciais à trama (é verdade também que a adorável Sra. Weasley tem seu momento de glória ao duelar com a perversa Belatriz): o professor Snape e Neville Longbottom.

    Snape é um dos personagens de trajetória mais bem urdidas dentro da série, em razão da ambigüidade que cerca seu posicionamento, e isso até o fim, quando Harry descobre o porquê dos seus atos (seu amor por Lílian Potter) e a combinação entre ele e Dumbledore (acometido por uma doença terminal) para tirar o máximo efeito possível de um pretenso assassinato (propiciando ao diretor da Sonserina reaproximar-se de Voldemort), num dos capítulos-chaves do romance, o quase elegíaco “A história do príncipe”. O que torna efetivamente trágica a figura de Snape e o redime de todos os desagradáveis confrontos anteriores com Harry é que este fica sabendo da verdade após testemunhar a morte do seu professor mais detestado (ou seja, quando a vida deste transformou-se em destino) por ordem de Voldemort, o qual acredita ser indispensável sacrificar seu “colaborador” para possuir de fato uma das três “relíquias da morte” (como se vê, tudo é muito bem amarrado).

    Já a figura de Neville cresceu junto com a série: era o gordinho desajeitado, objeto de risotas e peças de mau gosto, servindo um pouco de alívio cômico, e aos pouquinhos (muito aos pouquinhos, discretamente) foi mudando e afirmando-se; também ficamos sabendo do passado terrível de sua família, e houve até a possibilidade de que ele fosse o predestinado, ao invés de Harry (como se aventou em Harry Potter e A Ordem da Fênix). Pois na volta de Harry, Rony e Hermione a Hogwarts, após centenas de páginas, descobrimos que ele é o líder da resistência a Voldemort na escola, o que levará ao desenlace (a batalha entre os dois lados), no qual ele estará ao lado do protagonista (cumprindo de certa forma a enviesada profecia) no momento crucial, em que tudo se decide.

 

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07/07/2009

LIRISMO E REALISMO AO MODO LOBO ANTUNES

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em primeiro de novembro de 1994)

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MOTE

    Para o grande pensador Georg Lukács, o ponto fundamental da épica narrativa era a questão da possibilidade e da necessidade da ação do herói: para que ela fosse possível e necessária o mundo deveria fazer sentido.

    Na época burguesa, dificilmente há a sensação de que o mundo faça sentido. Ou o seu sentido é acumular capital? O herói do romance, a grande arte burguesa, procura, então, o sentido dentro de si, e o gênero narrativo descamba para o lirismo (descrição de estados de alma), uma vez que a realidade íntima do herói entra em confronto com a realidade exterior. Ou seja, a gente se acha demais, e o mundo de menos, árido e pobre.

    Observando a trajetória da ficção contemporânea, vemos como diversos narradores, esmagado pelo peso sem sentido do mundo burguês, deixaram-se levar (via experimentação lingüística ou via introspecção extrema) para um lirismo radical, deformando o imperativo épico de “representar a realidade”.

 

O CASO LOBO ANTUNES

    O português António Lobo Antunes, em Conhecimento do Inferno (1980), fornece um belo exemplo do dito acima.  Seu texto é um magma de lembranças, cenas e imagens incríveis que fragmentam a narrativa e deixam no leitor a sensação de estar acompanhando um vulcão em erupção, um grande talento sem dúvida:

“A rapariga, imóvel, muito direita, a apertar contra o peito o seu saco de plástico, consentia que os anjos lhe pousassem nos ombros, nos cabelos, nos braços, tal os pássaros nas estátuas dos parques, empoleirados em heróis de bronze como a roupa nos cabides. Se não agisse depressa o asilo transformar-se-ia num aviário celeste, repleto de roçar de túnicas e de zumbidos siderais, e dezenas de homens alados invadiriam a Urgência, soprando-nos na nuca leves risos idênticos às borbulhas das guelras, que se dissolvem em estalos verdes de musgo.

–Porque não lhe dá uma injecção contra os anjos? –insistia a enfermeira.-Tem de haver uma injecção contra os anjos como há raticida, pó das baratas, remédio para o bicho das vinhas. Os anjos são mais fáceis de matar do que o bicho das vinhas.

     E ele imaginou por um instante, enquanto escrevia na ficha uma receita qualquer, anjos a agonizarem no soalho, suados e pálidos, chamando-o com as pupilas de vidro baço dos moribundos, que se despem a pouco e pouco de expressão e de cor até se assemelharem a cristais ocos, sem reflexos, idênticos aos duros olhos de plástico dos bichos empalhados. Imaginou as camionetas de lixo da cidade carregadas, ao fim da noite, de astronautas bíblicos, de ossos porosos de água e barbatanas de mergulhador, acumulados uns sobre os outros em atitudes de náufrago, imaginou um jovem querubim enforcado num algeroz, raspando com os tornozelos lilases parapeitos de varanda, imaginou o seu próprio anjo da guarda estendido aos pés como uma sombra, de braços abertos, um resto sangrento de Via Láctea a evaporar-se-lhe do canto dos beiços”.

    Imaginem 315 páginas nesse teor e é fácil imaginar que a lava vulcânica muitas vezes se deixa levar para o jorro fácil, para o informe e o meramente prolixo. Trata-se, com uma respiração narrativa de maior fôlego, de um caso parecido aos textos em prosa da nossa Hilda Hilst (Fluxofloema; Qadós; Tu não te moves de ti).

 

CASA PORTUGUESA HORROR SHOW

    Lobo Antunes, em Auto dos Danados (1985), lançamento da editora Best Seller (salvo engano, é o segundo publicado no Brasil; o primeiro foi Os cus de Judas pela Marco Zero), demonstra maior habilidade técnica, esmerando-se na construção do romance, apesar de manter o mesmo lirismo (no sentido lukásiano). E assim como Hilda Hilst esse autor de 50 anos tem certa afinidade com outro ótimo escritor lusitano, Vergílio Ferreira, que conseguiu ser um grande alegorizador da opressão salazarista e um autor verticalmente existencialista e fenomenológico em romances raros, como Alegria breve, Nítido Nulo e Rápida, a sombra.

    Em Auto dos Danados,cujos acontecimentos principais transcorrem por volta da Revolução dos Cravos, as baterias do realismo grotesco de Lobo Antunes se voltam contra a alta burguesia que se beneficiou do regime de Salazar. E ela nunca entrou em decadência; ela é a própria decadência, pela sua ganância, pela sua falta de interesse público, pela sua depravação, equivalendo a uma casa apodrecendo ao som meloso de  Roberto Leal tirolando “é uma casa portuguesa, com certeza”…

    Realismo grotesco, sim. Porque o instrumento utilizado para mostrar tal podridão moral e ética é o exagero. Enquanto o patriarca  agoniza, somos informados de que o seu genro fornicou com todas as mulheres do clã: as duas cunhadas, sendo uma delas mongolóide, a qual inclusive dá à luz uma filha dele, com quem ele também transa (e tem outra filha), além de faturar de quebra a sobrinha, Ana, que muitos anos depois retorna a Portugal para ajustar contas com o tio-amante.

    Exagero eficaz, sim. Porque confronta o leitor com coisas “que não são possíveis”. E no entanto são possíveis e acontecem (ao contrário da necessidade e da possibilidade da ação heróica). Não se pense com isso que o romance é facilmente escandaloso ao mostrar os escombros da respeitabilidade portuguesa, ou então uma leitura fácil. É um livro pesado, como se um crítico da burguesia implacável como o italiano Alberto Moravia desse as mãos a um visionário compilador da realidade bruta dos objetos e das coisas diante do sem sentido do homem e da sociedade, como o francês Claude Simon, Nobel de 85. É o inferno, com certeza.

 (a citação de CONHECIMENTO DO INFERNO foi extraída da 6ª. edição portuguesa, pelas Publicações Dom Quixote, 1983)

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06/07/2009

A paixão de Amâncio Amaro: a bela estréia de André Laurentino

andré laurentinoa paixão de amãncio amaro 

   Um menino não consegue decorar seu próprio nome pois este, completo, ocupa três páginas inteiras do livro de batismo da matriz de Santana. Pior ainda: qualquer chamado que ouve é um susto, sempre pode ser para ele. Esse é um dos tantos motivos que o levam para lugares isolados dentro dos canaviais, onde em meio a intensas atividades masturbatórias, reconta e corrige os fatos biográficos da sua insustentável leveza de ser. São suas  “ilhas de vontade”: “Sem ter nem para quê, no susto, sem planejamento prévio, veio-lhe o pai a pedir perdão. Não sem antes tomar uma bela sova de um só golpe, que pôs o homem no lugar que lhe cabia, prostrado no chão. Outra vez não escaparam à imaginação de Amâncio os detalhes. Tão exatos que faziam tudo ser mesmo passível de verdade; que fariam até Deus se confundir sem saber se aquilo fora ou não fruto de Seus próprios desígnios…Tudo perfeito! Na calmaria dos partidos de cana o mundo era seu.”

     Amâncio sofrerá uma cruel queda desse paraíso artificial, cujo Verbo (“no início…”) talvez tenha sido o motivo que levou seu pai a criar uma pedra dentro de uma gaiola como passarinho fosse,  não um qualquer, e sim um passarinho específico.

    Os parágrafos acima procuram sugerir ao leitor, ainda que de forma pálida, a surpreendente criatividade e a esmerado trabalho de linguagem de A paixão de Amâncio Amaro. Não dão conta é do flexível enredo, que narra, em alternância, a história dos pais do protagonista, igualmente fraturados em sua identidade. Para se ter uma idéia: Culadinha, a mãe, tem um defeito descrito pelo povo como “olhos trocados” e que a torna muito feia. Mas ela encontra nos cacos de espelho (que passam a ser seu refúgio) o avesso da sua imagem e a perfeição: uma moça linda.

    Não se espere desse belo romance de estréia do pernambucano André Laurentino coronéis, quengas, jagunços, beatas, seca, disputa de terra, as receitinhas (das quais a tevê e o besteirol se apropriaram) habituais da ambientação nordestina.  Laurentino às vezes até faz lembrar os melhores aspectos das peças de Ariano Suassuna, mas sua Santana é muito pessoal, peculiar como só um universo literário que vem da intuição e da experiência pode ser.

    Os escorregões na qualidade do livro se devem justamente ao uso de truques e elementos derivativos, frutos dessa necessidade brasileira de manter o Nordeste no pitoresco: é o caso da habilidade fantástica do pai de Amâncio em se disfarçar (poste, pote d’água, por exemplo), da vingança de Exú contra ele, da febre por refrigerantes motivada por essa vendeta (eles viram remédios caseiros e afrodisíacos). São episódios divertidos, entretanto soam falso e acrescentam pouco à dicção renovadora que A paixão de Amâncio Amaro traz a um terreno do qual já não se esperava nada nesse sentido: o regionalismo, mais especificamente o nordestino, o qual finalmente dá mostras de ressurreição, como se pode verificar também nas obras de Maria Valéria Rezende, Vasto Mundo e O vôo da guará vermelha.

    O legítimo talento de Laurentino está em esboçar com perícia a paixão que já foi de Cristo, já foi de G.H. e agora  também é a do seu herói: “Estava outra vez sozinho no canavial. Mas de um jeito diferente, muito distinto daquele em que, naquele mesmo lugar, era senhor de si e das coisas…Desejava o poder de sumir, mas calhou desta vez de desejar sem poder. As coisas que pensava não aconteciam.”

