ALTAS FICÇÕES:

A NECESSIDADE DO BODE EXPIATÓRIO
Em O morto certo (ver abaixo), Jorge Semprún evocava mais uma vez um acontecimento crucial da sua biografia, como prisioneiro, aos 20 anos, no campo de concentração de Buchenwald.
Outra experiência paradigmática a que ele sempre volta, memorialística ou ficcionalmente, é a sua década como militante clandestino do Partido Comunista, nos anos 50, durante o regime franquista, com vários pseudônimos, o mais ilustre deles Federico Sánchez. Ele a contou em Autobiografia de Federico Sánchez (prolongado em Saudações de Federico Sánchez) e deixou que esse alter ego fosse envolvido pela ficção, não bastasse a própria realidade parecer ficção, em romances como A algaravia.
E Federico Sánchez retorna em Vinte anos e um dia, também traduzido recentemente no Brasil, primeiro romance de Semprún em muitos anos (e o primeiro em espanhol, já que os outros, incluindo suas obras-primas, A grande viagem e A segunda morte de Ramón Mercader, foram escritos em francês).

No ano da publicação original, 2003, ele completou 80 anos. Podemos ler, ao longo do livro, sobre a “dura alegria” de escrever. E, sem entrar no mérito do adjetivo que acompanha a palavra alegria, é isso que sentimos na leitura,no autor e em nós mesmos, e vemos que Semprún veio fazer companhia a esses octogenários admiráveis, os quais depuraram sua arte em fluência, flexibilidade e limpidez, para nos fazer sentir a cada momento o que é o prazer de narrar, caso de uma Doris Lessing (O sonho mais doce) e de um José Saramago (veja-se a delícia que é As intermitências da morte).
Nem por isso Vinte anos e um dia é menos complexo, com o jeito peculiar de relatar do seu autor (“em desordem, por associações de idéias, imagens ou momentos, para trás, para a frente”). Há 3 datas-chaves: 1936 (o ano do assassinato, durante a Guerra Civil, pelos camponeses, de um dos membros da família de proprietários); 1956 (o último ano em que será encenada ritualmente essa morte, como lembrete aos camponeses de sua culpa, e o ano em que um delegado procura meios de chegar ao subversivo Federico Sánchez); 1985 (o ano em que o Narrador tem a idéia do romance).
Um quadro italiano em que a bíblica Judite e uma criada fiel manietam e degolam o tirano Holefernes cataliza todos os eventos tanto quanto o assassianto de José María Avendaño. Há uma mulher na história, Mercedes, há uma criada fiel, Raquel, há um tirano (o irmão do marido assassinado pelos camponeses, que se considera no direito de usufruir sexualmente da cunhada viúva): há, enfim, todo um clima de opressão e violência, simbolizado pelo ato ritualístico e hierático da degola, e também há a ambigüidade do erotismo demonstrado no ato pelas executoras (pois Mercedes é conivente, mais do que mera vítima, dos atos do cunhado). E esse é apenas o núcleo de uma história que se desdobra numa fábula sobre o destino da Espanha no século XX, sobre o destino do sangue familiar (algo tão espanhol), sobre o atavismo da perda da virgindade da mulher numa socidade patriarcal e os vários meios de transgredi-lo e ao mesmo tempo perpetuá-lo, sobre o incesto (o casal de gêmeos, filhos de Mercedes e do marido assassinado), sobre os prazeres de contar uma história, sem determinar onde ela começa ou acaba, ou o que é verdade e o que é mentira.
E sobretudo Vinte anos e um dia, como também o resto da obra de Semprún, nos leva para um mundo em que os acontecimentos, mesmo adulterados e deturpados, repercutem por muito tempo até o ponto de fazer outra geração, vinte anos depois, carregar o fardo ou ter de se rebelar. Como nós estamos vivendo o oposto (os acontecimentos rapidamente se esvaziando, sendo superados, virando abstração), isso acaba acrescentando um perigoso e escorregadio charme ao mundo descrito nesse grande romance.
serviço: Vinte anos e um dia(Veinte años y un día, Espanha-2003), de Jorge Semprún. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. Companhia das Letras. 266 págs. R$ 44,50.

Ter 20 anos em Buchenwald
Quando Jorge Semprun estreou como escritor, e ele tornou-se um dos maiores, esse espanhol cuja obra foi realizada, na sua maior parte, em francês, com A grande viagem, mesmo saltando aos olhos, sob a complexidade narrativa, a experiência autobiográfica (ter sido prisioneiro, aos 20 anos, no campo de concentração de Buchenwald durante a 2a. Guerra) estava-se, ainda que em limites imprecisos, no terreno da ficção. Talvez melhor dizendo: da reelaboração ficcional.
Nas outras vezes em que retomou o assunto, ele o fez de uma forma mais assumidamente memorialística, só que tão labiríntica e enviesada que nos devolvia, em pleno exercício de reconstrução da sua história pessoal, os prazeres de uma narrativa scherazadiana. Foi assim com Um belo domingo e A escrita ou a vida, livros barrocos, não-lineares, caleidoscópicos.
Isso não se repete em Le mort qu’il faut- O morto certo, no qual mais uma vez o vemos com 20 anos em Buchenwald. Bem mais modesto em número de páginas, é um relato brilhante e linear mobilizado pela situação que justifica o título: Semprun, ligado aos líderes comunistas que mantêm um poder clandestino no campo, fica sabendo por eles que está sendo investigado pela administração nazista; a solução seria escolher um prisioneiro moribundo com quem pudesse trocar de identidade: “Viverei com seu nome, ele morrerá com o meu. Ele me dará sua morte, em suma, para que eu possa continuar vivendo. Trocaremos nossos nomes, não é pouco. É com meu nome que ele partirá em fumaça; é com seu nome que sobreviverei, se der.”