    Tudo o que a vida tem de dissolvente e evanescente crucifica Amâncio Amaro, contudo o alto quilate revelado pela linguagem do seu criador acaba resgatando-o e  tornando-o bastante palpável para nós, que vivemos paixão similar, embora com menos nomes. Ou talvez todos os nossos nomes, juntos, sejam o dele também.

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MINHA RAPIDINHA COM PAULO COELHO

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                                  CORRE, COELHO

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   Após uma única e estapafúrdia experiência de leitura de Paulo Coelho (O Alquimista) há quase 20 anos, seus livros posteriores não me despertaram o mínimo interesse, embora acompanhasse seu imenso sucesso e verificasse o consenso geral sobre a ruindade da sua ficção. Todavia, O Vencedor Está despertou minha curiosidade quando soube tratar-se do seu 12º. romance. Pensei: ninguém pode construir uma carreira de escritor popular e ter no currículo onze romances anteriores… sem ter aprendido nada, sem ter desenvolvido sequer uma carpintaria narrativa básica!

    Seguindo esse raciocínio, me dispus a ler O Vencedor Está Só como já li, digamos, Morris West, o qual era considerado best seller, mas tratava de problemas espirituais da nossa época com rara engenhosidade ficcional, ou como li mais recentemente Michael Crichton, o qual, por sua vez, sempre aborda assuntos interessantes e novidades da vida contemporânea disfarçados numa roupagem de corre-corre e eventos concentrados no tempo e no espaço. Na pior das hipóteses, um Sidney Sheldon, com seu estilo vulgar, exuberante entrelaçamento do folhetinesco e do sórdido, da tríade imbatível: sexo-riqueza-poder.

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    O romance de Paulo Coelho tem um perfeito esquema narrativo, dentro das fórmulas tradicionais, com o acréscimo do ingrediente da globalização: concentra-se em 24 horas em pleno festival de Cannes. Um mega-empresário da telefonia, o russo Igor, comete vários assassinatos numa represália (que vai se tornando psicótica) longamente planejada contra a esposa que o abandonara dois anos antes, Ewa, ora casada com um consagrado estilista árabe, Hamid, este embarcando na sua primeira produção cinematográfica. Os crimes de Igor acabam fazendo dele um involuntário anjo exterminador do mundo do cinema, colocando-o no caminho de uma candidata a estrela, Gabriela, contratada justamente para o filme produzido por Hamid (aliás, o astro do filme é uma das vítimas). Temos o topo da cadeia alimentar da indústria cultural: cinema e moda (outra personagem importante é uma modelo negra, Jasmine, que Hamid deseja ter como a “cara” da sua marca).

    O que estraga O Vencedor Está Só e o impede de ser um simples e ótimo entretenimento bem montado no seu entrecruzar de trajetórias diversas é que Paulo Coelho quer fazer um comentário sombrio sobre a nossa época midiática e devorada pelo culto às celebridades e pela sociedade do espetáculo.

    Sem contar citações inúteis de versos, provérbios e parábolas (há até um momento hilário em que ele insinua uma citação velada de Pessoa: Gabriela vê uma tabacaria e uma pequena comendo chocolates), as informações cretinas enxertadas da maneira mais chinfrim no meio do texto, que parecem zombar da inteligência do leitor (o casal Igor-Ewa, no passado, janta fora e Coelho discute o uso do termo champagne: “O uso da palavra foi proibido por causa das chamadas reservas de domínio: champagne era o vinho branco com determinado tipo de bactéria que através de um rigoroso processo de controle de qualidade começa a gerar gases na garrafa à medida que envelhece por um mínimo de 15 meses —o nome referia-se à região em que era produzido…” etc etc), as aproximações esdrúxulas (como o russo Igor que monta um exército para interferir na guerra civil em Ruanda!!??) só para mostrar que está tudo ligado, os investigadores de araque (locais e aposentados da Scotland Yard) que aparecem na história (eu adoro particularmente quando eles destilam o que Coelho designa como “cultura” e “erudição” e parecem mais a Velma do Scooby-Doo), e isso tudo poderia passar em branco e ser aceito no esquema geral “entretenimento” e “diversão sem compromisso”; não, o que realmente compromete a narrativa é que o texto não se limita a representar ficcionalmente a cultura da superfície, da imagem: ele (con)funde os pensamentos das personagens e o discurso do narrador em dissertações moralizantes. E assim a trama tropeça na pregação, que torna óbvio o que poderia estar implícito no próprio desenrolar da intriga e nas obsessões das personagens.

    Assim, o próprio Coelho corre, cresce e, em crise, cai sabota seu livro. Não dá nem para dizer que é uma auto-ajuda disfarçada;  parece mais um resgate anacrônico e involuntário, para aquém de Sheldon & Crichton, do estilo de best sellers mais antigos, como Grande Hotel, de Vicki Baum, nos quais, concentrada a ação no tempo e no espaço, se tentava uma síntese didática similar dos males do materialismo.

    No fundo, ainda é sempre o mundo das “ilusões perdidas” balzaquianas, mais do que o retrato moderníssimo que o autor pretendia. Só que, felizmente, está longe do horror que eu imaginava.

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01/07/2009

O AUTOR COMO PERSONAGEM

Arquivado em: Livros que eu indico — alfredomonte @ 17:43
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                        MACHADO MORRE  

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  Machado de Assis, um gênio brasileiro, de Daniel Piza, sofreu um  bombardeio crítico, sobretudo devido a diversos erros de informação (José Bonifácio seria português e Deodoro seria o “Marechal de Ferro”, por exemplo). Só que eles podem ser corrigidos numa nova edição. Mais difícil de reparar são os tolos resumos das obras, as análises atabalhoadas ou pífias, ou os trechos decididamente toscos, como este em que ele  comenta a célebre fórmula “Ao vencedor, as batatas”: “Mais uma vez, a frase é entendida como uma ironia de Machado no sentido de que o vencedor não tem nenhuma vantagem salvo a de ficar com umas batatas…” !!! Que coisa incrível, não ? Ainda não satisfeito, ele caracteriza, na página seguinte, a loucura de Rubião (protagonista de Quincas Borba) do seguinte modo: “Era um perdedor com batatas” !!!

    Mais uma vez, a ficção ganhou longe da pesquisa biográfica, ficando com as batatas.  Há uma nova edição de um finíssimo –em todos os sentidos—romance de Haroldo Maranhão, lançado com pouco alarde em 1991: Memorial do fim. Nele, encontramos Machado de Assis agonizante. Seu leito foi descido para o andar térreo, a porta da casa no Cosme Velho está sempre aberta, pois muitos querem vê-lo antes do trespasse: são amigos que chegam, são anônimos que vêm prestar a última homenagem, é o Barão do Rio Branco que comparece e dá azo a um momento constrangedor, é uma romancista que espera extrair do moribundo um prefácio, é uma mulher que pode ter sido o derradeiro investimento afetivo do grande escritor, após a morte da esposa, Carolina (um dos piores momentos do livro de Piza é quando “analisa” o famoso soneto póstumo dedicado a ela).

    Aliás, a figura da mulher aparece com a mesma ambigüidade que torna fascinantes tantas figuras femininas de Machado. Memorial do fim já começa com uma delas, real ou imaginária, a inquietar um dos seus amigos fiéis, o crítico José Veríssimo, descrito numa carta (de Mário de Alencar, filho do autor de Iracema, e discípulo dedicado do Bruxo do Cosme Velho a ponto de querer manter o decoro e afugentar qualquer fantasma feminino que assombre a figura impecável, o lado Conselheiro Aires, do seu mestre) em termos deliciosos, se lembrarmos que Haroldo Maranhão é paraense: “Diz-se um roceiro, e o é, do Amazonas semibárbaro, onde a marca racial se traduz nas impetuosidades dos elementos, nas águas possuídas de cólera, que rompem florestas e terras bem fincadas, levando-as no arrasto da força primitiva. O íncola parece plácido, demonstra-o ser, mas lá um dia muda-se nas raivas dos répteis ensandecidos. Então, e sem nexo de causa e efeito, lacera pessoas mesmo as amigas; são gentes indomadas que copiam a natureza indomada. Subsistem de outra face, nele, laivos de extremada curiosidade, para não falar-se [sic] de bisbilhotice, e de leves toques de picardia acerca de autores e livros, tudo obra da herança roceira.”

    Com picardia e desfaçatez, Maranhão nos dá o fim de Machado mimetizando a maneira como ele mostrou a comédia humana, fundamentada em máscaras e fingimentos. Mais assombrosa ainda é a perícia com a qual mimetizou sua linguagem e técnica romanesca, conversando com o leitor, investindo nas desconcertantes digressões, contrariando expectativas, fazendo o próprio processo de escrever ser desmascarado, chegando até à gratuidade de compor capítulos com trechos de romances machadianos, e talvez este seja o ponto menos feliz do livro.

     Ele é tão “feliz” em todo o resto, em que a pena da galhofa ajuda a suportar a tinta da melancolia de um fim, que ainda por cima é obrigado a fazer-se de espetáculo incessantemente aberto ao público, que alguns capítulos de gosto duvidoso pouco importam. Ao contrário do próprio Machado (o qual não foi imune ao universo social que descreveu tão lucidamente) e seu discípulo, Mário de Alencar, Haroldo Maranhão nunca faz questão de ser impecável e decoroso. No entanto, houve (houve mesmo? Ou será mais uma gaiatice, um teste para o leitor, tão provocado ao longo da narrativa?) um cochilo no seu posfácio: diz que no capítulo XVII reuniu trechos de Quincas Borba. Trata-se, no entanto, de Dom Casmurro.

 

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            UM JOGADOR

  “…havia uma carta endereçada a Anna Grigórievna contendo cem rublos…agora eles iriam poder pagar o que deviam à senhoria, sem precisar mais se esconder dela, e resgatar o broche, os brincos, as alianças e os outros objetos e, finalmente, ir embora desse lugar maldito. Decidiram partir no dia seguinte, e assim que chegaram em casa Anna Grigórievna começou a fazer as malas, enquanto Fédia saiu para trocar o dinheiro e resgatar o broche, os brincos e as alianças …

    Quem leu Um jogador, de Dostoievski, ou quem simplesmente gosta de literatura, não pode deixar de ler o esplêndido Verão em Baden-Baden (1981), de Leonid Tsípkin, pequeno romance que faz o leitor vivenciar, como se estivesse ao lado dele, o vício de jogar do próprio Dostoiévski, o Fédia do trecho acima, cujo desenlace é o seguinte: “Fédia apareceu justamente nessa hora –estava pálido e caiu a seus pés, como de costume, dizendo que havia perdido o dinheiro que Anna Grigórievna lhe confiara…era preciso salvar o dinheiro que restava…”.