Isso já justificaria a leitura, ainda mais levando-se em conta uma biografia como a de Semprun, em que a adoção de codinomes e disfarces foi essencial, como bem sabe quem leu o clássico Autobiografia de Federico Sánchez, outro livro tortuoso. Todavia, o aspecto mais revelador de O morto certo é a demonstração cabal da mesma mentalidade que preside as atuais denúncias contra o PT, de negociatas escusas e atos de corrupção destinados a garantir um projeto de poder, no qual os fins justificariam os meios. O partido comunista em Buchenwald arrebanhou poder e privilégios para os seus membros e prisioneiros úteis, deixando à margem e à míngua toda uma população de “muçulmanos”. Esse morto de quem se precisa, que é necessário, é descoberto entre eles, assim apelidados como a escória do campo, como aqueles que não fazem diferença, em termos do projeto comunista.
Esse morto do qual se necessita é, além de representante dos “dispensáveis” num modo de pensar em que só os fins contam, também representante dos “desamparados”, daqueles que desistem de viver na situação-limite, aqueles cujo olhar já abandonou o corpo e que não conseguem sustentar uma atitude positiva similar à do narrador: “Assim, mesmo sentado sobre a viga das latrinas do Pequeno Campo; ou acordado no tumulto dos gemidos do dormitório; ou alinhado na fileira de detentos diante de um soboficial da SS fazendo a chamada; ou esperando que o serviço de alojamento cortasse com o fio de aço o derrisório pedaço de margarina cotidiana; em qualquer circunstância era possível se abstrair do imediatismo hostil do mundo para se isolar na música de um poema.”
Esse morto tão útil, pelo menos enquanto morto, perece por não suportar o dilema retratado por Rosálio, protagonista de O vôo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende, quando fica numa situação-limite bem atual, e que não tem guerra nem nazismo para justificá-la, o trabalho rural escravo: “Um corpo de homem agüenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outras coisa, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança”.
E a sufocante, “invivível” (para utilizar um termo caro a Semprun) promiscuidade de corpos em Buchenwald, simbolizada pelas alucinantes latrinas coletivas em que tudo é feito em exposição também encontra eco na experiência e nas palavras de Rosálio, representante daqueles que “dançam” enquanto os partidos que supostamente tem nas metas sociais sua prioridade organizam seus projetos de poder: “lhe digo que não conheço de uma humilhação maior que um homem ter de cagar debaixo da mirada arma de outro homem ameaçando”.
serviço: O morto certo (Le mort qu’il faut, França-2001),de Jorge Semprun. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. Editora ARX. 176 págs.



O OUTRO MAIOR ROMANCE DA NOSSA FICÇÃO
Maio de 1956 é o mês desconcertante e mágico da nossa literatura: nele, foi lançado Grande Sertão: Veredas e Clarice Lispector, aos 35 anos, terminou A Maçã no Escuro (que só conseguiu edição em 1961), os dois romances mais fascinantes e extraordinários do século XX. Aliás, se naquele ano Guimarães Rosa realizou a façanha de publicar duas obras-primas (Corpo de Baile é a outra), Clarice não faria por menos: em 64 vieram a público duas das suas maiores obras, os contos de A Legião Estrangeira e A Paixão Segundo G.H.
“Bem, e agora então seria lembrar-se do que um homem quer. Esse era o verdadeiro julgamento…” Martim, o herói (palavra crucial no simbolismo de A Maçã no Escuro), aparentemente cometeu um assassinato e fugiu para o “coração do Brasil”, primeiro refugiando-se num hotel decadente, depois empreendendo nova fuga e perdendo-se numa “noite escura da alma”, longa travessia por uma região inóspita, na qual constata ter perdido a “linguagem dos outros”: seu ato criminoso fez com que o ser abstrato e irreal que se tornara se estilhaçasse, restando uma “potente estupidez”, a não-inteligência, capaz de revivificá-lo enquanto ser. Mas ele terá de descer ao nível das pedras, das plantas, dos bichos elementares, para se despojar e fazer tabula rasa da vida falseada.
Em meio a essa decisão de se fazer uma espécie de “primeiro homem”, ele tem de lidar com a esfera humana: sua peregrinação o levou a uma fazenda perdida no nada e à vida e aos desejos de duas mulheres: Vitória, a dona do lugar, áspera e desiludida; a prima desta, Ermelinda, insidiosa e vaga. Ao envolver-se com as duas, Martim sela seu destino: será entregue à polícia, retornando à Cidade, ao mundo abstrato (e sequer consumou o crime, pois sua mulher não morreu), a uma falsa e irônica redenção.
Enfatizei, nas últimas semanas, que Grande Sertão: Veredas potencializava ao máximo a capacidade que a literatura tem de ordenar a experiência da vida. O monólogo-querendo-ser-diálogo de Riobaldo, tendo em vista um interlocutor urbano, seria o exercício de uma “dialética do esclarecimento”, de vencer o não-ser (embora reconhecendo seu peso neste mundo misturado) e afirmar o ser através do sopro do verbo se fazendo carne.
A Maçã no Escuro transmite uma sensação contrária. Para começar, Clarice Lispector deixa de lado os expedientes da intriga (com os quais brinca, ao criar o clima de suspense, que depois saberemos ser falso, no belíssimo primeiro capítulo, o qual já se inicia num tom raramente encontrado em nossa ficção: “Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme”). Ademais, experiência e linguagem são desqualificadas como mercadorias danificadas pelo uso mentiroso, abstrato e ideológico, e acabam sendo mais estorvo que ajuda. Ao tentarmos organizar a alma em linguagem, caímos na falsificação e no logro. O mundo de Clarice Lispector é muito mais desesperado do que o de Guimarães Rosa.
Titubeando pela vida, ao fazer o pacto com o diabo Riobaldo reafirma seu “eu”: “… o que era que eu queria ? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era—ficar sendo!” Em contrapartida, Martim em seus “exercícios de viver”: “…se ele queria reconstruir o mundo, ele próprio não servia…É verdade que faltava pouco para destruir, pois com o crime, ele já destruíra muito. Mas não de todo… Havia ainda… havia ainda ele próprio, que era uma tentação constante.” Querendo não-compreeender, apenas olhar e ver, no “vertiginoso relance” da objetividade, do ser fundido ao mundo: “Ele compreendeu como se compreende um número: é impossível pensar num número em termos de palavras, é apenas possível pensar num número com este próprio número. E foi desse modo inescapável que ele compreendeu e se tentasse saber mais, então—então a verdade se tornaria impossível.”
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serviço: A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector (1920-1977). Editora Rocco. 334 págs. 41 reais.
(resenha escrita em maio de 2006)

Comentários sobre Guimarães Rosa

MANUELZÃO E MIGUILIM
Guimarães Rosa publicou suas duas principais obras, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas em 1956. A primeira delas apareceu em janeiro e mesmo quem já apreciara Sagarana (1946) ficou impactado. Até há pouco tempo, os sete textos que a compõem encontravam-se divididos em 3 volumes (uma edição especial da Nova Fronteira restaurou a ordem original). Neste artigo, falaremos de um deles, Manuelzão e Miguilim.
Miguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão e de “A Terceira Margem do Rio”. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância (a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, A Harpa de Ervas, de Truman Capote, por exemplo), é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hiper-sensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmãozinho Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Miguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.
A beleza emocionante de Campo Geral sempre eclipsou injustamente o outro texto desse volume de Corpo de Baile, Uma Estória de Amor (Festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão (o pessoal da região, entretanto, vê em Manuelzão a encarnação da autoridade) e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo do povo, o dia inteiro. Dião de dia!”
Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele morre de medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, uma atração inequívoca pela nora (“Leonísia era linda sempre, era a bondade formosa”). Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente a solidão de quem tem de estar em atividade constante para não cair na angústia: “Ao que veio o desânimo. A gente afrouxa… A ser, o que se dava. A gente afrouxa: Ao desalentos, o amontôo. Acizilino –amigo, de sua mesma idade, velho companheiro. Assim mesmo, esse tinha se casado, ainda na mocidade legal, agora estava no meio de sua família acostumada, somente que no peso da vida.”
Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o gosto pelo mundo, dificultosamente, através da festa, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.
E, entremeando tudo, a festa da linguagem única de Guimarães Rosa: “Assim aquela procissão, ela marcava o princípio da festa ? Mas Manuelzão, que tudo definira e determinara, não a tinha mandado ser, nem previra aquilo. Quem então imaginava o verdadeiro recheio das coisas, que impunham ara se executar, no sobre o desenho da ordem?”
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serviço: Corpo de Baile: Manuelzão e Miguilim, de João Guimarães Rosa. Nova Fronteira. 265 págs. 32 reais.
NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM
“faça pirâmides, não biscoitos”(G.Rosa)
O 2o. volume de Corpo de Baile reúne três dos seus sete textos e tem o extravagante título de No Urubuquaquá, no Pinhém. No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não-traduzidas em alemão e italiano.
Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já fora companheiro de infância de Miguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiafa a ele? Talvez trazer notícias da vida que Cara-de-Bronze perdeu no processo de se fazer latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher.” A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra com Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado e perrengo Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé, Sejisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim, Zijisbéu Saturnim, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério, Segisberto Saturnino).
No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Não, leitor, não espere –felizmente—nada do tipo Ensina-me a Viver. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da Velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver.” Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing.
O texto mais famoso de No Urubuquaquá, No Pinhém não se passa nem no Urubuquaquá nem no Pinhém, e sim em trânsito. Trata-se da obra-prima O Recado do Morro, no qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo, como mostra em Cara-de-Bronze), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de figurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos, é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.
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serviço: Corpo de Baile: No Urubuquaquá, No Pinhém, de João Guimarães Rosa (1908-1967). Nova Fronteira. 313 págs. 36 reais.
MIL E UMA NOITES DO SERTÃO
O menos conhecido dos três volumes de Corpo de Baile é Noites do Sertão, uma das mais requintadas representações literárias das relações erótico-amorosas que o responsável por esta coluna conhece. O autor se dá ao luxo, inclusive, de recriar a linguagem dos Cânticos de Salomão num dos momentos mais belos de Lão-Dalalão (ou Dão-Lalalão ou ainda O Devente), uma das duas “estórias” do livro, as quais são a coisa mais próxima de narrativas tradicionais que Rosa chegou a escrever pós-Sagarana.
O protagonista de Lão-Dalalão é Soropita e ele está voltando para casa, “em meio-sonhada ruminação”. Ex-matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda, e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável.” Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até matá-lo. Por quê ? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de D. Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive o bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.
Aliás, o que faz com que Lão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.
Também complicada, contudo não tão perfeita como realização artística, é a ciranda amorosa de Buriti, a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro, patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi buscá-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado dr. Miguel.
Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alternando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1a. e a 3a. pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a impressão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências.
(RESENHAS ESCRITAS EM JANEIRO DE 2006)
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serviço: Corpo de Baile: Noites do Sertão, de João Guimarães Rosa (1908-1967). Nova Fronteira. 317 págs. R$ 35

PELAS VEREDAS: COLOCANDO A ALMA EM LINGUAGEM
I
“Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa –a inteira— cujo significado vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem— mas a gente mesmo, no comum não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer, fica sendo o falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada como o que se põe, em teatro, ara cada representador –sua parte, que antes já foi inventada, num papel…”
Eis que em maio de 1956, do pântano do regionalismo brasileiro, com seus jagunços, coronéis, quengas, lutas armadas, tudo num sururu pitoresco e raso que continua a fazer sucesso (na televisão, por exemplo) ainda hoje, mantendo-se um bom artigo de exportação da nossa “identidade nacional”, surgiu um romance único, o maior da nossa literatura: Grande Sertão:Veredas. Os mesmos elementos (jagunços, etc), mas que diferença! A travessia de Riobaldo, o narrador, pelo sertão brasileiro parecia uma jornada pelo cosmo; a aventura nos devolvia o sentido da jornada espiritual (ou existencial, como se queira) e na nossa dessacralizada época o livro de Guimarães Rosa nos proporcionava o que o crítico canadense Northrop Frye colocaria como um dos pontos essenciais da grande ficção do último século (Joyce, Kafka, Mann): o retorno ao mito.