    Acompanhamos Fédia arrastando sua esposa por diversas cidades da Europa, tentando “fazer um capital” com o jogo em Baden-Baden, sentindo-se enganado pelos senhorios e serviçais alemães, o casal cada vez mais maltrapilho, penhorando até suas poucas roupas melhores, e o autor de livros supremos oscilando entre a exaltação e a mortificação, com um amor-próprio doentio, ao ponto dos atos mais infantis, mas com uma capacidade de se auto-diagnosticar impressionante, indo e vindo febrilmente do cassino para a pensão, da pensão para os passeios habituais dos veranistas (onde ele e a esposa fazem triste figura), e daí novamente para o cassino. E seu confronto humilhante com seus competidores literários, Turgueniêv e Gontchárov, a quem enfrenta no campo das idéias, porém sempre com um travo amargo no plano social (o porteiro do hotel de Turgueniêv barra sua passagem, Gontchárov coloca  com soberba em suas mãos moedas de ouro que ele imediatamente perde na roleta).

    E o mistério de toda relação: por que Anna Grigórievna persistiu nesse casamento ? Aliás, por que casou com ele ? Como se sabe, ela a princípio era secretária dele, que ditava suas obras para cumprir prazos de entrega com maior rapidez (portanto, já havia dívidas, já havia o vício, já havia todo um mundo familiar conspiratório e complicado).

    No final, o narrador, judeu, não consegue entender seu amor avassalador por esse autor tão anti-semita, embora praticamente tenha solucionado a questão ao fazer de Fédia um personagem dostoievskiano, atingindo toda a gama de sentimentos humanos, até os mais “feios”, os mais ridículos.

    O que fica difícil de explicar é a magia da narrativa de Verão em Baden-Baden. Feita sob o signo do deslocamento (além da perambulação de cidade em cidade do casal Dostoiévski, o fio condutor é uma viagem de trem do narrador), no tempo e no espaço, ela se fundamenta toda na relutância em usar pontos finais: um travessão se abre, e outro e mais outro, e aí um  momento da vida de Fédia e Anna, ou do narrador, se abre, e assim somos levados a viajar no ritmo e na intensidade dessas vidas, de uma forma que nenhuma biografia linear conseguiria.

    No prefácio ao livro, Susan Sontag nos conta que Tsípkin nunca conseguiu publicar nada em vida. Ele escrevia para “a gaveta”. E ela acrescenta: “para a literatura propriamente dita”. Ao nos fazer viajar, por menos de 200 páginas, na essência da vida de um gênio como Dostoiévski, realmente ele  atingiu o que só a verdadeira literatura consegue: “Mais vida, em um tempo ilimitado”.

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serviço: Verão em Baden-Baden (Lieto v Bádenie), de Leonid Tsípkin (1926-1982). Tradução de Fátima Bianchi. Companhia das Letras. 208 págs. (resenha publicada em 12  fevereiro de 2005)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POEMAS: WALT WHITMAN,BAUDELAIRE, Rilke, Borges, Vicente de Carvalho, Bilac, Seferis, Jorge de Lima, Drummond, Carlos Nejar, Hilda Hilst, EMILY DICKINSON…

 
ANTOLOGIA
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POEMAS DE FOLHAS DA RELVA
(Walt Whitman) 

CANÇÃO DO UNIVERSAL

1.

Vem, disse a Musa,

Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,

Canta-me o Universal.

 

Nesta nossa terra vasta,

Em meio à densidade imensurável e à escória,

Guardada e segura dentro do coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.

 

Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,

Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.

 

2.

Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,

Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,

Emitisse sucessivas ordens absolutas.

 

Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda ciência,

Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,

Para ela todas as constelações rolam através do espaço.

 

Em rotas espirais por entre longos desvios (…)

Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,

Por ela o real tende ao ideal.

Por ela a mística evolução,

Não apenas a justificação do Bem, o que chamamos de Mal também se justifica.

 

Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,

Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,

Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.

 

Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,

Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes de homens e Estados,

Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,

Apenas o bom é universal.

 

3.

Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,

Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,

Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.

 

Das imperfeições das nuvens mais escuras,

Atira sempre um raio de perfeita luz,

Um brilho da glória celeste.

 

Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,

Para o doido alarido de Babel, para as orgias ensurdecedoras,

Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,

Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.

 

Ó olhos abençoados, corações felizes,

Que vêem, que conhecem o finíssimo fio condutor

Através do labirinto.

 

4.

E tu, América,

Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,

Por esses (não por ti mesma) tu vieste.

 

Tu também envolveste todos

Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas

Por estradas largas e novas.

Tendendo ao ideal.

 

As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti…

 

O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve a todos,

Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando a todos,

Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos,humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.

 

Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,

Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,

Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negue a nós,

A crença nos Teus planos guardada no Tempo e no Espaço,

Saúde, paz, salvação universal!

 

Será um sonho?

Não, mas a ausência dele é o sonho,

E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas sonho,

E o mundo inteiro é apenas sonho.

 

 

WaltWhitman 

AO JARDIM O MUNDO RETORNA

Ao jardim, o mundo retorna se elevando,

Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,

O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,

Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,

Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,

Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,

Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles,

                                                 por razões, quase todas, assombrosas

Ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,

Feliz com o presente, feliz com o passado,

Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,

Ou à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.

 

ERAS E ERAS RETORNANDO A INTERVALOS

Eras e eras retornando a intervalos,

Intocadas, vagando imortalmente,

Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,

Eu, cantor de canções adâmicas,

Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,

Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os,

Oferecendo a mim mesmo,

Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,

Fruto da minha carne.

 

 COMO ADÃO AO AMANHECER

Como Adão ao amanhecer,

Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.

Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,

Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,

Não tenhas medo do meu corpo.

 

Ó meu eu! Ó vida!

Ó meu eu! Ó vida! Das questões que são recorrentes,

Dos trens infinitos dos que não tem fé, das cidades cheias de tolos,

Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu

E quem é mais sem fé?)

De olhos que em vão suplicam por luz, do meio dos objetos,das lutas sempre renovadas,

Dos pobres resultados de tudo,

Das laboriosas e sórdidas multidões que vejo à minha volta,

Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,

A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente: O que há de bom em meio a tudo isso?

Ó meu eu! Ó vida!

 Resposta:

Que estás aqui —e que a vida existe e a identidade,

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.

 

 

DESDE OS RIOS CONFINADOS À DOR

 Desde os rios confinados à dor (…)

Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre,

Mesmo que eu viva solitário entre os homens,

Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico (…)

Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!

Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!

Ó por ti, quem quer que sejas, teu corpo correspondendo-me!

Ó isso, mais que qualquer coisa, tu deliciando-te!)

(…) Pesquisando algo que ainda não pude descobrir,

Embora tenha diligentemente procurado anos a fio,

Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso (…)

A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,

O nadador nadando nu ou boiando sem movimentos (…)

……………………………eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,

A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,

O rosto, os membros,o índice da cabeça aos pés,e aquilo que faz com que ele se levante,

O delírio do místico, o delírio amoroso, o completo abandono

(chega perto, e calado escuta o que agora sussurro para ti:

Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,

Ó tu e eu fugimos ao mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,

Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois).

A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente (…)

(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,

Ó deixe-me estar perdido se necessário for!

Ó tu e eu! (…)

O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro

E nos exaurimos se necessário for.)

 (…) Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos

Pelos meus cabelos e minha barba

WhitmanWalt

(…) Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem

Até desmaiá-lo pelo excesso

(…) Desde a exultação, a vitória, o alívio,

Desde o abraço do companheiro de cama durante a  noite

(…) Desde o movimento de tirar a coberta que nos cobre

(…) Desde aquele que não deseja me ver partindo e eu que também não desejo partir

(será apenas um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei),

Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,

Desde a noite em que vou emergindo fugaz,

Celebro-te, ato divino…………………………………………………………

 

 

 DO ENCAPELADO OCEANO DA MULTIDÃO

 Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,

Sussurrando: “Eu te amo, bem antes de eu morrer,

Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,

Pois não poderia morrer antes de olhar-te,

Pois temia que mais tarde poderia te perder”.

Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros.

Volta em paz para o oceano, meu amor,

Também sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,

Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!

 

Mas, quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,

Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes,

Por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;

Não sejas impaciente—um interregno—sabes tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,

Todos os dias no crepúsculo, pelo teu amor, meu amor.

 

MEU LEGADO

 

O homem de negócios de vastas aquisições,

Depois de árduos anos fazendo o balanço dos resultados,

Preparando para a partida,

Lega casas e terras para seus filhos, deixa ações como herança,

Bens, fundos para uma escola ou hospital,

Deixa dinheiro para certos companheiros, para que comprem lembranças,

Relíquias de pedras preciosas e ouro.

 

Mas eu, fazendo o balanço de minha vida, fazendo o fechamento,

Com nada para apresentar, para legar de meus anos preguiçosos,

Nem casas, nem terras, nem lembranças de pedras preciosas ou ouro para meus amigos,

Contudo, certas lembranças da guerra deixo para ti e para os que virão,

E pequenas relíquias de acampamentos e soldados, com meu amor,

Encaderno e deixo como herança neste feixe de canções.

 

CIDADE DE ORGIAS

Cidade de orgias, passeios, alegrias,

Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,

Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,

Nem teus espetáculos, que me recompensarão,

Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,

Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,

Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa

 

Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,

O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,

Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,

Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.

 whitman

A CERTO CIVIL

 Pediste-me rimas doces?

Procuras as rimas pacíficas e lânguidas dos civis?

Achaste a canção que entoei anteriormente difícil de acompanhar?

Pois eu não estava cantando anteriormente

Para que tu pudesses seguir, para que entendesses, nem mesmo agora

(Despertei com a guerra, os intermináveis rufos dos tambores dos regimentos

São sempre doce música para mim, amo muito o hino fúnebre marcial,

Com lamentações vagarosas e palpitações convulsivas,

Conduzindo o funeral dos oficiais);

O que é, para alguém como tu, de qualquer modo, um poeta como eu?

Assim sendo, abandona meus trabalhos,

Ilude-te com aquilo que podes compreender e com os tons do piano,

Pois a ninguém iludo e jamais poderás entender-me.

 

SAINDO DE TRÁS DESTA MASCARA (para confrontar um retrato)

 1.

Saindo de trás desta máscara flexível, grosseiramente talhada,

Estas luzes e sombras, esse drama do Todo,

Esta cortina comum da face contida em mim e para mim, e em ti para ti,

Em cada um para cada um

(Tragédias, tristezas, lágrimas, ó céu!,

Estas abundantes peças cheias de paixão, escondidas atrás desta cortina!),

Este esmalte do mais puro e sereno céu de Deus,

Este filme da fervura de Satã no abismo,

Este mapa da geografia do coração, esse ilimitado pequeno continente,

Este mar insondável, saindo das circunvoluções deste globo,

Este orbe astronômico mais sutil que o sol ou que a lua, que Júpiter,Vênus, Marte,

Esta condensação do universo (e mais ainda o único universo que está aqui,

Aqui a idéia, tudo neste punhado de pacotes místicos);

Estes olhos entalhados, sinalizando para que passes para o tempo futuro,

Para lançar e fazer girar através do espaço, revolvendo-se obliquamente,

A partir destes para enviar-te, quem quer que sejas, um olhar.

 

2.

Um viajante de pensamentos e anos, de paz e de guerra,

De juventude longamente vivida e declínio da meia-idade

(Como o primeiro volume de um conto de fadas lido cuidadosamente e deixado de lado e este, o segundo, com canções, aventuras, especulações, até o epílogo na atualidade),

Demorando-se um pouco aqui e agora, volto-me ara o lado oposto de ti,

Como se estivesse na estrada ou na abertura de uma porta, por acaso,

Ou numa janela aberta;

Parando, inclinando-me, descobrindo minha cabeça, saúdo-te de modo especial,

Para atrair e abraçar tua alma uma vez, inseparavelmente com a minha,

E depois viajar, seguir viagem.

 

UMA ARANHA PACIENTE E SILENCIOSA

 Uma aranha paciente e silenciosa.Registrei o lugar do pequeno promontório em que ela estava isolada,

Registrei o modo como, para explorar as vastas redondezas vazias,

Ela lançou adiante filamentos, filamentos, filamentos que saíam de dentro dela,

Sempre os desenrolando, sempre os acelerando incansavelmente.

 

E tu, ó minha alma, no lugar em que estás,

Cercada, destacada, em imensuráveis oceanos de espaço,

Meditando incessantemente, aventurando-se, lançando-se,

Procurando as esferas para conectá-las,

Até a ponte que terá de ser formada por ti, até o cabo flexível da âncora,

Até que a fibra fina que atiras prenda-se em alguma parte, ó minha alma.

 

Mannahatta

 

O nome adequado e nobre da minha cidade retomado,

Escolha de nome aborígine, com maravilhosa beleza, significado,

Ilha rochosa fundada, praias em que sempre batem festivamente

As rápidas ondas do mar que vêm e vão.

 

Os Estados Unidos para os críticos do Velho Mundo

 

Aqui em primeiro lugar os deveres de hoje, as lições do concreto,

Riqueza, ordem, viagem, abrigo, produtos, abundância,

Como na construção de algum edifício diversificado, vasto, perpétuo,

Do qual se erguem, inevitavelmente pontuais, os altos telhados, as luminárias,

As pontas solidamente plantadas nas alturas, mirando as estrelas.

 

O lugar-comum

 

O lugar-comum eu canto;

Quão barata é a saúde! Quão barato é o caráter!

Abstinência, sem hipocrisia, sem glutonaria, sem luxúria;

O ar livre eu canto, liberdade, tolerância

(Leva, aqui, a principal lição, que não é a dos livros, nem a das escolas),

O dia e a noite comuns, a terra e as águas comuns,

Tua fazenda, teu trabalho, negócios, ocupações,

A sabedoria democrática subjacente, piso sólido para todos.

 

TRAVESSIA DA BALSA DO BROOKLY -fragmento

 2.

O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,

O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,

Cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,

As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,

As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões

E em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,

A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nada para longe,

Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre mim e eles,

A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.

 

Outros assistirão à rapidez do transbordamento da maré,

Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste

E as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,

Outros verão as ilhas grandes e pequenas;

Dentro de cinqüenta anos, outros terão essa visão quando fizerem a travessia,

O sol nascido há meia hora;

Dentro de cem anos, ou mesmo centenas de anos, outros terão essa visão,

Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré,

O retorno do mar no refluxo da maré.

 

9.

Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!

Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!

Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor

Ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!

Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!

De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!

Palpita, cérebro confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!

Suspende aqui e em toda a parte a eterna dança das soluções!

Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua (…)

Soai, vozes, vozes de rapazes!Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!

(…) Considera, tu que me lês com atenção, que posso estar por caminhos desconhecidos

Pensando em ti;

(…) Reflete o céu de verão, tu, água, e lentamente o segura

Até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!

Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça,

Ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!

Avante, navios da baía inferior! Passai para cima e para baixo,

Escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!

Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!

Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições!

Lançai sombras negras sobre o anoitecer!

Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!

As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,

Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,

Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai-vos aromas divinos,

Prosperai, cidades, trazei vosso frete,trazei vossos espetáculos,rios amplos e suficientes,

Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,

Guardai vossos lugares, objetos que não encontrarão

nada mais duradouro que vós mesmos.

 

Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,

Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente,

E nos tornamos insaciáveis de agora em diante,

Não mais sereis capazes de nos despistas ou de negar-vos a nós,

Usamos-vos e não vos lançamos fora, plantamos-vos permanentemente dentro de nós,

Não nos aprofundamos em vós, amamos-vos, também há perfeição em vós,

Fornecei vossas partes rumo à eternidade,

Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.

 

Até breve!

Para terminar, anuncio o que vem depois de mim.

 

Lembro-me de ter dito antes que minhas folhas brotariam totalmente,

Eu ergueria minha voz aprazível e forte com referência às consumações.

 

Quando a América fizer o que foi prometido,

Quando através destes Estados andarem cem milhões de pessoas soberbas,

Quando os demais partirem, deixando as pessoas extraordinárias e apoiando-as,

Quando gerações das mais perfeitas mães denotarem a América,

Então haja para mim e para os meus a nossa devida fruição.

 

Pressionei para entrar por meu direito próprio,

Cantei o corpo e a alma, a guerra e a paz cantei e as canções da vida e da morte,

E as canções do nascimento e mostrei que há muitos nascimentos.

 

A todos ofereci o meu estilo, jornadeei com passos confiantes;

E enquanto meu prazer ainda é total, sussurro Até breve!

E tomo as mãos da jovem mulher e do jovem homem pela última vez.

 

Anuncio a elevação das pessoas naturais,

Anuncio a justiça triunfante,

Anuncio a liberdade e a eqüidade sem comprometimentos,

Anuncio a justificação da candura e a justificação do orgulho.

 

Anuncio que a identidade destes Estados é uma única identidade singular,

Anuncio a União mais e mais consolidada, indissolúvel,

Anuncio os esplendores e a majestade que farão todas as políticas prévias da Terra

                                                 parecerem insignificantes.

 

Anuncio a adesão, digo que há de ser ilimitada,

Digo que ainda hás de encontrar o amigo por quem procuravas,

Anuncio um homem ou uma mulher, talvez sejas tu (Até breve!),

Anuncio o grande indivíduo, fluido como a Natureza,

Casto, afetuoso, compassivo, inteiramente constituído,

Anuncio uma vida que há de ser copiosa, veemente, espiritual, ousada,

Anuncio um fim que há de encontrar com leveza e alegria a sua tradução.

Anuncio miríades de jovens, cheios de beleza, gigantescos, de sangue doce,

Anuncio uma raça de esplêndidos e selvagens homens velhos.

 

(…) Prevejo algo demasiado, algo que significa mais do que eu imaginava,

Parece-me que estou morrendo.

 

Apressa-te, garganta, e soa o que está no fim,

Saúda-me, saúda os dias uma vez mais. Faz ressoar o velho brado uma vez mais.

 

Gritando eletricamente, usando a atmosfera,

Lançando olhares a esmo, absorvendo tudo o que noto (…)

…………….curiosas mensagens embrulhadas,

Quentes faíscas, sementes etéreas que caem na poeira,

Eu mesmo sem conhecê-las, obedecendo à minha missão, sem jamais ousar questioná-la

Para as eras e eras futuras, entretanto, deixando o desenvolvimento das sementes,

Erguendo-me para as tropas retiradas da guerra,

Promulgando para eles as tarefas que tenho,

Para as mulheres legando certos sussurros de mim…

Para os rapazes meus problemas oferecendo, testando os músculos de seus cérebros (…)

Apaixonadamente (a morte fazendo-me realmente imorredouro),

O melhor de mim então, quando não mais visível,

No rumo daquilo para o que venho me preparando sem cessar.

 

(…) Haverá um singelo adeus final?

 

Cessam minhas canções, eu as abandono,

Por detrás da tela onde me escondo, avanço pessoalmente apenas para Ti.

 

Companheiro, este não é um livro,

Aquele que toca isto toca um homem (…)

Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,

Eu salto de dentro destas páginas para dentro dos teus braços, a morte me chama.

 

(…) Sinto-me imerso da cabeça aos pés,

É delicioso, basta.

 

Basta, ó feito improvisado e secreto,

Basta, ó presente deslizante; basta, ó passado resumido.

 

Querido amigo, quem quer que sejas, leva este beijo,

Dou-o especialmente a ti, não me esqueças,

Sinto-me como aquele que realizou o seu trabalho durante o dia

E que se retira por um tempo,

Recebo agora novamente minhas muitas interpretações,

Meus avatares ascendendo, enquanto outros sem dúvida esperam por mim!

Uma esfera desconhecida mais real do que a que sonhei, mais direta,

Lança raios despertadores sobre mim, Até breve!

Lembra-te de minhas palavras, posso novamente retornar,

Amo-te, deixo a materialidade,

Sou eu desencarnado, triunfante, morto.

 

CANÇÃO DA ESTRADA ABERTA

 1.

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo adiante de mim,

A longa senda à minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.

 

A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.

 

A Terra é suficiente para mim,

Não desejo as constelações mais próximas,

Sei que estão muito bem no lugar em que estão,

Sei que são suficientes para aqueles que lá vivem.

 

Ainda assim, por aqui, eu carrego meus velhos fardos deliciosos,

Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,

Juro que é impossível deles me livrar,

Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.

 

2.

Tu, estrada em que me adentro, olhando ao meu redor,

Acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,

Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.

 

Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,

O negro, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,

O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo,

A tontura do bêbado, a festa alegre dos mecânicos,

O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugitivo,

O homem que madruga na feira, o carro funerário, a entrada da mobília na vila,

O regresso da cidade,

Tudo passa, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,

Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido por mim.

 

3.

(…) Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!

Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis…

Vós, calçadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas!

Vós, balsas! Vós, pranchas e postes das  docas!

(…)…………………………………………………..Vós, arcos!

Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!

Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós

E agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,

De vivos e de mortos haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície,

E os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.

 

4.

A Terra, expandindo-se para a direita e para a esquerda,

Cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,

A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar

Nos locais em que não a desejam,

A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco, dos caminhos.

 

Ó estrada principal, por ti viajo (…) não tenho medo de deixar-te e contudo te amo,

Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,

Há de ser mais para mim que meus poemas.

 

Creio que todas as canções heróicas foram concebidas ao ar livre

E também todos os poemas livres,

Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,

Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada,

E todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,

Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.

 

5.

Desde agora ordeno que meu ser livre-se de limites e linhas imaginárias,

Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,

Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,

Paro, procuro, recebo, contemplo,

Gentilmente, mas com vontade inflexível, dispo-me das amarras que me limitariam.

 

Inalo grandes e espaciais correntes de ar,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

 

Sou maior e melhor do que eu pensava,

Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade,

Tudo me parece maravilhoso,

Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim

E eu faria o mesmo por vós,

Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,

Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,

Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,

E se alguém me negar, isso não me incomodará,

Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.

 

6.

Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,

Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.

 

Agora, vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas:

É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.

 

(…) O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,

A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para quem não a possui,

A sabedoria pertence à alma, não é suscetível de provas, ela é a prova de si mesma,

Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,

É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e da sua excelência,

Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas,

De tal modo a provocar que venha para fora da alma.

 

Agora eu reexamino filosofias e religiões,

Elas podem ser eficazes nos salões de conferências e, contudo,

Não funcionar abaixo da vastidão das nuvens, e ao longo das paisagens

E das correntes que fluem.

 

(…) Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;

Onde está ele, que remove as cascas por ti  e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?

 

Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é pragmática.

Sabes o que significa ser amado por estranhos?

Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?

 

7.

Aqui está a emanação da alma,

A emanação da alma vem de dentro, atravessando portões sombreados,

Que sempre provocam polêmica,

Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?

Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos a mim

Fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?

Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?

Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo,

Fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?

(…) O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?

O que se dá com o condutor quando me sento ao seu lado?

O que se dá com o pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?