Infelizmente, Grande Sertão:Veredas passou a ser visto sobretudo como um artefato lingüístico estúrdio, quando não estapafúrdio, tal a rejeição por parte de tantos leitores, que não suportam a linguagem adotada por Riobaldo e as dificuldades das primeiras páginas, e acabam por abandonar o livro (foi o caso de colegas de ofício como Érico Veríssimo, o qual escreveu para Clarice Lispector: “não consegui ir além da pág.20”; mesmo um entusiasta já de primeira hora como Fernando Sabino escreveu o seguinte disparate: “no princípio, as 10 primeiras páginas, é meio assim-assim, custa um pouco a engrenar”).
A verdade é que em boa parte do texto há um processo de embaralhamento da seqüência do enredo (basicamente, o relato das guerras internas de um grupo de jagunços) que colabora na decisão de desistir da leitura. Por isso, depois de tantas interpretações críticas, uma grande contribuição foi dada em 1972 por José Carlos Garbuglio e seu O mundo movente de Guimarães Rosa, que atacou pela raiz a questão da dificuldade da leitura e justificou a estrutura narrativa adotada por Rosa: segundo ele, a 2a. parte do livro é o momento em que se revela o derradeiro chefe do bando de jagunços que faltava conhecer na embaralhada primeira parte: o próprio Riobaldo. É quando ele assume o seu destino, fazendo o pacto com o diabo que permite que ele resolva os assuntos pendentes do bando e comece as tremendas dúvidas existenciais que alimentarão e justificarão sua narrativa, que é toda feita para um interlocutor urbano que chegou à sua fazenda.
Graças ao processo empregado na 1a. parte, que está longe de ser confusa, quando começa o julgamento, por parte dos líderes jagunços, de Zé Bebelo (cena que está na metade do romance), já conhecemos por antecipação cada personagem importante e suas características essenciais. Todos os chefes já foram apresentados e apareceram em ação (menos Riobaldo, que parecia ser levado passivamente pelos acontecimentos e pelo amor a Diadorim). Por sua atuação no julgamento (salva a vida de Zé Bebelo), Riobaldo se torna o chefe virtual do bando. Sua chefia já está inscrita no futuro. E justamente a sua atuação e o resultado é que causam as conseqüências (traição, nova guerra, pacto com o diabo, morte de Diadorim) que fazem a narrativa durar ainda centenas de páginas apaixonantes, que nos fazem adentrar nesse sertão que está em toda a parte e principalmente dentro da gente.
II
“Recorro a apenas três critérios em relação ao que leio e ensino: esplendor estético, força intelectual e sapiência… A mente sempre volta às suas necessidades de beleza, verdade, discernimento. A mortalidade flutua no ar e todos aprendemos que o tempo triunfa. Vivemos num intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece (…) os maiores escritores, antigos e modernos produzem equilíbrios (ainda que precários) que permitem a coexistência da sabedoria prudencial e de certas insinuações de esperança. A verdade, segundo William Blake, não pode ser conhecida, mas pode ser encarnada. Quanto à sabedoria, eu afirmo o contrário: não podemos encarná-la, mas podemos aprender a conhecê-la, a despeito de ser ou não identificável com a Verdade que talvez nos liberte.”
As palavras acima, de Onde encontrar a Sabedoria?(ed. Objetiva), de Harold Bloom, nos ajudam a prosseguir o comentário sobre o grande livro da nossa literatura, Grande Sertão: Veredas.
Quem já leu o leu sempre se lembra de uma citação que ilumina um problema, uma situação, um dilema, a condição humana, tal como foi sendo construída ao longo dos milênios. Há pessoas que o citam constantemente. Há até os que, sem nunca o terem lido, conhecem (e citam) trechos. Um exemplo famoso: “… o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas—mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro –dá gosto! A força dele, quando quer –moço!—me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho—assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”
Onde encontrar a Sabedoria ? Em Grande Sertão: Veredas. Nesse monumental livro de auto-ajuda, que pulveriza as dicas-miojo presentes no mercado editorial de como encarar a vida e o quotidiano, esplendor estético, força intelectual e sapiência (no sentido existencial e místico) se entrelaçam de uma forma tão perfeita que mesmo recentes interpretações cujo objetivo é desmistificar a figura de Riobaldo (por conta do seu Pacto, o qual seria não com o Demo, mas com o poder instituído–como depreendemos de leituras críticas menos metafísicas e mais historicizantes) não conseguem tirar o seu charme e carisma de Hamlet/Fausto sertanejo.
O mais importante e bonito da obra-prima de Guimarães Rosa é que essa Sabedoria que se tira da leitura, contínua ou renovada algumas vezes, do romance está mergulhada no fluxo da narrativa, não dá para separar da “matéria vertente” que é o existir, o ser-tão em meio a veredas que podem ser acaso ou destino. Como nunca permanecemos iguais (e mocidade não é “tarefa para mais tarde se desmentir” ?) cada leitura é uma nova experiência e aferição de achados neste nosso misturado mundo. Pois a sabedoria que possamos conseguir jamais se desvincula do tipo específico de vivência que temos. Nem a religião (e Riobaldo prova de todos) é garantia suficiente: “Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório”.
Como bem notou Kathrin Rosenfeld (em Os Descaminhos do Demo, ed. Imago), o paradoxo da sabedoria a ser encontrada num mundo de veredas faz com que a narrativa de Riobaldo seja não a revelação e o desvendamento de um Sentido, “mas o desdobramento de uma densa trama de imagens nas quais a verdade –a essência, o Nome—se oculta(…) no desdobramento das imagens do sertão confuso e misturado, que impede a visão imediata da verdade, obrigando-nos a seguir laboriosamente os rastros sinuosos das veredas labirintícas.” Nesse ponto, porém, temos sorte: podemos seguir laboriosa e precariamente as veredas labirínticas (todavia tão prosaicas) desse viver que é tão perigoso (até na sua banalidade essencial), contudo as da travessia de Riobaldo são sempre um chamado ao máximo prazer da leitura.

III
“Quer percebamos claramente ou não o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos e em conseqüência mais capazes de organizar a visão que temos do mundo… A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado… toda obra literária pressupõe esta superação do caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido.” (Antonio Candido, O direito à literatura)
Na seção anterior afirmei que Grande Sertão: Veredas era um dos Livros de Sabedoria à nossa disposição, tanto no sentido básico das palavras acima de Antonio Candido, da literatura como organizadora da experiência (ou como diz Clarice Lispector tão belamente em A maçã no escuro: “organizar a alma em linguagem”), quanto no sentido de uma função—ou missão—pedagógica. É o traço que une livros tão díspares como os de Hermann Hesse (O jogo das contas de vidro), Thomas Mann (A montanha mágica), Doris Lessing (Shikasta), Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano) ou José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), para citar alguns romances que nos ensinam um pouco a viver. O fato de serem extraordinárias obras literárias também não é fortuito: para continuar citando o mestre da crítica brasileira, “quando recebemos o impacto de uma produção literária, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com sua organização… o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere” (como se vê, não é à toa que Candido escreveu o pioneiro ensaio esclarecedor sobre o significado da obra-prima de Guimarães Rosa, hoje chamado O homem dos avessos).
Esse é o lado iluminado, radioso, do livro. Todavia, há um lado sombrio, terrivelmente desolador, e é a sua revelação de que não basta organizar a alma em linguagem, como faz Riobaldo, seria preciso modificar o mundo em que se vende essa mesma alma ao diabo. Os recentes episódios do crime organizado impondo sua vontade à nossa desorganizada sociedade civil deram mais atualidade ao sertão simbólico de Guimarães Rosa onde o banditismo é um poder paralelo. Sertão simbólico que porém se enraíza em dados históricos bem reais (sua ação transcorre no início da República).
Um dos episódios mais impressionantes de Grande Sertão: Veredas é o encontro do bando de jagunços liderados por Zé Bebelo (do qual fazem parte Riobaldo e Diadorim) com os “catrumanos”, o povo mais miserável do sertão. Encontrá-los é como entrar numa máquina do tempo que remetesse ao remoto, ao arcaico, ao mais atrasado, ao verdadeiramente vergonhoso em nossa nação: falam outra linguagem, estão devorados pela doença, pelo abandono, pela desesperança. É aí que Riobaldo percebe o vazio dos discursos progressistas de Zé Bebelo, o qual apregoa querer “civilizar” o sertão, como hoje políticos falam em políticas sociais compensatórias como se fossem milagres mandados por Deus.
Mais ainda: na região dos catrumanos, Riobaldo conhece um fazendeiro, seô Habão, e percebe como é derrisória (e tão perto da condição pária do sertanejo, ou melhor, do povo brasileiro em geral) a vida de jagunço, que ele acreditava a princípio ter uma aura de glória: “—aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Não sei se ele sabia que queria… Mas a natureza dele queria, precisava de todos como escravos”.
Logo depois, nosso amigo Riobaldo faz seu famoso pacto com o Diabo. Não seria lícito ver na junção desses episódios algo de extremamente revelador sobre a natureza da sociedade brasileira ? Jagunço levado pelo destino, Riobaldo se entende com o demo e se habilita a se tornar líder do bando; mais ainda, se habilita a transformar-se num rico proprietário como seô Habão, livre, leve e solto para transformar sua vendida alma em portentosa linguagem.
(escrito em maio de 2006)
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serviço: Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. Editora Nova Fronteira. 624 págs: 59 reais.
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AMÓS OZ
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“Quando tinha dezesseis, dezessete anos, o escritor costumava se sentar sozinho numa despensa abandonada e despejar no papel confusos trechos de histórias. Ele os escrevia mais ou menos da mesma maneira que sonhava e da mesma maneira que se masturbava: num torvelinho de coerção e de entusiasmo, e desespero e náusea e infelicidade. E também uma infatigável curiosidade de tentar entender por que as pessoas o tempo todo infligem umas às outras, e a si mesmas, coisas que nunca tiveram intenção de infligir.
Ele agora também gostaria de entender, mas com os anos nele se acumulara uma espécie de pavor corporal de contato físico com estranhos… E no entanto ele continua a olhar para eles e a escrever sobre eles para assim tocar neles sem tocá-los, e para que eles toquem nele sem tocar de verdade.
Talvez seja assim: você escreve sobre eles como um fotógrafo dos tempos das fotografias sépia, um fotógrafo de reuniões familiares. Anda de um lado para outro entre os figurantes, bate um papo com todos, faz amizades, graceja, pede que finalmente se arrumem em seus lugares, vai e planta seus personagens em semicírculo, como um anfiteatro… passa duas-três vezes entre as fileiras e com um leve toque endireita aqui e ali um colarinho, a fralda de uma camisa, dobras de mangas, fitas de tranças, e volta para trás de sua câmera apoiada num tripé, enfia sua cabeça embaixo do pano preto, fecha um olho, conta em voz alta até três, finalmente aperta o disparador e com isso faz todos virarem assombrações…
Mas por que escrever sobre o que existe também sem você? Para quê descrever com palavras o que não são palavras?… Ele se enche de vergonha e de constrangimento por olhar para todos de longe, de lado, como se todos só existissem para que deles fizesse uso em suas histórias. E com essa vergonha vem também uma angustiante aflição por sua estranheza constante, por sua incapacidade de tocar e ser tocado, por estar sua cabeça, durante todos os dias de sua vida, enfiada no pano preto da velha máquina fotográfica. Como a mulher de Lot: para escrever você tem de olhar para trás. E com isso o seu olhar transforma você e eles em blocos de sal.”