O que me permite estar disponível para a boa vontade de uma mulher ou de um homem?

 

8.

A emanação da alma é a felicidade, e aqui está a felicidade,

Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,

Agora ela flui para nós, estamos dela carregados, certamente.

 

Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós

(…) Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós,

Aparece o suor do amor dos jovens e dos mais velhos,

Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,

Em direção ao fluido e ao caráter as náuseas fazem estremecer

Com saudade do contato.

 

 9.

Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!

Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.

 

A terra jamais se cansa,

Rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista (…)

Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,

Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem descrever.

 

Allons! Não devemos parar aqui,

Por mais doces que sejam os bens armazenados,

Por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer aqui,

Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas

Não devemos ancorar aqui,

Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não se nos permita que a recebamos além de alguns momentos.

 

 

10.

Allons! As seduções hão de ser maiores,

Navegaremos sem rumo por mares bravios,

Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam

E o veloz cavalo ianque pode correr a toda brida.

Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,

Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade:

Allons! De todas as fórmulas! De vossas fórmulas, ó padres materialistas…

 

O cadáver bolorento bloqueia a passagem, o enterro não pode mais esperar.

 

Allons! Contudo esteja alerta!

Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões, resistência,

(…) Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,

Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados (…)

 

 

11.

 

Ouve! Serei honesto contigo,

Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos…

 

 

12.

 

Allons! Atrás dos Grandes Companheiros, para pertencer a eles!

Eles também estão na estrada, são homens rápidos e majestosos,

                                                  são as mais grandiosas mulheres,

(…) Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas,
Habitués de muitos países distantes…

Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades,

Aqueles que param para contemplar os botões, as conchas do mar,

Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas,

Carinhosos condutores de crianças,

Soldados de revoltas, sentinelas de túmulos abertos, coveiros,

Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos,

Cada qual emergindo daquele que o precedeu,

A saber suas próprias etapas diversas…

Viajantes alegres com sua própria juventude, com sua masculinidade de barba bem feita

Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,

Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,

Idade avançada, calma, expandida, ampla como a orgulhosa largura do universo,

Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.

 

 

 13.

 

Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,

Vivenciando muito: caminhadas ao dia e o repouso à noite,

Fundindo tudo na viagem,

Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que se pode alcançar e ultrapassar,

Não concebendo tempo algum (…)

Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo (…)

Carregando casas e ruas contigo, onde quer que vás (…)

Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas…

Tudo se fraciona pelo progresso das almas,

Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos,

Tudo o que era ou é aparente sobre o globo cai em nichos ou esquinas

perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo,

Do progresso das almas dos homens e das mulheres,

Ao longo das grandes estradas do universo (…)

Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,

Mas sei que vão na direção do melhor (…)

Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!

É inútil protestar, tudo conheço e exponho!

(…)Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,

Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas

Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero (…)

Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais (…)

A morte debaixo das costelas, o inferno debaixo do crânio,

Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,

Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,

Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.

 

14.

 

Allons! Através de lutas e guerras!

Do objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.

(…) Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa.

Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,

Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana,

Escassez, inimigos coléricos, deserções.

 

 

15.

Allons! A estrada está diante de nós!

Já a provei, com meus próprios pés eu a experimentei bastante, não te detenhas!

Deixe que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, o livro fechado na prateleira!

Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!

Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!

Deixa que o pregador pregue no púlpito!

Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.

Camarada, dou-te a minha mão!

Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,

Dou-te meu ser antes de pregar ou legislar;

Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?

Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?

 

 

 

 

 

 

 Baudelaire1

CHARLES BAUDELAIRE-

A perda da aura

  “E então, vossa senhoria por aqui, meu caro? Vossa senhoria, num antro! Vossa senhoria, o bebedor de quintessências! Vossa senhoria, o degustador de ambrosia! Na verdade, há razão para que me surpreenda.”

“Meu amigo, você conhece meu terror de cavalos e veículos. Ainda há pouco, quando atravessava o boulevard, a passo ligeiro, e saltava a lama, em meio a esse caos movimentado aonde a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha aura [auréole= auréola, halo], num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a sujeira do macadame. Não tive coragem de reavê-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me quebrarem os ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vem para o bem. Posso agora passear incógnito, cometer baixezas, e me abandonar à canalhice, como um simples mortal. E eis-me aqui, igualzinho a você, como você vê!”

“Vossa Senhoria deveria ao menos anunciar essa aura, ou reclamá-la na delegacia.”

“Minha nossa! Não! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. Além disso, a dignidade me entedia. E ademais penso, e me alegro, que algum poeta de segunda categoria vai apanhá-la e colocá-la na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que júbilo! E sobretudo um felizardo que me fará rir! Pense em X, ou em Z! Então! Como será bizarro.!”

 

 Ao leitor

A tolice, o erro, o pecado, a usura,

Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,

E alimentam nossos amáveis remorsos,

Como os mendigos nutrem seus piolhos.

 

Nossos pecados são teimosos, nossos pesares são frouxos     

Nós colocamos alto preço nas nossas confissões

E nós entramos alegremente no caminho lamacento

Crendo através de mil lágrimas lavar nossas nódoas

 

Sobre a almofada do mal é Satã Trismegisto

Quem embala longamente nosso espírito enfeitiçado

E o rico metal de nossa vontade

É todo volatilizado por esse sábio alquimista.        

 

É o Diabo que possui os fios que nos movimentam!

Nos coisas repugnantes nós encontramos atrativos;

Cada dia para o Inferno nós descemos um passo,

Sem horror, através de trevas que fedem.

 

Assim como o devasso pobre que beija e suga

O seio martirizado de uma já gasta vadia,

Nós queremos de súbito um prazer clandestino

Que nós esprememos como uma velha laranja.

 

 Espremida, fervilhante, como um milhão de vermes intestinais      

Nos nossos cérebros farreia uma população de Demônios,

E, quando nós respiramos, a Morte nos nossos pulmões

Desce, rio invisível, com surdas queixas.

 

Se a violação, o veneno, a punhalada, o incêndio,

Não bordaram ainda seus aprazíveis desenhos,

O desígnio banal de nossos patéticos destinos,

É que nossa alma, infelizmente, muito pouco ousou.

 

Mas entre os chacais, as panteras, os linces,

Os símios, os escorpiões, os abutres, as serpentes,

Os monstros estridentes, uivadores, grunhidores, rastejantes,

No bestiário infame de nossos vícios,

 

Não há um mais disforme, mais desagradável, mais imundo!

Ainda que ele não se atreva a grandes gestos nem a grandes gritos,

Ele voluntariamente faria da terra um monturo

E numa bocejada engoliria o mundo;

 

É o Tédio! – O olhar carregado de uma lágrima involuntária,

Ele sonha cadafalsos fumando seu narguilé                              

Tu o conheces, leitor, esse monstro delicado,

Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!         

 

 

 Esboço de um epílogo para a segunda edição, 1861

 Tranqüilo como um sábio e doce como um maldito…

Eu disse:

Eu te amo, ó minha tão bela, ó minha encantadora…

Quantas vezes…

Tuas devassidões sem afã e teus amores sem alma,            

                                                 Teu gosto pelo infinito,

Que em tudo, no próprio mal se proclama,

Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,

Teus subúrbios melancólicos,                                                 

Tuas pensões,                                          

Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,

Tuas igrejas vomitando a reza musicada,

Teus desesperos infantis, teus jogos de velha louca,

Teus desencorajamentos;

 

E teus fogos de artifício, erupções de alegria,

Que fazem rir o céu mudo e tenebroso,

 

Teu venerável vício entremeado na seda,

E tua risível virtude, de olhar infortunado,

Doce, extasiando-se com o luxo que ele descortina…

 

Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,

Teus altivos monumentos onde se agarram As Brumas.

Teus domos de metal os quais incendeia o sol,

Tuas rainhas do teatro com vozes encantadoras,

Teus alarmes, teus canhões, orquestra ensurdecedora,

Tuas mágicas calçadas altas como fortalezas,

Teus pequenos oradores, com exageros barrocos,

Pregando o amor, e ademais, teus esgotos cheios de sangue,

Se engolfando no Inferno como Orenocos,

Teus anos, teus bufões noviços com velhuscos hábitos

Anjos cobertos de ouro, de púrpura e de jacinto,

Ó vós, sede testemunhas de que cumpri meu dever

Como um perfeito alquimista e como uma boa alma.

Pois de cada coisa extraí a quintessência,

Tu me deste tua lama e eu fiz dela ouro.             

 

 O sol

 Ao longo dos velhos arrabaldes, onde pendendo das mansardas

Persianas abrigam secretas luxúrias,

Quando o sol cruel atira setas redobradas

Sobre a cidade e os campos, sobre os tetos e os trigais,

Eu vou exercer solitário minha fantástica esgrima,

Farejando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas,

Chocando-me às vezes com versos há muito tempo sonhados.

 

Esse pai benfeitor, inimigo da anemia,

Acorda nos campos os vermes como as rosas;

Faz evaporar-se o desassossego pelo céu,

E enche os cérebros e as colméias de mel.

É ele que rejuvenesce os aleijados

E os deixa alegres e doces como donzelas,

E ordena às colheitas crescerem e amadurecerem

No imortal coração que sempre deseja florescer!

 

Quando, como um poeta, ele desce às cidades,

Enobrece a categoria de coisas mais vis,

Introduz-se como um rei, sem alarde e sem criados,

Em todos os hospitais e em todos os palácios.

 

 

 O  anoitecer ao crepúsculo

 Eis a noite encantadora, amiga do criminoso;

Vem como um cúmplice, a passo de lobo; o céu

Se fecha lentamente como uma grande alcova,

E o homem impaciente se transforma em besta fera.

 

Ó noite, amável noite, desejada por aquele

Cujos braços, sem mentir, podem dizer: Hoje,

Nós trabalhamos! –É a noite que alivia

Os espíritos devorados por uma dor selvagem,

O sábio obstinado cuja testa entorpece,

E o operário curvado que retoma sua cama.

Entretanto demônios malsãos na atmosfera

Despertam pesadamente, como homens de negócios,

E arremessam qual petecas os postigos e os telheiros

Através dos clarões que açoitam o vento

O Meretrício se incendeia pelas ruas;

Como um formigueiro ele trama suas passagens;

Por toda parte ele estabelece um oculto caminho,

Assim como o inimigo que tenta um ataque surpresa;

Ele se desloca no seio da cidade de lama

Como um verme que rouba ao Homem o que ele come.

Escutamos aqui e ali as cozinhas a chiar,

Os teatros a ganir, as orquestras a roncar;

As mesas redondas, nas quais o jogo faz as delícias,

Se enchem de vadias e escroques, seus comparsas,

E os ladrões, que não têm trégua nem perdão,

Vão sem mais tardar começar seu ofício, eles também,

E forçar docemente as portas e os cofres

Para ter do que viver alguns dias e vestir suas senhoras.  

 

Recolhe-te, minha alma, nesse grave momento,

E tapa tua orelha a esse bramido.

É a hora na qual as dores dos doentes se agudizam!

A escura Noite os sufoca; vai findando

Seus Destinos e levando-os para o abismo comum;

O hospital se enche de seus suspiros. –Mais de um

Não virá mais atrás da sopa aromática,

No canto do fogo, ao entardecer, perto de uma alma irmã.

 Ademais a maior parte deles jamais conheceu

A doçura do lar e jamais tinha vivido!