Tenho tanta antipatia pelo estado de Israel (não compensada por nenhuma preferência pelo lado palestino) que demorei a dar atenção a Amós Oz. Estupidamente, só fui conhecer a obra-prima A Caixa Preta (que coloco sem hesitar entre os dez maiores romances dos últimos 25 anos) porque fazia parte de uma série de banca que eu colecionava. Aproveitando a forma epistolar, a partir do pedido de uma mais-que-dúbia mãe ao pai biológico de um adolescente para que se interessasse pelo futuro do filho problemático, Oz nos envolvia numa teia de manipulações, mentiras, dogmatismos e insanidades, que faria qualquer pessoa ter mais cuidado com seus auto-enganos, dogmatismos e insanidades. Porém, nem um livro desse porte me tirou a cisma com Israel (e a ladainha conveniente do Holocausto, que fez com que se considerasse “grande” até o medíocre A Lista de Schindler, filme aliás tão mediano quanto o próprio livro que o originou e que me parece uma visão Frank Capra do evento) e, por isso, ao contrário da minha inclinação natural nesses casos, após descobrir um belo texto de um autor, fiquei anos sem adquirir ou me interessar em ler outro título do israelense. Não fui seduzido nem por sua autobiografia ficcional, De Amor e Trevas.
Pois a leitura de Rimas da Vida e da Morte me livrou dessa burrice persistente. É impossível não ler Amós Oz. Ele é um fabulista consumado, um narrador admirável e tem o toque de Midas que nos faz fruir na ficção a suprema bênção da leitura: mais vida em um tempo ilimitado.
Nesse pequeno texto, cujo título nos remete à obra de um escritor popular, naif, Tsefania Beit-Halachmi, que trabalha basicamente o proverbial (portanto, o fatalístico), ele nos apresenta um escritor que participará de um evento num obscuro centro cultural, no qual será discutida uma de suas obras, da qual farão, inclusive, algumas leituras (o organizador é que dá o mote para o título, citando um provérbio de Beit-Halachmi). Já no café onde faz um lanche antes do evento, esse escritor permite ao moinho de sua imaginação funcionar incessantemente, apropriando-se da figura da garçonete e de dois frequentadores, dando-lhes nomes e moldando-lhes trajetórias biográficas a seu bel prazer (e para o nosso deleite).
Essa gatunagem da vida alheia continua em pleno evento e depois, proporcionando-nos páginas deliciosas, sobretudo na vinheta mais desenvolvida, em torno da figura que ele cria a partir da leitora dos textos, Ruchale Reznik. Pois o que se passa entre ela e o escritor poderia ter acontecido na realidade (mas como, se estamos lendo uma narrativa?), pode ser um prolongamento da fantasia do escritor, e ainda comporta variantes.
Parece já a desgastada metalinguagem? Experimente ler Rimas da Vida e da Morte, leitor, para ver que até as variantes transmitem um imponderável elemento vital, como se reproduzissem as hesitações das ações na vida real. O livro é um triunfo da ficção, da verdade das mentiras. E se torna mais importante ainda quando acabou recentemente, após meses, outro exemplar de um dos maiores representantes do apocalipse da imaginação da nossa era atual, o Big Brother Brasil (BBB). Tem gente que não gosta pela apelação, pela baixaria, pelo nível dos participantes; tem gente que não gosta por achar tudo armado e arranjado. Minha bronca é mais primitiva e primária (e é similar a que tenho contra filmes e livros “baseados em fatos reais”, como se isso os legitimasse): é contra a idéia de que a “vida real” é interessante. Ora, meus amigos (e não estou afirmando nada de novo), é tudo que ela não é, por um simples motivo: a vida não tem forma, não tem como agarrá-la com qualificativos e predicados, e mesmo que a coloquemos num certo ritmo (horário de trabalho, etc), apenas lhe impomos rotinas, e por mais entusiasmo que tenhamos e momentos bons, é aí nessas pseudo-formas que vemos o que ela tem de empatação e lastro de tédio. A vida só é interessante sob a forma de narrativa, e aí ela já não é mais vida, é relato, é o terreno de Amós Oz, apropriação indébita por um lado, ganho para nós por outro. Questionado sobre a “identidade real” de Emma Bovary, Flaubert colocou as cartas na mesa, mas até agora parece que poucos se aperceberam: Madame Bovary sou eu.
Em tempo: o narrador afirma na citação que abre este artigo que o escritor, emulando o fotógrafo de reuniões familiares, faz todos virarem assombrações. Pura modéstia. Não há ninguém mais vivo do que as “assombrações” de Rimas da Vida e da Morte.
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Serviço: Rimas da Vida e da Morte (Israel, 2007), de Amós Oz. Tradução de Paulo Geiger. Companhia das Letras. 118 páginas. 31 reais
TOLKIEN

Cultuado há quase meio-século, O Senhor dos Anéis não depende de nenhum modismo e nem dos Oscars ganhos por Peter Jackson, embora sua trilogia cinematográfica seja uma empolgante síntese da literária, evitando tanto o ritmo frenético de videoclipe que governa produções como Armagedon quanto as lutas coreográficas com piruetas voadoras (a coqueluche do momento, uma espécie de redução da ação cinematográfica ao Cirque du Soleil), do tipo O tigre e o dragão, e dando surpreendente espaço aos intérpretes: quem poderá dissociar agora Gandalf de Ian McKellen, Bilbo de Ian Holm, Galadriel de Cate Blanchett ou Sam do estupendo Sean Astin, só para citar os mais admiráveis?
Ainda assim, o grande público, que se contentar com o filme, não terá a chance de se deliciar com as idiossincrasias de cada região do Condado (onde vivem os Hobbits), de forma que cada um acha o vizinho esquisito e suspeito (e isso é tão inglês!). Os fãs do livro lamentam também a ausência das intrigas e fofocas que envolvem a herança de Bilbo, os Sacola-Bolseiros e sua matriarca, Lobélia, que ficam muito felizes quando Frodo (o herdeiro oficial) tem de “cair no mundo” alguns anos após tornar-se o “portador do anel”, procurado por Sauron, o Senhor do Escuro.
O anel contém o Mal e é preciso destruí-lo. Frodo tem de atravessar a Terra Média, na qual convivem (conflituosamente) elfos, anões, magos, homens (e também criaturas malévolas como os orcs, os espectros do anel, os trolls, os balrogs), formando com um representante de cada “raça” a Comitiva do Anel (ou fraternidade, ou Confraria, mas nunca o chocho “Sociedade” do título nacional), fadada a se desfazer pelo que vem do exterior (há vários ataques inimigos, num dos quais, nas minas de Moria, sucumbe – aparentemente—o mago Gandalf, aquele que alertou Frodo do perigo do anel e era o líder espiritual do grupo) e pelo que vem do interior (a forma maléfica como o anel age sobre Boromir, por exemplo).
No final, apenas Frodo e seu inseparável Sancho Pança, o maravilhoso Sam (na verdade, evocativos também da dupla clássica de Charles Dickens, o sr. Pickwick e seu criado “cockney” Sam Weller), prosseguem a jornada para a destruição do símbolo do poder de Sauron. Diga-se de passagem, o filme não aclarou muito bem a relação senhor-serviçal, a diferença social (e de idade) que existe entre os dois, e como ela é eliminada pela dedicação e companheirismo de Sam.
O Senhor dos Anéis é uma aventura geográfica: saindo do seu mundo tranqüilo, os hobbits (além de Frodo e Sam, os arrumadores-de-confusão Merry e Pippin, que parecem ter fugido do mundo das comédias de Shakespeare, e que terão suas próprias aventuras no resto da trilogia) conhecem novas terras, povos das quais tinham uma noção errada ou imprecisa, costumes e valores diferentes. Tolkien não nos poupa de abundantes descrições. Felizmente. Elas são essenciais para penetrar no espírito de alteridade, de estar em outro lugar e penetrar em outra forma de vida e de ver a vida (uma concepção que será utilizada em larga escala por Star Trek e todos os seus “filhotes”).
Também é uma aventura lingüística: a salvação da Terra Média depende da memória (ou da união de vários fragmentos de memórias), dos conhecimentos acumulados por gerações e transmitidos por canções (a sobrevivência de povos inteiros muitas vezes acontece através delas). Gandalf consegue abrir o portal de Moria por lembrar-se de uma palavra antiga e informações preciosas acham seu lugar no momento presente através das canções e lendas comentadas pelos personagens.
Nos dois planos (o geográfico e o lingüístico), assim como a Rainha Galadriel com a Comitiva do Anel, Tolkien nos prende numa teia de encanto e inquietação, colocando-nos num ritmo diferente do quotidiano. Ele deve ter escrito O Senhor dos Anéis seguindo a filosofia dos elfos: “colocamos o pensamento de tudo que amamos nas coisas que fazemos”.
II

As Duas Torres, segundo volume de O Senhor dos Anéis, consegue ser mais fascinante ainda que o primeiro, chegando a um ponto de tensão, nos seus últimos capítulos, que não permite mais ao leitor parar a leitura, sem contar que o final nos arremessa para a leitura do terceiro, sem fôlego.
Como os outros, é dividido em duas partes. Na primeira, Gandalf reaparece e se reúne a Legolas, Gimli e Aragorn (sobre o qual insinuações sutis vão delineando uma posição-chave na resolução da trama), três membros que sobraram da dissolução da Comitiva do Anel, envolvendo-se na guerra dos Cavaleiros de Rohan contra Saruman; por outro lado, os hobbits Merry e Pippin, que haviam sido capturados pelos orcs, escapam e conhecem o singularíssimo povo dos ents, seres meio-árvores (alguns dos momentos mais inesquecíveis do romance de Tolkien pertencem a eles), também engajados contra o mago traidor, e que o deixam aprisionado na torre de Orthanc. Como esquecer a batalha do Abismo de Helm?
Na segunda, reaparecem Frodo e Sam Gamgi, que conseguem penetrar em Mordor (a terra do Mal), tendo como guia o antigo possuidor do anel (perdeu-o para Bilbo), o patético e repulsivo Gollum. Este os atrai para uma armadilha (pois é obcecado em tomar de volta o anel, que o consumiu e colocou-o na condição miserável na qual se encontra, mas que o mantém sob uma espécie de “quebranto” esquizofrênico) e os deixa à mercê de Laracna, a senhora de um túnel que seria a única passagem viável dentro de Mordor para que se efetivasse a missão de destruir o malfadado anel.
Só para o leitor ter uma idéia da enrascada: Sam Gamgi torna-se o portador do anel! Mais ainda: torna-se um personagem cada vez mais maravilhoso (e isso é um feito num romance onde não faltam personagens fortes), que por si só mereceria uma resenha.
As imagens do livro também vão ficando mais demoníacas (no sentido de Northrop Frye, em que a realidade contraria os desejos humanos e a paisagem se torna ameaçadora) e inquietantes, com seres primordiais emergindo das sombras, como os ents e Laracna (que são simétricos, assim como vários outros elementos de O Senhor dos Anéis. Aliás, o estilo vai ficando mais e mais sombrio e é inimaginável que alguém possa confundi-lo, como tantos fazem, com uma história juvenil. Veja-se a caracterização de Laracna: “só desejava a morte para todos os outros, mentes e corpos, e para si uma fartação de vida, solitária, inchada até que as montanhas não mais conseguissem abrigá-la, até que a escuridão não a pudesse conter”.