 

 

 A uma passante

 A rua ensurdecedora em torno de mim ululava.       

Alta, delgada, enlutada, dor majestosa,

Uma mulher passa, com mão suntuosa,

Erguendo, ajeitando, a grinalda e a bainha;      

 

Ágil e nobre, com sua perna de estátua.

Eu, eu bebia,crispado como um perdulário,

No seu olhar, céu lívido onde aflora o furacão,

A doçura que fascina e o prazer que mata.

 

Um relâmpago… depois a noite! –Fugitiva beldade

Cuja mirada me fez subitamente renascer,

Não te verei mais senão na eternidade?

 

Alhures, bem longe daqui! Talvez nunca!

Pois eu ignoro onde tu foste, tu não sabes aonde vou,

Ó tu que eu teria amado, ó tu que o sabias!

 

 O cisne     A Victor Hugo

 Andrômaca, penso em ti! O pequeno rio,

Pobre e triste espelho onde outrora resplendeu

A imensa majestade de tuas dores de viúva,

Este enganador Simeonte que tuas lágrimas encheu

 

Fecundou de súbito minha memória fértil,

Quando eu atravessava o novo Carrossel.

A velha Paris não mais existe (a forma de uma cidade

Muda mais depressa, infelizmente!,  que o coração de um mortal);

 

Vejo apenas na mente todo esse campo de barracos,

Essa pilha de capitéis esboçados e de colunas,

A relva, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,

E, brilhando nos ladrilhos, o ferro velho misturado.               

 

Ali se expunha outrora uma feira de animais,

Ali eu vi, uma manhã, à hora na qual sob os céus

Frios e claros o Trabalho desperta, quando o lixo

Levanta um escuro furacão no ar silencioso,

 

Um cisne que havia fugido do seu gradil,                 

E, patas espalmadas arranhando a calçada seca,

No solo aplainado arrastava sua branca plumagem,

Perto de um regato ressecado o bicho abrindo seu bico,

 

Banhava nervosamente suas asas na poeira,

E dizia, o coração cheio de seu belo lago natal:

“Água, quando cairás? Quando soarás, trovão?”

Eu vejo este desafortunado, mito estranho e fatal,

 

Para o céu, às vezes, como o homem de Ovídio,

Para o céu irônico e cruelmente azul,

Sobre seu pescoço convulsivo erguida sua cabeça ávida,

Como se dirigisse censuras a Deus!

 

II

Paris muda! Mas nada na minha melancolia

Alterou-se! Novos edifícios, andaimes, blocos,

Velhos subúrbios, tudo para mim torna-se alegoria,

E minhas recordações são mais pesadas que rochas.

 

Também diante do Louvre uma imagem me oprime;

Penso em meu grande cisne, com seus gestos frenéticos,

Como os exilados, ridículo e sublime,

E roído de um desejo sem trégua! E em seguida em ti,

 

 Andrômaca, dos braços de um grande esposo tirada,

Vil gado, sob o jugo do soberbo Pirro.

À beira de um túmulo vazio em êxtase curvada;

Viúva de Heitor, que lástima!, e mulher de Heleno!

 

Penso na mulher negra, emagrecida e tísica,

Chapinhando na lama, e procurando, o olhar desvairado,

Os coqueiros ausentes da soberba África,

Por trás da muralha interminável da neblina.

 

Em qualquer um que perdeu e não recuperou

Nunca, nunca! Nesses que embebem de lágrimas

E mamam a Dor como uma boa loba!

Nos magros órfãos fenecendo como flores!

 

Assim na floresta onde meu espírito se exila,

Uma velha Reminiscência como um forte sopro do corne!

Penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,

Nos prisioneiros, nos derrotados!…e em outros mais ainda!

 

 

 Sonho parisiense 

I

Dessa terrível paisagem,

Tal que nenhum mortal jamais viu,

Esta manhã ainda a imagem,

Vaga e longínqua, me arrebata.

 

O sono é cheio de milagres!

Por um capricho singular,

Eu havia banido desses espetáculos

O vegetal irregular.

 

E, pintor orgulhoso do meu gênio

Eu saboreava na minha tela

A embriagante monotonia

Do metal, do mármore e da água.

 

Babel de escadas e arcadas,

Era um palácio infinito,

Cheio de tanques e cascatas

Precipitando-se sobre ouro baço ou brunido;

 

E cataratas lentas

Como cortinas de cristal

Suspendiam-se, resplandecentes,

Por muralhas de metal.

 

Não árvores, mas colunas

Os tanques imóveis circundavam,

Onde gigantescas naiâdes,

Iguais às mulheres, se miravam.

 

Lençóis de água abundando, azuis,

Entre cais rosas e verdes,

Seguindo milhões de léguas

Até os confins do universo.

 

Havia pedras inauditas

E ondas mágicas; havia

Imensos espelhos ofuscados

Por tudo que elas refletiam.

 

Negligentes e taciturnos

Ganges, no firmamento,

Vertiam o tesouro de suas urnas

Nos abismos de diamante.

 

 Arquiteto das minhas feéricas fantasias,

Eu fazia, a meu bel prazer,

Sob um túnel de pedrarias

Passar um oceano represado;

 

E tudo, mesmo a cor negra,

Parecia polido, claro, irisado;

O líquido engastava sua glória

No raio cristalizado.

 

Nem astro de alhures, nem vestígios

Do sol, mesmo no baixo céu,

Para iluminar esses prodígios

Que brilhavam com um fogo próprio!

 

E sobre essas movediças maravilhas

Pairava (terrível novidade!

Tudo para o olhar, nada para os ouvidos!)

Um silêncio de eternidade.

 

II

Reabrindo meus olhos em febre

Eu vi o horror do meu muquifo                

E senti, entrando em minha alma

A pontada de desassossegos malditos.

 

O pêndulo com acentos fúnebres

Anunciava brutalmente o meio-dia

E o céu vertia trevas

Sobre o triste mundo embotado.

 

 Uma carniça

 Lembra-te da coisa que nós vimos, minha amada

     Uma bela manhã de verão tão doce:

Na curva de uma vereda uma carniça infame

    Num leito semeado de seixos.

 

De pernas pro ar, como uma mulher safada,

    Destilando e suando miasmas,

Abria de maneira desleixada e cínica

    Seu ventre cheio de exalações.

 O sol brilhava sobre tal podridão,

    Como querendo cozê-la ao ponto

Para dar multiplicado à Grande Natureza

    Tudo o que num conjunto ela reunira.

 

E o céu olhava a carcaça soberba

    Como uma flor a desabrochar,

O fedor era tão forte que, sobre a relva,

    Tu crias desfalecer.

 

As moscas zumbiam sobre o ventre pútrido,

    De onde saíam negros batalhões

De larvas que corriam como um espesso líquido

    Ao longo desses vivos andrajos.

 

Tudo isso descia, subia, como uma onda,

    Que espumava cintilando,

Dir-se-ia que o corpo, inflado por um sopro vago,

    Vivia multiplicando-se.

 

E o mundo tocava uma estranha música

    Como água corrente e vento,

Ou o grão que o peneirador com movimentos ritmados

    Agita e repousa em sua peneira.

 

As formas se desfaziam e não eram mais que um sonho.

    Um esboço lento a se delinear,

Sobre a tela esquecida, e que o artista acaba

    Apenas de memória.

 

Atrás das rochas uma cadela inquieta

    Nos fixava um olho irado

Vigiando o momento de reaver no esqueleto

    O bocado que ela havia largado.

 

-E portanto tu serás semelhante a essa porcaria,

    A essa horrível infecção,

Estrela de meus olhos, sol da minha natureza,

    Tu, meu anjo e minha paixão!

 

Sim! Isso é o que serás, ó rainha das Graças,

    Após os últimos sacramentos,

Quanto tu irás, sob a relva e as florações espessas,

    Mofar em meio às ossadas.

 

Então, ó minha bela! Digas ao verme

    Que te devorará de beijos

Que eu guardei a forma e a essência divina

    De meus amores decompostos!

 

 

 A musa doente

Minha pobre musa, que lástima, que tens esta manhã?

Teus olhos ocos são povoados de visões noturnas,

E eu vejo alternadamente refletidos na tua tez

A loucura e o horror, frios e taciturnos.

 

O súcubo esverdeado e o rosado duende

Teriam vertido a medo e o amor de suas urnas?

O pesadelo, com um punho despótico e revoltoso,

Teria te afogado no fundo de um fabuloso Minturnas?

 

Queria eu que exalando o odor da saúde

Teu íntimo de pensamentos fortes fosse sempre freqüentado

E que o sangue cristão corresse em ondas rítmicas,

 

Com os sons numerosos das sílabas antigas,

Onde revivem alternadamente o pai das canções,

Febo, e o Grande Pan, o senhor das colheitas.

 

O albatroz

Freqüentemente, para se divertir, os homens da equipagem

Pegam albatrozes, vastos pássaros dos mares,

Que seguem, indolentes companheiros de viagem,

O navio que desliza por abismos amargos.

 

Tão logo eles o largam sobre o convés

Esse rei do azul, desengonçado e envergonhado,

Largando lastimosamente suas grandes asas brancas

Como remos arrastados pelos lados.

 

Esse viajante alado, como é desajeitado e molenga!

Ele, há pouco tão belo, agora cômico e disforme!

Um, açula seu bico com um cachimbo,

Outro, imita, coxeando, o enfermo que antes voava!

 

O poeta é semelhante ao príncipe das nuvens

Que persegue a tempestade e se ri do arqueiro,

Exilado no solo em meio à balbúrdia,

Suas asas de gigante o impedem de andar.

 

 

 

  O letes

 Vens direto em meu coração, amada cruel e indiferente,

Tigre adorado, monstro de ar indolente;

Quero por muito tempo mergulhar meus dedos trêmulos

Na espessura de sua juba pesada;

 

Nas tuas anáguas encharcadas de um perfume

Sepultar minha cabeça dolorida,

E respirar, como uma flor murcha,

O doce ranço do meu amor defunto.

 

Quero dormir! Dormir de preferência a viver!

Num sono tão doce como a morte,

Eu espalharei meus beijos sem remorso

Sobre teu belo corpo polido como o cobre.

 

Para engolir meus soluços apaziguados

Nada se compara ao abismo do teu leito;

O esquecimento potente habita teus lábios,

E o Letes corre nos teus beijos.

 

A meu destino, doravante minha delícia,

Obedecerei como um predestinado;

Mártir submisso, inocente condenado,

Cujo fervor provoca o suplício,

 

Sugarei, para afogar meu rancor,

O elixir contra a tristeza e a boa cicuta                        

Nas arestas encantadoras desse colo ferino

Que nunca abrigou um coração.

 

 A viagem          A Maxime du Camp

 I

Para a criança, apaixonada por mapas e estampas,

O universo é igual ao seu vasto apetite.

Ah! Que o mundo é grande à luz da lamparina!

Sob o olhar da memória o mundo é pequeno!

 

Uma manhã nós partimos, o cérebro cheio de ardor,

O coração repleto de rancor e desejos amargos,

E prosseguimos, seguindo o ritmo da lama

Embalando nosso infinito no finito dos mares:

 

Uns, jubilosos de fugir de uma pátria infame;

Outros, do horror de seus lares natais, e outros ainda,

Astrólogos afogados no olhar de uma mulher,

Circe tirânica com perigosos perfumes.

 

Para não serem transformados em bestas, embriagam-se

De espaço e de luz e de céu abrasados,

O gelo que os aguilhoa, o sol que os bronzeia,

Apagando lentamente a marca dos beijos.

 

Mas os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem

Por partir, corações ligeiros, semelhantes a balões,

De sua predestinação jamais se desviam.

E, sem saber por que, dizem sempre: Avante!                             !

 

Aqueles cujos desejos têm a forma de nuvens,

E que sonham, como um alistado, com o canhão,          

Vastas volúpias, cambiantes, desconhecidas,

E das quais o espírito humano não sabe jamais o nome!

 

II

Nós imitamos, que horror!, o pião e a bola

Na sua valsa e seus pulos; mesmo na inconsciência

A Curiosidade nos atormenta e nos faz revirar

Como um anjo cruel que vergasta sóis.

 

Singular destino cuja meta se desloca

Não estando em nenhuma parte, talvez nem importando onde esteja!

Na qual o Homem, que nunca perde a esperança,

Para encontrar o repouso corre como um louco!

 

Nossa alma é uma embarcação procurando sua Icária;        

Uma voz ecoa na ponte: “Abre os olhos”!

Uma voz na gávea, ardente, desvairada, grita:

“Amor…glória…felicidade!” que Inferno! É um escolho.    

 

 Cada ilhota avistada pelo vigia

É um Eldorado prometido pelo Destino;

A imaginação que enfeita sua orgia

Não encontra senão um recife na claridade da manhã.

 

Ó, o pobre desejoso por países quiméricos!

É necessário colocá-lo a ferros, jogá-lo ao mar,

Esse marinheiro ébrio, inventor de Américas,

Cuja miragem torna o abismo mais amargo!                

 

Tal qual o velho vagabundo, lastimosamente na lama,

Sonha, nariz pro alto, com brilhantes édens;

Seu olhar iludido descobre uma Cápua

Onde a vela ilumina apenas um antro.             

 

 III

Assombrosos viajantes! Que nobres histórias

Lemos em vossos olhos profundos como os mares!

Mostrai os escrínios de vossas ricas memórias,

Essas jóias maravilhosas, compostas de astros e éters.

 

Nós vamos viajar sem vapor e sem vela!

Fazei, para alegrar o tédio de nossas prisões,

Passar por nossos espíritos, pendurados como uma tela

Vossas Lembranças com suas molduras de horizontes.

 

Dizei, o que vistes?

 

IV

“Nós vimos astros

E ondas; nós vimos areais também;

E, apesar de choques e de imprevistos desastres

Nós nos sentimos freqüentemente entediados, tal como aqui.

 

A glória do sol sobre o mar violeta,

A glória das cidades ao pôr-do-sol,

Acenderam em nossos corações um ardor inquieto

De mergulhar num céu de reflexo sedutor.

 

As mais ricas cidades, as mais imensas paisagens,

Jamais continham o atrativo misterioso

Daquelas que o acaso compunha com nuvens

E sempre o desejo nos deixava em desassossego!

 

Gozar ao desejo acrescenta a força.

Desejo, velha árvore à qual o prazer serve de adubo,

Enquanto engrossa e endurece sua casca,

Teus ramos querem ver o sol mais de perto!

 

Crescerás sempre, grande árvore mais vistosa

Que o cipreste? –Porém nós temos, com desvelo,

Colhido alguns croquis para vosso ávido álbum,

Irmão que considerais belo o que vem de longe!

 

Nós temos saudado ídolos com trompa,

Tronos constelados de jóias luminosas;

Palácios lapidados cuja feérica pompa

Seria para vossos banqueiros um sonho de ruína.

 

Costumes que som para os olhos uma embriaguez;

Mulheres cujos dentes e unhas são tingidos,

E jograis sábios que a serpente acaricia.”

 

 V

E depois? E depois ainda?

 

VI                            “Ó cérebros pueris!

 

Para não esquecer a coisa essencial,

Vimos por toda parte, e sem haver buscado,

De alto a baixo da escada fatal,

O espetáculo tedioso do imortal pecado.

 

A mulher, escrava vil, orgulhosa e estúpida,

A sério adorando a si mesma e se amando sem desgosto,

O homem, tirano, glutão, libertino, rígido e ganancioso,

Escravo do escravo e valeta de esgoto.

 

O carrasco que desfruta, o mártir que lamenta,

A festa que condimenta e perfuma o sangue;

O veneno do poder obcecando o déspota,

E o povo enamorado pelo chicote embrutecedor.

 

Muitas religiões semelhantes à nossa,

Todas escalando o céu; a Santidade,

Tal qual num leito de plumas um delicado se chafurda,

Nos pregos e nas cerdas buscando a volúpia.

 

A Humanidade indiscreta, embriagada do seu gênio,

E, louca hoje como o foi outrora,

Clamando a Deus, na sua furibunda agonia:

“Ó meu semelhante, ó meu criador, eu te amaldiçôo”!

 

E os menos tolos, temerários amantes da Demência,

Fugindo ao grande rebanho encurralado pelo Destino,

E refugiando-se no vasto ópio!

–Tal é do Globo inteiro o eterno noticiário.”              

 

 VII

Amarga sabedoria, aquela que se extrai da viagem!

O mundo, monótono e pequeno, hoje,

Ontem, amanhã, sempre, nos faz ver nossa imagem:

Um oásis de horror num deserto de tédio!

 

É necessário partir? Ficar? Se tu podes ficar, fica;

Parte, se é necessário. Um corre, outro se esconde,

Para enganar o inimigo vigilante e funesto,

O Tempo! Há, infelizmente, que se correr sem repouso

 

 Como o Judeu Errante e como os Apóstolos

Aos quais nada foi suficiente, nem vagão nem naves,

Para fugir ao Gladiador infame; e há outros

Que sabem matá-lo sem deixar a terra natal.

 

Quando enfim ele finca o pé sobre nossa espinha

Nós podemos esperar e gritar: “Avante!”

Assim como de outra feita nós partíamos para a China,

Os olhos fixos na distância e os cabelos ao vento,

 

Nós navegávamos no mar das Trevas,

Com o coração entusiasmado de passageiro jovem,

Escutando essas vozes encantadoras e funestas,

Que cantavam: “Por aqui! Vós que quereis comer

 

O Lótus perfumado! É aqui a vindima                    

Dos frutos miraculosos de que vosso espírito tem fome;

Viestes embriagar-vos da doçura estrangeira

Dessa sesta que não tem fim?”

 

De um sotaque familiar se adivinha o espectro:

Nosso Pílades ali adiante tem os braços aberto para nós.

“Para refrescar teu coração nada até tua Electra!”

Diz ela da qual outrora beijávamos os joelhos.

 

VIII

Ó Morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!

Este país nos entedia, ó Morte! Equipemos!

Se o céu e o mar são negros como nanquim,

Nossos corações que tu conheces são inundados por lampejos!

 

Verte-nos teu veneno para que ele nos reconforte!

Queremos, tanto este fogo nos incendeia o cérebro,

Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa?

No final do Desconhecido para encontrar O NOVO.      

 

EPÍLOGO DE Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)

Coração contente, subi a montanha

De onde se pode contemplar a cidade em sua complexidade,

Hospital, lupanar, purgatório, inferno, prisão,

 

Onde toda enormidade floresce como flor.

Tu sabes bem, ó Satã, senhor do meu desespero,

Que por lá não ia espalhar um pranto vão;

 

Mas, como um velho lascivo de uma velha amante,

Queria me inebriar da enorme prostituta

Cujo encanto inffernal me rejuvenesce sem cessar.

 

Se tu dormes ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, sombria, resfriada, ou se tu te pavoneias

Nos véus da noite com a passamanaria em ouro fino,

 

Eu te amo, ó cúpida capital! Cortesãs,

E bandidos, como tais ofereceis prazeres

Que não compreendem os profanos vulgares.

 

rainermariarilke-1
RAINER MARIA RILKE
Fragmentos  das ELEGIAS DE DUÍNO
 
O sentir em nós, ai, é o dissipar-se.
Exalamos nosso ser; e de uma a outra ardência
Nos desvanecemos. Alguma vez nos dizem:
Circulas no meu sangue, este quarto, a primavera
Estão cheios de ti. Inutilmente procuram nos reter
Evolamos. E aqueles que são belos, oh, quem os
Deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto
E se dissipa. Tal o orvalho da manhã
E o calor do alimento, o que é nosso
Flutua e desaparece. Ó sorrisos, para onde?
E tu, olhar erguido, fugitiva onda ardente e nova
Do coração? Ai de nós, assim somos.
Estará o mundo impregnado de nós, pois que
Nele nos perdemos? E os Anjos
Retomarão apenas o que deles emanou?
Talvez um pouco de humano se encontre às vezes
Em seus traços, como o vago no rosto das mulheres
grávidas? Eles porém nada percebem
No turbilhão da volta a si mesmos.” 
 
 
“E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos nem homens.
E o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face—a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apena ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos –talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.”

 

borges
O outro tigre
 
(Jorge Luis Borges, El Hacedor)
 
Penso num tigre. A penumbra exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar suas estantes;
Forte, inocente, ensangüentado e novo,
Ele irá por sua selva e sua manhã
E deixará seu rastro na lodosa
Margem de um rio cujo nome ignora
(Não há em seu mundo nomes nem passado,
E nem porvir, só um instante determinado)
E vencerá as bárbaras distâncias,
Farejará no enleado labirinto
De todos os odores o da aurora
E o olor deleitável do cervo;
Em meio às riscas do bambu decifro
Suas riscas e pressinto a ossatura
Sob a pele esplêndida que vibra.
Debalde interpõem-se os convexos
Mares e desertos do planeta;
E desta morada de um remoto porto
Da América do Sul, te sigo e sonho,
Ó tigre das beiras do Ganges.
Corre a  tarde em minha alma e conjecturo
Que o tigre vocativo do meu verso
É um tigre de símbolos e sombras,
Uma série de tropos literários                   tropos- lugares comuns
E de reminiscências da enciclopédia,
Não o tigre fata, a aziaga jóia
Que sob o sol ou a cambiante lua,
Vai cumprindo em Sumatra ou em Bengala
Sua rotina de ócio, amor e morte.
A esse tigre dos símbolos opus
O verdadeiro, o de sangue quente,
O que dizima a manada de búfalos
E a três de agosto de 59 (Hoje),
Estende sobre o prado uma pausada
Sombra, mas só o fato de nomeá-lo
E de conjecturar-lhe a circunstância
Da arte o faz ficção e não a criatura
Vivente, dessas que andam pela Terra.
 
Procuraremos um terceiro tigre.
Este, como os demais, será uma forma
De meu sonho, um sistema de palavras
Humanas, não o tigre vertebrado
Que, para além dessas mitologias,
Percorre a Terra. Bem o sei, mas algo
Me impõe esta aventura indefinida,
Insensata e antiga, e persevero
Pelo tempo da tarde na procura
Do outro tigre, o que não está no verso.
 