Como resgate majestoso das “estórias romanescas” (o equivalente profano—por exemplo, o ciclo dos cavaleiros da távola redonda—do mito, o qual é basicamente religioso, como nos ensinou Frye, que curiosamente não era muito apreciador da obra de Tolkien), O Senhor dos Anéis utiliza uma de suas táticas básicas: os heróis vão descendo a um “inframundo”, ao lado negro da realidade, a única forma de realcançar a unidade perdida, a estabilidade cíclica do mundo (regida pela mudança das estações), quebrada pela intervenção do Mal, que também condena os seres à extinção (é o que sentem os elfos e os ents) ou à diminuição de estatura (como sente Faramir, representante do legendário povo de Gondor: “Nós nos tornamos homens médios, do crepúsculo, mas com a memória de outra realidade”, parece que estamos escutando o discurso de um Riobaldo). Os burgueses e até então acomodados hobbits surgem como a grande novidade (tanto que na lista de povo dos ents eles nem aparecem) e por isso sua intervenção é decisiva.
O próprio corpo do herói deve sofrer nessa travessia. Já vimos o ferimento que o rei dos Nâzgul infligiu a Frodo em A Sociedade do Anel. Agora ele é envenenado por Laracna de uma forma que se assemelha à morte. O herói, neste momento, é como o mundo: está envenenado, conspurcado, e precisa restaurar-se. Mas ainda temos um volume inteiro pela frente.
III

Terceiro e último volume de O Senhor dos Anéis, com quase oitocentas páginas atrás de si, O Retorno do Rei corria o risco do anticlímax, após o fôlego épico inaugurado pelo primeiro (A Sociedade do Anel) e a intensidade alcançada pelo segundo (As Duas Torres), principalmente porque os dois fatos centrais do enredo, a destruição do anel por Frodo e o reconhecimento de Aragorn como legítimo rei da Terra Média, acontecem bem antes do verdadeiro final.
Mas é aí que J.R.R. Tolkien se mostra O Senhor da Ficção, demonstrando controle total sobre o universo que criou e centralizando a narrativa em duas situações desesperadoras:
1) As forças que se opõem a Sauron, o Senhor de Mordor, acabam sitiadas em Gondor. Nesse sítio, perecem Théoden, rei de Rohan (um personagem portentosamente shakesperiano), e ficam gravemente feridos Faramir (irmão de Boromir), Éowyn, a sobrinha de Théoden, que é apaixonada por Aragorn e que se disfarçou de homem para lutar (um recurso bastante comum no gênero épico, a figura da “donzela guerreira”, resgatada também por Guimarães Rosa em Grande Sertão : Veredas, aliás contemporâneo de O Senhor dos Anéis ), alem de Merry, um dos quatro hobbits que se “lançaram no mundo”.
Confirmando a impressionante unidade do enredo (que em nenhum momento se dispersa no episódico), a espada que o hobbit trouxe da sua experiência de ser enterrado vivo na Colina dos Túmulos (um capítulo de O Senhor dos Anéis que não aparece na versão de Peter Jackson) é justamente aquela que tem o poder de ferir o líder dos Espectros do Anel, o mais ameaçador dos subordinados de Sauron;
2) Frodo e Sam juntam-se novamente e tentam alcançar a Montanha da Perdição, apesar do desgaste físico, mental e espiritual de Frodo, causado pelo anel. Não somos poupados de nenhum quilômetro, quase que do mínimo passo nessa árdua jornada, para a dupla e para os leitores, e seria difícil imaginar que fosse reproduzida pelo filme (mas é; é bom que se diga que no cinema atual só uma obra-prima como o primeiro Matrix pode se comparar ao empreendimento de materializar em imagens o mundo de Tolkien).
E, de repente, o desenlace dos acontecimentos parece levar o livro a um tom triunfalista, no mesmo estilo que estragou as últimas cenas da bela fantasia O feitiço de Áquila, onde a vitória dos “bons” é tão apoteótica e ruidosa que acaba irritando. Só que isso é só um alívio passageiro. E precário. As últimas páginas de O Senhor dos Anéis (após a deliciosa mistura de aventura e comédia, bem cervantina, que marca a volta dos quatro hobbits à sua terra natal, o Condado, atando as pontas da narrativa) são a culminação de um tom que já se pressentia nos outros volumes e que já rendera um dos casais românticos mais melancólicos da literatura (Faramir e Éowyn): o de profunda tristeza.
Uma nova era começou no mundo, algo acabou, a aventura foi apenas o lado colorido da grande melancolia que envolve quem sobreviveu ou ficou (como a rainha Arwen, amada de Aragorn) e os que partem desse admirável mundo novo, como os elfos, Gandalf, e até a dupla dos portadores do anel, Bilbo e Frodo, que, num momento pungente de despedida, explica a necessidade de partir da seguinte forma para o seu fiel (e inesquecível) Sam Gamgi: “Muitas vezes precisa ser assim, Sam, quando as coisas correm perigo: alguém tem de desistir delas, perdê-las, para que outros possam tê-las”. Felizmente, há o seu fiel Sancho Pança (não é à toa que ele é chamado de “hobbit gorducho”), Samwise Gamgi, aquele que no final da saga será o sal da terra e herdará como presente o futuro.
Entretanto, ao cabo de mil e tantas páginas, mesmo com toda a tristeza (“que apesar disso era abençoada e sem amargura”), cumpriu-se à risca o que é prometido pelo título completo do livro: “Aqui está contada a história da guerra do anel e do retorno do rei, conforme visto pelos hobbits”. A sorte é que após diversas edições anódinas, quando não decepcionantes, em brochura, a Martins Fontes lançou uma incrivelmente bonita edição dos três tomos (mais O Hobbit) em capa flexível, na qual todo o projeto gráfico faz enfim justiça à criatividade do grande autor inglês. Pode parecer frivolidade, mas também em livro a parte visual de O Senhor dos Anéis é muito importante.
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