NOITE DE SÃO JOÃO
(de Fervor de Buenos Aires)
 
O poente implacável em esplendores
quebrou a fio de espada as distâncias.
Suave como um salgueiral está a noite.
Vermelhos faíscam
os redemoinhos das grandes fogueiras;
lenha sacrificada
que se dessangra em altas labaredas,
bandeira viva e cega travessura.
A sombra é aprazível como uma lonjura;
hoje as ruas lembram
que foram campo um dia.
Toda a santa noite a solidão rezando
seu rosário de estrelas esparramadas.
(trad. Glauco Mattoso)
  
180px-Vicente_Carvalho
UMA IMPRESSÃO DE DON JUAN
(Vicente de Carvalho)
 
Gastei no amor vinte anos –os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, nem galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.
  
Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os…
Li, folha a folha, o livro dos amores.
  
Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!
  
E nada sei do amor… Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
OlavoBilac
A VIA LÁCTEA (sétimo soneto)
 
Olavo Bilac
 
Não têm faltado bocas de serpentes
(Dessas que amam falar de todo o mundo
E a todo o mundo ferem, maldizentes)
Que digam: Mata o teu amor profundo!
  
Abafa-o, que teus passos imprudentes
Te vão levando a um pélago sem fundo…
Vais te perder! -E arreganhando os dentes
Movem para o teu lado o olhar imundo:
  
-Se ela é tão pobre, se não tem beleza
Irás deixar a glória desprezada
E os prazeres perdidos por tão pouco?
  
Pensa mais no futuro e na riqueza!
-E eu penso que afinal… Não penso nada:
Penso apenas que te amo como um louco!
 
ANTÍGONA
A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.
Chega Édipo a Colono, em andrajos, imundo,
Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo,
Ruína humana a cair de miséria e cansaço.
  
Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,
Antígona lhe estende o coração e o braço,
E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço
O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.
  
É o ninho (a terra treme…) amparando o carvalho,
A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha…)
Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.
  
É o fim (rola o trovão…) da miseranda sorte:
O cego vê, fitando o céu do olhar da filha,
Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.
  
SEFERIS
 
Uma palavra sobre o verão
 
(Giorgios Seferis,  poeta grego, Nobel 1963)
 
Eis que voltou o outono. O verão
Como um caderno em que cansamos de escrever, lá fica
Cheio de riscos e garatujas,
De pontos de interrogação nas margens. Eis que voltou
A estação dos olhos que miram
Nos espelhos, sob as lâmpadas,
Lábios cerrados, homens estrangeiros
Nos quartos, nas ruas, sob as pimenteiras,
Enquanto os faróis dos carros matam
Milhares de máscaras macilentas.
Eis-nos de volta. Partimos para cada vez voltar
Na solidão, um punhado de terra em nossas mãos vazias.
  
E não obstante, amei outrora o bulevar Syngros,
A dupla curvatura da grande avenida
Que milagrosamente nos leva para o mar
Eterno a fim de que nos lavemos dos pecados.
Amei homens desconhecidos
Encontrados bruscamente ao cair do dia
Que falavam consigo mesmos como capitães de uma frota afundada,
Sinais de que o mundo é vasto.
E não obstante, amei as ruas daqui e estas colunas
Ainda que nascido na outra margem, junto
Das canas e dos juncos, das ilhas
Cuja areia guarda água para a sede
Do remador: ainda que nascido
Junto do mar que desenrolo e enrolo entre meus dedos,
Quando estou fatigado– não sei mais onde nasci.
  
Resta ainda a essência amarela, o verão
E tuas mãos roçando medusas na água,
Teus olhos abertos de repente, os primeiros
Olhos do mundo, e as grutas marinhas,
Pés desnudos no solo vermelho.
Resta ainda o efebo louro de pedra,o verão,
Um pouco de sal seco no oco de um rochedo,
Algumas agulhas de pinheiro após a chuva
Ruivas e dispersas como um filete em fiapos.
  
Não compreendo esses rostos, não os compreendo;
Imitam às vezes a morte e depois iluminam-se de novo
Com uma vida rasteira de vermes luzentes,
Com um esforço repuxado, sem esperança,
Como apertado entre duas rugas
Entre duas mesas de café gordurosas…
  
(…) Resta ainda o deserto amarelo, o verão,
Vagas de areia em fuga até o último círculo
Um ritmo de tambor lancinante, interminável
Olhos inflamados afundando no sol,
Mãos com ímpetos de pássaros riscando o céu
Saudando filas de mortos em duelos,
Perdidas num ponto que me ultrapassa e me governa,
Tuas mãos que tocam a onda livre.
           (trad. Darcy Damasceno)
 
caricatura de jorge de lima
Anunciação & Encontro de Mira-Celi (quadragésimo poema)
(Jorge de Lima)
Quando sentires tua carne incendiar-se
e a labareda divina altear-se no ar,
desfralda tua bandeira neste tope*,        
que logo virão dos quatro pontos cardeais
os conspiradores que precisas;
pois tua língua não pode continuar a que herdaste
nem os teus homens são os que hoje te cercam.
Antes que os tambores ensurdeçam teus ouvidos
e teu passo se cadencie num galope constante,
vê que a dor do mundo deseja redimir-se em teu canto.
É certo que te esmagarão como se esmaga uma asa.
Mas as penas que espalhares no chão
podem voar ao vento
e baixar com sua sombra mínima
sobre qualquer ovo perdido dentro dos ninhos abandonados.
Entre a noite e o mar visitarás de novo
os litorais desertos, e semearás teu pólen.
Hão de cair sobre ele as chuvas que lavam as tempestades,
e se os homens não quiserem ouvir-te,
ressurgirás para as abelhas ou para as solidões
em que Deus ouvirá as palavras do Início.
drummondclaro enigma
 
Relógio do Rosário (de Claro Enigma)
(Carlos Drummond de Andrade)
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
  
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
  
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
  
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
  
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
  
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
  
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
  
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
  
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
  
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
  
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
  
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
  
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
  
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
  
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
  
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala  impura.
  
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
  
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
  
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
  
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
  
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
  
já cinza se concentra, pós de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
 
carlosnejaro chapeu das estações
 
“o barulho de existir:
um cão dentro
de mim
A CHUVA DO VELHO TESTAMENTO (trechos)
        (Carlos Nejar, O chapéu das estações)
 
“Quis possuir a alma,
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.
 
Quis possuir a alma,
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.
 
Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.
 
Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.
 
Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento”
 
 
“Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?
 
Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?
 
Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.
 
Se o corpo não é seu,
a alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.
 
Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
 
Fui elevado ao corpo”
********************
Trecho de A árvore do mundo  (do mesmo autor)
“O humano é custo,
empresa que se apresta
no deter
e detendo, cobra,.
E sobrando,
se gasta.
 
Mais preciso:
a parede do tempo
de estar vivo.
A parede sem nível
do possível.
 
Salvar? Mas estou salvo,
sou matéria.
 
Nenhum impedimento de subir,
exceto a condição de ser humano.
Mas esta é de romper.
 
Um osso, um plasma, uma epiderme,
o susto.
 
Quanto nos apanha, nos encerra
a popa de uma nau
que é apenas alma.”
 
 
hilda furacão hilst
HILDA HILST: Cantares de perda e predileção 
“Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças
 
Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.
 
Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijos
Pás, a areia dos dias
 
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.”
Hilda_Hilst_01
HILDA HILST: ODES MÍNIMAS
“Perderás de mim
Todas as horas
 
Porque só me tomarás
A uma determinada hora
 
E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos
 
Atravessei o sol
Toquei o muro de dentro
Dos amigos
 
A boca nos sentimentos
 
E fui tomada, ferisa
De malassombros, de gozo
 
Morte, imagina-te.”
EmilyDickinson
POEMAS DE  EMILY DICKINSON
 
Acordei Cedo – Apanhei meu Cão-
E visitamos o Mar -
As Sereias no Porão
Vieram todas olhar paa mim -
 
As Fragatas – no Piso Superior-
Estenderam Mãos de Corda -
Presumindo-me um Camundongo -
Encalhado – ali nas Areias-
 
Mas  Homem algum aproximou-se  - até que o Mar
Alcançou meu sapato-
E alcançou meu  Avental – e meu Cinto -
E alcançou meu Corpete – também-
 
E fez como se fosse me engolfar -
Como gota de rocio
Sobre um Dente-de-leão -
Então - Recuei – também-
 
E Ele – Ele seguia – apertando o cerco -
Calcanhar  Prateado contra
Meu Tornozelo -  E então meus Sapatos
Já transbordavam de Pérolas -
 
Então alcançamos Terra Firme -
Onde amigo conhecido não era visto -
E com cortesia – com um Poderoso Olhar -
Para mim – O Mar recuou      
 
 
****
“Satisfação – é o Agente
Da Saciedade -
Falta- um tranqüilo Comissário
Da Infinitude.
  
Possuir já é após o instante
Da fruição da Alegria -
Imortalidade contente
Que Anomalia!
****
 
Porque não pude parar p´ra Morte -
Ela parou p´ra mim, bondosamente–
No coche só cabíamos as duas-
E a Imortalidade.
 
Viagem lenta- Ela não tinha pressa-
E eu já pusera de lado
Meu trabalho e meu lazer,
\P´ra seu exclusivo agrado-
 
Passamos a escol, na qual Crianças-
Brincavam de luta- no Ringue -
Passamos os Campos do Grão Pasmado-
Passamos pelo Sol Poente-
 
Ou melhor – ele passou por  Nós-
O Sereno baixou gélido -
Era de Gaze fina minha´Túnica -
Minha Capa- apenas Tule -
 
Paramos numa Casa que se assemelhava
A um intumescido Torrão -
O Telhado mal se via -
A Cornija – rente ao Chão -
 
Desde então – faz Séculos- mas em verdade
Parece menos que o Dia
Em que, pelas Frontes dos Cavalos,
Que rumavam para a Eternidade -
****
“Vou contar a você como é que o Sol nasceu -
De repente uma fita apareceu -
Campanários nadaram em Ametista -
Notícias correram como Esquilos -
Colinas desataram seus Toucados -
Os Passarinhos -romperam em trinados-
Então disse baixinho pra mim mesma -
“Deve ter sido o Sol”!
Como ele se pôs – não sei dizer-
No céu um torniquete avermelhado
Meninas e Meninos de amarelo
Pulavam por ali em atropelo -
Na pressa de alcançar o outro lado -
Quando um clérigo de hábito cinzento -
Fez o gradil da noite subir manso -
E dispersou o bando - 
****
Senti na mente esta rasgadura -
> Como se o cérebro se cindisse -
> Tento acertar costura com costura -
> Mas nada há que as fixe.
>   
> O pensamento atrás com o adiante
> Em ajuntá-los me desvelo -
> Mas a seqüência se esfia sem que a alcance -
> tal qual novelos- sobre o Chão.
*****

 

 

atravesso
como a um pátio:
o barulho de existir”

 

Onde toda enormidade floresce como uma flor:

Tu sabes bem, ó Satã, dono da minha aflição,

Que lá eu não ia para espalhar vãs lágrimas;

 

Mas, como um velho libertino com uma velha amante,

Eu queria inebriar-me com a imensa vadia

Cujo charme infernal me rejuvenesce incessantemente.

 

Que tu durmas ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, obscura, catarrenta, ou que tu te pavoneies

Nos véus da noite com passamanaria de ouro fino,

 

Eu te amo, ó capital infame! Cortesãs,

E bandidos, freqüentemente ofereceis prazeres tais

Que não compreendem os vulgares profanos.

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